Liderança (ou: O Monge e o Executivo…)

Ganhei de presente, na última quarta-feira (12/7/2007), o livro O Monge e o Executivo: Uma História sobre a Essência da Liderança, de James C. Hunter. Não é o tipo de livro que eu normalmente compraria. Mesmo assim, na sexta-feira já havia terminado sua leitura. Muita coisa interessante ali. Mas muita coisa de que discordo também.

Minha discordância básica é, no fundo, com a visão de mundo do autor – com os pressupostos mais fundamentais que sustentam o seu trabalho. Quando se trata de detalhes, concordo com ele em muitos casos.

No último capítulo (fora o Epílogo), o Irmão Simeão (o protagonista da história) enuncia, quase no fim da discussão, a sua visão de mundo:

“Estou convencido de que nosso objetivo aqui [no mundo] não é necessariamente ser felizes ou nos satisfazer pessoalmente. Nosso objetivo aqui como seres humanos é evoluir para a maturidade espiritual e psicológica” [pp.135-136].

Imediatamente depois de dizer isso ele acrescenta:

“Isso é o que agrada a Deus. Amar, servir e doar-se pelos outros nos forçam sair do egocentrismo. Amar aos outros nos faz sair de nós mesmos. Amar aos outros nos força a crescer” [p.136].

Esses os pressupostos fundamentais do Irmão Simeão. É deles que discordo. Vou explicitá-los.

a)      Nossa vida como seres humanos tem um objetivo que nos é metafisicamente dado, i.e., que não é definido por nós;

b)      Esse objetivo, que nos é dado por Deus, não é ser felizes ou alcançar realização pessoal: é “evoluir para a maturidade espiritual e psicológica”;

c)       Alcançamos maturidade espiritual e psicológica quando amamos e servimos aos outros, e nos sacrificamos por eles, pois assim saímos do egocentrismo que nos caracteriza quando crianças imaturas e evoluímos para a referida maturidade espiritual e psicológica.

Discordo frontalmente desses três princípios. Minha visão de mundo contém os seguintes elementos, frontalmente contrários aos pressupostos fundamentais do Irmão Simeão:

a)      Se nossa vida tem algum objetivo, este não é metafisicamente dado: é definido, para si próprio, por cada um de nós;

b)       O objetivo mais sensato que podemos nos dar é buscar nossa felicidade e realização pessoal (conceitos que são basicamente sinônimos), que se constroem em cima de um projeto de vida livremente escolhido;

c)       Se o objetivo de nossa vida é buscar nossa felicidade e realização pessoal, o egoísmo, que nos manda colocar em primeiro lugar nossos interesses, é uma virtude, não um vício.

Esclarecidas as discordâncias fundamentais, passo a discutir alguns pontos em que concordo com o Irmão Simeão – pelo menos em parte.

Não tenho maiores objeções à definição de liderança fornecida no capítulo primeiro e usada através de todo o livro:

“Liderança [é] a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o bem comum” [p.25].

Meu único reparo significativo a essa definição é em relação à noção de bem comum. Prefiro adotar a seguinte definição:

Liderança [é] a habilidade de influenciar pessoas para trabalhar de bom grado para alcançar objetivos considerados importantes em um determinado contexto institucional ou social.

Concordo, também, que para definir o que se entende por influência é preciso distinguir entre poder e autoridade. São estas as definições do Irmão Simeão:

“Poder [é] e a faculdade de forçar ou coagir alguém a fazer a sua vontade, por causa de sua posição ou força, mesmo que a pessoa preferisse não o fazer” [p.26].

“Autoridade [é] a habilidade de levar as pessoas a fazerem de boa vontade o que você quer por causa de sua influência pessoal” [p.26].

Concordo, também, com a lista de características de um bom líder (que, aqui, modifico um pouco [vide p.32]):

·  É honesto, verdadeiro e confiável

·  Interessa-se pelas pessoas e as trata com respeito

·  Sabe ouvir e sabe dizer o que é preciso

·  É intrinsecamente motivado e sabe motivar

·  Assume compromissos e honra os compromissos assumidos

·  Sabe focar a atenção dos liderados nos objetivos a alcançar

·  Sabe extrair dos liderados compromisso com os objetivos a alcançar

·  Sabe apoiar os liderados e cobrar compromissos assumidos

·  É paciente e persistente, não se desencorajando com fracassos pessoais e do grupo

·  Sabe celebrar os sucessos alcançados e recompensar desempenhos excepcionais

Concordo, ainda, que todas essas características são habilidades adquiridas, isto é, comportamentos que decorrem de escolhas que fazemos [pp.32-33].

Concordo, também, que algumas dessas características demonstram foco no relacionamento humano e outras demonstram foco nos objetivos a alcançar ou nas tarefas a realizar [cp. pp.33-34].

Concordo, ainda, que para ter bom relacionamento com as pessoas é preciso entender suas necessidades básicas e que estas (distintas de seus desejos e quereres) estão razoavelmente bem descritas na pirâmide de necessidades básicas de Abraham Maslow [cp. pp.36-37,54].

Com relação à pirâmide invertida (cliente no topo, presidente na parte de baixo), concordo que o foco, no caso de uma empresa (ou de um órgão governamental), deva estar no cliente. Mas esse foco pode significar tanto o atendimento de suas necessidades como a satisfação de seus desejos e quereres…

Discordo, porém, que a o melhor estilo de liderança, ou seja, a melhor forma de fazer com que uma empresa (ou um órgão governamental) mantenha o foco no cliente, seja o presidente servir seus vice-presidentes e se sacrificar por eles, estes fazerem o mesmo pelos gerentes, os gerentes fazerem o mesmo pelos supervisores, e os supervisores fazerem o mesmo pelos empregados que supervisionam…

Irmão Simeão afirma no livro que esse estilo de liderança – liderança centrada no serviço e baseada no auto-sacrifício – não foi desenvolvido por ele (que, na história, antes de ser frade havia sido um executivo de sucesso), mas, sim, por Jesus Cristo, que, segundo ele, é o maior líder que já houve, porque sua influência perdura até hoje, quase dois mil anos depois de sua morte, e se manifesta, além dos aspectos religiosos e morais, em coisas práticas, como o número de pessoas que professam o cristianismo ainda hoje, o calendário que adotamos, as principais festas que celebramos, etc. [cp. pp.60-61].

O líder eficaz é aquele que cria condições para que objetivos institucionais ou sociais sejam alcançados pelos liderados ao mesmo tempo em que eles buscam atingir seus objetivos pessoais. Um líder que prega o auto-sacrifício de seus liderados em favor de terceiros está destinado a fracassar na promoção dos objetivos institucionais ou sociais. Estes só são alcançados quando a sua busca é compatível com a realização pessoal de todos os envolvidos. Na verdade, é talvez até mais do que isso: quando sua busca se faz através da realização pessoal de todos os envolvidos.

Tomemos o casamento como exemplo, que é, talvez, a menor sociedade criada para alcançar determinados objetivos. Se, no casamento, cada um dos cônjuges serve, abnega-se, se auto-sacrifica em favor do outro, provavelmente teremos, em pouco tempo, dois infelizes e um casamento fracassado. O casamento só sobrevive se, ao buscar os objetivos da sociedade matrimonial, cada um dos cônjuges consegue, também, alcançar seus objetivos pessoais, realizar-se como pessoa, ser feliz.

A manobra que permite ao Irmão Simeão dar uma aparência de plausibilidade às suas teses é exatamente aquela que só é revelada no finalzinho do livro: sugerir que o objetivo de nossa vida (dado, metafisicamente, por Deus) não é a felicidade e a realização pessoal, mas sim, um suposto crescimento psicológico e espiritual que só se alcança através do serviço, da abnegação, do auto-sacrifício, do altruísmo, do abandono do egoísmo e do auto-interesse, e, portanto, da renúncia à felicidade entendida como realização pessoal baseada na definição, pelo próprio interessado, de seu projeto de vida.

Em Salto, 15 de julho de 2007

MindTools: As Ferramentas da Mente

MindTools – Ferramentas da Mente… As três funções principais da mente são pensar, sentir, decidir. Pensamento, sentimento e vontade são as três faculdades da mente – para usar a linguagem da filosofia clássica.
 
Se é isso que a mente faz, quais são as ferramentas com as quais ela pensa, sente e decide?
 
As duas principais são a lógica e a linguagem. Não é fácil dizer qual das duas é mais básica, porque elas se interpenetram e, às vezes, até parecem se confundir. Mas eu considero a lógica a ferramenta mais básica, mais fundamental. Podemos ter várias linguagens – mas, a despeito dos marxistas, que falam em uma suposta lógica dialética, temos apenas uma lógica. Mas não é só por isso. O tipo de linguagem que nós, humanos, temos é conceitual: uma linguagem que, exceto no caso de nomes próprios, se refere a conceitos, não a coisas ou objetos. E um conceito é uma entidade lógica, como veremos a seguir.  
 
Comecemos, portanto, por ela: a lógica.
 
