You Needed Me

You Needed Me é o nome de uma canção popular americana que a cantora canadense Anne Murray popularizou. Foi a música mais popular nos Estados Unidos em 1978. Foi nessa época que eu ouvi a canção pela primeira vez, na festa de encerramento de um congresso de Filosofia da Ciência em Los Angeles. Foi cantada por um homem, de cujo nome não me lembro, mas me apaixonei imediatamente pela canção: pela música e pela letra.

Desde então, venho adquirindo CDs e CDs de Anne Murray, especialmente os hinos e as músicas Gospel. Mas nada chega perto de You Needed Me. O YouTube está cheio de vídeos de Anne Murray cantando a canção.

Transcrevo a letra no final no original em Inglês. Mas a seguir coloco minha tradução meio livre para o Português. Não tentei ser totalmentte fiel ao original, mas fui fiel ao seu espírito. No resto, simplesmente deixei-me levar pela emoção. Nunca fui poeta, nem mesmo tentei escrever poesia. Mas a tradução saiu fácil, em poucos minutos. A primeira metade traduzi de memória, dirigindo o carro pela cidade hoje à tarde.

Você Precisava de Mim

Randy Goodrum

Lágrimas verti, com beijos você as secou;
No mundo me perdi, você me reencontrou;
A alma eu vendi, de volta você a comprou;
Você me pôs de pé, a dignidade voltou…

De alguma forma você precisava de mim…

Coro

A ficar de pé sozinho você me ajudou;
A enfrentar o mundo você me encorajou;
Num alto pedestal você me colocou;
Tão alto que de lá o mundo se apagou…

Você precisava de mim…
Você precisava de mim…

Não pode ser verdade, não posso crer ser você…
Justo quando eu precisava, você aqui se vê!
Nunca mais vou partir — por que partiria?
Finalmente encontrei você… Louco seria!!!

Pois você é alguém que verdadeiramente me quer.

Quando estava fria, minha mão você segurou;
Quando meu pé falseou, para casa você me levou;
Quando tudo era terror, esperança você me mostrou;
Até minhas mentiras em verdades você transformou…

E você ainda me chamou de amigo…

Coro

———-

You Needed me

Randy Goodrum

I cried a tear, you wiped it dry;
I was confused, you cleared my mind;
I sold my soul, you bought it back for me;
And held me up and gave me dignity…

Somehow you needed me…

Chorus

You gave me strength to stand alone again,
To face the world out on my own again,
You put me high upon a pedestal,
So high that I could almost see eternity…

You needed me…
You needed me…

And I can’t believe it’s you, I can’t believe it’s true…
I needed you and you were there!
And I’ll never leave, why should I leave?
I’d be a fool!!!
‘Cause I’ve finally found someone who really cares.

You held my hand, when it was cold
When I was lost, you took me home
You gave me hope, when I was at the end
And turned my lies back into truth again

You even called me friend…

Chorus

Em Campinas, 31 de Julho de 2008

Juliette Binoche e Olivier Martinez

Acabei de ver meu segundo filme hoje — este em DVD, um lindo filme Francês, com os atores cujos nomes estão no título deste post. O título do filme é longo, em Português: O Cavaleiro do Telhado e a Dama das Sombras. O título original é Le Hussard sur le Toit (literalmente, O Cavaleiro no Telhado), de 1995. Trata-se de um filme de época, passado em Provence, no sul da França, em 1832 — momento em que acontecia uma terrível epidemia de cólera que dizimou a população local.

Os artistas são de primeira grandeza – ambos franceses.

Ela, Juliette Binoche, premiada na França e nos Estados Unidos, é famosa no Brasil por razões certas e por razões erradas. Começando com estas, ela foi atriz do famoso Je Vous Salue, Marie, de 1985, que o Presidente José Sarney, apesar de terminada a ditadura e abolida a censura, resolveu proibir que fosse exibido no Brasil a pedido do lobby católico. (Hoje a gente compra o filme em DVD por 9.99 reais nas Lojas Americanas). O filme não é grande coisa e só ficou famoso aqui pela censura sarneyana. Entra as boas razões de sua fama estão The Unbearable Lightness of Being (A Insustentável Leveza do Ser), de 1988, na minha opinião o seu melhor trabalho falando Inglês: história forte e com um grau de erotismo elevadíssimo nas cenas em que ela contracenou com Daniel Day-Lewis.  Em 1992 participou de Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes), mas sua boa atuação não chamou tanto a atenção, e de Damage (Perdas e Danos), onde representou cenas lindas de amor quentíssimo com Jeremy Irons — bem mais velho do que ela e o pai de seu namorado no filme. O filme aqui comentado foi feito em 1995 e sua atuação foi excelente. Mas a consagração em nível mundial veio em 1996 com The English Patient (O Paciente Inglês), que lhe trouxe o Oscar de Melhor Atriz em Papel Principal, e em 2000 com Chocolat (Chocolate), filme que lhe trouxe nova indicação para o Oscar de Melhor Atriz em Papel Principal. Duas indicações e uma vitória nessa prestigiosa categoria do Oscar em menos de cinco anos é algo notável, em especial em se tratando de atriz que não fez carreira nos Estados Unidos e cuja língua principal não é o Inglês – mas, no caso, inteiramente merecido. Eu uma vez disse que Juliette Binoche (como Julianne Moore) não é uma atriz tipicamente bonita pelos padrões de beleza de Hollywood – mas quando interpreta se torna lindíssima. Continuo a achar isso.

