(O Brasil) “Agora, vai!” (Será?)

Bom artigo de Fábio Barbosa na Folha de hoje (30/01/2011), discutindo questões como a valorização da moeda, competitividade e educação.

A tese dele: “Não temos como reverter a condição de que não escaparemos de ter uma moeda valorizada”. Assim, temos de melhorar a competitividade e melhorar a qualidade da educação, tendo esse fato como dado.

Tendo a concordar com ele. Esse negócio de querer nos fazer mais competitivos manipulando o câmbio e outros macetes não está com nada.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me3001201115.htm 

FÁBIO BARBOSA

Agora, vai!

Não temos como reverter a condição de que não escaparemos de ter uma moeda valorizada

O BRASIL VIVE UM momento muito especial. O contexto nos é favorável visto de muitos ângulos. Parece que estamos diante de um alinhamento de conjunturas único na história de um país.

Temos um percentual elevado de pessoas em idade de trabalhar, comparativamente à população total (o chamado “bônus demográfico”), que nos beneficiará ainda por duas décadas; temos a incorporação de novos consumidores por conta de uma renda maior; os preços de nossas commodities estão em patamares históricos; a potencialidade do pré-sal é enorme; os investimentos em infraestrutura trarão grandes oportunidades para muitos; a Olimpíada, a Copa do Mundo etc.

Enfim, são vários aspectos positivos e todos com perspectiva de perdurar por algum bom tempo.

Analisando sob uma perspectiva apartidária, tivemos também um alinhamento positivo e coerente no perfil dos nossos governos.

Numa primeira fase, o governo do presidente FHC estabilizou a moeda e desenhou e fortaleceu as instituições. Com isso, foram criadas as condições para o governo do presidente Lula intensificar os programas sociais e incorporar uma massa enorme de brasileiros a um novo patamar de consumo.

Essa nova base de consumidores, por sua vez, trouxe novas demandas em termos de infraestrutura (aeroportos, estradas, energia etc.), e o governo da presidente Dilma, que agora se inicia, tem justamente o perfil mais executivo, necessário para este momento, e levará adiante com eficiência a extensa agenda de investimentos.

Daí a expressão coloquial que está no título deste artigo: agora, vai!

Entretanto, não nos deixemos levar pela empolgação e lembremos que é preciso adaptação a esse novo cenário. Destacarei aqui apenas duas questões: competitividade e educação que, na verdade, são interligadas.

1) Competitividade – Num país com tantas perspectivas favoráveis, e que já acumula US$ 300 bi em reservas, é claro que o interesse por parte dos investidores internacionais é muito grande e, como consequência, o câmbio se valoriza.

Podemos tomar medidas no curto prazo para atenuar o processo, mas não temos como reverter a condição de que não escaparemos de ter uma moeda valorizada. Assim foi com as economias que se destacavam no século 20, como Inglaterra, EUA, Alemanha e Japão. As moedas valorizavam, mas os países nunca deixavam de ser competitivos.

Isso reforça que precisamos nos preparar para sermos competitivos com essa moeda valorizada. Ineficiências tributárias, fiscais ou custos elevados por conta de uma infraestrutura deficiente não mais poderão ser compensados por um câmbio desvalorizado.

É hora de fazermos as reformas e construirmos um ambiente empresarial mais eficiente, à altura das nossas possibilidades.

2) Educação – Esse momento favorável precisa ser aproveitado em todo o seu potencial, e é claro que já não o estamos fazendo.

Há dados positivos e que mostram que hoje 70% dos jovens da classe C têm um nível escolar mais alto do que o familiar.

Entretanto, essa comparação positiva feita sobre uma base muito baixa esconde uma realidade bem menos aceitável. Vista sob outra ótica, há falta de mão de obra qualificada para podermos levar adiante os projetos necessários.

Muitos jovens, por conta da evasão escolar ou por conta da baixa qualidade de ensino, estarão condenados a ficar à margem desse processo de desenvolvimento que estamos vivendo.

