Delubio, o PC de Lulla

Pelo jeito, Delúbio Soares vai ser o PC de Lulla — de agora em diante vou escrever Lulla, com dois eles, para sublinhar as semelhanças (e lembrem-se: vocês viram aqui primeiro!).

E Roberto Jefferson, pelo jeito, a quem Lulla daria um cheque em branco e dormiria tranqüilo, desempenhará o papel de Pedro Collor: quem botou a boca no trombone e disse o que todo mundo aparentemente sabia, mas não dizia (embora de vez em quando tentava "assobiar"…).

Está evidente, agora, para que serve o dízimo que os petistas que trabalham para o governo pagam para o PT: para fazer uma caixinha de corrupção, tentando fazer crer que o governo é puro, mas o partido, bem… o partido é como qualquer partido. O próprio Aldo Rebello, que não é do PT, ontem já disse com todas as letras: o governo não está sendo acusado de nada, é um partido que está sendo acusado de dar dinheiro aos outros… Daria vontade de rir, se não fosse de chorar.

PC Farias tirava dinheiro de empresários para a caixinha collorida. Delúbio não precisa fazer isso. A igrejinha do PT paga dízimo em agradecimento ao deus Lulla-alá pelo emprego recebido — que nós pagamos. E com esse dízimo a igrejinha compra deputados. O PTB, grande aliado, mas que ainda não aprendeu a cobrar dízimo, tem de recorrer a métodos semelhantes aos do PC Farias: uma corrupçãozinha à antiga, aplicada em licitações e extorquidas de quem presta serviços (?) ao governo.

E não há dúvida de que Lulla sabia. Suspeito que tenha sempre sabido, muito antes de ser informado por Roberto Jefferson. Com sua competência de sempre, consta que teria mandado investigar. Seus auxiliares, com a competência de sempre, ficaram sabendo que a Câmera (João Paulo, outro petista que, suspeito, também sempre soube) fez de conta que investigava e arquivou. Tudo resolvido. A sujeira foi mais uma vez varrida para debaixo do tapete.

Em 1992 tentaram blindar o Collor. Em 1974 tentaram blindar o Nixon. Blindar é isolar o presidente do mar de lama. Nenhuma das blindagens colou. Vamos ver se o Lulla tem melhor sorte.

Em Campinas, 7 de junho de 2005.

Bill Cosby e a responsabilidade pessoal dos negros pobres

Bill Cosby, comediante e ator americano, negro, rico e famoso, vem dando uma grande contribuição ao debate americano sobre racismo ao declarar, sem rodeios, em vários pronunciamentos, em especial diante de audiências de negros, que não é possível mais deixar a questão de responsabilidade pessoal fora da equação que descreve a pobreza de boa parte dos negros americanos (pobreza, isto é, especialmente em relação à condição econômica de brancos).

O assunto foi amplamente discutido no programa Nightline de 26 de maio último, coordenado por Ted Koppel, na rede americana CBS. Um excelente debate deu seqüência à transmissão de alguns pronunciamentos de Cosby, em especial os feitos no bairro pobre do norte de Filadélfia onde o comediante-ator nasceu.

Cosby vem apontando o fato de que não é mais possível esconder, por exemplo, que cerca de 75% das crianças nascidas fora de uma união estável nos Estados Unidos sejam de mães negras adolescentes. Essas crianças vão crescer em um lar não-convencional, sem pai, vão ficar sem a assistência da mãe, se esta tiver de trabalhar para sustentar a si própria e a criança (embora a maioria das mães nessas condições vivam de esmolas governamentais), e, assim, provavelmente vão engordar as estatísticas não só de desemprego e pobreza, mas, mas, também, de adição a drogas e criminalidade.

Cosby também vem apontando o fato de que as crianças negras nascidas nessa condição mal conseguem falar Inglês decente. Ele chegou afirmar que não consegue entendê-las quando falam – mas que, quando vê como as mães falam, deixou de se surpreender (embora não de ficar irado).

E assim vai.

Alguém tinha de dizer essas coisas – e foi bom que tenha sido Bill Cosby. Se um branco o tivesse dito, seria acusado de racismo, de “culpar a vítima”, etc.

O curioso, e que faz com que a gente tenha alguma esperança, é que a maioria das pessoas negras não-intelectuais entrevistadas por Nightline, concordou 100% com Cosby, como se pode ver no site do jornal Philadelphia Inquirer, em   http://www.philly.com/mld/inquirer/news/magazine/daily/11738732.htm.

Intelectuais identificados com o movimento negro, porém, desceram o sarrafo no comediante-ator. Nightline colocou frente a frente, discutindo a questão, um feroz crítico de Cosby, Michael Eric Dyson, professor, negro, da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, que recentemente publicou um livro com o título de Is Bill Cosby Right?, e um defensor de Cosby, o intelectual negro Shelby Steele, do Hoover Institute, em Stanford. O debate foi iluminador, digno dos melhores momentos do jornalismo televisivo americano.

Em Campinas, 30 de maio de 2005

Ronaldo e o racismo do movimento negro

Ronaldo, “O Fenômeno”, acaba de dar uma grande contribuição ao debate nacional sobre cor. Ele simplesmente se declarou branco em uma entrevista. A breve reportagem da Folha de S. Paulo registra; “Na semana passada, em entrevista à Folha, ao condenar o racismo e dizer que não conseguia entendê-lo, declarou: ‘Eu, que sou branco, sofro com tamanha ignorância. A solução é educar as pessoas.’"

Bastou isso para que o jogador sofresse grande quantidade de críticas. Entidades ligadas ao movimento negro, incoerentemente, desceram-lhe o serrafo pelo que tomaram como uma rejeição, pelo jogador, de sua condição de negro (que, segundo essas entidades, é o que ele de fato é).

Ronaldo rebateu dizendo três coisas sensatas e, pelo jeito, verdadeiras: (a) seu registro de nascimento o identifica como branco; (b) ele se considera branco; (c) na Espanha, onde jogadores negros vêm sendo hostilizados pelas torcidas, ele é chamado de gordinho, mas não de negro.

Eis a grande contribuição de Ronaldo ao debate sobre a cor do brasileiro.
Entidades ligadas ao movimento negro vêm tentando, sem sucesso, classificar o Brasil como o maior país negro fora da África, afirmando que o número de negros no Brasil chega a 60% da população – negro, portanto, sendo a cor absolutamente majoritária do brasileiro.

O único jeito de fazerem essa afirmação mais ou menos plausível é considerando negro qualquer pessoa que tenha pelo menos um ascendente remoto que tenha sido negro – qualquer que seja a cor de sua pele. Assim, ó fica fora da cor negra quem for 100% de outra cor. (É de surpreender que as entidades ligadas ao movimento negro admitam que cerca de 40% dos brasileiros sejam não negros). Aqueles que são tradicionalmente considerados pardos são, segundo esse argumento, inequivocamente negros.

A falta de criatividade desse argumento – que é idêntico ao usado tradicionalmente nos Estados Unidos – tem, como contrapartida, a ambição de fortalecer as entidades que o propõem, que passariam, de pequenas e insignificantes que são, a “representantes” (autodesignadas, é verdade) da maioria do povo brasileiro.

Mas o argumento não é apenas pouco criativo: é insustentável. Uma análise, ainda que breve, mostra a sua insustentabilidade.

Se as entidades relacionadas ao movimento negro têm direito de considerar negro quem tem apenas uma gota de sangue negro (por assim dizer), por que não pode Ronaldo, e quem mais quiser, considerar branco quem tem apenas uma gota de sangue branco (ainda, por assim dizer)?

Além do mais, é de cor que se está tratando – não da pureza racial da ascendência. As entidades ligadas ao movimento negro insistem, como os tradicionais racistas americanos, em colocar a questão em termos de raça, não de cor. O brasileiro, tradicionalmente, prefere colocar a questão em termos de cor. A população, conforme se viu no Fantástico de 29 de maio de 2005, considera até mesmo Glória Maria, a repórter do programa, não negra – é moreninha, escurinha, mas negra, não, segundo pessoas ouvidas (embora ela mesmo insistisse que era negra).

O pai de Ronaldo aparentemente não só se considera negro, mas foi registrado como negro (embora seja relativamente claro). No caso de Ronaldo, porém, ele, pelo que consta, foi registrado como branco e assim se considera – com todo direito, diga-se de passagem.

Por anos entidades relacionadas ao movimento negro vêm argumentando que a ciência teria mostrado que o conceito de raça não faz sentido do ponto de vista científico, e que raça nada mais é do que uma construção social. Se isso é verdade, temos de depender da percepção das pessoas. No Brasil, raça está ligada a cor. E cor é algo que se percebe, e que é independente de exame de sangue ou do DNA da pessoa.

As entidades relacionadas ao movimento negro, para aumentar a sua alavancagem política, vêm tentando convencer todos os tradicionalmente considerados pardos a se considerarem negros, ainda que a cor de sua pele seja muito mais próximo do branco do que do negro. Agora investem contra alguém que tem pele relativamente clara, e está registrado como branco, porque admite publicamente que se considera branco. Onde fica a coerência?
Um representante de uma entidade ligada ao movimento negro, entrevistado ontem no Fantástico, tentou remendar, dizendo que, no plano pessoal, Ronaldo pode se considerar branco, mas que, como pessoa pública que é, não tem esse direito…

Pelo jeito querem que o Ronaldo assuma uma dupla personalidade.

Durma-se com um barulho desses. Num país em que se admite que loiros se declarem negros para se valer do sistema de cotas, porque a cor de uma pessoa seria aquela que a pessoa declara, as entidades do movimento negro querem reintroduzir raça, não cor, como categoria relevante de classificação das pessoas.

Isso é racismo.

Em Campinas, 30 de maio de 2005

A parada gay

Hoje teve lugar em São Paulo a Parada Gay. Durante toda a semana os aficcionados vêm se manifestando na imprensa acerca do evento.

Em Carta Maior de 26/05/2005 “entidades” pedem liberdade sexual e “cobram ações mais efetivas contra a homofobia no país”. 

Estou cansado desse papo.

Os homossexuais brasileiros que me desculpem. Esse negócio de homofobia — conceito importado dos EUA — não existe no Brasil, país em que a população, exceto no caso de alguns skinheads, tolera qualquer tipo de orientação e comportamento sexual.

Pedir mais “liberdade sexual” no Brasil é ridículo: o que querem os homossexuais? Direito de transar em público na Avenida Paulista e, por cima, que os observadores os aplaudam e achem o ato lindo e edificante?

Os homossexuais brasileiros aprenderam com os negros americanos, que cobram nos Estados Unidos “ações mais efetivas contra o racismo” — um racismo que, embora tenha existido, não mais existe nos Estados Unidos. Fazem isso só para ganhar vantagens do governo e da sociedade (que, apesar de não racista, parece ter uma consciência culpada pelo crime de uma sociedade que não mais existe). Os homossexuais brasileiros alegam uma homofobia que, no caso brasileiro, é um mito.

Esse negócio de Dia e Parada de Orgulho Gay também é uma besteirada das grossas. Alguém já viu gente heterossexual propondo Dia e Parada de Orgulho Heterossexual (Straight?)…

Por fim, há que se destacar a contribuição que a mídia dá a toda essa palhaçada. O Fantástico de hoje à noite ficou entre o mau gosto e o ridículo. E estimou os participantes na passeata em dois milhões – certamente para colocar a passeata brasileira no livro de récordes.

No ano passado o número que a mídia sacramentou foi um milhão e meio. Este ano se falava em dois milhões mais de uma semana antes da passeata – e, hoje, não surpreendentemente, o Fantástico decretou cumprida a profecia.

Um estudante de jornalismo de bom senso, chamado José Antônio Rodrigues, de 24 anos, resolveu passar a limpo os números da passeata do ano passado. Em mensagem distribuída pela Internet ele raciocina assim:

1) A Av. Paulista tem 2.500 m de comprimento e cerca de 51 m de largura, incluindo as calçadas. A área total da avenida, portanto, é 2.500 x 51, ou seja, 127.500 m2.

2) “Para uma aglomeração humana compacta como em elevador lotado (5 pessoas por metro quadrado, algo como sardinha em lata), caberiam em toda a Av. Paulista 127.500 x 5, ou seja: 637.500 pessoas”.

3) “A passeata de 2004 ocupou só uma das duas pistas, a de sentido Paraíso-Consolação, o que reduz essa capacidade máxima de 637.500 à metade, ou seja, a cerca de 300 mil”.

