União Européia

Ontem falei sobre o assunto na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Sempre fui cético da idéia da União Européia. Minha tese é de que, com a globalização e a disponibilidade maciça das tecnologias de informação e comunicação, que permite a criação de redes virtuais globais, a coisa sensata a fazer é diminuir o tamanho das grandes unidades políticas, como o Brasil, os Estados Unidos, a Rússia, a China, a Índia – criando unidades políticas locais pequenas que se integram, sempre que necessário, em redes ad hoc ou mais ou menos permanentes.

Meu exemplo é a Suíça. Um país minúsculo, que, entretanto, na realidade é uma confederação (Confederatio Helvetica) de 26 cantões. Um dos menores cantões, o de Genebra, que se intitula orgulhosamente “Republique de Genève”, é dividido em 45 municipalidades – que são as unidades políticas que realmente importam. Das 45 municipalidades (“villes”) da Republique de Genève, apenas dez têm mais de 10 mil habitantes – a cidade de Genebra sendo a maior, com cerca de 188 mil habitantes.

O Brasil, os Estados Undos, etc., vão na direção oposta. Mas eles existem na forma atual há muito tempo. A excrescência é a União Européia, que se formou na ânsia de competir com os Estados Unidos e o Japão, e uniu politicamente 27 países que perderam autonomia – e que deveria estar se dividindo em unidades políticas menores. Uniu vários desses países também monetariamente, no Euro (que não é usado nos países do Leste Europeu nem na Inglaterra – sábia Inglaterra!).

A Inglaterra demonstrou sabedoria não abrindo mão da Libra Esterlina. Mas mais sábia foi a Suíça, que se recusou a entrar na União Européia e que também manteve, naturalmente, o seu Franc Suisse.

O Brasil, em vez de proibir na Constituição medidas que alterem a composição da União, deveria estar se desdobrando. A cidade de Genebra, embora tenha apenas 188 mil habitantes, não é fácil de administrar – com seus 37,5% de estrangeiros na composição da população. O Brasíl é impossível de administrar, com seus 188 milhões de habitantes, mil vezes mais. Mesmo a cidade de São Paulo, com seus 11 milhões de habitantes, é inadministrável.

Small, in this case, is beautiful.

A seguir o Editorial da Folha de S. Paulo de hoje. Ele sublinha as dificuldades da União Européia.

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Folha de S. Paulo
20 de Maio de 2010

Editoriais
editoriais@uol.com.br

Projeto Europeu

Europa terá de fazer reformas e aprofundar projeto de união para restaurar confiança e ganhar competitividade

NO DIA 13 de maio, na cidade de Aachen, na Alemanha, teve lugar a 60ª cerimônia de entrega do prêmio Charlemagne (Carlos Magno). A honraria é conferida anualmente a personalidades que prestaram serviços à integração europeia. O prêmio é assim designado em homenagem ao rei medieval que personifica o mito fundador da Europa moderna.

Na ocasião, a chanceler alemã, Angela Merkel, fez um discurso contundente sobre o significado da União Europeia. Para ela, a Europa vai superar a crise da moeda comum. "O euro", disse a chanceler, "é mais que uma moeda. O euro é o passo mais largo na trajetória de integração europeia". E, a seguir, indagou: "Por que salvar a Grécia e o euro? Por que gastar dias e noites em busca de um objetivo comum?".

A resposta é que o fracasso do euro não representaria apenas um fracasso monetário. "Seria o fracasso da ideia de unificação." Merkel pediu cooperação e afirmou que a Europa nasce da diversidade e da tolerância, princípios que nortearam o continente desde os primeiros passos da integração, nos anos 1950.

São palavras encorajadoras, mas que precisam ser seguidas por ações. Está claro que o agravamento da crise fiscal demanda mudanças e escolhas políticas espinhosas. O ceticismo atual dos mercados em relação à Europa decorre essencialmente da percepção de que será muito difícil sustentar os ajustes necessários nos próximos anos.

Teme-se, de um lado, uma reação na Alemanha, cuja população poderia não tolerar os custos para manter a moeda única, que tem no país seu mais sólido pilar. De outro, nas economias que hoje são alvo de especulação, como Grécia, Portugal e Espanha, parece demasiado ingrata a tarefa de recuperar a competitividade com medidas que representarão desemprego e perdas salariais.

Já que voltar atrás na moeda comum equivaleria a instaurar o caos, o caminho a ser trilhado é aprofundar a integração. Fazê-lo implica mais federalismo fiscal, mais regras restritivas e menos soberania nacional. Estará a Europa preparada para isso?

Não é demais lembrar que a União Europeia, em seu início, parecia um projeto quase impossível de se concretizar. Sua construção decorreu de alegadas razões políticas e uma subjacente motivação econômica. E a integração sempre se deu em meio a tensões entre federalismo e aspirações de autonomia nacional.

A própria ideia de moeda única ganhou força no terreno da política. Temia-se que o processo de unificação pudesse acabar afastando os alemães da Europa. Por isso, a França quis estabelecer uma data para a adoção do euro.

Tantos percalços vencidos ao longo da história sugerem que a Europa encontrará os meios de restaurar a confiança. Mas terá de abandonar modelos tradicionais e ineficazes para se ajustar às demandas de um futuro mais dinâmico e competitivo.

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Em São Paulo, 20 de Maio de 2010

Tem alguém o direito de pleitear que seu “passado digital” seja re-escrito (ou apagado)?

A nova Ombudsman (não deveria ser Ombudswoman ou Ombudsperson, a seguir a orientação dos Politicamente Corretos?) da Folha retoma um assunto que discuti aqui em três posts anteriores.

Vide:

Sobre o direito de que se esqueça o que dissemos e fizemos (5/4/2010)
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3428.entry

Ainda sobre o Memorioso… (20/2/2010)
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3317.entry

O Memorioso e o Pensoso… (14/2/2010)
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!3311.entry

A nova Ombudsman menciona que quem a antecedeu no cargo discutiu o assunto em 2008. Não sei dizer que é verdade. Mas mesmo que tenha sido, ela omitiu a discussão dos primeiros meses deste ano, que motivou os meus posts.

O tema é interessante.

Aqui vai a manifestação da Ombudsman.

A seguir transcrevo também o artigo de Ferreira Gullar na mesma Folha, sobre a memória. É um contraponto interessante, que se liga com algumas coisas que já escrevi aqui sobre memória e identidade pessoal. (Não tenho paciência de ir procurar a referência – está lá atrás…).

