A Esquerda mais uma Vez Vai à Luta para Defender Dirceu…

O livro Dirceu: A Biografia, de Otávio Cabral, lançado esta semana pela Editora Record, já começou a causar estrago.

Algumas pessoas que eu chamei (no FaceBook) de “viúv@s do Dirceu”, já encontraram algo para criticar no livro.

Usando um depoimento de Mônica Bérgamo, da Folha de S. Paulo, para tentar invalidar a credibilidade do autor e, a fortiori, o livro inteiro.

o O o

Em várias twitadas em sequência, Mônica Bérgamo afirma o seguinte, em passagem citada em vários posts de esquerdistas no FaceBook:

“O livro de Otavio Cabral sobre Dirceu me cita numa informação que não é verdadeira.

Na pág 335, ele diz que, em dezembro Dirceu me convidou para acompanhar a chegada da polícia em seu apartamento. Falso.

Na verdade, eu propus a seu advogado uma entrevista já que, se fosse preso, Dirceu passaria muito tempo sem poder falar.

Dirceu concordou. Fui à sua casa às 5h da manhã. Eu era a única jornalista na porta.

O ex-ministro me recebeu mas desistiu da entrevista.

Eu imediatamente fiz um relatório à direção do jornal. Propus relatar a cena de Dirceu esperando pela polícia. E isso foi feito.

Otavio Cabral, da Veja, diz que entrevistou 63 pessoas. Não me entrevistou. E deu uma informação completamente errada citando meu nome.”

Fim da citação.

o O o

O livro de Otávio Cabral faz duas referências a Mônica Cabral, já no fim do livro.

Na p.328, diz:

“Os boatos de que poderia fugir do país ganhavam força. Algumas pessoas de seu entorno chegaram a imaginar que se suicidasse, tamanha era sua revolta com os rumos do julgamento. Como explicitaria Clara Becker, sua primeira mulher: ‘Meu medo é que ele se mate na prisão’.

Para tentar dar um fim às especulações chamou a jornalista Mônica Bérgamo, da Folha de S. Paulo, para um café da manhã em 14 de Setembro. As declarações publicadas três dias depois eram incisivas: ‘Essa história que inventaram de que vou sair do Brasil não combina comigo. Saí porque fui expulso do país. Cassaram a minha nacionalidade. Eu era um apátrida, não podia viajar. Quem me impedia de voltar era a ditadura militar. E mesmo assim eu voltei para o Brasil, duas vezes, colocando a minha própria vida em risco. Eu iria embora agora?’ – questionava.”

Na p. 335 diz:

“Em 17 de Dezembro, o julgamento do mensalão foi encerrado. Com a aposentadoria de Ayres Britto, Joaquim Barbosa assumira a presidência da Corte. Na semana seguinte, a Procuradoria-Geral da República pediria a prisão imediata dos condenados. Dirceu se preparou para o pior. Em 21 de Dezembro, arrumou a mochila com roupas, livros e artigos de higiene pessoal, e convidou novamente a jornalista Mônica Bérgamo, da Folha de S. Paulo, para acompanhar uma possível chegada da polícia a seu apartamento. Horas mais tarde, contudo, Joaquim rejeitaria a prisão imediata dos réus.”

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Minhas observações:

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PRIMEIRA OBSERVAÇÃO

Mônica Bérgamo não contesta a primeira referência, de que em 14 de Setembro de 2012 Dirceu a convidou para um café da manhã – e que ela compareceu, tanto que, no dia 17 de Setembro, publicou coluna na Folha de S. Paulo relatando o ocorrido.

Eis o texto da coluna (que é meio piegas, descrevendo a cor da camiseta do Dirceu, o que tomaram no café da manhã, etc. ).

COLUNA DE MÔNICA BÉRGAMO DE 17/09/2012 NA FOLHA

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/1154432-eu-nao-vou-fugir-do-brasil-diz-dirceu.shtml

Parênteses ( ) são do texto; Colchetes [ ] são da Folha ou de Mônica Bérgamo; Chaves { } são minhas – EC.

7/09/2012 – 03h00

‘Eu não vou fugir do Brasil’, diz Dirceu.

‘A burguesia acorda tarde. Eu saí da cama faz tempo e estou morrendo de fome’, diz José Dirceu ao abrir a porta de seu apartamento, em SP, às 9h de sexta-feira.

Réu no processo do mensalão, ele saiu de circulação desde o início do julgamento e há meses recusa todos os pedidos da imprensa brasileira para uma entrevista. Na semana passada, recebeu a coluna {Mônica Bérgamo} para um café. À mesa, suco de laranja, abacaxi, café com leite, pão e frios.

‘Eu não estou deprimido. Eu não tenho razão para estar deprimido. Eu tenho objetivos, metas, sonhos. Eu acordo às seis da manhã todos os dias. Recebo o resumo das notícias que a equipe do meu blog envia. Eles já sabem o que me interessa. Estão comigo há cinco anos. Funcionamos por telepatia.’

‘Eu gasto duas ou três horas lendo toda a imprensa brasileira, no iPad e no meu laptop. Depois, escrevo artigos para o blog.’

‘Estou preparado para qualquer resultado’, diz Dirceu.

*

Dirceu veste camiseta marrom e calça jeans cinza que estão largas em seu corpo. Está mais magro e com os cabelos mais longos do que o habitual. Perdeu 6 kg. Mas afirma que isso não tem nada a ver com o mensalão. ‘Eu faço muita ginástica. Desde 1998, tenho um instrutor.’

*

Recentemente, passou a se exercitar todos os dias. Faz esteira, musculação e alongamento na academia do próprio prédio. ‘Me sinto bem.’

*

A coluna {Mônica Bérgamo} diz que é difícil acreditar que a vida siga tão normal. ‘Muita gente me visita. Não tem um dia em que não venham duas, três pessoas me ver, aqui ou na minha casa em Vinhedo.’

*

O escritor Fernando Morais, o produtor Luiz Carlos Barreto e o líder do MST, João Pedro Stédile, estão entre as visitas. O ex-presidente Lula liga um dia sim, um dia não, para saber como ele está. ‘Não me falta companhia.’

*

O julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) entra na reta final. A condenação de Dirceu parece certa. Até seus interlocutores próximos admitem a possibilidade. As penas máximas para os crimes de que é acusado chegam a 15 anos. A Folha revelou que ele já conversou com o ex-presidente Lula sobre a hipótese de ser preso.

*

‘Que nada, isso não aconteceu’, diz. ‘Não é que não tem prova no processo contra mim. Eu fiz a contraprova. Eu sou inocente. Eu confio na Justiça.’ Ele diz saber que, mesmo absolvido, ‘isso não vai acabar. Em sete anos [desde que estourou o escândalo], eu não tive a presunção da inocência. Por que vou ter a ilusão de que isso vai ocorrer, mesmo que eu seja considerado inocente pelo Supremo?’

*

A coluna {Mônica Bérgamo} pergunta de novo se, ainda que insista em dizer que confia na Justiça, ele nunca pensa na hipótese de ser condenado e preso.

*

‘Isso daí [resultado do julgamento] vai demorar dois meses para acontecer. Vou ser julgado por corrupção ativa no fim do mês ou no começo de outubro. Em mais quatro semanas, serei julgado por quadrilha. Por que vou sofrer por antecipação? Na hora em que acontecer, vou ver o que fazer.’

*

‘A expectativa que eu tenho? Eu fui cassado pela Câmara dos Deputados [em 2005] sem provas. De lá para cá, eu sofri um linchamento como corrupto e quadrilheiro. Eu estou preparado para qualquer resultado.’

**

‘E não vou deixar de fazer o que sempre fiz, que é lutar. É ilusão achar que eu vou… não faz parte da minha personalidade eu me abater. Se alguém tem a ilusão de que, me condenando, cometendo essa violência contra mim, vai me derrubar, pode tirar o cavalinho da chuva.’

*

Dirceu diz que só dará entrevista sobre o mérito do caso depois do julgamento.

*

Não quer também comentar a hipótese de o publicitário Marcos Valério, já condenado à prisão por vários crimes, ‘explodir’ no caso de ser preso. ‘O advogado desmentiu [declarações que Valério teria dado a terceiros acusando o ex-presidente Lula de participar do esquema]. Não tenho o que comentar.’

*

Diz que a sua principal intenção, na conversa, é afirmar que está bem e que não vai fugir do país para não ser preso caso seja condenado.

*

‘Essa história que inventam de que vou sair do Brasil não combina comigo’, afirma o ex-ministro.

