Transdisciplinaridade

Não tenho bem uma definição de transdisciplinaridade. Tenho, isto sim, uma tentativa de demarcação do conceito.

Procuro comparar disciplinaridade com multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Não é fácil, porque o sentido dos três últimos termos se sobrepõe.

Disciplinaridade, naturalmente, é se ater, no tratamento de uma questão ou de um problema, dentro dos limites de uma disciplina (digamos, a física).

Multidisciplinaridade, no meu entender, é recorrer a mais de uma disciplinar para abordar uma questão ou um problema. Embora a questão ou o problema seja encarado do ponto de vista de mais de uma disciplina, os diferentes pontos de vista ficam, por assim dizer, justapostos, não são integrados.

Interdisciplinaridade, na minha maneira de ver, é tentar integrar, em uma abordagem mais complexa, os pontos de vista de múltiplas disciplinas em relação a uma questão ou a um problema. A interdisciplinaridade, portanto, é um passo além da multidisciplinaridade.

Transdisciplinaridade, por sua vez, é a tentativa de lidar com questões de um ponto de vista que totalmente transcende matizes disciplinares. Em vez de lidar com, digamos, a sexualidade a partir do ponto de vista da biologia, da psicologia, da literatura, da ética, etc., tentar lidar com a questão de uma forma que deliberadamente desconhece limites ou demarcações disciplinares.

Campinas, em 25 de outubro de 2005

A "relativização" dos direitos individuais

Transcrevo aqui minha discussão com Kennedy Alencar

Kennedy Alencar defende, no artigo transcrito abaixo, a tese de que "numa sociedade civilizada, não deve existir um direito absoluto". O corolário dessa tese é de que a defesa de direitos absolutos caracterizaria a barbárie.

Alencar tenta provar a sua tese dando um exemplo de livro texto: "O direito à liberdade de ir e vir é relativizado quando um cidadão acusado de um crime é julgado e condenado à prisão num devido processo legal".

No exemplo dado, porém, não se trata de "relativização" dos direitos individuais (os chamados "direitos sociais" e de outras gerações, além da primeira, nem considero direitos).

A legislação de diversos povos, mesmo os mais antigos, foi construída em cima do "jus talionis": o direito de retaliação, o "olho por olho, dente por dente" mencionado na Bíblia. Assim sendo, o criminoso, condenado por transgredir o direito alheio, perdia os seus próprios direitos. Tradicionalmente, se alguém matava, era punido com a morte; se mutilava, era punido com mutilação equivalente. Hoje, aqui no Brasil, a punição é mais branda: prevê, mesmo para os crimes mais graves, como o assassinato, apenas a perda de liberdade de ir e vir (embora essa pena não se aplique a todos os crimes, como parece imaginar o Alencar).

Não se trata, portanto, de "relativização" de direito individual. Trata-se, isto sim, do princípio, perfeitamente defensável, de que a pessoa que comprovadamente viola direitos individuais de outrem perde o direito de invocar esses mesmos direitos.

Alencar poderia ter achado exemplos melhores.

Eu poderia imaginar que, no exercício de meu direito de liberdade de expressão (expressão entendida no sentido lato e envolvendo mais do que a liberdade de expressão do pensamento) eu deveria poder tocar trombone sem surdina em meu apartamento às 2 horas da madrugada. A legislação (ou ar normas reguladoras da legislação) da maior parte dos povos proíbe isso — porque nesse horário as pessoas em geral desejam exercer o seu direito de descansar sem perturbação. Seria este um melhor exemplo do que Alencar pretende seja a "relativização" dos direitos individuais?

Também não é. A tese da naturalidade dos direitos individuais parte do princípio de que eles são inerentes ao fato de ser humano. Isso significa que todos os seres humanos os possuem, em iguais condições, simplesmente pelo fato de serem humanos. Na prática, isso significa que o meu direito termina onde começa o do outro. Não sou só eu que tenho direitos: o o outro também tem. Logo, na prática, há que se harmonizar o exercício do meu direito com o exercício do direito do outro. Isso se faz mediante algum tipo de negociação ou acomodação tácita. Durante o dia, até digamos às 22 horas, eu posso exercer o meu direito de tocar trombone. Das 22 às 8 horas da manhã, você pode exercer o seu direito de descansar sem ser perturbado pelo meu trombone (ou pelas festas barulhentas do pessoal do andar de cima).

Em outras palavras: não se trata de "relativização": trata-se de uma tentativa de compatibilizar conflitos no exercício de direitos, ambos perfeitamente justificáveis.

Acho que foi um dos Marx (não o de O Capital, mas um daqueles outros, mais divertidos e menos perigosos) que disse que toda vez que alguém falava em cultura ele tinha a tendência a proteger o bolso em que estava a carteira. Eu, toda vez que alguém fala em relativizar direitos individuais tenho a tendência a sair e comprar uma arma.

Acho que foi isso que a população brasileira sentiu ontem ao sufragar de forma esmagadoramente majoritária o NÃO.

Em Campinas, 24 de outubro de 2005

[Abaixo, a transcrição do artigo de Kennedy Alencar]

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21/10/2005

"Sim" é melhor opção no referendo

Acontece no domingo (23/10) o referendo que pergunta se "o comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido" no Brasil. A resposta mais sensata é "sim". Assinalar "não" significa manter a atual legislação sobre o tema, que autoriza esse tipo de comércio.

Os que defendem "não" têm dois argumentos principais:

1) Não querem abrir mão de um direito individual. Alegam que o cidadão deve poder comprar um arma para se defender se julgar isso a melhor opção.

2) A incapacidade provada e inconteste do Estado brasileiro de dar uma segurança pública de boa qualidade à população não recomenda que ela se desarme enquanto os bandidos continuam armados até os dentes.

Numa sociedade civilizada (custamos muito a chegar até aqui e ainda temos bastante a caminhar), não deve existir um direito absoluto. O direito à liberdade de ir e vir é relativizado quando um cidadão acusado de um crime é julgado e condenado à prisão num devido processo legal, por exemplo.

Restrição a direitos é uma convenção da sociedade que, se democraticamente decidida, é legal e legítima. O referendo de domingo, portanto, está aí para conferir legalidade e legitimidade à restrição de um direito se a maioria julgar pertinente.

Um Estado sem restrição a direitos é um Estado do vale tudo. E ninguém tem o direito de fazer o que lhe dá na veneta em qualquer assunto de sua vida.

Quanto à falta de segurança pública, não será a manutenção do comércio de armas e munição que irá melhorá-la. Estatísticas mostraram redução de mortes por conta da campanha do desarmamento voluntário. Votar "não" é deixar tudo como está. E não está nada bom.

Bandidos continuarão armados vença o "sim", ganhe o "não". Mas, certamente, terão mais dificuldade para formar seus arsenais se houver uma proibição seguida de uma rigorosa fiscalização –esta uma cobrança imediata que deve ser feita às autoridades.

Votar "sim" é dar uma chance a um novo tipo de política pública. No desesperador quadro de violência do Brasil, é uma tentativa que merece uma chance.

Kennedy Alencar, 37, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

A tentativa de “desconstruir” a Vitoria do NÃO já Começou

O que salva a Folha é ter o Demétrio Magnoli como colunista… Vide, abaixo, o texto completo de seu artigo na edição de hoje. Mas transcrevo o início aqui:

“Agora, os santarrões têm de substituir a festa por uma narrativa política e já começam a manufaturar uma nova mentira: inspirados num Pelé de 30 anos atrás, dizem que o povo não sabe votar. Que o povo é ‘conservador’ e vota contra seus próprios interesses. E que eles, os ‘esclarecidos’ e ‘progressistas’ isto é, Lula, Márcio Thomaz Bastos, Chico Alencar, Sarney, ACM Neto, Raul Jungmann, Marco Maciel e Renan Calheiros continuarão a lutar ‘pela paz’, explicando ao povinho burro que a culpa pela criminalidade não é do Estado mas dos cidadãos ávidos por armas e sempre prontos a atirar uns nos outros. Eles destilaram uma santimônia pegajosa, abraçaram lagoas e cristos, mas não conseguiram falar em nome do povo. Agora, precisam seqüestrar a mensagem do povo e torcer seu significado.”

O mais importante da coluna do Magnoli é isto: a denúncia de que está em curso a elaboração de uma “narrativa política”, mentirosa, que “seqüestra a mensagem do povo e torce seu significado”.

Ontem à noite ouvi no Canal 40 da Net (Canal de Notícias da Globo) um cara de São Paulo (esqueço seu nome), que mal disfarçava a sua irritação com o resultado do referendo, dizer que, na verdade, o voto havia sido a favor do Estatuto do Desarmamento, e contra apenas um de seus artigos, e que a “voz do povo” era no sentido de que o governo, agora, deveria aplicar com toda a seriedade os demais 34 artigos do citado Estatuto… Bela reconstrução do resultado, não?

Hoje a própria Folha diz, no seu Editorial, continuando a mentiragem: “A vitória do ‘não’ no referendo de ontem foi um triunfo publicitário. A frente parlamentar contrária à proibição do comércio de armas e munições mostrou-se mais competente do que os partidários do ‘sim’. Conseguiu pespegar a idéia de que restrições mais severas à comercialização desses itens violaria o direito à autodefesa dos cidadãos. Uma vitória do ‘sim’ não teria suprimido direitos, tampouco teria implicado a proibição total do comércio de armas, o qual permaneceria lícito para os que possuem porte.”

Tá certo. Não nego que a campanha do NÃO tenha sido infinitamente superior à do sim. Mas caracterizar a vitória do NÃO como mera manobra publicitária é dar uma de avestruz — e avestruz de elite, porque acha que o povão é facilmente enganado… É verdade que o exemplo da eleição de Lulla em 2002 está aí pra provar que o povão e até mesmo as elites políticas podem ser vítimas de propagandas e publicidades que resultam em estelionato eleitoral. Mas no referendo, o povo, que inicialmente tendia para o sim, conseguiu ver que estavam tentando fazê-lo de trouxa de novo e reagiu à altura.

E a mentira da Folha, de que “Uma vitória do ‘sim’ não teria suprimido direitos”… Tá, estou acreditando… Se a Folha não tivesse se declarado a favor do sim, quando o parecia que o sim iria ganhar, soaria mais plausível…

Também na Folha de hoje vem o Jânio de Freitas anunciando que, a despeito das aparências, “nem o ‘sim’ nem o não’ venceram o referendo . . . O vencedor do referendo foi o Grande Medo”… Quem foi que explorou o medo na campanha??? Foi a campanha do sim, que insistiu em trazer fotos e depoimentos de gente que tinha perdido parente por assassinato a bala. O sim explorou o medo da população — e perdeu feio, em todos os estados da Federação. A vitória do NÃO é a vitória do anti-medo.