4) “Mas a manifestação do ano passado não ocupou toda a pista da Paulista de início a fim, e nem havia gente espremida como em elevador, segundo fotos tomadas dos prédios. Também precisam ser descontadas, do total da superfície da Avenida, boa parte das espaçosas calçadas da Avenida que não estavam ocupadas, as entradas de Metrô, pontos de ônibus com assentos, bancas de revistas, postes, árvores, vasos com plantas, floreiras, guaritas, tapumes, canteiros, carros e outros veículos estacionados ou em movimento, etc.”

Pergunta ele, depois dessas considerações: “Para quanto se deverá encolher o número real de manifestantes de 2004? Para 200 mil, 100 mil, ou até menos ainda?”

E ele promete:

“Para este ano, com uma equipe de colegas, e baseado nos dados sobre a real capacidade da Paulista, vamos monitorar a passeata de 29 de maio próximo, tirando fotos e filmando, de maneira que possamos chegar a uma conclusão e mostrar toda a verdade. Vamos também monitorar o noticiário dos meios de comunicação sobre a passeata, e, com todos esses dados, será elaborado um Informe, simples, breve, objetivo e sincero.”

Parabéns ao José Antonio Rodrigues. Mas vai ser difícil que ele arrume emprego em nossos jornais, com toda essa seriedade.

Li uma vez em La Tribune de Genève uma afirmação que nunca esqueci. Dizia o jornal que os jornalistas passam a metade do tempo falando sobre aquilo que desconhecem – e a outra metade se calando sobre o que de fato sabem.

É isso.

Em Salto, 29 de maio de 2005

A questão das cotas

O texto abaixo foi originalmente escrito em 2/10/2003. Transcrevo-o aqui porque é ainda relevante. Recentemente a USP anunciou que vai dar aulas para alunos do Ensino Médio que tenham bom desempenho nos testes do governo… Uma universidade que vive reclamando de falta de verba, vai se meter a dar aula de Ensino Médio. Já critiquei isso em outra matéria neste blog. Aqui simplesmente transcrevo o texto que descreve (corretamente — os fatos provam) o processo.

Eu previ – e está acontecendo. Vou prever mais um pouco:

Primeiro, você constata que um determinado grupo na sociedade (como, por exemplo, os negros, ou "afrodescentes") tem, em sua média, desempenho pior do que o da média de todos os membros da sociedade em relação a um determinado parâmetro (como, por exemplo, ingresso na universidade pública).

Segundo, você atribui esse pior desempenho a uma discriminação da sociedade contra esse grupo.

Terceiro, você sugere que a única forma de vencer essa discriminação é através de uma medida discriminatória (chamada, agora, de anti-discriminatória) que trate os que em tese são discriminados de forma favorecida.

Quarto, você estabelece o sistema de cotas (no acesso à universidade pública) para os membros desse grupo (no caso, os negros), medida essa que tem amplo apoio de significativos setores da esquerda igualitária ou anti-desigualitária, que luta pelo fim de toda forma de discriminação e de desigualdade.

Quinto, você constata que os beneficiários dessa medida discriminatória (rotulada de anti-discriminatória) têm desempenho na média pior do que o dos que entraram na Universidade pela porta da frente. (Em geral se espera alguns anos para constatar isso: aqui isto já está sendo constatado antes do fato, de forma "preemptiva").

Sexto, você já anuncia, de antemão, que os (agora) beneficiados pela discriminação das cotas serão (mais uma vez) discriminados em decorrência do programa que foi instituído a pedido deles próprios.

Sétimo, você reivindica ajuda financeira e programas remediais para os cotados. para que possam melhorar seu desempenho.

Oitavo, diante da continuidade (inevitável) da diferença de desempenho, em prejuízo dos cotados, se afirmará que as causas do problema estão no fato de que a "cultura" que lhes é transmitida na universidade é uma cultura alheia e alienante — no caso, a cultura dos brancos ou a dos europeus (não a cultura que lhes é própria, a dos negros e dos africanos).

Nono, você institui na universidade programas de estudos africanos, ou negros, ou afro-brasileiros e dá permissão aos cotados de trocarem cursos do currículo em que se julgam prejudicados por cursos desses programas.

Décimo, você argumenta que ninguém pode ministrar aulas nesses programas a não ser que seja negro, pois as especificidades da cultura e da história negra exigem uma pigmentação especial para serem corretamente compreendidas e aprendidas.

Décimo primeiro, você argumenta que os currículos da educação fundamental também precisam ser des-discriminados com a introdução de cursos de história e cultura negra.

Décimo segundo, com isso você cria um mercado de trabalho que anteriormente não existia para os negros ou negrodescendentes.

Décimo terceiro, você descobre que a sociedade continua achando que essa coisa toda foi montada para criar oportunidades de emprego para quem não teria condições de obtê-los em condições normais.

Décimo quarto, você diz que branco não tem jeito mesmo: é racista pela sua genética — hereditariamente racista, como se fosse.

Décimo quinto, as relações entre as pessoas de cor diferente acabam se tornando piores do que eram antes.

Transcrito em Washington, 21 de Maio de 2005

Direita e esquerda

Em 28 de outubro de 2002 coloquei a seguinte mensagem em minha lista de discussão "LivreMente" (vide http://livremente.net), comentando uma carta dirigida à Folha de S. Paulo no mesmo dia, sobre o significado de "ser de direita".

Na seqüência, houve duas respostas (Lenise Garcia e Antonio Morales) e repliquei com duas outras mensagens, que transcrevo a seguir.

Carta à Folha, publicada hoje, 28/10/02. Concordo com o que diz o missivista, embora eu mesmo expresse a coisa em outras palavras: ser de direita é valorizar a liberdade mais do que a igualdade (com tudo que isso implica); ser de esquerda, o contrário (também, com tudo que isso implica). É por isso que a direita defende um estado mínimo e a esquerda um estado onipresente (ou quase). Para a direita, o Estado existe para garantir a liberdade; para a esquerda, para promover a igualdade.

Eduardo
eduardo@chaves.com.br

Foi esta a carta à Folha:

"Ser de direita – liberal ou conservador – não significa defender os satisfeitos e os privilegiados da sociedade. Ser de direita significa valorizar aquilo que de positivo existe nas instituições políticas e sociais do país, como as liberdades individuais e os direitos civis e políticos, buscando alterar o quadro de injustiça social sem comprometer esses princípios e acreditando mais nos indivíduos e no mercado do que no poder do Estado de promover o bem-estar. Ser de esquerda, por outro lado, significa querer mudar o perfil social do país por meio de uma intervenção maior do Estado na economia, entendendo haver uma injustiça intrínseca no funcionamento do mercado.

Everton Jobim (Rio de Janeiro, RJ)

Em resposta a algumas observações da Profa. Lenise Garcia, da UnB, eu enviei a seguinte mensagem:

Diz a Lenise [Profa. Dra. Lenise Garcia, da Universidade de Brasília]:

>Eduardo, a sua definição de "direita" certamente não se aplica ao que tivemos no Brasil – direita totalitária e estatizante… Na minha opinião essa história de "direita" e "esquerda" já era, se é que um dia foi :-)<

Você faz duas afirmações, Lenise.

Com a primeira, tenho que concordar. Realmente a sua afirmação é correta: minha definição de direita (sem aspas) não se aplica ao que tivemos no Brasil durante o período do governo militar. Há duas conclusões que podem logicamente ser tiradas do que você observa:

a) minha definição de direita é inadequada (como você parece supor)

ou

b) o regime militar brasileiro não foi exata ou totalmente (como geralmente se presume) um regime de direita (no sentido claro em que eu uso o termo).

Para mim, a classificação esquerda/direita (que continuo achando relevante) se aplica primariamente a idéias (teses de filosofia política). Pessoas, instituições, movimentos, etc. podem ser classificadas como de esquerda ou direita à medida que dão assentimento a essas idéias, as aceitam, as endossam, procuram colocá-las em prática.

Consideremos as idéias do Liberalismo Clássico que eu defendo. Na minha definição de direita, eles são claramente de direita. Vamos considerar o Liberalismo, portanto, como balisador da direita.

Agora consideremos um movimento complexo como a o Regime Militar Brasileiro.

O Liberalismo, como já observado, tem na liberdade o seu conceito essencial e mais importante.

Na área política, nenhum governo brasileiro foi menos liberal do que o governo militar (com exceção, talvez, do governo Vargas durante os anos do Estado Novo). Os direitos individuais foram sistematicamente violados durante o governo militar, a liberdade de expressão, associação, e ação política foi drasticamente reduzida, a integridade (física e emocional) e a segurança das pessoas foram desrespeitadas ao extremo – tudo isso fazendo com que o governo militar dos anos 1964 a 1984 seja classificado como, no plano político e social, o menos liberal dos governos que o Brasil já teve (repito, com a possível exceção do governo Vargas no Estado Novo). Logo, no plano político, o Regime Militar Brasileiro não foi liberal. Ergo, não foi de direita, no sentido proposto.

Na área econômica, o governo militar foi um governo que interveio diretamente na economia, agindo como empresário, decretando monopólios e áreas estratégicas, fazendo reservas de mercado, controlando e manipulando taxas de câmbio e inflação, procurando seduzir, quando não subornar, o empresariado para parcerias que basicamente eliminavam o livre funcionamento do mercado. Embora a retórica do governo militar fosse, no plano político, anti-comunista, em nenhum período de vinte anos da história do Brasil a presença do estado na economia cresceu tanto quanto durante o governo militar.

Também na área econômica, portanto, é impossível considerar o governo militar como liberal. Ergo, também na área econômica o Regime Militar Brasileiro não foi de direita, no sentido proposto.

Na área social, a presença do estado nas áreas da educação, da cultura, da saúde, da seguridade social, da infra-estrutura (minas e energia, transporte, moradia, comunicações, etc.), só cresceu durante o governo militar. Os espaços reservados para a livre iniciativa privada diminuíram consideravelmente. Assim, também aqui é impossível considerar o governo militar como liberal. Ergo, também na área social o Regime Militar Brasileiro não foi de direita, no sentido proposto.

Por fim, na área da educação, o governo baixou, de forma autoritária, uma reforma da educação superior (Lei nº 5540/68) e da educação básica (Lei nº 5692/91). Através de Atos Institucionais e vários decretos restringiu a liberdade de professores e estudantes, aposentou arbitrariamente professores, e expulsou alunos das escolas. Também aumentou consideravelmente o número de universidades federais, expandiu o ensino público na área da educação básica, criou programas governamentais de alfabetização de adultos (MOBRAL, por exemplo) e de ensino supletivo. Estendeu a faixa etária em que a escolaridade era obrigatória para oito anos (sete a quatorze anos). Se permitiu o crescimento do ensino superior privado, fê-lo às custas da autonomia deste, que ficou atrelado ao Ministério da Educação e ao então Conselho Federal da Educação. Nenhuma dessas medidas é de natureza liberal. Ergo, também na área educacional o Regime Militar Brasileiro não foi de direita, no sentido proposto.

É forçoso concluir, portanto, que o Regime Militar Brasileiro nos anos de 1964 a 1984 foi qualquer coisa menos liberal. Se o Liberalismo fica à direita do espectro político, o Regime Militar Brasileiro claramente não fica lá — fica mais próximo do extremo oposto. Na realidade, o controle que ele exerceu sobre a política, a economia, a sociedade brasileira, em geral, e a educação, em particular, foi de tal monta que ele fica em boa companhia ao lado das ditaduras nazista, fascista e comunista, todas elas caracterizadas pela tese de que o estado deve controlar os mais diferentes aspectos da vida nacional — até mesmo os mais recônditos.

Você pode pretender considerar o Regime Militar Brasileiro como paradigmático de um regime de direita e, em função disso, considerar minha definição inadequada. Mas essa seria uma inversão injustificada da ordem. Conceitos precisam ser claros e coerentes. O meu conceito de esquerda e de direita é tanto um como o outro, e se aplica, paradigmaticamente, ao comunismo / socialismo, na esquerda, e ao liberalismo, na direita. Se um movimento extremamente complexo não se enquadra debaixo do conceito, isto não sig
nifica que o conceito seja inadequado, mas, sim, que o movimento não é necessariamente coerente.

A meu ver, a única coisa que dá uma certa plausibilidade à tese de que o Regime Militar Brasileiro era de direita foi sua oposição ferrenha ao comunismo. Mas nem todos os que se opõem ao comunismo o fazem a partir de uma posição liberal, de direita. Concluir, portanto, que o Regime Militar Brasileiro era de direita por causa de sua oposição ao comunismo é um non sequitur.