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‘Saí [na década de 60] porque fui expulso do país. Cassaram a minha nacionalidade. Eu era um apátrida, não podia viajar. Quem me impedia de voltar era a ditadura militar. E mesmo assim eu voltei para o Brasil, duas vezes, colocando a minha própria vida em risco. Eu iria embora agora?’

*

‘O PT tem defeitos. Mas se tem algo que não conhecemos no PT é a palavra covardia. A chance de eu fugir do Brasil é nenhuma. Zero.’ ”

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SEGUNDA OBSERVAÇÃO:

Há uma divergência entre o que afirma Otávio Cabral e o que alega Mônica Bérgamo.

Cabral diz que, em 21/12/2012, Dirceu  “convidou novamente a jornalista Mônica Bérgamo, da Folha de S. Paulo, para acompanhar uma possível chegada da polícia a seu apartamento.”

Bérgamo afirma, agora, que essa informação de Cabral é “falsa” e “errada”. Ela alega, agora, que o que aconteceu foi o seguinte: “eu propus a seu advogado {de Dirceu} uma entrevista já que, se fosse preso, Dirceu passaria muito tempo sem poder falar. Dirceu concordou. Fui à sua casa às 5h da manhã. Eu era a única jornalista na porta. O ex-ministro me recebeu mas desistiu da entrevista.”

Há uma divergência, sem dúvida, mas ela é mínima: trata-se única e exclusivamente de determinar se Dirceu convidou Bérgamo ou se ela se ofereceu para ir à casa dele na madrugada (às 5h da manhã) do dia 21/12/2012. Só isso.

No restante, não há nenhum reparo a fazer ao relato de Cabral acerca do segundo encontro de Dirceu e Bérgamo. NENHUM.

E convenhamos.

Primeiro, Dirceu já a tinha convidado uma vez para ir até à casa dele, de manhã, para tomarem café juntos. Isso ela não nega – pelo contrário, admite no texto da Folha.

Segundo, a própria jornalista reconhece que, da segunda vez, ela era a única jornalista presente – algo de esperar, se o convite tivesse sido novamente dele…

Terceiro, pode muito bem ter se dado que, como ela firma, a ideia de um encontro na casa dele tenha inicialmente sido dela, via o advogado dele… A concordância dele, porém, necessária para o encontro, faz muito bem as vezes de um convite. Na matéria que Bérgamo publicou na Folha no dia seguinte (vide abaixo) ela afirma, textualmente, que “Dirceu autoriz[ou] a [sua] subida” até seus aposentos. Autorizar, nas circunstâncias, é virtualmente o mesmo que convidar…

Quarto, o texto que Bérgamo publicou na Folha no dia seguinte, 22/12, corrobora o fato de que ela ficou lá um bom tempo e que, na realidade, Dirceu lhe deu uma mini-entrevista. Só não deixou que ela a gravasse, como aparentemente havia feito na primeira ocasião.

Eis o texto (que de novo é piegas: Dirceu abre apenas uma fresta da porta, pede tempo para trocar de roupa; novamente se cita a cor de suas roupas, agora a da calça e a da camiseta; etc.):

REPORTAGEM DE MÔNICA BÉRGAMO DE 22/12/2012 NA FOLHA

http://www1.folha.uol.com.br/poder/1205255-dirceu-tem-momentos-de-tensao-a-espera-da-policia.shtml

Parênteses ( ) são do texto; Colchetes [ ] são da Folha ou de Mônica Bérgamo; Chaves { } são minhas – EC.

Folha de S. Paulo, 22/12/2013 – 05h05

“22/12/2012 – 05h05

Dirceu tem momentos de tensão à espera da polícia

MÔNICA BERGAMO

COLUNISTA DA FOLHA

O interfone tocou ontem às 5h30 da manhã na casa do ex-ministro José Dirceu, na Vila Mariana, em São Paulo.

Um de seus advogados, Rodrigo Dall’Acqua, e a Folha {i.e., Mônica Bérgamo} pediam para subir.

O porteiro hesita. ‘Como é o seu nome? Ele [Dirceu] não deixou autorização para vocês subirem, a gente não chama lá cedo assim.’ Ele acaba tocando no apartamento do ex-ministro, ninguém atende. Dall’Acqua liga para o advogado José Luis Oliveira Lima, que está a caminho. Telefonemas são trocados, e Dirceu autoriza a subida.

Na saída do elevador, o ex-ministro abre a porta de madeira que dá para o hall. Por uma fresta, pede alguns minutos para se trocar.

Abre a porta.

Pega a Folha entre vários jornais sobre uma mesa. Comenta algumas notícias. Nada sobre a possibilidade de Joaquim Barbosa, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), decretar a sua prisão ainda naquela manhã.

INTUIÇÃO

Está de camiseta preta e calça jeans cinza.

Senta no sofá da sala. A empregada ainda não chegou. Ele se desculpa. Não tem nada o que servir.

‘Eu não vou dar entrevista para você, não’, diz à colunista da Folha {Mônica Bérgamo}. ‘Podemos conversar, mas não quero gravar. Não estou com cabeça. Dar uma entrevista agora, sem saber se vou ser preso? É loucura, eu não consigo.’

E, diante da insistência: ‘Estou com uma intuição, não devo dar’.

Em poucos minutos, chegam o advogado Oliveira Lima, três assessores e uma repórter que trabalha no blog que o petista mantém.

Dirceu pega o seu iPad.

‘Acho que eu vou lá [no escritório do apartamento] fazer um artigo para o blog. Mas falar sobre a situação econômica do Brasil, gente? Hoje? Eu não estou com cabeça.’

HORA MARCADA

Os advogados alertam: se houver ordem de prisão, a polícia deve chegar em meia hora, às 6h. Se até as 7h nenhuma viatura aparecer, é porque eventual ordem só sairia mais tarde. Ou então Barbosa não decretaria a prisão (o que acabou ocorrendo).

A Folha {Mônica Bérgamo} questiona se ele já tinha preparado a mala para ir para um presídio. ‘Eu não. Eu fui procurar, estou sem mala aqui. Achei uma mochila esportiva. Depois o Juca [o advogado José Luis Oliveira Lima] leva as coisas para mim. Ele vai ser a minha babá.’ No primeiro momento, só os advogados podem visitar o detento.

‘Os policiais dão um tempo para a pessoa se arrumar [antes de levá-la presa]’, explica Oliveira Lima.

Dirceu diz acreditar que Joaquim Barbosa não determinará a sua reclusão. ‘Ele não vai fazer, ele estaria rasgando a Constituição.’

Diz que não está com medo da prisão. ‘Eu me organizo. Eu vou voltar a estudar. Vou fazer um mestrado, alguma coisa. E tenho que imediatamente começar a trabalhar na prisão. Até para começar a abater da pena.’

‘Se eu for para [a penitenciária de] Tremembé 2 [no Vale do Paraíba], dá para trabalhar.’ O presídio ofereceria as condições necessárias.

‘Eu não sou uma pessoa de me abater. Eu não costumo ter depressão. Mas a gente nunca sabe o que vai acontecer. Uma coisa é falar daqui de fora, né? A outra é quando eu estiver lá dentro. Eu posso ter algum tipo de abatimento, sim, de desânimo. Tudo vai depender das condições da prisão. Às vezes elas são muito ruins, isso pode te abater muito.’

LEITURA

Dirceu ainda não sabe se, na cela, terá acesso a livros, jornais, iPad. ‘A lei permite, para o preso trabalhar e estudar. Tem gente aí até querendo mudar essa lei. Foi aprovada proibição no Senado, o PT bloqueou na Câmara.’

Se puder acessar publicações, acredita que o tempo passará mais rápido. ‘São 33 meses. Não é fácil.”

Analisa que poderá ser colocado numa cela com outro preso. “Isso pode ser bom, mas pode ser ruim também. Vai depender da pessoa.’

ESCOLA DO CRIME

Diz que não tem medo de sofrer eventual violência no presídio. ‘Mas em termos. É um ambiente de certo risco.’

Acha que o sistema carcerário nunca vai melhorar. ‘Isso não é prioridade de nenhum governo, nem dos governos do PT’, afirma.

‘Nenhum governo nosso se preocupou com essa questão, nenhum Estado se preocupou em ter um sistema modelo. É caro, não tem dinheiro. O governo federal é que deveria dar os recursos. Nós [no governo Lula] fizemos, construímos os presídios federais para isolar os presos de maior periculosidade. Tinha que fazer, senão virava uma escola do crime.’

Os advogados consultam o telefone, os assessores leem jornais e a internet em busca de alguma pista sobre a decisão que Joaquim Barbosa em breve tomará.

‘OI, BONITINHA’

‘Se ele [Barbosa] mandar me prender, vai pedir para que nos apresentemos, vocês não acham?’, pergunta Dirceu aos advogados. ‘Não vão mandar polícia aqui, eu acho que ele vai dar algumas horas para eu me apresentar em algum lugar.’