A lógica opera em duas dimensões: a dimensão dos conceitos e a dimensão dos enunciados (ou das proposições). Falemos primeiro da dimensão dos conceitos.
A matéria prima bruta sobre a qual a mente opera são as sensações sensoriais. Estamos, constantemente, sendo submetidos à uma quantidade enorme de sensações visuais, auditivas, olfativas, gustativas, táteis: uma multidão de imagens, sons, cheiros, gostos, impressões táteis (interessante, mas não parecemos ter um nome pronto para o objeto de nossas sensações táteis). Percebemos, no entanto, apenas algumas dessas sensações. O nível da percepção já permite um primeiro processamento das sensações. Mas os nossos "perceitos" (aquilo que percebemos) é sempre particular e concreto. São os perceitos a matéria prima processada da operação seguinte, mais importante: com base nas similaridades que percebemos nos diversos perceitos, construímos conceitos. Enquanto perceitos são particulares e concretos, conceitos são gerais e abstratos. Quantos objetos particulares e concretos que têm quatro patas, são peludos, e latem nós já percebemos? Milhares. Em geral os percebemos ao mesmo tempo que recebemos uma quantidade enorme de outras impressões sensoriais: o pano de fundo em que se encontram esses cachorros. Mas "isolamos" desse pano de fundo as impressões sensoriais correspondentes aos objetos particulares e singulares que chamamos de cachorros. Esse objeto isolado é o que eu chamo de um perceito. Com base em vários perceitos que possuem, entre si, determinadas semelhanças, construímos o conceito de cachorro. O conceito é geral e abstrato. Ele não se confunde com nenhum cachorro particular e concreto que já vimos – mas se aplica a todos eles. Construímos conceito através de um processo de abstração, integração e diferenciação. Em outro artigo discutiremos isso.
 
A lógica dos conceitos trata dos processos através do qual construímos conceitos. Mas conceitos são entidades estáticas. Para que possamos afirmar coisas acerca do mundo em que vivemos, e acerca de nós mesmos, precisamos ir além deles, combinando-os em enunciados ou proposições. "O cachorro de meu neto é um labrador de cor de caramelo". Enunciados ou proposições são afirmações que fazemos acerca do mundo. Sua característica básica é ter de ser ou verdadeira ou falsa – uma das duas, mas não ambas as coisas. Todo enunciado é ou verdadeiro ou falso. Não há enunciado que seja verdadeiro e falso – da mesma forma que não há enunciado que não seja nem verdadeiro nem falso. Por isso, os três axiomas básicos da lógica dos enunciados ou das proposições são:
 
a) Todo enunciado é ou verdadeiro ou falso – não há uma terceira possibilidade (tertium non datur). Esse é o axioma do terceiro excluído.
 
b) Nenhum enunciado é verdadeiro e falso – tem de ser apenas um dos dois. Esse é o axioma da não contradição.
 
c) Se um enunciado é verdadeiro, ele será verdadeiro sempre, e se é falso, será falso sempre. Não há como um enunciado ser verdadeiro agora e falso amanhã, ou vice-versa. Esse é o axioma da identidade.
 
Alguns, que nunca lidaram com lógica pode achar esses axiomas triviais – e de certo modo eles assim o parecem, em parte porque estão tão implantados em nossa mente que parecem óbvios.  Outros podem achar esses enunciados absurdos – especialmente o terceiro.
Em outros artigos lidarei com essas questões. Aqui quero ir direto ao meu ponto final. Conceitos, apesar de entidades lógicas, recebem nomes, que são entidades lingüísticas. E enunciados ou proposições, que também são entidades lógicas, são expressos através de sentenças, frases, orações, que também são entidades lingüísticas.
 
O pensamento, porém, apesar sempre expresso numa linguagem particular e concreta, é uma entidade lógica. E, de igual forma, o sentimento e a decisão.
 
As ferramentas principais da mente são, portanto, a lógica e a linguagem.
 
Uma observação final.
 
Os medievais, quando pensavam em educação, pensavam em um processo de aprendizagem que envolvia três conjuntos de aprenderes básicos (ou o desenvolvimento de três competências básicas): a lógica, a linguagem e a retórica (o Trivium). A retórica é a capacidade de usar a linguagem para evocar emoções e sentimentos, suscitar a ação. Muitos confundem a retórica com a lógica. A função desta é convencer racionalmente; a da retórica é mexer com as "molas propulsoras" de nossas ações, que são as nossas emoções. Uma retórica sem lógica é vazia. Mas uma lógica sem retórica pode ser ineficaz para nos levar a agir.
 
Em Campinas, 27 de fevereiro de 2007

O avô paterno do meu neto Gabriel

 Faz mais de um mês que não escrevo – e volto para tocar num assunto triste…

O avô paterno do meu neto mais velho, o Gabriel, foi informado esta semana de que tem, no máximo, mais dois meses de vida. No dia do último aniversário do Gabriel, 30 de setembro, sentei-me ao lado dele na festa e conversamos o tempo todo. Estava bem. Sentia-se bem. Tinha excelente aparência. Aposentado, andava todo dia, comia sensatamente, e preocupava-se com a saúde. De repente, há pouquíssimo tempo, começou a sentir-se fraco, ninguém descobria o que tinha, até que, a semana passada, em operação feita para explorar a causa do problema, descobriu-se que tinha um câncer galopante e que o fim estava próximo.

Nos últimos dois dias está acontecendo uma corrida contra o tempo em que ele tenta colocar em dia aquilo que pode para facilitar a vida da mulher e dos filhos: contas bancárias, investimentos, escrituras, pequenos detalhes da vida que a gente nunca arruma porque nunca imagina que os dias da gente estão contados.

Seria melhor morrer de repente e deixar aos sobreviventes essas ingratas tarefas? Ou seria melhor ter uma agonia prolongada, como tempo suficiente para arranjar as coisas, sem necessidade de correr desesperadamente contra o tempo? Ou seria melhor ser imortal e nunca morrer?

Karl Popper disse, em algum lugar, com muita sabedoria, que é a morte que acaba por dar sentido à vida. A morte significa – para usar um truísmo sem par – o fim da vida. E é porque a vida tem fim, e, na verdade, pode terminar a qualquer instante, que é possível imprimir a ela algum sentido. Se não morrêssemos, se fôssemos indestrutíveis, não teríamos necessidade de valores. Precisamos de valores porque são eles que orientam as nossas escolhas, e a vida humana é feita de escolhas e opções – porque não é eterna. Na verdade, nossa natureza é tal que precisamos escolher, a cada momento, no mínimo se continuamos a viver ou se nos deixamos perecer. Se não agirmos, se não fizermos um esforço consciente para nos sustentar e nos manter vivos, morremos (a menos que outros nos sustentem e cuidem de nós – em cujo caso, não vivemos nós: tornamo-nos parasitas). Mas o que dá maior sentido e importância à vida é o fato inegável de que, mesmo que escolhamos viver, a vida tem um fim, que (a menos que conscientemente optemos por ele, pelo suicídio) independe de nós, e que pode nos sobrevir repentinamente, sem nenhuma decisão de nossa parte.

O menino do Rio de Janeiro que morreu aos seis anos, arrastado por um carro, e que agora ocupa os noticiários, teve sua vida ceifada abruptamente, sem que pudesse ter feito muitas escolhas ao longo de sua curta vida. Meu amigo Ernesto teve uma vida boa até aqui, cheia de realizações e prazeres. Teve um casal de filhos bem sucedidos na vida, tem um casal de netos lindos, um dos quais tenho a boa fortuna de compartilhar com ele. Viajou bastante, desfrutou a vida. Sabia apreciar a boa comida, o bom vinho. Tem uma casa linda no alto do morro da Ilha Bela, que oferece a vista mais deslumbrante que já me foi dado admirar. Tenho certeza de que ele daria essa casa e muito mais para ter algum tempo mais de vida – se tivesse a escolha.

Há quase cinco anos atrás, no dia, tive um infarto agudo do miocárdio. Era 1º de março de 2002. Estava aparentemente bem de saúde. Tinha resolvido uma série de pendências complicadas: processos na Justiça, decorrentes de brigas homéricas com ex-sócios e ex-amigos, que poderiam ter representado minha falência comercial e total desastre para minhas finanças pessoais e minha auto-estima. Havia, com parte do dinheiro resultante dos acordos, comprado um sítio aqui em Salto, onde me encontro agora – um sítio pequeno, mas lindo e delicioso, além de ser perto de casa. Achei que ia finalmente começar a viver, e quase morro. Fiquei dias na UTI. Meu prontuário (tenho xerox) registra que fui recebido no hospital em “condição crítica”. Sobrevivi, por obra e graça de atendimento competente, na UNICAMP e no UNICOR de Campinas. Vivo, como gosto de pensar, na prorrogação – talvez, sem saber, nos descontos, o juiz podendo apitar o fim do jogo a qualquer momento. E, é que é prorrogação, sei que pode terminar com o “gol de ouro” – e esse gol de ouro não será meu… No entanto, conto com a chance, tenho um monte de coisas desarrumadas na vida que, a menos que eu tome um pouco mais de juízo, ficarão para meus descendentes arrumar. . .

