Epistemologia da fé – 2

Na discussão do tema no Facebook, várias pessoas se manifestaram. Eis aqui um resumo.

MInha mulher, Paloma, se fez ouvir (ler) nos seguintes termos, citando o autor de Hebreus: “’Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem’ (Hebreus 11:1). Acho que a fé como uma defesa da não-necessidade de justificar a crença em determinados enunciados se aproxima mais da minha idéia de fé…”.

Meu irmão, Flávio, lembrou o pensador inglês G. K. Chesterton, que disse:

"Amar significa amar o que é difícil de ser amado, do contrário não seria virtude alguma; perdoar significa perdoar o imperdoável, do contrário não seria virtude alguma; fé significa crer no inacreditável, do contrário não seria virtude alguma. E esperar significa esperar quando já não há esperança, do contrário não seria virtude alguma."

Eu retruquei:

“Gosto muito do Chesterton — pensador inglês que era católico, não anglicano. Escreveu também vários romances policiais deliciosos. Tenho todos eles. Tendo a concordar com ele. Fé, mesmo, para ser realmente fé, tem de ser em algo inacreditável. À la Tertuliano, Kierkegaard, etc. Não é preciso ter fé, por exemplo, para admitir que Jesus realmente nasceu no século I na Palestina. Para admitir que ele nasceu de uma virgem, porém, é preciso fé. Não é preciso fé, por exemplo, para admitir que ele tenha morrido na cruz. Para admitir que sua morte expiou os pecados do mundo, ou que ele tenha ressuscitado dentre os mortos, é preciso fé”.

Meu sobrinho, Vitor, teólogo, nos lembrou de duas idéias interessantes, referindo-se a Paul Tillich e Miguel de Unamuno:

a) “A fé se aproxima mais de preocupação (‘concern’: "the state of being ultimately concerned", de Paul Tillich) do que de crença”.

b) [Referindo-se a Miguel de Unamuno] “Até que ponto a fé não é desejar, não algo que existe, mas, sim, algo que não existe?”

Eu lembrei as três virtudes paulinas – a fé, a esperança, e o amor – das quais a maior delas é o amor.

Comentei, diante da cutucada da Paloma para que eu me manifestasse, dizendo o que pensava. Comecei comentando algo dito por Ozimar Pereira, a saber: “A fé é justamente acreditar que não existe finitude. É saber que existe algo maior no qual se está inserido e do qual você é um ator ativo”. Retruquei:

“Eu estaria inclinado a dizer mais ou menos o contrário: que a fé é o reconhecimento da nossa finitude, reconhecimento esse acompanhado da crença (ou, se mais fraca, da esperança), de que há algo além, transcendente. Reconhecer a nossa finitude é reconhecer que somos finitos, que temos fim. O Judaísmo e o Cristianismo, por exemplo, diferentemente das religiões gregas, não acreditam na imortalidade da alma: acreditam na ressurreição do corpo. Isso quer dizer que o Judaísmo e o Cristianismo reconhecem, de forma radical, a finitude humana: a morte, o fim humano, é realmente um fim. Não é a morte só do corpo, ficando a alma viajando por aí, atormentando os outros, ou se reincarnando em outro corpo. É realmente o fim. Só um milagre poderá fazer com que, depois desse fim, sobrevenha um novo capítulo em que voltamos a participar. O Judaísmo e o Cristianismo acreditam no milagre da ressureição do corpo. Têm fé (esperança?) de que, um dia, o nosso ser, nosso eu, com corpo e tudo o mais, será reconstituído. Existe alguma base para se crer nisso (além do fato de que a Bíblia o diz)? Estou convicto de que não. Se quem crê (espera) está certo, ou não, só se saberá se a crença (esperança) for verdadeira. Se não for, o nosso fim é verdadeiramente o fim, o fim final, o fim sem follow-up, o fim sem capítulo subseqüente – e a nossa finitude é uma finitude sem transcendência. É bom crer que a nossa morte não é o fim de tudo – que haverá um follow-up eterno em que o bem, o certo, a justiça serão recompensados, em que os conflitos, as guerras, o sofrimento, o mal deixarão de existir, em que o lobo conviverá pacificamente com o cordeiro e nos olhos não haverá nenhuma lágrima. Talvez por ser tão bom crer nisso que eu tenho medo de realmente crer — e prefira ficar no nível da fé-esperança… Segundo Paulo, há três virtudes básicas: a fé, a esperança, e o amor. Será que 2/3 delas não bastam?”

A Paloma cutucou de novo:

“Não crer por medo? Medo por ser algo tão bom? Quantas coisas tão boas temos recebido ainda em vida? Por que não as receberíamos depois da morte? Quantos milagres temos "vivido em vida"? Por que não os poderíamos ‘viver depois da morte’”?

Retruquei:

“Sabe quando você tem medo de acreditar em algo porque "it is too good to be true"? Sei que, muitas vezes, mesmo sem a crença, "it is true". Tenho provas irrefutáveis disso (você sabe). Mas não aceito a validade de argumentos indutivos. O que já aconteceu muitas vezes no passado, pode não acontecer no futuro, exatamente em relação ao que, no esquema total das coisas, mais parece importar…”

O Vítor comentou:

“Bem lembrado sobre Paulo, tio. ‘Fé, esperança e amor’. Talvez sejam três virtudes básicas da humanidade, independente de cultura ou religião. Pra mim, até então, de forma breve, fé seria a preocupação mais decisiva e a decisão certa diante da preocupação; esperança, a paciência na vida e o trabalho constante para mudar; e amor, a aceitação do outro e de si mesmo. Parecem-me virtudes que somam qualidades positivas e nos fazem viver e conviver melhor. Se isto vai garantir uma vida após a morte? Talvez sim, talvez não… O medo da morte não pode ser o único motivo para viver estas virtudes básicas. Se de repente não houver nada após a morte, é melhor viver o paraíso aqui com a gravidade e a beleza destas virtudes (ou 2/3 delas) e esperar pela surpresa insondável da vida, do que antecipar um inferno aqui :-)”.

Retruquei:

“Obrigado por mais uma vez participar, Vitor. Concordo com você. Não sou mais, hoje, daqueles que acham que é ‘tudo ou nada’, ‘all or nothing at all’ (como cantava o incomparável ‘ol’ blue eyes’). Já fui. Hoje acho que 1/3 é melhor do que 0; 2/3 melhor do que 1/3; e que 3/3 talvez seja o ideal. Mas ainda sou suficientemente protestante/presbiteriano/calvinista para confessar que não acho que a fé seja simplesmente uma decisão da vontade: quero acreditar, vou acreditar, acredito. Na doutrina bíblica (na interpretação calvinista) a fé é dom, é graça, não é uma realização intelectual e conativa minha. Bela discussão para o nosso www.theologia.com.br…“

Ozimar Pereira voltou a participar:

“Talvez precise estudar um pouco mais, mas há linhas no Cristianismo que dizem que não há fim. A morte é apenas uma passagem e a vida apenas um de muitos estágios. Fé é acredi
tar nisso e não esperar um ressurgimento do pó no dia do Juízo Final… Enfim…”

Respondi:

“Pelo que sei, há tendências no Cristianismo que acreditam que, na nossa morte, apenas o corpo morre, e a alma (dos salvos, naturalmente) vai direto para os céus, ter com Deus (algo assim). Acredito que essa tendência tenha surgido em contextos influenciados pela doutrina da imortalidade da alma. Se a alma é imortal, apenas o corpo morre. E a alma, quando morre o seu corpo, tem de ficar em algum lugar. Como os cristãos majoritariamente rejeitam a doutrina da transmigração de almas (reincarnação), inferiu-se que a alma dos salvos vai direto para o céu e a dos condenados direto para o inferno. Não encontro base bíblica clara para essa doutrina. Há várias referências que dizem que os que morreram estão "dormindo", mas isso não me parece base suficiente. Por outro lado, há passagens no Velho e no Novo Testamento que sugerem que somos pó e (quando morrermos) voltaremos a ser pó (sem fazer salvaguarda alguma para a alma). Os Testemunhas de Jeová, se bem me lembro, batem firme nessa tecla.”

Enfim. Discussão interessante.

Em São Paulo, 31 de Maio de 2010

Epistemologia da fé – 1

Hoje, enquanto ia até Salto (105 km daqui), ouvi um debate longo na CBN sobre a fé. Foi no programa Caminhos Alternativos, e o título foi: “Os caminhos da fé: uma força que move a vida”.

(Vide http://cbn.globoradio.globo.com/programas/caminhos-alternativos/2010/05/29/OS-CAMINHOS-DA-FE-UMA-FORCA-QUE-MOVE-A-VIDA.htm).

Participaram do debate um budista, um professor de física da UNICAMP e um filósofo (Luís Felipe Pondé, da PUC-SP e colunista da Folha). Em gravação participou o Heródoto Barbeiro.

Muita besteira foi dita, inclusive pelo Heródoto – embora o Pondé e o físico da UNICAMP de vez em quando dissessem algo que valia a pena ouvir.

Dou o título “Epistemologia da fé” a este post porque esta é a questão que não foi realmente discutida pelos debatedores – e que, a meu ver, deveria ter sido.

O que é a fé?

Em particular:

É a fé um modo de descobrir ou desvelar insights que não somos capazes de descobrir pela experiência e pela razão (i.e., pela ciência e pela filosofia)? Uma espécie de intuição sobre assuntos transcendentes? A fé seria, neste caso, sinônimo de revelação? Ou seja, ela opera no chamado “contexto da descoberta”.

Ou:

É a fé um modo de validar epistemicamente crenças que a experiência e a razão (i.e., a ciência e a filosofia) não conseguem validar? Uma espécie de método transcientífico que justifica nossa crença em enunciados que a ciência e a filosofia não são capazes de validar? Ou seja, a fé opera no chamado “contexto da justificação ou validação”.

Ou, ainda:

É a fé uma defesa da não-necessidade de justificar a crença em determinados enunciados porque eles exigem de nós um “salto no escuro”, um “mergulho na irracionalidade”? Como dizia Tertualiano, um dos Pais da Igreja, “credo quia absurdum”, creio exatamente porque é absurdo (vale dizer, incrível). Em outras palavras: se aquilo em que se crê fosse justificado epistemicamente, a fé seria desnecessária. Ela só se torna justificável, enquanto fé, quanto seu objeto é absurdo (ou “loucura”, como preferiu Paulo, o apóstolo).

Ou, ainda:

É a fé um fazer de conta no plano da ação, não da tanto da crença, um viver “as if” (“como se”): a decisão de viver como se a vida tenha sentido, como se o bem e a justiça valham a pena, como se a honestidade compense (e o crime não), etc.

Ou, ainda:

É a fé confiança pessoal, um relacionamento pessoal baseado em confiança (trust) com outra pessoa? Algo equivalente ao fato de que eu confio em determinadas pessoas, me dou a elas, passo a depender delas, mesmo sem ter evidência suficiente de sua confiabilidade. (A gente se casa com quem mal conhece, toma aviões dirigidos por pessoas que desconhecemos, acreditamos que os mecânicos fizeram a manutenção correta nos aviões, acreditamos que as empresas vão nos entregar os produtos que compramos pela Internet, etc.).

Ou, por fim:

É a fé confiança em si próprio e aceitação de si mesmo (mais ou menos a tese do Heródoto)?

A maioria dos participantes pareceu-me não acreditar que a fé se esgote na crença de que um Deus (parecido com o Deus cristão descrito na Bíblia) existe. Todos eles (inclusive o budista) pareceram estar interessados em defender um tipo de fé que transcenda a questão religiosa e não se esgote na questão de Deus (ou até mesmo não a envolva). (A questão de Jesus e da redençaão nem chegou a ser discutida, talvez em respeito à presença do budista…)

No fim, todos pareceram ser a favor da fé, todos se declararam pessoas de fé (em algum sentido do termo). O físico da UNICAMP foi o único a sugerir, em alguns momentos, que a fé não é necessariamente uma coisa boa – nem mesmo quando entendida como confiança em si e aceitação de si. (Se eu sou um crápula ou um criminoso, a situação parece ficar pior se eu acreditar em mim mesmo e me aceitar como sou…) 

O debate só ficou interessante quando a apresentadora relatou algo dito por uma atriz, solicitando que os debatedores comentassem. O que a atriz disse foi algo mais ou menos assim: “Eu quero crer, rezo toda noite para crer, para que eu venha a ter, ou receba, fé, mas… “

Isso gerou uma discussão interessante sobre a seguinte questão: a fé é algo que cada um de nós decide ter ou não ter, voluntariamente? É um ato de decisão pessoal? Se é, por que tantas pessoas aparentemente querem crer, querem ter fé, e não conseguem? Se não é, porque tantos cristãos condenam tantas pessoas por não terem fé?

É doutrina da Reforma Protestante que a fé não é uma realização humana, mas, sim, um dom divino (uma graça). Nesse caso, os incréus não poderiam ser responsabilizados por sua descrença, nem os crentes pela sua fé. A estes Deus teria graciosamente dado a fé, àqueles ele a teria negado. Essa doutrina desemboca na predestinação.

Protestantes mais “soft” introduziram uma inovação: Deus daria a fé a alguns, mas não graciosamente: os recipientes precisariam primeiro crer que isso era possível e desejar que isso fosse feito. Essa inovação é complicada: além de sugerir que Deus dá a fé apenas a quem já de alguma forma crê, ela parece fazer da própria fé uma obra, negando a doutrina da justificação sola gratia.

Enfim, coisa complicada.

Em São Paulo, 29 de Maio de 2010

 

 

Tem alguém o direito de pleitear que seu “passado digital” seja re-escrito (ou apagado)?

A nova Ombudsman (não deveria ser Ombudswoman ou Ombudsperson, a seguir a orientação dos Politicamente Corretos?) da Folha retoma um assunto que discuti aqui em três posts anteriores.

Vide:

Sobre o direito de que se esqueça o que dissemos e fizemos (5/4/2010)
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3428.entry

Ainda sobre o Memorioso… (20/2/2010)
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3317.entry

O Memorioso e o Pensoso… (14/2/2010)
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3311.entry

A nova Ombudsman menciona que quem a antecedeu no cargo discutiu o assunto em 2008. Não sei dizer que é verdade. Mas mesmo que tenha sido, ela omitiu a discussão dos primeiros meses deste ano, que motivou os meus posts.

O tema é interessante.

Aqui vai a manifestação da Ombudsman.

A seguir transcrevo também o artigo de Ferreira Gullar na mesma Folha, sobre a memória. É um contraponto interessante, que se liga com algumas coisas que já escrevi aqui sobre memória e identidade pessoal. (Não tenho paciência de ir procurar a referência – está lá atrás…).

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Folha de S. Paulo
16 de Maio de 2010

SUZANA SINGER
ombudsman@uol.com.br

Em algum lugar do passado

“Injustiças” eternizadas em arquivos digitais de jornais são principal dilema ético em encontro anual de ombudsmans

NA MILENAR Oxford (Inglaterra), 31 ombudsmans de 16 países discutiram até ontem os rumos da imprensa na era digital. Em um salão de 1618, igualzinho ao refeitório de Hogwarts, onde Harry Potter graduou-se em bruxaria, os “representantes dos leitores” brindaram pela sobrevivência de um jornalismo independente, preciso e que preste contas ao público.

Como o Lord Voldemort, que a cada livro de Potter parece mais assustador, os problemas que os ombudsmans enfrentam, graças aos avanços tecnológicos, vêm se tornando mais complexos.

O dilema ético que mais provocou debate no encontro anual da Organização de Ombudsmans de Imprensa (ONO) foi o de como lidar com “injustiças” eternizadas em arquivos digitais. Nenhum dos jornais representados em Oxford tem, em seus códigos de conduta, regras de como responder àqueles que exigem que seus nomes sejam retirados da internet.