Atende o celular. ‘Oi, bonitinha. Você vem aqui me visitar?’ É Evanise Santos, sua companheira, que estava em Brasília porque não tinha conseguido lugar no avião na noite anterior. Ela avisa que já está embarcando para SP.

‘Para mim é uma tragédia ser preso aos 66 anos. Eu vou sair da cadeia com 70. São mais de três anos. Porque parte [da pena] é cumprida em regime fechado, mas depois [no semiaberto] vou ter que dormir todos os dias na cadeia. Sabe o que é isso?’

‘Eu perdi os melhores anos da minha vida nesses últimos sete anos [em que teve que se defender das acusações de chefiar a quadrilha do mensalão]. Os anos em que eu estava mais maduro, em que eu poderia servir ao país’, diz.

LUTA POLÍTICA

‘Eu transformei isso [mensalão] em uma luta política. Eu poderia ter ganhado muito dinheiro como consultor. Poderia estar rico, ter ganhado R$ 100 milhões. Mas é por isso que eu sou o José Dirceu. Tudo o que eu ganhei eu gastei na luta política.’

Ele avisa à Folha {Mônica Bérgamo} que o presidente do PT, Rui Falcão, chegará às 7h. E que terá que interromper a conversa.

‘Eu sugeri a eles que fizéssemos uma manifestação em fevereiro, colocando 200 mil pessoas na rua’. ‘Eles’ são o ex-presidente Lula e dirigentes do PT. Acha que nem todos ‘da esquerda’ fazem a avaliação correta sobre ‘a disputa política em curso’. ‘É preciso dar uma demonstração de força.’

A disputa, no seu entendimento, incluiria a desqualificação não só de petistas, mas da política de forma geral.

CLICHÊ

‘Sempre foi assim. Parece clichê, mas em 1954 [quando Getúlio Vargas se suicidou] foi assim, em 1964 [no golpe militar] foi assim. Era a guerra contra a subversão e a corrupção. Depois entrou a Arena [partido que apoiou a ditadura]. Aí sim foi tudo à base de corrupção.’

Ele acha que o PT falhou ao não estimular, nos últimos anos, uma “comunicação e uma cultura” de esquerda no país. ‘Até nos Estados Unidos tem isso, jornais de esquerda, teatro de esquerda, cinema de esquerda. É uma esquerda diferente, deles, mas que é totalmente contra a direita. Aqui no Brasil não temos nada disso.’

A classe média está ‘vivendo num paraíso, e isso graças ao Lula’. Mas, ao mesmo tempo, está sendo ‘cooptada’ por valores conservadores.

Já disse a Lula que ‘o jogo pode virar fácil. Nós [PT] não temos a maioria, a esquerda ganha eleição no Brasil com 54% dos votos’.

‘É preciso trabalhar. A esquerda nunca teve uma vida tranquila no Brasil nem no mundo. Nunca usufruiu das benesses do poder.’

GRAMPOS

‘De 1889 a 1946, o poder era militar. Tudo era decidido por tenentes e depois pela cúpula militar. Depois, o país viveu seu período político, mas sempre sob tutela militar, até o golpe de 64. Só em 1989 retornamos [civis]. É tudo muito recente’, diz.

‘Ninguém hoje vai bater nos quartéis. A situação é outra: a esquerda ganha [eleição], mas não tem o poder midiático, o poder econômico. E nós [PT] nunca fizemos política profissional nas indicações do Judiciário, no Ministério Público, como outros governos fizeram. Nunca.’

Ele segue: ‘O Ministério Público e a polícia com esse poder, esses grampos… isso está virando uma Gestapo. Quando as pessoas acordarem, pode ser tarde demais.’

NATAL

Para Dirceu, a maioria dos empresários não apoia o que seriam investidas contra Lula e o PT. Teriam medo de uma crise política, com manifestações e greves combinadas com uma situação econômica mais delicada.

E o empresário Marcos Valério, pode atingir Lula com suas acusações? ‘Esquece. Nem a mim ele conhece direito. Nunca apertei direito a mão do Marcos Valério.’

Os advogados o chamam na varanda. Dirceu em seguida diz à Folha que precisa encerrar a conversa. Ele ainda esperaria sete horas até que, às 13h30, Barbosa divulgasse que não mandaria prender os réus ontem. Fez as malas e foi passar o Natal na casa da mãe em Passa Quatro (MG).”

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MORAL DA HISTÓRIA

O pessoal de esquerda, que eu chamei de “viúv@s do Dirceu”, alegaram o seguinte:

Antonio Morales, no FaceBook, afirma (sem ter lido o livro): “Isso basta para por abaixo a credibilidade do autor. Quem garante que se mentiu nisso, não mente muito mais?”

Wilson Azevedo, também sem ler o livro, apenas com base na afirmação de Bérgamo, afirma no FaceBook: “Isto da’ uma ideia da credibilidade do livro” – e cita o depoimento atual de Bérgamo. Mais abaixo ele diz que o livro de Cabral está “mais para ficção que para biografia”.

O pessoal é rápido em tirar conclusões sobre um livro que não leu, não é verdade?

O livro tem 343 páginas. Com base em uma pequena inexatidão (se é que foi isso – é a palavra de um contra a do outro, e Cabral ainda não foi ouvido acerca da “acusação” de Bérgamo), a esquerda conclui que o autor não tem credibilidade e que não passa de ficção.

POSTSCRIPTUM 1:

O site 247 diz:

“O caso tem potencial para criar um pequeno barraco na Folha de S. Paulo, onde outra das principais colunistas, a jornalista Vera Magalhães, é casada com Otávio Cabral. No Twitter, ela e Cabral costumam trocar juras de amor. Até agora, Vera, que edita o Painel, não se manifestou sobre o erro apontado pela colega Mônica Bergamo no livro do maridão.”

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/104657/Bergamo-aponta-falha-na-biografia-de-Dirceu.htm

POSTSCRIPTUM 2:

O site 245 havia publicado isto cerca de 21 dias atrás, em 16/05/2013:

“BIOGRAFIA DE DIRCEU POR EDITOR DE VEJA É ENGAVETADA

Editora teme processo pela lei do direito à reserva da vida privada; “Cada linha do livro poderia ser provada. É absolutamente frustrante e algo que não ocorre em outros países democráticos. Aqui tudo é proibido. Histórias fantásticas não poderão ser contadas no Brasil”, protesta a Maria João Costa, editora-executiva da LeYa; a obra é assinada por Otávio Cabral, jornalista da revista Veja.

16 DE MAIO DE 2013 ÀS 06:05

 247 – A obra assinada por Otávio Cabral, jornalista da revista Veja, que conta a história de José Dirceu nunca será publicada. Pela decisão da editora LeYa, o livro ficará na gaveta por temor à lei do direito à reserva da vida privada. Leia a informação de Mônica Bergamo, da Folha:

EFEITO ROBERTO

A editora LeYa decidiu engavetar livro sobre a vida de José Dirceu que publicaria ainda neste ano. Motivo: a lei brasileira que proíbe o lançamento de biografias sem a autorização do biografado seria tão drástica que poderia gerar multas e punições que colocariam em risco a própria existência da empresa no país. O parecer foi dado pelo departamento jurídico da editora portuguesa.

FORO ÍNTIMO

“Não houve ameaça do José Dirceu. Nós é que tivemos dúvidas e decidimos consultar advogados. Mas o direito à reserva da vida privada é considerado absoluto no Brasil, o que faz com que seja impossível publicar livro sobre qualquer personagem histórico do país”, diz Maria João Costa, editora-executiva da LeYa. “Até personagens secundários citados em fatos irrelevantes poderiam processar a editora.”

DÁ UM FILME

A obra é assinada por Otávio Cabral, jornalista da revista “Veja”. “Cada linha do livro poderia ser provada. Já tínhamos comprado os direitos”, diz a executiva. “É absolutamente frustrante e algo que não ocorre em outros países democráticos. Aqui tudo é proibido. Histórias fantásticas não poderão ser contadas no Brasil.” Como a vida de Dirceu, que, segundo Maria João Costa, “é digna de cinema”.

NA GAVETA

Entre os precedentes que assustam a LeYa estão a vitória do cantor Roberto Carlos, que já conseguiu recolher e incinerar a edição de um livro sobre sua vida, e o processo que o dono de uma academia de boxe moveu contra editora que lançou a biografia de Anderson Silva.”

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/102047/
Alguém comeu bola, não? O texto foi publicado pela Record.
Em São Paulo, 8 de Junho de 2013

Ainda o Casamento entre Homossexuais

O termo “casamento” tem sentidos diferentes em várias “comunidades de sentido”.