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Folha de S. Paulo
16 de Maio de 2010

SUZANA SINGER
ombudsman@uol.com.br

Em algum lugar do passado

“Injustiças” eternizadas em arquivos digitais de jornais são principal dilema ético em encontro anual de ombudsmans

NA MILENAR Oxford (Inglaterra), 31 ombudsmans de 16 países discutiram até ontem os rumos da imprensa na era digital. Em um salão de 1618, igualzinho ao refeitório de Hogwarts, onde Harry Potter graduou-se em bruxaria, os “representantes dos leitores” brindaram pela sobrevivência de um jornalismo independente, preciso e que preste contas ao público.

Como o Lord Voldemort, que a cada livro de Potter parece mais assustador, os problemas que os ombudsmans enfrentam, graças aos avanços tecnológicos, vêm se tornando mais complexos.

O dilema ético que mais provocou debate no encontro anual da Organização de Ombudsmans de Imprensa (ONO) foi o de como lidar com “injustiças” eternizadas em arquivos digitais. Nenhum dos jornais representados em Oxford tem, em seus códigos de conduta, regras de como responder àqueles que exigem que seus nomes sejam retirados da internet.

Um garoto de 12 anos escreveu a um jornal inglês, há poucas semanas, pedindo que seja apagada reportagem que o citava como vítima de bullying -tipo de humilhação entre crianças em escolas. O depoimento, dado seis anos atrás, era da própria mãe do menino, que procurou o jornal na esperança de que as ofensas cessassem.

Graças ao Google, os colegas do garoto, agora em outro colégio, descobriram a história e começaram a atormentá-lo. O pesadelo se repetia. O que fazer? Não há nada de errado com a reportagem, mas, como lembrou um ombudsman, foi uma decisão da mãe dar publicidade ao caso, e jornalistas não costumam ouvir o que a criança tem a dizer.

Na Bélgica, um rapaz cúmplice de assassinato cumpriu sua pena, foi solto, mas não consegue emprego nem namorada porque seu nome aparece ligado ao crime sempre que alguém pesquisa na internet.

A terapeuta designada pelo Estado para acompanhar o rapaz pediu ao único jornal que publicou seu nome que deletasse a notícia, porque estaria inviabilizando a sua ressocialização. O diário trocou o nome dele por iniciais. Mas é correto reescrever o passado de alguém?

Arquivo X

A Folha não mexe nos arquivos digitais, porque os considera cópias do que foi impresso. Se houve um erro no passado, mantém a notícia original, mas coloca uma nota remetendo para uma correção.

Muitas vezes, o que falta é acompanhar um caso. Se foi noticiado que o sr. X foi acusado de corrupção, e depois ele é considerado inocente pela Justiça, o jornal coloca uma nota na notícia original remetendo para a decisão judicial a favor do sr. X.

Na era da internet, é preciso cuidado redobrado com o que se diz na mídia. Quando uma jovem fala hoje sobre como perdeu a virgindade, precisa considerar que, daqui a 20 anos, seu nome estará associado a sexo sempre que alguém “der um google” sobre ela. São “vidas marcadas para sempre”, como definiu meu antecessor, Carlos Eduardo Lins da Silva, em 2008.

Não é agradável para o ombudsman dizer “sinto muito”, “a vida é assim mesmo” para um menino acossado por colegas, um ex-condenado tentando refazer a vida ou uma pessoa arrependida de suas declarações juvenis. Em apenas três semanas no cargo, tive que recusar, em nome da Folha, dois pedidos de mudanças de arquivos -não descrevi os casos, porque, mesmo com o anonimato garantido, os requerentes não permitiram que suas histórias fossem citadas.

Seria perfeito vestir uma capa da invisibilidade como a de Harry Potter e fugir ao debate, mas não dá. Considero a posição da Folha consistente. Se o jornal ceder em um caso, por mais justo que pareça, haverá outro e mais outro, sempre com bons argumentos. Estaremos reescrevendo a história, o que é um grande risco para todos.

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Folha de S. Paulo
16 de Maio de 2010

FERREIRA GULLAR
Surto filosófico


Estou maravilhado com a minha descoberta de que a memória é parte do presente que vivo


EU, HOJE, estou invocado e quando fico assim dano-me a pensar qualquer coisa. O que me leva a isso, não sei, mas quase sempre é alguma ideia ou indagação que surge inesperadamente e aí me ponho a futricá-la.

É o que ocorre agora, quando me dou conta de que a memória não é o que sempre pensei que fosse e que as pessoas, em geral, pensam que é.

Pensa-se que memória é a faculdade que nos permite lembrar de fatos e coisas do passado; ter memória é
ser capaz de evocar o que já ocorreu e se foi. Mas acabo de perceber que não é só isso: a memória é constitutiva do presente, é parte dele.

Veja bem, não estou dizendo que você, de certo modo, é também seu passado, que o agora é feito também do que houve antes. Pode ser e pode não ser mas, de qualquer modo, não é isso que pretendo dizer, não é isso que acabo de intuir.

Estou dizendo que só consigo acender o fogão porque me lembro como se faz para acendê-lo, me lembro qual botão se deve apertar depois de abrir o gás; estou dizendo que só escrevo aqui e agora o que escrevo porque me lembro o que significa a palavra “lembro”, a palavra “me”, a letra “A”, “B”, “C”, enfim, a gente faz e raciocina porque lembra.

Certamente, cientistas e filósofos já sabem disso, já falaram disso. Não pretendo, assim, ter descoberto a pólvora mas, diga-se, que é próprio dos poetas descobrirem o que já sabemos, mas esquecemos ou não lhe demos a devida importância.

O poeta é aquele cara que se surpreende com o óbvio e, ao fazê-lo, torna-o surpreendente, pelo menos para si mesmo. Assim é que estou aqui maravilhado com a minha descoberta de que a memória é parte do presente que vivo e não apenas do passado que vivi.

E, aí, meu caro, abre-se campo para uma série de indagações como que diferença há entre a memória que nos traz o passado distante e a que, sem nos darmos conta, nos permite falar e acender o fogão.

Temos, em nós, um depósito de memórias afetivas, sepultadas em nosso esquecimento, porque não queremos reviver a dor que nos provocaram ou o que é uma placa sensível que tudo registra e exibe quando circunstâncias determinam?

Seria o caso do biscoito champanhe que Proust mastigou após molhá-lo no chá, apenas uma modalidade de lembrança que não se diferencia essencialmente desta lembrança banal que nos faz saber que a palavra memória começa com “M”?

Nesta descoberta da memória como sendo outra coisa que a preservação do passado, teríamos o que então?

Veja bem, no instante mesmo em que corto o bife no prato, faço-o porque estou municiado da lembrança de como se corta bife, usando garfo e faca, coisa que, aos dois anos de idade, não conseguia fazer, porque ainda não aprendera a usar o talher.

E o que é o aprendizado, senão memória? E essa memória está de tal modo inserida no presente, que é parte constitutiva dele: fazer é lembrar como fazer, sem se dar conta de que lembra. E ainda: a memória não apenas nos permite fazer por já sabermos como nos ajuda a descobrir novos modos de fazer, corrigindo o sabido, e assim engendra o futuro.