Quanto à sua segunda observação, de que a distinção esquerda / direita "já era, se é que um dia foi", só me resta dizer que os fatos mostram que ela continua sendo uma distinção importante e útil, quando aplicada a idéias. As pessoas, as instituições e os movimentos em geral são muito complicadas para serem inequivocamente rotuladas como sendo de esquerda ou direita, embora seja possível determinar sua tendência predominante.

A eleição recém-concluída mostra quão importante é para as pessoas se considerarem (ainda que de forma não totalmente correta) de esquerda. O termo direita foi tão conspurcado pela esquerda, que lhe atribuiu uma série de conotações negativas e uma carga autoritária que ele não tem, que muitas pessoas se envergonham de se dizer de direita. Mas o fato de não admitirem (pelo menos em público) não as torna menos de direita: isto é, pessoas que se preocupam mais com a preservação da liberdade do que com a promoção da igualdade e do bem estar.

Aos interessados no problema recomendo o livro Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política, de Norberto Bobbio (Editora da UNESP, São Paulo, 1995).

Para Bobbio o critério que demarca a esquerda da direita é a postura em relação à questão da igualdade. Eu defendo, como critério de demarcação, a determinação das funções do governo (que é um conceito um pouco mais amplo, que inclui a questão da igualdade). Vou argumentar aqui que os dois critérios, apesar de conceitualmente diferentes, acabam tendo, na prática, idêntica aplicação.

1) Estado Absoluto e Estado de Direito

Antigamente, governos eram onipotentes: faziam o que queriam – e, como disse alguém de cujo nome não me lembro, obedecia que tinha juizo (quem não tinha, sofria as conseqüências). Isso vai até o século XVIII e caracteriza o período chamado do absolutismo, em que se defendia o direito divino dos reis de governar autocraticamente.

Ao chegar ao seu final, o século XVIII mudou isso – primeiro nos Estados Unidos, em seguida na França, com a criação de governos republicanos e constitucionais. Com isso ficou inaugurado, em termos de história política e em termos de filosofia política, o período moderno, em que prevalece não o Estado Absoluto, mas o Estado de Direito.

É um princípio básico do direito moderno que:

a) às pessoas privadas (físicas ou jurídicas) tudo é permitido, exceto aquilo que a lei expressamente proíbe;

b) ao estado (isto é, ao governo, em todos os seus poderes, órgãos e níveis) nada é permitido, exceto aquilo que a lei expressamente autoriza.

Torna-se imprescindível, portanto, no estado moderno, de direito, criar uma constituição que esclarece o que o governo pode fazer – quais as suas funções, quais as suas atribuições – e, conseqüentemente, o que ele não pode fazer.

2. O Estado de Direito Liberal

O primeiro grande esforço nesse sentido foi a Constituição Americana, que criou um estado liberal (às vezes chamado de clássico): ao governo só compete cuidar da segurança dos cidadãos — e, portanto, manter a ordem:

* Através da polícia, impedindo que um cidadão viole os direitos dos outros;

* Através do exército, impedindo que um outro estado viole os direitos dos seus cidadãos;

* Através de um sistema legislativo-jurídico, normatizando situações de possível conflito (legislativo) e resolvendo os conflitos que, ainda assim, vierem a acontecer (judiciário).

Fora disso, o governo está proibido de agir – até mesmo para ajudar os cidadãos, para tornar sua condição social ou econômica mais igualitária, ou mesmo para promover o seu bem-estar. Assim, o governo não deve atuar na área da educação, da saúde, da moradia, do transporte, do emprego – muito menos criar empresas para atuar na economia.

E aos cidadãos compete o quê? Fazer qualquer coisa que cada um desejar, absolutamente qualquer coisa, desde que ao fazê-la não se viole os direitos de um outro cidadão.

Quais são esses direitos?

* O direito à integridade física (direito à vida e à segurança)

* O direito à liberdade (ao livre pensamento, à livre expressão do pensamento e dos sentimentos, à livre associação, à livre movimentação – o famoso ir e vir) – enfim, o direito de agir em busca da felicidade – como ele a vê e bem a entende

* O direito à propriedade

Assim, o bem-estar do cidadão é algo que deve ser buscado pelo próprio cidadão, sem a ajuda do governo – contando, porém, com a ajuda de outras pessoas que livremente se disponham a cooperar.

3. E o Problema da Igualdade?

Os Pais Fundadores da nação americana falavam em igualdade – mas a igualdade que tinham em mente era igualdade perante a lei: a lei não poderia discriminar as pessoas em termos de circunstâncias de nascimento (nobre ou plebeu), ou de posses (rico ou pobre), ou de convicções religiosas (temente a Deus ou ateu) ou mesmo de convicções políticas (republicano ou monarquista). Embora no início da sociedade americana mulheres e negros não tivessem direitos iguais aos dos homens, e, na verdade, os homens sem propriedade não tivessem direitos iguais aos dos homens proprietários de terras, as coisas foram se corrigindo pouco a pouco. Primeiro, os homens brancos sem terra acabaram por receber glebas de terra. Depois se aboliu a escravatura e se os negros passaram a ser titulares dos mesmos direitos. Finalmente, as mulheres conseguiram, em grande medida, se equiparar aos homens, no que diz respeito à titularidade de direitos.

Os americanos, em geral, não enfatizaram, ao longo do século XVIII e de grande parte do século XIX, nenhuma outra igualdade além dessa igualdade formal, perante a lei. Nem mesmo a chamada "igualdade de oportunidades". Segundo eles, as oportunidades aparecem para todos – o que diferencia uns de outros é a capacidade de uns de aproveitá-las, enquanto outros não as percebem, não têm a motivação para ir atrás delas, ou não têm capacidade de se valer delas em proveito próprio.

A grande ênfase do estado liberal de direito estava na liberdade: o governo deveria sair da frente dos cidadãos e deixá-los agir (só intervindo se eles violassem direitos de outros cidadãos). Como as pessoas são diferentes, por dotação genética, pelas circunstâncias em que nasceram e viveram, pelo aprendizado que foram capazes de obter, a sociedade vai ser altamente desigual em termos de resultado final. Uns vão se sair extremamente bem, outros razoavelmente, outros não vão se dar bem. É assim que deve ser.

Aos que não se derem bem de modo algum, resta contar com a generosidade dos que se saíram melhor – generosidade esse que só se expressa de formula voluntária e que se destina a quem os que a oferecem julgarem merecedores.

Na França, como se sabe, houve muita ênfase na tríade "liberdade, igualdade e fraternidade". No início, a igualdade também foi entendida de maneira formal (igualdade perante a lei) – e a fraternidade foi em grande parte esquecida.

Foi só a partir de meados do século XIX, com o surgimento do movimento socialista, que começou a se enfatizar uma igualdade não-formal, substantiva: igualdade de condição social e material (em geral chamada de "igualdade de resultados"
).

Os liberais se opuseram a essa igualdade substantiva por uma razão simples. As pessoas são extremamente diferentes em termos de talentos naturais (características genéticas), em termos das circunstâncias em que nasceram e viveram, em termos da educação que tiveram, e até mesmo em função da sorte que têm. Assim, é de esperar – e justo – que alcancem resultados diferentes através de suas ações. As ações filantrópicas (voluntárias) das pessoas que se saírem melhor na vida vão aliviar as condições dos mais desfavorecidos – mas apenas daqueles que lhes foram mais próximos e pelos quais elas sentirem que estão naquelas condições sem culpa própria e que, com um pouco de ajuda, conseguirão se levantar e cuidar de si próprios.

A única forma de tentar impor uma certa igualdade é pela força – e isso quer dizer, violando os direitos daqueles que se saíram melhor na vida, punindo-os por serem competentes ou por terem tido sorte. Segundo os liberais, nenhuma sociedade vai se tornar bem sucedida se ela é construída no princípio de que a competência, a inteligência, o esforço, e, conseqüentemente, o sucesso devem ser punidos em favor daqueles que fracassaram. O socialismo, afirmaram os liberais, se bem sucedido, vai socializar a miséria: todos vão se tornar igualmente pobres. (Como disse Mme de Staël, os socialistas preferem as igualdades do inferno, em que todos igualmente sofrem, às desigualdades do céu, em que alguns serão recompensados mais do que os outros).

4. A Esquerda e a Direita

Embora a nomenclatura esquerda/direita tenha surgido nos debates da Assembléia Nacional durante a Revolução Francesa, seu sentido moderno e atual só se cristalizou ao longo desse debate.

A tese dos liberais, de que o governo deve se limitar às suas funções de mantenedor da ordem, ficou sendo conhecida como a direita. A tese dos socialistas, de que o governo deve ativamente procurar impor condições mais igualitárias até chegar ao horizonte de uma sociedade totalmente igualitária, ficou sendo conhecida como a esquerda.

Obviamente, a direita sempre defendeu, como parte de seus princípios, a igualdade perante a lei, a igualdade de direitos. A esquerda, porém, acabou por se dividir, ao longo do tempo, em uma esquerda totalitária, a ser implantada através de uma revolução e que iria impor uma ditadura (a do proletariado) e uma esquerda não disposta a sacrificar tanto a liberdade, que procuraria manter o máximo possível de liberdade compatível com a busca de igualdade (de resultados) para todos. O comunismo foi a esquerda totalitária. Alguns formas de socialismo que pretendiam manter a democracia e a chamada democracia-social são a esquerda mais democrática.

Alguns pensadores liberais acreditam (a meu ver com razão) que, a despeito das boas intenções de alguns socialistas, que acreditam, sinceramente, que é possível chegar ao socialismo pela via da liberdade, o caminho do socialismo é, como disse von Hayek, "o caminho da servidão" — isto é, da não-liberdade.

5. E o Anarquismo?

O Anarquismo é a teoria política que defende a ausência de governo. Ele fica, portanto, mais radicalmente à direita do que o liberalismo. Se os liberais defendem um estado mínimo, um governo apenas aquelas poucas funções indispensáveis à manutenção da ordem pública, os anarquistas abrem mão até disso: para eles, a melhor situação é aquela em que não há governo, e em que, portanto, os seres humanos se esforçam por resolver suas divergências de forma voluntária, sem um estado que defina normas e as faça cumprir.

É evidente que numa sociedade anarquista, as pessoas podem ter propriedades privadas ou ter tudo em comum, podendo haver, portanto, sociedades anarquistas de caráter mais individualista ou mais comunitário. Houve experimentos na história em que até mesmo os parceiros sexuais e os filhos das pessoas eram de todos – não havendo, portanto, nem mesmo "propriedade pessoal" dos parceiros ou dos filhos. Em outras se definiu que as pessoas teriam como propriedade pessoal os objetos de uso diário – roupas, material de higiene, instrumentos musicais, livros, etc., mas que o restante – a terra, os utensílios e as máquinas agrícolas, etc. etc. – seriam de todos.

Não é, porém, essa forma interna de organizar a comunidade que caracteriza o anarquismo. Como o nome indica, o anarquismo é a tese de que podemos e devemos viver sem estado, sem governantes. Assim, faz total sentido situar o anarquismo à direita do liberalismo, que, embora reconheça que precisamos de estado e de governo, quer tê-lo o menor possível, por receio de que ele, aumentando suas funções, se torne (como se tornou) uma ameaça maior à liberdade dos cidadãos do que os outros cidadãos ou as outras nações.

6. O Continuum Esquerda / Direita

Quer consideremos a igualdade, como o quer Bobbio, quer consideremos a definição das funções do governo, como eu sugiro, a posição das várias filosofias políticas num contínuo é a mesma, a saber:

Na "ponta" esquerda, o comunismo, defendendo a igualdade total e a concentração de todos os poderes e da posse de todos os meios de produção nas mãos do estado ou do governo.

Na "meia" esquerda, o socialismo não comunista, que deseja ainda preservar um modicum de liberdade, e que, portanto, não busca a igualdade total, mas uma certa igualdade.

Na "ponta" direita, o anarquismo – que não quer governo nenhum, e, a fortiori, não quer um governo que promova a igualdade ou concentre em si a propriedade dos meios de produção.

Na "meia" direita, o liberalismo, que admite a necessidade de um governo, mas o quer pequeno, cuidando apenas da manutenção da ordem pública e da garantia das liberdades e direitos individuais.

E no centro?

No centro temos a social-democracia moderna, caindo para a esquerda, e o neo-liberalismo, caindo para a direita. O centro em geral desagrada tanto aqueles mais à sua esquerda como aqueles mais à sua direita.

Como está evidente no debate atual, em que alguns se caracterizam e denominam como sociais-democratas (haja vista o governo do Brasil hoje, exercido pelo Partido da Social-Democracia Brasileira) mas são descritos, pelos seus oponentes, como sendo neo-liberais. Numa rara frase apta e correta, FHC um dia se disse "neo-social" e não "neo-liberal", porque pende para a esquerda e não para a direita. O que ele está fazendo, no entender dele – e também no meu – é recuar na direção do centro a partir de um modelo de governo que havia descambado para a esquerda, malgré soi.