Para a Igreja Católica, e para os legisladores brasileiros até 1977, influenciados pela tradição católica, casamento era uma união INDISSOLÚVEL (a não ser pela morte de um deles) entre UM HOMEM E UMA MULHER. Se um dos dois morresse, a união estaria desfeita, e o que ficava poderia se casar de novo.

Algumas religiões vão além. O casamento, para eles, é uma união INDISSOLÚVEL E ETERNA entre UM HOMEM E UMA MULHER. Neste caso, nem a morte os separa — isto é, nem a morte dissolve o casamento. Quem ficar, está obrigado a manter-se fiel ao cônjuge morto, vivendo sozinho, até que a sua morte lhe torne possível continuar o casamento com seu cônjuge na eternidade.

Os Muçulmanos, por sua vez, defendem a POLIGAMIA (do homem), permitindo que UM HOMEM se case, ou melhor, esteja casado, com VÁRIAS MULHERES, ao mesmo tempo, sem esperar que uma morra, ou sem precisar de alguma forma se separar dela, para se casar com outra.

Para ateus e para membros de religiões menos exigentes ou mais liberais, o casamento era uma UNIÃO, regida por CONTRATO, entre um HOMEM e uma MULHER que poderia ser desfeito, nos termos da lei, nada impedindo que os ex-contratantes celebrassem novo contrato com outras pessoas.

As situações em que o divórcio era possível eram bastante estritas no passado. Na própria Bíblia se admite o divórcio em caso de adultério, por exemplo. Mas essas situações foram se ampliando até o que são hoje, em que o “desamor”, ou o fim do amor, ainda que apenas de um dos cônjuges, é causa suficiente (embora não necessária) para o divórcio. (Que não é causa necessária é evidente: quem quiser continuar casado, mesmo sem amor, pode).

Mais recentemente, a partir do reconhecimento por parte das sociedades (principalmente ocidentais) de que a homossexualidade é um fenômeno muito mais generalizado do que se imaginava, do reconhecimento, na jurisprudência, de que relacionamentos estáveis entre homossexuais geram efeitos jurídicos (direito a pensão, participação em herança, etc.), e reconhecimento do fato inegável que os envolvidos demonstram claramente o desejo de que esses relacionamentos sejam rotulados de CASAMENTO (palavras são importantes — mais sobre isso adiante), muitos países (ou estados, no caso de confederações mais descentralizadas), passaram a reconhecer o direito de homossexuais se casarem, no pleno sentido legal do termo. O casamento, no caso, deixa de ser entre UM HOMEM E UMA MULHER e passa a ser entre DUAS PESSOAS, independentemente de seu sexo, em reconhecimento de que, no caso desse tipo de contrato, o sexo das partes é irrelevante. Um “casal”, nesse caso, passa a ser dois parceiros comprometidos em união estável, independentemente de seu sexo.

Essa evolução tem caminhado em paralelo com uma outra, igualmente importante, que tornou a primeira bem mais plausível do ponto de vista jurídico.

Deixando de lado razões religiosas ou teológicas, a principal razão para se considerar que o casamento precisava ser entre UM HOMEM E UMA MULHER é que se acreditava que a principal, se não a única, função do casamento era procriar. Entre os gregos cultos, por exemplo, entre os quais muitos filósofos respeitados até hoje, a mulher não era igual ao homem. Ela servia apenas para que o homem gerasse filhos e tivesse uma descendência. Ficava apenas um pouco acima dos animais, porque, afinal de contas, era capaz de comunicar-se linguisticamente e através de outros comportamentos simples que requerem (alguma) inteligência. Como o amor, no entender dos gregos, só podia ter lugar entre iguais, o amor era, necessariamente, homossexual – na verdade, o amor pleno aconteceria apenas entre homens.

Em parte com o surgimento do Cristianismo, mas plenamente só depois do Iluminismo, a mulher gradativamente conseguiu um status de igualdade com o homem – embora mesmo um país em certos sentidos “prafrentex” como a Suíça apenas lhe tenha dado direito de voto em 1947.

Foi só a partir da pílula anticonceptional e de outros métodos contraceptivos eficazes e relativamente simples, como o Dispositivo IntraUterino (DIU), que se tornou claro e evidente que poderia tranquilamente haver casamentos sem nenhuma intenção procriativa – apenas para apoio e prazer mútuo, inclusive o prazer que o sexo descontraído evidentemente traz, mesmo que envolva comportamentos ou ações que não exigem a penetração de uma vagina por um pênis.

Métodos de concepção que não envolvem a relação sexual e bancos de esperma permitiram também que mulheres produzissem filhos “autonomamente”, fora do casamento, novamente, sem a penetração de uma vagina por um pênis.

Separou-se, assim, de um lado e de outro, o elo que ligava o casamento e a procriação eliminando daquele a necessária relação sexual digamos convencional.

Se, porém, um homem e uma mulher podem se casar mesmo que não queiram e não contemplem ter filhos, simplesmente pelo prazer de estar juntos e de se apoiarem mutuamente, por que não duas pessoas do mesmo sexo?

Se, entre duas pessoas, há união afetiva e relacionamento estável e duradouro, e o casamento não tem mais, como única ou mesmo principal função, gerar prole por meios convencionais (em cujo caso a presença de um homem e de uma mulher era necessária), por que continuar negando aos homossexuais o direito de ter o seu relacionamento afetivo reconhecido como casamento, posto que o sexo biológico diferente dos envolvidos não é mais um componente essencial da relação matrimonial?

Quanto a palavras. Nossa sociedade brasileira não nega o direito aos heterossexuais que apenas vivem juntos sem se casarem de, querendo, se denominarem marido e mulher. Mesmo sem ter se casado legalmente, todo mundo que vive junto diz “esta é minha mulher”, “este é meu marido” — e se diz e considera casado.

Nos EUA as pessoas não legalmente casadas uma com a outra são mais cuidadosas na linguagem que usam: geralmente se referem à outra como “partner”, “significant other (SO)”, etc.

Mas aqui no Brasil, ninguém, nessas situações, se refere à sua mulher ou ao seu marido como “amásia/o”, “amante”, muito menos “concubina/o”, “parceira/o”, “companheira/o” (este último sendo o termo que a lei usava até há pouco tempo). Os costumes aqui, inclusive os linguísticos, são mais liberais.

Só para dar mais um exemplo. Nos EUA, quem tem 1/64 (que seja) de ascendência negra, é negro, mesmo que, em aparência, seja louro. Aqui no Brasil a gente deixa a pessoa se rotular se é branca, preta (sic), parda, etc. Se a pessoa se acha branca aqui, é branca, acabou. Se se acha preta, seja apenas para fins de cotas, é preta, acabou.

Outro exemplo… Houve época, aqui no Brasil, em que “pastor” era alguém formado em um curso regular de Teologia de pelo menos três ou quatro anos. Hoje, quem quer se chamar pastor (ou até bispo, apóstolo, etc.), se chama assim e é chamado assim, sem maiores controvérsias.

Nesse contexto, não vejo nenhuma justificativa (a não ser religiosa ou teológica) para se recusar o termo CASAMENTO à união estável de homossexuais, se eles querem que seu relacionamento seja assim enquadrado, linguística e legalmente.

É isso.

Em São Paulo, 19 de Maio de 2013, levemente revisado em Salto, 6 de Abril de 2017

O Casamento entre Homossexuais

Artigo no Herald Tribune, mal escrito ou traduzido no site do UOL (http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2013/04/08/opiniao-a-mudanca-do-significado-do-casamento.htm), levanta uma questão interessante, a propósito dos argumentos recentemente apresentados na Suprema Corte americana acerca do casamento de homossexuais.

A visão do casamento como uma união entre um homem e uma mulher para constituir família (ter filhos e cria-los) já foi há muito abandonada. O casamento passou a ser uma forma de regulamentar o relacionamento afetivo entre duas pessoas, relacionamento esse destinado puramente a atender suas necessidades emocionais e práticas.

Muitos casais heterossexuais se casam com a decisão de não ter filhos (sem falar no casamento de mulheres que já passaram da idade reprodutiva ou que, por alguma razão, são inférteis), muitas mulheres resolvem ter filhos fora do casamento (por inseminação artificial ou através de relacionamentos casuais), casais em geral não se separam apenas porque não podem ter (mais) filhos, etc.