Suponhamos que vou escrever um poema que, porque ainda não o escrevi, não sei como será: estou entregue ao jogo do acaso e da necessidade. O tema é o sorriso da moça que vi na rua, há pouco, e de que me lembro ainda; é, portanto, memória, passado, mas o poema por fazer é o futuro -futuro que, sem o sorriso lembrado, jamais seria inventado.

E então me espanto ao constatar que a memória nos ajuda a inventar a vida, a sepultar o passado, que, não obstante, aumenta a cada segundo.

A vida é também lembrar sem se dar conta disso.

E daí que há mais de um tipo de memória: aquela do biscoito proustiano, em que lembro consciente de que lembro e que, ao contrário daquela outra memória, ocupa o presente e o torna apenas lembrança e outro -ou outros- que, em lugar de negá-lo, o constitui: ao cortar o bife estou inteiro neste ato presente, sou inteiramente atual, como a memória que está a serviço dele e é ele.

Se é impossível pensar sem nada saber, é que só é possível pensar graças à memória. Mas pensar é quase sempre inventar o que se pensa.

Por exemplo, foi por saber o que era a memória que percebi que ela era mais do que eu sabia dela. Assim, a descobri como constitutiva do presente, donde se conclui que eu só posso superar o que já sei e não o que ainda não sei, que, por sabê-lo, não é memória, mas se tornará assim que o conheça.

A memória me permite inventar o futuro de que me lembrarei, como passado, futuramente.

Entendeu? Se não, releia a crônica pacientemente, pois é possível que o consiga… É o que eu vou fazer agora.

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Em São Paulo, 16 de Maio de 2010

Market Economies – a short lesson in Economics

The paragraph below, defining the concept of the free market, is taken from the book The War on Success, de Tom Newberry, p. 27. I picked it up because it is an excellent definition of the free market. Here is what he says:

“The concept of the free market is quite simple. It does not involve compulsion or coercion. Each individual has the right to enter  the market and sell his goods or services for whatever amount other people are willing to pay. No one is forced to buy, and no one is forced to sell. To get the things we want in life, we create something that others want and then sell it to them at a price that makes them want to buy it.”

When I quoted this passage on FaceBook, someone (Howard Gold) replied:

“Eduardo, do you know of anywhere in the world where free market economics govern? Surely there must be somewhere???”

Below, my answer…

A totally free market economy? I don’t think there is, Howard.

But with the exception of North Korea, Cuba, etc., all other economies of the world are market economies today (after the sad communist interlude ended in 1989). They are not "perfect cases" ("totally free"), because governments will not easily relinquish the hold they’ve got on the economy (once they get it).

Do we not, as individuals, go to the market and sell our goods or services, and do this in a relatively unrestrained way?

We sell our goods or services for whatever money other people are willing to pay for them, because the price of our goods or services is determined by the market.

If we are not happy with the price we are getting, we can improve our goods or services or change business altogether, because nobody is forced to buy our goods or services at any price — and certainly not at the price we’d like to receive for them.

With the money we receive for our goods or services, we buy other goods and services which we need or want more than the money we have.

The market economy is not mysterious. As Newberry says, it is quite simple (as most important things in life). But it is not easy to achieve a market economy, or, once we achieve it to some extent, to maintain it, because governments are always there to try and limit it or even extirpate it altogether.

Why do governments do that? Because governments are made of people – people who live out of what other people produce (that is the definition of a parasite, isn’t it?). And people who are in government seem to think that riches are there for them to dispose of them as they see fit. They seem to think that some people have more riches than they need (which is true), and that therefore they have the right to redistribute these riches to those who need it, but haven’t produced it (which is absolutely wrong). John Locke said that an action that is morally wrong for an individual to perform does not become right if performed by a government. If you see that one neighbor of yours has much more than the other, it don’t conclude (unless you are Robin Hood) that you have a moral right (much less the duty) to expropriate the riches of one to give to the other, making their riches more equal. This kind of action is not made right when performed by governments. It is morally wrong and it is evil.

Something important to realize is that markets and governments are made of people. The market is us — as the government is us (or them, as the case may be). All, us and them, are people. The market and the government are made by our choices.

In sum: sure, there are lots of market economies around. Market economies existed even before capitalism. The novelty of capitalism (classical liberalism) was to say that that the market is good, needs no improvement, and that therefore the most that governments ought to do is stay out of the market – the more they stay out, the best.

That is the thesis of the minimum state.

In São Paulo, May 10, 2010

Obedientes ou rebeldes?

Nós os queremos obedientes ou rebeldes?

Deleito-me quando minha filha Patrícia me conta as estripulias de meu neto Marcelo. Segundo ela (parecendo desanimada), ele anda respondão, desobediente, mal-comportado, só faz o que quer… E apenas acabou de fazer cinco anos.

Pode isso?

Mas ela mesma, enquanto conta as histórias, no fundo sente orgulhosa da rebeldia – vale dizer, da autonomia precoce – da cria. Prefere-o assim a um menino obediente, bem comportado, que só faz o que a mãe deixa, que não revida quando agredido na escola…

É isso? É isso, sim.

Excelente a parte que transcrevo abaixo do artigo de Contardo Calligaris na Folha de hoje. É o dilema da modernidade na criação dos filhos.

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Folha de S. Paulo
6 de Maio de 2010

Você prefere os obedientes ou os rebeldes?

Contardo Calligaris

Todos queremos que filhos ou alunos respeitem nossa autoridade. Agora, todos também consideramos que nossa tarefa de pais ou educadores só será cumprida quando filhos e alunos pensarem por conta própria, ou seja, quando eles sejam capazes de desconsiderar nossos conselhos e desobedecer a nossas ordens.

Seria cômodo se, como nas sociedades tradicionais, a gente dispusesse de ritos de passagem sancionando a entrada na idade adulta: aos 15 anos e um dia, saia sozinho pela savana, armado de uma lança, e só volte tendo matado seu primeiro leão. A partir de então, você será autônomo.

Infelizmente, para nós, o tempo de se tornar adulto se estende sem limites definidos: não sabemos quando ele acaba e, mais problemático ainda, não sabemos quando começa. Consequência: pais e educadores podem sofrer, exasperados pela rebeldia de moleques e meninas incontroláveis e, ao mesmo tempo, deliciar-se ao relatar as travessuras de filhos e alunos. Qualquer terapeuta já atendeu pais "desesperados" com a insubordinação dos filhos, mas que, de repente, abrem um sorriso extasiado na hora de contar "o horror" que é sua vida com esses descendentes que os desrespeitam.