Um garoto de 12 anos escreveu a um jornal inglês, há poucas semanas, pedindo que seja apagada reportagem que o citava como vítima de bullying -tipo de humilhação entre crianças em escolas. O depoimento, dado seis anos atrás, era da própria mãe do menino, que procurou o jornal na esperança de que as ofensas cessassem.

Graças ao Google, os colegas do garoto, agora em outro colégio, descobriram a história e começaram a atormentá-lo. O pesadelo se repetia. O que fazer? Não há nada de errado com a reportagem, mas, como lembrou um ombudsman, foi uma decisão da mãe dar publicidade ao caso, e jornalistas não costumam ouvir o que a criança tem a dizer.

Na Bélgica, um rapaz cúmplice de assassinato cumpriu sua pena, foi solto, mas não consegue emprego nem namorada porque seu nome aparece ligado ao crime sempre que alguém pesquisa na internet.

A terapeuta designada pelo Estado para acompanhar o rapaz pediu ao único jornal que publicou seu nome que deletasse a notícia, porque estaria inviabilizando a sua ressocialização. O diário trocou o nome dele por iniciais. Mas é correto reescrever o passado de alguém?

Arquivo X

A Folha não mexe nos arquivos digitais, porque os considera cópias do que foi impresso. Se houve um erro no passado, mantém a notícia original, mas coloca uma nota remetendo para uma correção.

Muitas vezes, o que falta é acompanhar um caso. Se foi noticiado que o sr. X foi acusado de corrupção, e depois ele é considerado inocente pela Justiça, o jornal coloca uma nota na notícia original remetendo para a decisão judicial a favor do sr. X.

Na era da internet, é preciso cuidado redobrado com o que se diz na mídia. Quando uma jovem fala hoje sobre como perdeu a virgindade, precisa considerar que, daqui a 20 anos, seu nome estará associado a sexo sempre que alguém “der um google” sobre ela. São “vidas marcadas para sempre”, como definiu meu antecessor, Carlos Eduardo Lins da Silva, em 2008.

Não é agradável para o ombudsman dizer “sinto muito”, “a vida é assim mesmo” para um menino acossado por colegas, um ex-condenado tentando refazer a vida ou uma pessoa arrependida de suas declarações juvenis. Em apenas três semanas no cargo, tive que recusar, em nome da Folha, dois pedidos de mudanças de arquivos -não descrevi os casos, porque, mesmo com o anonimato garantido, os requerentes não permitiram que suas histórias fossem citadas.

Seria perfeito vestir uma capa da invisibilidade como a de Harry Potter e fugir ao debate, mas não dá. Considero a posição da Folha consistente. Se o jornal ceder em um caso, por mais justo que pareça, haverá outro e mais outro, sempre com bons argumentos. Estaremos reescrevendo a história, o que é um grande risco para todos.

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Folha de S. Paulo
16 de Maio de 2010

FERREIRA GULLAR
Surto filosófico


Estou maravilhado com a minha descoberta de que a memória é parte do presente que vivo


EU, HOJE, estou invocado e quando fico assim dano-me a pensar qualquer coisa. O que me leva a isso, não sei, mas quase sempre é alguma ideia ou indagação que surge inesperadamente e aí me ponho a futricá-la.

É o que ocorre agora, quando me dou conta de que a memória não é o que sempre pensei que fosse e que as pessoas, em geral, pensam que é.

Pensa-se que memória é a faculdade que nos permite lembrar de fatos e coisas do passado; ter memória é
ser capaz de evocar o que já ocorreu e se foi. Mas acabo de perceber que não é só isso: a memória é constitutiva do presente, é parte dele.

Veja bem, não estou dizendo que você, de certo modo, é também seu passado, que o agora é feito também do que houve antes. Pode ser e pode não ser mas, de qualquer modo, não é isso que pretendo dizer, não é isso que acabo de intuir.

Estou dizendo que só consigo acender o fogão porque me lembro como se faz para acendê-lo, me lembro qual botão se deve apertar depois de abrir o gás; estou dizendo que só escrevo aqui e agora o que escrevo porque me lembro o que significa a palavra “lembro”, a palavra “me”, a letra “A”, “B”, “C”, enfim, a gente faz e raciocina porque lembra.

Certamente, cientistas e filósofos já sabem disso, já falaram disso. Não pretendo, assim, ter descoberto a pólvora mas, diga-se, que é próprio dos poetas descobrirem o que já sabemos, mas esquecemos ou não lhe demos a devida importância.

O poeta é aquele cara que se surpreende com o óbvio e, ao fazê-lo, torna-o surpreendente, pelo menos para si mesmo. Assim é que estou aqui maravilhado com a minha descoberta de que a memória é parte do presente que vivo e não apenas do passado que vivi.

E, aí, meu caro, abre-se campo para uma série de indagações como que diferença há entre a memória que nos traz o passado distante e a que, sem nos darmos conta, nos permite falar e acender o fogão.

Temos, em nós, um depósito de memórias afetivas, sepultadas em nosso esquecimento, porque não queremos reviver a dor que nos provocaram ou o que é uma placa sensível que tudo registra e exibe quando circunstâncias determinam?

Seria o caso do biscoito champanhe que Proust mastigou após molhá-lo no chá, apenas uma modalidade de lembrança que não se diferencia essencialmente desta lembrança banal que nos faz saber que a palavra memória começa com “M”?

Nesta descoberta da memória como sendo outra coisa que a preservação do passado, teríamos o que então?

Veja bem, no instante mesmo em que corto o bife no prato, faço-o porque estou municiado da lembrança de como se corta bife, usando garfo e faca, coisa que, aos dois anos de idade, não conseguia fazer, porque ainda não aprendera a usar o talher.

E o que é o aprendizado, senão memória? E essa memória está de tal modo inserida no presente, que é parte constitutiva dele: fazer é lembrar como fazer, sem se dar conta de que lembra. E ainda: a memória não apenas nos permite fazer por já sabermos como nos ajuda a descobrir novos modos de fazer, corrigindo o sabido, e assim engendra o futuro.

Suponhamos que vou escrever um poema que, porque ainda não o escrevi, não sei como será: estou entregue ao jogo do acaso e da necessidade. O tema é o sorriso da moça que vi na rua, há pouco, e de que me lembro ainda; é, portanto, memória, passado, mas o poema por fazer é o futuro -futuro que, sem o sorriso lembrado, jamais seria inventado.

E então me espanto ao constatar que a memória nos ajuda a inventar a vida, a sepultar o passado, que, não obstante, aumenta a cada segundo.

A vida é também lembrar sem se dar conta disso.

E daí que há mais de um tipo de memória: aquela do biscoito proustiano, em que lembro consciente de que lembro e que, ao contrário daquela outra memória, ocupa o presente e o torna apenas lembrança e outro -ou outros- que, em lugar de negá-lo, o constitui: ao cortar o bife estou inteiro neste ato presente, sou inteiramente atual, como a memória que está a serviço dele e é ele.

Se é impossível pensar sem nada saber, é que só é possível pensar graças à memória. Mas pensar é quase sempre inventar o que se pensa.

Por exemplo, foi por saber o que era a memória que percebi que ela era mais do que eu sabia dela. Assim, a descobri como constitutiva do presente, donde se conclui que eu só posso superar o que já sei e não o que ainda não sei, que, por sabê-lo, não é memória, mas se tornará assim que o conheça.

A memória me permite inventar o futuro de que me lembrarei, como passado, futuramente.

Entendeu? Se não, releia a crônica pacientemente, pois é possível que o consiga… É o que eu vou fazer agora.

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Em São Paulo, 16 de Maio de 2010

Acomodados e incomodados

Das várias características que nós, humanos, exibimos, sempre me interessou um par delas. Alguns de nós somos basicamente acomodados; outros, basicamente inquietos, desacomodados, talvez até mesmo incomodados.

Isto se mostra já bem cedo em nosso desenvolvimento no plano biológico. Dá até a impressão de que a acomodação / incomodação biológica é inata.

Alguns de nós parecem já nascer extremamente tranqüilos. Nada os perturba. O mundo pode estar ruindo ao seu redor, e continuam calmos, sem se agitar.

A Andrea, minha filha nascida em 1973, era tão calma quando nasceu que pensei que ela fosse surda. Eu falava com ela, ela nem se virava para o meu lado. Fui ficando cismado. Comecei a bater palmas. Nada… Comecei a bater a porta do quarto dela. Nada… Pai de primeira viagem, levei-a imediatamente ao pediatra. Ele a examinou, falou com ela, bateu palmas, bateu a porta do escritório. Nada… Recomendou que eu a levasse a uma clínica para crianças surdas em Los Angeles (eu morava em Pomona), criada por Spencer Tracy, porque seu filho, John, nasceu surdo. Ao local deu o nome (como era de esperar) de The John Tracy Clinic. Fiquei mais apavorado do que estava. Levei-a à clínica. Lá fizeram tudo que é teste, colocaram eletrodos na cabeça da menina, tocaram sirenes altíssimas… O laudo emitido ao final dizia que barulhos muito altos ela podia ouvir, mas que o importante é se conseguia ouvir a voz humana normal – e isso os testes feitos não conseguiam determinar. (A voz de professora primária em sala de aula tenho certeza de que ela certamente conseguiria ouvir). O médico mandou-me levá-la de volta um mês depois – porque sempre havia a possibilidade de que ela fosse simplesmente tranqüila ao ponto da imperturbabilidade.

Felizmente, não precisei levá-la para o retorno. Um dia, logo depois da ida à clínica, quando ela estava no meu colo e começou a fechar os olhinhos para dormir, chamei o nome dela, baixinho. Ela abriu os olhos. Repeti o exercício (coitada) uma dezena de vezes. A Andrea conseguia ouvir-me, mesmo falando baixinho. Fiquei aliviado. Ela era simplesmente calma, tranqüila, acomodada no plano biológico.

Outras crianças já são irriquietas, desacomodadas, parecendo até mesmo que estão sempre incomodadas. Comeram, tiveram as fraldas trocadas, estão confortáveis, e, no entanto, não param de se mexer. Viram-se na direção do menor ruído, mesmo que estejam fazendo outra coisa interessante (como mamar). Se há pessoas conversando perto dela, parece que querem observar, prestam atenção. Tentam pegar tudo o que aparece pela frente, botar a mão em tudo o que se move ou tem tem saliência ou buraco…

No plano psicológico – o temperamento – também encontramos essa dicotomia. Aqui não sei se a característica é inata. Talvez seja – mas desenvolvida em interação com fatores ambientais.

Existem pessoas que permanecem toda a sua vida profissional em um só emprego. Conheço vários que trabalharam nas Indústrias Romi, por exemplo, por mais de 35 anos. Só lá. Alguns ainda estão lá. Outros saltam de emprego para emprego, sempre incomodados, nunca satisfeitos… Uns ficam tão incomodados com o emprego que têm que pedem demissão, mesmo antes de arrumar outro.

Existem pessoas que se apaixonam ou se casam apenas uma vez. Outras se apaixonam várias vezes e casam mais de uma vez.

Existem pessoas que são cordatas. Pedem um prato num restaurante, se ele não está de acordo com o que esperavam, comem assim mesmo. Compram algo, se o que compraram não vem exatamente de acordo com as especificações, ou com o que foi anunciado, concluem que não vale a pena reclamar. Outras são batalhadoras. No restaurante, devolvem o prato que não é servido a contento. Quando compram algo que não vem como esperavam, vão à luta, reclamam, ameaçam…

Mas meu interesse maior é na acomodação / incomodação que acontece no plano intelectual – o plano das idéias. Aqui também não sei se a característica é inata ou se é fruto do ambiente. Provavelmente, um pouco das duas coisas.

Vou exemplificar essa dualidade (binaridade) com exemplos da área da religião, porque é aqui, parece-me, que ela aparece com mais destaque.

Todos nós nascemos em uma família que é ou religiosa ou não-religiosa (tertium non datur).

Se a família é religiosa, há várias possibilidades: ou ela é cristã, ou é judaica, ou é islâmica, ou é sei lá mais o quê. Se a família é cristã, mais possibilidades: ou é católica, ou é ortodoxa, ou é protestante (talvez haja mais alguma alternative aqui: mórmon é protestante ou é uma categoria à parte?). Se ela é protestante, ainda mais possibilidades: então ou é luterana, ou é reformada (presbiteriana), ou é anglicana, ou é metodista, ou é batista, ou é adventista, ou é alguma outra coisa mais modernosa (as alternativas aqui são legião). [Registre-se aqui que alguns protestantes mais radicais, mais “puritanos”, se recusam a ver os anglicanos como verdadeiramente protestantes]. Se é, digamos, presbiteriana, ou é “original”, ou é independente, ou é conservadora, ou é fundamentalista. Se é “original”, ou é tradicional ou é “avivada” (do tipo mais “carismático”). E assim vai. As opções são legião.

Os acomodados (seriam a maioria) em geral ficam na situação religiosa em que seus pais estavam quando eles nascerem ou pela qual seus pais optaram enquanto eles ainda eram crianças. Se os pais mudam de opção depois de os filhos alcançarem os quatorze ou quinze anos, a probabilidade de que eles sigam os pais na mudança se reduz significativamente.

Assim, se os pais deles tinham uma religião quando eles (os acomodados) nasceram, ou passaram a ter enquanto eles eram ainda relativamente pequenos, os acomodados geralmente ficam nessa religião de seus pais. Simplesmente não a deixam ou trocam por outra. Mudar é, para eles, uma coisa complicada, na qual não vêem mérito, em si.

Mudam apenas se for estritamente necessário ou se for altamente recomendável em função de alguma coisa que se considera importante e valiosa. Um exemplo: se forem morar em uma cidade ou em um bairro onde não existe a igreja que freqüentavam, podem mudar – para uma igreja parecida. Caso contrário, não. Outro exemplo: se se casam com alguém de uma outra religião, que não é muito diferente, podem mudar, para evitar potenciais conflitos domésticos. Mas mudar por mudar, porque encontrou uma religião melhor, raramente acontece com os acomodados.

Isso explica um fato comum – que vou ilustrar com os católicos mas poderia ilustrar com os membros de outras religiões ou até mesmo de outras denominações cristãs.

O número de brasileiros que se diz católico, que vai à missa de vez em quando (Semana Santa, Páscoa, Natal), que comunga quando vai à igreja, que reza a Ave Maria e o Pai Nosso, que faz questão de se casar na igreja, que batiza os filhos na igreja, que faz o sinal da cruz diante de uma igreja ou de um féretro, etc., simplesmente porque é isso que se espera de quem “nasceu católico”, é enorme. A inércia, a indis
posição para mudar dos acomodados explica, em grande medida, esse fato. Mesmo que eles agreguem algumas coisinhas a esse catolicismo: a devoção a um orixá, por exemplo.

Mas é preciso assinalar que o número de acomodados católicos (ou de católicos acomodados) vem diminuindo no Brasil nas últimas décadas – algo que é um fenômeno interessante. Um número razoável de católicos nominais vem “mudando de religião”. Para eles isso não quer dizer que se tornam judeus ou maometanos ou budistas. Quer dizer que se tornam protestantes de alguma variedade.

Talvez haja bem mais de uma razão para isso. Mas duas me parecem ser é as seguintes.

Primeiro, a Igreja Católica brasileira, por ser majoritária, burocratizou-se, não se preocupou em modernizar seu serviço de culto (que até o Vaticano II era em latim), que tinha uns cantos (hinos) meio molengões, de uma musicalidade muito pobre… A missa tradicional sempre foi muito parada (“morta”), especialmente quando comparada com os cultos animados, cheios de corinhos e hinos, dos protestantes.