Diz o jornal:

“Os defensores do casamento de mesmo sexo argumentaram no tribunal que era injusto e inconstitucional impedir os casais gays de se casarem por esse motivo [por não poderem procriar], quando muitos casais heterossexuais se casam puramente para atender suas próprias necessidades. ‘ Negar aos gays e lésbicas o direito de se casarem não aumenta a probabilidade dos casais de sexo oposto, capazes de procriar, decidirem se casar ‘, eles argumentaram. A Constituição protege o direito de todos os indivíduos heterossexuais – incluindo os inférteis, os idosos e os presos – de se casarem, independente de sua capacidade ou desejo de procriar.”

“Os oponentes do casamento de mesmo sexo reconhecem que o casamento já está sendo redefinido na direção ‘ conjugalista ‘, independente do que acontecer com os gays. ‘ Certamente, surgiu nos últimos anos um conceito de casamento que retira a ênfase da procriação responsável e dos interesses dos filhos em prol da realização pessoal e dos desejos dos adultos ‘, escreveram em sua argumentação os oponentes do casamento de mesmo sexo. Afinal, um número sem precedente de crianças americanas nasce atualmente de mães não casadas, o número de divórcios continua alto e um grande número de casais heterossexuais opta por não ter filhos.”

“Diante desses fatos, é difícil culpar os gays de mudarem o foco do casamento. A posição mais comedida poderia ser que a permissão dos casamentos de mesmo sexo proclamaria na forma de lei uma mudança que há muito está entre nós, mas cuja prática espreitava nas sombras até agora.”

” ‘Ao redefinir o casamento, a lei ensinaria que no casamento trata-se fundamentalmente de uniões emocionais de adultos, não de uma união da carne ou de filhos ’, escreveram os acadêmicos Robert P. George, Sherif Girgis e Ryan T. Anderson em 2010, em um trabalho acadêmico citado em um dos casos. Eles acrescentaram: ‘As pessoas deixariam cada vez mais de ver os motivos intrínsecos para se casarem ou para permanecerem com um cônjuge na ausência de um sentimento consistentemente forte ’ “.

(Tradutor: George El Khouri Andolfato)

Ao transcrever o texto acima em meu perfil no Facebook, recebi o seguinte comentário (de Allan Ribeiro):

A questão é que ninguém precisa de casamento para ter um relacionamento afetivo sério e até duradouro. Este argumento tão sólido tem pés de barro.”

Retorqui dizendo: 

Que não é necessário casamento para haver um relacionamento afetivo sério e duradouro entre duas pessoas (de sexo diferente ou do mesmo sexo) não está em questão. A questão é se alguns relacionamentos afetivos vão ser excluídos da proteção da lei que regula o casamento — e, se vão ser, com base em que tipo de consideração.

O texto acima argumenta que, por um bom tempo, se argumentava, até mesmo no plano jurídico (sem entrar no plano religioso), que o casamento era uma instituição destinada a permitir que casais (heterossexuais: um homem e uma mulher) pudessem ter filhos e cria-los. Recentemente essa aparentemente deixou de ser a finalidade precípua do casamento. Pessoas heterossexuais se casam sem a intenção (ou até mesmo sem a possibilidade) de ter filhos, pessoas (inclusive casais heterossexuais que mantêm relacionamento afetivo duradouro têm filhos fora do casamento (i.e., sem sentir a necessidade de casar), mulheres solteiras têm filhos por inseminação artificial ou, intencionalmente, por relacionamento casual, etc.

Ou seja: o casamento acabou se tornando uma instituição a que as pessoas recorrem para inserir o seu relacionamento afetivo duradouro, com a finalidade de atender às necessidades emocionais um do outro, dentro de uma estrutura jurídica que regula as responsibilidades mútuas, a posse de bens, herança, o direito a pensão, etc.

Se a finalidade do casamento passou a ser essa, porém, por que negar esse benefício jurídico aos casais homossexuais?

No plano religioso, cada religião dispõe do casamento como houver por bem — i.e., como achar melhor: inclusive especificando que, quando realizado na igreja / sinagoga, etc, por um sacerdote / pastor / rabino, etc. o casamento é um sacramento, ou com validade até que a morte os separe, ou, como preferem os Mórmons, com validadade eterna, até depois da morte, no céu ou no inferno (algo que outros cristãos em geral não aceitam).

Falando dos Mórmons, por um tempo eles permitiam a monogamia, no plano religioso, mesmo sendo ela proibida, no plano jurídico (nos EUA). Essa dissonância entre a atitude ao casamento no plano da religião e o ordenamento jurídico das relações afetivas duradouras através da instituição do casamento existe, portanto, há muito tempo.

Aliás, nem é preciso recorrer aos Mórmons. Católicos e alguns Protestantes Fundamentalistas têm, sobre o casamento, ao não admitir o divórcio e o recasamento, visão diferente daquela adotada pela legislação brasileira.

Em São Paulo, 9 de Abril de 2013

Yoaní Sánchez e a Esquerda Fascistóide Brasileira

Nós brasileiros tínhamos a fama de ser um povo cordial e hospitaleiro, pronto a receber e a tratar bem os estrangeiros, mesmo sem saber falar a língua deles direito.

Na verdade, demos asilo, recentemente, a um italiano condenado por quatro assassinatos que fugiu para cá. Continua vivendo em nosso meio, sem ser molestado.

Agora aportou aqui Yoani Sánchez, a blogueira cubana que vem, quase sozinha, desafiando a ditadura dos irmãos Castro. Nós vivemos 20 anos de ditadura e temos horror à coisa. Os cubanos, coitados, estão há mais de 50 anos com a deles, que é pior do que a nossa foi. Yoani e o seu blog vem revelando ao mundo o que se passa em sua terra. A recente microabertura de Raúl Castro lhe permitiu conseguir um passaporte e sair do país. O Brasil é o primeiro país que ela visita nessa viagem.

Somos,  além de um povo cordial e hospitaleiro, com qualquer um, um povo amante da liberdade. Era de esperar que a guerreira pela liberdade vinda de Cuba fosse acolhida aqui de braços abertos pela população, pela mídia, pelos políticos que um dia lutaram pelo fim da nossa ditatura e pela restauração da liberdade aqui.

Mas que nada. Com o beneplácito de personagens importantes de nosso governo, parte da esquerda mais radical, fascitóide, se prestou a encenar um enredo escrito na Embaixada de Cuba no Brasil e foi declarar a Yoani mal-vinda, vaiando-a, impedindo-a de se locomover, de falar, de ver o documentário que foi feito sobre ela…

A nossa assim chamada oposição está quieta. Deveria estar ao lado de Yoani dando-lhe apoio e impedindo que esses trogloditas brucutus da esquerda mais retrógrada ocupassem os holofotes, mostrando ao resto do mundo quão rudes somos com nossos visitantes – e isso às vésperas da Copa das Confederações, da Copa do Mundo, da Olimpíada.

A nossa pseudo oposição não protestou com veemência nem mesmo diante da informação, veiculada pela VEJA, de que espiões cubanos estão agindo livremente em nosso país para vigiar a blogueira. E olhem que a VEJA acertou na mosca quando divulgou que um petralhinha brasileiro que trabalha no Palácio do Planalto, sob as ordens do Ministro Secretário da Presidência, tinha ido a Cuba e recebido um CD-ROM que continha o script e material de apoio para difamar Yoani aqui no Brasil.

Dá vergonha de ser brasileiro numa hora dessas.

Em São Paulo, 19 de Fevereiro de 2013

A Violência em São Paulo

Uma sociedade em que a gente passa tanto tempo se cuidando e protegendo para não se tornar vítima da violência, e em que a gente gasta tanto tempo, na mídia e em conversas particulares, discutindo o que fazer para se sentir e efetivamente estar mais seguro não pode ser uma sociedade viável. Espero que não cheguemos ao ponto em que Bogotá um dia chegou, em que policiais ou agentes de segurança tinham de colocar espelhos embaixo do seu carro e cães farejadores dentro antes de permitir que você entrasse no estacionamento de um prédio, ou em que sua pasta, sua bolsa ou sua sacola eram fiscalizadas quando você entrava num shopping…

Deus nos livre desses extremos, mas a coisa aqui em SP não está fácil e pode caminhar para essas medidas absolutamente insuportáveis.

Precisamos rever algumas teses que se tornaram “ideias pétreas”: Primeiro, a da idade em que as pessoas se tornam penalmente responsáveis – a chamada maioridade penal. Segundo, e relacionado, a ideia de que aquilo que um menor de idade do ponto de vista penal, qualquer que seja essa idade, some de sua ficha, como se nunca tivesse acontecido, e ele passa a ter ficha limpa e pode até se candidatar a ser vereador, deputado, senador, prefeito, governador e presidente. Terceiro, rever a questão da prisão perpétua e mesmo da pena de morte. Quarto, rever as regras que regem nossas prisões e torna-las mais estritas, acabando com visitas íntimas e outras regalias que são maneiras de manter os presos ligados à sociedade e, de dentro da prisão, gerir sua rede de subalternos. E assim vai.