Nossas escolhas são livres, mas pagamos um preço por elas. Ayn Rand uma vez disse que somos livres para escolher como desejamos, mas não somos livres para evitar as conseqüências de nossas escolhas. Uma desatenção ao atravessar uma rua pode cobrar o seu preço de imediato. A escolha de fumar, ou de comer picanhas gordurosas, quando somos jovens, pode vir a cobrar seu preço 30 ou 40 anos depois. Para enriquecer mais rápido, optamos por estilos de vida estressantes. Tentamos de forma tão intensa ganhar a vida que não percebemos que a estamos perdendo no processo.

Nem de longe quero sugerir que meu amigo Ernesto colhe agora o fruto de decisões mal tomadas antes na vida. Mesmo que tomemos sempre decisões corretas, a vida tem um fim, que pode chegar mais cedo ou mais tarde. Esse, talvez, o sentido trágico da vida de que falava Unamuno. No meu caso, tenho perfeita consciência de que poderia ter vivido uma vida diferente e ter, quem sabe, me safado do infarto de 2002. Mas também tenho perfeita consciência de que poderia ter morrido em decorrência do infarto – tantos morrem! E me pergunto: por que eu consegui me safar, se não do infarto, de suas piores conseqüências? E me pergunto também: por que o menino do Rio de Janeiro não teve nenhuma chance na vida? Ou, então, por que o meu neto Guilherme morreu, uma semana depois de nascido, mas quase três meses antes da data em que deveria estar nascendo?

Não há resposta convincente para essas perguntas. Quem acredita em Deus atribui essas coisas todas à sua vontade (sua, no caso, dele – ou d’Ele, como eles gostam de escrever). Quem não acredita fica condenado a acreditar no destino – ou na sorte, que é a mesma coisa.

Comecei essa crônica falando do avô do Gabriel. Passo a falar dele. Como é que um menino inteligente, mas de apenas sete anos, lida com essas coisas? Há dias ele perguntou ao pai dele se o avô poderia morrer em decorrência da doença, e o pai lhe disse a verdade, que sim. Como é que uma criança processa essas coisas, lida com elas? Será que ele tem consciência de que eu já poderia ter ido – ou que, do jeito que são as coisas, poderei ainda ir antes do outro avô dele?  

Seria bom que a gente aprendesse lições das experiências que a vida nos traz e aprendesse a planejar a vida com cuidado, fazer escolhas certas. A vida não é eterna. Se o fosse, num sentido terreno, que eliminasse a possibilidade da morte (e não no sentido dos Evangelhos, em que a vida eterna só vem depois da morte), não precisaríamos fazer escolhas, tomar decisões… Poderíamos viver perigosamente, comer tudo o que quiséssemos, sem correr riscos. Se gostássemos de literatura e filosofia, poderíamos escolher estudar a primeira durante um século e a segunda durante o século seguinte – que diferença faz um século diante da eternidade? Escolher uma coisa não significaria, neste caso, necessariamente, abrir mão da outra. . . Se gostássemos de várias mulheres, de forma igual, poderíamos escolher viver com todas, com cada uma durante, digamos, cinco décadas (ou seria isso demais até mesmo diante da eternidade?) . . . Novamente, escolher uma coisa não significaria, neste caso, necessariamente, abrir mão da outra, mesmo mantendo uma fidelidade “serial” – fidelidade a cada uma de cada vez . . . Mas, feliz ou infelizmente, sei lá, a vida não é eterna. A vida que temos é essa, que tem fim e cujo fim é imprevisível, podendo ser apressado pelas escolhas que fazemos enquanto nos é dado escolher.

Que sentido teria a vida se as escolhas que fazemos não cobrassem seu preço – ou se a vida não tivesse fim, independentemente de nossas escolhas?

Em Salto, 17 de fevereiro de 2007

Acréscimo de 18 de fevereiro de 2007: menos de 24 horas depois de eu escrever e publicar esse texto, Ernest Wild, avô paterno do meu neto Gabriel, sogro de minha filha mais velha, e meu amigo, faleceu em São Paulo.

Do meu jeito ("My way")

A vida de vez em quando dá umas porradas na gente, quando a gente menos espera. Minha irmã perdeu, recentemente, um atrás do outro, um cunhado e uma cunhada (não casados um com o  outro). Ficou, naturalmente, meio abalada – quem não ficaria? Conversando com ela no Messenger, mencionei uma de minhas canções favoritas: “My Way”, letra de Paul Anka (meio que versão do Francês para o Inglês), interpretação inigualável de Frank Sinatra. Enquanto conversávamos, resolvi traduzi-la para o Português.

Não sou poeta: não consigo traduzir em verso, com rimas e métricas. Mas o resultado, apesar de literariamente precário, é, pelo menos, parece-me, fiel ao original.

A letra da canção é uma lição de vida.

Em Agosto passado, quando estive em Perth, no Oeste da Austrália, fui convidado a participar de um talk show – uma entrevista longa, de uma hora, falando de tecnologia, educação, religião e a vida em geral – da ABC Radio da Austrália. A produção do show me contatou antes e me perguntou se eu tinha uma música favorita. Eles queriam começar o programa tocando a música. Indiquei “My Way”, com o Frank Sinatra. Começaram o programa assim – e me perguntaram, em seguida, por que eu havia escolhido essa música.

Respondi basicamente o seguinte:

Em primeiro lugar, porque que a canção é sobre “My Way” – não “The Way”. Não sou um relativista. Acredito que existam verdades e valores absolutes. Mas em relação ao tipo de vida que vamos viver, e como vamos viver, cada um de nós é soberano – e temos o direito até mesmo de cometer erros, às vezes até uns erros meio bestas. Não raro, é assim que a gente aprende. Seria ótimo se a gente pudesse aprender sempre com os erros dos outros, sem ter de cometer os próprios. Mas não é assim que é a vida. Karl Popper até mesmo sugeriu que quanto mais cedo cometêssemos nossos erros, tanto melhor – mas não nos deu nenhuma garantia de que, se os cometêssemos cedo, não iríamos cometê-los também mais tarde…

Em segundo lugar, porque a canção reconhece que somos responsáveis pela escolha não só do conteúdo de nossas vidas (o que ser, o que fazer, com quem nos relacionar), mas também da nossa maneira de ser, de nossa maneira de fazer as coisas, de nossa maneira de nos relacionar com os outros – enfim, de nosso estilo. Cada um, afinal, tem “seu jeito” – e esse jeito é, ou pode ser, objeto de nossa escolha.

Em terceiro lugar, porque a canção reconhece o fato de que, não importa quanto planejamento a gente faça (“chart our course”, “carefully plan each step”), às vezes as coisas não acontecem como as planejamos.  Não  raro, tentamos abocanhar mais do que conseguimos mastigar (“we bite off more than we can chew”)… Neses casos, a melhor coisa a fazer é cuspir aquilo que foi mordido mas está além de nossa capacidade de mastigar… 

Em quarto lugar, porque a canção reconhece que na vida há impoderáveis, há sorte e azar, há coisas como aquelas que Woody Allen traz à tona em seu lindo filme (com a não menos linda Scarlett Johansson) “Match Point”…

Em quinto lugar, porque a canção reconhece que a vida é feita de amores, de alegrias, de risos – mas também de perdas, de tristezas, de lágrimas… Mas quando esses maus momentos chegam, devemos procurer ficar de pé (“stand tall”) e enfrentá-los  (“take the blows”) – e fazer isso do nosso jeito.

Finalmente, em sexto lugar, por causa da mensagem final: o homem não tem nada, se não for dono de si mesmo. Quem se ajoelha, entrega o controle de sua vida a terceiros.

Aqui está a letra traduzida para o Português:

Do Meu Jeito (My Way)

(P. Anka, J. Revaux, G. Thibault, C. Frankois)

Agora, o fim está próximo, chega a hora da última cortina.
Por isso, amigo, vou apresentar meu caso, do qual não tenho dúvidas.
Vivi uma vida plena, andei por tudo o que é caminho,
Mas, o que é mais importante, sempre fiz tudo do meu jeito.

Arrependimentos, tive alguns, mas poucos para merecer menção.
Eu fiz o que tinha de fazer, fui até o fim, sem exceção.
Planejei meus caminhos, e, neles, escolhi meus passos,
Mas, o que é mais importante, sempre fiz tudo do meu jeito.

Vezes houve, você sabe, quando abocanhei mais do que pude mastigar.
Mas é que, em caso de dúvida, nunca hesitei:
Sempre mordi primeiro, ainda que pra cuspir depois.
Enfrentei tudo, sempre continuei de pé, e fiz tudo do meu jeito!

Eu amei, ri, chorei – de tudo tive minha cota, até de derrotas…
Mas agora, que as lágrimas já secaram, acho tudo até divertido!
Pensar que eu fiz isso tudo, e, se eu posso dizer, sem modéstia,
Ah, não! modéstia não é comigo… Eu fiz tudo do meu jeito!