Olivier Martinez é menos conhecido do que ela, mas ficou famoso com o filme Unfaithful (Infidelidade), de 2002, em que tem um caso bastante quente com Diane Lane, mulher de Richard Gere na história. Não é conhecido fora da França por nenhum outro filme. Mas teve papel destacado no filme aqui comentado. Bonito, é conhecido com o Brad Pitt Francês.

Juliette Binoche viveram juntos de 1995 a 1998 — ou seja, durante três anos, logo depois do filme.

Mas volto ao filme mencionado no início – que é uma linda história de amor. Como as mais lindas histórias de amor, é uma história que não dá certo. Dar certo, no caso, significaria que os dois protagonistas terminassem o filme juntos. Ficam separados. O amor surge e cresce entre eles enquanto ela procura o marido, que havia sumido no início da epidemia de cólera e ele a ajuda e protege. Mas o marido reaparece no final do filme e eles não conseguem consumar o amor que havia surgido entre eles. Amores não consumados são sempre tristes e frustrantes. E a história termina nesse tom de desapontamento.

Mas o filme vai além da história e filme termina com uma mensagem desesperança na tela dizendo que o marido percebeu, antes dela, que o amor que ela vivera com o amante (amante que foi, sem nunca ter sido) era algo que ela nunca iria esquecer — e dizendo que, por isso, o marido, generoso e compreensivo, não a impediria de sair um dia ao encontro do amado, se ela assim o desejasse.

A audiência, tenho certeza, teria seria sido unânime em aplaudir a decisão, se ela acontecesse. Juliette Binoche não tomou essa decisão dentro dos 135 minutos do filme. Fê-lo, entretanto, na vida real. Durante o caso de três anos dos dois, correram freqüentemente na imprensa sérios boatos de que ela havia ficado grávida dele.  Os boatos, evidentemente, não se confirmaram. Mas se tivessem tido um filho, a criança provavelmente teria sido linda, inteligente, forte de personalidade, e talentosa, como ambos são. Um menino, eu diria…

Em Salto, 26 de Julho de 2008

Doçura

Das filhas da Ana Paula Arósio na novela Ciranda de Pedra, a mais doce certamente é aquela que também é filha do Marcelo Antony. Parece haver consenso sobre isso. E olhem que a concorrência ali é dura: a novela é absolutamente adocicada. E é minha novela favorita hoje.

Mas não há consenso sobre o que significa para uma pessoa ser doce.

No post anterior disse que a Gabrielle Anwar é, nos dois filmes que ali listei (Perfume de Mulher e Mergulho na Paixão), tão doce que deveria ser proibida para diabéticos. As outras atrizes que ali menciono (Meg Ryan, Claire Forlani, Rachel Adams) são todas incrivelmente doces nos seus papéis naqueles filmes.

Mas no que consiste a sua doçura? Difícil de dizer. Mas a doçura é quase impossível de não reconhecer.

Já fui chamado de duro, seco, insensível, até desumano. Mas sei que consigo, de vez em quando, ser doce. No entanto, confesso que não consigo direito identificar o locus da minha doçuram quando consigo ser doce. Estaria no olhar? No sorriso? No jeito de tratar? Nas frases ditas? Na leveza e delicadeza do toque? Num mix de tudo isso?

Em A Insustentável Leveza do Ser, filme baseado no livro de Milan Kundera, Juliette Binoche, linda como sempre, consegue ser doce. Também é doce em Chocolate (como não poderia ser, num filme com esse nome?) — mas a doçura é diferente. A primeira é uma doçura sensual, como a doçura erotizante do doce de leite, ou do leite condensado, ou do licor Grand Manier ou Cointreau. A a outra é uma doçura mais leve, quase como a doçura de um adoçante — ou o doce extremamente leve de uma água aromatizada ou do refrigerante H20. A gente sente a diferença, mas tem dificuldade de definir no que exatamente ela consiste.

Em Zen e a Manutenção da Motocicleta Robert Pirsig pergunta, através do personagem principal, o que é qualidade no pensamento e na sua expressão. No fundo, ele sabe e reconhece. Mas, como o resto de nós, tem dificuldade de definir. Como é que um professor de redação sabe que um trabalho merece 8,5 e o outro 8,75?

É difícil dar notas numéricas a coisas como a qualidade de um pensamento ou de sua expressão, a doçura de alguém, ou a intensidade ou profundidade de um sentimento, como a amizade ou o amor.

Mas, no fundo, a gente sabe, reconhece e consegue comparar. 