Quem viola o direito à liberdade e demais direitos humanos dos outros não pode ter seu direito à liberdade e demais direitos humanos respeitados.

Quem viola o direito à vida dos outros não pode ter seu direito à vida respeitado.

Anteontem abriram caminho no trânsito a bala aqui em SP e mataram uma criança que estava no colo da mãe dentro de um carro atingido.

Como se argumenta no fantástico filme argentino (melhor filme no Oscar de dois anos atrás), El Secreto de sus Ojos, pena de morte para um cara desses É MUITO POUCO.

Em São Paulo, 18 de Novembro de 2012.

“Criança, não verás nenhum país como este!”

Consta que De Gaulle teria dito que o Brasil não é um país sério. Estava certo ele. Vejam só o que descobri hoje (19/3/2012).

Para ligar para um telefone celular a partir de um telefone fixo Net Fone brasileiro (da Net, via Embratel), no Plano “Fale do Seu Jeito” (sem assinatura e franquia, pagando apenas pelo tempo que se fala em cada tipo de ligação), custa, POR MINUTO:

* Se o celular chamado estiver nos Estados Unidos, R$ 0,69220 (menos de 70 centavos de real por minuto).

* Se o celular chamado estiver em qualquer outro país do mundo, R$ 1,15608 (um pouco mais de um real e 15 centavos por minuto).

* Se o celular chamado estiver no Brasil, em DDD diferente daquele de onde a chamada se origina, R$ 1,76831 (quase dois reais por minuto).

Ou seja, nessas circunstâncias, falar de um Net Fone em São Paulo com um celular em São José dos Campos, Santos, Sorocaba ou Campinas custa 2,55 vezes o preço que custa falar com um celular nos Estados Unidos e 1,53 vezes o preço que custa falar com um celular em qualquer outro país do mundo.

“Criança, não verás nenhum país como este!” (Olavo Bilac).

Em São Paulo, 19 de Março de 2012

A tragédia da escola de Realengo

Transcrevo aqui artigo que publiquei ontem no Blog das Editoras Ática e Scipione, no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/a-tragedia-da-escola-do-realengo/.

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Comecei a escrever este artigo no próprio dia da tragédia; terminei-o hoje (o dia seguinte) de manhã. Talvez seja cedo demais para conseguir escrever alguma coisa que faça sentido e que respeite o sentimento dos parentes das crianças mortas e feridas no Rio de Janeiro ontem cedo – e o sentimento das crianças feridas que sobreviveram. Afinal de contas, até mesmo os detalhes do fato custam a aparecer: o que de fato aconteceu, que culminou na morte de inicialmente onze (agora já doze) crianças e do próprio atirador?

Mas é difícil ficar calado. Nem mesmo comentaristas de esporte e economia no rádio conseguiram, num primeiro momento, ater-se às suas pautas: sentiram-se obrigados a falar no assunto.

Isto por que todo mundo está chocado. Mais do que chocado: sacudido, chacoalhado. Até a Presidente da República, durona, ex-guerrilheira, chorou.

Por que tamanha comoção neste caso?

Lamentavelmente, o Rio de Janeiro e muitas outras grandes cidades brasileiras já aprenderam a conviver com tiroteios e mortes nas ruas e nas casas – as pessoas estão relativamente dessensibilizadas em relação à violência e à morte.

Mas desta vez foi numa escola e foram crianças as principais vítimas: onze delas morreram na hora, uma depois, dez meninas (que geralmente se sentam na frente na sala de aula) e dois meninos. E não foram crianças que dormiam na rua, como na chacina da Candelária: foram crianças que estavam na escola, fazendo exatamente o que se esperava delas.

Lamentavelmente, o mundo já aprendeu a conviver com tragédias desse tipo em escolas dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos.

Mas desta vez foi aqui, no Brasil, local que acreditávamos imune a esse tipo de absurdo. Não foi um aluno atual da escola que cometeu o crime, como em geral acontece nos Estados Unidos, mas foi um ex-aluno. No fundo, é a mesma coisa. (Alguns já se perguntam se finalmente chegamos lá, ao primeiro time dos países desenvolvidos, agora que coisas assim acontecem também em nossas escolas.)

Os caçadores de explicações já trabalham a toda. A mãe biológica do rapaz aparentemente era isso; a família que o adotou aparentemente era aquilo; o rapaz, sentencia o governador do Rio, era um animal, um psicopata. Repórteres descobrem, com base em testemunhos de sobreviventes, relatados por parentes, que o assassino aparentemente poupou alguns meninos, preferindo matar meninas, e que, em muitos casos, as defigurou atirando-lhes no rosto. Tudo isso parece requerer explicações. Buscam-se psicólogos, psiquiatras, psicanalistas…

A maioria de nós fica tentado a buscar e aceitar explicações que enquadrem o acontecido na categoria das excepcionalidades, das anormalidades, das psicopatias mesmo (como já o decretou o Governador) – algo que não aconteceria numa escola particular, como a frequentada por nossos filhos ou netos…

Mas não nos esqueçamos de que, há algum tempo, segundo tudo indica, numa família de classe rica, em São Paulo, uma menina jovem e linda mancumunou-se com o namorado para assassinar os pais… Foram só os dois que morreram, não doze, e eram adultos – mas quem planejou o assassinato, segundo consta, era jovem e era filha deles. Isso parece até pior – se é que dá para comparar essas coisas…

Também há algum tempo, e também aqui em São Paulo, um senhor de meia idade, bem de vida e respeitável, jornalista admirado pelos colegas, matou, segundo tudo indica, a mulher com quem vivia e a quem professava amar.

E o adolescente que saiu atirando a esmo no cinema do Shopping Morumbi? E o jovem que acabou com a vida do outro com um taco de beisebol em uma livraria do Conjunto Nacional?

E há o pai que joga a filha pela janela… (Até hoje tenho dificuldade de acreditar que foi ele!)

E tantos outros crimes de gente de bem, gente bonita, gente culta, gente rica, gente jovem, gente certinha…

O que esses fatos todos parecem sugerir é que, independentemente de idade, sexo, classe social, riqueza, fama, nível cultural, nossa estabilidade e nosso equilíbrio são precários. Parecemos normais hoje, amanhã perdemos o eixo e cometemos crimes que só podem ser descritos como odientos e insanos.

Até aqui, falamos em crimes contra a vida.

Mas há também os crimes contra o patrimônio… Quando a pessoa é pobre, está com fome, e rouba comida, vá lá… Mas e a história da linda e admirada atriz de cinema que, de vez em quando, parece surtar e rouba das lojas bobagens de que ela não precisa e que certamente, se realmente as desejasse, não precisaria roubar? Ou o problema das gravatas do respeitado rabino? Ou a Promotora de Justiça brasileira que, segundo os jornais de anteontem, alega, para si mesma, através de seu bastante procurador, insanidade mental?

O que acontece em todos esses casos? Talvez não haja uma só explicação que se ajuste a todos eles. Talvez nunca venhamos a saber com certeza, em cada caso, o que realmente se passa.

Mas uma coisa é certa… Todos esses atos, quando aconteceram ou foram descobertos, surpreenderam quem conhecia as pessoas acusadas de perpetrá-los. Ninguém esperava que elas viessem a estar envolvidas nesse tipo de coisa…

E há as coisas que não chegam a ser crime. Pessoas que pareciam ser paradigmas de estabilidade emocional e que se desestruturam e desmoronam quando o/a namorado/a resolve terminar o namoro ou quando o cônjuge decide deixá-las… Em casos extremos, essas coisas podem virar suicídios ou assassinatos.

Ou, mais trivial ainda, o que dizer das brigas por acidente de trânsito, ou simplesmente porque alguém fechou alguém no trânsito? Isso também tem produzido assassinatos.

E o que dizer dos crimes de ódio, em que alguém, geralmente de boa família, ataca um pobre  que dorme na rua e lhe ateia fogo, ou agride um homossexual que passa, ou uma prostituta que está quieta na calçada, ou um estrangeiro que fala uma língua desconhecida?

Tudo isso mostra quão instável é nossa estabilidade, quão precário nosso equilíbrio…

Dificilmente será um fato só a explicar o que aconteceu em Realengo: a mãe natural doente do rapaz, ou as características da família que o adotou, ou as experiências que ele anteriormente teve na escola, ou o fato de que não tinha amigos ou namoradas e era ensimesmado… Tudo isso provavelmente é parte da história de vida do rapaz, como muitas coisas diferentes fizeram parte da história de vida de tantas outras pessoas, até ali de bem, que, de repente, surtaram e cometeram atos que ninguém esperava e que os que as conheciam bem não imaginavam que pudessem cometer.