A diferença básica entre sociais-democratas e neo-liberais está naquilo que eles acreditam que o governo deve promover. Educação e saúde – ambos concordam que sim. Emprego – ambos em princípio concordam, discordando, possivelmente, sobre a forma em que esses empregos devem ser gerados, os sociais-democratas favorecendo uma atuação direta do governo na geração dos empregos, os neo-liberais favorecendo a "desonerização" da produção, em especial da folha de pagamento.

E assim vai.

7. E o Totalitarismo e o Autoritarismo?

O termo "totalitarismo" foi cunhado para se referir a um estado ou governo que interfere em todos os aspectos da vida (políticos, econômicos, sociais) — até mesmo os aspectos mais pessoais e íntimos são regulados pela atividade estatal ou governamental. O termo "autoritarismo" foi cunhado para se referir a um estado ou governo que, sem ser exatamente totalitário, restringe consideravelmente as liberdades das pessoas, negando-lhes, boa parte do tempo, alguns de seus direitos individuais.

Os termos "totalitarismo" e "autoritarismo" também podem ser aplicados a ideologias que defendem, respec
tivamente, o controle total ou parcial da sociedade pelo estado ou governo.

Há razoável consenso de que o comunismo, o nazismo e o fascismo são ideologias autoritárias e que as "transubstanciação" dessas ideologias em estruturas estatais ou governamentais, como, por exemplo, respectivamente, na URSS, na Alemanha e na Itália, bem ilustram o totalitarismo.

É evidente que não há como conceber um "anarquismo totalitário" – visto que o anarquismo é contra a existência de governos. Também não se concebe um "liberalismo totalitário", visto que o totalitarismo é anti-liberdade e o liberalismo (como indica o nome) é pró-liberdade.

Na verdade, totalitarismo e liberdade são termos antitéticos. Expressões como "totalitarismo liberal" ou "liberalismo totalitário" são contradições explícitar: nem como oxímoros se qualificam.

Embora seja facilmente concebível uma social-democracia autoritária, é mais difícil imaginar uma social-democracia totalitária – porque ao cair no totalitarismo o componente "democracia" se esvai e o estado ou governo se torna uma ditadura socialista.

Assim sendo, só pode haver totalitarismo quando há um estado abrangente, com múltiplas funções. É por isso que os totalitarismos até aqui existentes – e espero que não haja mais nenhum – ficam todos do lado da esquerda, não da direita.

Não é admissível esquecer que o termo "Nazi" é uma abreviação de "Nazional Sozialismus" – Socialismo Nacional.

A ditadura brasileira, conquanto não tenha chegado a ser totalitária, certamente foi autoritária: como vimos, durante o período da ditadura, os direitos e as liberdades individuais deixaram de existir, o governo cresceu enormemente, assumiu mais funções, não só interveio na regulamentação da economia como atuou diretamente na economia, criando inúmeras "bras", etc. Não há a menor semelhança entre a ditadura militar brasileira e o liberalismo, e, conseqüentemente, a direita.

A única característica da ditadura brasileira de 1964-1984 que dá alguma plausibilidade à tese de que ela foi de direita é a sua radical oposição ao comunismo. Na minha modesta opinião, a autoritária ditadura militar brasileira foi semi-fascista – mas nunca de direita. A razão do ódio ao comunismo está no fato de que os próximos em geral se odeiam mais do que os extremos, porque têm mentalidades e objetivos muito semelhantes.

Deixo a questão por aqui. Não me move o interesse de fazer prosélitos para o liberalismo. Desejo apenas esclarecer meu ponto de vista, especialmente diante da afirmação, a meu ver açodada, da Lenise de que a distinção esquerda/direita "já era — se é que um dia foi".


Antonio Morales fez três críticas à minha posição, que ficam evidentes em minhas respostas:

Quanto ao primeiro ponto.

Não creio que eu esteja confundindo direita e liberalismo. Acho um exercício interessante colocar as várias posições de filosofia política num contínuo. Você aqui parece querer proteger o liberalismo da classificação como direita porque na sua mente a direita está identificada com autoritarismo e estatismo. Acho isso errado, e vou mais uma vez procurar esclarecer.

Se o liberalismo, como o maior opositor da esquerda que existe, não é direita, é o quê? Acho que temos de começar daí. O liberalismo é o maior crítico da esquerda. Conseqüentemente, em um contínuo, tem de ficar no lado oposto do da esquerda, e este lado é o da direita.

Para fazer sentido dessas distinções, temos de encontrar um critério válido que nos permita situar as várias posições teóricas num contínuo. Eu sugiro que esse critério é a visão do papel do estado: quanto mais funções forem atribuídas ao estado, mais à esquerda (que adora um "estadão grandão", poderoso, centralizador — porque tudo o que ela pretende fazer se faz através do estado); quanto menos, mais à direita. Por isso, na minha visão, o anarquismo é a posição mais direitista que existe, pois não atribui NENHUMA FUNÇÃO ao estado, enquanto o comunismo totalitário seria a posição mais esquerdista que existe, pois nele o etado é TUDO (não há propriedade privada dos meios de produção).

Isso faz sentido? Claro que faz. O contínuo ficaria [ESQUERDA] Cmunismo, Socialismo, Democracia Social, Neo-Liberalismo, Liberalismo, Aarquismo [DIREITA]. Por que a esquerda reluta em aceitar o meu critério? Porque coloca na esquerda, junto com o Comunismo, como sistemas (teóricos e aplicados) estatizantes, o Nazismo e o Fascismo. A esquerda pretende ignorar o fato de que o Nazismo foi assim apelidado porque era o movimento do Socialismo Nacional (Nazional Sozialismus). Ao ajuntar esses três (como o faz Friedrich von Hayek em O Caminho da Servidão), não pretendo sugerir que não haja algumas diferenças importantes entre os três. Quero dizer que as semelhanças são maiores do que as diferenças — especialmente as semelhanças na centralidade do papel do estado na sociedade. Não nos esqueçamos, também, do pacto Hitler e Stalin. Deu no que deu porque os dois não valiam a comida que comiam, mas é inimaginável um liberal fazer um pacto com Hitler. Entre um comunista e um fascista era não só imaginável como de fato ocorreu.

A esquerda fez um excelente trabalho de "demonizar" o termo direita. Ao falar-se em "direita", vem à mente, imediatamente, imagens de totalitarismo, autoritarismo, etc. — que são características que tipicamente não se aplicam a regimes liberais (e que eu chamo de direita, numa tentativa de "resgatar" [if I may] um termo perfeitamente legítimo que foi demonizado, especialmente no Brasil, onde ninguém se admite direita (e todo mundo quer fazer de conta que é esquerda).

Quanto ao segundo ponto:

Você me pergunta onde o estado garante a liberdade? Acho essa questão extremamente fácil de responder. Olhe para a Inglaterra, os Estados Unidos, etc., qualquer país que ainda mantém um resquício de democracia liberal, ainda que misturada com a social-democracia. Apesar de nesses países o estado tentar fazer muito mais do que garantir a liberdade, ele certamente garante a liberdade — em suas manifestações típicas: de expressão, de locomoção (ir-e-vir), de associação, de perseguir a felicidade da maneira que as pessoas acharem mais adequado.

Colocaria o Brasil de hoje nesse meio se não fosse o problema da segurança pública que nos impede de ir-e-vir como desejaríamos.

Os contra-exemplos que você se dispõe a fornecer certamente são de regimes totalitários e autoritários que você insiste em identificar com a direita. Eu não faço essa identificação.

Quanto ao terceiro ponto:

Você afirma que a esquerda não é igualitarista (pelo menos me pareceu afirmar isso), mas que simplemente procura obter uma "melhor distribuição da riqueza". Mas, pergunto: o que é uma melhor distribuição da riqueza? A resposta da esquerda fatalmente é: uma distribuição mais igualitária ou menos desigualitária. Para promover essa maior igualdade ou menor desigualdade, só há duas maneiras: ou todos milagrosamente concordam que isso é bom, ou nem todos concordam que isso é bom. Nesta hipótese, que é a que prevalece, a única forma de igualizar é pela força — e, portanto, com prejuizo da liberdade. Não há como evitar isso.

Por isso, concordo com Norberto Bobbio de que os critérios de distinção fornecidos por
ele e por mim (igualdade, por ele, atribuições do governo, por mim), no fundo acabam sendo muito próximos.

Transcrito em Washington, 21 de Maio de 2005

Sobre a natureza humana

Matéria recente no New York Times (17/05/2005, disponível no UOL em http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2005/05/17/ult574u5436.jhtm) discute a tese de que o desenvolvimento embrionário explica orgasmo feminino. Explica e pergunta o artigo:

“Estudiosos da evolução nunca tiveram dificuldade de explicar o orgasmo masculino, firmemente atrelado, como é, à reprodução. Mas a lógica darwiniana por trás do orgasmo feminino permaneceu uma incógnita. As mulheres podem ter relações sexuais e até engravidar – fazendo sua parte para a perpetuação da espécie – sem experimentar o orgasmo. Então, qual o propósito evolutivo disso?”

Em um novo livro (O Caso do Orgasmo Feminino: Preconceito na Ciência da Evolução), a professora da Universidade de Indiana Elisabeth A. Lloyd examina as vinte principais teorias que explicam o orgasmo feminino do ponto de vista da biologia evolucionária e conclui que orgasmo feminino não tem qualquer função no processo evolutivo. O orgasmo feminino, diz ela, só serve "para divertir".

Naturalmente, nem todo mundo concorda. O professor de biologia John Alcock, da Universidade do Estado do Arizona, afirma que o fato de o orgasmo "não ocorrer toda vez que uma mulher faz sexo não é prova de que não seja uma adaptação". Ele afirma que a mulher pode usar o orgasmo "como um meio inconsciente de avaliar a qualidade de um macho", sua adequação genética e, assim, quão apropriado ele seria como pai de sua prole.

Na minha lista de discussão “LivreMente”, o artigo do New York Times recebeu alguma atenção – embora pouca.

Axel de Ferran disse: “Dio mio. Quanta asneira. É obvio lulante que o orgasmo da mulher a atrai para a relação. E mesmo se ela não tiver orgasmo é porque ela tinha esperanças para”.

Eu comentei:

“Acho que o Axel tem razão. . . . Se a mulher não tiver pelo menos a promessa de prazer na relação sexual, não vai querer transar — pelo menos tão freqüentemente como poderia vir a fazê-lo, na hipótese de haver prazer. Deve haver estudo que prova que mulher não orgásmica transa menos do que as orgásmicas em condição semelhante… . . . O único argumento contra essa tese que posso imaginar é o de que o orgasmo não é o único prazer inerente à relação sexual. Nem mesmo para o homem, algumas vezes.”

Cristina Almeida respondeu:

"Eu penso que nós (homens e mulheres) não temos uma natureza, uma essência de que possamos lançar mão para explicar a nossa espécie. Somos seres culturalmente produzidos. Aprendemos tudo. A nossa sexualidade não é a sexualidade de uma espécie, naturalmente gerida, ela é racionalmente construída. # Nós mulheres temos maneiras diversas de encarar a própria sexualidade porque nos fizemos mulher em ambientes que favoreceram essas diferenças. Os homens cresceram, em geral, num contexto sexualmente diferente do das mulheres e até mais uniforme. . . .  # . . . Outra coisa que me vem à cabeça… os machos podem copular várias vezes, tantas quanto forem atraídos pelas fêmeas no cio (o meu cão, o Paco, fica desesperado de desejo quando uma pequena cokie entra no cio e é separada dele… Ele não é fiel a sua Lia, a dobermam com quem pode transar). O que quero dizer é que o macho Paco, se pudesse, fazia Lia estar sempre bem disposta para o sexo, convidativa, porque ele se sente atraído pelo cheiro ou sei lá o quê…  Se Paco pensasse, certamente instituiria o sexo a tempo inteiro, porque o que é bom e desejável pode ser ensinado.” (# indica novo parágrafo).

Volto a falar em meu nome para esclarecer que discordo, porém, e frontalmente do pressuposto enunciado pela Cristina Almeida, a saber, de que "nós (homens e mulheres) não temos uma natureza, uma essência de que possamos lançar mão para explicar a nossa espécie: somos seres culturalmente produzidos – aprendemos tudo."