Em Salto, 26 de Julho de 2008

Gabrielle Anwar

Não sou daqueles que se apaixonam por uma atriz de cinema e se tornam seus devotos incondicionais. Ingrid Bergman e Marilyn Monroe chegaram perto de ser exceções. Mas me apaixono com freqüência por combinações de atriz-papel. Há atrizes lindas e cativantes em um determinado papel — e horríveis e detestáveis em outros. Quando uma combinação dá certo, é imbatível. Meg Ryan em Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle), por exemplo; ou Claire Forlani em Encontro Marcado (Meet Joe Black); ou, então, Rachel Adams, em Diário de Uma Paixão (The Notebook), por exemplo. Sou irremediavelmente apaixonado por essas combinações de atriz-papel.

Um outro caso, que quero comentar aqui agora, envolve Gabrielle Anwar. Ela é a atriz que dança o tango Por una Cabeza com Al Pacino em Perfume de Mulher (Scent of a Woman), de 1992. A música — de Carlos Gardel — é maravilhosa (é tema musical deste Space quase desde o início) e a cena inesquecível. A maior parte do que torna a cena inesquecível é, naturalmente, o desempenho de Al Pacino. Mas Gabrielle Anwar, convenhamos, é uma coadjuvante perfeita. Linda, doce, com um riso natural cativante, e com um sorriso de desmontar as mais deliberadas resistências, ela ajuda tornar a cena perfeita.

A duração da cena é pequena — logo o babaca do namorado dela vem buscá-la, e nem percebe que ela acaba de viver (como Al Pacino disse ser possível) uma vida inteira num minuto. (Interessante que essas experiências de viver como se fosse uma vida inteira num minuto são vividas, às vezes, na frente de um monte de pessoas que nem percebem que uma incrível intimidade aconteceu diante de seus olhos — sem que eles vissem. Infelizmente, essas experiências raramente acontecem entre namorados, noivos ou cônjuges. Parece que um toque de ilegitimidade, talvez até mesmo de perigo iminente, seja indispensável para que esses momentos de experiência ou vivência altamente compactada possam acontecer.)

Tenho certeza de que adoro a música Por una Cabeza porque me apaixonei por Gabrielle Anwar naqueles cinco minutos (se tanto) de cena. E a música, através do blog, continua a servir de tema musical para a minha vida. [NOTA: Como já dito atrás, essa música foi tema deste blog quando ele era hospedado no Microsoft Spaces. 27/12/2013]

Hoje (26/7/2008) estava com a TV ligada sem finalidade alguma — só para que ela me fizesse companhia, por assim dizer — quando começou (às 16h35) um filme: Mergulho numa Paixão (Wild Hearts Can’t be Broken), de 1991 — um ano antes do outro filme. É uma história real — e também muito linda e triste. E Gabrielle Anwar é a protagonista. Linda e doce novamente. Magnífica atriz. Dulcíssima em seu papel. Diabéticos deveriam ser proibidos de vê-la em cena.

A história, em si, é bonita (e, como disse, triste). Mas é uma história de quem define ou escolhe um sonho e um projeto de vida e não mede esforços para torná-lo realidade — nem quando a sorte parece conspirar contra. O título do filme no original corresponde melhor à natureza da história: Corações Selvagens não Podem ser Domados (a história envolve cavalos — donde a referência à domesticação — mas o coração, bem humano, é o dela).

Recomendo. Gabrielle Anwar e o filme. Ainda estou com os olhos cheios de lágrima que correram quando da cena final de vitória sobre a adversidade. História real.

Vejam os dados técnicos sobre o filme em http://www.imdb.com/title/tt0103262/.

Em Salto, 26 de Julho de 2008

Instantes e Epitáfio

[O poema a seguir é atribuído a Jorge Luís Borges. Na Internet há uma viva discussão se ele é o autor, ou se o poema é de outro autor (Don Herold, talvez), tendo Borges apenas o adaptado, se tanto. De qualquer modo, o conteúdo não se altera, qualquer que seja o autor.]

Si pudiera vivir nuevamente mi vida,
en la próxima trataría de cometer más errores.
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.
Sería más tonto de lo que he sido,
de hecho tomaría muy pocas cosas con seriedad.
Sería menos higiénico.
Correría más riesgos,
haría más viajes,
contemplaría más atardeceres,
subiría más montañas, nadaría más ríos.
Iría a más lugares adonde nunca he ido,
comería más helados y menos habas,
tendría más problemas reales y menos imaginarios.

Yo fui una de esas personas que vivió sensata
y prolíficamente cada minuto de su vida;
claro que tuve momentos de alegría.
Pero si pudiera volver atrás trataría
de tener solamente buenos momentos.

Por si no lo saben, de eso está hecha la vida,
sólo de momentos; no te pierdas el ahora.

Yo era uno de esos que nunca
iban a ninguna parte sin un termómetro,
una bolsa de agua caliente,
un paraguas y un paracaídas;
si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.