Segundo, as Igrejas Protestantes sempre valorizaram bem mais a “koinonia”, a comunhão dos crentes um com os outros, a sociabilidade. Em uma igreja protestante típica, todos se conhecem, não raram se visitam, freqüentemente, ao chegar a hora, namoram e casam entre si, fazendo com que co-membros se tornem também parentes. Elas têm a Escola Dominical, ambiente em que os membros se dividem por classe, conforme a idade, para estudar a Bíblia e a doutrina. Têm ainda sociedades de mulheres, de homens, de jovens, de adolescentes, de crianças… Organizam brincadeiras sociais, piqueniques, excursões, passeios… Para quem gosta de um ambiente em que se pratica esse tipo de conviviabilidade, esse tipo de característica é extremamente atraente. Ele praticamente inexiste na Igreja Católica convencional.

Assim, quando assediados pelo espírito evangelizador e proselitista dos crentes das Igrejas Protestantes mais recentes (em geral “pentecostalizadas”), católicos que apreciam o ambiente “avivado” e convivial dessas igrejas sucumbem e “mudam de religião”.

(O mais certo seria dizer que mudam de denominação cristã, mas o que o povo diz é mudar de religião mesmo).

Aqui três fenômenos merecem registro…

Primeiro, as Igrejas Protestantes ditas históricas, como, por exemplo, a Luterana, a Presbiteriana, e a Anglicana, não são, hoje, muito chegadas a trabalho missionário urbano do tipo corpo-a-corpo. Sustentam missionários entre os índios, ou na África, mas não são de incentivar cruzadas evangelísticas. No passado, fizeram isso. Hoje, quando muito, transmitem o culto pela televisão ou pela Internet (algo que começa a ficar comum).

Segundo, é estatisticamente desprezível o número de protestantes que se tornam católicos no Brasil. Para todos os fins práticos, a conversão para o catolicismo (não de todo incomum na Inglaterra anglicana), inexiste aqui.

Terceiro, é para mim surpreendente (por demonstrar um espírito anti-ecumênico de intolerância, que é contrário à tendência da época) a reação visceralmente negativa que alguns protestantes do tipo mais conservador têm contra a Igreja Católica, mesmo que nunca tenham sido católicos. Recusam-se a admitir que os “santos” possam ter sido verdadeiramente santos (São José eu tenho certeza de que foi santo, por razões que vão ficar mais evidentes mais adiante), recusam-se até a falar em “Evangelho segundo São João”, têm ogeriza às súplicas e promessas feitas aos “santos” e a Maria (favor não dizer “Santa Virgem Maria”), etc. A possibilidade de que se tornem católicos é, para esses protestantes, talvez mais repugnante do que a possibilidade de se tornarem “nada”…

A propósito, essa é uma expressão curiosa no português coloquial. Algumas pessoas, quando têm de informar qual a sua religião, em vez de dizer “nenhuma” dizem “não sou nada”. Isso talvez porque dizer “sou ateu” ainda choque no nosso Brasil nominalmente religioso. Ou, então, porque dizer que se é ateu, em resposta à pergunta “Qual é a sua religião?”, pode parecer, para a maioria dos ateus, uma incongruência. Porque são ateus, os ateus não têm nenhuma religião – isto é, do ponto de vista da religião, não são nada.

Já que falei em ateus, acho surpreendente o número relativamente pequeno (em termos estatísticos) de brasileiros que se declaram ateus. Mas isso não é incomum também em outros países e em outras épocas.

David Hume, o maior filósofo de língua inglesa que já viveu (era escocês e viveu no século XVIII), sempre foi admirado pelo seu ceticismo, em especial na área religiosa, pelos philosophes franceses (Diderot e patota). Quando foi morar na França (como funcionário da Embaixada Britânica), ficou surpreso ao ver a facilidade com que os iluministas franceses se declaravam ateus e mais surpreso ainda quando descobriu que todos eles o consideravam também ateu (e não cético, como ele preferia). Ele até tentou negar que fosse ateu, insistindo ser apenas cético, etc. (talvez porque ateus podiam ainda ser queimados na Inglaterra e na Escócia do Século XVIII), mas seus protestos não convenceram ninguém].

Aqui no Brasil, o número dos que são ateus, mas acham problemático dizê-lo, parece ser grande, como bem sabe o ex-presidente FHC, que perdeu a eleição para prefeito de São Paulo ao ingenuamente se declarar ateu. Os ateus não declarados em geral se declaram agnósticos, ou (como Hume) céticos, ou simplesmente se declaram sem religião, deixando a impressão (em geral errônea) de que não têm religião mas, pelo menos, acreditam em Deus. São raras as pessoas que continuam inquirindo, depois de respostas assim (pero que las hay, las hay). Seria curioso investigar por que isso se dá aqui no Brasil nessa época dominada pela ciência e pelo secular.

Outra coisa curiosa é que é muito difícil encontrar, aqui no Brasil, ateus evangelizadores, isto é, ateus que procuram convencer os outros de que o ateísmo é a opção mais “racional” e se ponham a campo a ganhar prosélitos ou adeptos para o seu ateísmo. Nos Estados Unidos e na Inglaterra isso existe. O número de livros surgidos recentemente nesses países com o objetivo de convencer os leitores de que Deus não existe e de que o ateísmo, portanto, é a melhor opção (única?), é significativo. São escritos por cientistas, filósofos e jornalistas. Nos Estados Unidos há associações de ateus – ou associações de “humanistas” que se recusam a aceitar a participação na associação de “humanistas cristãos” ou “humanistas religiosos”.

O leitor pode a essas alturas estar se perguntando aonde é que eu quero chegar…

Assim, para encerrar, meu objetivo, modesto, é triplo.

Primeiro:

Queria registrar que muitas pessoas (um grande contingente) são acomodadas no tocante àquilo em que acreditam em matéria de religião. Herdam crenças religiosas, por assim dizer, e vivem a vida inteira com elas sem se dar ao trabalho de investigar seus fundamentos com mais cuidado. Mudar para elas é complicado e difícil, por se isso se acomodam em su
as crenças.

[Muitos desses também acomodam em seus comportamentos: casam-se, porque os pais se casaram e porque, afinal de contas, todo mundo se casa. E, tendo se casado, não se descasam porque (pelo menos até pouco tempo atrás) “casamento é isso aí mesmo”… Acomodam-se, porque mudar é complicado. Vivem infelizes, porque mudar é complicado. Marcello Mastroianni sempre me pareceu um personagem curioso. Era católico, casou-se cedo, teve filhos – e teve uma enorme quantidade de casos e amantes, o mais famoso dos quais, à luz do dia para todo mundo ver, com Catherine Deneuve. Tudo indica que ele realmente amava Catherine (embora aparentemente isso não o impedisse de também traí-la). Tiveram um filho. Mas não se divorciava da mulher porque era católico. Seus catolicismo o impedia de se separar oficialmente da mulher – mas não o impedia de traí-la regular e abertamente.]

Segundo:

Queria também registrar que uma boa parte das pessoas (talvez uma parte menor do que a primeira) é, de alguma maneira, inquieta e incomodada em relação a suas crenças (em especial as religiosas, que são as que me interessam aqui). Diferentemente dos acomodados, sentem uma pressão interna razoavelmente grande para se convencer de que aquilo em que crêem é verdadeiro e que existem boas razões para crer no que crêem. Assim, desacomodam-se, inquietam-se. Em vez de ficarem tranqüilinhos na religião de seus pais, a questão da verdade e das credenciais epistêmicas (eles em geral não usam essa expressão) de suas crenças religiosas os incomoda a ponto de motivá-los a estudar aquilo em que crêem e, se for o caso, sair em busca de algo melhor.

Aqui, porém, é preciso registrar um novo binarismo.

Há os que eu chamaria de inquietos radicais, que nunca param de se questionar. Tendem, em última instância, a se tornar pelo menos céticos ou agnósticos. Alguns se tornam e se declaram ateus. Outros, como vimos, têm receio de se declarar ateus, porque não querem adotar uma postura que pode ser difícil de sustentar em alguns contextos e situações. Não querem que o ateísmo seja para eles como se fosse uma religião. (Para os comunistas o ateísmo era parte do pacote que vinha com a adoção da religião marxista. Embora eles neguem, o comunismo sempre foi uma religião. Na verdade, continua sendo para muitos ainda.)

Há, por outro lado, os inquietos moderados, que se questionam, até com severidade, mas dentro de certos limites. Se religiosos, conseguem, por exemplo, ser extremamente críticos na avaliação das crenças de outras religiões ou de outras denominações. Conseguem criticar, às vezes até acerbicamente, algumas crenças periféricas de sua própria religião ou denominação. Mas tudo, para eles, tem limite. Declarar questão aberta, por exemplo, a existência de Deus, ou a divindade de Jesus, ou a doutrina de que sua morte na cruz e sua posterior ressurreição e ascensão aos céus nos redime dos nossos pecados (desde que realmente creiamos que esse seja o caso), ou a doutrina da inspiração literal e da inerrância da Bíblia, etc., é, para eles, inadmissível.

O número de “cláusulas pétreas” nas crenças desses inquietos moderados varia de pessoa para pessoa e mesmo de uma fase para outra na vida de uma mesma pessoa.

Para alguns, essas cláusulas pétreas são muitas. Questionar a veracidade de qualquer coisa que possa ser sustentada por apelo a algum texto bíblico é, para eles, off limits. Josué parou o sol? Claro! A mula de Balaão falou? Sure. Jonas foi engolido por um peixe grande e vomitado vivo na praia três dias depois? Sem dúvida. Os demais milagres relatados na Bílbia devem ser tomados literalmente? É evidente.

Para outros, no entaanto, o número de cláusulas pétreas é menor. Mas sempre há “cláusulas pétreas”, porque a hora que deixar de haver, o inquieto deixa de ser moderado e corre o risco de ficar um radical. Algumas cláusulas pétreas, por isso, parecem essenciais para o inquieto moderado. Ainda que sejam poucas.

Terceiro:

Ouso sugerir, para encerrar, que, para um cristão convicto e conservador, há duas barreiras difíceis de transpor.

A primeira é a colocada pela doutrina (tese) da inspiração literal e da inerrância da Bíblia. Segundo essa tese, tudo na Bíblia é verdadeiro e foi literalmente inspirado por Deus aos autores, que foram apenas amanuensis da voz de Deus. Assim, é impossível que haja erro na Bíblia.

É verdade que mesmo os cristãos mais conservadores tendem a se recusar a aceitar como verdadeiras ou legítimas algumas coisas que a Bíblia afirma ou prescreve – em especial se estão no Velho Testamento. Recusar-se a aceitar algumas coisas encontradas no Velho Testamento é mais fácil, porque, afinal de contas, o Velho Testamento é a Bíblia dos judeus e foi, em alguns aspectos, pelo menos, suplantado pelo novo. Mas muitos cristãos mais conservadores se recusam a aceitar coisas que estão no Novo Testamento. Dou alguns exemplos. Poucas são as mulheres cristãs que acham que a determinação para que não cortem o cabelo é realmente a vontade de Deus, que deve ser seguida. Ou a determinação de que devam ser submissas a seus maridos. Ou, o que é parte dessa submissão, de que devem “se sujeitar a seu marido” quando ele quiser, sem dor de cabeça, muito sono, muito cansaço ou outra desculpa qualquer.

No caso dessas injunções paulinas, quem as rejeita sempre encontra um jeito de se justificar – mais ou menos. São Paulo (desculpem-me os que acham que não se deve chamá-lo de santo) de vez em quando usava o artifício de dizer “agora (ou aqui) falo como homem”, sugerindo que, quando não dizia isso, estava falando (supostamente) como Deus. Isso permite as pessoas que se recusam a aceitar essas injunções a supor que ali Paulo (para contrabalançar) falava como homem (mesmo que tenha esquecido de esclarecer o leitor…).

No caso da sujeição da mulher às demandas sexuais de seu marido, a pessoa pode sempre retorquir que (São) Paulo também disse que igualmente o marido não poderia se furtar de cumprir o seu dever conjugal se a tanto fosse intimado pela mulher. Tudo bem. A exigência é recíproca. Mas há alguém que a cumpra, nos dias de hoje, mulher ou homem?

E (voltando ao Velho Testamento), diz a Bíblia que Deus criou Adão, e, depois, para fazer companhia a Adão, criou a Eva. Diz ainda que os dois tiveram dois filhos, Caim e Abel, e que Abel foi assassinado pelo irmão, quando aparentemente era muito jovem ainda – razão pela qual Caim e seus descendentes foram amaldiçoados. A questão problemática é: com quem se casou Caim? A Bíblia fala em sua descendência. E não diz que o Criador tenha feito com ele o que fez para seu pai: tirado uma mulher de sua costela. E outros seres humanos, por definição, não havia, posto que a criação havia (relativamente falando) acabado de acontecer. A única resposta viável é que Caim se casou com uma irmã sua. Mas se foi isso, incesto entre irmãos seria admitido pela Bíblia? Caim é amaldiçoado por ter assassinado o irmão, não por ter se relacionado com a irmã…

As coisas começam a ficar mais complicadas em relação, por exemplo, ao nascimento de Jesus. Foi realmente virginal? Ou será que a Bíblia queria dizer apenas que o Messia
s nasceria de uma mulher jovem (parthenós)? Mas a Bíblia registra que José ficou queimado com a história da gravidez de Maria, porque nada havia passado entre eles. José aparentemente acreditou na história do anjo e do Espírito Santo. (Por isso o considero um verdadeiro santo). Mas todo cristão precisa acreditar nisso também? Se a concepção e o nascimento de Jesus foram normais, não virginais, e José foi o pai verdadeiro de Jesus, muda alguma coisa substancial no Cristianismo? Karl Barth, o mais importante teólogo da Igreja Reformada do século XX achava que não. Rudolf Bultmann, o teólogo mais importante da Igreja Luterana do século XX, também achava que não.

Na verdade, Bultmann defendeu a tese de que o Novo Testamento deveria ser “demitologizado”, porque havia se tornado incompatível com crenças básicas do “homem moderno”. A ressurreição física de Jesus? Um mito. O mundo está dividido em três andares, nós aqui no andar do meio, o céu no andar de cima e o inferno no andar de baixo? Ridículo. Jesus subiu aos céus? Subiu aonde? Vai voltar? Voltar? De onde? Nós vamos ser ressuscitados no fim dos tempos? Imagine! Vamos ser arrebatados misteriosamente e sem aviso prévio e levados para encontrar o Jesus que volta nas nuvens? Está brincando comigo. Tudo isso é mito, diz Bultmann, vestígio de uma mentalidade relativamente primitiva, certamente pré-científica. Ao chamar muitas das coisas relatadas no Novo Testamento de mitos, e não de meras superstições, Bultmann indicava que é preciso extrair dos mitos a sua mensagem (o seu kerygma), mas nunca aceitá-los literalmente, como se fossem verdades científicas.

O que sobra quando tudo isso passa ser considerado mito, não fato? Segundo Bultmann, que era um existencialista heideggeriano (Bultmann e Heidegger eram colegas na Universidade de Marburg), sobra a doutrina da existência inautêntica (segundo a carne) versus a existência autêntica (segundo o espírito) –e de como passar de uma para a outra. Mas até a maneira bíblica de se referir a esses dois tipos de existência precisa ser demitologizada e expressa em linguagem mais filosófica, existencialista.

O dilema: ou a gente engole tudo ou, se começa a recusar uma coisinha aqui, outra ali, tem jeito de parar? E parar onde?

A segunda barreira difícil de transpor é a da existência de Deus. Conheço muita gente que se recusa a aceitar a maior parte daquilo que a Bíblia diz – mas que encontra seu limite na existência de Deus.

Que Deus?

Para Tillich, Deus é “the ground of being”, aquele fundamento que mantém o mundo em existência.

Mas esse fundamento é pessoal? É possível falar com ele, pedir-lhe coisas, dar-lhe graças, descobrir sua vontade? Hummm.

É isso. Por enquanto. Tenho certeza de que falei demais.

No ar, entre Tóquio e Chicago, 30 de Abril de 2010.
Rrevisado em São Paulo, em 1º de Maio de 2010 ;
Revisado mais uma vez no ar, agora entre Philadelphia e Seattle, em 4 de Maio de 2010.