Eis o problema que torna educar quase impossível, em nossa cultura: a autonomia, para nós, é um valor tão importante que ela precisa ser confirmada pela desobediência. Com isso, qualquer pai prefere, no fundo, lidar com um filho revoltado a imaginar que o filho possa ter uma vida servil e, portanto, medíocre.

Os santos mais respeitados são os que foram grandes pecadores e descrentes (Agostinho, Francisco, o próprio Paulo etc.). No imaginário cristão, aliás, uma conversão tem mais valor do que a fé de quem sempre acreditou. A parábola do pastor que deixa o rebanho para procurar a ovelha perdida sugere que, assim como a gente, talvez Deus prefira os rebeldes.

Uma anedota. Em maio de 1969, no átrio da Universidade de Genebra, junto com amigos anarquistas, eu distribuía panfletos criticando a iminente visita do papa à cidade.

Um professor, passando por nós, perguntou-me: "Será que o senhor tem uma autorização para distribuir esses panfletos?". Respondi imediatamente: "Senhor, tenho muito mais do que uma autorização, tenho uma proibição formal".

Fato coerente com o que acabo de argumentar, ele achou engraçada minha impertinência e deixou que continuássemos.

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Em Redmond, 6 de Maio de 2010

Acomodados e incomodados

Das várias características que nós, humanos, exibimos, sempre me interessou um par delas. Alguns de nós somos basicamente acomodados; outros, basicamente inquietos, desacomodados, talvez até mesmo incomodados.

Isto se mostra já bem cedo em nosso desenvolvimento no plano biológico. Dá até a impressão de que a acomodação / incomodação biológica é inata.

Alguns de nós parecem já nascer extremamente tranqüilos. Nada os perturba. O mundo pode estar ruindo ao seu redor, e continuam calmos, sem se agitar.

A Andrea, minha filha nascida em 1973, era tão calma quando nasceu que pensei que ela fosse surda. Eu falava com ela, ela nem se virava para o meu lado. Fui ficando cismado. Comecei a bater palmas. Nada… Comecei a bater a porta do quarto dela. Nada… Pai de primeira viagem, levei-a imediatamente ao pediatra. Ele a examinou, falou com ela, bateu palmas, bateu a porta do escritório. Nada… Recomendou que eu a levasse a uma clínica para crianças surdas em Los Angeles (eu morava em Pomona), criada por Spencer Tracy, porque seu filho, John, nasceu surdo. Ao local deu o nome (como era de esperar) de The John Tracy Clinic. Fiquei mais apavorado do que estava. Levei-a à clínica. Lá fizeram tudo que é teste, colocaram eletrodos na cabeça da menina, tocaram sirenes altíssimas… O laudo emitido ao final dizia que barulhos muito altos ela podia ouvir, mas que o importante é se conseguia ouvir a voz humana normal – e isso os testes feitos não conseguiam determinar. (A voz de professora primária em sala de aula tenho certeza de que ela certamente conseguiria ouvir). O médico mandou-me levá-la de volta um mês depois – porque sempre havia a possibilidade de que ela fosse simplesmente tranqüila ao ponto da imperturbabilidade.

Felizmente, não precisei levá-la para o retorno. Um dia, logo depois da ida à clínica, quando ela estava no meu colo e começou a fechar os olhinhos para dormir, chamei o nome dela, baixinho. Ela abriu os olhos. Repeti o exercício (coitada) uma dezena de vezes. A Andrea conseguia ouvir-me, mesmo falando baixinho. Fiquei aliviado. Ela era simplesmente calma, tranqüila, acomodada no plano biológico.

Outras crianças já são irriquietas, desacomodadas, parecendo até mesmo que estão sempre incomodadas. Comeram, tiveram as fraldas trocadas, estão confortáveis, e, no entanto, não param de se mexer. Viram-se na direção do menor ruído, mesmo que estejam fazendo outra coisa interessante (como mamar). Se há pessoas conversando perto dela, parece que querem observar, prestam atenção. Tentam pegar tudo o que aparece pela frente, botar a mão em tudo o que se move ou tem tem saliência ou buraco…

No plano psicológico – o temperamento – também encontramos essa dicotomia. Aqui não sei se a característica é inata. Talvez seja – mas desenvolvida em interação com fatores ambientais.

Existem pessoas que permanecem toda a sua vida profissional em um só emprego. Conheço vários que trabalharam nas Indústrias Romi, por exemplo, por mais de 35 anos. Só lá. Alguns ainda estão lá. Outros saltam de emprego para emprego, sempre incomodados, nunca satisfeitos… Uns ficam tão incomodados com o emprego que têm que pedem demissão, mesmo antes de arrumar outro.

Existem pessoas que se apaixonam ou se casam apenas uma vez. Outras se apaixonam várias vezes e casam mais de uma vez.

Existem pessoas que são cordatas. Pedem um prato num restaurante, se ele não está de acordo com o que esperavam, comem assim mesmo. Compram algo, se o que compraram não vem exatamente de acordo com as especificações, ou com o que foi anunciado, concluem que não vale a pena reclamar. Outras são batalhadoras. No restaurante, devolvem o prato que não é servido a contento. Quando compram algo que não vem como esperavam, vão à luta, reclamam, ameaçam…

Mas meu interesse maior é na acomodação / incomodação que acontece no plano intelectual – o plano das idéias. Aqui também não sei se a característica é inata ou se é fruto do ambiente. Provavelmente, um pouco das duas coisas.

Vou exemplificar essa dualidade (binaridade) com exemplos da área da religião, porque é aqui, parece-me, que ela aparece com mais destaque.

Todos nós nascemos em uma família que é ou religiosa ou não-religiosa (tertium non datur).

Se a família é religiosa, há várias possibilidades: ou ela é cristã, ou é judaica, ou é islâmica, ou é sei lá mais o quê. Se a família é cristã, mais possibilidades: ou é católica, ou é ortodoxa, ou é protestante (talvez haja mais alguma alternative aqui: mórmon é protestante ou é uma categoria à parte?). Se ela é protestante, ainda mais possibilidades: então ou é luterana, ou é reformada (presbiteriana), ou é anglicana, ou é metodista, ou é batista, ou é adventista, ou é alguma outra coisa mais modernosa (as alternativas aqui são legião). [Registre-se aqui que alguns protestantes mais radicais, mais “puritanos”, se recusam a ver os anglicanos como verdadeiramente protestantes]. Se é, digamos, presbiteriana, ou é “original”, ou é independente, ou é conservadora, ou é fundamentalista. Se é “original”, ou é tradicional ou é “avivada” (do tipo mais “carismático”). E assim vai. As opções são legião.

Os acomodados (seriam a maioria) em geral ficam na situação religiosa em que seus pais estavam quando eles nascerem ou pela qual seus pais optaram enquanto eles ainda eram crianças. Se os pais mudam de opção depois de os filhos alcançarem os quatorze ou quinze anos, a probabilidade de que eles sigam os pais na mudança se reduz significativamente.