Si pudiera volver a vivir
comenzaría a andar descalzo a principios
de la primavera
y seguiría descalzo hasta concluir el otoño.
Daría más vueltas en calesita,
contemplaría más amaneceres,
y jugaría con más niños,
si tuviera otra vez vida por delante.

Pero ya ven, tengo 85 años…
y sé que me estoy muriendo.

Compare-se a linha mestra desse poema com Epitáfio, dos Titans:

Devia ter amado mais, ter chorado mais,
Ter visto o sol nascer…
Devia ter arriscado mais e até errado mais,
Ter feito o que eu queria fazer…

Queria ter aceitado as pessoas como elas são,
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração.
O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído,
O acaso vai me proteger, enquanto eu andar…

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr…
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor…

Queria ter aceitado a vida como ela é,
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier.
O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído,
O acaso vai me proteger, enquanto eu andar…

Devia ter complicado menos, trabalhado menos…

A tônica dos dois poemas pode ser resumida na frase de Horácio: carpe diem, quam minimum credula postero – aproveite o dia de hoje, porque no futuro não se pode confiar…

Em Salto, 24 de Julho de 2008

Educação e Escola

[Este texto foi escrito, em parte, com base numa conversa com Ricardo Semler em 23 de Julho de 2008, e publicado no dia seguinte. Há uma nova versão dele, com pequenas modificações, publicada em 2010, com a indicação de que se trata de uma reimpressão.] 

A escola convencional, que até hoje persiste, é uma instituição totalmente alicerçada no passado.

O fato de que ela dá férias prolongadas aos seus alunos no verão é reflexo de uma era pré-industrial, quando a agricultura dominava a vida. Na época da colheita, os alunos precisavam ajudar os pais no campo – daí, as férias mais longas nesse período.

A duração da aula, fixada em cerca de 50 minutos, se deve ao fato de que, antigamente, se considerava que o “attention span” das crianças não passava de mais ou menos isso. Hoje, outros estudos mostram que a televisão, as empresas de marketing, etc., calculam o “attention span” dos adultos em cerca de apenas oito minutos. Por isso os segmentos das novelas e dos noticiários são quebrados em vários períodos de mais ou menos oito minutos – e os vídeos institucionais raramente ultrapassam essa duração. (E, no entanto, uma criança jogando um videogame novo, desses em que você pode progredir para estágios cada vez mais avançados, fica até três horas jogando, sem perder a concentração…)

O tamanho da sala de aula tradicional – para no máximo 40 alunos – representa o espaço que podia ser alcançado pela voz humana desassistida da tecnologia.

Os professores, todo especialistas, refletem um período em que se acreditava que a verdade estava na especialização e que era preferível saber quase tudo sobre quase nada do que saber um pouco sobre um monte de coisas.

A retenção média pelos alunos daquilo que o professor diz numa aula normal de uma escola convencional é 6%. Isto significa que na escola há uma perda de 94% do que o professor diz.

Nenhuma instituição com uma taxa de perda ou rejeição de 94% sobrevive – exceto a escola. Manter esse sistema hoje é manter o mais incompetente sistema que jamais se criou. Ele nega tudo o que sabemos sobre como crianças, adolescentes e jovens aprendem – na verdade, sobre como qualquer um aprende.

A aprendizagem é fruto da curiosidade, e a curiosidade, do interesse. Basta assistir ao lindo filme Céu de Outubro (October Sky). Quando temos interesse por alguma coisa, e temos a liberdade de explorá-la, não há problema de falta de motivação, de perda de atenção… Mas explorar é algo ativo, diferente de simplesmente prestar atenção, ver, ouvir ou ler… Se a curiosidade e o interesse da criança tiverem a sorte de topar com a paixão pelo tema e o know-how necessário para explorá-lo de um adulto experiente, será um “match perfeito”. Nada impedirá a aprendizagem da criança nesse caso.

Estudos têm mostrado que, quando nós, adultos, olhamos para trás para identificar os mestres que fizeram uma diferença em nossa vida, encontramos no máximo uns três, talvez uns quatro – cinco ou seis se tivermos muita sorte. E esses não são lembrados pelo conteúdo que nos ensinaram. São lembrados, primeiro, porque tinham paixão por alguma coisa. São lembrados, também, pelo fato de que essa paixão os levara a se dedicar boa parte de sua vida a essa coisa, a explorá-la de todos os ângulos. A paixão, a sede de conhecer mais sobre o objeto da paixão, e a competência decorrente tinham o poder de contagiar as jovens mentes que tinham contato com eles. E, assim, elas abriam os horizontes das jovens mentes.

Eis o que diz sobre esse assunto, por exemplo, John Steinbeck, escritor americano, Prêmio Nobel de Literatura:

“O bom professor, como o grande artista, é raro… Encontramos muito poucos deles na vida. Se você tem sorte, ao olhar para trás, descobre uns dois ou três deles. Eles não lhe passaram informações. Eles não lhe disseram o que fazer. Eles lhe abriram a porta de um novo mundo e o ajudaram a entrar nele, acreditando que aprender é sempre uma aventura fascinante, porque é assim que a gente constrói a própria vida.”