Sobre o direito de que se esqueça o que dissemos e fizemos

Escrevi sobre este assunto aqui, recentemente, dois artigos. Um, a propósito da carta de uma leitora da Folha que solicitava ao Ombudsman que intercedesse junto à Redação do jornal para remover, da versão digital, disponível na Internet, uma referência a algo que ela disse, anos atrás, e de que agora discorda e que está lhe causando problemas na vida pessoal e profissional. O outro, sobre um livro (Total Recall [O Futuro da Memória] escrito por dois funcionários da Microsoft Research.

Vide:

O Memorioso e o Pensoso…

https://liberal.space/2010/02/14/o-memorioso-e-o-pensoso…

Ainda sobre o Memorioso…

https://liberal.space/2010/02/20/ainda-sobre-o-memorioso…

O assunto, pelo jeito, está finalmente começando a ocupar a atenção das pessoas.

Acho o assunto fascinante.

Vide, a seguir, a entrevista de Viktor Mayer-Schönberger, e, abaixo, a indicação do livro que ele escreveu. Ele “defende a virtude do esquecimento na era digital e diz que ‘tudo o que é arquivado na rede deve sair do ar em algum momento’”. Em outras palavras: aquilo que é arquivado na Internet deveria ter um prazo de arquivamento, depois do qual seria simplesmente deletado. Nossa ficha, na Internet, iria sendo limpada quando as informações nela contidas completassem x anos (digamos, dez)… Mas não seria só a ficha na Internet: os dados relacionados a nós… Depois de x anos, registros sobre o que escrevemos e fizemos seriam simplesmente apagados. Os registros dos diplomas que duramente obtivemos desapareceriam… Os registros sobre os casamentos e outros contratos que firmamos, seriam deletados. Os registros sobre os crimes que cometemos, sumiriam. Os nazistas históricos (se é que restam alguns ainda) seriam tacitamente reabilitados… A vida começaria de novo, apenas com uma defasagem de (digamos) dez anos. Ficaríamos, por assim dizer, crianças de novo, de ponto de vista da memória escrita e registrada.

Interessante. Pouco viável, mas interessante.

E a memória que mora dentro de nós… Será que conseguiríamos esquecer assim tão fácil? É verdade que esquecemos muito e fácil, sem querer. Mas há coisas que não esquecemos, mesmo querendo, mesmo fazendo muito esforço… O que fazer com essas memórias que nos habitam?

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Folha de S. Paulo
5 de Abril de 2010

ENTREVISTA DA 2ª – VIKTOR MAYER-SCHÖENBERGER
Esquecer limpa a mente, ajuda a abstrair e a generalizar

Pesquisador da sociedade da informação defende a virtude do esquecimento na era digital e diz que “tudo o que é arquivado na rede deve sair do ar em algum momento”

DANIELA ARRAIS
DA REPORTAGEM LOCAL

Esquecer sempre foi fácil: costumava ser o comportamento padrão diante das tantas vidas que precisam caber em uma só. Lembrar de cada aniversário, início de namoro -e seus consequentes corações partidos-, promoção de emprego, tudo bem. Mas armazenar na memória todos os detalhes dos anos que se passam não era possível nem para aqueles humanos considerados mais evoluídos. Até o momento em que a internet transformou essa utopia em realidade.

Com custos de armazenamento de dados cada vez mais baixos, a era digital modificou completamente a relação do homem com a memória. É tão barato guardar gigabytes de fotos, textos e vídeos que são poucas as pessoas que escolhem o que realmente querem ter para sempre. Elas esquecem, no entanto, que as informações colocadas na rede são difíceis de deletar -sites como o Wayback Machine são capazes de encontrar, em segundos, aquilo que você achava que tinha apagado.

Em consequência, os erros do passado não ficam mais restritos àquele tempo e podem voltar a nos assombrar a qualquer momento.

Precisamos mesmo disso? O pesquisador Viktor Mayer-Schöenberger acredita que não.

Autor do livro Delete – The Virtue of Forgetting in the Digital Age (Delete – A Virtude de Esquecer na Era Digital; Princeton University Press, US$ 24,95), ele afirma que a “limpeza” que o cérebro faz constantemente é uma virtude, e não uma limitação. É o que nos permite uma atitude tão simples quanto essencial: a de seguir em frente.

A seguir, leia a entrevista que Viktor Mayer-Schöenberger concedeu à Folha por e-mail.

FOLHA – A internet está tornando difícil o ato de esquecer informações?

VIKTOR MAYER-SCHÖENBERGER – Não é só a internet, mas a combinação com a digitalização, que nos permite usar as mesmas ferramentas tecnológicas para processar, armazenar e disseminar diferentes fluxos de informação, incluindo imagens, áudio e vídeo. Isso cria fortes economias de escala, o que tem facilitado uma queda dos custos de armazenagem. Hoje é mais barato armazenar todas as imagens digitais em um disco rígido, em vez de gastar alguns segundos para decidir se quer manter uma foto digital ou excluí-la. Adicione a isso grandes avanços na recuperação da informação, bem como uma rede digital global, a internet, para acesso ao armazenamento digital, e você tem uma situação em que a lembrança é o padrão, e esquecer, a exceção.

FOLHA – No seu livro, você fala sobre o papel de lembrar e a importância de esquecer. Pode explicar isso?

MAYER-SCHÖENBERGER – Durante toda a história da humanidade, o esquecimento tem sido fácil para nós. Ele é construído em nosso cérebro: a maior parte do que nós experimentamos, pensamos e sentimos é esquecida rapidamente. E (principalmente) com uma boa razão: essas coisas não são mais relevantes para nós, e esquecer limpa a mente. Esquecer nos ajuda a abstrair e a generalizar, a ver a floresta em vez das árvores, e a viver e agir no presente, em vez de ficar amarrado a um passado cada vez mais detalhado. Esquecer nos ajuda a evoluir, a crescer, a seguir em frente -para aprender novas coisas.

Pelo esquecimento, a nossa mente se alinha com o nosso passado, com nossas preferências do presente, tornando mais fácil a sobrevivência e a vida suportável.

Pelo esquecimento, também facilitamos a nossa capacidade de perdoar os outros por seus comportamentos.

O que é verdadeiro para indivíduos também é verdadeiro para a sociedade em um aspecto mais amplo. As sociedades devem ter a capacidade de perdoar indivíduos esquecendo o que eles fizeram, reconhecendo, deste modo, que os seres humanos têm a capacid
ade de mudar e de crescer.

FOLHA – Em seu livro, você diz que a memória perfeita altera nosso comportamento. Como isso acontece?

MAYER-SCHÖENBERGER – A memória perfeita tem dois potenciais efeitos de congelamento. O primeiro é em relação à sociedade. Se tudo o que dizemos e fazemos hoje puder ser usado contra nós em um futuro distante, acabando com a possibilidade de conseguirmos um emprego melhor ou um relacionamento melhor, muitos de nós vamos começar a nos censurar sobre o que fazemos e dizemos on-line hoje. A memória perfeita criará um pan-óptico temporário -o oposto exato do que precisamos em uma sociedade democrática baseada em robustos debates cívicos.

Minha segunda preocupação recai sobre a nossa capacidade de decidir e agir no presente.

Pessoas com memória perfeita reclamam que sua tomada de decisão é dificultada por sua incapacidade de verter o passado -recordar todo o nosso passado empurra-nos para que nos tornemos indecisos.

Nós devemos saber em que medida a memória perfeita usurpa nossas vidas. Algumas vezes, a memória pode ser útil, mas será que eu realmente preciso buscar no Google o nome de todo mundo antes de encontrar essas pessoas?

FOLHA – A memória é construída tanto pelo que aconteceu quanto pelo que não aconteceu. É parte da evolução humana criar histórias, misturá-las, mentir até. A total capacidade de armazenar informação pode afetar os afetos?

MAYER-SCHÖENBERGER – Sim, certamente. Nossa memória humana não é fixa. Ela é constantemente reconstruída com base em nossas preferências e valores presentes. Isso reduz a dissonância cognitiva e nos permite viver profundamente enraizados no presente. Se percebemos que a nossa memória humana não é perfeita e começamos a confiar em memórias digitais mais do que na nossa, três terríveis consequências podem seguir: (a) podemos acreditar que o que é capturado digitalmente e lembrado é o registro completo, embora não seja (muito pode não ter sido capturado digitalmente); (b) nós podemos nos tornar dependentes da memória digital e quem quer que seja que controla essa memória digital poderá ter o poder de reescrever a história; (c) se percebermos que a memória digital também pode não ser confiável, podemos desistir da história e da memória completamente -uma espécie arrancada sem passado.

FOLHA – Quais são os riscos de termos todas as informações disponíveis na nuvem computacional?

MAYER-SCHÖENBERGER – Se a privacidade dos indivíduos na rede falhasse em massa, todo mundo seria exposto, e a privacidade desapareceria. O sociólogo Goffman tem uma fala famosa sobre a necessidade de os seres humanos terem mais de uma fase em suas vidas. Por exemplo: uma fase para frente e uma fase para trás. Se todos os dados podem ser vistos por todos, a diferenciação desses estágios entraria em colapso, com tensões inimagináveis.

FOLHA – Nós precisamos pensar antes de começar a espalhar tanta informação por aí?

MAYER-SCHÖENBERGER – Sim, nós precisamos pensar. Mas eu estou preocupado que, se pensarmos muito, vamos nos auto-censurar. Isso pode nos proteger individualmente, mas empobrece-nos como sociedade. Seria muito melhor se nós ainda pudéssemos compartilhar muita informação, mas ter um mecanismo para que essa informação fosse esquecida ao longo do tempo. É por isso que eu tenho defendido a reintrodução do esquecimento na era digital.

FOLHA – Como na vida, a internet precisa dar uma segunda chance às pessoas? Se não, a rede pode virar uma espécie de tribunal permanente?

MAYER-SCHÖENBERGER – Realmente. Temos que perdoar, esquecer. O Google não vai nos deixar fazer isso. Se nós procuramos o nome de alguém no Google e descobrimos uma citação de que ele estava dirigindo embriagado há dez anos, o quão relevante é isso para o presente dessa pessoa?

FOLHA – Você diria que a sociedade da era digital não concede perdão?

MAYER-SCHÖENBERGER – Eu acho que isso é bastante apropriado.

FOLHA – Você acha que falta uma regulação para a internet?

MAYER-SCHÖENBERGER – Eu não acho que exista um regulamento simples que possamos estabelecer para evitar os problemas da memória digital. Como eu detalho no meu livro, precisamos de uma combinação de uma série de medidas para enfrentar o desafio do fim do esquecimento na era digital.

FOLHA – Como podemos apagar nossas pegadas na internet?

MAYER-SCHÖENBERGER – Isso é muito difícil porque não temos controle total sobre as informações pessoais. Algumas empresas de internet oferecem (difíceis) formas de eliminar informações pessoais. Outras não. Um grupo no Google está trabalhando em ferramentas para extrair todas as informações pessoais do Google e, em seguida, excluí-las, mas esse serviço ainda está na sua infância. Há empresas comerciais que têm serviços para apagar as pegadas, mas são muito caros. Devemos ensinar os softwares a agirem de acordo com nossa mente. Tudo o que é arquivado deve sair do ar em algum momento. Devemos indicar a data de validade para as fotos que colocamos na rede, por exemplo. Quando chegar o momento, elas serão deletadas. Um exemplo é o site Drop.io.

FOLHA – Como você teve a ideia de escrever o livro?

MAYER-SCHÖENBERGER – Nos agradecimentos, eu conto a história de que eu esqueci como eu tive a ideia para o livro. Por acaso eu tinha escrito uma pequena nota para mim sobre a ideia. Mais tarde, eu esqueci tudo sobre ele -talvez não fosse tão importante assim.

FOLHA – Você já deve ter ouvido muitas histórias de pessoas com problemas por conta das pegadas digitais. Qual chamou mais sua atenção?

MAYER-SCHÖENBERGER – Foi o caso de uma mulher norte-americana de quase 30 anos que havia ficado alguns anos na prisão por algo que ela tinha feito aos 18 anos. Depois de sua libertação, ela se mudou para uma nova cidade, começou uma nova vida. Encontrou um marido, um emprego, seus filhos cresciam em uma família normal. Até que um colega de um filho “deu um Google” no nome dela e, por acaso, deu de cara com um site que colocava fichas policiais com foto de todos os prisioneiros do Estado nas últimas duas décadas. De repente, a vida dela desmoronou.

FOLHA – Se hoje as pessoas não têm direito a uma segunda chance, o que pode acontecer em dez, 20 anos?

MAYER-SCHÖENBERGER – Se nós não oferecermos a nós mesmos uma chance de escolha significativa em breve, gerações de nativos digitais vão crescer e assumir que a escolha não é possível. Eles vão adaptar suas vidas para as restrições impostas pela máquina. Isso seria terrível. Nós podemos moldar a máquina de qualquer maneira que quisermos. E, se quisermos, podemos fazê-la de uma forma que nos ofereça escolha!

RAIO-X

VIKTOR MAYER-SCHÖNBERGER
>> Natural da Áustria, tem 44 anos
>> Diretor do Professor afiliado do Information + Innovation Policy Research Centre, na LKY School of Public Policy da Universidade de Cingapura
>> Estudou direito em Salzburgo, Cambridge e Harvard
>> Em 1986, fundou a Ikarus Software, empresa especializada em segurança de dados, e desenvolveu o Virus Utilities, que se tornou um produto best-seller na Áustria
>> Já publicou sete livros, como “Governance and Information Technology”
>> Em seu tempo livre, gosta de viajar, ver filmes e aprender sobre arquitetura
www.vmsweb.net/

O LIVRO

DELETE: THE VIRTUE OF FORGETTING IN THE DIGITAL AGE
>> Viktor Mayer-Schönberger
>> Princenton University Press, 2009
>> Edição de capa dura com 256 págs.
>> US$ 24,95 (mesmo preço da versão em e-book)
>> press.princeton.edu/titles/8981.html

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Em Ubatuba, 5 de Abril de 2010

POST SCRIPTUM de 16.7.2022:

Relendo este artigo (ou “ameaça de artigo”, porque meu, mesmo, há muito pouco na matéria), na madrugada de hoje, resolvi republicar a peça e acrescentei a ela este comentário que segue.

Republico aqui, intocada, uma “ameaça de artigo” que escrevi em 2010 a propósito de uma importante entrevista que li na Folha de S.Paulo acerca do direito ao esquecimento: ao direito de se esqueçam coisas que a gente já disse, ou mesmo fez. Nossas ideias e ações deveriam ter um prazo de validade, depois do qual qualquer qualquer lembrança, discussão ou mesmo relato delas evaporaria… Prazo de validade vencido.

Estava mentalmente preparado para a releitura dessa “ameaça de artigo” (ainda bem que ela não evaporou) porque ainda ontem tive um bate-papo com “a patroa”, como se dizia antigamente, acerca do esquecimento. Eu estou chegando aos 80 anos. Daqui a menos de dois meses completarei — encerrarei — meu septuagésimo nono ano de vida e entrarei no meu octagésimo ano, dando início à minha oitava década de vida. Tudo, naturalmente, se Deus deixar e, calvinisticamente, quiser e determinar.