John Bradford, reformador inglês do século XVI, ao contemplar um bêbado, ou uma prostituta, ou um criminoso, teria dito: “There, but for the grace of God, goes John Bradford” – “Ali, não fosse a graça de Deus, estaria eu”. Não é preciso acreditar em Deus para apreender a verdade contida na famosa frase de John Bradford. A maioria de nós já viveu momentos em que sentiu que, por pouco, não fez uma besteira enorme e não virou foco de atenção, como o que ora é dirigido para o assassino das doze crianças e suicida de Realengo.

O filme MatchPoint, de Woody Allen, começa com uma cena instigante. Um jogo de tênis, em que a bola vai de um lado para outro da quadra e volta, várias vezes, até que bate na parte de cima da redinha e sobe – e a cena é congelada com a bolinha no alto. Uma voz, em off, diz:

“O homem que disse ‘Prefiro ter sorte a ser bom’ tinha uma visão profunda da vida. As pessoas têm medo de enfrentar o fato de que uma parte grande de nossa vida depende da sorte. É assustador imaginar que tanto, em nossa vida, escapa, ou pode escapar, do nosso controle. Há momentos numa partida de tênis em que a bola bate no topo da rede, e, por uma fração de segundo, pode ir para frente ou cair para trás. Com um pouco de sorte, ela vai para frente, e você ganha o jogo. Mas nem sempre isso acontece. Há vezes em que ela cai para trás, e você perde.”

“There, but for the grace of God, go I” — “Ali, não fosse a graça de Deus, vou eu”. Ou, então, se você é como Woody Allen, “There, but for sheer good luck, go I” — “Ali, não fosse o bafejo da sorte, vou eu”.

Vamos nos lembrar disso quando a gente presenciar essas coisas horríveis que a gente não consegue entender.

Mas, olhando para frente, agora, há duas tarefas sócio-psico-pedagógicas hercúleas desafiando nós todos.

Primeiro, a tarefa mais próxima e mais urgente. Como lidar com as crianças que ficaram? Não só com as que foram feridas, mas com as que presenciaram o assassinato a queima-roupa de seus colegas, quem sabe de seu/sua BFF: best friend forever (forever pode ser muito pouco tempo, em alguns casos). Muitas delas provavelmente estão traumatizadas, não vão querer voltar à escola (não àquela escola, pelo menos), nunca esquecerão o acontecido, talvez até tenham dificuldade para falar sobre o que se passou. Para os mais fortes, que voltarem à escola, será que os professores conseguirão ajudá-los? Os próprios mestres estão traumatizados e, provavelmente, precisando de ajuda… Como a comunidade daquela escola reagirá quando alguém soltar uma bombinha durante as festas de Junho, ou algum barulho diferente acontecer no corredor?

Alguém sabe como lidar com isso? Eu me confesso totalmente incompetente nessa área.

O segundo problema é: existe algo que possamos fazer, na educação familiar, na escola, na sociedade em geral, para que coisas como essa de ontem não aconteçam mais – ou, no mínimo, não passem a acontecer com certa frequência como acontece nos paises desenvolvidos?

Alguém sabe como responder a isso? Eu, mais uma vez, me declaro incompetente.

Mas espero que alguém possa nos ajudar a descobrir como enfrentar problemas como a tragédia de ontem, lidando com o rescaldo e, mais importante, previnindo-as.

Quem sabe este blog pode servir de forum para a discussão dessa questão?

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Em São Paulo, 9 de Abril de 2011

Hábitos de Leitura

Acordem, editores e livreiros. Os hábitos de leitura estão mudando. Abaixo, o resultado de levantamentos publicados na Folha de ontem. Dispositivos multifuncionais são coisas como iPads.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/tec/tc0902201129.htm

Folha de S. Paulo

HÁBITOS DE LEITURA

66%

Consumidores com dispositivos multifuncionais que passaram a ler mais depois de comprá-los

O número é de um estudo da iModerate Research Technologies e da Brock Associates, que entrevistou 300 pessoas nos EUA

46%

Consumidores com dispositivos multifuncionais que passaram a ler mais livros de papel

80%

Pessoas que consideram a leitura em aparelhos mais conveniente do que no papel

72%

Entrevistados que leem em dispositivos eletrônicos quando viajam

Frase

“Gosto de ter muitos livros à mão para escolher o que ler em qualquer lugar. Basta baixar as obras que quero ler nos meus dispositivos. Posso ler um livro por um instante e mudar para outro” [PARTICIPANTE ANÔNIMO de pesquisa sobre hábitos de leitura]

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Com respeito à frase citada, me, too.

Em São Paulo, 10 de Fevereiro de 2011

Jovens e velhos convivem em todas as faixas etárias

Muito interessante o artigo de Luli Radfahrer na Folha de S. Paulo de ontem.

A tese mais interessante, na minha opinião, é que velhice não é uma questão de idade: é uma questão de postura, de atitude perante a vida. Há novos e velhos em toda faixa etária…

Velhos são aqueles que não percebem que uma mudança básica e fundamental aconteceu na sociedade e persistem em considerá-la um modismo, um “fad”, que logo irá desaparecer. Assim, se orgulham, culturalmente, de resistir a essa mudança, considerando seu reacionarismo uma virtude cultural. Jactam-se de não usar e-mail, de não ter perfil no Facebook, de nem sequer ter (ou atender) um telefone celular.

Esses velhos, essas verdadeiras peças de museu existem em qualquer faixa etária. Eu tenho um bom número de amigos velhos – nesse sentido – que, cronologicamente, são mais recentes do que eu. Uma coisa não tem muito que ver com a outra.

Eis o artigo do Luli Radfahrer na íntegra.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/tec/tc0902201127.htm

LULI RADFAHRER

Os velhos da sua idade

O que você deve fazer por aquelas pessoas que têm a sua idade, mas não leem este caderno

ESTE ARTIGO foi escrito para aqueles seus amigos, parentes ou colegas que têm a sua idade e uma formação parecida com a sua, mas que, por algum motivo, nunca lêem cadernos como este. Você conhece o tipo: são pessoas inteligentes, de opinião formada, que acompanham as notícias regularmente, mas que raramente passam do caderno de economia ou de cultura. Sabe quem acredita que ópera é muito mais importante do que videogames ou Facebook, mesmo tendo uma fração de sua audiência? Pois então.

Eles não são velhos. Você não é velho. Ou pelo menos não deve se sentir ultrapassado, mesmo que não saiba das últimas artimanhas do Google ou do Twitter. O leitor da editoria de tecnologia costuma ter conta em redes sociais e saber como deve se comportar nelas, não clica em qualquer link de e-mail e tem uma boa noção do que é um iPad ou um Wii, mesmo que não tenha a menor intenção de comprá-los. É alguém que, como você, tem critério e experiência. Isso depende cada vez menos da idade.

No entanto, há cada vez mais gente com orgulho de sua aversão ao ambiente digital. Isso não acontece com outras inovações, como a energia elétrica ou o rádio.

A web tem quase duas décadas de vida e a telefonia móvel, cerca de metade disso. Não se pode mais chamá-las de “mídias alternativas” ou de “tecnologias emergentes” quando a maioria dos processos contemporâneos depende delas. Mas ainda são poucos os que perceberam de verdade essa mudança. A maioria ainda está à margem das transformações, fazendo de conta que elas não existem, mesmo que tenham filhos adolescentes e uma renda pra lá de confortável. A inclusão digital se torna, cada vez mais, uma questão cultural.

O que aconteceu com essa gente? Meu palpite é que eles não perceberam a mudança. Como qualquer pessoa que não se interessa por uma área da medicina ou do direito até que se torne vítima dela, eles nunca se importaram com o digital. Mas deram o azar de terem nascido em uma época que ele se tornou importante. Por causa disso, muitos vivem hoje em um mundo desconfortável e isolado, que não compreende o que fazem seus filhos, seus funcionários e o resto do planeta.

Esses caras me lembram aqueles coleguinhas da escola que, por serem bonitos ou fortes ou populares ou ricos demais, nunca pensaram que precisariam estudar.

O tempo passou, e uma das poucas coisas que correu mais rápido do que ele foi a tecnologia. Lembra a lenda da cigarra e da formiga? É algo parecido.

Pode parecer lavagem cerebral, mas acredito que você deva ajudá-los a se alfabetizar no digital. Por mais que dê trabalho, a atividade compensará por dois motivos. O primeiro é que as tecnologias de informação estão mais para uma linguagem do que para uma ferramenta. Quanto maior a fluência, mais eficiente será a comunicação e a compreensão. O segundo é que quanto maior e mais adiantado estiver o mercado, mais exigente ele será.