Inicio dizendo que não tenho a menor dúvida de que nós, humanos, especialmente quando comparados com outros animais, somos seres eminentemente aprendentes e, portanto, culturais (nesta ordem). Os outros animais, em sua maior parte, aprendem pouco (quando comparados com o ser humano). Uns mais do que outros, eles estão "programados" para ser o que são, fazer o que fazem, viver como vivem.

Quando comparamos o ser humano com os demais animais, podemos ficar tentados a concluir, como você conclui, que nós, seres humanos, não temos programação alguma, que somos totalmente produzidos pela nossa aprendizagem, que, sem dúvida, se dá no seio de diferentes culturas. O existencialismo é de certo modo atraente ao propor essa tese da liberdade radical do ser humano de construir sua vida sem condicionantes biológicos, sem uma natureza que possa delimitar seus horizontes. Mas ser atraente não é a mesma coisa do que ser verdadeiro. Esse ponto de vista que você aqui expõe, sem defender, me parece ser um ponto de vista clara e comprovadamente errado.

A filosofia sempre argumentou que existe algo que podemos chamar de natureza humana. No século XVIII, por exemplo, David Hume, meu "santo padroeiro", sobre o qual escrevi minha tese de doutoramento em 1970-72, deu o título à sua obra maior (que está em português) de "Um Tratado sobre a Natureza Humana" – em seus aspectos cognitivos, emocionais e volitivos (morais) — i.e., em seus aspectos não propriamente biológicos. Mais recentemente, a sócio-biologia, ou a sociologia evolutiva, de extraçãp especialmente darwiniana, tem coletado uma coleção inacreditável de evidências empíricas que comprovam uma natureza humana, não só no aspecto biológico, mas também, em parte, no cultural (que poderíamos chamar de simbólico).

Há algum tempo discutimos na mesma lista trechos de um livro que aponta a base biológica de ser o macho de nossa espécie menos seletivo, no tocante à atividaded sexual, privilegiando a quantidade, enquanto a fêmea da espécie é, em regra, mais seletiva. O homem pode engravidar várias mulheres no mesmo dia, em qualquer dia, possuindo bilhões de espertazóides para esparramar por aí, até a sua velhice. A mulher em geral produz um óvulo a cada mês, e, se engravidar, fica nove meses sem produzir nenhum, e entre os 45 e 50 anos deixa de se tornar fértil… Faz sentido, nesse quadro, que ela seja mais seletiva com os seus óvulos do que os homens são com seus espermatozóides. Não estou entrando no mérito do argumento aqui: apenas apontando para o fato de que ele existe e parece, prima facie, fazer certo sentido.

No caso da atividade sexual, há, sem dúvida alguma, aspectos importantes que são aprendidos e, portanto, influenciados pela cultura em que vivemos (ou por nossos próprios valores). Isso quer dizer que no
ssa sexualidade é, sem dúvida, sem grande parte construída socialmente. Mas ignorar a base biológica do impulso sexual é temerário. Na verdade, acho tão temerário defender a tese de que, no caso da sexualidade, o ser humano é puramente animal, dominado totalmente por seus instintos e impulsos, como defender a tese oposta, de tudo é socialmente construído e nada é biologicamente determinado. Na verdade, até mesmo o que é socialmente construído freqüentemente é construído em cima de uma base biológica incontestável.

(Embora haja os que vão me criticar por dizer isso, acho a opção pelo celibato voluntário total reflete uma visão tão distorcida da natureza humana quanto a opção pela promiscuidade absoluta. No caso do ser humano, ambas são opções disponíveis, sem dúvida. Mas se uma parece pressupor que somos apenas animais, não humanos, e, portanto, incapazes de fugir de nosso lado animalesco, a outra parece pressupor que somos anjos: seres racionais não animais, capazes de negar sua animalidade. Mas deixemos isso, por enquanto, de lado).

No tocante às alegadas diferenças entre a sexualidade masculina e a feminina, é inegável que os estereótipos culturais têm enorme influência. Mas isso não quer dizer que todos as diferenças constatadas empiricamente no comportamento sexo do homem e da mulher sejam culturalmente determinados.

O exemplo do cachorro Paco, mencionado pela Cristina Almeida, parece-me, salvo melhor juizo, comprovar a minha tese, não a dela. O comportamento do cachorro, de querer transar com qualquer cachorra que estiver perto, sempre que ficar, por alguma razão (cheiro, por exemplo), excitado, é um comportamento tipicamente biológico: reflete a natureza dele, animal macho (e a da maioria dos outros animais machos na natureza). A natureza do macho humano não é muito diferente. Embora ele possa controlar, culturalmente, o impulso que o leva a querer transar, a qualquer hora, com quem estiver disponível (ou até com quem não está — está aí a raiz do estupro), o impulso está lá… Todo o esforço cultural para tentar fazer com que o homem (humano macho), como ser cultural / simbólico, até certo ponto controle o seu lado mais animalesco, não só na sexualidade, mas também na competição, na violência, etc., longe de desprovar, parece-me comprovar a existência de uma natureza humana subjascente.

Indo além, eu diria que a natureza humana se expressa não só no seu componente biológico, mas também no seu componente simbólico ou cultural. O ser humano é (parece-me) o único dentre os animais que, deliberadamente, deixa de fazer coisas no presente, ou no curto prazo, que ele sem dúvida gostaria de fazer, em favor de benefícios postergados no médio e longo prazo; é o único que é capaz de analisar um curso de conduta, que ele gostaria de tomar, e preteri-lo, em função de um bem maior que ele espera manter e alcançar. E isso se aplica não só ao humano macho, mas também ao humano fêmea — e é especialmente importante no campo da sexualidade. A razão porque boa parte dos homens não sai por aí transando com toda mulher que se mostre disponível não é que eles não queiram, mas, sim, que eles reconhecem que há bens maiores que eles preferem manter ou alcançar.

Embora nem todos os humanos se comportem assim o tempo todo, o fato de que os humanos conseguem assim se comportar me parece um traço distinto da natureza humana — não apenas nos seus aspectos biológicos, mas nos seus aspectos simbólicos. A grandeza do ser humano está no fato de que ele é capaz de, em nome de seus valores, transcender a sua natureza animal, biológica. O fato de ele ser capaz de fazê-lo é, a meu ver, um traço evidente de sua natureza propriamente humana, simbólica. Até certo ponto a sua tragédia está no fato de que ele raramente consegue fazer isso o tempo todo. Vide as peças de Sheakespeare (ou das do teatro grego). 

Em Washington, 21 de Maio de 2005

Trecho de Atlas Shrugged (A Revolta de Atlas)

Trecho de Atlas Shrugged (A Revolta de Atlas)

O trecho abaixo é longo. É parte do livro Atlas Shrugged (Random House, New York, 1957), obra prima de Ayn Rand, filósofa, romancista e polemicista americana (nascida na Rússia, em 1905, com o nome de Alyssa Zinovievna Rosenbaum, ela emigrou para os Estados Unidos em 1926, quando tinha 21 anos).

Transcrevo segundo o texto da tradução brasileira de Paulo Henriques Britto (com pequenas modificações minhas), originalmente publicada sob o título Quem é John Galt? e, atualmente, sob o título A Revolta de Atlas. A primeira edição foi publicada em um volume pela Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, 1987, e a segunda, em três volumes, pela Editora Arqueiro, São Paulo, 2010. O texto é basicamente o mesmo nas duas edições, com pequenas correções e melhorias.

A maior parte do trecho é uma explicação, por parte de um ex-empregado, do porquê da falência da fábrica (Twentieth-Century Motors / Motores Século Vinte) em que ele trabalhava. Trata-se de uma obra de ficção – recentemente votada, na Internet, pelos usuários, o livro de ficção mais importante do Século 20. A referência a essa votação está no site http://www.modernlibrary.com/.

O texto é o da tradução brasileira, com pequenas modificações minhas, e foi retirado das pp. 510-515 da primeira edição e das pp. 343-353 do segundo volume da segunda edição.

Em Campinas, 16 de maio de 2005 / Em Salto, 9 de Janeiro de 2016

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Bem, foi uma coisa que aconteceu na fábrica onde eu trabalhei durante vinte anos. Foi quando o velho morreu e os herdeiros tomaram conta. Eles eram três, dois filhos e uma filha, e inventaram um novo plano para administrar a fábrica. Deixaram a gente votar, também, para aceitar ou não o plano, e todo mundo, quase todo mundo, votou a favor. A gente não sabia, pensava que fosse bom. Não, também não é bem isso, não. A gente pensavam que queriam que a gente achasse que era bom. O plano era o seguinte: cada um trabalhava conforme sua capacidade, e recebia conforme sua necessidade. …

Aprovamos o tal plano numa grande assembléia: nós éramos seis mil, todo mundo que trabalhava na fábrica. Os herdeiros do velho Starnes fizeram uns discursos compridos, e ninguém entendeu muito bem, mas ninguém fez nenhuma pergunta. Ninguém sabia como plano ia funcionar, mas cada um achava que o outro sabia. E quem tinha dúvida se sentia culpado e não dizia nada, porque do jeito como os herdeiros falavam, quem fosse contra era desumano e assassino de criancinha. Disseram que esse plano ia concretizar um nobre ideal. Como é que a gente podia saber? Não era isso que a gente ouvia a vida inteira dos pais, professores e pastores, em todos os jornais, filmes e discursos políticos? Não diziam sempre que isso é que era certo e justo? Bem, pode ser que a gente tenha alguma desculpa para o que fez naquela assembléia. O fato é que votamos a favor do plano, e o que aconteceu conosco depois foi merecido.

A senhora sabe, nós que trabalhamos lá na Século Vinte durante aqueles quatro anos, somos homens marcados. O que é que dizem que o inferno é? O mal, o mal puro, nu, absoluto, não é? Pois foi isso que a gente viu e ajudou a fazer, e acho que todos nós estamos malditos, e talvez nunca mais vamos ter perdão…

A senhora quer saber como funcionou o tal plano, e o que aconteceu com as pessoas? É como derramar água dentro de um tanque onde tem um cano no fundo puxando mais água do que entra, e cada balde que a senhora derrama lá dentro o cano alarga mais um bocado, e quanto mais a senhor trabalha, mais exigem da senhora, e no final a senhora está despejando balde quarenta horas por semana, depois quarenta e oito, depois cinqüenta e seis, para o jantar do vizinho, para a operação da mulher dele, para o sarampo do filho dele, para a cadeira de rodas da mãe dele, para a camisa do tio dele, para a escola do sobrinho dele, para o bebê do vizinho, para o bebê que ainda vai nascer, para todo mundo à sua volta, tudo é para eles, desde as fraldas até as dentaduras, e só o trabalho é seu, trabalhar da hora em que o sol nasce até escurecer, mês após mês, ano após ano, ganhando só suor, o prazer só deles, durante toda a sua vida, sem descansar, sem esperança, sem fim. … De cada um, conforme sua capacidade, para cada um, conforme sua necessidade. … Nós somos uma grande família, todo mundo, é o que nos diziam, estamos todos no [p.511] mesmo barco. Mas não é todo mundo que passa dez horas com um maçarico na mão, nem todo mundo que fica com dor de barriga ao mesmo tempo. Capacidade de quem? Necessidade de quem, quem tem prioridade? Quando é tudo uma coisa só, ninguém pode dizer quais são as suas necessidades, não é? Senão qualquer um pode dizer que necessita de um iate, e se só o que conta são os sentimentos dele, ele acaba até provando que tem razão. Por que não? Se eu só tenho o direito de ter carro depois que eu trabalhei tanto que fui parar no hospital, depois de garantir um carro para todo vagabundo e todo selvagem nu do mundo, por que ele não pode exigir de mim um iate também, se eu ainda tenho capacidade de trabalhar? Não pode? Então ele não pode exigir que eu tome meu café sem leite até ele conseguir pintar a sala de visitas dele? … Pois é… Mas aí decidiram que ninguém tinha direito de julgar suas próprias capacidades e necessidades. Tudo era resolvido na base da votação. Sim, senhora, tudo era votado em assembléia duas vezes por ano. Não tinha outro jeito, não é? E a senhora imagina o que acontecia nessas assembléias? Bastou a primeira para a gente descobrir que todo mundo tinha virado mendigo — mendigos, esfarrapados, humilhados, todos nós, porque nenhum homem podia dizer que fazia jus a seu salário, não tinha direitos nem fazia jus a nada, não era dono de seu trabalho, o trabalho pertencia à ‘família’, e ele não lhe devia nada em troca, a única coisa que cada um tinha era a sua ‘necessidade’, e aí tinha que pedir em público que atendessem as suas necessidades, como qualquer parasita, enumerando todos os seus problemas, até os remendos na calça e os resfriados da esposa, na esperança de que a ‘família’ lhe jogasse uma esmola. O jeito era chorar miséria, porque era a sua miséria, e não o seu trabalho, que agora era a moeda corrente de lá. Assim, a coisa virou um concurso de misérias disputado por seis mil pedintes, cada um chorando mais miséria que o outro. Não tinha outro jeito, não é? A senhora imagina o que aconteceu, que tipo de homem ficava calado, com vergonha, e que tipo de homem levava a melhor?