Com essa vetusta idade, é natural e compreensível que eu me esqueça de algumas coisas. Tenho percebido que coisas importantes para mim, coisas que mexem com minhas emoções, aquilo que, ao lembrar, os olhos se me enchem de lágrimas difíceis de disfarçar — disso eu raramente me esqueço. Pode ser até coisa ruim. Coisas que me arrependo de ter feito (poucas) ou deixado de fazer (mais do que as anteriores). Coisas que me orgulho de ter feito, pensamentos que me orgulho de ter tido… Mas a Paloma tem uma memória inacreditável. Ela se lembra de tudo: bom, ruim, indiferente, insignificante (para mim: coisas que, no que me concernem, não têm importância ou significado algum.). Ou de quase tudo. Já a flagrei em alguns esquecimentos seletivos e significativos… Mas deixemos isso para lá. Por causa de sua memória fenomenal, ela às vezes não se conforma de que eu não me lembre de determinadas acontecimentos que vivenciamos juntos, ou de coisas que ela me disse ou contou…

A julgar pelo livro que é objeto da entrevista transcrita no artigo abaixo, creio que estou à frente dos tempos e já exerço esse direito ao esquecimento há um bocado de tempo. O Geraldo Alckmin também é partidário e defensor desse direito, agora que é candidato a vice-presidente da República na chapa do ex-presidiário que nunca deveria ter se tornado ex, uma figura que ele, Alckmin, no passado corretamente execrou, e que eu insisto em continuar a execrar. Do passado do Lulla eu não esqueço. Nem de escrever seu nome com dois eles, como um dia a gente escreveu de outro candidato a execrável, o Collor. Lulla foi o indivíduo que redimiu o Maluf (com um ele só).

Em Salto, 16.7.2022

A arte – 2

No final do segundo texto de Ferreira Gullar, citado na postagem anterior, ele toca em mais um assunto instigante. Diz ele, no último parágrafo do artigo de 21/3/2010 na Folha de S. Paulo:

“Por coincidência, naquele mesmo domingo em que abordei aqui este assunto, um jornal do Rio publicou uma entrevista com Marina Abramovic, artista performática que está se exibindo no MoMa. Um dos principais elementos de sua exibição são mulheres e homens nus. Ela fez questão de explicar que não se trata de teatro, "onde tudo é mentira, pois os atores fingem que são personagens e o sangue é tinta vermelha". Já na performance, é tudo verdade, tudo é real: se houver sangue, é sangue mesmo. E assim ela confirma o que afirmei sobre a arte contemporânea que, ao contrário do que a arte sempre fez, não cria nada: mostra o real. Ou seja, o que já conhecemos e não nos basta. Em matéria de nus mostrados em museus, prefiro o Davi, de Michelangelo, ou a Vênus de Cnido, que, em vez de me constrangerem, me deslumbram.”

Ele sugere aqui a arte não só deve provocar emoções em nós, mas que essas emoções devem ser do tipo certo (a definir). Em outras palavras: algo que nos provoca constrangimento (com ver no palco um bando de homens e mulheres nus), ou pior, algo que nos causa nojo e vergonha, não seria arte – porque o sentimento, no caso, não é do tipo que a arte deve provocar.

Para Ferreira Gullar, um dos sentimentos que a arte deve evocar é deslumbramento.

A Adriana Portella Hollenbeck, em um comentário, no Facebook, ao meu post anterior, concordou:

“Eu gosto da palavra DESLUMBRAMENTO, que ele sabiamente usa. O que deslumbra as pessoas varia muito, mas me custa acreditar que ainda que atinjam seu objetivo muitas das obras contemporâneas venham a deslumbrar quem quer que seja. Podem transmitir a mensagem que for e vão fazer parte da categoria ARTE por motivos diversos. Daí a me causarem deslumbramento, há uma distância enorme. Chorei sozinha em Nova York, parada feito besta olhando pra Noite Estrelada. Mesmo choro do Quarto Amarelo em Chicago, mesmo choro dos primeiros Monets vistos no Rio. Posso até chorar com as fotografias das penitenciárias, mas o choro é outro e não faz bem. Subverter e/para enriquecer são outros conceitos interessantes. Os que não se permitem subverter não entendem de arte alguma. Para eles sobra a arte de quarto de hotel, repetidas gravuras, impressas infinitas vezes. Mortas.”

Respondi no Facebook:

“Não gosto muito do termo deslumbramento, não (ele traduz o que em Inglês?). Para mim deslumbramento tem um sentido um pouquinho pejorativo — sugere que a pessoa está impressionada por algo que não justificaria a impressão que causa. "Ela está deslumbrada por ter sido indicada para o Oscar", por exemplo. Encanta-me a emoção que a arte pode produzir – a capacidade de me fazer chorar, rir, sentir sentimentos bonitos e nobres, sentir raiva, ódio, tudo no momnto apropriado. A arte é uma forma consciente e deliberada de manipular nossas emoções. Mas é uma manipulação consentida, e, por isso, legítima. Leio o livro porque quero; vejo o filme porque quero… A emoção é uma "emoção racional", porque quem produz o objeto de arte em regra sabe que vai provocá-la e trabalha, coerente e conscientemente, para o fazer. Não me lembro de ter sentido esse tipo de emoção profunda, entretanto, observando um quadro ou uma escultura. Não creio que jamais tenha chorado vendo um quadro ou uma escultura (embora haja muitos que admire). Nem mesmo ficado tão impactado por um quadro ou uma escultura que uma sensação profunda tenha permanecido comigo por algum tempo depois. A arte que especialmente me toca e encanta (encantamento [enchantment], talvez seja um termo melhor do que deslumbramento) é a literatura. Para mim, a palavra, a narrativa, o texto são capazes de produzir mais emoção do que qualquer imagem ou efeito visual. É verdade que o cinema fica numa área intermediária entre o texto, a literatura e a imagem, o visual. Junta os dois numa narrativa audiovisual. Mas o cinema sem a palavra (ainda que escrita, como na época do cinema mudo) não seria grande coisa (IMHO). ‘No princípio era a palavra…’ (‘en archè ên ho lógos…’).”

Seria possível acordo quanto às seguintes teses? 

a) A arte está diretamente relacionada à produção ou evocação de emoções;

b) Não é qualquer emoção que vale, mas apenas determinados tipos de emoção (a definir mais precisamente);

c) A emoção que a arte produz ou evoca provavelmente estava presente no artista que criou a obra de arte, embora indivisivelmente misturada com a racionalidade requerida para fazer com que a obra de arte produzisse / evocasse a mesma emoção nos outros;

d) O tipo de emoção de que se trata é algo próximo do encantamento, do deslumbramento, da fascinação, da reverência [“awe”] diante do belo;

e) A modalidade de arte que é capaz de produzir esse tipo de emoção varia muito de indivíduo para indivíduo, uns sendo encantados mais pelas artes visuais do que pelas artes que exigem o uso da palavra.

Aproveito para tocar num outro assunto, que sempre me causa irritação.

Ayn Rand, em um de seus “Horror Files”, conta uma história verídica, passada em um museu cuja identificação não vem ao caso, em uma manhã qualquer. Ao abrir o museu, o diretor ou curador ou responsável constatou o desaparecimento de uma escultura. Nenhuma busca a localizou. No interrogamento dos empregados, o homem responsável pela limpeza durante a noite admitiu ter jogado fora a escultura – por pensar que era lixo e nunca imaginar que pudesse ser arte.

Admito, sem vergonha e constrangimento, que nunca fui à Bienal de São Paulo – e nunca pretendo ir. O que já li sobre ela é que me leva a essa conclusão. Exemplo de “obras de arte” já exibidas lá:  um vaso de plantas reais adubado por estrume artificial ao lado de um vaso de plantas artificiais adubado por estrume real. Recuso-me a ir a qualquer tipo de exibição que considere isso arte. É lixo. Se fosse a pessoa responsável pela limpeza do local durante a noite, jogaria a arte fora (a privada seria um local adequado para dar sumiço à coisa).

Esse não é o único exemplo que poderia citar. Há muitos outros. Mas esse, para mim, é paradigmático do que é a falsificação da arte.

Por fim, um ponto que já discuti muito com a Adriana no passado. Embora a arte eminentemente realista de alguns pintores seja quase indiferenciável de uma fotografia, é arte porque produz, em quem a contempla, essa emoção de encantamento ou deslumbramento que alguém seja capaz de tal grau de competência que produz uma pintura que leva muitos a considerarem como fotografia. A fotografia realista, em si, não me parece arte – embora não hesite em considerar arte alguns tipos de fotografia.

Muito assunto para discussão. E não nos esqueçamos da controvérsia entre Monteiro Lobato e Anita Malfatti… Aproveito para transcrever um texto elucidativo, embora não concorde muito com ele. Sou fã do Lobato, inclusive nessa briga… (embora até minha mulher brigue comigo por causa disso!).

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http://www.urutagua.uem.br//007/07vale.htm

Resumo

O artigo investiga o porquê de o escritor e crítico Monteiro Lobato ter atacado violentamente a pintora expressionista Anita Malfatti em seu artigo "Paranóia ou mistificação?", por ocasião da exposição individual da artista em 1917. O fato teve grande repercussão e serviu como um dos motivos que levaram os jovens modernistas a organizarem a Semana de Arte Moderna no teatro Municipal de São Paulo, em 1922. Parece que o motivo foi pessoal, afinal, Lobato também queria ser um grande pintor.

Palavras-chave: arte, moderno, crítica

Abstract:

This article researches why the writer and critic Monteiro Lobato has raided hardly on the expressionist painter Anita Malfatti in his article called "Paranoia and mystification?" by her individual exhibition in 1917. That fact resulted in a great repercussion and it was one of reasons for the young modernists organized the Modern Art Week at Municipal Theater of São Paulo, in 1922. It seems the reason was personal, because Lobato also wanted to be a great painter.

Key-words: art, modern, criticism

O presente artigo tem sua origem a partir das seguintes indagações: "O que levou Monteiro Lobato a falar tão mal da obra de Anita Malfatti? Ele entendia de arte a ponto de fazer tal crítica?" É importante relembrar o ocorrido, pois trata de um episódio importantíssimo para a cultura brasileira: o estopim do Modernismo.

É claro que Monteiro Lobato, no ápice de sua erudição e no cargo que exercia no tradicional e respeitável jornal O Estado de São Paulo, tinha plenas condições de exercer a função de crítico; até porque, na época, um jornalista se fazia por talento ao lidar com as palavras, e não simplesmente porque possuía um diploma do curso de jornalismo.[1] Em seu artigo "Paranóia ou mistificação? A propósito da Exposição Malfatti", publicado em 20 de dezembro de 1917 – fato que, paradoxalmente, imortalizaria a obra da artista – Lobato declara sua total preferência pela arte clássica:

"Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processo clássicos dos grandes mestres. (…)"

Na seqüência dessa afirmação, Lobato cita, entre outros, Praxíteles, Rafael, Rembrandt, Rubens, Rodin, como modelos a serem seguidos, revelando razoável conhecimento de História da Arte. Mas é assim imediatamente definida por ele a outra "espécie de artista":

"formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. (…)"

Seu repúdio às novas tendências artísticas, as chamadas Vanguardas Européias – fonte da técnica desenvolvida por Anita – , fica claro nesses trechos:

"Essas considerações são provocadas pela exposição da Sra. Malfatti onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia."

e mais:

"Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros tantos ramos da arte caricatural. (…) Caricatura da cor, caricatura da forma – caricatura que não visa, como a primitiva, ressaltar uma idéia cômica, mas sim desnortear, aparvalhar o espectador."

Essa "arte efêmera" à qual se refere Monteiro Lobato era, em seu artigo, considerada fruto ou de paranóia ou de mistificação, tal qual se encontram desenhos desconexos nas paredes dos manicômios. Talvez essa tenha sido a maior ofensa para Anita: ter sido chamada, mesmo que indiretamente, de louca, psicótica, possuidora de um "cérebro transtornado". Nem mesmo alguns elogios ao seu talento serviram para aplacar a ofensa, porque há momentos em que Lobato se rende ao seu talento: Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum; mas logo aponta o aspecto caricatural de sua obra: Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama de arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura.

Embora os trechos aqui transcritos não dêem a dimensão real das palavras que provocaram a reação de desolamento de Anita, ainda assim, convém investigar os reais motivos que levaram o escritor Monteiro Lobato a ser tão ríspido em sua crítica, o que resultou em um trauma que ela carregou para o resto de sua vida.

Encontrei parte da resposta nos estudos de Mário da Silva Brito[2], um incansável pesquisador do Modernismo brasileiro, que compilou importantes documentos da época.

Rua Líbero Badaró na época da polêmica exposição de Anita MalfattiPrimeiramente, é preciso ficar claro que o conjunto das obras de Anita, expostas no salão da Rua Líbero Badaró, 111, assustou também aos próprios familiares e amigos próximos da pintora e, principalmente, ao então diretor do jornal o Estado de São Paulo, Nestor Pestana. E foi este quem encomendou a Lobato a crítica. Ao que foi relatado em depoimento a Paulo Duarte, Nestor Pestana, amigo pessoal da família de Anita, depositava nela grande expectativa. Contudo, frustrado com o que vira na exposição, em virtude de seu extremo conservadorismo, teria confiado ao articulista Monteiro Lobato, a crítica em tom de "pito"[3], aproveitando-se do fato de Monteiro Lobato, apesar de jovem, ser "velho de sensibilidade"[4]

Foi o casamento perfeito entre o desgosto de Pestana e a hostilidade de Lobato às estéticas modernas. Segundo Mário da Silva Brito, o conhecimento de Lobato acerca de arte limitava-se às lições acadêmicas e tradicionais. Sérgio Milliet, notável modernista, anota que a crítica de Lobato se baseia na concepção primária de uma pintura fotográfica, numa escultura naturalística, o que se origina por certo da ingênua convicção dum progresso contínuo, na superioridade de nossa civilização ocidental sobre as demais.[5]

Silva Brito ainda relembra-nos de que o tom mordaz de Lobato está mais para a caçoada do que para sátira. Lobato confessara em vários contos e artigos que suas "observações zombeteiras" não passavam de vinganças pessoais. Mas o que haveria de vingança pessoal no caso Malfatti? Eis a descoberta que pode completar a resposta às nossas indagações iniciais: Monteiro Lobato, além de escritor e jornalista, era também pintor, ou como diz Silva Brito, "queria ser pintor", tanto que a primeira edição de sua obra Urupês teve ilustração por seu próprio punho. Na verdade, era um pintor com traços acadêmicos, tradicionais mas que, apesar disso, não atingiu o êxito no campo das artes plásticas, o que resultaria no seguinte comentário de Menotti del Picchia[6]: Lobato é um grande contista com fama de mau pintor.[7] Assim sendo, parece ser consenso entre alguns de seus contemporâneos que Lobato, além de defender um estilo abraçado convictamente, alimentava um certo "despeito"[8] pelo sucesso de novos talentos, e em particular, os modernos.

Todavia, há quem defenda essa postura de Lobato, entendendo que sua crítica era proveniente de sua formação positivista, determinista e liberal (Cf. PENTEADO, 1997), oriunda de leituras fundamentais para sua formação ainda na Faculdade de Direito de São Paulo, dentre elas Spinoza, Fichte, Hegel, Voltaire, Taine, Spencer, Darwin e Nietzsche. Isso justifica seu repúdio à "influência estrangeira exacerbada", por meio da crítica aos "ismos" importados (CAMARGOS, 1999). A autora ainda pondera sobre Lobato:

"Na verdade, para ele, o artista brasileiro não se encontrava suficientemente amadurecido para apreender criticamente os modelos artísticos das vanguardas européias. E, sem esse amadurecimento, corria o sério risco de cair no imitativismo puro e simples." (Idem, p. 135)

O criador do símbolo nacionalista desprovido de idealizações românticas, a personagem Jeca Tatu, tinha uma convicção nacionalista voltada para uma realidade à qual as elites davam as costas. Nesse afã de buscar a verdadeira identidade nacional, sem influências estrangeiras, longe das cidades litorâneas como o Rio de Janeiro ou próximas ao litoral, como São Paulo, Lobato voltou-se para o interior. A partir disso, Lobato passou a defender a idéia de que a modernidade era o progresso, o saneamento, o acesso à educação e à cultura, não a reprodução de movimentos artísticos europeus, que ele considerava apenas modismos passageiros. Por outro lado, o grupo de modernistas tinha uma preocupação similar, contudo sem repudiar a influência estrangeira européia, nem a influência negra, nem a indígena, como é possível notarmos na antropofagia oswaldiana, tão bem articulada em Macunaíma, de Mário de Andrade, e tão bem sintetizada na obra de Tarsila do Amaral.