Assim, se os pais deles tinham uma religião quando eles (os acomodados) nasceram, ou passaram a ter enquanto eles eram ainda relativamente pequenos, os acomodados geralmente ficam nessa religião de seus pais. Simplesmente não a deixam ou trocam por outra. Mudar é, para eles, uma coisa complicada, na qual não vêem mérito, em si.

Mudam apenas se for estritamente necessário ou se for altamente recomendável em função de alguma coisa que se considera importante e valiosa. Um exemplo: se forem morar em uma cidade ou em um bairro onde não existe a igreja que freqüentavam, podem mudar – para uma igreja parecida. Caso contrário, não. Outro exemplo: se se casam com alguém de uma outra religião, que não é muito diferente, podem mudar, para evitar potenciais conflitos domésticos. Mas mudar por mudar, porque encontrou uma religião melhor, raramente acontece com os acomodados.

Isso explica um fato comum – que vou ilustrar com os católicos mas poderia ilustrar com os membros de outras religiões ou até mesmo de outras denominações cristãs.

O número de brasileiros que se diz católico, que vai à missa de vez em quando (Semana Santa, Páscoa, Natal), que comunga quando vai à igreja, que reza a Ave Maria e o Pai Nosso, que faz questão de se casar na igreja, que batiza os filhos na igreja, que faz o sinal da cruz diante de uma igreja ou de um féretro, etc., simplesmente porque é isso que se espera de quem “nasceu católico”, é enorme. A inércia, a indis
posição para mudar dos acomodados explica, em grande medida, esse fato. Mesmo que eles agreguem algumas coisinhas a esse catolicismo: a devoção a um orixá, por exemplo.

Mas é preciso assinalar que o número de acomodados católicos (ou de católicos acomodados) vem diminuindo no Brasil nas últimas décadas – algo que é um fenômeno interessante. Um número razoável de católicos nominais vem “mudando de religião”. Para eles isso não quer dizer que se tornam judeus ou maometanos ou budistas. Quer dizer que se tornam protestantes de alguma variedade.

Talvez haja bem mais de uma razão para isso. Mas duas me parecem ser é as seguintes.

Primeiro, a Igreja Católica brasileira, por ser majoritária, burocratizou-se, não se preocupou em modernizar seu serviço de culto (que até o Vaticano II era em latim), que tinha uns cantos (hinos) meio molengões, de uma musicalidade muito pobre… A missa tradicional sempre foi muito parada (“morta”), especialmente quando comparada com os cultos animados, cheios de corinhos e hinos, dos protestantes.

Segundo, as Igrejas Protestantes sempre valorizaram bem mais a “koinonia”, a comunhão dos crentes um com os outros, a sociabilidade. Em uma igreja protestante típica, todos se conhecem, não raram se visitam, freqüentemente, ao chegar a hora, namoram e casam entre si, fazendo com que co-membros se tornem também parentes. Elas têm a Escola Dominical, ambiente em que os membros se dividem por classe, conforme a idade, para estudar a Bíblia e a doutrina. Têm ainda sociedades de mulheres, de homens, de jovens, de adolescentes, de crianças… Organizam brincadeiras sociais, piqueniques, excursões, passeios… Para quem gosta de um ambiente em que se pratica esse tipo de conviviabilidade, esse tipo de característica é extremamente atraente. Ele praticamente inexiste na Igreja Católica convencional.

Assim, quando assediados pelo espírito evangelizador e proselitista dos crentes das Igrejas Protestantes mais recentes (em geral “pentecostalizadas”), católicos que apreciam o ambiente “avivado” e convivial dessas igrejas sucumbem e “mudam de religião”.

(O mais certo seria dizer que mudam de denominação cristã, mas o que o povo diz é mudar de religião mesmo).

Aqui três fenômenos merecem registro…

Primeiro, as Igrejas Protestantes ditas históricas, como, por exemplo, a Luterana, a Presbiteriana, e a Anglicana, não são, hoje, muito chegadas a trabalho missionário urbano do tipo corpo-a-corpo. Sustentam missionários entre os índios, ou na África, mas não são de incentivar cruzadas evangelísticas. No passado, fizeram isso. Hoje, quando muito, transmitem o culto pela televisão ou pela Internet (algo que começa a ficar comum).

Segundo, é estatisticamente desprezível o número de protestantes que se tornam católicos no Brasil. Para todos os fins práticos, a conversão para o catolicismo (não de todo incomum na Inglaterra anglicana), inexiste aqui.

Terceiro, é para mim surpreendente (por demonstrar um espírito anti-ecumênico de intolerância, que é contrário à tendência da época) a reação visceralmente negativa que alguns protestantes do tipo mais conservador têm contra a Igreja Católica, mesmo que nunca tenham sido católicos. Recusam-se a admitir que os “santos” possam ter sido verdadeiramente santos (São José eu tenho certeza de que foi santo, por razões que vão ficar mais evidentes mais adiante), recusam-se até a falar em “Evangelho segundo São João”, têm ogeriza às súplicas e promessas feitas aos “santos” e a Maria (favor não dizer “Santa Virgem Maria”), etc. A possibilidade de que se tornem católicos é, para esses protestantes, talvez mais repugnante do que a possibilidade de se tornarem “nada”…

A propósito, essa é uma expressão curiosa no português coloquial. Algumas pessoas, quando têm de informar qual a sua religião, em vez de dizer “nenhuma” dizem “não sou nada”. Isso talvez porque dizer “sou ateu” ainda choque no nosso Brasil nominalmente religioso. Ou, então, porque dizer que se é ateu, em resposta à pergunta “Qual é a sua religião?”, pode parecer, para a maioria dos ateus, uma incongruência. Porque são ateus, os ateus não têm nenhuma religião – isto é, do ponto de vista da religião, não são nada.

Já que falei em ateus, acho surpreendente o número relativamente pequeno (em termos estatísticos) de brasileiros que se declaram ateus. Mas isso não é incomum também em outros países e em outras épocas.

David Hume, o maior filósofo de língua inglesa que já viveu (era escocês e viveu no século XVIII), sempre foi admirado pelo seu ceticismo, em especial na área religiosa, pelos philosophes franceses (Diderot e patota). Quando foi morar na França (como funcionário da Embaixada Britânica), ficou surpreso ao ver a facilidade com que os iluministas franceses se declaravam ateus e mais surpreso ainda quando descobriu que todos eles o consideravam também ateu (e não cético, como ele preferia). Ele até tentou negar que fosse ateu, insistindo ser apenas cético, etc. (talvez porque ateus podiam ainda ser queimados na Inglaterra e na Escócia do Século XVIII), mas seus protestos não convenceram ninguém].