Pois o que é o homem, no fundo o que é que ele tem?
Se não for dono de si mesmo, ele é pobre, nada tem.
Dono para dizer o que pensa e sente, não as palavras de quem se ajoelha.
Os autos provam: levei porradas, sim, mas fiz tudo do meu jeito!


ORIGINAL:

(P. Anka, J. Revaux, G. Thibault, C. Frankois)

And now, the end is near, and so I face the final curtain
My friend, I’ll make it clear, I’ll state my case, of which I’m certain
I’ve lived a life that’s full I traveled each and every highway;
And more, much more than this, I did it my way

Regrets I had a few, but then, again, too few to mention
I did what I had to do and saw it through without exemption
I planned each charted course, each careful step along the byway
And more, much more than this, I did it my way

Yes, there were times, I’m sure you knew,
When I bit off more than I could chew
But through it all, when there was doubt I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall and did it my way

I’ve loved, I’ve laughed and cried, I’ve had my fill, my share of losing
And now, as tears subside, I find it all so amusing
To think I did all that And may I say, not in a shy way,
"Oh, no, oh, no, not me, I did it my way"

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught,
To say the things he truly feels, and not the words of one who kneels
The record shows I took the blows and did it my way!

Em Kuala Lumpur (já no aeroporto para ir embora), 9 de dezembro de 2006

Uma modesta contribuição à estética da aparência feminina

No meu aniversário, no último dia 7, venceu minha carteira de motorista. Hoje fui renová-la. Antes, tive de fazer a bendita prova sobre Direção Defensiva e Primeiros Socorros. Para me preparar, li uns livretinhos publicados na Internet pelo DENATRAN. Quando me julguei suficientemente preparado, fui até o centro da cidade, a uma Auto-Escola que aplica a prova, quase em frente ao Correio. Lugar triste. Mas passei. Acho que até com algum louvor: acertei 28 de 30 perguntas. Depois fui ao Poupa Tempo, do outro lado da rua (ao lado do Correio) e em menos de 45 minutosa tirei a nova Carteira. Tudo bem – exceto pelo médico, que devia ter levantado com o pé esquerdo. Mas não é sobre isso que quero falar.

Enquanto estava na Auto-Escolaa, esperando a minha vez de fazer a prova mencionada atrás, feita no computador, tudo como manda o figurino, fiquei, durante uma meia hora, na falta de algo melhor, observando as três moças que atendiam os clientes. E por falar em figurino, as três pareciam usar roupas desenhadas pelo mesmo coutourier. Mini blusa justa, terminando mais ou menos 10 ou 12 cm acima do umbigo, e calças jeans no estilo que antigamente a gente chamava de Saint Tropez: cintura bem baixa, quase uns outros 10 ou 12 cm agora abaixo do umbigo. À mostra, cerca de 20 a 24 cm de barriga.

Quero deixar registrado que nada tenho contra a exibição da barriga por parte dos mulheres, nem mesmo no ambiente de trabalho. Em muitos casos até gosto de olhar disfarçadamente. Mas há um problema: não é toda barriga que se exibe bem… Vocês me entendem.

No caso em pauta, as três tinham uma barriguinha assim, como direi, um pouco protuberante. Não muito, mas o suficiente. Porque a cintura da calça era muito baixa, elas tinham de usar uma calça muito apertada – minha avaliação é que a calça era uns dois tamanhos menores do que deveria ser – e, como se não bastasse isso, elas apertavam o cinto bastante. Resultado, de fazer doer a vista: cerca de 5 cm de barriga sobrando na frente, cerca de 5 cm de anca sobrando de cada lado, e um pouco de carne sobrando até atrás. Uma cena de fazer chorar. Triste, triste, triste.

Mas não era tudo. A agressão à estética não parava aí. O sutiã delas também era um ou dois números menor do que deveria ser. Resultado: na frente, os peitos parece que estavam sendo empurrados para cima e, não tendo muito pra onde ir, tentavam sair pra fora; atrás, o sutiã dava a impressão de estar quase partindo as costas delas ao meio, na horizontal. Tenho a impressão de que a marca no corpo nunca mais vai sair. 

Fiquei pensando com os meus botões: será que elas não têm espelho? Como tenho três filhas, todas acima de 30, conheço todos os truques de subir em cima da privada e do bidê para se ver no espelho da pia de corpo todo, as entortadas de corpo que elas dão, tais quais contorcionistas, para se ver por trás, etc. Será que as meninas da Auto-Escola não conhecem essas técnicas? Será que uma, ao ver a outra, não pensa: será que eu também tenho uma aparência assim??? Pensei em propor a elas tirar fotos por trás… na esperança, talvez vã, de que, vendo-se do ângulo que eu as via, elas pudessem cuidar melhor da aparência, não agredir tanto a estética…

O problema é que a doença parece ser contagiosa. Hoje é raro ver uma mulher com menos de 40, usando calça comprida, bermuda, ou shorts, ou até mesmo saia, que não mostre a barriga – ainda que, em posição normal, seja apenas uma tirinha. Quando elas levantam os braços, porém, ou fazem algum movimento mais exagerado, a tirinha deixa de ser uma tirinha… De novo: nada contra, quando a barriguinha é bonita… E bonita não quer dizer sarada. Não gosto de mulher com barriga de tanquinho. Um pouquinho de gordura é bonito – constatei isso numa festa árabe (com dança do ventre e tudo) do Rotary Club de Santa Bárbara d’Oeste – Progresso a a que fui há duas semanas. Mas tudo tem seu ponto de equilíbrio. O que preocupa é que há barriguinhas que fazem a gente sentir um profundo sentimento de comiseração. E isso não é bom, especialmente se as próprias acham que estão abafando…

Quando as mulheres usavam calças compridas, bermudas, shorts, saias que chegavam até a cintura, e blusas que cobriam a cintura, o problema era disfarçado ou escondido. A calça, a bermuda, o short, ou a saia, chegando até a cintura, ficava firme no lugar – dispensando até mesmo o cinto – mesmo que fosse da numeração certa. Não havia necessidade de usar numeração menor, ou modelo “petite”… A estética agradecia.

Agora, do jeito que as coisas estão, a estética está sendo agredida pela moda – ou, melhor dizendo, por aquelas mulheres que não percebem que não têm condições (leia-se: corpo) para se vestir segundo dita a moda.

Preciso dar uns esclarecimentos, para não ser linchado virtualmente…

Primeiro. Sendo liberal, como sou, acho que todo mundo tem direito de se vestir como quer – mesmo que fique ridículo. Não se trata, pois, de sugerir ao governo medidas coercitivas que ditem como as mulheres devem se vestir, ou coisas desse tipo. Estética pública não funciona. Reconheço o direito ao ridículo. Mas as mulheres poderiam ter um pouco mais de respeito para com a estética… E, se não possuem, quem sabe a gente poderia começar oferecendo uns cursos de Educação Estética, começando na quinta série.

Segundo. Não tenho nada, absolutamente, nada contra as mais cheinhas – desde que se vistam com sensatez. Uma fofinha bem vestida é muito bom de contemplar. O problema não é a gordurinha, em si. Ele está na relação entre o corpo e a moda. Até mulher relativamente magra, se vestir roupa dois números menor, que aperta a barriga e as ancas, para não escorregar, fica parecendo uma salsichinha amarrada no meio – salsicha mais fininha, mas salsicha, nonetheless.

É isso. Pus pra fora a minha preocupação… Preocupação filosófica. Os antigos diziam que os três problemas centrais da filosofia eram o verum, o bonum e o bellum. É por isso que estou escrevendo: não basta combater a falsidade, a mentira, o erro, nem a maldade e a perversão moral – é preciso combater também o inestético.

Em Campinas, 15 de setembro de 2006

Mais uma crônica antiga: Meus 60 anos

 
[Esta crônica foi distribuída na minha lista 4pilares, em 7 de setembro de 2003, dia em que completei 60 anos. Eu estava em Salzburg, Áustria, participando de um encontro sobre Inclusão Digital patrocinado, em parte, pela Microsoft. Meu terceiro neto, a que faço referência, nasceu dois dias depois, dia 9/9/2003, prematuro de seis meses, e com problemas, e morreu no dia 15/9, menos de uma semana depois.]
 
Comecei escrever esta crônica faz mais de três meses. Daí parei, por excesso de trabalho e falta de tempo… Além disso, parecia haver tempo suficiente até o dia. Mas o dia chegou: hoje, aqui em Salzburg, na Austria, cinco horas na frente de São Paulo, à 1h00 da manhã, sozinho no quarto de um castelo do século XVIII, celebro o meu aniversário. 7 de setembro de 2003: faço 60 anos hoje. Tomei um copo de vinho à meia-noite (zero hora). Está feita a celebração.
 