Crianças curiosas, interessadas, motivadas não precisam que ninguém lhes ensine nada. Aprendem por si só, quando têm curiosidade, interesse, motivação – e, quando são contagiadas pela paixão, pelo entusiasmo, pelo conhecimento, pela competência de alguém. Educar não é encher um balde. Educar é acender uma luz: uma vela que, por sua vez, vai, um dia, acender uma outra… (A imagem é de William Butler Yeats).

E crianças não precisam aprender a aprender. Ela vem de fábrica com essa capacidade. Aprende a reconhecer as faces da mãe, do pai, dos familiares sem que ninguém lhe ensine nada; aprende a entender a fala humana e, no devido tempo, a falar, sem que ninguém lhe ensine nada; aprende a andar, a correr, a pular, sem que ninguém lhe ensine nada. Basta querer – e querer ela cedo ou tarde quer, se a escola tradicional não matar a sua curiosidade.

A Lumiar é uma escola criada dentro dessa visão.

Em Salto, 24 de Julho de 2008

Tempos que não voltam mais…

[Conforme prometido na crônica "Eu era pobre e feliz… e não sabia", aqui está a crônica, escrita em 1954 por meu pai, Oscar Chaves, e enviada ao “Programa da Saudade”, da Radio Difusora (não Tupi, como eu disse) pelo apresentador do programa, Décio Pacheco da Silveira, por quem meu pai tinha enorme admiração.]

Por que gostamos de recordar os dias passados, longínquos, saudosos, da nossa infância?

Todos nós, depois de grandes, temos um pouco da nostalgia e do sentimentalismo de Casemiro de Abreu, quando chorava, nos versos, a sua “infância querida que os anos não trazem mais”.

Sim, amigo, você tem as suas recordações, com certeza. Eu também as tenho. E como é doce lembrar aquele tempo em que a gente, inocente e despreocupado, “adormecia sorrindo e despertava a cantar”.

Minha cidade era pequena, sossegada e poética, escondida entre as montanhas grandes e corcundas lá do oeste de Minas: Patrocínio. Foi lá que meus pais nasceram, e foi lá que eu vi a luz do sol e me criei. Patrocínio antiga era melhor e mais encantadora do que a de hoje. Talvez eu tenha esta impressão por causa dos sonhos e das alegrias da minha meninice. Tudo, antigamente, parecia melhor, mesmo com o atraso e com a falta de conforto que havia. Ainda me lembro de minha cidade sem luz elétrica. Parecia mais gostosa ainda, pois, em vez de brincarmos à noite, nós, os moleques, nos sentávamos ao redor da “Sia Adélia”, a velhinha magra e bondosa que nos contava histórias todas as noites, à porta de sua casa.

Que histórias extraordinárias ela nos contava! Almas do outro mundo, mulas sem cabeça, assombrações, homens que viram lobisomens… Ela contava, com arte de mestre, coisas que nos deixavam arrepiados!

Eu, o Raul e o Mauro (meus manos), o Joãozinho da S’Adélia, o João do Nilo, o Bias seu irmão, o Walterson (que nós chamávamos de Son) e outros, nós nem piscávamos, eletrizados pelas palavras da nossa boa velhinha. A noite, lá pelas dez horas, quando ela se despedia de nós e entrava em sua casa, nós ficávamos com um medo terrível de nos separarmos para dormir. Parecia-nos ver aquele vulto branco que toda sexta-feira, à meia-noite, gemia debaixo da árvore, perto da porteira, e que costumava montar na garupa do cavaleiro que transitasse por aquelas bandas…

Eu e os manos tínhamos receio até de atravessar a rua, pois nossa casa ficava bem em frente à casa da S’Adélia. – Boa e inteligente velhinha!

Às vezes, sentados em grupos, na calçada de minha casa, à noite, nós fazíamos um dueto triste e dolente, que enchia o “Largo da Cadeia”. Cantávamos a “Tristeza do Jeca”, “O Meu Boi Morreu”, “A Madrugada que já passou”… E esse dueto, bem afinado e sentimental, não deixava de ter a sua poesia e a sua beleza simples. No dia seguinte, no Grupo Escolar, dona Amélia, minha professora, que morava perto, elogiava, alegre e entusiasmada, as vozes tão bonitas que tinham cantado lá no Largo…

E o futebol, no Largo da Cadeia? A molecada se reunia ali, e quase sempre, com bola de pano (ponta de meia velha) a peleja chegava a tal ponto de entusiasmo que terminava em briga. Quanto dedão machucado, quanta unha arrancada naqueles jogos!

E o Carnaval, então? Era uma beleza! Tudo inocente e engraçado. Não tinha as imoralidades, as malicias de agora. A coisa mais engraçada para nós era ver o Tito padeiro vestido de mulher, muito sério, pela rua afora. O Raul Rodrigues, narigudo e feio, vestido de caipira, era também um número extraordinário! Homens de perna de pau, altos, da altura das casas, mascarados, saíam pelas ruas e jardins, acompanhados da meninada… E o povo cantando: “A baratinha, Yayá, a baratinha Yoyô”, “Periquito louro, do bico dourado”… Oh, tempos felizes aqueles!… Não voltam mais, nunca mais!