Aqui no Brasil, o número dos que são ateus, mas acham problemático dizê-lo, parece ser grande, como bem sabe o ex-presidente FHC, que perdeu a eleição para prefeito de São Paulo ao ingenuamente se declarar ateu. Os ateus não declarados em geral se declaram agnósticos, ou (como Hume) céticos, ou simplesmente se declaram sem religião, deixando a impressão (em geral errônea) de que não têm religião mas, pelo menos, acreditam em Deus. São raras as pessoas que continuam inquirindo, depois de respostas assim (pero que las hay, las hay). Seria curioso investigar por que isso se dá aqui no Brasil nessa época dominada pela ciência e pelo secular.

Outra coisa curiosa é que é muito difícil encontrar, aqui no Brasil, ateus evangelizadores, isto é, ateus que procuram convencer os outros de que o ateísmo é a opção mais “racional” e se ponham a campo a ganhar prosélitos ou adeptos para o seu ateísmo. Nos Estados Unidos e na Inglaterra isso existe. O número de livros surgidos recentemente nesses países com o objetivo de convencer os leitores de que Deus não existe e de que o ateísmo, portanto, é a melhor opção (única?), é significativo. São escritos por cientistas, filósofos e jornalistas. Nos Estados Unidos há associações de ateus – ou associações de “humanistas” que se recusam a aceitar a participação na associação de “humanistas cristãos” ou “humanistas religiosos”.

O leitor pode a essas alturas estar se perguntando aonde é que eu quero chegar…

Assim, para encerrar, meu objetivo, modesto, é triplo.

Primeiro:

Queria registrar que muitas pessoas (um grande contingente) são acomodadas no tocante àquilo em que acreditam em matéria de religião. Herdam crenças religiosas, por assim dizer, e vivem a vida inteira com elas sem se dar ao trabalho de investigar seus fundamentos com mais cuidado. Mudar para elas é complicado e difícil, por se isso se acomodam em su
as crenças.

[Muitos desses também acomodam em seus comportamentos: casam-se, porque os pais se casaram e porque, afinal de contas, todo mundo se casa. E, tendo se casado, não se descasam porque (pelo menos até pouco tempo atrás) “casamento é isso aí mesmo”… Acomodam-se, porque mudar é complicado. Vivem infelizes, porque mudar é complicado. Marcello Mastroianni sempre me pareceu um personagem curioso. Era católico, casou-se cedo, teve filhos – e teve uma enorme quantidade de casos e amantes, o mais famoso dos quais, à luz do dia para todo mundo ver, com Catherine Deneuve. Tudo indica que ele realmente amava Catherine (embora aparentemente isso não o impedisse de também traí-la). Tiveram um filho. Mas não se divorciava da mulher porque era católico. Seus catolicismo o impedia de se separar oficialmente da mulher – mas não o impedia de traí-la regular e abertamente.]

Segundo:

Queria também registrar que uma boa parte das pessoas (talvez uma parte menor do que a primeira) é, de alguma maneira, inquieta e incomodada em relação a suas crenças (em especial as religiosas, que são as que me interessam aqui). Diferentemente dos acomodados, sentem uma pressão interna razoavelmente grande para se convencer de que aquilo em que crêem é verdadeiro e que existem boas razões para crer no que crêem. Assim, desacomodam-se, inquietam-se. Em vez de ficarem tranqüilinhos na religião de seus pais, a questão da verdade e das credenciais epistêmicas (eles em geral não usam essa expressão) de suas crenças religiosas os incomoda a ponto de motivá-los a estudar aquilo em que crêem e, se for o caso, sair em busca de algo melhor.

Aqui, porém, é preciso registrar um novo binarismo.

Há os que eu chamaria de inquietos radicais, que nunca param de se questionar. Tendem, em última instância, a se tornar pelo menos céticos ou agnósticos. Alguns se tornam e se declaram ateus. Outros, como vimos, têm receio de se declarar ateus, porque não querem adotar uma postura que pode ser difícil de sustentar em alguns contextos e situações. Não querem que o ateísmo seja para eles como se fosse uma religião. (Para os comunistas o ateísmo era parte do pacote que vinha com a adoção da religião marxista. Embora eles neguem, o comunismo sempre foi uma religião. Na verdade, continua sendo para muitos ainda.)

Há, por outro lado, os inquietos moderados, que se questionam, até com severidade, mas dentro de certos limites. Se religiosos, conseguem, por exemplo, ser extremamente críticos na avaliação das crenças de outras religiões ou de outras denominações. Conseguem criticar, às vezes até acerbicamente, algumas crenças periféricas de sua própria religião ou denominação. Mas tudo, para eles, tem limite. Declarar questão aberta, por exemplo, a existência de Deus, ou a divindade de Jesus, ou a doutrina de que sua morte na cruz e sua posterior ressurreição e ascensão aos céus nos redime dos nossos pecados (desde que realmente creiamos que esse seja o caso), ou a doutrina da inspiração literal e da inerrância da Bíblia, etc., é, para eles, inadmissível.

O número de “cláusulas pétreas” nas crenças desses inquietos moderados varia de pessoa para pessoa e mesmo de uma fase para outra na vida de uma mesma pessoa.

Para alguns, essas cláusulas pétreas são muitas. Questionar a veracidade de qualquer coisa que possa ser sustentada por apelo a algum texto bíblico é, para eles, off limits. Josué parou o sol? Claro! A mula de Balaão falou? Sure. Jonas foi engolido por um peixe grande e vomitado vivo na praia três dias depois? Sem dúvida. Os demais milagres relatados na Bílbia devem ser tomados literalmente? É evidente.

Para outros, no entaanto, o número de cláusulas pétreas é menor. Mas sempre há “cláusulas pétreas”, porque a hora que deixar de haver, o inquieto deixa de ser moderado e corre o risco de ficar um radical. Algumas cláusulas pétreas, por isso, parecem essenciais para o inquieto moderado. Ainda que sejam poucas.

Terceiro:

Ouso sugerir, para encerrar, que, para um cristão convicto e conservador, há duas barreiras difíceis de transpor.

A primeira é a colocada pela doutrina (tese) da inspiração literal e da inerrância da Bíblia. Segundo essa tese, tudo na Bíblia é verdadeiro e foi literalmente inspirado por Deus aos autores, que foram apenas amanuensis da voz de Deus. Assim, é impossível que haja erro na Bíblia.