A diferença entre Lobato e os modernistas é de questão formal, como assevera Antônio Cândido (1985:120):

"No campo da pesquisa formal os modernistas vão inspirar-se em parte, de maneira algo desordenada, nas correntes de vanguarda na França e na Itália" (…) aprenderam a psicanálise e plasmaram um tipo ao mesmo tempo local e universal de expressão, reencontrando a influência européia por um mergulho no detalhe brasileiro."

Eis o ponto de divergência entre a modernidade de Lobato e a dos modernistas: a forma de expressão. Se a preocupação desses dois pólos era eminentemente o Brasil, sua identidade, sua nacionalidade, seu povo e sua língua, eles seguiam por caminhos distintos. Lobato era a favor de uma forma, no que tange à pintura, tradicionalista. As novas formas de expressão vindas dos emergentes artistas europeus agradavam àqueles que queriam, por meio de uma nova linguagem nas artes visuais e na literatura, fazer repensar o Brasil de um novo século, inserindo-o num mundo que valorizava cada vez mais a velocidade e a mecanização crescente. Ao contrário disso, a opção e a opinião de Lobato ficaram claras em seu artigo. E assim estava instaurada a polêmica que teve como ponto nevrálgico a obra da jovem e sensível Anita.

Embora o nome de Anita Malfatti tenha entrado para a história do Modernismo por causa desse episódio, tudo isso representou para ela, enquanto artista e também enquanto mulher – não podemos nos esquecer de que somente nessa época é que os nomes femininos começavam a adentrar um campo anteriormente quase que exclusivo dos homens – além do enorme choque psicológico, um grande prejuízo material: quadros já vendidos foram devolvidos e aulas de pintura foram canceladas. Apesar de tudo, Malfatti não parou de pintar, apenas recuou às suas lições acadêmicas anteriores: paisagens e naturezas mortas, ainda que impregnadas de ímpetos impressionistas.

Em conferência proferida por Anita na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 25 de outubro de 1951, a artista desabafa:

"Em São Paulo, as exposições individuais, grandes e pequenas, já surgiam então sem interrupção. Muitos artistas como Pedro Alexandre, Almeida Júnior e Benedito Calixto não representavam surpresa alguma."[9]

A pintora ainda relembra a exposição de Lasar Segall, pintor com fortes traços expressionistas, realizada em 1913, sob a tutela do senador Freitas Valle, que em nenhum momento causou qualquer tipo de estremecimento no meio artístico e cultural da época (Cf. AMARAL, 1979:73). Quanto a esse fato, Mário de Andrade, contudo, afirmou que "a presença do moço expressionista era por demais prematura para que a arte brasileira, então em plena unanimidade acadêmica, se fecundasse com ela."[10]

Mas nem tudo foi desolação para Anita. Ela recebeu apoio incondicional dos modernistas, em especial de Mário de Andrade e de Oswald de Andrade. Este, por sinal, foi o único que realizou uma defesa por escrito à crítica de Lobato. Assim, Oswald, como colunista do Jornal do Comércio, contrapôs-se à noção de paranóia propagada por Lobato:

"Possuidora de uma alta consciência do que faz, levada por um notável instinto para a apaixonada eleição dos seus assuntos e de sua maneira, a vibrante artista não temeu levantar com seus cinqüenta trabalhos as mais irritadas opiniões e as mais contrariantes hostilidades. (…) A sua arte é a negação da cópia, a ojeriza da oleografia. (…) e a nós deu uma das mais profundas impressões da boa arte."[11]

O posicionamento de Oswald, num caminho inverso de Lobato, torna-se explicável à medida que sua postura era de luta pela renovação artística, atuando como divulgador de uma estética nova, completamente dissociada dos padrões pré-estabelecidos. Além disso, sua atuação não tem como ponto de partida uma transformação social, embora não se despoje disso, como é possível verificarmos nas palavras de Lúcia Helena (1985:32):

"Sua luta pela renovação artística, principalmente no ângulo em que ele se apresenta como representante maior de nossa arte alegórica, compreendendo que a arte não é uma forma imediata, mas dialetizada, de transformação social, e de que sua finalidade não é a "salvação das massas", isso também o coloca na postura dos que saudavelmente ampliam, para além das sofisticadas (ou, na maioria dos casos, infelizmente, grosseiras) teorias do reflexo, a compreensão das relações entre a arte e o social-político."

Já Mário de Andrade, embora não tenha escrito nada de imediato, deu seu ombro amigo, seu apoio pessoal e, por meio das cartas que trocaram, é possível notar o imenso carinho que havia entre eles. Esse carinho todo despertou uma secreta paixão em Anita por Mário, mas que nunca teria uma definição por parte dele. Ainda assim, mais tarde, em 30 de maio de 1942, em conferência proferida no Salão de Conferências da Biblioteca do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, no Rio de Janeiro, Mário fez sobre ela uma defesa pública, indagando:

o que nos levou a aderir incondicionalmente à exposição de Anita Malfatti, que em plena guerra, vinha nos mostrar quadros expressionistas e cubistas? Parece absurdo, mas aqueles quadros foram a revelação. E ilhados na enchente de escândalo que tomara a cidade, nós, três ou quatro, delirávamos de êxtase diante de quadros que se chamavam o "Homem Amarelo", "A Estudanta Russa", "A Mulher de Cabelos Verdes". [12]

E em particular, a respeito de "Homem amarelo"[13] e "A estudanta russa", comentou Mário de Andrade: são quadros cheios dessa disponibilidade para o sofrimento que os sensitivos corajosos descobrem nas sombras projetadas à luz pelos seres e elementos.[14]

O fato é que Anita foi realmente audaciosa e que, no conjunto da vida e da obra, o seu fraquejar diante da dura crítica não apagou o legado deixado pelo ímpeto criativo revelado em obras como as que causaram a grande querela da exposição de 1917. Quanto a Lobato, embora jamais tenha conseguido adentrar o mundo das artes como pintor, deixou também inegável conjunto de obras para a literatura brasileira.

O aspecto irônico desse episódio é que, talvez sem a crítica de Lobato, o Modernismo brasileiro não tivesse acontecido, pelo menos naquele momento e da maneira como aconteceu. Nenhum movimento que envolva a arte moderna se deu de maneira tranqüila, sem impacto, sem sustos e sem choques. A aceitação da estética moderna no Brasil aconteceu paulatinamente ao longo do século XX, e teve seu ápice quando o mundo adentrava a fase pós-moderna. E ambos, tanto Monteiro Lobato, quanto Anita Malfatti deram sua contribuição para a construção da modernidade, cada um a seu modo.

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Referências bibliográficas:

AMARAL, Aracy. Artes plásticas na semana de 22. São Paulo: Perspectiva, 1979.

ANDRADE, Mário de. O movimento modernista. In: Aspectos da literatura brasileira, São Paulo: Martins Fontes, 1974.

CAMARGOS, Márcia Mascarenhas. "Duas leituras de Lobato nos anos 20", Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, Nº 52, pp. 135-138, 1999.

CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. 7ª ed., São Paulo: Nacional, 1985.

HELENA, Lúcia. Oswald de Andrade e o Modernismo. In: Escrita e poder. Rio de Janeiro: Cátedra, Brasília: INL, 1985.

LOBATO, Monteiro. Urupês. 23ª ed., São Paulo, Brasiliense, 1978.

PENTEADO, José Robert Whitaker. Os filhos de Lobato. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997.

SILVA BRITO, Mário da. História do Modernismo Brasileiro, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

Fontes iconográficas:

Fig. 1 – Rua Líbero Badaró – www.prolam.sp.gov.br/dph/spimagem/spimag16.htm

Fig. 2 – "Lalive" – www.cyberartes.com.br/edicoes/126/artista.asp

Fig. 3 – "O homem amarelo" – www.baixadafacil.com.br/artesine/index-3.shtml

Fig. 4 – "A estudanta russa" – www.pitoresco.com.br/anita/anita27.htm

[1] O curso de jornalismo foi implantado oficialmente, no Brasil, somente em 1943 pelo Decreto-lei nº 5480, de 13 de maio de 1943, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas e pelo ministro da educação Gustavo Capanema.

[2] Mário da Silva Brito, História do Modernismo Brasileiro, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978

[3] Mário da Silva Brito, op. cit., p. 56.

[4] Depoimento a Sérgio Milliet, para o Diário Crítico, volume 4, São Paulo, Martins Fontes, 1947, p. 53.

[5] Sérgio Milliet, op. cit., p.54

[6] Nem por isso essa crítica de Menotti de Picchia gerou algum tipo de ressentimento; pelo menos é o que se pode observar em carta enviada ao então presidente da Academia Brasileira de Letras, Múcio Leão, em 14/10/1944, recusando um convite à cadeira que pertencera a Alcides Maya: "(…) Do fundo do coração agradeço a generosa iniciativa; em especial agradeço a Cassiano Ricardo e Menotti o sincero empenho demonstrado em me darem tamanha prova de estima." In: Urupês, 1978, s/p.

[7] Menotti Del Picchia, "Uma palestra de arte", Correio Paulistano, de 29/11/1920. Apud. Mário da Silva Brito, op. cit., p. 58.

[8] Cf. Mário da Silva Brito, op. cit., p.57.

[9] In: "A chegada da arte moderna no Brasil", conferência de Anita Malfatti na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 25/10/1951. In: Conferências de 51, p. 31, Apud. Aracy Amaral, 1979, p.72.

[10] In: Mário da Silva Brito, op. cit., p.42.

[11] Oswald de Andrade. "A Exposição Anita Malfatti", in: "Jornal do Comércio", edição de São Paulo, 11/01/1918. Apud Mário da Silva Brito, op. cit. p. 61.

[12] Mário de Andrade. "O movimento modernista". Aspectos da literatura brasileira, São Paulo, Martins Fontes, 1974, p.232.

[13] O referido quadro foi adquirido por Mário de Andrade na inauguração da Semana de Arte Moderna. Cf. Confer. cit., p. 31. Apud. Aracy Amaral, op. cit., p.93.

[14] Mário de Andrade, "A manhã", Suplemento de S. Paulo, de 31/7/1926. Apud Mário da Silva Brito, op. cit., p. 65

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Em São Paulo, 22 de Março de 2010

A arte – 1

Abaixo, dois textos de Ferreira Gullar sobre a arte e a realidade. O primeiro apareceu no dia 7/3 e o segundo hoje, 21/3 – ambos na Folha Ilustrada, caderno da Folha de S. Paulo. A discussão teórica teve como pano de fundo a próxima Bienal.

O assunto sobre a natureza da arte e a questão mais prática sobre o que conta como arte e o que não conta me interessam bastante.

O realismo artístico do passado representava a realidade de forma “realista”, isto é, uma pintura deveria parecer uma fotografia. Hoje em dia, diz Gullar, a Bienal pretende (pelo que parece) simplesmente mostrar filmes e fotografias – não filmes e fotografias digamos, artísticos, mas dilmes e fotografias digamos documentários. Ou seja, em vez de uma pintura parecendo uma fotografia, agora temos direto a fotografia. “O realismo do passado representava a realidade; o de agora mostra-a”, lastima Gullar.

Para Gullar, a arte deve criar ou inventar uma realidade diferente, que subverte ou enriquece a realidade propriamente dita. “A arte existe porque a realidade é pouca, não nos basta", diz Gullar. Não se faz arte quando apenas se mostra a realidade por filmes e fotografias.

A crítica de Gullar chega perto da Bienal quando ele afirma:

“Se um artista amarra um cão numa galeria de arte, para fazê-lo morrer de fome e sede, e outro convida pessoas para verem larvas de moscas através de um microscópio, deixam evidente que o que lhes resta é mostrar a realidade, já que, sem a linguagem da pintura, não podem reinventá-la, como a arte sempre fez. E assim são levados a crer que o que vale é o real; arte é mentira. – Sim, a mentira mais verdadeira que a verdade, como o sabia Pablo Picasso.”

(E como o sabe Mario Vargas Llosa. Vide La Verdad de las Mentiras).

A crítica volta para o plano teórico quando ele acrescenta:

“Os estetas e teóricos da arte, como os artistas, sempre entenderam que arte e realidade são coisas distintas, pelo fato mesmo de que a arte-pintura, sendo um modo de expressão, não tem a materialidade das coisas reais. Ao substituir as significações simbólicas pela exposição pura e simples dos fenômenos reais, abre-se mão da capacidade humana de criar um universo imaginário que, durante milênios, contribuiu para fazer de nós seres culturais, distintos dos demais seres vivos que, estes, sim, limitam-se à experiência do mundo material.”

A crítica final à Bienal que se descortina:

“Neste contexto, a próxima Bienal de São Paulo muda-se em festival de cinema, fotos e vídeos para nos mostrar a realidade que já conhecemos: a guerra, as penitenciárias, os prostíbulos, os drogados, enfim, o pesadelo redundante, que nos chega diariamente pela televisão e pelos jornais.”

Ali não cabe a arte.

No artigo de hoje Gullar introduz uma linha adicional de argumentação.

Quando nascemos, diz ele, “porque ainda não aprendemos a falar, somos quase que apenas nosso corpo – um bichinho que apenas gesticula. Depois que aprendemos a falar, tudo muda, já podemos traduzir em palavras o que sentimos e desejamos, e, por meio da poesia, nos inventamos e inventamos a realidade imaginária que amplia nossa existência. Assim também, se me torno pintor, de posse de uma nova linguagem, reinvento a realidade e a transfiguro.”

Gullar está perdoado de mencionar apenas a poesia, e se esquecer da ficção em forma de prosa. Mas é isso aí.

Já mencionei Mário Vargas Llosa. Ayn Rand e Mário Vargas Llosa compartilham, até certo ponto, uma visão da arte, segundo a qual (parafraseando Rand) a arte é a nossa tentativa de recriar a realidade (i.e., inventar uma realidade) segundo nosso "sense of life", nosso sentido de realidade, nossos valores mais básicos. Falando especificamente da literatura, Vargas Llosa diz que ela consiste de mentiras que inventamos para dizer verdades que, no mundo em que vivemos, não têm correspondência com a realidade.

A seguir, os dois textos de Gullar.

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Folha de S. Paulo
7 de Março de 2010

FERREIRA GULLAR

A pouca realidade


A arte existe porque a realidade não nos basta; copiar a realidade é chover no molhado


LEIO QUE a próxima Bienal de São Paulo será tomada por filmes, fotografias e videoinstalações. E não serão filmes de ficção, mas filmes que tratam da realidade política, econômica e social. Essa notícia veio ajustar-se a uma leitura que tenho feito do rumo tomado pelas artes plásticas, segundo a qual tudo o que nelas era fantasia foi substituído pela realidade. O realismo do passado representava a realidade; o de agora mostra-a.

A grande arte inventa o real, subverte-o, enriquece-o mesmo quando se trata de realistas como Corot ou Courbet. Digo que a arte existe porque a realidade é pouca, não nos basta. Copiar a realidade é chover no molhado.

Após o realismo do século 19, veio o impressionismo, de Monet e Renoir, em que a realidade do mundo dissolvia-se em luz e cores vibrantes, que mudavam com o passar dos minutos. Cézanne queria uma pintura menos fluida, mais sólida, mais próxima do real, porém, grande artista que era, terminou por desintegrar as formas reais em manchas, abrindo caminho para o cubismo. Ele dizia que, sem a natureza, não havia pintura, mas, em vez de copiá-la, tratou de mudá-la em sua pintura: a substância das maçãs que pintou é pictórica, não é a mesma da maçã real.