Quantos anos de vida ainda tenho eu? Não sei. Ninguém sabe. Dezoito meses atrás tive um enfarto que quase acabou com minha vida, antes de eu conhecer minha segunda neta, que nasceu em 11/3/2002, no dia em que saí do hospital. Hoje, dezoito meses depois, estou aqui preocupado com minha outra filha, que está no hospital, com risco de perder o meu terceiro neto, numa gravidez meio complicada que mal completou seis meses. Parece que a morte anda me rondando ultimamente. Depois do meu enfarto, sinto como se estivesse vivendo uma prorrogação: empatei o jogo no último minuto e ganhei mais algum tempo para tentar ganhar o jogo contra a morte. É um jogo de "morte súbita" — termo funesto que era usado no futebol, hoje substituído pelo menos assustador "gol de ouro".
 
Mas se paro para pensar mais filosoficamente sobre o assunto, ninguém sabe quanto mais de vida vai ter. Gente nova e sadia pode morrer amanhã num acidente de carro — ou por uma bala perdida, como a Fernanda da novela. Na área da saúde falamos em "expectativa de vida ao nascer": isto é, qual é o número de anos que se espera que uma criança que nasça hoje provavelmente vai viver. A expectativa de vida ao nascer não avalia a expectativa de vida de pessoas hoje vivas, como eu, que, provavelmente, já viveram muito mais do que era a sua expectativa de vida ao nascer, sessenta anos atrás… Mas mesmo uma criança que nasça hoje, em um país desenvolvido como a Áustria, em que me encontro hoje, e que tem, digamos, uma expectativa de vida de cerca de 80 anos, senão mais, pode morrer amanhã de causas acidentais ou congênitas. Meu terceiro neto, que até nome já tem (Guilherme), luta pela vida antes de nascer. Não pesa nem um quilo ainda. Fico aqui torcendo mais por ele do que por mim.
 
O destino — ou Deus, para quem acredita nele — me concedeu o privilégio de chegar aos sessenta. Privilégio, quero dizer, se olhamos para trás. Se olharmos para a frente, sessenta anos pode ser, para alguns, daqui a alguns anos, a idade madura — ou, quem sabe, até mesmo o fim da adolescência. Há não muitas gerações era comum morrer aos trinta ou quarenta anos.
 
Quantos anos mais tenho para viver?
 
No interessante filme "About Schmidt", o personagem principal, Schmidt, representado por Jack Nicholson, se aposenta, no início do filme, aos sessenta e seis anos — idade 10% maior do que a minha hoje. Sua aposentadoria vem depois de uma longa carreira como Analista de Risco em uma companhia de seguros. Estatístico por formação, sua tarefa na companhia era avaliar o risco, por parte da companhia de seguro, de aceitar diferentes propostas de seguro de vida. Nos primeiros dias de sua aposentadoria ela começa aplicar a sua especialidade a si próprio. Ele se faz a mesma pergunta com que comecei esta crônica: Quantos anos de vida será que ainda tenho? Dados os seus hábitos e o seu estilo de vida — e levado em conta o fato de que ele nunca teve uma doença séria como câncer ou enfarto — ele conclui que, provavelmente, ainda terá uns nove anos de vida pela frente. Isto, naturalmente, desde que as condições básicas de sua vida não se alteram, a saber, que ele continue casado com sua atual mulher e não altere drasticamente seus hábitos. Se sua mulher morrer, a equação é alterada. Se ele se casar de novo depois de viúvo, altera-se mais uma vez. Se se casar com uma mulher muito mais nova e cheia de vigor, altera-se de novo, agora drasticamente! (Neste caso ele pode até vir a falecer uns poucos dias depois do novo casamento…).
 
Vi este filme com minha mulher e com minha filha mais nova (que agora está grávida) e seu marido. Minha mulher e eu gostamos muito do filme. A geração mais nova, nem tanto. Não foi necessária muita reflexão para concluir porquê. Nossa realidade estava mais próxima do problema descrito no filme. Quando você é jovem, a morte parece ser algo distante…
 
Nunca tive coragem de perguntar ao meu cardiologista, depois do meu enfarto, quanto tempo de vida ele achava que eu ainda teria. Médico experiente que ele é, ele me disse, em minha primeira consulta depois da alta no hospital, que eu poderia viver até os 90 anos — SE… um monte de ses se seguiram: se eu tomar os meus remédios, se eu me alimentar de forma sensata, se eu andar todos os dias, se eu não me exceder em atividades físicas ou em emoções extraordinárias… Tudo isso eu venho tentando fazer com seriedade quase religiosa…
 
Tempos atrás encontrei um site na Internet — infelizmente me esqueci da URL — que fazia aos visitantes uma longa série de perguntas sobre sua história de vida, sobre seus antecendentes familiares, sobre seus hábitos, etc., para lhes fazer uma previsão acerca do dia de sua morte. Lembro-me de que, no meu caso, minha morte foi prevista para o dia 23 de agosto de 2023 — uns dias antes de eu completar 81 anos. Mas isso foi antes do enfarto… Provavelmente a data, hoje, seria antecipada um pouco…
 
Li, há alguns dias, uma crônica de meu querido amigo Rubem Alves. Ele fará setenta anos uns dias depois de eu completar sessenta. Somos ambos virginianos (como são muitos de meus grandes amigos). Lembrava ele o texto bíblico que dizia que a duração da vida humana é de setenta anos. Acima disso, diz a Bíblia, nada há a não ser canseira e enfado. Mas o Rubem não parece cansado e enfadado aos setenta anos. Espero chegar aos setenta com o mesmo vigor e o mesmo gosto pela vida que ele ainda exibe.
 
Passei a tarde da véspera de meu sexagésimo aniversário em uma excursão pelos lugares em Salzburg e nos arredores em que foi filmado A Noviça Rebelde — filme que em Inglês tem o nome de "O Som da Música", "The Sound of Music". O ônibus da excursão tinha a placa "SOUND1" — pela qual o motorista pagou 400 euros, segundo disse. Ao sair da excursão vim andando pela cidade velha de Salzburg e, ao lado da catedral, perto da estátua de Mozart, filho mais ilustre da cidade, havia um grupo de índios bolivianos tocando aquelas flautas tradicionais da região deles. A música? "Os Sons do Silêncio", "The Sounds of Silence"… Fiquei pensando: de um lado, o som da música, a vida, cheia de sons, cores, cheiros, gostos (de Apfelstrudel), sensacões alegres… (como vi na excursão). Do outro lado do rio Salzach, os sons do silêncio, a morte, o fim. Perto da Catedral — comme il faut.
 
Ingrid Bergman, uma de minhas atrizes favoritas, que estrelou em Casablanca, filme que ganhou o Oscar de melhor filme no ano em que nasci, e que no mês passado também comemorou seus sessenta anos, um dia disse, em resposta a uma pergunta que lhe indagava como se sentia, envelhecendo e perdendo o virgor da juventude: sinto-me bem, porque a única alternativa que temos a envelhecer é morrer cedo…
 
Uma grande verdade. Ainda que morra agora, vivi bastante. Sessenta anos é muito. Mas embora seja bastante, não é o bastante: quero viver mais, para conhecer o Guilherme Chaves de Moraes Salles, que espero que seja paciente e fique na barriga da mãe o tempo necessário para enfrentar o mundo aqui fora; para ver o Guilherme brincar com o Gabriel (que este mês faz quatro anos, e que todo dia marca no calendário que falta um dia a menos para ele poder brincar de novo com o avô); para ver o Guilherme e o Gabriel brincarem com a Olívia, que está lá em Ohio, mas que já fala "Dudu", para se referir ao avô; e para fazer tantas outras coisas que em sessenta anos não foi possível fazer.
 
Agora vou dormir porque já são duas horas da manhã aqui. Acabei de ouvir tocar os sinos da Catedral de Salzburg. E amanhã (hoje) tenho reunião às 9h00
 
Transcrita em Salto, 30 de agosto de 2006

Dá pra viver o mesmo dia duas vezes? Ou pra pular um dia, sem vivê-lo?

Estou na Austrália. Na verdade, estou escrevendo de um café no aeroporto de Sydney, enquanto aguardo meu vôo da Qantas para Perth.

O vôo (non-stop) da United de San Francisco a Sydney levou 14 horas num Boeing 747. Tempo suficiente para jantar, ver um filme, dormir bastante e ficar tentando entender os fusos horários — questão que sempre me fascinou. Na época da transição do segundo para o terceiro milênio da era cristã, estava na casa de minha filha, nos Estados Unidos, e acompanhei na televisão a cobertura da entrada no milênio de países de todos os fusos horários: a Austrália foi um dos primeiros países, mas não o primeiro: Sydney está em GMT +10; Perth em GMT +8. Adelaide, no meio das outras duas cidades, num curioso GMT +9.5. Fiquei olhando o mapa do mundo impresso na revista Hemispheres, da United, que tem todas as linhas que separam os fusos horários… O mapa é uma obra de arte. Arranquei as duas folhas em que ele aparece e trouxe comigo. Bem no centro do mapa, no plano horizontal (Leste-Oeste) e vertical (Norte-Sul) está Chicago — que, por coincidência, é a cidade em que ficam o World Headquarters e o hub principal da United Airlines… Chicago é GMT -6. Nós, no Brasil, temos quatro fusos horários: o de São Paulo é GMT -3. Isso quer dizer que Chicago normalmente está três horas atrás de São Paulo. Isso não vale agora, porque os Estados Unidos (e também a Europa e vários outros países) estão no Horário de Verão e, portanto, fizeram avançar seus relógios em uma hora. Hoje a diferença entre Chicago e São Paulo é de apenas duas horas. Quando nós estamos no Horário de Verão e eles, nos Estados Unidos, não, a diferença é de quatro horas…

(A propósito, acho um despropósito no Brasil se dizer “Horário de Brasília”. Bestagem de brasileiro. Nos Estados Unidos nunca se diz “Horário de Washington”. Diz-se “Eastern Standard Time” — Tempo Padrão do Leste (do país). Deveríamos fazer a mesma coisa no Brasil. Eu fico revoltado quando tenho de selecionar “Horário de Brasília” para configurar um computador, um PDA, um telefone celular meu… Não moro em Brasília! Na verdade, detesto a cidade… Fim do parêntese.)