Mas tem mais. Mais uma coisa que a gente descobriu na mesma assembléia. A produção da fábrica tinha caído quarenta por cento naquele primeiro semestre, e aí concluiu-se que alguém não tinha usado toda a sua ‘capacidade’. Quem? Como descobrir? A ‘família’ decidia isso no voto, também. Escolhiam no voto quais eram os melhores trabalhadores, e esses eram condenados a trabalhar mais, fazer hora extra todas as noites durante os próximos seis meses. E sem ganhar nada mais, porque a gente ganhava não por tempo nem por trabalho, e sim conforme a necessidade.

Será necessário explicar o que aconteceu depois disso? Explicar que tipo de criaturas nós fomos virando, nós que antes éramos seres humanos? Começamos a esconder toda a nossa capacidade, trabalhar mais devagar, ficar de olho para ter certeza de que a gente não trabalhava mais depressa nem melhor do que o colega ao nosso lado. Tinha que ser assim, pois a gente sabia que quem desse o melhor de si para a ‘família’ não ganhava elogio nem recompensa, mas castigo. Sabíamos que para cada imbecil que estragasse um motor e desse um prejuízo para a fábrica — ou por desleixo, porque ele não tinha nenhum motivo para caprichar, ou por pura incompetência — quem ia ter que pagar era a gente, trabalhando de noite e no domingo. Assim, a gente se esforçava o máximo para ser o pior possível.

Tinha um garoto que começou todo empolgado com o nobre ideal, um garoto muito vivo, sem instrução, mas um crânio. No primeiro ano ele inventou um processo que economizava milhares de homens-hora. Deu de mão beijada a descoberta dele para a ‘família’, não pediu nada em troca, nem podia, mas não se incomodava com isso. Era tudo pelo ideal, dizia ele. Mas quando foi eleito um dos mais capazes e condenado a trabalhar de noite, ele fechou a boca e o cérebro. No ano seguinte, é claro, não teve nenhuma idéia brilhante.

A vida inteira nos ensinaram que os lucros e a competição tinham um efeito nefasto, que era terrível um competir com o outro para ver quem era melhor, não é? Nefasto? Pois deviam ver o que acontecia quando um competia com o outro para ver quem era o pior.

Não há maneira melhor de destruir um homem do que obrigá-lo a tentar NÃO fazer o melhor de que é capaz, a se esforçar por fazer o pior possível, dia após dia. Isso mata mais [p.512] depressa do que a bebida, a vadiagem, a vida de crime. Mas para nós a única saída era fingir incompetência. A única acusação que temíamos era a de que tínhamos capacidade. A capacidade era como uma hipoteca que não se termina de pagar.

E trabalhar para quê? A gente sabia que o mínimo para a sobrevivência era dado a todo mundo, quer trabalhasse quer não, a chamada ‘ajuda de custo para moradia e alimentação’, e mais do que isso não se tinha como ganhar, por mais que se esforçasse. Não se podia ter certeza de que seria possível comprar uma muda de roupas no ano seguinte — a senhora podia ou não ganhar uma ‘ajuda de custo para vestimentas’, dependendo de quantas pessoas quebrassem a perna, precisassem ser operadas, ou tivessem mais filhos. E se não havia dinheiro para todo mundo comprar roupas, então a senhora também ficava sem roupa nova.

Havia um homem que tinha passado a vida toda trabalhando até não poder mais, porque queria que seu filho fizesse faculdade. Pois bem, o garoto terminou o secundário no segundo ano de vigência do plano, mas a ‘família’ não quis dar ao homem uma ‘ajuda de custo’ para pagar a faculdade do filho. Disseram que o filho só ia poder entrar para a faculdade quando houvesse dinheiro para os filhos de todos entrarem para a faculdade — e, para isso, era preciso primeiro pagar a escola secundária dos filhos de todos, e não havia dinheiro nem para isso. O homem morreu no ano seguinte, numa briga de faca num bar, uma briga sem motivo; brigas desse tipo estavam se tornando cada vez mais comum entre nós.

Havia um sujeito mais velho, um viúvo sem família, que tinha um hobby: colecionar discos. Acho que era a única coisa de que ele gostava na vida. Antigamente, ele costumava ficar sem almoçar para ter dinheiro para comprar mais um disco clássico. Pois não lhe deram nenhuma ‘ajuda de custo’ para comprar discos — disseram que aquilo era ‘luxo pessoal’. Mas, naquela mesma assembléia, votaram a favor de dar para uma tal de Millie Bush, filha de alguém, uma garotinha de oito anos, feia e má, um aparelho de ouro para corrigir seus dentes — isto era uma ‘necessidade médica’, porque o psicólogo da empresa disse que a coitadinha ia ficar com complexo de inferioridade se seus dentes não fossem endireitados. O velho que gostava de música passou a beber. Chegou a um ponto em que nunca mais era visto sóbrio. Mas parece que uma coisa ele nunca esqueceu. Uma noite, ele vinha cambaleando pela rua quando viu a tal da Millie Bush: deu-lhe um soco que lhe quebrou todos os dentes. Todos.

A bebida, naturalmente, era a solução para a qual todos nós apelávamos, uns mais, outros menos. Não me pergunte onde é que achávamos dinheiro para isso. Quando todos os prazeres decentes são proibidos, sempre se dá um jeito de gozar os prazeres que não prestam. Ninguém arromba mercearias à noite nem rouba o colega para comprar discos clássicos nem caniços de pesca, mas se é para tomar um porre e esquecer, faz-se de tudo. Caniços de pesca? Armas para caçar? Máquinas fotográficas? Hobbies? Não havia ‘ajuda de custo de entretenimento’ para ninguém. O ‘entretenimento’ foi a primeira coisa que eles cortaram. Pois a gente não deve ter vergonha de reclamar quando alguém pede para abrirmos mão de uma coisa que nos dá prazer? Até mesmo a nossa ‘ajuda de custo de fumo’ foi racionada a ponto de só recebermos dois maços de cigarro por mês — e isso, diziam eles, porque o dinheiro estava indo para o fundo do leite dos bebês.

Os bebês eram o único produto que havia em quantidades cada vez maiores — porque as pessoas não tinham outra coisa para fazer, imagino, e porque não tinham que se preocupar com os gastos da criação dos bebês, já que eram uma responsabilidade da ‘família’. Aliás, a melhor maneira de conseguir um aumento e poder ficar mais folgado por uns tempos era ganhar uma ‘ajuda de custo para bebês’ — ou isso ou arranjar uma doença séria.

Não demorou muito para a gente entender como a coisa funcionava. Todo aquele que resolvia fazer tudo certinho tinha que se abster de tudo. Tinha que perder toda a vontade de gozar qualquer prazer, não gostar de fumar um cigarro nem mascar um chiclete, porque alguém podia ter uma necessidade maior do dinheiro gasto naquele cigarro ou chiclete. Sentia vergonha cada vez que engolia uma garfada de comida, pensando em quem tinha tido que trabalhar de noite para [p.513] pagar aquela garfada, sabendo que a comida que comia não era sua por direito, sentindo a vontade infame de ser trapaceado ao invés de trapacear, ser um pato e não um sanguessuga. Não podia ajudar os pais, para não colocar um fardo mais pesado sobre os ombros da ‘família’. Além disso, se ele tivesse um mínimo de senso de responsabilidade, não podia nem casar nem ter filhos, pois não podia planejar nada, prometer nada, contar com nada.

Mas os indolentes e irresponsáveis se deram bem. Arranjaram filhos, seduziram moças, trouxeram todos os parentes imprestáveis que tinham, todas as irmãs solteiras grávidas, para receber uma ‘ajuda de custo de doença’, inventaram todas as doenças possíveis, sem que os médicos pudessem provar a fraude, estragaram suas roupas, seus móveis, suas casas — pois não era a ‘família’ que estava pagando? Descobriram muito mais ‘necessidades’ do que os outros — desenvolveram um talento especial para isso, a única capacidade que demonstraram.

Deus me livre! A senhora entende? Compreendemos que nos tinham dado uma lei, uma lei MORAL, segundo eles, que punia aqueles que a observavam — pelo fato de a observarem. Quanto mais a senhora tentava seguir essa lei, mais a senhora sofria; quanto mais a senhora a violava, mais lucrava. A sua honestidade era como um instrumento nas mãos da desonestidade do próximo. Os honestos pagavam, e os desonestos lucravam. Os honestos perdiam, os desonestos, ganhavam. Com esse tipo de padrão do que é certo e errado, por quanto tempo os homens poderiam permanecer honestos? No começo éramos pessoas bem honestas, e só havia uns poucos aproveitadores. Éramos competentes, orgulhávamo-nos do nosso trabalho, e éramos empregados da melhor fábrica do país, para a qual o velho Starnes só contratava a nata dos trabalhadores. Um ano depois da implantação do plano não havia mais um homem honesto entre nós. Era ISSO o mal, o horror infernal que os pregadores usavam para assustar os fiéis, mas que a gente nunca imaginava ver em vida.

A questão não foi que o plano estimulasse uns poucos corruptos, e sim que ele corrompia pessoas honestas, e o efeito não podia ser outro — e era isso que chamavam de idéia moral!

Queriam que trabalhássemos em nome de quê? Do amor pelos nossos irmãos? Que irmãos? Os parasitas, os sanguessugas que víamos ao redor? E se eles eram desonestos ou se eram incompetentes, se não tinham vontade ou não tinham capacidade de trabalhar — que diferença fazia para nós? Se estávamos presos para o resto da vida àquele nível de incompetência, fosse verdadeiro ou fingido, por quanto tempo nos daríamos o trabalho de seguir em frente? Não tínhamos como saber qual era a verdadeira capacidade deles, não tínhamos como controlar suas necessidades — só sabíamos que éramos burros de carga lutando às cegas num lugar que era meio hospital, meio curral — um lugar onde só incentivavam a incompetência, as catástrofes, as doenças – burros de carga que só serviam às necessidades que os outros afirmavam ter.

Amor fraternal? Foi aí que aprendemos, pela primeira vez na vida, a odiar nossos irmãos. Começamos a odiá-los por cada refeição que faziam, cada pequeno prazer que gozavam, a camisa nova de um, o chapéu da esposa do outro, o passeio que um dava com a família, a reforma que o outro fazia na sua casa — tudo aquilo era tirado de nós, era pago pelas nossas privações, nossa renúncias, nossa fome.

Um começou a espionar o outro, cada um tentando flagrar o outro em alguma mentira sobre as suas necessidades, para cortar sua ‘ajuda de custo’ na próxima assembléia. começaram a surgir delatores, que descobriam que alguém tinha comprado clandestinamente um peru para a família num domingo qualquer, provavelmente com o dinheiro que ganhara no jogo. Começamos a nos meter um na vida do outro. Provocávamos brigas de família, para conseguir que os parentes de alguns saíssem da lista de beneficiados. Toda vez que víamos algum homem começando namorar uma moça, tornávamos a vida dele um inferno.

Fizemos muitos noivados se romperem. Não queríamos que ninguém se casasse: não queríamos mais dependentes para alimentar. Antigamente, comemorávamos quando alguém tinha filho, todo mundo contribuía para ajudar a pagar a conta do hospital, quando os pais estavam sem dinheiro no momento. Agora, quando nascia uma criança, ficávamos sem falar com os pais. Para nós, os bebês eram [p.514] agora o que os gafanhotos são para os fazendeiros.

Antigamente, ajudávamos quem tinha um doente na família. Agora… Vou contar só um caso para a senhora. Era a mãe de um homem que estava trabalhando conosco há quinze anos. Era uma senhora simpática, alegre e sábia, conhecia todos nós pelo primeiro nome, todos nós gostávamos dela, antes. Um dia ela escorregou na escada do porão, caiu e quebrou a bacia. Nós sabíamos o que isso representava para uma pessoa daquela idade. O médico disse que ela teria que ser hospitalizada, para fazer um tratamento caro e demorado. A velha morreu na véspera do dia em que ia ser removida para o hospital. Ninguém nunca explicou a causa da morte dela. Não, não sei se foi assassinada. Ninguém disse isso. Ninguém comentava nada sobre o assunto. A única coisa que eu sei — e disso nunca vou me esquecer — é que eu, também, quando dei por mim estava rezando para que ela morresse. Que Deus nos perdoe! Era essa a fraternidade, a segurança, a abundância que nos haviam prometido com a adoção do plano.