É hora de darmos prioridade total à educação nas esferas federal, estadual e municipal, com o apoio da iniciativa privada onde puder ser feito, para resgatarmos essa dívida maior que ainda temos. Só assim podemos dar oportunidade a cada brasileiro de se desenvolver na sua potencialidade, e só assim teremos construído um país mais digno.

Tudo aponta para um longo período de crescimento. Nosso principal desafio agora é pavimentar o caminho. Do contrário, teremos que prestar contas para as próximas gerações sobre como perdemos essa oportunidade única.

FÁBIO COLLETTI BARBOSA, 55, administrador de empresas, é presidente do Grupo Santander Brasil e da Febraban. Escreve mensalmente, aos domingos, neste espaço.

colletti.barbosa@gmail.com

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Em São Paulo, 30 de Janeiro de 2011.

Ainda E-Books

Na Folha de hoje (30/01/2011):

TECNOLOGIA

E-books superam brochura na Amazon

A loja virtual Amazon anunciou que as vendas de livros para Kindle superaram pela primeira vez as dos livros de brochura. Seis meses atrás, a empresa disse que os livros eletrônicos ultrapassaram os de capa dura. Em 2010, para cada 100 livros de brochura, a Amazon vendeu 115 e-books.

Em São Paulo, 30 de Janeiro de 2011.

E-Books: É só uma questão de tempo; Paper Books: “Your days are numbered”…

Diz notícia na Folha de S. Paulo de hoje, 29 de Janeiro de 2011:

“O site de vendas Amazon anunciou que as vendas de livros para o leitor digital Kindle já superam as das publicações tradicionais em papel. Segundo um comunicado do site, desde o início de 2011, para cada cem livros em papel, são vendidos 115 para o Kindle.”

Diz matéria assinada por Josélia Aguiar no Painel das Letras da Folha de hoje:

“O futuro quando?

Nos EUA, onde é maior a adesão ao livro digital, 2011 começa com as perguntas de antes: quando livrarias de tijolos vão fechar e se grandes autores publicarão sem intermediários, explica à Folha Mike Shatzkin, organizador do Digital Book World. O evento, realizado na última semana em Nova York, debate vendas, enquanto o Tools of Change for Publishing, em fevereiro e similar em importância, se concentra na produção. No mundo, as dúvidas são: com que rapidez o livro eletrônico se disseminará e como o varejo local resistirá à hegemonia americana. Shatzkin estima entre 10% e 15% o percentual de americanos que leem livros digitais. Em outros países, não supera 1%.

Os números ainda são ‘medíocres’ por aqui, afirma Luciana Villas-Boas, diretora da Record: ‘Vendemos até agora 37 exemplares eletrônicos’. Na Objetiva, que ofereceu mais títulos, o diretor Roberto Feith diz que desde novembro foram 663 exemplares vendidos: ‘O aumento foi de 252% em um mês, depois do lançamento do iPad e do Galaxy no país’.

(joselia.aguiar@grupofolha.com.br)”

o O o

Tenho o meu Kindle desde 12 de Junho do ano passado. Já acumulei nele mais de 250 livros eletrônicos e um sem fim de revistas: assino Time (semanal), Newsweek (semanal), Bloomberg Business Week (quinzenal), e Reason (mensal). Sou fã incondicional do Kindle – e da Amazon, na minha opinião uma empresa mais criativa do que o Google. A Amazon é dona também do site International Movie Data Base (IMDB), um dos meus sites favoritos na Internet, e do Audible, um site para a venda de audio livros (algo de que também sou fã).

Tenho uma biblioteca em papel de mais de 30 mil volumes. Mas aderi de coração aos livros eletrônicos. É incomporável poder entrar num avião para um voo de 15 horas com 250 livros na mochila… Quando saio por um tempo maior, levo o Kindle e o iPad. O iPad é melhor do que o Kindle para ler revistas (como a VEJA), cheia de fotos e gráficos. A edição para o iPad da VEJA contém clips de audio e filmes. Imbatível. Pena que a Abril tente forçar os clientes a fazer, junto com a assinatura para a VEJA em iPad, uma assinatura para a VEJA em papel.