Pois bem, os cubistas inverteram a questão; em vez de partirem da natureza, partiram da tela, dos elementos gráficos e cromáticos para reinventar o real: o cachimbo, que se vê numa natureza-morta de Braque, não existe; ele o inventou. Foi o começo de uma revolução que a tudo subverteu e, o quadro, agora, tanto podia ser pintado como feito de recortes de jornal, fios de arame, barbante, areia, pano colado na tela. Expulso da pintura o objeto natural, tornou-se o quadro o objeto da pintura e, assim, qualquer coisa que se pusesse ali viraria arte. E nasceram a arte Merz (quadros-colagens), de Schwitters; o dadaísmo, de Arp e Duchamp; o suprematismo, de Malevitch; sem falar no neoplasticismo, de Mondrian. Implodida a linguagem pictórica, todos os caminhos se tornaram possíveis, menos a volta à imitação da natureza.

A tendência realista foi consequência da substituição da visão religiosa pela concepção científica e do desenvolvimento industrial. A linguagem abstrato-geométrica da arte levou Malevitch ao impasse da tela em branco, que o fez trocar o quadro pela construção no espaço real. Por sua vez, Schwitters passou a construir o Merzbau, uma "assemblage" tridimensional, que crescia todos os dias, a cada novo elemento que ele trazia da rua. Lygia Clark, décadas depois, no Brasil, diante do mesmo impasse, também abandonava a tela pela construção no espaço real, inventando os bichos e objetos relacionais, que, na verdade, eram pura sensorialidade, ou seja, a expressão reduzida à sua realidade material.

Com a eliminação da referência à natureza e o fim da linguagem pictórica, o quadro, como espaço imaginário, morrera e a matéria da arte passou a ser a realidade "tout court". A rejeição da arte, como expressão estética, tornou-se a tendência preponderante. Se um artista amarra um cão numa galeria de arte, para fazê-lo morrer de fome e sede, e outro convida pessoas para verem larvas de moscas através de um microscópio, deixam evidente que o que lhes resta é mostrar a realidade, já que, sem a linguagem da pintura, não podem reinventá-la, como a arte sempre fez. E assim são levados a crer que o que vale é o real; arte é mentira.

Sim, a mentira mais verdadeira que a verdade, como o sabia Pablo Picasso.

Os estetas e teóricos da arte, como os artistas, sempre entenderam que arte e realidade são coisas distintas, pelo fato mesmo de que a arte-pintura, sendo um modo de expressão, não tem a materialidade das coisas reais. Ao substituir as significações simbólicas pela exposição pura e simples dos fenômenos reais, abre-se mão da capacidade humana de criar um universo imaginário que, durante milênios, contribuiu para fazer de nós seres culturais, distintos dos demais seres vivos que, estes, sim, limitam-se à experiência do mundo material.

Neste contexto, a próxima Bienal de São Paulo muda-se em festival de cinema, fotos e vídeos para nos mostrar a realidade que já conhecemos: a guerra, as penitenciárias, os prostíbulos, os drogados, enfim, o pesadelo redundante, que nos chega diariamente pela televisão e pelos jornais. Ao contrário disso, uma obra de arte como "Noite Estrelada", de Van Gogh, por exemplo, não é nunca redundante; é sempre atual, é um deslumbramento a mais no mundo. A arte existe porque a realidade não nos basta, sabiam?

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Folha de S. Paulo
7 de Março de 2010

FERREIRA GULLAR

A pouca realidade 2


A arte contemporânea caracteriza-se não por reinventar a realidade e, sim, mostrá-la


NA CRÔNICA aqui publicada no dia 7 deste mês, disse que a próxima Bienal de São Paulo teria o propósito de nos mostrar aspectos da realidade política e social, por meio de filmes, vídeos e fotografias, conforme li na imprensa. Pareceu-me que, com isso, a Bienal se inseria na tendência chamada arte contemporânea de nos mostrar a realidade em lugar de recriá-la ou transfigurá-la. A curadoria da mostra contestou minha afirmação, alegando que, pelo contrário, pretende "destacar a singularidade da arte em relação ao campo da cultura e se propõe mostrar a relação entre arte e política". Acrescenta, ainda, concordar com minha tese de que a arte existe porque a realidade não nos basta. Se é assim, tanto melhor. Mas por que fazê-lo por meio do cinema se a Bienal é de artes plásticas?

Quem leu a referida crônica terá percebido que me vali da futura Bienal como pretexto para expor meu ponto de vista, segundo o qual a chamada arte contemporânea caracteriza-se não por reinventar a realidade e, sim, simplesmente, mostrá-la. Esses artistas -se ainda cabe chamá-los assim- têm as chamadas linguagens da pintura, da gravura, da escultura etc., por superadas.

Vou me valer de uma metáfora bem simples. Ao nascermos, porque ainda não aprendemos a falar, somos quase que apenas nosso corpo – um bichinho que apenas gesticula. Depois que aprendemos a falar, tudo muda, já podemos traduzir em palavras o que sentimos e desejamos, e, por meio da poesia, nos inventamos e inventamos a realidade imaginária que amplia nossa existência. Assim também, se me torno pintor, de posse de uma nova linguagem, reinvento a realidade e a transfiguro.

Mas o que sucederia se, por alguma razão, essa linguagem pictórica se desfizesse? Restaria eu, pintor sem linguagem, diante da realidade, agora inalcançável. Cézanne, ao pintar a maçã, não a copia, simplesmente; muda-a em pintura. As garrafas e púcaros dos quadros de Morandi são entes pictóricos, que ele acrescentou ao mundo, o que só se tornou possível pelo domínio técnico e poético da linguagem da pintura. Sem ela, o que faria Morandi, fascinado como era, pelo mistério daqueles objetos? Nos chamaria a sua casa para mostrá-los? Certamente, não o faria por saber que a função do artista não é mostrar a realidade, mas mudá-la.

Tanto o sabia que, tendo vivido até 1964, não aderiu às vanguardas que negaram a linguagem da arte.

O que é o "ready-made", se não a apropriação do que já está feito? O "ready-made" dispensa a linguagem da arte, ou seja, dispensa a arte que, sem linguagem, não existe. Mas Marcel Duchamp, que era artista, dedicou oito anos a fazer o "Grande Vidro" e 12 a fazer o "Étant Donné", que, aliás, de realidade não tem nada: é puro sonho.

O "ready-made" duchampiano expressa a contradição entre a arte artesanal e a sociedade industrial. É como se Duchamp dissesse: "Nesta época, a arte já era". E, com isso, o pintor saiu do espaço fictício do quadro para o espaço real do mundo.

No começo, o propósito era criar, nesse espaço, objetos que, de algum modo, aludissem à subjetividade, do artista e do espectador, mas, em seguida, até essa significação estética (isto é, formal) se desvaneceu e ao artista, sem linguagem, só restou a realidade inalcançável.

A performance resulta dessa perda da linguagem: sem ela, sou apenas meu corpo material: lambuzo-me de tinta, me masturbo em público, me corto, fico nu no museu; sim, no museu, porque ficar nu na rua ou em casa não é arte. Tenho que me masturbar na galeria de arte para que a masturbação vire expressão estética.

Sem linguagem artística, reduzido a meu próprio corpo, é a instituição -o museu, a galeria de arte- que dá sentido às minhas atitudes e ações.

Por coincidência, naquele mesmo domingo em que abordei aqui este assunto, um jornal do Rio publicou uma entrevista com Marina Abramovic, artista performática que está se exibindo no MoMa. Um dos principais elementos de sua exibição são mulheres e homens nus. Ela fez questão de explicar que não se trata de teatro, "onde tudo é mentira, pois os atores fingem que são personagens e o sangue é tinta vermelha". Já na performance, é tudo verdade, tudo é real: se houver sangue, é sangue mesmo. E assim ela confirma o que afirmei sobre a arte contemporânea que, ao contrário do que a arte sempre fez, não cria nada: mostra o real. Ou seja, o que já conhecemos e não nos basta. Em matéria de nus mostrados em museus, prefiro o Davi, de Michelangelo, ou a Vênus de Cnido, que, em vez de me constrangerem, me deslumbram.

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Em São Paulo, 21 de Março de 2010

Ainda sobre o memorioso…

Estou lendo um livro interessante: Total Recall (traduzido para o Português como O Futuro da Memória), de Gordon Bell & Jim Gemmell, ambos da Microsoft Research, publicado no Brasil pela Editora Campus (Rio de Janeiro, 2010). Ele se liga bem ao tópico de meu último post, “O memorioso e o pensoso”.

No post anterior havia citado o Ombudsman da Folha dizendo isto:

“A Internet tem criado vários problemas para a sociedade e para o jornalismo, que precisam ser enfrentados com decisão e presteza em nome do bem comum. Um deles é o dessa memória coletiva inapagável. Um livro recente de Viktor Mayer-Schönberger, da Universidade Nacional de Cingapura, trata do assunto. Mostra como a humanidade passou em poucos anos de uma situação milenar em que o esquecimento era a regra e recordar era o desafio (e para superá-lo criaram-se instrumentos como cantos, poemas, livros, jornais) para a [situação] atual, em que lembrar de quase tudo se tornou o padrão e esquecer é quase impossível.” [Ênfase acrescentada por mim].

O livro que estou lendo diz, na p.3 da edição brasileira:

“E se você jamais esquecesse de coisa alguma e tivesse completo controle sobre o que se lembrar e de quando aconteceram as coisas?”

Mais adiante, na p.8:

“. . . A capacidade de memória digital cresce com mais rapidez do que nossa capacidade de recuperá-la. No passado você precisava ser extremamente seletivo e cuidadoso quanto aos dados que deveriam ser guardados. Você tinha de ser econômico com seus fragmentos eletrônicos de informação – ou bits, como os chamamos. Contudo, a partir de 2000, começou a ser trivial e barato guardar imensa quantidade de dados. O difícil já não é decidir o que guardar, mas como armazenar as informações de modo organizado, como classificá-las, acessá-las e ordená-las de modo que façam sentido.”

Continua, na p.11:

“Considere  o fato de que atualmente quase toda transação financeira que você executa – depósito, retirada, pagamentos com cartão de débito ou crédito – é registrada eletronicamente como um único evento”.

Com base no número de seu CPF, já é possível consolidar quase toda a sua vida econômica. Você teria de deliberadamente viver na clandestinidade para que isso não acontecesse com você…

E assim vai. Vale a pena ler. O Prefácio do livro é de Bill Gates.

Em Salto, 20 de Fevereiro de 2010

O memorioso e o pensoso…

Muito interessante a matéria de Carlos Eduardo Lins da Silva, Ombudsman da Folha, na Folha de S. Paulo de hoje (Domingo, 14/02/2010). Transcrevo o texto abaixo (ao final) para os que gostarem desta introdução.

Lins da Silva começa lidando com uma situação concreta – mas generaliza a questão de modo a tratar de um problema filosófico instigante, ao qual, confesso, nunca havia dedicado a devida atenção. 

A situação concreta é esta. Uma moça, que participou de um precursor dos “reality shows”, já faz cerca de nove anos, foi entrevistada, junto de outros participantes, e, pelo jeito, disse alguma besteira da grossa da qual hoje se arrepende. A Folha, na época, publicou o que ela disse. Isso, em si, não parece ter nada de mais. Ninguém se lembra, hoje, do que a Folha publicou há uma semana, não é verdade? Quem vai lembrar do que ela publicou há nove anos? Ou não? O problema está em que o texto do jornal está digitalizado, e quem pesquisa no Google o nome da dita cuja vê a tal entrevista em segundo lugar nas páginas exibidas. E isso a tem prejudicado terrivelmente. Potenciais empregadores, e até mesmo os relacionamentos, em geral, que as pessoas têm, pesquisam o Google, ou equivalente, em procura de passos falsos daqueles que cogitam empregar ou com os quais pretendem se relacionar mais duradouramente. Besteiras ditas ou feitas lá atrás podem reaparecer e assombrar a vida da pessoa, como fantasminhas não tão camaradas…

A moça pediu ao Ombudsman da Folha que intercedesse junto à Redação para remover da versão digital do jornal aquilo que ela disse. A Redação se negou, afirmando (com plausibilidade) que remover da versão eletrônica aquilo que apareceu na versão impressa é reescrever e, por conseguinte, falsificar a história – é pior, mesmo, do que simplesmente dar uma falsa impressão. 

O Ombudsman (pelo que ele afirma) argumentou com sua Redação que retirar do arquivo eletrônico, a pedido dos interessados, declarações de cidadãos comuns, ou relatos sobre eles, quando eles não são figuras públicas, declarações e relatos que hoje os prejudicam, talvez fosse um pecadilho venial perto do prejuízo pessoal que a declaração ou o relato, agora preservado para sempre, lhes causa… Qual o prejuízo informativo para a sociedade e para história, para a posteridade, enfim, se some para sempre da Internet o que a moça disse ou o que algum outro, hoje um feliz anônimo, fez? Mas a Redação foi inflexível.

Estes os fatos – o “Sitz im Leben” (“Lugar na Vida”) da questão maior, filosófica.

Eis a problematização da questão em uma passagem lapidar pela sua precisão e pela sua economia de palavras, retirada do artigo que transcreverei abaixo:

“A Internet tem criado vários problemas para a sociedade e para o jornalismo, que precisam ser enfrentados com decisão e presteza em nome do bem comum. Um deles é o dessa memória coletiva inapagável. Um livro recente de Viktor Mayer-Schönberger, da Universidade Nacional de Cingapura, trata do assunto. Mostra como a humanidade passou em poucos anos de uma situação milenar em que o esquecimento era a regra e recordar era o desafio (e para superá-lo criaram-se instrumentos como cantos, poemas, livros, jornais) para a [situação] atual, em que lembrar de quase tudo se tornou o padrão e esquecer é quase impossível.” [Ênfases acrescentadas por mim].

Interessante a questão, não?

Mas o mais interessante vem a seguir.

Outra citação. Continua o ombudsman da Folha:

“Ireneo Funes, o personagem do genial conto abaixo indicado [de Jorge Luis Borges], escrito em 1942, não se esquecia de nada. Por isso, diz o autor, era incapaz de pensar. ‘Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo entulhado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos’, como também na memória implantada nos ‘replicantes’, os androides do filme recomendado abaixo, e também na Internet.”

Comento eu agora um tema que é de minha especial predileção. Reter informação demais prejudica a nossa capacidade de pensar… Pensar implica generalizar – e generalizar implica abstrair, deixar fora do quadro os detalhes (ainda que verdadeiros), para chegar à essência das coisas… O conceito de “mesa” não pode fazer referência à cor, ou ao material, ou ao número de pernas de mesas concretas – pois pode haver mesa de todas as cores, de vários tipos de material, de quantidade variada de pernas… Se eu começar a me preocupar com a cor, ou o material, ou o número de pernas de todas as mesas que eu já vi, ou de todas as mesas possíveis, eu não consigo pensar sobre a mesa, em sua essencialidade… Não consigo formular, enfim, o conceito de mesa, porque conceitos são entidades gerais, genéricas mesmo. .

E nós pensamos, não em termos de perceitos (que são as imagens mentais de coisas físicas que são percebidas), mas em termos de conceitos (que são entidades lógicas concebidas por nós, criadas pela mente humana, em geral a partir dos perceitos).

Enfim: reter informação demais prejudica a nossa capacidade de formular conceitos, de pensar…

Qual a implicação disso para a Internet?

Mais importante: qual a implicação disso para a educação — uma educação que gosta tanto de detalhes, na grafia, nos plurais e nos gêneros das palavras, na sintaxe, na concordância dos termos, na regência dos verbos; uma educação que, na história, dá tanto valor a lugares e datas, e, na geografia, à altura das montanhas, à extensão e à vazão dos rios, e outras tantas bestagens?