No fim, quem mais se beneficiará dessa cadeia evolutiva será você, que terá acesso a máquinas e serviços melhores. Isso sem contar que poderá fazer novos amigos e ampliar sua visão de mundo, principalmente se eles estiverem entre os do tipo que não lê este tipo de caderno.

lulil@luli.com.br

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Em São Paulo, 10 de Fevereiro de 2011

“Tudo que você tuitar pode ser usado contra você, até no tribunal”

Mais uma série de artigos interessantes na Folha de hoje, 30/01/2011 sobre o hábito e as consequências de tuitar.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff3001201116.htm

Tudo que tuitar pode ser usado contra você, até no tribunal

Postagens consideradas ofensivas acabam na Justiça ou em boa dor de cabeça para internautas falastrões

Anônimos ou famosos, ninguém está livre dos ecos de comentários inconsequentes nas redes sociais da internet

JAMES CIMINO

DE SÃO PAULO

O vendedor Pedro Henrique Santos, 19, está pagando, a prestação, o preço de uma tuitada inconsequente.

Morador de Ipameri, cidadezinha do interior de Goiás, ele não viu nenhum problema em postar no seu perfil do microblog uma foto de uma garota em trajes sumários.

Processado por danos morais, teve de pagar à vítima -maior de idade- R$ 3.000.

Como não tinha todo o dinheiro, vai desembolsar por mês R$ 150, em 20 vezes.

O caso ilustra uma situação cada vez mais corriqueira: os desabafos, os comentários e as brincadeiras de mau gosto facilmente esquecíveis se ditos em mesa de bar se amplificam se feitos nas redes sociais, com consequências na vida profissional e legal do internauta desbocado.

Antes de Pedro, outras pessoas, incluindo aí os famosos, tiveram problema.

O comediante Danilo Gentilli foi investigado pelo Ministério Público por acusação de racismo após ter feito uma piada em que comparava, no Twitter, o gorila King Kong a jogadores de futebol.

Há casos em que a tuitada não vira caso de Justiça, mas acaba em boa dor de cabeça.

Rita Lee criticou a construção do estádio do Corinthians em Itaquera. Chamou o bairro da zona leste paulistana de “c… de onde sai a bosta do cavalo do bandido”. Gal Costa disse que os conterrâneos baianos eram preguiçosos. As duas ouviram poucas e boas do público.

As empresas têm ficado de olhos nos perfis de seus funcionários. Dois rapazes, um da região de Campinas, outro de Piracicaba, acabaram demitidos por justa causa após postagens inconsequentes.

O primeiro publicou no Orkut que estava furtando notas fiscais da empresa onde trabalhava. O segundo postou no YouTube um vídeo em que dava cavalos de pau com a empilhadeira da empresa.

Ambos entraram com ações na Justiça do Trabalho a fim de reverter o caráter da demissão, mas perderam.

Juliana Abrusio, professora de direito eletrônico da universidade Mackenzie, aponta que o afã de fazer um desabafo, de exprimir uma opinião ou de simplesmente demonstrar atitude crítica em relação a algo faz com que as pessoas percam a ideia do alcance da internet.

“Se você fala mal de alguém numa mesa de bar com seis pessoas, ele fica ofendido, mas é suportável. Quando vai para 6.000 ou 6 milhões de pessoas, a pessoa pode ser destruída”, afirma.

Renato Opice Blum, advogado especializado em crimes digitais, diz que o Brasil tem mais de 30 mil decisões judiciais relacionadas à internet. Só em seu escritório há cerca de 5.000 mil ações.

Um fotógrafo colaborador do Grupo Folha acabou afastado após publicar no Twitter uma declaração considerada ofensiva aos torcedores do Palmeiras, na sede do clube. Foi agredido fisicamente.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff3001201117.htm

ANÁLISE

Tuitar pelos cotovelos só é vantagem para quem não tem nada a perder

“CASES” COMO O DAS ELEIÇÕES DOS EUA DEIXARAM IDEIA DE QUE É PRECISO TUITAR A GRANEL

DANIEL BERGAMASCO

EDITOR-ADJUNTO DE COTIDIANO

Uma das primeiras grandes ilusões sobre as vantagens de tuitar pelos cotovelos veio da campanha de Barack Obama à Casa Branca, em 2008. Tornaram-se simbólicas as fotos do democrata pendurado no Blackberry.

Com mais seguidores que os concorrentes, ele também acabou por colocar mais voluntários pelas ruas e arrecadar mais dinheiro.

Ficou a falsa ideia de que uma coisa possa ter sido consequência direta da outra e, pela distorção de “cases” como esse, propagou-se a imagem de que tuitar a granel pode ser uma boa maneira de cativar a internet, fazer negócios e influenciar pessoas.

Obama, contudo, nunca tuitou pelos cotovelos, nem pelo fígado. Suas mensagens refletiam um discurso estudado, gerado em laboratório.

Foram as suas causas políticas, propagadas também via TV e grandes comícios, que deram assunto para que seus admiradores espalhassem seu nome no ventilador.

Estratégia diferente tinham alguns dos candidatos pequenos ou nanicos que, sem medo de dar tiro no pé, acabaram acertando na mosca em posições mais controversas e saindo da corrida melhor do que entraram.

Da mesma forma, a lista de celebridades brasileiras com maior número de seguidores está cheia de casos em que esse público todo não faz soma de bons contratos.

A atriz Fernanda Paes Leme, com seu mais de meio milhão de seguidores, está entre os top da rede social, mas na publicidade está muito longe do status de uma Grazi Massafera -que, por sua vez, nem Twitter tem.

Há casos ainda de gente traída pelo dedo leve, pelo esquecimento de que as mensagens são documentos e pelo anseio do desabafo.

A cantora Claudia Leitte alfinetou “alguns” fãs “muito malas” de Ivete Sangalo e acabou por colocar em xeque sua imagem de boa moça.

Celebridades que se deram melhor são as quase-famosas, como a modelo Angela Bismarchi, conhecida pelas muitas cirurgias plásticas.

Ela já agrega mais de 50 mil seguidores tecendo comentários sobre temas como as especificidades sexuais das hienas. No embalo, vai lançar um livro sobre sexo.

PARA TODOS

Cabe, assim, o exemplo também para advogados, vendedores, professores.

Fazer propagar informações sobre um produto que se quer vender ou compartilhar assuntos do qual se é especialista pode ser um gol.

O escritor Fabrício Carpinejar ganhou 84 mil seguidores divulgando sua obra em textos breves.

Já dar bom dia a cavalo para tornar o perfil atraente a um monte de curiosos pode esquentar o ego, mas só tem se mostrado vantagem para quem não tem nada a perder.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff3001201118.htm

É preciso ter bom senso nas redes, dizem advogados

DE SÃO PAULO

As crescentes ações na Justiça fomentadas pelo mau uso da internet podem ser facilmente evitadas, segundo advogados consultados pela Folha. Basta ter bom senso.

“As pessoas não podem esquecer que a lei não mudou. Na dúvida, não fale mal do companheiro de trabalho, não faça piada com o chefe, não se deixe fotografar em situação vexatória. Tudo vira evidência”, afirma a advogada Gilda Figueiredo Ferraz.

Segundo Alessandro Barbosa Lima, dono da empresa E.Life, que oferece serviços de monitoramento de marcas, semanalmente surgem casos de uso indevido das redes sociais por funcionários.

O advogado Eli Alves da Silva, presidente da comissão de direito trabalhista da OAB-SP, diz que não apenas os empregados podem se dar mal com o uso indevido das redes sociais. Empregadores também podem ser punidos e sofrer consequências caso os funcionários reclamem de condições de trabalho.

“Se o empregado reclamar de condições de trabalho que revelem um descumprimento da lei trabalhista, o patrão pode vir a ser punido, caso haja prova dessa ação.”

O advogado Renato Opice Blum descreve o que pode ser o limite entre a liberdade de expressão e o crime.

“Se o internauta avançar o limite da crítica normal e partir para o lado da ofensa, pode ser processado pelos crimes de calúnia, injúria e difamação, sem prejuízo de uma indenização. Tem sempre que evitar fazer juízo de valor”, afirma o advogado.

Para Brum, a primeira coisa que a pessoa deve fazer ao aderir a uma rede social é ler as regras de uso e conhecer os recursos que o programa oferece ao usuário.

Ele cita como simbólico o casos do diretor da Locaweb, patrocinadora do São Paulo, que criticou o time durante um jogo e foi demitido.

(JAMES CIMINO e EVANDRO SPINELLI)

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Em São Paulo, 30 de Janeiro de 2011.