. . .

[p.515] E quando a gente via isso, entendia qual era a motivação verdadeira de todo mundo que já pregou o princípio “de cada um conforme sua capacidade, a cada um conforme sua necessidade”. Era esse o segredo da coisa. De início, eu não entendia como é que os homens instruídos, cultos e famosos do mundo poderiam fazer um erro como esse e pregar que esse tipo de abominação era direita — quando bastavam cinco minutos de reflexão para eles verem o que aconteceria quando alguém tentasse pôr em prática essa idéia. Agora eu sei que eles não defendiam isso por erro. Ninguém faz um erro desse tamanho inocentemente.

Quando os homens defendem alguma loucura malévola, quando não têm como fazer essa idéia funcionar na prática e não têm um motivo que possa explicar essa sua escolha, então é porque não querem revelar o verdadeiro motivo.

E nós também não éramos tão inocentes assim, quando votamos a favor daquele plano na primeira assembléia. Não fizemos isso só porque acreditávamos naquelas besteiradas que eles vomitavam. Nós tínhamos outro motivo, mas as besteiradas nos ajudavam a escondê-lo dos outros e de nós mesmos, nos davam uma oportunidade de dar a impressão de que era virtude algo que tínhamos vergonha de assumir. Cada um que aprovou o plano achava que, num sistema assim, conseguiria faturar em cima dos lucros dos homens mais capazes. Cada um, por mais rico e inteligente que fosse, achava que havia alguém mais rico e mais inteligente, e que esse plano lhe daria acesso a uma fatia da riqueza e da inteligência daqueles que eram melhores que ele. Mas enquanto ele pensava que ia ganhar aquilo que ele não merecia e que cabia aos que lhe eram superiores, ele esquecia os homens que lhe eram inferiores e que iam querer roubá-lo tanto quanto ele queria roubar seus superiores. O trabalhador que gostava de pensar que suas necessidades lhe davam o direito de ter uma limusine igual à do patrão s e esquecia de que todo vagabundo e mendigo do mundo viria gritando que as necessidades deles lhes davam o direito de ter uma geladeira igual à do trabalhador. Era ESSE o nosso motivo para aprovar o plano, na verdade, mas não gostávamos de pensar nisso: e então, quanto mais a idéia nos desagradava, mais alto gritávamos que éramos a favor do bem comum.

Bem, tivemos o que merecíamos. Quando vimos o que havíamos pedido, era tarde demais. Tínhamos caído numa armadilha, e não tínhamos para onde ir. Os melhores de nós saíram da fábrica na primeira semana de vigência do plano.

Perdemos nossos melhores engenheiros, superintendentes, chefes, os trabalhadores mais [p.516] qualificados. Quem tem amor-próprio não se deixa transformar em vaca leiteira para ser ordenhada pelos outros. Alguns sujeitos capacitados tentaram seguir em frente, mas não conseguiram agüentar muito tempo. A gente estava sempre perdendo os melhores, que viviam fugindo da fábrica como o diabo da cruz, até que só restavam os homens necessitados, sem mais nenhum dos capacitados. E os poucos que ainda valiam alguma coisa eram aqueles que já estavam lá havia muito tempo.

Antigamente, ninguém pedia demissão da Século Vinte, e a gente não conseguia se convencer de que a Século Vinte não existia mais. Depois de algum tempo, não podíamos mais pedir demissão porque nenhum outro empregador nos aceitaria, aliás com razão. Ninguém queria ter qualquer tipo de relacionamento conosco, nenhuma pessoa nem firma respeitável. Todas as pequenas lojas com que negociávamos começaram a sair de Starnesville depressa, e no final só restavam bares, cassinos e salafrários que nos vendiam porcarias a preços exorbitantes. As esmolas que recebíamos eram cada vez menores, mas o custo de vida subia. A lista dos necessitados da fábrica não parava de aumentar, mas a lista de fregueses diminuía. Havia cada vez menos renda para dividir entre cada vez mais pessoas.

Antigamente, dizia-se que a marca da Século Vinte era tão confiável quanto a marca de quilates num lingote de ouro. Não sei o que pensavam os herdeiros do velho Starnes, se é que eles pensavam alguma coisa, mas imagino que, como todos os planejadores sociais e selvagens, eles achavam que essa marca era um selo mágico que tinha um poder sobrenatural que os manteria ricos, tal como havia enriquecido seu pai. Mas quando nossos fregueses começaram a perceber que nunca conseguíamos entregar uma encomenda dentro do prazo, nem produzir um motor que não tivesse algum defeito, o selo mágico passou a ter o valor oposto: as pessoas não queriam um motor nem dado, se ele ostentasse o selo da Século Vinte.

E no final nossos fregueses eram todos do tipo que nunca pagam o que devem, e nunca têm mesmo intenção de pagar. Mas Gerald Starnes, dopado por sua própria publicidade, ficava todo empertigado, com ar de superioridade moral, exigindo que os empresários comprassem nossos motores, não porque eles fossem bons, mas porque tínhamos muita NECESSIDADE de encomendas.

Àquela altura qualquer imbecil já podia ver o que gerações de professores não haviam conseguido enxergar. De que adiantaria nossa necessidade, para uma usina, quando os geradores paravam porque nossos motores não funcionavam direito? De que ela adiantaria para um paciente sendo operado, quando faltasse luz no hospital? De que ela adiantaria para os passageiros de um avião, quando os motores pifassem em pleno vôo? E se eles comprassem nossos produtos não por causa do seu valor, mas por causa de nossa necessidade, isso seria correto, bom, moralmente certo para o dono daquela usina, o cirurgião daquele hospital, o fabricante daquele avião?

Pois era esta a lei moral que os professores e líderes e pensadores queriam estabelecer por todo o mundo. Se era este o resultado quando ela era aplicada numa única cidadezinha onde todo mundo se conhecia, a senhora pode imaginar o que aconteceria em escala mundial? A senhora pode imaginar o que aconteceria se a senhora tivesse de viver e trabalhar afetada por todos os desastres e toda a malandragem do mundo? Trabalhar — e quando alguém cometesse um erro em algum lugar, a senhora é que teria de pagar. Trabalhar — sem jamais ter perspectivas de melhorar de vida, sendo que suas refeições, suas roupas, sua casa e seu prazer estariam à mercê de qualquer trapaça, de qualquer problema de fome ou de peste em qualquer parte do mundo. Trabalhar — sem nenhuma perspectiva de ganhar uma ração extra enquanto os cambojanos não tivessem sido alimentados e os patagônios não tivessem todos feito faculdade. Trabalhar — tendo cada criatura no mundo um cheque em branco na mão, gente que a senhora nunca vai conhecer, cujas necessidades a senhora jamais vai conhecer, cuja capacidade e preguiça e desleixo e desonestidade são coisas que a senhora jamais vai saber nem tem direito de questionar — enquanto as Ivys e os Geralds da vida resolvem quem vai consumir o esforço, os sonhos e os dias de sua vida. E é ESTA lei moral que se deve aceitar? ISTO é um ideal moral?

Olhe, nós tentamos — e aprendemos. Nossa agonia durou quatro anos, da nossa primeira assembléia à última, e acabou da única [p.517] maneira que podia acabar: com a falência. Na nossa última assembléia foi Ivy Starnes que tentou manter as aparências. Fez um discurso curto, vil e insolente, dizendo que o plano havia fracassado porque o resto do país não o havia aceitado, que uma única comunidade não poderia ter sucesso no meio de um mundo egoísta e ganancioso, e que o plano era um ideal nobre, mas que a natureza humana não era suficientemente boa para que ele desse certo.

Um rapaz — o mesmo que fora punido por dar uma boa idéia no primeiro ano — levantou-se, enquanto todos os outros permaneciam calados, e andou até Ivy Starnes no tablado. Não disse nada. Cuspiu na cara dela. Foi assim que acabaram o nobre plano e a Século Vinte.

Transcrito em Campinas, 16 de maio de 2005

Ainda a educação como mercadoria

É um fato de que nós aprendemos ou não o que nos ensinam, independentemente de nós estarmos pagando o ensinante ou de terceiros o estarem.

Mas das duas uma: ou o ensinante está nos ensinando de graça (i.e., gastando seu próprio tempo sem remuneração), como o fazem os pais em relação aos filhos, ou o ensinante está sendo pago — por nós, os aprendentes, por entidades privadas, ou pelo estado (o que quer dizer, em última instância por nós de novo, já que somos nós que pagamos o estado).

Isso quer dizer que, mesmo quando ministrada ou custeada pelo estado, a educação é paga, é, portanto, uma "mercadoria" que se compra.

A idéia de que a educação pública não "mercantiliza" a educação, enquanto a educação privada o faz, é uma bobageira que a esquerda vive repetindo mecanicamente. Em ambos os casos a educação é uma mercadoria que se vende e se compra.

O único jeito de desmercantilizar, até certo ponto, a educação, seria "desoficializá-la" e "informalizá-la", deixar que a gente aprenda o que precisa ou deseja aprender apenas nos contatos não-formais do dia-a-dia, como nesta lista. Aqui a educação não é mercadoria: ninguém a está vendendo nem comprando.

Disse "até certo ponto", porém, porque mesmo aqui não estamos fora do mercado: embora não estejamos nem vendendo nem comprando, estamos trocando informações, conhecimentos, pontos de vista, argumentos, etc. A noção de mercadoria, na verdade, independente de estar envolvido dinheiro em sua transação: podemos simplesmente trocar uma mercadoria por outra.

Em Campinas, 15 de maio de 2005

"Inclusão Universitária"

Em evento promovido pela Folha de S. Paulo, que reuniu especialistas com propostas para facilitar acesso de aluno da rede pública à universidade, relata-se o seguinte (Vide Folha de S. Paulo, 15 de maio de 2005, sob o título "Ministério e USP propõem reforço a excluído". (Curioso que sejam "Ministério e USP" – e, como se vai ver, vários dos participantes, como o novo Reitor da UNICAMP, José Tadeu Jorge, que será a seguir citado, nada têm que ver com um ou com a outra).

Eis o que relata a Folha:

"Um dado apresentado pelo reitor da Unicamp é, nas palavras dele próprio, ‘sintomático da necessidade de se produzir medidas visando a inclusão social’: segundo o Censo 2003 (levantamento realizado pelo MEC), 1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo. ‘Esse dado mostra uma inversão completa’, afirmou o reitor."

Concedo o fato mencionado: que "1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo."

A conclusão evidente a tirar desse dado é que a população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo está tremendamente sub- representada nos cursos superiores.

Essa conclusão, entretanto, não surpreende ninguém. Quem trabalha na UNICAMP, como eu, conhece, sem necessidade das estatísticas (atrasadas) do MEC, uma verdade que o reitor da UNICAMP omitiu, a saber, que percentual da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo que freqüenta a UNICAMP é perto de zero, se não for um zero redondinho.

O que surpreende, além da omissão do reitor da UNICAMP, é a sua conclusão, de que o dado levantado pelo MEC "mostra uma inversão completa".

O atual reitor da UNICAMP não é um lingüista e um poeta, como era um reitor anterior, Carlos Vogt. É engenheiro de alimentos. Mas confesso que seu uso da linguagem me deixa perplexo. O que seria "uma inversão" completa do dado de que "1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo"??? O que deve ser completamente invertido? O percentual? A faixa etária? A permanência nos cursos de nível superior? O percentual da população que tem renda familiar abaixo do salário mínimo?

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo que o mais justo seria que os jovens de 18 a 24 anos oriundos de famílias que têm renda per capita abaixo do salário mínimo deveriam ser a maioria na universidade, só em decorrência desse dado econômico, sem levar em conta o mérito (capacidade + esforço) ou o desempenho nos processos seletivos???

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo que às universidades tivessem acesso "os que dele precisam" (em sua modesta opinião), em vez de "os que têm mérito e desempenho" para estar lá??? (Seria esta uma versão acadêmica do "a cada um segundo a sua necessidade?)

Estaria o reitor da UNICAMP porventura sugerindo a existência de um critério econômico invertido para acesso à universidade, a saber, quem ganha menos, entra, quem ganha mais, fica de fora, independentemente de seu mérito e desempenho, seja no processo seletivo, seja na escolaridade precedente??? (Note-se que o reitor não estava falando que a inversão existe na universidade pública, mas, sim, nos "cursos de nível superior" como tais.)