É verdade que mesmo os cristãos mais conservadores tendem a se recusar a aceitar como verdadeiras ou legítimas algumas coisas que a Bíblia afirma ou prescreve – em especial se estão no Velho Testamento. Recusar-se a aceitar algumas coisas encontradas no Velho Testamento é mais fácil, porque, afinal de contas, o Velho Testamento é a Bíblia dos judeus e foi, em alguns aspectos, pelo menos, suplantado pelo novo. Mas muitos cristãos mais conservadores se recusam a aceitar coisas que estão no Novo Testamento. Dou alguns exemplos. Poucas são as mulheres cristãs que acham que a determinação para que não cortem o cabelo é realmente a vontade de Deus, que deve ser seguida. Ou a determinação de que devam ser submissas a seus maridos. Ou, o que é parte dessa submissão, de que devem “se sujeitar a seu marido” quando ele quiser, sem dor de cabeça, muito sono, muito cansaço ou outra desculpa qualquer.

No caso dessas injunções paulinas, quem as rejeita sempre encontra um jeito de se justificar – mais ou menos. São Paulo (desculpem-me os que acham que não se deve chamá-lo de santo) de vez em quando usava o artifício de dizer “agora (ou aqui) falo como homem”, sugerindo que, quando não dizia isso, estava falando (supostamente) como Deus. Isso permite as pessoas que se recusam a aceitar essas injunções a supor que ali Paulo (para contrabalançar) falava como homem (mesmo que tenha esquecido de esclarecer o leitor…).

No caso da sujeição da mulher às demandas sexuais de seu marido, a pessoa pode sempre retorquir que (São) Paulo também disse que igualmente o marido não poderia se furtar de cumprir o seu dever conjugal se a tanto fosse intimado pela mulher. Tudo bem. A exigência é recíproca. Mas há alguém que a cumpra, nos dias de hoje, mulher ou homem?

E (voltando ao Velho Testamento), diz a Bíblia que Deus criou Adão, e, depois, para fazer companhia a Adão, criou a Eva. Diz ainda que os dois tiveram dois filhos, Caim e Abel, e que Abel foi assassinado pelo irmão, quando aparentemente era muito jovem ainda – razão pela qual Caim e seus descendentes foram amaldiçoados. A questão problemática é: com quem se casou Caim? A Bíblia fala em sua descendência. E não diz que o Criador tenha feito com ele o que fez para seu pai: tirado uma mulher de sua costela. E outros seres humanos, por definição, não havia, posto que a criação havia (relativamente falando) acabado de acontecer. A única resposta viável é que Caim se casou com uma irmã sua. Mas se foi isso, incesto entre irmãos seria admitido pela Bíblia? Caim é amaldiçoado por ter assassinado o irmão, não por ter se relacionado com a irmã…

As coisas começam a ficar mais complicadas em relação, por exemplo, ao nascimento de Jesus. Foi realmente virginal? Ou será que a Bíblia queria dizer apenas que o Messia
s nasceria de uma mulher jovem (parthenós)? Mas a Bíblia registra que José ficou queimado com a história da gravidez de Maria, porque nada havia passado entre eles. José aparentemente acreditou na história do anjo e do Espírito Santo. (Por isso o considero um verdadeiro santo). Mas todo cristão precisa acreditar nisso também? Se a concepção e o nascimento de Jesus foram normais, não virginais, e José foi o pai verdadeiro de Jesus, muda alguma coisa substancial no Cristianismo? Karl Barth, o mais importante teólogo da Igreja Reformada do século XX achava que não. Rudolf Bultmann, o teólogo mais importante da Igreja Luterana do século XX, também achava que não.

Na verdade, Bultmann defendeu a tese de que o Novo Testamento deveria ser “demitologizado”, porque havia se tornado incompatível com crenças básicas do “homem moderno”. A ressurreição física de Jesus? Um mito. O mundo está dividido em três andares, nós aqui no andar do meio, o céu no andar de cima e o inferno no andar de baixo? Ridículo. Jesus subiu aos céus? Subiu aonde? Vai voltar? Voltar? De onde? Nós vamos ser ressuscitados no fim dos tempos? Imagine! Vamos ser arrebatados misteriosamente e sem aviso prévio e levados para encontrar o Jesus que volta nas nuvens? Está brincando comigo. Tudo isso é mito, diz Bultmann, vestígio de uma mentalidade relativamente primitiva, certamente pré-científica. Ao chamar muitas das coisas relatadas no Novo Testamento de mitos, e não de meras superstições, Bultmann indicava que é preciso extrair dos mitos a sua mensagem (o seu kerygma), mas nunca aceitá-los literalmente, como se fossem verdades científicas.

O que sobra quando tudo isso passa ser considerado mito, não fato? Segundo Bultmann, que era um existencialista heideggeriano (Bultmann e Heidegger eram colegas na Universidade de Marburg), sobra a doutrina da existência inautêntica (segundo a carne) versus a existência autêntica (segundo o espírito) –e de como passar de uma para a outra. Mas até a maneira bíblica de se referir a esses dois tipos de existência precisa ser demitologizada e expressa em linguagem mais filosófica, existencialista.

O dilema: ou a gente engole tudo ou, se começa a recusar uma coisinha aqui, outra ali, tem jeito de parar? E parar onde?

A segunda barreira difícil de transpor é a da existência de Deus. Conheço muita gente que se recusa a aceitar a maior parte daquilo que a Bíblia diz – mas que encontra seu limite na existência de Deus.

Que Deus?

Para Tillich, Deus é “the ground of being”, aquele fundamento que mantém o mundo em existência.

Mas esse fundamento é pessoal? É possível falar com ele, pedir-lhe coisas, dar-lhe graças, descobrir sua vontade? Hummm.

É isso. Por enquanto. Tenho certeza de que falei demais.

No ar, entre Tóquio e Chicago, 30 de Abril de 2010.
Rrevisado em São Paulo, em 1º de Maio de 2010 ;
Revisado mais uma vez no ar, agora entre Philadelphia e Seattle, em 4 de Maio de 2010.

Desigualdade material e igualdade formal

A natureza cria os seres humanos, uns machos, outros fêmeas; uns brancos, outros negros, outros vermelhos, outros amarelos, outros meio marrons; uns com olhos castanhos, outros com olhos negros, outros com olhos verdes, outros com olhos azuis; uns com cabelos negros, outros com cabelos castanhos, outros com cabelos vermelhos, outros com cabelos loiros; uns com cabelos lisos, outros com cabelos ondulados, outros com cabelos encaracolados, outros com cabelos bem enroladinhos; uns maiores do que outros ao nascer, uns com tendência a ser altos; uns magrinhos ao nascer, outros gordinhos ao nascer, uns com tendência a engordar, outros com tendência a ser ou permanecer magros; uns com dedos longos e finos, outros com dedos curtos e fofinhos; uns com covinhas no rosto, outros sem; uns com orelhas ou nariz grandes, outros não; uns com nariz afinado, outros com nariz achatado; uns com lábios finos, outros com lábios grossos; uns com olhos puxadinhos, outros com olhos quase arredondados; e assim vai.