Editoras de livros convencionais, se cuidem.

Houve uma época em que um empresário americano fez fortuna vendendo gelo para refrigerar alimentos e ambientes. Não havia refrigeradores e aparelhos de ar condicionado naquela época. Havia, para refrigerar alimentos, a “ice box”, uma caixa vertical com dois compartimentos, parecida com uma mini-geladeira duplex. Enchia-se de gelo o compartimento superior, equivalente ao congelador. Colocavam-se alimentos no compartimento inferior. Enquanto o gelo durava, o alimento se conservava. Para refrigerar ambientes, havia um ventilador cujo fluxo de ar passava por uma caixa onde havia água refrigerada a gelo. O ar que saía era fresco. Não frio de todo, mas fresco. Convivi, na minha infância, com a “ice box”. Tínhamos uma em nossa casa na Rua Particular, 10, em Santo André. Convivi com o ventilador refrigerado a ar quando estudei nos Estados Unidos e morava na 6001 Saint Marie Street, em Pittsburgh.

Mas voltemos ao nosso empresário. O negócio dele era buscar gelo para alimentar essas máquinas. Ele ia buscar gelo – enormes blocos – no Polo Norte. Especializou-se em técnicas sofisticadas para cortar grandes blocos de gelo, em transporte que preservava a maior parte dos blocos de gelo, em técnicas sofisticadas para particionar o gelo e vendê-lo no varejo. Ficou biliardário. Chegou a exportar blocos de gelo para a Índia. Sua tecnologia era tão sofisticada que o gelo, indo de navio, ainda chegava em tamanho suficiente para ser vendido no varejo na Índia.

Mas, daí, o ambiente tecnológico mudou: surgiram as geladeiras e os aparelhos de ar condicionado que conhecemos hoje. Nosso empresário, em vez de investir nesse novo negócio, tentou proteger o negócio que já tinha contra a nova concorrência: aprimorou as técnicas de cortar, remover, transportar, particionar e comercializar gelo. Não adiantou. Em pouco tempo estava falido.

Aquele empresário via seu negócio como o comércio de gelo – não o comércio de refrigeração. Estrepou-se. Pagou pelo erro com sua fortuna.

Muitas editoras de hoje vêem o seu negócio como sendo vender livros, revistas, e jornais em papel – e anunciam: o livro impresso, a revista impressa, o jornal impresso nunca vão acabar!!! Tudo bem, botam na Internet uma versão virtual, mas não apostam nela: continuam a investir no negócio antigo. Relutam em deixar que alguém assine uma revista virtual apenas: se assinar a revista em papel, ganha, por um valor a mais, acesso à revista virtual…

Vão quebrar. 

É questão de tempo.

Em São Paulo, 29 de Janeiro de 2011

Gullar sobre Lulla

O artigo de Ferreira Gullar sobre Lulla na Folha de hoje, que transcrevo abaixo para que quem não assina a Folha ou o UOL possam ler, traz um pouco de bom senso à avaliação do ex-presidente e de sua gestão.

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Folha de S. Paulo
16 de Janeiro de 2011

FERREIRA GULLAR

Quando dois e dois são quatro

O tempo se encarregará de pôr as coisas no lugar. O presidente Médici também obteve 82% de aprovação

TALVEZ SEJA esta a última vez que escreva sobre o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil. Com alívio o vi terminar o seu mandato, pois não terei mais que aturá-lo a esbravejar, dia e noite, na televisão, nem que ouvir coisas como esta: “Ele é tão inteligente que fala todas as línguas sem ter aprendido nenhuma”. Pois é, pena que não fale tão bem português quanto fala russo.

É verdade que tivemos, ainda, que aturá-lo nos três últimos dias do mandato, quando “inaugurou” obras inexistentes e fez tudo para ofuscar a presidente que chegava.

Depois de passar a faixa, foi para um comício em São Bernardo, onde, até as 23h, continuava berrando no palanque, do qual nunca saíra desde 2002.