Lembro-me de que o Rubem Alves, em um de seus artigos, não me lembro qual, disse que quem retém informação demais em sua mente não fica inteligente: fica apenas mentalmente obeso. E ele vai adiante, na direção do que se disse atrás sobre Funes: o mentalmente obeso não consegue pensar, porque sua mente está tão pesada de informações que ele não tem a agilidade mental requerida para pensar… Fica obcecado com detalhes.

A única vantagem que o memorioso (o que retém muita coisa na memória, o que tem uma cabeça cheia) tem sobre o pensoso (o que sabe pensar bem, o que tem a cabeça bem feita) é que o memorioso pode se sair melhor em um jogo de trívia…

Talvez a única falha do artigo do Ombudsman está em sua sugestão que, ao abstrair, devemos “esquecer diferenças”. Talvez a falha tenha origem em Borges. Mas ela me parece ser dupla.

Em primeiro lugar, o verbo esquecer é, no meu entender, forte demais. Talvez o verbo mais indicado seja ignorar, ou não atentar para, ou não levar em consideração.

Em segundo lugar, não é toda diferença que deve ser ignorada no processo de abstração, generalização e conceituação: são apenas as diferenças não essenciais, as diferenças que os antigos chamavam de acessórias…

Explico.

Não resta dúvida que nós, seres humanos, somos diferentes uns dos outros (no sexo, na altura, no peso, na cor, na inteligência, na beleza, etc.). Algumas dessas diferenças comportam inúmeras possibilidades, como as diferenças de altura e de peso; outras, nem tanto; no caso do sexo, há apenas duas possibilidades. Ao tratar uns aos outros, devemos ignorar, não atentar para, não levar em consideração essas diferenças: somos todos humanos e todo ser humano merece ser tratado com dignidade e respeito, apesar das diferenças individuais.

Mas não podemos ignorar, não atentar para, não considerar as diferenças que nos tornam únicos como espécie, e que nos distiguem, não uns dos outros, mas todos nós, como espécie, de outras espécies animais… Ou da espécie angélica. Ou da espécie divina (que, segundo os que crêem, é um conjunto de um só). Quem sabe não é exatamente a consideração dessas diferenças que nos obriga a ignorar aquelas? Ou que nos sugere que, sendo humanos, e portanto animais, e não anjos ou deuses, estamos “salvos da perfeição” e não devemos pretender ser perfeitos? (A busca da perfeição, no plano individual [físico e mental, neste segundo caso envolvendo as dimensões intelectual, emocional, espiritual, imaginativo, criativo, etc.] ou no plano social [representada pelas utopias] já causou muito sofrimento ao ser humano).

É isso… Leiam o texto inteiro do Ombudsman. Vale a pena.

—–Início da transcrição—–

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsma/om1402201001.htm

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ombudsman@uol.com.br

Quem cai na rede nunca mais sai


A internet criou problemas para a sociedade e o jornalismo que têm de ser enfrentados em nome do bem comum


UMA LEITORA, cujo nome não é revelado por razões que ficarão claras, escreveu ao ombudsman para pedir que encaminhasse ao jornal um pedido: a retirada do arquivo eletrônico de uma declaração que lhe foi atribuída em texto publicado quase nove anos atrás sobre um programa de TV.

A moça tinha 18 anos e foi entrevistada com outros participantes de um precursor dos “reality shows”. Na carta ao ombudsman, alega que suas palavras “foram completamente deturpadas”, o que é impossível determinar. Além disso, ela diz não ter autorizado que sua declaração fosse para a internet e, o mais importante, que o fato de estar lá atualmente lhe traz muitos problemas e constrangimentos. Quem pesquisa seu nome no Google, por exemplo, vê a tal reportagem em segundo lugar entre as páginas mostradas.

É cada vez mais comum em processos de seleção profissional os responsáveis pela escolha dos candidatos procurarem saber sobre eles nos mecanismos de busca da internet. Muitas pessoas em início de uma relação sentimental ou de amizade fazem o mesmo.

Encaminhei o pedido à Secretaria de Redação, que respondeu: “A Folha não pode retirar de seu arquivo eletrônico reportagens que foram publicadas na edição impressa”.

Perguntei, então: “por que o jornal não retira declarações de, ou referências a, cidadãos comuns, não pessoas públicas, que façam essa solicitação alegando que a manutenção desse material na internet as prejudica de diversas maneiras, quando tal retirada não acarretar nenhum prejuízo histórico ou informativo para a sociedade?”

A resposta do jornal foi: “A Folha, de fato, não altera seu arquivo digital por considerar que isso seria reescrever sua história mesmo quando o assunto em questão envolver cidadãos comuns. Mas está “linkando” todos os erramos aos textos correspondentes desde 2008. E há um projeto em curso de indexar todo o acervo desde que a seção “Erramos” foi criada”.

É um progresso que as correções estejam sendo anexadas aos textos originais. Mas muitos erros não são reconhecidos e registrados. E há situações em que não há erro: simplesmente a pessoa não quer mais que aquela referência a ela continue circulando na rede.

Claro que é um perigo o jornal permitir que sejam alteradas as matérias como foram publicadas. Mas há situações em que extrair alguma coisa do arquivo eletrônico, às vezes até por razão humanitária, é inócuo do ponto de vista da história ou do interesse público e pode fazer diferença enorme para a vida do cidadão envolvido.

A internet tem criado vários problemas para a sociedade e para o jornalismo, que precisam ser enfrentados com decisão e presteza em nome do bem comum. Um deles é o dessa memória coletiva inapagável. Um livro recente de Viktor Mayer-Schönberger, da Universidade Nacional de Cingapura, trata do assunto. Mostra como a humanidade passou em poucos anos de uma situação milenar em que o esquecimento era a regra e recordar era o desafio (e para superá-lo criaram-se instrumentos como cantos, poemas, livros, jornais) para a atual, em que lembrar de quase tudo se tornou o padrão e esquecer é quase impossível.

Ireneo Funes, o personagem do genial conto abaixo indicado, escrito em 1942, não se esquecia de nada. Por isso, diz o autor, era incapaz de pensar. “Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo entulhado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos”, como também na memória implantada nos “replicantes”, os androides do filme recomendado abaixo, e também na internet.

Mais grave, como registra a professora Sylvia Moretzsohn, da Universidade Federal Fluminense, em diálogo com o ombudsman, é que na memória de Funes, todas as lembranças eram de fatos reais, eram “verdades”, enquanto na internet pululam mentiras, invencionices sobre qualquer pessoa, cuja veracidade não se pode comprovar e, às vezes, nem desmentir.

Cada cidadão, o jornal e a sociedade precisam todos pensar com mais seriedade a respeito dessa questão, que já tem sido capaz de provocar pequenas e grandes desgraças individuais e ainda tem o potencial de gerar enormes dificuldades coletivas.

PARA LER
“Funes, o Memorioso”, in “Ficções”, de Jorge Luis Borges, tradução de Davi Arrigucci Jr., Companhia das Letras, 2007 (a partir de R$ 28,84)

PARA VER
“Blade Runner, o Caçador de Androides”, de Ridley Scott, 1982 (a partir de R$ 24,90)

—–Fim da transcrição—–

Em Salto, 14 de Fevereiro de 2010. (Domingo de Carnaval). Pequenas revisões feitas, também em Salto, em 3 de Junho de 2021. (Quinta-feira de Corpus Christi, para compensar o Domingo de Carnaval de há onze anos e pouco).

*** Nota acrescentada hoje, em 2021: Pelo que parece, a expressão “fake news” não havia ainda sido criada no início de 2010…

*** Nota acrescentada hoje, em 3.6.2021: Confira também os seguintes artigos meus, sobre o mesmo tema:

Pode uma decisão judicial mudar o passado? [Published on Feb 25, 2011 at 7:35 AM]

Tem alguém o direito de pleitear que seu “passado digital” seja re-escrito (ou apagado)? [Published on May 16, 2010 at 8:51 AM]

Sobre o direito de que se esqueça o que dissemos e fizemos [Published on Apr 5, 2010 at 8:35 AM]

Ainda sobre o memorioso… [Published on Feb 20, 2010 at 11:33 PM]

Filosofia da Educação: Um Encontro Possível entre o Professor e a Tecnologia

Este artigo, escrito no ano 2000, foi originalmente publicado em Educação: Revista da Associação Brasileira de Educação (ABE), Ano 32, nº 102, pp. 32-34, 2001

Faz vinte anos que venho refletindo sobre o uso de tecnologia (em especial de computadores) na educação (em especial na educação escolar). Ao longo desse tempo tem me ficado bastante claro que o principal obstáculo ao uso generalizado de computadores em escolas não é o custo do equipamento, não é a inexistência de software adequado, e não é a dificuldade técnica de capacitar o professor no  manejo dessa tecnologia.

O principal obstáculo tem estado no fato de que os educadores não conseguem entrar em um acordo sobre o que fazer com o computador na escola, e a principal razão pela qual não chegam a esse acordo tem que ver, não com o computador, em si, mas, sim, com o fato de que os educadores, em geral, e dentre eles os professores, têm visões muito diferentes do que seja a educação, e, conseqüentemente, de qual seja o papel da escola na educação e deles próprios, professores, na escola. Dentro desse quadro, dificilmente poderão concordar sobre qual deva ser o papel do computador na educação.

Em 1983 (dezessete anos atrás [contados do ano 2000, em que escrevi este artigo – EC]) publiquei um artigo na revista Em Aberto do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), do Ministério da Educação, com o título “Computadores: Máquinas de Ensinar ou Ferramentas para Aprender?” Nesse artigo observei que há controvérsias entre os educadores sobre a melhor maneira de usar o computador na escola e que essas controvérsias decorrem de diferentes visões da educação (em especial, da educação escolar):

“Fundamentalmente, a controvérsia maior ocorre entre os que defendem a utilização do computador basicamente como um instrumento de ensino e os que defendem a utilização do computador basicamente como uma ferramenta de aprendizagem. . . . Pode parecer que a questão não é tão fundamental assim e que tudo não passaria de uma questão de ênfase. Contudo, há aspectos importantes por detrás destas colocações.”

Nessa disputa, de um lado estão os que vêem a educação escolar como um processo de transmissão, pelos professores aos alunos, de conteúdos informacionais (fatos, conceitos e procedimentos), sistematizados em áreas específicas (disciplinas) e organizados seqüencialmente de forma cada vez mais complexa (séries). Nessa visão da educação há, conseqüentemente, a valorização relativa do processo de ensino e instrução e é colocado em relevo o papel do professor como detentor das informações e dos conhecimentos a serem repassados aos alunos. A aprendizagem, por sua vez, fica caracterizada como um processo, em grande parte passivo (do ponto de vista do aluno), de absorção de informações e conhecimentos (em geral apresentados de maneira totalmente desvinculada dos problemas fundamentais que um dia levaram o ser humano a se interessar pelas questões que estão por trás dessas informações e desses conhecimentos). 

O computador, para os que adotam essa visão da educação escolar, deve ser utilizado de modo a reforçar ou tornar mais eficiente o trabalho do professor, sem que, em decorrência da utilização do computador, seja fundamentalmente alterada a visão de ensino e aprendizagem adotada. Para eles, o computador é apenas uma máquina de ensinar – ou, mais corretamente, uma máquina que ajuda o professor a ensinar melhor.  

Do outro lado na disputa estão os que vêem a educação (até mesmo a escolar) como um processo de desenvolvimento, pelos alunos, de competências e habilidades, especialmente no domínio cognitivo (mas sem negligenciar o domínio afetivo-emocional, interpessoal e até mesmo psicomotor), com a conseqüente valorização relativa do processo de auto-aprendizagem e de aprendizagem colaborativa, e, portanto, do papel do aluno na construção ou elaboração de sua própria aprendizagem. Esta, por seu turno, é vista como um processo ativo (do ponto de vista do aluno) de construção das estruturas cognitivas (afetivo-emocionais, interpessoais e psico-motoras) que vão lhe permitir alcançar vida pessoal realizada e participação eficaz e significativa na vida da sociedade como cidadão e profissional. 

A aprendizagem, e, conseqüentemente, a educação do aluno, é, nessa visão, algo que decorre, diretamente, da ação do aluno – não da do professor. A participação deste no processo é indireta. O professor deixa de ser o detentor único e exclusivo de informações e conhecimentos cuja absorção define a aprendizagem do aluno, e passa a ser, principalmente, o motivador, o incentivador, o animador, o instigador, o facilitador do aprendizado do aluno (tanto no aspecto cognitivo como nos aspectos afetivo-emocional e interpessoal), sendo necessário, para tanto, que organize “ambientes de aprendizagem” que sejam capazes de otimizar as oportunidades de aprendizagem dos alunos – aprendizagem significativa, flexível, transferível para outros contextos, e, por isso mesmo, duradoura.

Para os defensores dessa visão, o papel principal da escola é fornecer aos alunos o maior número possível de ambientes que favoreçam a aprendizagem do aluno, aprendizagem esta que ocorre quando o aluno, em interação com esses ambientes, desenvolve estruturas cognitivas (emocionais, interpessoais, etc.) que se traduzem em competências e habilidades que lhe permitem, acima de tudo, continuar a aprender e aprender sempre. 

O computador, para os que adotam essa visão da educação, deve ser utilizado, não como uma máquina de ensinar, mas como uma ferramenta de aprender, isto é, como uma tecnologia que pode facilitar, da parte dos alunos, o desenvolvimento das competências e habilidades necessárias para que aprendam a aprender e para que aprendam sempre. Inserindo-se nos ambientes de aprendizagem em que os alunos se situam, o computador permite que se ampliem os seus horizontes cognitivos e aumentem as suas possibilidades de interação com o meio – em especial no que diz respeito a contatos com pessoas de interesses afins e a acesso a informações relevantes aos seus interesses. O computador, para os alunos, é uma ferramenta de aprender – uma tecnologia que expande e aumenta o potencial da mente humana. 

Fica claro, portanto, de tudo o que foi dito, que há uma diferença fundamental entre essas duas visões da educação e, conseqüentemente, do papel da escola na educação, do professor na escola e da tecnologia em todo o processo. Mas essa diferença não deve ser localizada no âmbito da tecnologia, mas, sim, no âmbito da filosofia da educação

É preciso registrar que a tecnologia freqüentemente serve de agente catalisador da reflexão acerca dessas questões, porque o computador, ao ser introduzido na escola, funciona como agente perturbador da ordem estabelecida e permite que os que dela discordem se valham dessa oportunidade para questioná-la. O computador provoca essa discussão porque os alunos, em geral, têm muito mais facilidade para lidar com ele do que os professores – e, portanto, se torna um agente subversivo da ordem estabelecida na escola. 

Proponentes da visão mais convencional da educação em geral procuram “domesticar” o computador para que ele se insira naturalmente naquilo que é feito na escola, sem maior perturbação da ordem – mantendo, portanto, a hierarquia na escola. Os professores, aqui, em geral preferem usar o computador com softwares educacionais que eles podem pesquisar e dominar antes – não favorecendo usos “abertos” do computador em que o que vai ser feito, e como vai ser feito, não estão previamente definidos.

Proponentes da segunda abordagem, por outro lado, às vezes de forma mais ou menos ingênua e mesmo romântica, esperam que o computador, uma vez introduzido na escola, vá ajudá-los a subverter a ordem estabelecida e a finalmente promover as mudanças que desejam que aconteçam. Às vezes isso acontece – mas é raro. Na escola, como em qualquer outro lugar, a tecnologia, por si só, em geral não promove mudanças. Estas, se vierem a ocorrer, são comumente promovidas por pessoas – que, entretanto, podem, se valer da tecnologia para alcançar alguns de seus objetivos.

Em conclusão: o momento da introdução da tecnologia (em especial do computador) na escola pode ser um excelente momento para a reflexão sobre algumas importantes questões da filosofia da educação. A discussão franca e aberta das diferentes visões da educação que subsistem na escola pode eventualmente levar os professores a entender melhor suas posições e as daqueles de quem discordam. 

Transcrito aqui em São Paulo, 3 de Dezembro de 2009