Dada toda essa desigualdade em nossaos aspectos físicos, é de supor que, do ponto do vista intelectual, mental em geral, e emocional, nós seríamos todos formatados pela natureza de acordo com uma única forma?

Que somos diferentes, desiguais, únicos seria a coisa mais evidente do mundo se não houvesse uma ideologia igualitária que insiste, contra toda evidência, na nossa igualdade substantiva e material. A desigualdade é tão patente que, quando encontramos duas pessoas muito parecidas, fora gêmeos idênticos, isso nos chama a atenção — exatamente pela exceção.

A filosofia liberal, que eu endosso, defende a tese de que, apesar de todas essas diferenças e desigualdades substantivas e materiais, devemos ser tratados, pela lei e diante dela, e, portanto, na esfera formal, como iguais.

É por isso que sou contra os tratamentos preferenciais aplicados a mulheres, ou a gays, ou a grupos étnicos e raciais, ou a grupos sócio-econômicos. Esses tratamentos introduzem a desigualdade — no caso, o tratamento desigual pela lei e diante dela — exatamente onde essa desigualdade não deveria existir, numa busca, comprovadamente vã, da igualdade substantiva e material.

Em São Paulo, 25 de Abril de 2010

Atores favoritos

Al Pacino faz setenta anos hoje (25/4/2010) – nasceu em 1940.

Ele, Robert de Niro, Jack Nicholson e Anthony Hopkins estão entre meus atores favoritos.

De Al Pacino o meu filme favorito é Scent of a Woman (Perfume de Mulher) – em especial a cena em que ele dança o tango “Por una Cabeza” com Gabrielle Anwar, com, naturalmente, com os trechos que precedem e sucedem a dança, propriamente dita (cena que, a meu ver, é uma das melhores da cinematografia americana), e a cena final, do discurso que ele faz na Assembléia do colégio. 

De de Niro gosto especialmente de sua capacidade de, depois de participar de filmes seríssimos, como The Godfather (O Poderoso Chefão), fazer comédia com extrema competência em Meet the Parents (Entrando numa Fria) e Meet the Fockers (Entrando numa Fria Maior Ainda). Vai haver uma seqüência de Meet the Fockers. Parece que já está em produção. De Niro nasceu (como eu) em 1943. É o guri dessa turma.

De Nicholson gosto de vários filmes, especialmente de três, dois dramas e uma comédia: As Good as it Gets (Melhor é Impossível), About Schmidt (As Confissões de Schmidt), e Something’s Gotta Give (Alguém tem que Ceder). Nicholson nasceu em 1937.

De Anthony Hopkins gosto de quase tudo que ele faz, mas cito, em especial, The Remains of the Day (Vestígios do Dia), Shadowlands (Terra das Sombras), Meet Joe Black (Encontro Marcado), The Human Stain (A Culpa Humana) e Fracture (Um Crime de Mestre). Hopkins também nasceu em 1937. [No comentário que escrevi no Facebook lamentavelmente me esqueci de mencionar Anthony Hopkins].

Mas acrescento dois atores: um, em função de sua interpretação em apenas um filme; o outro, em função de sua interpretação em pelo menos dois.

Primeiro, Dustin Hoffman, em Tootsie. Hoffman nasceu também em 1937 (safra boa!).

Segundo, Clint Eastwood, em The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison) e Gran Torino (Gran Torino, mesmo, em Português) – filmes bastante diferentes um do outro, em que ele é ator e diretor.

Clint Eastwood nasceu em 1930. Fará 80 anos no próximo dia 31 de maio – ou seja, daqui a um pouquinho mais de um mês. É o vovô dessa turma.

Isso quer dizer que ele interpretou e dirigiu Gran Torino quando tinha nada menos do que 77 anos (o filme foi lançado em 2008). Com quase 80 anos, continua trabalhando firme, e cada vez com mais competência e dedicação. O site IMDB indica que três filmes dirigidos por ele estão para sair: Invictus, Hereafter e Hoover. Os filmes que ele dirige são ousados e muito diferentes um do outro, o que mostra a sua criatividade, amplitude de interesses e diversidade de técnicas.

Nesse ponto, Clint Eastwood é meu ídolo sem competição no cinema.

Gostaria, na vida, de chegar aos oitenta com a mesma competência, criatividade, saúde e energia…

Em São Paulo, 25 de Abril de 2010 (enquanto me preparo para viajar para Taipei, capital de Taiwan)

Joaquim José da Silva Xavier – Tiradentes

Sentença proferida contra os réus do levante e conjuração de Minas Gerais:

“Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu”.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes

Em São Paulo, 21 de Abril de 2010

Vergueiro

Meus dois posts anteriores foram desabafos, reclamações. Este também vai ser.

Em Inglês há um ditado que diz “If it ain’t broke, don’t fix it” – “Se não está quebrado, não conserte”. Esse ditado deveria ter sido levado em conta pela Prefeitura de São Paulo fem relação à Avenida Vergueiro, no trecho que vai da Estação Paraíso do metrô até a Av. Sena Madureira.

Moro por ali, passo sempre nesse trecho. Nunca tive maiores problemas antes. A Prefeitura, entretanto, resolveu criar uma faixa para motociletas nesse trecho. Para fazer isso, eliminou todas as conversões à esquerda, em ambas as direções, no trecho. Havia pelo menos três conversões à esquerda, uma na direção da Vila Mariana, duas na direção do Paraíso.  Elas funcionavam bem, porque a rua se alargava um pouco na proximidade delas. O trânsito fluía bem, apesar das conversões à esquerda.

Agora, para ir da Vila Mariana ao Paraíso, se você quer fazer uma conversão à esquerda, tem de entrar por umas ruinhas estreitas que atravancam o tráfego. Para vir do Paraíso para a Viila Mariana, você tem de entrar pela Domingos de Moraes – que já era atravancada e, com o trânsito que se dirige ao Ipiranga e à Imigrantes, fica intransitável. E, não sei exatamente por quê, a Vergueiro ficou totalmente entupida.

Não havia um problema. Quiseram consertar. Criaram um enorme problema. Espero que o consertem logo.

Em São Paulo, 20 de Abril de 2010

Hora de Brasília

Os Estados Unidos têm vários fusos horários. O horário em determinado lugar, como, por exemplo, Washington, DC ou New York, NY, é sempre mencionado como “Eastern Standard Time” (EST). Se o horário é o de San Francisco, CA ou de Seattle, WA, ele é descrito como “Pacific Standard Time” (PST).

Por que nós, no leste do Brasil, e especificamente em São Paulo, precisamos dizer “Hora de Brasília”???

Por que privilegiar um critério político em vez de um critério geográfico?

Eu protesto.

Em Campinas, 20 de Abril de 2010