O reitor da USP parece sugerir um caminho diferente. Eis o que diz a matéria da Folha:

"Para esta última, o reitor da USP afirmou que a universidade pensa em dar reforço escolar a estudantes que ele classificou como ‘talentos’. A escolha seria feita por meio de ‘critério objetivos’, como o desempenho no Saresp (exame aplicado pela Secretaria Estadual de Educação). ‘É uma idéia. Com o reforço, [podemos] possibilitar a entrada desse aluno na universidade’, disse Melfi."

É – é uma idéia.

A USP, pelo jeito, vai começar a ministrar ensino básico – pelo menos um reforço — para alunos que ela considera "talentos". O reitor não esclarece se o reforço seria dado antes do processo seletivo ou depois. Se antes, a Universidade estaria realmente se enveredando pelo ensino básico.

Se depois, a Universidade estaria comprometendo consideráveis recursos de seu já comprometido orçamento para "recuperar" alunos supostamente talentosos, mas mal-preparados pela escola pública…

O MEC também tem "sua idéia":

"Idéia parecida vem sendo aplicada pelo MEC, em um dos programas do Diversidade na Universidade. Henriques contou que, desde o começo do ano, 700 alunos das três séries do ensino médio público de todo o país vêm recebendo uma tutoria [acompanhamento de um professor]. A escolha dos estudantes foi aleatória. No mesmo programa, 29 cursos pré-vestibulares estão recebendo financiamento."

Aí vai: a tutoria é dada por professor das universidades federais? O mesmo argumento usado no caso da USP se aplica, só que num quadro piorado, pois a escolha dos estudantes aqui é "aleatória"… Pelo jeito o MEC não quer nem de longe ser acusado de favorecer talentos: prefere favorecer mediocridades aleatoriamente escolhidas…

Além disso, o MEC pelo jeito está agora financiando cursos pré- vestibulares (dos quais, que eu saiba, não há nenhum estatal).

Já o Secretário Estadual de Ciência e Tecnologia de São Paulo tem "outra idéia":

"Já o secretário estadual de ciência e tecnologia enfatizou a necessidade de diversificação do sistema superior, hoje baseado em universidades. ‘Há alunos que não têm vocação para formação acadêmica, mas precisam trabalhar’, disse Meirelles."

Tudo bem, secretário: a questão, caso o senhor não tenha percebido, não é quem precisa trabalhar: é quem deve entrar na Universidade. Nada proíbe alguém de trabalhar sem curso superior. Para fazer curso superior exige-se um mínimo de talento e competência.

Mais uma observação interessante, agora de João Carlos Meirelles (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo)

"No Brasil, deveríamos pensar que a universidade não é o único caminho para o jovem. Os países desenvolvidos têm metade de seus jovens nas universidades e metade em escolas técnicas e faculdades de tecnologia.

Criamos um viés cultural que o diploma superior é a salvação. Em 2003, enquanto tínhamos 1,037 milhão [de alunos] na faculdade convencional [em São Paulo], havia 23 mil nas nossas faculdades de tecnologia, as Fatecs. E o ensino tecnológico é aquele que tem a agilidade de acompanhar as demandas do mercado, com grau de excelência. Nas escolas técnicas de 2º grau foram 80 mil. Veja o absurdo: 1,037 milhão de jovens na academia [ensino superior] e 100 mil nas escolas e faculdades técnicas. É um contraditório inaceitável no país. Em São Paulo, um estudante na escola técnica custa R$ 2.000; nas faculdades de tecnologia, R$ 3.000; nas universidades [USP, Unicamp e Unesp], sem o custo da pesquisa, R$ 8.000.

Precisamos pensar com mais humildade o futuro da nossa juventude."

Para o secretário, o problema é meramente econômico. Mérito, ou merecimento, não entra na equação.

Agora, a grande obviedade do dia foi dita pelo Secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia:

"O secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, por sua vez, defendeu a extensão universitária. ‘A grande virtude da extensão é que ela pode promover a inclusão social para aqueles que estão fora do ensino superior’, disse Rollemberg."

Nossa, como é que eu pude, em 35 anos de magistério universitário, nunca ter descoberto isso???

[Os debatedores no encontro, segundo a Folha, foram: "o reitor da USP, Adolpho José Melfi; o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge; o secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, Rodrigo Rollemberg; o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques; e o secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, João Carlos de Souza Meirelles. A mediação ficou a cargo do jornalista Gilberto Dimenstein, integrante do Conselho Editorial da Folha."]

Em Campinas, 15 de maio de 2005

[Abaixo, a matéria completa da Folha]

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Folha de S. Paulo
15 de maio de 2005

EDUCAÇÃO

Evento promovido pela Folha reuniu especialistas com propostas para facilitar acesso de aluno da rede pública à universidade

Ministério e USP propõem reforço a excluído DA REPORTAGEM LOCAL

Reforço escolar para alunos da rede pública como forma de inclusão social.

Essa foi uma das propostas do Ministério da Educação e da USP apresentadas em debate promovido pela Folha.

O evento, chamado de "Ensino superior e inclusão social", ocorreu na última quarta-feira.

Os debatedores foram o reitor da USP, Adolpho José Melfi; o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge; o secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, Rodrigo Rollemberg; o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques; e o secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, João Carlos de Souza Meirelles. A mediação ficou a cargo do jornalista Gilberto Dimenstein, integrante do Conselho Editorial da Folha.

Um dado apresentado pelo reitor da Unicamp é, nas palavras dele próprio, "sintomático da necessidade de se produzir medidas visando a inclusão social": segundo o Censo 2003 (levantamento realizado pelo MEC), 1,6% dos jovens de 18 a 24 anos que estão em cursos de nível superior pertencem aos 57,3% da população que tem renda per capita familiar abaixo do salário mínimo. "Esse dado mostra uma inversão completa", afirmou o reitor.

Para solucionar o problema, algumas propostas tiveram apoio de todos os integrantes da mesa. Algumas delas estão relacionadas à melhoria do ensino básico público, com qualificação de professores e de alunos. Para esta última, o reitor da USP afirmou que a universidade pensa em dar reforço escolar a estudantes que ele classificou como "talentos".

A escolha seria feita por meio de "critério objetivos", como o desempenho no Saresp (exame aplicado pela Secretaria Estadual de Educação). "É uma idéia. Com o reforço, [podemos] possibilitar a entrada desse aluno na universidade", disse Melfi.

Idéia parecida vem sendo aplicada pelo MEC, em um dos programas do Diversidade na Universidade. Henriques contou que, desde o começo do ano, 700 alunos das três séries do ensino médio público de todo o país vêm recebendo uma tutoria [acompanhamento de um professor]. A escolha dos estudantes foi aleatória.

No mesmo programa, 29 cursos pré-vestibulares estão recebendo financiamento. Os resultados dos dois projetos servirão como base para criação de políticas "de massa", que buscarão aumentar o número de estudantes da rede pública no ensino superior.

Enquanto alguns temas receberam apoio de todos os debatedores, a proposta de reserva de vagas dividiu os especialistas. Os integrantes do governo federal defenderam a proposta que consta no anteprojeto de reforma universitária, que reserva 50% das vagas nas universidades federais a alunos do ensino médio público. Os reitores da USP e da Unicamp se mostraram contrários à idéia.

Já o secretário estadual de ciência e tecnologia enfatizou a necessidade de diversificação do sistema superior, hoje baseado em universidades. "Há alunos que não têm vocação para formação acadêmica, mas precisam trabalhar", disse Meirelles.

O secretário para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, por sua vez, defendeu a extensão universitária. "A grande virtude da extensão é que ela pode promover a inclusão social para aqueles que estão fora do ensino superior", disse Rollemberg. (FÁBIO TAKAHASHI)

Leia abaixo as opiniões a respeito dos principais temas abordados no debate.

COTAS

Adolpho José Melfi (USP)

"Em vez das cotas, o governo poderia definir uma meta. Por exemplo, termos 50% dos alunos na universidade vindos da escola pública. Isso foi feito no sistema universitário paulista, em que deveríamos ter 33% dos alunos matriculados em cursos noturnos. Foi deixado que as universidades criassem seus mecanismos, seja com a criação de novos cursos, seja com a criação de vagas em cursos já existentes. Nós atingimos e ultrapassamos a meta."

José Tadeu Jorge (Unicamp)

"A questão das cotas incomodou a Unicamp. A universidade não poderia aceitar essa forma sem discussão. Buscamos alternativas. Com base em estudos dos últimos sete anos, notamos que [comparando] dois alunos, aprovados com a mesma nota no vestibular, no mesmo curso, o da escola [média] pública chegava ao final do curso com um desempenho consideravelmente melhor. Portanto, se fizéssemos o caminho inverso, ou seja, partindo do final do curso para o vestibular, vimos que muitos alunos da escola pública que não foram aprovados teriam condições de chegar ao final do curso no mesmo nível [que o do ensino médio privado].

Por isso, decidimos dar um bônus no vestibular para os alunos da rede pública. Os resultados: 28% dos ingressantes provinham de escola pública em 2004. Neste ano, com essa metodologia, subiu para 34,1%. No curso de medicina, o número de alunos provenientes de escola pública aumentou 240%."

Rodrigo Rollemberg (Ministério da Ciência e Tecnologia) "Consideramos que é um avanço a proposta do anteprojeto de reforma universitária, embora tenhamos muito claro que o sistema de cotas vai promover uma inclusão que tem um limite bem delineado, porque ainda temos uma parcela muito grande da população que não concluiu o ensino médio e, portanto, não está apto a entrar na universidade."

Ricardo Henriques (MEC)

"A proposta assegura uma vinculação republicana entre ensino médio e universidade."

DIVERSIFICAÇÃO

Adolpho José Melfi

"Temos no Brasil um modelo de universidade de pesquisa, que é caro e não pode suportar um número muito grande de alunos. O maior problema no que diz respeito à inclusão é o modelo adotado. A saída é a criação de outros tipos de ensino superior, que poderiam atender a um número muito maior de alunos."

João Carlos Meirelles (Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo)

"No Brasil, deveríamos pensar que a universidade não é o único caminho para o jovem. Os países desenvolvidos têm metade de seus jovens nas universidades e metade em escolas técnicas e faculdades de tecnologia.

Criamos um viés cultural que o diploma superior é a salvação. Em 2003, enquanto tínhamos 1,037 milhão [de alunos] na faculdade convencional [em São Paulo], havia 23 mil nas nossas faculdades de tecnologia, as Fatecs. E o ensino tecnológico é aquele que tem a agilidade de acompanhar as demandas do mercado, com grau de excelência. Nas escolas técnicas de 2º grau foram 80 mil. Veja o absurdo: 1,037 milhão de jovens na academia [ensino superior] e 100 mil nas escolas e faculdades técnicas. É um contraditório inaceitável no país. Em São Paulo, um estudante na escola técnica custa R$ 2.000; nas faculdades de tecnologia, R$ 3.000; nas universidades [USP, Unicamp e Unesp], sem o custo da pesquisa, R$ 8.000.

Precisamos pensar com mais humildade o futuro da nossa juventude."

REGIONALIZAÇÃO

Adolpho José Melfi

"Enquanto na USP temos 28% de alunos de escola pública, na USP Leste [novo campus, na zona leste] temos 47%. O número de inscritos da zona leste não chegava a 4% no nosso vestibular. A questão "distância" é importante."

Rodrigo Rollemberg

"É importante o processo de regionalização e de interiorização da universidade. Os cursos devem estar focados nas necessidades regionais.

Com isso, passa-se a prestar serviços antes inexistentes nessas comunidades, o que contribui para a qualidade de vida."

Ricardo Henriques

"A expansão tem de estar derivada de programas que contemplem a relevância social e territorial, com conteúdos temáticos, que tenham a ver com aquela realidade."

AMPLIAÇÃO DE VAGAS

Adolpho José Melfi

"Para 9.000 vagas neste ano [no vestibular da USP], apareceram 140 mil candidatos. A expansão é fundamental. E o curso noturno é extremamente importante para inclusão social."

José Tadeu Jorge

"Fazemos inclusão quando criamos vagas na graduação, tornando mais fácil o acesso à universidade. Nos últimos cinco anos, houve um aumento de 900 vagas. Fazemos inclusão especialmente nos cursos noturnos."

João Carlos Meirelles

"A prioridade é o ensino técnico e tecnológico. Estamos hoje com 18 faculdades de tecnologia. Há quatro anos, eram nove. E vamos criar mais 30 escolas técnicas."

Transcrito em Campinas, 15 de maio de 2005