Depois fomos crescendo, tomando rumos diferentes, separando-nos devagarzinho… Uns, a morte levou. Outros, levou-os a vida. Separamo-nos.

Faz 20 anos que deixei minha terra (*). Tenho-a visitado de vez em quando. Mas não é mais a minha querida Patrocínio. Tudo diferente. Os amigos velhos não estão mais lá. S’Adélia morreu há pouco tempo, cheia de anos e de bondade. O Totonho, seu marido, que ensaiava a banda de música, também morreu há pouco. O Raul lá está ainda, o meu mano. O Mauro formou-se em Lavras, e trabalha em Belo Horizonte. O Walterson é hoje um médico ilustre na Capital mineira. O João do Nilo e o Bias sumiram-se, não sei para onde. Minha querida mãe também (que tantos socos me deu na cabeça por causa do futebol no Largo da Cadeia) está em Belo Horizonte. Eu cá estou, em São Paulo, como ministro do Evangelho, pregando a doutrina de Jesus aos meus bons patrícios.

Mas tenho saudades, imensas saudades da minha terra. Se me fosse dado viver outra vez, eu gostaria de nascer e passar a minha infância lá mesmo, em Patrocínio, meu querido rincão mineiro. Mas não nessa Patrocínio atual. Naquela outra, aquela antiga, poética, inocente, e sem luz elétrica…

Oscar Chaves
Santo André, SP – 1954

(*) Meu pai saiu de Patrocínio em 1934 para ir estudar no Instituto José Manuel Conceição, em Jandira, SP, de 1934 a 1938. Eu estudei no mesmo Instituto de 1961 a 1963.

Me, myself and I

Letra da música de Billie Holiday citada num dos posts de hoje:

Me, myself and I
Are all in love with you.
We all think you’re wonderful.
We do!

Me, myself and I
Have just one point of view:
We’re convinced
There’s no one else like you.

It can’t be denied, dear,
You brought the sun to us.
We’d be satisfied, dear,
If you’d belong to one of us.

So, if you pass me by,
Three hearts will break in two.
‘Cause me, myself and I
Are all in love with you.

Em Salto, 24 de Julho de 2008

Crepúsculo

Das estações do ano, gosto mais do Outono. Devia viver em um lugar mais distante dos Trópicos, onde as árvores, antes de perder de vez as folhas, se tornam amarelas, alaranjadas, quase marrons. É uma visão linda. Prenúncio do Inverno que chega.

Das estações do dia, gosto mais do Crepúsculo. Hoje, vindo de Campinas para Salto, entre cinco e meia e seis e meia da tarde, fiquei observando o céu… Inicialmente, escuro, ameaçador: parecia que vinha uma tempestade. Depois, aos poucos, o escuro do céu foi abrandando e as cores se tornaram claras: tons de azul e rosa misturados, com um resto de sol tentando aparecer entre nuvens, mostrando, quem sabe, que, mesmo quando tudo parece perigoso e ameaçador, ainda há esperança.

Talvez, anos atrás, preferisse a Primavera e o Amanhecer — ou, pelo menos, o Verão e o Dia. Outono e Crepúsculo são rótulos que se aplicam à fase final — ou, talvez, antefinal — da vida. A fase final mesmo seria o Inverno e a Noite. Talvez minhas preferências, hoje, signifiquem que acredite que ainda tenho algum tempo: que o Inverno e a Noite ainda podem esperar um pouco… Que, talvez, seja possível extrair alguma Primavera e algum Amanhecer do que resta.

Cheguei aqui ao meu sítio, O Canto da Coruja, à noite — mas o céu ainda mostrava, aqui e ali, restos da luz do sol. Agora, tudo é noite.

Em Salto, 24 de Julho de 2008

Eu era pobre e feliz… e não sabia

O título da autobiografia de Simone Signoret, durante anos a grande dama do cinema francês, e, por um bom tempo, mulher de Yves Montand, é notável: La nostalgie n’est plus ce qu’elle était A nostalgia não é mais o que era — nem ela escapa das mudanças do nosso tempo…

Hoje amanheci me sentindo meio esquisito, com uma sensação no peito que, paradoxalmente, era de vazio e de opressão, como se, dentro dele, houvesse, ao mesmo tempo, muito pouco e demasiado… E senti saudade de um tempo em que a vida era simples e descomplicada, sem problemas, sem angústias, sem sofrimento (real sofrimento)… O tempo da infância. Aquele tempo em que, para usar as sábias palavras de Ataúlfo Alves (em “Vida de minha Vida”), a gente “era feliz e não sabia…” E senti nostalgia. Nostalgia da boa, não aquela que não é mais o que era.