Na rádio, hoje cedo, se dizia “Venceu o medo, perdeu a paz”… Venceu o anti-medo. Ganhou a paz. No Rio Grande do Sul, o estado mais armado do país (porporcionalmente ao número de habitantes), o NÃO ganhou a maior das lavadas. Isso porque o Rio Grande do Sul, apesar de ser o estado mais armado do país, é, segundo Lúcia Hypólito na TV ontem, o estado em que há o menor número de homicídios por arma de fogo (porporcionalmente ao número de habitantes). Mais armas, menos crimes…

Triste mesmo é ler as entrevistas com os intelectuais partidários do sim (a “burritsia”, não a “intelligentsia”). Para a maioria deles, ganhou o país, que provou que a democracia direta pode funcionar… Se o Jânio de Freitas acha que nem o sim nem o não ganharam, esses intelectuais acham que todo mundo ganhou… Tentativas vãs de desconstruir a vitória do NÃO…

Agora (dois anos depois de instituído o referendo, período em que eles imaginavam que iriam ganhar fácil) a burritsia partidária do sim critica o referendo em si, que foi “mal posto”, “inoportuno”, “um equívoco”, “um erro de enfoque”, “totalmente descabido” — vide “Para intelectuais, referendo errou alvo”, matéria da Folha de hoje que transcrevo abaixo, depois do artigo do Magnoli. Culpam o governo por ter “confundido os votantes”. (ERRADO: o governo TENTOU confundir os votantes — mas não conseguiu… O resultado do referendo não decorre de confusão dos votantes, mas, sim, de clareza de visão).

Prossigo citando a matéria sobre a burritsia. “O cientista político Fábio Wanderley Reis, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), vê a vitória do ‘não’ como ‘resultado de um eleitorado desinformado e pouco atento’. Para Reis, que votou no ‘sim’ [precisava dizer???], não havia razão para levar o tema a consulta popular”.

O povo não sabe votar, diz a elite da esquerda. É desinformado, desatento, facilmente manipulável. Para ela a campanha do NÃO “confundiu o eleitor”. Num raro momento de certa candura, porém, o professor Fábio Wanderley Reis não esconde o que pensa. Ele acha que foi um erro ter feito uma consulta popular sobre essa questão… Diz com todas as letras que se a gente (i.e., a burritsia) tivesse resolvido esse problema aqui entre nós, a solução teria sido muito mais adequada…

José de Souza Martins, professor de sociologia da USP, afirma que a população foi “enganada, como se estivesse decidindo entre marcas de cigarro ou marcas de salsicha”, por “uma concepção mercantil de disputa”… Dá vontade de rir.

Roberto Romano, meu colega na UNICAMP, “ataca o pouco respeito à ‘inteligência da cidadania’, que é manipulada ‘com propaganda ou carismas pré-fabricados'”. Parece-me que quem tem pouco respeito para com a inteligência da cidadania é ele, que acha que ela pode ser facilmente manipulada… É verdade que, numa admissão que parece pouco coerente com o que acabei de citar, ele afirme, corretamente, que “o eleitorado . . . percebeu as manobras dos seus representantes oficiais” — e que “muitos políticos [juízes, advogados, promotores] brasileiros insistem em tratar a cidadania como fossem seus tutores, considerando-se os únicos adultos num país de crianças”.

É isso. Por enquanto.

Em Campinas, 24 de outubro de 2005

Segue transcrição de matérias da Folha

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Folha de S. Paulo
24 de outubro de 2005

ARTIGO

A mensagem dos cidadãos

DEMÉTRIO MAGNOLI
Colunista da Folha

Eles armaram o circo, instalaram a confusão e fabricaram uma pergunta capciosa. Contrataram os fogos e a fanfarra. Programaram a comemoração. Mas o povo disse “não!”.

No referendo de ontem, o povo derrotou o governo, a maioria absoluta da elite política, a organização hegemônica de mídia e as ONGs milionárias.

Agora, os santarrões têm de substituir a festa por uma narrativa política e já começam a manufaturar uma nova mentira: inspirados num Pelé de 30 anos atrás, dizem que o povo não sabe votar. Que o povo é “conservador” e vota contra seus próprios interesses. E que eles, os “esclarecidos” e “progressistas” isto é, Lula, Márcio Thomaz Bastos, Chico Alencar, Sarney, ACM Neto, Raul Jungmann, Marco Maciel e Renan Calheiros continuarão a lutar “pela paz”, explicando ao povinho burro que a culpa pela criminalidade não é do Estado mas dos cidadãos ávidos por armas e sempre prontos a atirar uns nos outros.

Eles destilaram uma santimônia pegajosa, abraçaram lagoas e cristos, mas não conseguiram falar em nome do povo. Agora, precisam seqüestrar a mensagem do povo e torcer seu significado. Indiferentes ao ridículo, chegam a sugerir que os cidadãos votaram contra o “mensalão”, não contra a proibição, como se a quadrilha dos corruptores já não estivesse exposta dois meses atrás, quando o “sim” tinha dois terços das intenções de voto.

O povo não é burro: decifrou a pergunta, desarmou a armadilha e enviou uma série de mensagens claras e nítidas.

1 – A esmagadora maioria dos brasileiros não tem armas. Mesmo assim, os eleitores disseram que o Estado não pode tomar-lhes um direito natural, que é o direito de defender a sua casa e a sua vida;

2 – Os eleitores disseram que o Estado não pode dividir os cidadãos em duas classes jurídicas, permitindo a proliferação de empresas de segurança privada enquanto proíbe a autodefesa armada dos homens de poucas posses;

3 – Os eleitores votaram contra o governo, mas com pertinência. Eles exigiram o fim da empulhação e do papo furado. Disseram que o culpado pela liberdade do crime é o governo, que não cumpriu a promessa de elaborar um plano nacional de segurança pública e não reformou, unificou e limpou as polícias.

Que ninguém se engane. Ficou registrado na memória coletiva que, em dezembro passado, os ministros do Trabalho, Ricardo Berzoini, e da Cultura, Gilberto Gil, negociaram com os traficantes do Complexo da Maré as condições da visita à favela da Vila São João, onde lançaram um programa de qualificação profissional. Por imposição do tráfico, as autoridades subiram o morro sem segurança armada, protegidos pela milícia dos bandidos.

Os cidadãos disseram “não!” exatamente a isso. Os brasileiros não correram atrás dos brucutus armados que têm saudade da ditadura. Simplesmente, estão fartos das autoridades que “são da paz”. Querem guerra à corrupção e à violência policial. Querem guerra às prerrogativas dos traficantes, não uma hipócrita “guerra às drogas” que criminaliza os usuários e provoca chacinas de crianças. Querem a restauração da ordem pública e dos direitos das pessoas. Os candidatos a presidente deveriam tomar nota.

(Demétrio Magnoli é doutor em geografia humana pela Universidade de São Paulo e colunista da Folha)

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Folha de S. Paulo
24 de outubro de 2005

Para intelectuais, referendo errou alvo

De acordo com eles, há questões muito mais importantes a serem discutidas no país no que diz respeito à questão da segurança

MARCOS FLAMÍNIO PERES
Editor do Mais!

O referendo sobre a proibição de vendas de armas de fogo foi um instrumento legítimo da democracia, mas errou o alvo, conforme apontam cinco intelectuais ouvidos pela Folha.

Para a antropóloga Alba Zaluar, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e referência no estudo da violência urbana no país, o referendo foi um “equívoco”.

Para ela, que votou no “sim”, há questões muito mais importantes a serem discutidas no país no que diz respeito à segurança, como a corrupção policial e o controle dos arsenais das Forças Armadas e das polícias. Ela avalia a vitória do “não” como um voto de protesto, um claro recado ao governo de que a população está insatisfeita com a política de segurança”.

Autora de livros como “Integração Perversa – Pobreza e Tráfico de Drogas” (ed. FGV), Zaluar cita dados de várias pesquisas para afirmar que o “Brasil não tem uma população armada”: menos de 5% dos domicílios brasileiros possuem armas de fogo, enquanto nos Estados Unidos esse índice atinge 34%.

Em cidades consideradas violentas, como São Paulo e Rio de Janeiro, esses índices são de 2,5% e 4,5%, respectivamente.

Portanto, não é daí que provêm as armas utilizadas pelos criminosos, conclui, mas do exterior e de arsenais da polícia e das Força Armadas. Nesse sentido, o referendo foi “um erro de enfoque”, diz.

É essa também a opinião de Roberto Romano, professor titular de ética e filosofia política na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para quem “as armas continuarão a penetrar no território brasileiro por meio do contrabando”, além de poderem ser adquiridas “por meio de furto de integrantes das polícias e das forças armadas”. O problema da segurança no Brasil “sofre com a incompetência governamental”, diagnostica Romano.

Para José de Souza Martins, professor de sociologia da USP, o “governo propôs uma questão grande e fez uma pergunta pequena, o que confundiu os votantes”.

Embora considere o referendo um instrumento legítimo, ele foi “mal utilizado”.

Eleitorado desinformado

É legítimo “porque representa um alargamento das alternativas democráticas na expressão do ponto de vista do povo”. Foi mal utilizado “porque o legislador não levou em conta a complexidade do problema da violência e circunscreveu a pergunta ao comércio legal de armas, que é só uma parte da questão”. Mas Martins, autor de “Exclusão Social e a Nova Desigualdade” (ed. Paulus), pondera que o referendo contribuiu “para alargar nossa restrita concepção de democracia”.

Menos entusiasta, o cientista político Fábio Wanderley Reis, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), vê a vitória do “não” como “resultado de um eleitorado desinformado e pouco atento”. Para Reis, que votou no “sim”, não havia razão para levar o tema a consulta popular.

É da mesma opinião Ronaldo Vainfas, professor de história na Universidade Federal Fluminense (UFF), que considera “totalmente descabido” submeter o comércio de armas e munições a voto popular. Trata-se de uma “ilusão de cidadania”, afirma o historiador, que é especialista em Brasil Colônia e no estudo nas formas de coerção utilizadas pela Igreja e pelo Estado.

Para ele, “o “sim” ou o “não” pouco importam: a violência continuará, as mortes também continuarão, com armas de fogo comercializadas sobretudo no contrabando, pois o percentual de armas legais vendidas no país é mínimo. Todos sabiam disso, mesmo os que defendiam o sim na base do “paz e amor'”.

A banalização da campanha também é alvo de duras críticas.

Para Reis, o grupo que apoiava o “não” contrapôs de maneira “muito maniqueísta o bandido ao indivíduo desarmado”, confundindo o eleitor.

Já para Martins, o referendo foi alvo de “uma concepção mercantil de disputa” que levou a população a ser “enganada, como se estivesse decidindo entre marcas de cigarro ou marcas de salsicha”.

Ele culpa os tribunais eleitorais por terem tratado o referendo “de modo tão primário”.