Mas é importante notar que a expressãozinha que venho usando, GMT, quer dizer: Greenwich Meridian Time. Greenwich é uma localidade perto de Londres. Por ali, algum dia no passado, foi definido que passava o Meridiano 0 — o Meridiano de Greenwich (da mesma forma que o Trópico de Capricórnio passa um pouco ao norte da cidade de São Paulo). Todo o sistema de fusos horários foi definido tomando como base a Hora do Meridiano de Greenwich, que é GMT, simplesmente. Todos os outros fusos horários são definidos como um número, de 1 a 12, positivo ou negativo, que representa a distância, em meridianos, do Meridiano de Greenwich. De Greenwich para o Oeste, o número é negativo, até chegar -12. De Greenwich para o Leste, é positivo, também até chegar 12. São Paulo, sendo GMT -3, está três horas atrás do horário de Greenwich (também chamado de “Universal Time”…). Deveria estar três horas atrás de Londres, também. Só que hoje Londres está em horário de verão e, por isso, São Paulo está quatro horas atrás de Londres (mas só três atrás do “Universal Time”).

(Na Copa, os horários dos jogos na Alemanha estavam cinco horas na frente dos horários no Brasil — isto é, no Leste Brasileiro. Isso porque o fuso horário da Alemanha é GMT +1, o que a colocaria quatro horas na frente do Leste do Brasil. Mas estando a Alemanha, como toda a Europa, em horário de verão, a diferença passa a ser de cinco horas.

Por que o meridiano que passa perto de Greenwich foi definido como o Meridiano 0 e usado como base para definir todo esse complexo sistema? Pela mesma razão que o mapa da United coloca Chicago no centro. Para os Ingleses, o país e, dentro do país, a capital dele, Londres, era nada menos do que o centro do mundo. Nada demais, portanto, definir o meridiano que passava ali como o Meridiano 0 e o horário de Greenwich como “Universal Time” – o horário padrão de referência.

Sydney, disse eu, está em GMT +10. São Paulo, em GMT -3. Nem Sydney nem São Paulo estão em horário de verão. Logo, a diferença entre Sydney e São Paulo hoje é de treze horas. A diferença entre -3 e +10 dá 13 — não é uma soma essa operação. Sydney está 13 horas na frente de São Paulo. Agora são 10h00 aqui, no domingo, dia 6 de agosto. Em São Paulo são 21h00, do sábado, dia 5 de agosto. Entre 21 horas de sábado e 10 horas do dia seguinte, há uma diferença de treze horas. QED.

Há outro jeito de fazer a operação. O dia tem 24 horas. Como Sydney está treze horas na frente de São Paulo, se diminuirmos 13 de 24, teremos 11. São 21h em São Paulo, no sábado dia 5 de agosto. Se tirarmos esses 11 (24-13) de 21h, teremos 10 — que é exatamente a hora de Sydney — só que seriam as 10h de ontem… Por isso, se tomarmos as 21h do sábado, dia 5/8, e diminuirmos onze, teremos de acrescentar 24 para ter a hora de Sydney agora, 10h do domingo dia 6 de agosto. Complicadinho…

Em algum lugar do Pacífico, a leste da Nova Zelândia, passa a chamada “International Date Line”. Se você estiver cruzando essa linha, você ganha ou perde um dia. Se você estiver indo na direção Leste-Oeste, e cruzar essa linha à meia noite de domingo, ao cruzar a linha você estará à meia-noite de segunda: perdeu um dia (nunca vai viver essa segunda-feira). Se, por outro lado, você estiver indo na direção Oeste-Leste, e cruzar a linha à meia-noite da segunda-feira, voltará para a meia-noite de domingo: ganhou um dia, pois poderá viver a segunda-feira duas vezes. A “International Date Line, não há surpresa ao descobrir, está na posição exatamente oposta à de Greenwich… [no plano horizontal representado pelos mapas]. A “International Date Line” é o espelho do “Universal Time”.

Tem gente que acha que essas coisas apontam para algo transcendental… Complicado esse negócio de voltar no tempo, viver o mesmo dia duas vezes… Parece sugerir que podemos regredir no tempo, reviver vidas passadas… Quem sabe? Back to the Future — or Forward into the Past.

[Devo ter cometido alguma gafe geográfica neste artigo. Estou escrevendo sem verificar nada, a não ser o mapa da United Airlines… Se você achar algum erro, me escreva para eduardo@chaves.com.br] [PS: Não uso mais esse e-mail: escreva para eduardo@chaves.pro – Nota de 14.04.2020].

Em Sydney, 6 de agosto de 2006 (na data do Spaces vai aparecer dia 5 de agosto…)

Sorte

Acabei de assistir (hoje, 4 de junho de 2006) a um instigante filme de Woody Allen: "Match Point". Minha razão principal pra comprar o DVD foi o fato de Scarlett Johanssen estar nele… Mas o filme é muito bom. Woody Allen, além de diretor, é roteirista.

O filme começa com a música "Una furtiva lacrima" no fundo, enquanto passam os créditos de abertura… (Eu tinha uma idéia obsessiva de fazer um filme em que Nana Mouskouri cantava essa música quando dos créditos de abertura). Depois aparece uma rede de tênis e uma bolinha passando de lá pra cá, de cá pra lá.

Um voz em off diz:

"O homem que declarou ‘Preferiria ter sorte a ser bom’ entendia muito da vida. As pessoas têm medo de enfrentar a verdade de que uma grande parte de nossa vida depende exclusivamente da sorte. Assusta acreditar que muito na vida está fora de nosso controle. No, entanto, há momentos em uma partida de tênis em que a bola bate no topo da rede e, por uma fração de segundo, pode ir para frente ou cair para trás. Com um pouco de sorte ela vai pra frente, e você ganha. Mas pode ser que ela não faça isso, e você perde".

O filme ilustra o princípio — mas a gente só percebe no fim.

Vale a pena assistir. Filme inteligente, como, em geral, são os filmes de Woody Allen. Mistura de romance, policial e suspense. Mas a provocação principal é a questão com que ele começa: quanto da nossa vida depende da sorte?

Tenho defendido há muito tempo que nossa vida depende principalmente de nós mesmos. Mas é inegável que há fatores além de nosso controle. Desses, vários estão sob controle de outras pessoas, mas uma boa parte só pode ser qualificada de sorte – ou azar. É difícil vencer na vida sem uma pitada de sorte aqui e ali. Falo com conhecimento de causa. Tenho sido bafejado por ela em muitas ocasiões. Mesmo quando parecia que o azar havia me acometido, o que veio foi a sorte disfarçada de azar. Espero que meus aparentes azares do presente continuem a se transformar em sorte.

Em Campinas, 4 de junho de 2006

Gestão do conhecimento: o conceito

Vou me arriscar a discutir a questão da conceituação da gestão do conhecimento sem me referir à volumosa literatura que existe sobre esse tema. Vou me valer apenas, de um lado, de minha experiência como filósofo, por muitos anos envolvido com a epistemologia (teoria do conhecimento), e como educador, também por muitos anos envolvido com a questão de como é que as pessoas, que nascem ignorantes e incompetentes, conseguem vir a conhecer, isto é, a se designorantizar, e a se tornar competentes, isto é, a se desincompetentizar, e, de outro lado, de meu conhecimento da literatura filosófica sobre o conhecimento. Também fui, durante vários anos, professor de Gerenciamento de Sistemas de Informação. Colocando tudo isso num liqüidificador, vamos ver no que dá…

Há momentos em que me pergunto se a gestão do conhecimento é algo mais do que o antigo gerenciamento da informação – e se é, no que consiste esse mais?

A impressão que tenho é que a gestão do conhecimento é, sem dúvida, algo mais do que o gerenciamento da informação — e que o mais, no caso, é o gerenciamento de competências. Assim teríamos: gerenciamento da informação + gerenciamento de competências = gestão do conhecimento.

Obviamente haverá quem estranhe essa forma de colocar as coisas. Mas vou tentar justificá-la.

