
Já era noite, chuviscava um pouco e, em determinados lugares, a estrada, cheia de curvas, era muito ruim. Mas quando voltávamos, ontem, de Panajachel, ao lado do magnífico lago Atitlan, rodeado de vulcões (http://www.atitlan.net/), numa Hyunday Santa Fé, Les Foltos, Mary Grace Martins, a Paloma e eu conversávamos livremente, misturando Inglês, Espanhol e Português…
Num dado momento, sem qualquer planejamento, a conversa veio a tratar da educação – especificamente, do tipo de aprendizagem que é significativa para crianças em escolas. Mary Grace falava do trabalho que fazia com os alunos em sala de aula e mencionou um artigo (antigo!) que eu escrevi criticando o chamado software educacional e defendendo a tese de que, na escola, os alunos deverm usar os mesmos softwares que adultos usam para trabalhar, se comunicar, se divertir.
Nesse ponto Les Foltos contou uma história interessante. Em 1995, quando a Internet começava a ser usada fora de ambientes universitários, ele ouviu falar de um professor de quarta série, nas cercanias de Seattle, que estava estimulando seus alunos a escrever textos e colocá-los na Internet, para que não só ele, o professor, mas qualquer pessoa os lesse. Contatou esse professor e foi visitar sua sala de aula. Lá presenciou uma cena interessante. O professor cobrou dos alunos a tarefa que havia pedido no dia anterior e uma menininha de nove anos disse que não a havia feito. O professor indagou por quê… Nesse ponto Les esperou que ela desse uma desculpa típica qualquer. Mas ela disse que não havia tido tempo de fazer a tarefa porque estava escrevendo um texto para uma audiência muito maior e mais importante: o mundo inteiro…
Da história e da conversa é possível tirar algumas lições importantes sobre a aprendizagem que é significativa para as crianças – e que a escola deveria ser capaz de propiciar-lhes. E foi isso que fizemos, no restanteda conversa. Eis o resultado (em minhas palavras):
* Crianças querem aprender a fazer coisas que são realmente úteis em suas vidas – em geral coisas semelhantes às que adultos fazem o tempo todo na vida real, como redigir artigos, escrever poemas, compor músicas, produzir vídeos, construir máquinas e outras coisas, resolver problemas diversos;
* Crianças querem aprender a fazer essas coisas usando os mesmos métodos e ferramentas que adultos usam para fazê-las, não uma "versão brinquedo" deles;
* Crianças querem que os trabalhos que fazem sejam lidos, vistos, e usados pela mesma audiência que lê, vê e usa os trabalhos correspondentes feitos por adultos;
* Crianças querem que adultos participem da sua aprendizagem apenas orientando-as e avaliando-as para que os trabalhos que fazem tenha a qualidade necessária para que a audiência almejada deseje lê-los, vê-los e usá-los.
Isso significa que, para propiciar aos alunos uma aprendizagem significativa, a escola não pode ser separada da vida, do dia-a-dia, como se fosse um gueto, mas, pelo contrário, tem de ser parte da vida – da vida real que todos vivemos no cotidiano. Os trabalhos escolares não podem ser produções limitadas que só têm sentido (se o têm) no contexto escolar, realizadas com métodos e ferramentas que adultos nunca usam, lidas e vistas apenas pelo professor… Os alunos querem que a experiência escolar seja parte da vida que já vivem e na qual deverão um dia trabalhar, se comunicar, se divertir, exercer sua cidadania.
Foi por causa de princípios assim que argumentei, em 1987, que o chamado software educacional ou pedagógico é, em geral, um substituto pobre, porque feito apenas para o uso escolar, para os softwares aplicativos normalmente usados na vida diária, como Microsoft Office. As crianças querem fazer coisas semelhantes às que os adultos fazem, usando os mesmos métodos e ferramentas que os adultos usam.
É por causa disso que também tenho argumentado em minhas listas de discussão contra a tentativa de criar hardware (laptops, notebooks) destinados apenas ao uso escolar ou infanto-juvenil. As crianças querem usar computadores como os que os adultos usam, com as mesmas características e configurações. O mérito do tipo de máquina inicialmente proposto por Nicholas Negroponte foi apenas cutucar os fabricantes de laptops e notebooks para que baixassem o preço dos produtos que colocavam no mercado. E esse mérito é considerável. Hoje já é possível comprar, nos Estados Unidos, notebooks de uso profissional pelo mesmo preço que os laptops educacionais estão sendo vendidos no Brasil. Moral da históia: vamos colocar máquinas de verdade nas mãos das crianças, equipadas com o mesmo software que está instalado nas máquinas dos adultos.
É por causa disso que defendo a tese de que, a despeito da importância do computador em si (i.e., desconectado) na educação, a Internet é uma contribuição muito mais significativa para a aprendizagem significativa das crianças: ela tornou possível que os alunos alcancem, com seus trabalhos, uma audiência real no mundo real. Foi a Internet que derrubou as paredes da sala de aula e os muros da escola.
É por causa disso que defendo a tese de que, na escola:
* o aluno deve lidar com problemas reais, que merecem ser resolvidos, e com questões reais, que merecem ser respondidas, algo que só pode ser feito quando a escola usa metodologia de aprendizagem (não de ensino!) que é focada em problemas e baseada em projetos;
* o aluno deve escolher os problemas que deseja tentar resolver e as questões que deseja tentar responder em função de seus interesses e de sua experiência (vide o filme e o livro Céu de Outubro / October Sky);
* o professor deve ser um mentor, um orientador, um facilitador, um avaliador inicial dos trabalhos do aluno, que o ajuda a desenvolver as competências e habilidades necessárias para resolver os problemas e responder as questões que se propõe;
* os trabalhos do aluno devem ser apresentados não só para o professor, mas, sim, para uma audiência mais ampla, que também vai muito além dos pais, e essa comunidade, composta por um público que inclui desde filósofos generalistas até profissionais especializados, deve participar da tarefa de analisar e avaliar esses trabalhos, criando um ambiente amplo de aprendizagem que pode ser caracterizado como uma verdadeira “sociedade aprendente”.
ET 1: O artigo original em que defendi essa tese tem o título de “O que é Software Educacional” e foi publicado em Janeiro de 1987 pela revista Info, que era editada pelo Jornal do Brasil: vide o texto em:
http://chaves.com.br/TEXTSELF/EDTECH/softedu.htm
ET 2: Publico hoje, dia 30 de Setembro, em homenagem ao nono aniversário de meu neto Gabriel. Gabriel: um beijo do vô.
Escrito em Ciudad de Guatemala, 28 de Setembro de 2008 e publicado aqui, a partir de São Paulo, no dia 30 de Setembro de 2008