Romano, autor de “O Caldeirão de Medéia” (ed. Perspectiva), entre outros, vai na mesma direção e ataca o pouco respeito à “inteligência da cidadania”, que é manipulada “com propaganda ou carismas pré-fabricados”.

Ele vê a vitória do “não” como um “alerta”, pois “o eleitorado amadureceu nos últimos 20 anos e percebeu as manobras dos seus representantes oficiais”. Para ele, “muitos políticos [juízes, advogados, promotores] brasileiros insistem em tratar a cidadania como fossem seus tutores, considerando-se os únicos adultos num país de crianças”.

Pois, arremata, “os representantes sabem que, em duas palavras, nenhuma verdade concreta é obtida em questões complexas. As duas respostas exigem árduas razões jurídicas e técnicas”.

Rita Lee e o referendo de hoje

[Transcrevo aqui, esclarecendo que respondo a um artigo indicado como sendo de Rita Lee, que foi colocado hoje, dia 23/10/2005, dia do referendo, na lista dos professores da Faculdade de Educação da UNICAMP, pela Profa. Ana Lúcia Goulart de Faria. Sugiro que os leitores leiam o artigo de Rita Lee primeiro, que, para conveniência, é transcrito abaixo].
 
[Nota acrescentada em 25/10/2005: Fui informado hoje de que o texto em questão não seria de autoria de Rita Lee, mas, sim, faria parte de um artigo de Heloneida Studard, publicado originalmente no Jornal do Brasil de 6/2/2001 (! bem antes do Estatuto do Desarmamento e do referendo do dia 23, portanto). Fui verificar e eis que, no site, há um artigo que contém todo o artigo atribuído a Rita Lee (com pequeníssimas mudanças). Para permitir o cotejo, transcrevo a seguir o texto reivindicado por Heloneida Studard, tendo-o retirado do site dela: http://www.heloneidastudart.jor.br/artigos/poderdesarmado.htm. Os meus comentários não são afetados pela autoria do texto, a não ser onde me refiro às drogas. Interpelei a Profa. Ana Lúcia, na lista dos professores da Faculdade de Educação da UNICAMP, sobre a autoria do texto que ela compartilhou.]
 
Desarmados nascemos todos, mulheres e homens. Essa lenga-lenga de que mulher nasce desarmada, porque não tem pinto, enquanto homem nasceria armado, porque tem, é conversa pra boi dormir. Nem Rousseau, com todo o seu naturalismo simplista, compraria essa enrolação.
 
Olhando o meu netinho de seis meses, que dormiu aqui em casa de ontem pra hoje, o que se vê é um serzinho totalmente desarmado, frágil. A última coisa que ocorre, ao contemplar o pintinho dele durante a troca de fraldas ou do banho, mesmo (acredito) para mulheres desarmadas de espírito, é que ali esteja uma arma, o símbolo de uma pistola ou de uma espada, o poder (em potencial) de estuprar, de forçar uma penetração indesejada. As drogas que a Rita Lee tomou devem ter afetado o cérebro dela.
 
Está Rita Lee a sugerir que a violência é um fenômeno tipicamente masculino, biologicamente determinado pelo fato de que a natureza deu aos homens um penduricalho que as mulheres não têm? E se estiver, estão nossas professoras de educação concordando com ela? Para acabar com a violência, basta liqüidar com os homens, ou então castrá-los, ou simplesmente ocupar o poder no lugar deles? Marta Suplicy é menos inclinada à agressividade do que o Eduardo Suplicy simplesmente porque ela não tem um pinto e ele tem? É a isso que se reduz o referendo de hoje???
 
Se somos escravos da biologia, qual o significado social do fato biológico de que mulheres têm peitos (peitões, quero dizer) e homens não os têm? Os peitos são símbolos do quê? Espero que a Ana Lúcia esclareça — já que da Rita Lee duvido que venha qualquer esclarecimento.
 
Se formos invocar a biologia, vamos provavelmente descobrir que as fêmeas, especialmente depois de parir e quando acompanhadas de sua prole, são muito mais violentas do que os machos… É verdade que são violentas na defesa da prole, na defesa daquilo que elas produziram, daquilo que é seu — enfim, ousaria eu dizer na defesa de sua propriedade???
 
Não vivemos no Jardim do Éden. Vivemos num mundo em que homens e mulheres aprendem a ser violentos. Se as mulheres alcançarem hegemonicamente o poder, essa realidade não vão mudar nem um tico.
 
Não gosto de violência, não gosto de guerra, não gosto de sangue. Mas não sou pacifista. Acredito, com toda a convicção possível, de que não devo ser o primeiro a usar a força contra o meu próximo. Mas acredito, com igual convicção, que se alguém usar a força contra mim, tenho todo direito de reagir — com qualquer arma a que puder ter acesso.
 
O referendo de hoje se situa neste contexto: pode o governo, cuja função primeira é garantir o exercício de meus direitos, atribuir-se o direito de me privar do direito de me defender contra a violência e a agressão alheia — especialmente quando ele, aqui no Brasil, nada faz para me proteger dessa violência?
 
Mulheres, a quem a natureza deu, em média, menor tamanho e menor força física do que aos homens, deveriam ser capazes de apreciar o fato de que uma arma pode, no devido momento, ajudá-las a impedir um estupro, uma penetração forçada, uma violação daquilo a que só por consentimento se deveria ter acesso.
 
Em 23 de outubro de 2005
 
—–Original Message—–
From: docentesfe-bounces@listas.unicamp.br
On Behalf Of Ana Lucia Goulart de Faria
Sent: Sunday, October 23, 2005 11:32 AM
To:
docentesfe@listas.unicamp.br
Subject: [Docentesfe] ENC: Rita Lee
Importance: High
 
Eis a opinião da Rita Lee. Abraço, voto sim, Ana Lúcia (Goulart de Faria)
 
Mulheres na Visão da Rita Lee
 
Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade, até porque elas são desarmadas pela própria natureza: Nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência.
 
As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto.
Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência.
 
É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz. E para começar, queremos  pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d’água e trouxas de roupa. Respeito aos  seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas.
 
São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a doçura de seus corações.

Amanhã, voto NÃO

Quem me dá a honra de acompanhar este blog sabe que sou uma pessoa argumentativa. Gosto de discutir os prós e os contras de várias questões que me afetam ou interessam. Chego a ser até chato nas minhas firulas argumentativas. Muito cedo (durante o Ensino Médio, antigamente chamado de Clássico, na modalidade que cursei) me apaixonei pela filosofia e pela lógica. Sempre tive um certo desprezo pela retórica. Pareceu-me, desde sempre, que a retórica (a velha ou a nova) só é chamada quando a lógica não encontra argumentos convincentes… Por isso, resolvi ficar com o que realmente importa.

Por que digo isso? Porque vou apresentar, adiante, meus argumentos para votar NÃO amanhã, 23 de outubro, no referendo inventado por políticos que não têm o que fazer e ficam procurando jeito de interferir com os direitos da gente, a duras penas conquistados.

Antes de entrar nos meus argumentos, porém, devo confessar que desenvolvi algo que os americanos chamam de “rule of thumb” (literalmente, “regra de polegar” ou “regra de bolso” – uma regra prática) que me permite firmar um posicionamento inicial, sempre provisório, é verdade, acerca de questões sobre as quais não estou tão bem informado como desejaria. Conforme a questão, depois me informo melhor e tomo uma posição mais bem fundada em fatos e argumentos. Mas para um posicionamento inicial provisório a “regra de bolso” em questão é quase infalível. Ei-la: “Se um desses, Marilena Chaui, Emir Sader, ou Rubem César Fernandes, for a favor, eu me inclino a ser contra. Se os três forem a favor, não tenho dúvida nenhuma de que, levantados os fatos e analisados os argumentos, serei contra”. Como disse, essa regra me tem sido quase infalível. (Poderia tentar explicar por quê, mas isso me levaria muito longe do tópico deste artigo).

Na questão objeto do plebiscito, os três são unânimes: vão votar sim. Logo, eu, mesmo antes de estudar a questão com maior profundidade, tinha certeza de que iria votar NÃO. O estudo da questão apenas confirmou essa “intuição original”.

Diferentemente do Reynaldo Azevedo, editor da revista Primeira Leitura, que, no último número da revista, escreveu magistral artigo sobre o assunto, justificando o seu voto NÃO, e disse que iria votar assim apesar de ter muitos amigos cuja opinião ele respeitava que iriam votar sim, eu praticamente não tenho amigos cuja opinião eu realmente respeite que vão votar sim. Encontrei, isto sim, várias pessoas cuja opinião eu não respeito que vão votar NÃO – o que significa que várias pessoas vão fazer a coisa certa pelas razões erradas…

Vou iniciar com meus argumentos mais fracos – progredindo para os mais fortes.

Primeiro, ressalto a forma meio sem-vergonha, malandra (ou então totalmente inapta) com que foi formulada a pergunta do referendo. “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?" A pergunta correta teria sido algo assim: “A aquisição de armas de fogo e munição para a defesa pessoal, para a caça, e para o lazer deve continuar a ser um direito individual no Brasil?” Ninguém teria dúvidas ou faria confusão com essa pergunta – como tem e faz com aquela.

É verdade que os defensores do NÃO exploraram bem a redação ruim (ou mal intencionada) da pergunta do referendo. Imagino que os defensores da proibição tenham imaginado que o povo diria mais facilmente sim do que NÃO. Acabaram por enganar-se redondamente. Os defensores do NÃO convenceram o povo de que o governo estava querendo enganá-lo, para roubar-lhe mais um direito. Capitalizaram no clima anti-governo que os escândalos no Congresso vem gerando: o NÃO soa como um não ao governo e à corrupção que grassa no governo e no PT, partido que lhe dá sustentação. Aproveitaram para deixar claro que a segurança pública é a função número um do governo e que este não vem dando a mínima atenção a essa questão – preferindo prender espalhafatosamente a dona da Daslu e os Malufes que, com certeza, nunca deram um tiro em ninguém durante toda sua vida. Mostraram que a proibição do comércio de armas de fogo e munição não iria desarmar os bandidos, que obtêm suas armas no mercado negro (inclusive roubando ou comprando do Exército e da polícia).

Com isso, a frente do NÃO, com programas de TV e rádio muito bem feitos pela equipe de Chico Santa Rita, pode criar anúncios rápidos bem eficazes, como este, no rádio: “Sinceramente, você acha que esse governo está investindo o suficiente em segurança pública? NÃO!!! Você acha que a polícia tem condições de proteger a população? NÃO!!!! Você acha que os bandidos vão ser desarmados? NÃO!!! Então dia 23 diga: NÃO!!!”. Habilidade marqueteira, é verdade – mas muito eficaz, e que só foi possível porque alguém tentou formular a pergunta do referendo de forma meio malandra.