Certamente já houve quem tenha dito que a gestão do conhecimento abrange TANTO o conhecimento (que eu prefiro chamar de informação) que está registrado, digamos, no que Karl Popper chama de "Mundo 3", isto é, em mecanismos diversos de registro e armazenamento da informação, como livros, revistas, jornais, discos magnéticos e ópticos, fitas idem, etc. (o "etc" englobando até mesmo fotografias, quadros, reproduções de imagens, discos e fitas com música e vídeo, paredes de caverna, etc. — isto é, englobando até mesmo a informação audio-visual e não apenas textual), COMO o conhecimento que está armazenado na cabeça das pessoas (naquele que Karl Popper chama de "Mundo 2", o mundo mental; o que ele chama de Mundo 1 é o mundo que resta quando se atribuem a outros mundos as realidades mentais e as informações, e que inclui os mecanismos físicos em que armazenamos as informações).

Mas aqui surge o seguinte problema, que tem várias facetas.

O conhecimento que está armazenado na cabeça das pessoas engloba uma boa parte da informação que também está registrada fora. Digamos que vou escrever um artigo. Penso e decido o que vou dizer. Até que eu coloque o artigo em disco ou papel, ele está só na minha cabeça; depois passa a estar na minha cabeça e no papel ou no disco. Se um dia ou me esquecer totalmente do conteúdo do artigo que escrevi, ou, então, se eu morrer, o artigo continuará a existir em papel ou em disco.

Seria o conhecimento que está em nossa cabeça algo mais do que um conjunto de informações que podem ser, digamos, externalizadas e registradas em algum meio de armazenamento de informações? 

Tradicionalmente, na Epistemologia (Teoria do Conhecimento), se argumentou que conhecimento é informação — mas informação de certo tipo. Na versão mais famosa dessa teoria tradicional, as informações que merecem ser chamadas de conhecimento são aquelas que são verdadeiras, para as quais temos evidência, e nas quais acreditamos. Em suma: conhecimento seria crença verdadeira e evidenciada.

Não vou entrar aqui na discussão dessa proposta de conceituação de conhecimento, que é bastante falha. Basta dizer que pouca gente a aceita, hoje. Popper, talvez, tenha sido o seu coveiro.

Muitas outras propostas têm surgido para substituir essa visão tradicional, preservando a idéia de que conhecimento é informação, mas procurando mostrar que apenas um certo tipo de informação faz jus ao rótulo de conhecimento: por exemplo, conhecimento seria a informação integrada, contextualizada e interpretada, por exemplo. E assim vai.

Numa linha diferente, têm havido aqueles que, sob inspiração de Piaget, têm afirmado que conhecimento não é informação (nem mesmo de um tipo especial), mas que é o nome que damos aos nossos modelos e esquemas ("schemata") mentais, que, em última instância, são aquilo que nos permite lidar com grandes quantidades de informação e fazer sentido delas.

Embora atraente, há algumas dificuldades nessa proposta.

Em primeiro lugar, boa parte de nossos modelos e esquemas mentais normalmente não são conscientes. Se fizermos um esforço de foco e auto-análise, poderemos até adquirir consciência de alguns deles, se bem que dificilmente em toda a sua complexidade. Em segundo lugar, se isso é verdade, seria possível descrever, em parte, esses modelos e esquemas, mas seria muito difícil transmiti-los ou transferi-los a terceiros: cada um, em última instância, teria de desenvolver os seus. Em terceiro lugar, se isso é verdade, é difícil imaginar o que seria a gestão, por terceiros, desse conhecimento que está na cabeça dos outros. Na verdade, é difícil até mesmo imaginar o que seria a gestão dos modelos e esquemas mentais que estão na nossa própria cabeça, em parte porque a tomada de consciência deles, ainda que parcial, exige competências de auto-percepção (auto-conhecimento?), análise e descrição de sistemas complexos que a maior parte dos mortais não desenvolve.

Quaisquer que sejam os modelos e esquemas que desenvolvamos para lidar com a informação e fazer sentido dela, parece inegável que esses modelos e esquemas, mais as informações que possuímos em nossa cabeça, se traduzem nas competências e habilidades que desenvolvemos. Sem, necessariamente, nos comprometer com uma visão behaviorística da mente, mas reconhecemento que num contexto instituticional é o comportamento que mais importa, poderíamos, então, concluir que a chamada gestão do conhecimento é o gerenciamento da informação registrada em diversos meios de armazenamento dentro de uma instituição mais o gerenciamento das competências daqueles que ali militam. Assim evitaríamos as complicações envolvidas em falar no conhecimento que está "dentro da cabeça das pessoas".

Quod erat demonstrandum.

Uma última dificuldade, para concluir.

Quando se trata de instituições educacionais, cuja missão, portanto, mais do que transmitir informações, é ajudar os outros a aprender, e reconhecendo, apud Senge, que aprender é se tornar capaz de fazer o que antes não conseguíamos fazer, ou seja, aprender é desenvolver competências, o gerenciamento das competências talvez seja, nessas instituições, bem mais importante do que o gerenciamento da informação.

Em Taipei (Taiwan), 7 de maio de 2006

Da amizade e do amor (e, quem sabe, do sexo)

Uma das coisas mais comuns por esse Brasil afora, quando chega o fim do ano, é a tradicional festa de formatura. Até Jardim da Infância hoje tem sua festa de formatura. Em muitas dessas festas, quando vai chegando o fim, toca-se a canção (Canção da América, letra de Fernando Brant) que Milton Nascimento celebrizou, e que começa dizendo "Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração". Enquanto a música toca e todo mundo cantarola junto, os formandos se abraçam, balançam os corpos em sincronia com o ritmo da música. Alguns formandos choram. (Suas mães também).
 
A amizade é uma coisa bonita. Diferente do que acontece no caso do amor, admite-se, sem problema, que tenhamos vários amigos — todos eles verdadeiros. Não deixamos de ser honestos por termos mais de um amigo verdadeiro. Não traímos um amigo ao arrumar outro amigo: mantemos os dois, sem problemas. Talvez "melhor amigo", se o tivermos, só tenhamos um: mas isso é imposição da lógica ou, quem sabe, da semântica. Podemos ter vários amigos verdadeiros, sem hierarquias, sem que um seja o "amigo matriz", ficando para os outros a categoria de "amigo filial", quem sabe de "amigo franquia"…
 
Pode ser que, no fundo, de vez em quando haja uma pequena ponta de ciúme entre alguns dos nossos amigos, uns querendo ser mais amigos nossos do que os outros, mas, no fundo, nenhum amigo pretende ter exclusividade na amizade de seus amigos. Pelo contrário. Quando temos dois amigos que não se conhecem, em geral fazemos questão de apresentar um ao outro, para que se conheçam e se tornem, também, amigos entre si. Quando fazemos uma "reunião de amigos" o objetivo em geral é que nossos amigos que não se conhecem uns aos outros fiquem se conhecendo e se tornem, também, amigos entre si.
 
Ou seja, apesar do que diz a música, em regra não guardamos nossos amigos debaixo de sete chaves — dentro do nosso coração apenas. Pelo contrário. Queremos sempre expandir nosso círculo de amigos e uma maneira de fazer isso é nos tornando amigos dos amigos de nossos amigos, e tornando possível aos nossos amigos, e seus amigos, que se tornem amigos de nossos amigos. Em suma: queremos que nossos amigos também sejam guardados no coração uns dos outros…
 
Outra coisa interessante é que a amizade raramente fenece e morre devido à ausência física, à distância no espaço, ao tempo passado. Tenho bons amigos que raramente vejo, por força das circunstâncias (distância, falta de tempo, um pouco de relaxo). Quando me encontro com eles, porém, parece que não houve um intervalo muito grande de ausência física: tudo se retoma no ponto em que estava. A amizade é a mesma. Não é preciso dar explicações complicadas. Não é preciso inventar desculpas. A canção de Fernando Brant registra isso quando diz: "Amigo é coisa para se guardar, no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não…"
 
Como muitos aqui sabem, estudei no Instituto José Manuel da Conceição, como aluno interno, de 1961 a 1963. Temos anualmente um ou dois encontros dos ex-alunos daquela instituição (fechada em 1970). Nesses encontros muitas vezes nos encontramos com amigos que não víamos desde os "bancos escolares", há mais de 40 anos. É evidente que, freqüentemente, é difícil reconhecer quem não se vê há muitos anos. Alguns amigos homens engordaram, outros ficaram carecas, outros ostentam barbas e bigodes que inexistiam então… As amigas mulheres raramente continuam as beldades que faziam balançar nosso coração juvenil. Mas quando a identidade se revela, a amizade é retomada como se estivéssemos ainda sentados no alto do morro, ao logo do portão da escola, observando os trens da Sorocabana e as meninas que atravessavam o riozinho para ir para a Casa das Moças. Quarenta anos de ausência não faz diferença na amizade.
Descobrimos até mesmo que alguns ocuparam funções pelas quais não temos muito respeito — um grande amigo meu foi chefe da Censura Federal em São Paulo, outro foi Delegado da Polícia Federal, em ambos os casos em períodos difíceis — mas a amizade, em geral, releva isso, passa por cima dessas coisas, da mesma forma que transcende o tempo. Imaginamos que devem ter tido boas razões para se enveredar por essas profissões meio — como direi? — lúgubres…
 
É verdade que o termo "amigo" tem se desgastado.
 