Meu pai, nos idos dos anos 50, escreveu uma crônica chamada “Tempos que não voltam mais”, para um programa chamado “A Hora da Saudade”, da antiga Rádio Tupy (se bem me lembro). Na crônica, linda (vou ver se a acho para transcrevê-la aqui), ele invocava Casemiro de Abreu, em “Meus Oito Anos”. Ali o poeta dizia: “Ah que saudades eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras, à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais”… A principal lembrança de meu pai era o jogo de futebol na Praça da Matriz, em Patrocínio, usando uma bola de meia…

Bola de meia!!! Que pobreza! E, no entanto, que felicidade a dele!

Estava, aqui, “me, myself and I”, como diz o título da música de Billie Holiday, quando encontrei o artigo de Anna Veronica Mautner, na Folha de hoje (24/7/2008), “Onde foi parar o campinho?” (transcrito abaixo). E daí minha memória viajou livre, e minha nostalgia transpôs os limites, conectando todas as memórias mencionadas nos parágrafos anteriores.

Isso, porque eu também tive o meu campinho. Era meu, não porque ficasse em terreno de propriedade da família (a família não tinha quase nada), mas porque ficava em frente à minha casa, na Travessa Particular, 10, em Santo André, entre as ruas Senador Flaquer e Onze de Junho. Neste tempo de condomínios e edifícios de luxo, com nomes e endereços nobres, ninguém mais mora em “travessa”. Travessa é coisa de vila, e morar em travessa é coisa de pobre. E eu era pobre — embora, para parodiar o grande Ataúlfo — eu não sabia. Na verdade, não tinha a menor consciência do fato.

O ano era 1952, eu tinha oito anos (como no poema de Casemiro), e havíamos acabado de nos mudar para Santo André. Meu pai, Oscar Chaves, era pastor protestante (presbiteriano). Muitos dos pastores de hoje têm dinheiro. Não o meu pai. Ganhava uma miséria da igreja, o que tornava a vida apertada em casa. Apenas sei disso olhando em retrospectiva. Na época parecia que todo mundo era assim, e, portanto, não havia razão para nos considerar diferentes. Em casa tomávamos um leite em pó ruim, detestável, meio salgado, que os americanos doavam para os países pobres (acho que pela Aliança para o Progresso)… Sobremesa (goiabada de lata) só quando meu pai pagava a caderneta no armazém do português, uma vez por mês… Talvez seja por isso que, de vez em quando, fico meio desesperado por doce até hoje…

Mas deixo a pobreza temporariamente de lado para me concentrar na felicidade.

A felicidade era o campinho na frente de casa. Chamar aquilo de “campinho” pode dar a impressão errada, pode evocar nas pessoas de hoje a imagem de um espaço regular, gramado, com goleiras, quem sabe até marcado de cal… Não. O campinho da Travessa Particular era apenas um terreno baldio, cheio de mato, pedras, cacos de vidro, com apenas uma pequena clareira, onde a gente jogava bola. As goleiras eram marcadas por pedras e tijolos. Se a bola passava meio alta, era uma briga para decidir se havia sido gol ou se a bola havia passado por cima… (por cima de quê???). Nada disso, porém, impedia que a gente jogasse bola no campinho e, com o tempo, fosse aumentando a clareira, de tanto pisar no mato circundante.

Em 1952 a instituição da bola de meia já havia desaparecido. A gente jogava com bola de borracha ou, quando havia (que glória!), de couro (chamada de “bola de capotão”)… Logo depois do almoço a meninada começava a juntar para o joguinho que durava quase a tarde toda. O problema é que muitas vezes não havia bola… Era necessário esperar por algum felizardo que tivesse uma bola para a gente começar a jogar. O dono da bola, naturalmente, tinha privilégios: podia começar escolhendo quem iria jogar do seu lado (uma vantagem enorme, porque sempre havia um craque no grupo, que era disputado pelos dois lados). E, naturalmente, ele decidia quando o jogo terminava. Bastava a mãe gritar o nome do dono da bola naquele tom inconfundível de urgência numa das casas da redondeza, e o jogo estava terminado, como se um juiz houvesse dado o apito final. Quando isso acontecia, o resto da meninada se sentava no chão empoeirado e ficava conversando, ou, então, jogando bolinhas de vidro (então chamadas “fubecas” em Santo André), enquanto esperava uma nova bola, que raramente vinha.

O que me deixa perplexo, hoje, é que tão poucos tivessem uma bola. Eu só vim ter a minha primeira bola de capotão (número 3) quando preenchi um álbum de figurinhas de futebol em 1954. Para completá-lo, precisei da ajuda de meu pai, que me deu uns trocados para eu comprar a dificílima figurinha da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), última do álbum, carimbada, que parecia nunca sair nas balas (as figurinhas naquela época vinham em balas, às vezes se sujavam quando as balas, do tipo “paulistinha”, melavam). Descobri um menino que tinha a bendita figurinha que me faltava, e implorei ao meu pai os trocados necessários para comprá-la. Ele me deu, eu a comprei, e ganhei minha bola. Pela primeira vez eu poderia ser o dono da bola…

Mas eu tinha um ciúme doido dela. Tinha medo de ela ficar arranhada e esfolada nas pedras — ou, pior, de ela furar ao bater num caco de vidro. E havia sempre o perigo de um chute forte e mal direcionado fazer com que a bola caísse na oficina do seu Isaque — daí seria o fim definitivo: ninguém tinha lembrança de o seu Isaque haver jamais devolvido uma bola… A minha bola logo se arranhou e esfolou toda, perdeu a cor alaranjada que tinha, quando nova… Mas, por um tempo, era a melhor bola do pedaço — o que me fazia o rei do campinho… O pessoal me implorava para ir jogar — e eu, morrendo de vontade, fazia doce… (a expressão não existia então, mas a coisa, sim).