Em segundo lugar, não gosto de ver a Rede Globo usando seu poder de fogo (desculpem o trocadilho) e seus artistas globais – que andam todos com seguranças armados – para defender o sim. Lembrei-me da reação do povo quando a Globo tentou fazer de conta que a campanha das Diretas Já não existia: “O povo não é bobo, fora a Rede Globo!” Os próprios coordenadores da campanha do sim perceberam que não foi uma boa botar todos os artistas globais falando a favor do sim. Caiu mal. O povo não é trouxa… E a frente do NÃO explorou bem a brecha: “Nosso artista é o povo…”

Em terceiro lugar, a frente do sim e a Rede Globo procuraram, desde o início, caracterizar a questão enfocada no referendo como sendo o desarmamento – até que a Justiça os proibiu de fazer isso. Sabidamente, a questão não é o desarmamento, e os defensores do sim sabem disso. Mas tentaram enganar a população. Foram em parte impedidos de fazê-lo – mas ainda assim a frente parlamentar continuou a se denominar “Frente Brasil Sem Armas”. Deveria ter sido impedida de fazer isso. Mas mesmo assim, o povo, que não é trouxa, não se deixou enganar.

Em quarto lugar, os programas da frente do sim mentiram deslavadamente – tanto que a Justiça Eleitoral os proibir de dizer certas coisas com a maior cara lavada. Diziam, por exemplo, como se fosse evidente, que habitantes de áreas isoladas não seriam proibidos de comprar armas e munição. Isso sabidamente não é verdade. O que o Estatuto do Desarmamento diz é que habitantes de áreas isoladas, que provem que precisam de armas para sua sobrevivência (que vivam da caça, portanto), podem ser autorizados a adquiri-las.

Em quinto lugar, os programas da frente do sim exploraram o sentimentalismo, os casos de gente que foi morta por disparos acidentais, ou em assaltos, ou em balas perdidas… Tentaram dar a impressão que, eliminando essas mortes pela proibição da comercialização de armas de fogo e munições, o problema da violência estaria eliminado e o da segurança pública resolvido…

Em sexto lugar, achei de uma baixeza sem igual a tentativa da frente do sim de caracterizar os que pretendiam votar NÃO como sendo fascitóides, ou gente que estava a mando da indústria de armamentos, ou, então, de patetas. Aquela atitude petista de que só nós somos bons, o resto é picareta ou corrupto, não pega mais. O problema, durante toda a campanha, foi colocado como se fosse simplesmente uma questão de lucro vs vida. A questão da liberdade e do direito à legítima defesa foram sumariamente ignoradas. Deu-se a impressão, em alguns programas da frente do sim, que a maioria dos assassinatos no Brasil se dá com armas de fogo usadas descuidadamente, ou com armas de fogo usadas numa situação passional, ou, então, com armas de fogo roubadas por bandidos de quem tentou se defender de um assalto no trânsito. Nem o Márcio Thomaz Bastos, soi-disant ministro da Justiça do governo, acredita nisso.

Em sétimo lugar, o referendo está previsto no Estatuto do Desarmamento – mas a data do referendo, não. O referendo poderia ter esperado um pouco, mas não: o governo e sua base no Congresso e na sociedade tentaram, a todo custo, aprovar uma data ainda este ano. As razões foram, no fundo, duas: (a) aproveitar o que parecia ser um clima favorável à aprovação da posição favorecida pelo governo, o sim; (b) colocar uma outra questão na pauta dos jornais e das conversas de botequim em substituição à corrupção no governo e à ladroagem do PT. Quem tem pressa, come cru.

Passo agora aos argumentos mais fortes. Os apresentados até aqui são corroborativos. São os argumentos que apresentarei daqui para a frente que dão sustentação à minha posição.

Primeiro argumento: Não é segredo para ninguém que sou um liberal radical, “laissez faire”, daqueles à moda antiga. Para mim, a única função do governo garantir os direitos da população, zelando pela sua segurança, mantendo a ordem pública. Para o bom funcionamento da sociedade, os cidadãos delegam ao governo o monopólio na iniciação do uso da força. Reservam para si, entretanto, o direito de defesa, caso alguém use, ou tencione usar, a força contra eles, numa situação em que não seja possível ou viável chamar a polícia. De nada adiante, porém, ter o direito de defesa se me são proibidos obter os meios de me defender. A proibição do comércio de armas de fogo e de munições é, portanto, um atentado ao meu direito de defesa contra a agressão alheia. Este o meu primeiro argumento principal.

Segundo argumento: Se o argumento anterior já faz sentido em uma sociedade em que o governo cumpre com a sua função de garantir os direitos dos cidadãos, zelando pela sua segurança e mantendo a ordem pública, faz muito mais sentido em uma sociedade, como a nossa, em que o governo é totalmente omisso na questão da segurança pública, em que a polícia (e mesmo o Exército) do governo têm medo de subir nos territórios (especialmente morros) controlados por bandidos profissionais. Nossa sociedade não corresponde ao estado da natureza de Locke, em que não há governo mas há ordem, em respeito a uma lei natural: ela corresponde ao estado da natureza de Hobbes, em que todos estão em guerra contra todos. Nessa guerra, o governo, para dar a impressão de que está finalmente fazendo alguma coisa, e já que não consegue desarmar os bandidos, quer desarmar a gente de bem. As armas dos bandidos não vão ser afetadas mesmo que o sim ganhe. Eles não compram armas e munição em lojas autorizadas. Eles não carregam porte de arma. Eles compram suas armas no contrabando ou as roubam (ou compram!) da polícia e do Exército. Ainda que o sim viesse a ganhar (o que parece improvável no momento, a levar a sério as pesquisas do Ibope e do Datafolha), os bandidos continuariam a ter acesso a armas e munições – só nós, os cidadãos de bem, é que seríamos impedidos de adquiri-las, para nos defender deles. Na verdade, se o sim ganhar, e viermos a obter uma arma no mercado paralelo, provavelmente seremos considerados pelas autoridades como mais bandidos do que os próprios bandidos. Este o meu segundo argumento principal.

Terceiro argumento: Muita gente não tem arma em casa hoje. E muita gente não quer nunca ter. Mas os bandidos não sabem quem tem e quem não tem. Essa dúvida os faz pensar duas vezes antes de invadir a casa de alguém. Se o sim vier a ser aprovado, essa dúvida dos bandidos estará eliminada: eles saberão que virtualmente ninguém terá armas em casa. O voto sim lhes dará um tranqüilo “salvo conduto” para entrar na minha e na sua casa, sabendo que não teremos com que reagir. Isso explica porque, em todos virtualmente os países em que houve uma proibição de comércio de armas e munições, como o que agora se pretende aqui, os crimes (especialmente os roubos) envolvendo violência contra a pessoa aumentaram. Este o meu terceiro argumento principal.

Quarto argumento: Mas não serão só os crimes de violência contra a pessoa que aumentarão. O contrabando e o mercado paralelo também aumentará, porque agora não serão apenas os bandidos que terão de recorrer a eles (como, de resto, já fazem), mas, sim, toda a população que não concordar com à restrição ao seu direito de defesa que a eventual vitória do voto sim lhe imporá. O governo não consegue controlar o contrabando e o mercado paralelo de nada no Brasil – controlaria o de armas e munições? Este o meu quarto argumento principal.

Quinto argumento: Matar ou tentar matar uma pessoa, sem que seja em legítima defesa, já é crime no Brasil (como em qualquer outra nação do mundo). A aquisição de uma arma de fogo, em si, nada tem de criminoso. A arma pode ser usada para caçar, para lazer (tiro ao alvo) e, naturalmente, para a legítima defesa – todas atividades perfeitamente legítimas e não criminosas. Se o governo não consegue impedir que se cometam inúmeros crimes de assassinato ou tentativa de assassinato, algo que já é claramente proibido por lei, por que proibir o comércio de armas de fogo, que têm usos legítimos, a não ser que seja para criar uma cortina de fumaça que impeça a população de ver o seu fracasso na tarefa de garantir nosso direito à vida e à integridade pessoal, zelando por nossa segurança e mantendo a ordem pública? O governo quer nos fazer crer que essa criminalidade toda que está por aí decorre do fato de alguns babacas insistem em comprar armas de fogo para se defender, só conseguindo, assim, segundo diz, aumentar o estoque de armas que os bandidos vão roubar… Este o meu quinto argumento principal.

Sexto argumento: O Estatuto do Desarmamento já é uma lei extremamente severa no controle de quem pode legalmente adquirir e portar armas. Faz pouco tempo que ele entrou em vigor. Na realidade, não foi nem testado ainda. Por que proibir, adicionalmente, e com tanta pressa, o comércio em si de armas e munições?

Poderia acrescentar alguns outros argumentos. Mas estes já são suficientes para justificar, no domingo, o meu voto NÃO.

Em Campinas, 22 de outubro de 2005

La Bohème

Para os que pediram, e para os que simplesmente gostam de Charles Aznavour, como eu, aqui vai a letra de La Bohème, que é o tema musical deste space. A belíssima letra é de Jacques Plante (1965).


Je vous parle d’un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître…
Montmartre, en ce temps-là,
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres!

Et si l’humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine,
C’est là qu’on s’est connu:
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue.

La bohème, la bohème,
Ça voulait dire on est heureux…
La bohème, la bohème,
Nous ne mangions qu’un jour sur deux!

Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire,
Et bien que miséreux,
Avec le ventre creux,
Nous ne cessions d’y croire!

Et quand quelque bistro
Contre un bon repas chaud
Nous prenait une toile,
Nous récitions des vers,
Groupés autour du poêle,
En oubliant l’hiver!

La bohème, la bohème,
Ça voulait dire tu es jolie…
La bohème, la bohème,
Et nous avions tous du génie!
 
Souvent il m’arrivait,
Devant mon chevalet,
De passer des nuits blanches,
Retouchant le dessin
De la ligne d’un sein,
Du galbe d’une hanche…

Et ce n’est qu’au matin
Qu’on s’assayait enfin
Devant un café-crème,
Epuisés mais ravis,
Fallait-il que l’on s’aime
Et qu’on aime la vie!

La bohème, la bohème,
Ça voulait dire on a vingt ans…
La bohème, la bohème,
Et nous vivions de l’air du temps!

Quand au hasard des jours
Je m’en vais faire un tour
A mon ancienne adresse,
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues,
Qui ont vu ma jeunesse!
 
En haut d’un escalier
Je cherche l’atelier
Dont plus rien ne subsiste,
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts!

La bohème, la bohème,
On était jeunes, on était fous…
La bohème, la bohème,
Ça ne veut plus rien dire du tout!