Chamamos de amigo a quem é mero colega ou simples conhecido. Na rua, às vezes, até mesmo os desconhecidos nos chamam de amigos: "O amigo poderia me dizer onde fica a Rua Eduardo Chaves aqui na Ponte Pequena?", "Amigo, me ajude aqui: estou precisando comprar uma passagem para voltar para o Nordeste…" O Orestes (não o Barbosa: o Quércia) começa suas aparições na TV dizendo "Meus amigos e minhas amigas"… (Você é amigo/a do Quércia?).
 
Mas apesar desses maus usos, o termo "amigo" continua a ter uma conotação nobre. Eu tenho vários colegas e inúmeros conhecidos: mas poucos amigos — dá pra contar nos dedos da mão. Sou muito seletivo em relação às minhas amizades. E não tenho nenhum amigo com quem me abra sem reservas, que seja confidente daquilo que se passa no mais íntimo do meu ser. Essas coisas em geral guardo comigo — "debaixo de sete chaves" — no coração.
 
Um parêntese.
 
Há tempos me intriga a questão se a amizade entre homens é essencialmente diferente da amizade entre mulheres. Muitas mulheres têm me dito que acham as mulheres mais falsas em seus relacionamentos de amizades, mais inclinadas em trair as amigas se a ocasião aparecer. Não sei. Cabe às mulheres dizerem se isso é verdade. Não sou eu que estou dizendo: apenas relato o que já ouvi — de mulheres.
 
Outra diferença curiosa é que homens raramente exaltam, diante dos amigos, as virtudes (de qualquer natureza) das mulheres a quem amam. Podem elogiar (em geral de forma exagerada) as virtudes (se é esse o nome) de uma mulher com quem saíram ou com quem dormiram uma vez — sem maiores compromissos. Mas a respeito das mulheres a quem amam, em geral calam-se: não fazem propaganda delas… As mulheres, por outro lado, quando amam, parecem achar impossível não elogiar seus homens diante das amigas. Parece que, fazendo assim, assumem uma certa superioridade: consegui apanhar um homem melhor do que o seu… (Quando uma amiga se convence do fato e dá em cima do elogiado, a coisa pode ficar feia. Acho incrível o número de casos em que se relata que uma mulher foi traída por sua melhor amiga!
 
Mas aqui já começo misturar os meus dois tópicos: amizades e amores… Fecho o parêntese.
 
Também o termo "amor" tem várias conotações. Os gregos já falavam em agápe, filía e, naturalmente, eros. O amor que Deus teria para com suas criaturas e estas deveriam ter para com ele seria agápe — o amor espiritual, mais puro e nobre. Filía seria algo próximo do amor entre membros de uma família: Filadélfia seria amor fraterno — filia entre adelfoi, irmãos. E eros é o amor com componentes sexuais, "eróticos" ou "erotizados". É deste que pretendo falar um pouco.
 
Sei — sabemos todos — que há casais que admitem o chamado "amor livre". O amor, entre eles, não é exclusivista.
 
Entre eles, há aqueles para quem o amor livre significa, tão somente, sexo livre. O fato de se amarem, nesse caso, não impede de fazerem sexo com terceiros — até mesmo sexo ocasional e, no extremo, anônimo. Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir se amavam desse jeito. Já li as respectivas autobiografias, já li as cartas entre eles (uma quantidade enorme — vários volumes em Francês), e não tenho dúvida de que os dois se amaram a vida inteira. Mas tanto um como o outro transavam sem maiores problemas com outros — e conversavam, entre si, sobre essas transas. Simone, mesmo quando mais madura, sabedora de que Jean-Paul gostava de "carne jovem", agenciava amantes para o seu já envelhecido (mas sempre charmoso) amado. Quando estiveram no Brasil, creio que na Bahia, Jean-Paul teve um aventura sexual até meio escandalosa, diante dos olhos de Simone — que aparentemente não se importava, porque também tinha as suas…
 
Mas há, entre os defensores do amor livre, aqueles que defendem não só sexo não-exclusivo, mas amores não-exclusivos. A própria Simone de Beauvoir, numa de suas visitas aos Estados Unidos, se apaixonou perdidamente pelo escritor americano (O Homem do Braço de Ouro) Nelson Algren. Tenho o livro das cartas apaixonadíssimas que ela escreveu a ele. Simone de Beauvoir, a filósofa que recebe o crédito de ter inventado o feminismo, com seu livro O Segundo Sexo, escrevia a Nelson que deixaria tudo só pelo prazer de cozinhar para ele, de passar as suas roupas, de arrumar a sua casa…
 
Ah, mas ela não deixou de amar Jean-Paul enquanto estava apaixonada por Nelson!!! Pelo contrário: fez questão de levar Nelson até Jean-Paul, para que este o aprovasse… O seu amor por Nelson não seria completo se Jean-Paul, o arqui-amor, não o aprovasse e, de certo modo, compartilhasse o seu amor. Para o restante dos mortais a situação dos três, em Paris, vivendo, parte do tempo, sob o mesmo teto, seria absolutamente constrangedora — totalmente inaceitável, na verdade. Mas para os três, que pareciam capazes de, nietszcheanamente, viver acima do bem e do mal, havia pelo menos uma aparência de naturalidade… Segundo eles, era assim que deveríamos saber lidar com o sexo, era assim que deveríamos saber lidar com o amor.
 
Ayn Rand, para mim a maior filósofa que já viveu, escreveu um livro, que, para mim, é o maior romance jamais escrito, que se chama Atlas Shrugged (Quem é John Galt? em Português). O livro, publicado originalmente em 1957, já vendeu quase 50 milhões de cópias. Nele, há uma heroína maior, Dagny Taggart, e três heróis maiores — Francisco d’Anconia, Hank Rearden e, o maior de todos, John Galt. Ao longo da história Dagny se torna amante dos três — um de cada vez, naturalmente: Francisco, primeiro, depois Hank e, por fim, naturalmente, John. Em nenhum momento ela é amante (no sentido de fazer sexo, fazer amor) com mais de um deles ao mesmo tempo, e, uma vez que comece a fazer amor com um, o caso anterior é devidamente encerrado, lacrado e arquivado (no aspecto sexual). Mas ela continua amando os três até o final do romance — e Galt convive bem com o conhecimento de que ela foi amante dos dois, seus grandes amigos, antes de ser amante dele, e que nunca deixou de amá-los — mesmo que tenha deixado de "fazer amor" com eles.
 
Fora da ficção, na vida real Ayn tentou algo semelhante — e o resultado foi desastroso. Ela se casou, na década de 20, com Frank O’Connor — com quem ficou casada até o fim da vida. Nos anos 50 meio que adotou um casal de filósofos, Nathaniel e Barbara Branden (que não eram casados, mas namoravam, quando, adolescentes, ficaram conhecendo Ayn, então já com quase 50 anos). No início da década de 60 Ayn e Nathaniel se convenceram de que estavam apaixonados. Antes de fazer amor, convocaram os cônjuges e comunicaram a eles que estavam apaixonados e que queriam a anuência deles para começarem a fazer amor… Eles, relutantemente, deram. As coisas continuarem aparentemente bem na superfície, até que tudo explodiu — quanto Ayn descobriu que Nathaniel, além de seu amante e marido de Barbara, estava apaixonado por uma terceira mulher, com quem já tinha transado (sem dizer nada às outras duas): Patrecia (pronuncie-se Patricia)…
 
Enfim: por que conto essas histórias, parte ficção, parte vida real? Para indagar o seguinte: Por que é que gerenciamos relativamente bem nossas amizades, e temos grandes amizades de forma não-exclusiva, e, no entanto, complicamos terrivelmente a nossa vida amorosa, ao exigir total exclusividade? Há cônjuges que virtualmente obrigam o outro a não só não fazer sexo e não ter outro amor fora do casamento, mas até mesmo a abandonar os seus amigos de antes do casamento… ou a abandonar amigos de quem elas não gostem… ou a abandonar amigos de cujas mulheres elas não gostem… 
 
Qual será o componente que torna a nossa vida amorosa complicada: o sexo ou o amor, em si? Ou algum outro componente aqui não declinado, como, por exemplo, o ciúme, o sentimento de posse, na verdade, de posse exclusiva, não compartilhada? Por que é que alguns humanos conseguem aparentemente transcender os problemas que a maior parte dos outros humanos consideram "intranscendíveis", e convive, aparentemente bem, com sexo livre e amor livre, sem ciúmes?
 
Discutimos aqui na lista a questão da educação da sensibilidade, da educação das emoções… Falávamos da educação das emoções DOS OUTROS. Mas E AS NOSSAS??? Será que é possível educar nossas emoções a tal ponto que venhamos a lidar com o amor e com o sexo (com nossas PAIXÕES) com a mesma racionalidade que (em geral) domina nossas relações de amizade?
 
Fica a questão.
 
Em Salto, 6 de abril de 2006 (dia do primeiro aniversário do meu neto Marcelo)