Não sei que fim levou a minha primeira bola. Durou um bocado. Deve ter morrido de velha. Depois de um tempo ganhei no Natal uma número cinco. Naquela época não era costume ganhar presentes caros — e uma bola de capotão número 5 era um presente caro em minha casa então…

Eu era pobre… e feliz (e não sabia!).

Um dia desses eu fiz uma referência ao “meu tempo” e alguém disse que o meu tempo era hoje. Talvez seja. Mas aqueles tempos distantes, na proletária Santo André dos campinhos de rua, e que (como os jogos com bola de meia de meu pai na Praça da Matriz de Patrocínio) também não voltam mais, eram muito meus. E a nostalgia que me dá lembrar deles é “minha, bem minha, de ninguém a tomei”…

Da pobreza não sinto saudade. Não sou como aqueles intelectuais que enaltecem a pobreza. Mas da felicidade simples e descomplicada que a acompanhou na minha infância, sim, sinto falta dela.

Em Campinas, 24 de Julho de 2008

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Folha de S. Paulo
24 de Julho de 2008

Onde foi parar o campinho?

ANNA VERONICA MAUTNER


[…] CABE À SOCIEDADE PROPICIAR ESPAÇO PARA A EXPERIÊNCIA DOS PAPÉIS SOCIAIS QUE DEVERÃO SER ASSUMIDOS POR ADULTOS


O velho campinho foi o espaço livre onde se brincava na cidade grande. O medo acabou com ele. Vivendo e nos defendendo de forças que nos empurram -de um lado para a vala comum da estandardização e de outro para a premência de sermos únicos e diferentes de todos-, ficamos sem tempo e espaço para brincar e curtir.

Para nossos filhos, púberes ou pré-adolescentes que vivem em grandes cidades sem espaço lúdico, o impacto dessas forças acaba invadindo o cotidiano.

Não dá para eles realizarem tranqüilamente as escolhas que essa dicotomia coloca. É no lúdico que são feitas as escolhas descompromissadas, que funcionam como exercício de autonomia. Criança brinca; adolescente e adulto curtem o que lhes é agradável. No lúdico, pomos à prova o nosso potencial.

Por meio de acertos e erros, aprendemos a refletir sobre nossa relação com o mundo e com nós mesmos. Nessa encruzilhada entre “eu e nós”, é forjado nosso eu, que será tão mais claro quanto mais tivermos tido tempo de faz-de-conta.

Na falta de espaço para experiências emocionais, encontram-se as fontes dos sentimentos de vazio interior e da dificuldade de criar empatia. É aí que o pré-adolescente se sente mal-cuidado e tenta salvar sua integridade existencial forjando experiências que podem ir de violência a apatia.

A agressão pode se voltar contra o meio material (prédios, ruas, jardins) e também contra pessoas. Depredação, pixação e quebra-quebra podem ser vistas como o uso do meio como brinquedo. Essas ações são de grupos aos quais faltaram condições de estabelecerem um imaginário satisfatório.

A sociedade civil vem falhando no provimento do espaço urbano lúdico, onde meninos exercitem liderança, potência, dominação, submissão etc., de que vão precisar no futuro.

Onde estão os quintais, as escadas e os corredores onde as meninas brincavam de casinha, de escolinha e de salão de beleza? Não se impede que as meninas também joguem bola, futebol, amarelinha, queimada.

O espaço livre é necessário para encontrarmos liberdade de entrar e de sair, de participar e de abandonar, de excluir e de ser excluído, fatos inevitáveis na vida de todo cidadão livre.

Fala-se mais em tornar a aprendizagem formal agradável do que em fornecer espaços lúdicos e prazerosos. O jovem que é impedido de fazer parte de várias galeras deixa de se exercitar para a vida adulta.

Sem pretender que isso seja tomado como receita, cito clubes, acampamentos de férias, parques, praias, bandas de música, grupos de teatro, a rua e a praça. Cabe à sociedade propiciar espaço para a livre experiência dos variados papéis sociais que deverão ser assumidos por adultos.

Os espaços livres fazem falta.

Neles se podia brincar longe de casa, sem supervisor. Mas isso era num tempo em que havia espaço e segurança. Vamos tentar reinventá-los?


ANNA VERONICA MAUTNER
Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (ed. Ágora)
amautner@uol.com.br