Letra retirada de: 
http://www.labohemeletra.charlesaznavour.letrasdemusicas.com.br/musica.php?id=10113

Em Campinas, 19 de outubro de 2005

"Distribuição de renda"

É freqüente ouvir-se falar, hoje em dia, especialmente no Brasil, que o país tem uma “distribuição de renda injusta”. Às vezes se chega a dizer que a distribuição de renda no Brasil é a mais injusta do planeta. Mesmo quem não faz afirmações como essas parece concordar, nesse respeito, com o que dizem os outros.
 
Essa expressão – “distribuição de renda injusta” (iníqua, má) – requer análise.
 
Quando se fala em "distribuição de renda injusta" em um determinado país dá-se a impressão de que:
 
a) o que se denomina “renda do país” é algo que pertence à entidade abstrata chamada país – quando não ao governo desse país – e não aos indivíduos e pessoas jurídicas que constituem o país;
 
b) que essa renda é gerada e, portanto, existe independentemente das ações dos diversos agentes econômicos que atuam no país (indivíduos e pessoas jurídicas);
 
c) que algum agente misterioso distribui essa renda entre a população de forma desigual, dando a uns mais, a outros menos;
 
d) que essa distribuição é injusta (iníqua, má);
 
e) que é possível corrigir essa distribuição injusta (iníqua, má), redistribuindo a renda de forma mais justa;
 
f) que é tarefa do governo promover essa redistribuição através de uma série de mecanismos, entre os quais se incluem a taxação dita progressiva (quem ganha mais paga mais impostos) e um sem número de políticas sociais.
 
Todos esses enunciados são demonstravelmente falsos, como passo a seguir demonstrar.
 

a) Primeiro, a renda de um país não pertence ao país nem muito menos ao governo. Essa expressão se refere a nada mais do que a somatória da renda gerada pelos diversos agentes econômicos que atuam no país – indivíduos e pessoas jurídicas – e pertence a eles.
 

b) Segundo, só há uma forma de gerar renda ou criar riquezas: através do trabalho (considero redundância falar em “trabalho produtivo”) de indivíduos ou de pessoas jurídicas na extração ou produção de “commodities”, na manufatura de bens e na prestação de serviços. O governo, em si, não gera nenhuma renda nem cria nenhuma riqueza: ele apenas tem uma receita que é auferida através dos impostos, taxas e contribuições que ele cobra das pessoas físicas e jurídicas que geram ou possuem renda. Em nossa sociedade, “commodities”, bens manufaturados e serviços são trocados em espécie ou comercializados em troca de dinheiro, que se tornou o meio de troca preferido.
 

c) Não resta dúvida de que, desde que o mundo é mundo, existem desigualdades entre os seres humanos. Algumas dessas desigualdades são físicas: uns são mais altos, fortes, bonitos, etc. do que outros. Outras desigualdades são de natureza mais psicológica: uns são mais inteligentes, hábeis, motivados, esforçados, espertos, etc. do que os outros. Por mais que alguns se esforcem por negar esse fato, afirmando que não só as características psicológicas, mas até mesmo as físicas, são “socialmente construídas”, é um fato estabelecido e incontestável que os seres humanos são desiguais. E também é um fato incontestável que essas desigualdades vão fatalmente se traduzir em desigualdades econômicas: uns vão ter renda maior do que outros, uns vão ser mais ricos do que outros.
 
É esse fato que explica a distribuição desigual de renda e de riquezas. Não existe nenhum agente misterioso que distribui a renda ou a riqueza, de forma desigual, entre a população de um país, dando a uns mais, a outros menos.
 
A renda ou a riqueza de um país é "distribuída" aos diversos participantes na vida econômica do país em função de suas atividades econômicas de produção, consumo e, conseqüentemente, troca. As atividades econômicas que cada um de nós exerce possuem valorações diversificadas em cada país, ou em cada região, ou em diferentes momentos históricos de um mesmo país ou uma mesma região.
 
Exemplifico (com exemplos retirados de atividades de todos conhecidas).
 
Ser professor universitário em uma universidade pública no estado de São Paulo (digamos, a UNICAMP) é uma atividade mais valorizada do que ser professor universitário na universidade federal do Piauí ou do que ser professor universitário na universidade do senhor Digênio (UNIP).
 
Ser professor universitário em qualquer dessas três universidades é (imagino) uma atividade mais valorizada do que ser professor primário em Sinop, Mato Grosso.
 
Daí decorrem os salários diferenciados dessas categorias e, conseqüentemente a desigual distribuição de renda que de fato existe.
 
Mais exemplos.
 
Um jogador de futebol do nível de seleção brasileira (digamos, Ronaldo, Ronaldinho ou Kaká) e um cantor sertanejo de primeiro time exercem atividades que são mais valorizadas, no Brasil, do que a função de professor universitário na UNICAMP – da mesma forma que o professor da UNICAMP exerce uma atividade que é mais valorizada, no Brasil, do que a função de professor primário em Sinop.
 
Dentro de uma mesma atividade, como o futebol, alguns jogadores (os três citados, por exemplo) conseguem ficar multimilionários e outros não conseguem nem sobreviver como profissionais – sendo obrigados a exercer alguma outra função para alcançar o seu sustento. Não resta dúvida de que a “distribuição de renda” (a expressão é admitidamente inadequada) entre os jogadores de futebol brasileiros é enorme – mas ela reflete tão somente talento e desempenho diferenciado, e, portanto, valorizado de forma diferenciada. Ninguém, exceto os igualitaristas mais deslavados, diriam que essa “distribuição” é injusta e iníqua, e que todos os jogadores de futebol, de Ronaldo, o fenômeno, até o pior picareta do Paissandu, devem ter rendas iguais. Pouca gente paga para assistir um jogo apenas de picaretas – e muita gente paga para assistir o “quadrado mágico” da seleção brasileira jogar.
 
É assim que se “distribui” a renda.
 
Não há um poder econômico que distribua a renda de um país: esta é distribuída pela ação de uma multidão de agentes econômicos que dão vazão aos seus valores. Se ninguém fosse aos estádios ver os jogos do Corinthians, este não poderia manter em seu plantel um jogador caro como o Tevez. Se ninguém comprasse discos do Zezé de Camargo e do Luciano, estes não estariam milionários. Se nenhum aluno procurasse a UNICAMP, esta não poderia manter os seus professores, quanto mais pagar a eles os salários que paga. E assim vai.
 

d) Esses são fatos sociais — e fatos não são passíveis de avaliação como moralmente "injustos" ou "iníquos". Fatos simplesmente são.
 
Fatos sociais, diferentemente de fatos naturais, são contingentes: fatos sociais podem ser mudados e freqüentemente o são — desde que se mudem os valores dos que vivem na sociedade ou no país em que eles são fatos. Eu, por exemplo, posso achar (por critérios próprios) que meu trabalho como professor da UNICAMP vale mais do que o trabalho do Ronaldo como jogador do Real Madrid. Ou posso achar que uma palestra minha, de noventa minutos, vale tanto quanto uma do Alvin Toffler ou do Daniel Goldman (cerca de 50 mil dólares). Mas enquanto ninguém estiver disposto a me pagar aquilo que eu acho que meu trabalho vale, o meu trabalho vale, do ponto de vista social, aquilo que alguém estiver disposto a pagar por ele.
 
Não faz sentido, portanto, falar em "distribuição de renda injusta" ou “iníqua. A distribuição de renda que de fato existe em um determinado país reflete os valores desse país. Qualificar esses valores de "injustos" ou “iníquos” requer algum tipo de análise moral que raramente é feita nesse contexto.
 
Para tentar mostrar que a distribuição de renda do Brasil é injusta ou iníqua não basta simplesmente pressupor que a distribuição de renda "ideal" é a igualitária, em que todo mundo tem uma cota idêntica da somatória da renda nacional. O que justifica esse pressuposto? Absolutamente nada. Além disso, ele é irrealista. Alguém imagina que Ronaldo continuaria se esforçando para ser o melhor jogador de futebol do mundo se ele ganhasse, digamos, dois dólares por dia?
 

e) Não é possível alterar substantivamente essa distribuição dita injusta ou iníqua a não ser através da força – e de muita força. E o resultado da aplicação da força será, na melhor das hipóteses, uma “igualdade por baixo” – a “igualdade do inferno”, como dizia Mme. de Staël. Medidas redistributivas de força só conseguem tornar todos igualmente miseráveis – e o exemplo de Cuba está aí para quem quiser ver.
 
O que os socialistas persistem em ignorar é que os mecanismos de geração de riqueza não são independentes da forma em que ela é “distribuída”. Se ela é distribuída em função de talento e esforço (mérito), as pessoas produzirão mais. Se as pessoas sabem que todos receberão uma cota igual, e que a receberão independentemente da quantidade e da qualidade do que produzirem, não se esforçarão para produzir o máximo e o melhor que for possível produzir.
 
E mesmo usando muita força, e chegando a uma igualdade na miséria, ainda assim haverá desigualdade: os que efetuam a distribuição nunca serão iguais àqueles a quem se distribui a miséria, ainda que esta seja distribuída igualitariamente…
 

f) A taxação dita progressiva e as políticas sociais não promovem real distribuição de renda.
 
Sugestões como incluir novas alíquotas no Imposto de Renda, criar imposto sobre fortunas, etc. não funcionam. Elas partem do pressuposto de que a distribuição de renda que de fato existe é injusta e iníqua e propõem uma fórmula para a sua redistribuição. Mas essas fórmulas todas alteram os princípios que regem a criação de renda e a geração de riquezas. As pessoas realmente interessadas em produzir mudam de país quando a pressão redistributiva é muito forte – e essa pressão só consegue algum sucesso (igualizando a miséria) através da força: proibindo as pessoas de sair do país, por exemplo, e tentando obrigá-las a produzir tudo que a sua “habilidade” lhes permite produzir – para atender às supostas necessidades dos improdutivos.
 
Em Campinas, 18 de outubro de 2005

Macau – onde o Ocidente e o Oriente se encontram

Passei boa parte do dia hoje em Macau. Fiquei com vontade de conhecer a ilha desde que vi uma reportagem sobre ela, com seus cassinos modernos, muito no espírito da China moderna, e seu centro antigo, muito no espírito de Portugal antigo… Vi a reportagem em uma dessas revistas de avião (creio que foi em Hemispheres, da United, a companhia que mais uso). Como  tenho estado aqui em Hong Kong toda esta semana, e tive um tempo livre hoje (7 de outubro), antes de retornar amanhã (8 de outubro), e daqui a Macau se vai de ferry em uma hora, resolvi ir. A despeito do calor horrível na rua, valeu a pena.

É lugar comum dizer que em Macau se encontram o Ocidente e o Oriente, Europa e Ásia, Portugal e China. Portugal controlou a ilha por cerca de 400 anos, tendo que lutar contra a Espanha e a Holanda para manter controle, até que devolveu sua possessão pacificamente à China, em 1999. Hoje Macau é uma Região Administrativa Especial da China – mais ou menos na mesma condição que Hong Kong. Para ir de Hong Kong a Macau e para voltar é necessário passar por Imigração e Alfândega. Até mesmo quem vem da China para as duas ilhas precisam passar por Imigração e Alfândega, como se as duas ilhas fossem países autônomos. Não são – mas fazem de conta.

Mas voltemos a questão da união, na ilha, de duas culturas. Português e Chinês são as línguas oficiais da ilha. Tudo está escrito nas duas línguas em todo lugar. Inglês é entendido de forma limitada: cassinos, hotéis, restaurantes e lojas grandes sempre têm alguém que fala. Mas o povo em geral não fala mais Português. Tive dificuldade para conseguir alguém que me recomendasse um bom e tradicional restaurante português, que servisse um bacalhau à moda tradicional. Encontrei alguém numa pequena Livraria Portuguesa. Chamava-se Carlos, era pequeno e magro, oriundo de Lisboa. Muito simpático, recomendou-me primeiro o restaurante Santos, na Ilha de Taipa, como o melhor, mas eu teria de tomar um táxi para ir lá, pois fica numa pequena ilha que pertence à ilha maior. Como segunda opção, sugeriu-me o Círculo Militar — antigo clube dos militares portugueses, hoje transformado em clube privado, mas que mantém aquele estilo de clube dos dominantes nos países dos dominados… Lembram-se dos clubes de oficiais ingleses na Índia que a gente vê em filmes? Igualzinho – por dentro, pelo menos (por fora a cor é rosa quase choque – algo que ofenderia o gosto britânico). No teto aqueles ventiladores típicos movimentando o ar preguiçosamente. Os garçons extremamente gentis. O maître, com o qual conversei um pouco, Joelito S. Ruiz, é filipino, mas está em Macau há 16 anos.

Para encurtar a história, comi um “bacalhau grelhado sobre grelos e batata a murro com azeite quente e alho” (“grilled codfish over turnip tops and roasted smashed potatos with hot olive oil and garlic). Simplesmente delicioso. Fazia tempo que não comia um bacalhau tão bom. Custou, o prato, 98 patacas. Uma pataca é equivalente a um dólar de Hong Kong, que, por sua vez, é mais ou menos equivalente a um pouco mais de um oitavo de um dólar americano. Logo, o preço do prato foi cerca de 12,50 dólares americanos – menos de 30 reais. O vinho branco português que tomei foi Planalto, safra de 2003 – um vinho dos mais baratos (110 patacas – mais ou menos 14 dólares ou 35 reais a garrafa). Muito bom. Na verdade, a atmosfera faria qualquer vinho saber bem, tenho certeza.

Tirei várias fotos, tanto dos modernos cassinos como, especialmente, dos edifícios antigos – muito parecidos com alguns encontrados no Largo do Rosário em Campinas. Cores vibrantes: azul, amarelo, rosa choque. Até um edifício branquíssimo, no meio desses, parecia ter uma cor vibrante… Era o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais – imagino que a antiga prefeitura, pois estava ao lado do prédio do Senado – na praça do Senado.

Na boa tradição portuguesa, havia prédios governamentais (senado, prefeitura, correios e telégrafos, etc., igrejas (inúmeras) e cartórios (vários) – estes os mediadores entre o governo e a população. Tudo o que se preservou da arquitetura portuguesa foram prédios governamentais, igrejas e cartórios. As igrejas eram em geral acompanhadas de seminários, conventos, e, curiosamente, leprosários – que foram sendo removidos mais e mais para fora da cidade, segundo me informou o panfleto turístico.

O Centro Histórico de Macau foi este ano (em 15 de Julho) designado Patrimônio Mundial pela UNESCO (meu Word automaticamente corrige o acento agudo, usado em Portugal, para acento circunflexo em “patrimônio”). A publicidade chinesa esclarece que o Centro Histórico de Macau é “o 31º sítio designado como Patrimônio Mundial na China” – que, com essa cifra é o terceiro país no mundo em termos de patrimônios mundiais da UNESCO.

Bem no meinho do Centro Histórico, um McDonald’s – moderníssimo dentro de um prédio antigo. Lindo, lindo – mas meio fora de lugar. Não era o único anacronismo. As lojas do Centro Histórico são quase todas franquias multinacionais chiques – dessas que a gente vê em shoppings (“centros comerciais”).  

O que um dia deve ter sido um pátio bonito, e que tem uma placa que designa o lugar como “Pátio do Poeta”, está meio abandonado. Bem que o McDonald’s poderia restaurá-lo…

Hoje teve início na Ilha de Taipa a “Festa da Lusofonia”, que vai continuar até o dia 10. Infelizmente, não tive tempo de ir até lá.

Voltando à herança britânica, placas grandes na rua advertem: “Quem aceita dinheiro para votar acaba por cair nas malhas da justiça”. O anúncio é patrocinado pela “Hotline contra a corrupção eleitoral”. Tudo escrito em Chinês e Português. Pelo jeito a tradição portuguesa é pegar quem recebe – não quem dá o dinheiro para conquistar o voto…

Mas colorida mesma é a língua portuguesa… Lanchonetes são “Estabelecimentos de Comidas”. Uma passagem subterrânea para pedestres é uma “Passagem Inferior para peões”. Curiosamente, uma van para transporte público tinha, na porta, a designação “Porta”. Dei a volta nela para ver o que estaria escrito na porta que fica atrás da van. Estava escrito “Porta de Emergência”. Meno male. Pior seria se estivesse escrito “Porta de Trás”…

Uma praça é uma praça ou um largo – como a Praça do Senado. Uma pracinha é uma praceta – Praceta de Miramar, por exemplo.

Pode ser que esteja errado, mas acho que, aos 62 anos, descobri tardiamente qual é o diminutivo de boca para os portugueses… Fiquei chocado!

Em Hong Kong, 7 de outubro de 2005

A cleptocracia do PT

Lulla conseguiu ultrapassar a si próprio. Foi capaz de criar um escândalo dentro do escândalo. Pior ainda: mostrou que considera natural tudo aquilo que foi objeto do primeiro escândalo – pagar, de diversas maneiras, parlamentares para apoiar medidas de interesse do executivo. E, neste caso, a medida de interesse do executivo não foi nem mesmo algo supostamente de interesse do estado, como poderia argumentar-se ter sido o caso com a mini-reforma da previdência: foi simplesmente proteger o rabo – dele próprio e de outros petistas e, quem sabe, aliados.
 

[A propósito, diferentemente de muita gente, hoje em dia, que chama de governo apenas o executivo, como se o legislativo e o judiciário não o fossem, eu considero os três poderes como parte do governo – na verdade, no plano federal, como parte integrante e essencial de um só governo. Na verdade, acho possível argumentar que até mesmo os diferentes níveis do governo – federal, estadual e municipal – sejam um só governo, porque a divisão dos poderes entre os ramos executivos, legislativos e judiciários, bem como entre os níveis federal, estaduais e municipais são definidos pelo governo federal – na verdade, pela Constituição Federal e pela legislação complementar. ]

A compra aberta e deslavada de votos de deputados, pelo executivo federal chefiado por Lulla, para a candidatura à presidência da Câmara do deputado Aldo Rebelo, além de representar interferência claramente indevida de um poder nos afazeres de outro, só não é escândalo para aqueles que parecem ter perdido, se é que um dia o tiveram, o senso moral e o decoro político. A iniciativa dessas ações, vindo daquele que se vangloriou, há poucos meses, de ser o indivíduo mais ético e moral do país, só mostra a que ponto chegamos. Lulla e o PT sempre conseguem surpreender aqueles que imaginavam que havíamos chegado ao fundo do poço.

Pensando em tudo o que li, vi e ouvi acerca dessa malfadada eleição – e não a chamo malfadada porque esteja querendo sugerir que os outros candidatos teriam sido melhores, não – lembrei-me de algo que uma vez li acerca da atitude da Igreja Católica para com pecadores confessos e hereges. A igreja sempre teve muito mais medo de hereges do que daqueles que pecam – não importa quantos e quão condenáveis sejam seus pecados – e, reconhecendo seus pecados, pedem perdão. Estes, ao se confessarem pecadores à igreja e ao solicitar o perdão que ela pretensamente concede, reconhecem e afirmam a norma moral que a igreja defende e a sua autoridade para impô-la. Os hereges, por outro lado, não só discordam da norma moral ou da doutrina da igreja mas desafiam a autoridade da instituição para definir e impor a normal moral ou a doutrina. São, portanto, muito mais perigosos para a igreja. Para esta um Hans Küng virgem e asceta é muito mais temível do que um exército de padres pederastas e mesmo pedófilos.

Qual a relevância disso para o que acabamos de testemunhar em Brasília?

Lulla já havia demonstrado, em mais de uma ocasião, que achava a “crise” política do mensalão um “factóide”, isto é, um fato artificialmente criado pela oposição (ou “pelas elites”), não porque o PT não fizesse aquilo de que era acusado, mas porque não considerava errado o que o PT vinha fazendo.

Na entrevista dada em Paris, Lulla disse, com todas as letras, em relação ao Caixa Dois, que todo mundo o praticava no Brasil – por que agora invocaram com o Caixa Dois justo com ele??? Sua relutância em pedir perdão ao povo brasileiro, ainda que em nome do partido que representa, decorre deste fato. Sua ora desavergonhada compra de deputados para votar em Aldo Rebelo mostra que Lulla também não considera moralmente errado pagar alguém – em algum tipo de moeda reconhecido como tal pelos dois lados – para votar a favor dos interesses do governo e do partido. Tanto não considera que nem se preocupou em fazê-lo à socapa, nos bastidores, por baixo da mesa, por detrás do pano: fê-lo à luz do dia, anunciando aos quatro ventos que o estava fazendo. Afrontou a nação. E, ao fazer isso, mostrou que não tem senso moral. Ou porque nasceu sem, feito um cego de nascença, ou porque o perdeu em tantas sem-vergonhices que a vida pública lhe propiciou.

Lulla, se fosse preso e algemado por seus crimes, seria daqueles que não escondem as algemas e tentam cobrir a cara: ele levantaria os braços, mostrando as algemas, e olharia direto nas câmeras dos fotógrafos, para mostrar que não se considera culpado dos crimes de que é acusado e pelos quais estaria, por hipótese, sendo preso. Não se considera culpado, é bom que fique claro de uma vez por todos, não porque não tenha feito aquilo de que é acusado, mas porque não reconhece as normas que tornam suas ações não só falhas morais, mas crimes. 

O que Lulla está dizendo à nação é que ele, o primeiro mandatário da nação, considera certo e natural não seguir e não cumprir leis que ele acha bobas e babacas e que, de resto, em sua opinião, ninguém cumpre no país, como aquelas relativas a compras de deputados e à manutenção de Caixa Dois. 

Lulla, ao agir assim, acaba de sacramentar a implantação, de vez, da cleptocracia no país.

Não creio que haja pessoa sensata e sensível no país que hoje duvide de que o que está acontecendo no PT e no governo federal é roubalheira pura e simples.

Ou vejamos, começando com a questão do Caixa Dois.

Se empresários são acusados de crimes fiscais (roubar contra o governo) ao manter um Caixa Dois, por que partidos políticos, deputados e o presidente seriam menos culpados? Por que fazer todo aquele estardalhaço com a Daslu se manter Caixa Dois é algo que até o presidente considera natural?

Pode ser que ainda haja uns poucos, ignorantes ou de má fé, dispostos a argumentar que o caso do Caixa Dois de uma empresa, como a Daslu, é diferente do caso de partidos políticos, deputados e políticos em geral. O empresário, ao subfaturar e, assim, esconder suas vendas, para dessa forma pagar menos imposto, claramente está lesando o fisco, ou seja, o governo. Mas quem estariam lesando os políticos e seus partidos? O dinheiro que lhes está sendo dado “por fora”, e que, portanto não é contabilizado, não está sendo dado de livre e espontânea vontade por um empresário ou por uma empresa? Quem está sendo lesado ou prejudicado?

Vou ter de reiterar aqui coisas tão evidentes que deveriam ser óbvias.

A primeira e fundamental razão (eu, na verdade, diria a única) para a existência de um governo, que legisla, cumpre e faz cumprir leis, é proteger os indivíduos de assaltos à sua pessoa, liberdade e propriedade – ou seja, aos seus direitos individuais. Em troca dessa proteção os cidadãos se dispõem a pagar impostos que custeiam a existência e as atividades desse governo.

O imposto, é preciso deixar claro, é o preço pago pelo cidadão por um serviço que o governo lhe paga. O dinheiro que o cidadão paga como imposto é propriedade particular e privada do cidadão – da qual ele conscientemente abre mão para comprar um serviço. É preciso que se diga isso, porque às vezes se tem a impressão de que alguns governantes imaginam que o dinheiro que o cidadão ganha é legitimamente do governo e que este, por um ato de graça, deixa que o cidadão usufrua de uma certa parte dele. Isso é um absurdo. O dinheiro que o cidadão paga como imposto é parte de uma transação comercial entre duas partes. Ele é pago ao governo, para uma finalidade específica, que o cidadão reconhece como importante para si próprio. (Vide atrás, em outra matéria neste blog, a distinção que faço entre imposto, contribuição e taxa. Aqui não é preciso retomá-la. O que chamo de imposto aqui inclui todas essas categorias).

Por que é que empresas e as pessoas em geral sonegam impostos – quando, em suas transações com outras empresas ou pessoas, elas não imaginam que seus fornecedores lhes provejam bens e serviços sem o devido pagamento? Uma empresa que fabrica automóveis não espera que quem lhe forneça matéria prima, peças e componentes não seja pago. Uma empresa pequena ou um indivíduo não espera que quem lhe presta serviços de contabilidade não seja pago. Uma dona de casa não espera que a empregada mensalista ou a faxineira que lhe presta serviços domésticos não seja paga.

Por que as empresas e o povo em geral esperam que o governo lhes preste serviços sem ter de pagar por esses serviços? Por que é o crime de sonegação desestigmatizado no Brasil – e em vários outros países?

Há, basicamente, três razões:

Primeiro, porque as empresas e as pessoas em geral, embora tenham, numa economia de mercado, escolha acerca de que bens e serviços comprar e/ou de quem adquiri-los e por que preço, não têm muita escolha acerca dos serviços que o governo lhes fornece e lhes cobra nem muito menos do preço que lhes é cobrado (que, na maior parte das vezes, não é nem mesmo claro).

Segundo, porque o governo que hoje temos (“historicamente construído”, como diriam os intelectuais de esquerda) oferece uma gama de serviços muito grande e a maior parte das empresa e dos indivíduos não usa boa parte desses serviços.

Terceiro, porque as empresas e os indivíduos sabem que o dinheiro pago como imposto ao governo vai ser desperdiçado, mal empregado e mesmo deslavadamente roubado (através da onipresente corrupção que existe em todos os níveis governamentais).

Vou comentar, rapidamente, cada uma dessas razões.

A característica de que as pessoas mais se ressentem no seu relacionamento com o governo é a inevitabilidade. A morte e o relacionamento com o governo, com o conseqüente pagamento de impostos, são as duas coisas que muitos consideram exemplificar a noção de inevitabilidade (“death and taxes…”). Não há como fugir do governo. Posso mudar de país – mas no novo país terei de lidar com o governo. O cidadão é como o pobre do ditado. O pobre, como se dizia em tempos politicamente incorretos, muda de dono, mas não muda de sorte. O cidadão pode mudar de país, mas continua na mesma sina, tendo de se relacionar com um governo.

Em nossas transações, comerciais ou não, com entidades privadas ou pessoas físicas, se não estamos satisfeitos, podemos encerrar a transação, ficar sem um bem ou serviço, ou, então, buscar outro fornecedor. Até o casamento, que, apesar de voluntário, era, uma vez contraído, uma sina da qual só a morte podia nos livrar, é hoje totalmente voluntário, tanto no momento em que é contraído como em qualquer momento subseqüente. Os participantes do contrato nupcial podem hoje, aqui no Brasil, encerrá-lo a qualquer momento, sem precisar invocar falha grave na outra parte, como podem imediatamente, contrair outro matrimonio, sem limite.

No caso de nosso relacionamento com o governo, não. Aqui no Brasil, se não quero usar os serviços educacionais oferecidos pelo governo, posso recusá-los – mas tenho de continuar a pagar por eles! Na verdade, a esquerda quer nos tolher até mesmo a liberdade, que ainda nos resta, de não usar os serviços, ainda que pagando por eles: ela quer que a educação seja um monopólio estatal, que a prestação de serviços educacionais não esteja aberta à iniciativa privada (como hoje garante a Constituição Federal). É isso que está por trás de toda essa campanha que alardeia, nos campus das universidades brasileiras e na mídia, que educação não é mercadoria. Depois de não ter conseguido fazer da educação um monopólio na Constituição, a esquerda tentou caracterizar a prestação de serviços educacionais como “concessão governamental”: entidades privadas podem ser encarregadas dessa prestação, mas não por direito, apenas por concessão governamental (como hoje o governo faz com emissoras de rádio e televisão).

O governo decide, unilateralmente, quais serviços ele vai me prestar, mesmo que eu não precise desses serviços ou não os queira, e que preços eu vou pagar por eles, mesmo não os recebendo. Se não pagar esse preço, o governo tem autoridade para, legalmente, tolher a minha liberdade e confiscar (penhorar) os meus bens.

Da mesma forma que, quando o casamento era, por lei, eterno, o único jeito de se livrar dele era traindo, ou seja, quebrando a lei (o adultério era crime), o único jeito que as empresas e as pessoas, individualmente, têm de não pagar tudo aquilo que o governo quer cobrar delas é sonegando: não têm outra alternativa.

Passemos a discutir agora a segunda razão.

As empresas e as pessoas, individualmente, em geral não sonegam quando os serviços prestados pelo governo são necessários ou desejáveis e o preço é justo. A segurança pública é, na realidade, um desses serviços que as empresas e as pessoas físicas pagariam com gosto, se o preço fosse justo, porque é um serviço necessário e desejável. Governos foram implantados para garantir a segurança das pessoas e de suas propriedades bem como a sua liberdade de se expressar, de se associar, de ir e vir, de buscar a sua felicidade como lhes dê na cabeça (desde que respeitando iguais direitos dos demais).

No entanto, até aqui, naquela função que toda teoria política considera como função governamental essencial (exceção feita aos anarquistas, que se recusam a reconhecer a autoridade de qualquer governo), o governo brasileiro falha – e falha mais, talvez, do que em qualquer outra área! Diante da total ausência de segurança pública no país, em especial nas grandes cidades, as empresas e o povo em geral resolveram tomar a  si a sua própria segurança. Contratam empresas privadas de segurança, ou mesmo seguranças individuais e guarda-costas. Em poucos países cresce tanto a criação de condomínios privados e de blindagem de automóveis.

Mas deixando de lado serviços de segurança pública, pela qual empresas e indivíduos estariam dispostos a pagar, desde que os serviços fossem efetivamente prestados com qualidade e a um preço justo, governos vêm inventando, e o brasileiro está muito longe de ser exceção, uma quantidade enorme de serviços de que boa parte da população não precisa ou não deseja – ou que poderia obter de fontes privadas a um preço mais barato e com qualidade melhor – e, no entanto, por cuja provisão tem de pagar.

Boa parte dos brasileiros não usa os serviços educacionais do governo. Muitos até usariam, se a qualidade fosse boa, já que têm de pagar por eles de qualquer maneira. Mas porque a qualidade dos serviços prestados é péssima, quem tem um pouquinho de recurso extra prefere pagar por serviços educacionais de entidades privadas.

Boa parte dos brasileiros não usa os serviços de saúde do governo. Muitos até usariam, se a qualidade fosse boa, já que têm de pagar por eles de qualquer maneira. Mas porque a qualidade dos serviços prestados é péssima, quem tem um pouquinho de recurso extra prefere pagar por planos de saúde privados.

Boa parte dos brasileiros não têm a menor utilidade para os serviços de seguridade social (especialmente aposentadoria e pensão), até porque, para quem não é funcionário público, esses serviços são ridículos. Todos usam, apesar dos valores ridículos que os aposentados e pensionistas vindos da iniciativa privada recebem, porque ela é obrigatória. Mas porque a qualidade dos serviços prestados é péssima, quem pode pagar um plano de previdência privada, e muitas empresas possuem planos de pensão próprios para suplementar a previdência oficial, estatal.

Boa parte dos brasileiros não usa transporte coletivo urbano – que é subsidiado pelo governo e, por isso, se chama transporte público. Só o utiliza quem não pode comprar e custear um automóvel próprio. É verdade que quando o serviço de transporte público é de qualidade, como é o caso de alguns metrôs brasileiros, mesmo quem tem automóvel o utiliza – embora seja virtualmente impossível utiliza-lo nos horários de pico: é preferível ficar parado dentro do carro nas marginais, pois pelo menos ali, apesar da possibilidade de um assalto, se tem mais privacidade, e as mulheres não têm de se sujeitar às chamadas “encoxadas” e às passadas de mão.

E assim vai. A lista de serviços públicos que o governo oferece, que boa parte da população não usa (por ser de qualidade ruim), e, no entanto, tem de pagar, é interminável – e cresce a cada dia. Diante disso, muitos consideram justo (além de necessário, para a sobrevivência), sonegar. Mesmo sonegando, estão certamente pagando mais para o governo do que recebem dele na forma de serviços.

Quando se compara o chamado “custo Brasil”, ou seja, os impostos que os brasileiros, pessoas jurídicas ou físicas, pagam, com os impostos de outros países vizinhos, como o Chile, dá vontade de mudar para o Chile – e olhem que o Chile não é nem um paraíso fiscal. O que o Chile mostra é que um governo pode subsistir e prestar aos cidadãos serviços básicos de qualidade, a um custo razoável. Quando isso acontece, a sonegação virtualmente desaparece.

Agora, quanto à terceira razão.

O governo brasileiro é incompetente (e, por isso, desperdiça dinheiro pago pelos cidadãos na forma de impostos) e corrupto (e, por isso, rouba, apropria para fins privados, aquilo que deveria estar sendo usado para fins públicos legítimos).

Há várias formas em que o desperdício se manifesta. Todo político eleito para cargo executivo quer “deixar sua marca”. Por isso, em geral abandona obras iniciadas por seus antecessores. Todos nós vemos, o tempo todo, obras públicas abandonadas. Estradas, pontes, viadutos, túneis iniciados e não terminados. Recentemente a imprensa anunciou que, em São Paulo, partes de estações de metrô, que configura quase uma estação completa, foram construídas e nunca utilizadas. Passados diversos anos, em que foram usadas como depósito de material inservível, terão de ser destruídas para que novas instalações sejam construídas – porque mudou a tecnologia de construção de metrôs, mudaram as necessidades, mudaram as prioridades políticas. Edifícios inteiros restam inacabados – durante anos. Às vezes têm de ser implodidos, porque a estrutura, ficando a descoberto, se deteriorou.

Material permanente de toda a sorte é deixado sem uso. Material de consumo é jogado fora. Funcionários levam para casa, como se fossem seus, materiais de consumo, ou mesmo permanentes. Materiais de consumo são adquiridos – lembro-me das famosas toalhas de banho feitas com material importado do Egito no Palácio do Planalto – de qualidade muito acima do que seria necessário. Lulla comprou um avião importado para seu próprio uso quando um avião nacional, bem mais barato, poderia ter sido adquirido – com a vantagem de prestigiar a indústria nacional, e com a única desvantagem de que, em vôos mais longos, seria necessária uma escala ou duas a mais.

Uma empresa, ou uma pessoa física (como o dono de uma empresa), quando vai gastar dinheiro, procura não desperdiçar, porque o dinheiro é seu, e, portanto, ele tem todo interesse em usa-lo o melhor possível. O agente público, quando vai gastar, não gasta dinheiro seu – e, portanto, não tem, em relação ao dinheiro público, aquele cuidado que o agente privado tem em relação ao seu próprio dinheiro. Isso mesmo que não haja a menor suspeita de corrupção, de roubo. Mesmo no caso de despesas legítimas, o agente público não tem incentivos para gastar da melhor forma possível – daí o desperdício.

No tocante à corrupção, o problema é ainda mais sério, pois se trata de roubo, de apropriação indébita, para fins privados e pessoais, de recursos que não pertencem ao governo – e que, em última instância, pertencem ao conjunto dos cidadãos que pagam impostos.

A roubalheira no Brasil é tanta que os diferentes agentes governamentais, que deveriam ser os protetores dos direitos individuais da pessoa, da liberdade e da propriedade do cidadão, vêm se tornando, no Brasil, aos poucos, mas de forma cada vez mais acentuada, a maior ameaça a esses direitos. As empresas e as pessoas têm medo do governo no Brasil, porque vêem o governo, não como o protetor e garantidor de seus direitos, mas como uma ameaça a eles.

O brasileiro em geral não acredita no governo. Nem a velhinha de Taubaté, imortalizada por Luiz Fernando Veríssimo, sobreviveu aos escandaloso do PT. Seu autor a matou – sem pedir desculpas por ter ajudado a eleger o governo que o obrigou a extermina-la. E o brasileiro tem boas razões para não acreditar no governo. Políticos em geral mentem com a cara mais deslavada. Há alguém neste país que acredite que o José Dirceu não sabia de nada do que se passava no PT e no governo? Que Lulla não sabia de nada?

O brasileiro em geral acha que os governantes mentem porque são corruptos. O povo acha que todo político é corrupto, ladrão e sem-vergonha. Muitos acham que o mesmo se aplica a todo funcionário público, desde o mais alto até o mais baixo na hierarquia. O funcionário público não cumpre horário, não trabalha quando está na repartição, considera-se uma autoridade ainda que seja um reles contínuo porteiro, é mal-educado e abusado – é essa a percepção do cidadão. Além disso, é doido por para se apropriar de bens públicos – dos mais valiosos até os lápis, canetinhas, bloquinhos, clipes, post-its, pastas de arquivar, cadernos, papel de impressora e xérox, disquetes, cartuchos de tinta, etc. (Também funcionários de empresas privadas cometem esses pequenos delitos no Brasil, é verdade. Mas a percepção do cidadão é de que o funcionário de uma empresa privada está roubando propriedade de uma outra pessoa, que o cidadão nem conhece – enquanto o funcionário público está roubando coisa comprada com o dinheiro dele, pagador de impostos).

Os brasileiros em geral estão convictos de que políticos roubam, não só porque em geral ficam impunes, mas porque não têm princípios (inclusive morais) nem coerência: como bem o disse o programa Casseta e Planeta, políticos e prostitutas são as duas únicas categorias profissionais brasileiras que mudam de posição por dinheiro.

Mesmo o funcionário público não identificável como político rouba. O brasileiro em geral tem mais medo da polícia do que da bandidagem – até porque vê no policial um pior bandido, posto que disfarçado de autoridade. A promiscuidade existente entre a polícia e a bandidagem no Brasil, se não é única, pelo menos alcança níveis que bandidos de outros países devem considerar invejáveis. No país do jeitinho se ajeita tudo, desde a multa no trânsito (policiais rodoviários têm tão pouco medo de serem flagrados, que fazem blitzes, de que participam vários deles, e que são devidamente coordenadas por um chefe deles, em que aceitam até cheques como propina para não multarem). Fiscais cobram pela não autuação. Juizes vendem sentenças. Todo mundo se admira quando um árbitro de futebol é flagrado vendendo resultados de jogos, que, na opinião do povo, deveriam ser sagrados (pelo menos uma coisa deveria ser sagrada no país!), mas o fato de que juizes foram flagrados vendendo sentenças não causa maior comoção. Promotores públicos usam seus cargos para promover suas agendas pessoais, não raro de natureza político-partidária. Parentes são empregados, com altos salários, por deputados, senadores, membros do judiciário, e por aqueles que exercem cargos executivos. Quem trabalha no gabinete de um político não raro é obrigado a “pagar dízimo” (que, em geral, vai muito além de dez por cento) para quem o contratou – ou para o partido que viabilizou o emprego. E assim vai.

Voltando aos políticos.

Ficou evidente, na crise política em curso, que a campanha política se tornou o meio mais fácil de enriquecimento ilícito no país. Foi revelado ao Brasil aquilo que muitos brasileiros consideravam um mistério. Por que é que um brasileiro competente se sujeita a ganhar, como político, um salário relativamente pequeno diante do que ele poderia ganhar como autônomo ou como empregado de uma empresa particular, e, ainda por cima, ficar “no olho do público”, correndo o risco de ser denunciado por deslizes não só públicos mas privados? Hoje a resposta é evidente. As doações que um candidato viável tem condições de extorquir de empresários interessados em prestar serviços públicos é inimaginável num país com a cultura do Brasil. Embora a legislação limite as doações, e obrigue os políticos a revela-las, o Caixa Dois, que está no centro da crise política, institucionaliza a doação por fora (por baixo, por detrás – usem o eufemismo ou a metáfora que preferirem), não contabilizada. O sujeito presta contas de um valor que fica dentro do legalmente permitido, mas tem pelo menos dez vezes mais que não está contabilizado oficialmente. Desse Caixa Dois, parte pode ser usada para pagar fornecedores que prestaram serviços na campanha. Mas a maior parte, certamente, é embolsada. A corrida por recibos que se viu, há alguns dias, é evidência disso. Os parlamentares não tinham a menor idéia de como o dinheiro do Caixa Dois havia sido gasto.

Mas, todo o Brasil sabe, a corrupção hoje trazida a público não se explica apenas como Caixa Dois de campanha – supostamente justificado por uma legislação antiquada e pouco realista. Um monte de político foi pago pelo governo petista para votar com o governo. Deputados (e, talvez, senadores) foram simplesmente comprados.

De onde veio o dinheiro que permitiu essa compra de votos e de aliados? Em parte, do Caixa Dois do PT. Mas não só. Há outras formas de comprar políticos. As emendas dos parlamentares ao orçamento, que carreiam recursos para obras favoritas e “caridades” de cada um, são apenas as mais conhecidas. No episódio da eleição do presidente da Câmara, que motivou este artigo, foi a mais alardeada – mas certamente houve outras. A nomeação de afilhados é uma delas. Um cargo de ministro gera a possibilidade de multiplicar indicações, de controlar licitações – por isso os políticos se interessam tanto em “apadrinhar” candidatos a um emprego público.

Para concluir: o Lulla e o governo do PT sacramentaram a cleptocracia no Brasil. Roubar escondido é errado e é feio. Mas roubar à luz do dia, de forma aberta e escancarada, é pior – porque desmoraliza não só os indivíduos que roubam, mas as próprias instituições do estado.

Embora as empresas e as pessoas físicas que sonegam impostos não tenham interesse nenhum em alardear o fato, razão pela qual é difícil ter estatísticas confiáveis sobre o fenômeno da sonegação, tenho certeza de que nos meses e anos à frente a sonegação vai aumentar. E esse fato será apenas uma das nefastas heranças que Lulla e o PT terão legado ao país.

Fora com Lulla e fora.com.pt (http://fora.com.pt).

Em algum lugar acima do Polo Norte, entre Chicago e Hong Kong, no dia 30/9/2005 em Chicago e no dia 1/10/2005 em Hong Kong. 

Ronald de Golias – In Memoriam

Sempre gostei do Ronald de Golias como humorista, desde que comecei a ouvir as noveletas que ele e o Carlos Alberto de Nóbrega faziam no Programa Manoel da Nóbrega na Rádio Nacional. A primeira noveleta que ouvi creio ter sido "A Fera do Mar", no início da década de 50.

Está certo que ele recorria à baixaria, que se repetia, etc. Mas era divertido. E autêntico. Preferia ele ao Chico Anísio e ao Jô Soares, como humorista. Nos outros dois nem acho mais graça. Nele, infelizmente, não vou poder mais achar. Vou sentir sua falta.

Em Campinas, 27 de setembro de 2005.