Aproveitou as últimas chances para exibir toda a sua pobreza intelectual, dizendo-se feliz por deixar o governo no momento em que os Estados Unidos, a Europa e o Japão estão em crise.

Alguém precisa alertá-lo para o fato de que a crise, naqueles países, atinge, sobretudo, os trabalhadores. Destituído de senso crítico, atribui a si mesmo (“um torneiro mecânico”) o mérito de ter evitado que a crise atingisse o Brasil. Sabe que é mentira mas o diz porque confia no que a maioria da população, desinformada, acreditará.

Isso dá para entender, mas e aqueles que, sem viverem do Bolsa Família nem do empréstimo consignado, veem nele um estadista exemplar, que mudou o Brasil? É incontestável que, durante o seu governo, a economia se expandiu e muita gente pobre melhorou de vida. Mas foi apenas porque ele o quis, ou também porque as condições econômicas o permitiram?

Vamos aos fatos: até a criação do Plano Real, a economia brasileira sofria de inflação crônica, que consumia os salários. Qual foi a atitude de Lula ante o Plano Real? Combateu-o ferozmente, afirmando que se tratava de uma medida eleitoreira para durar três meses.

À outra medida, que veio consolidar o equilíbrio de nossa economia, a Lei de Responsabilidade Fiscal, Lula e seu partido se opuseram radicalmente, a ponto de entrarem com uma ação no Supremo para revogá-la. Do mesmo modo, Lula se opôs à política de juros do Banco Central e ao superávit primário, providências que complementaram o combate à inflação e garantiram o equilíbrio econômico. Essas medidas, sim, mudaram o Brasil, preservando o valor do salário e conquistando a confiança internacional.

Lembro-me do tempo em que o preço do pão e do leite subia de três em três dias. Quem tinha grana, aplicava-a no overnight e enriquecia; quem vivia de salário comia menos a cada semana.

Se dependesse de Lula e seu partido, nenhuma daquelas medidas teria sido aplicada, e o Brasil -que ele viria a presidir- seria o da inflação galopante e do desequilíbrio financeiro. Teria, então, achado fácil governar?

Após três tentativas frustradas de eleger-se presidente, abandonou o discurso radical e virou Lulinha paz e amor. Ao deixar o governo, com mais de 80% de aprovação, afirmou que “é fácil governar o Brasil, basta fazer o óbvio”. Claro, quem encontra a comida pronta e a mesa posta, é só sentar-se e comer o almoço que os outros prepararam.

A verdade é que Lula não introduziu nenhuma reforma na estrutura econômica e social do país, mas teve o bom senso de dar prosseguimento ao que os governos anteriores implantaram. A melhoria da sociedade é um processo longo, nenhum governo faz tudo. Inteligente, mas avesso aos estudos, valeu-se de sua sagacidade, já que é impossível conhecer a fundo os problemas de um país sem ler um livro; quem os conhece apenas por ouvir dizer não pode governar.

Por isso acho que quem governou foi sua equipe técnica, não ele, que raramente parava em Brasília. Atuou como líder político, não como governante, e, se Dilma fizer certas mudanças, pouco lhe importará, pois nem sabe ao certo do que se trata. Para fugir a perguntas embaraçosas, jamais deu uma entrevista coletiva. Afinal, ninguém, honestamente, acredita que com programas assistencialistas e aumento do salário mínimo se muda o Brasil.

O tempo se encarregará de pôr as coisas em seu devido lugar. O presidente Emílio Garrastazu Médici também obteve, em 1974, 82% de aprovação.

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Londres, 16 de Janeiro de 2010.

O Exame da OAB

No Ceará um juiz decretou que o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não é necessário para que uma pessoa formada em Direito por uma faculdade reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) possa exercer a advocacia.

A OAB, naturalmente, está, como se dizia antigamente, tiririca. Quer, porque quer, controlar quem entra no mercado de advogados. Quer poder determinar, portanto, qual o nível de concorrência que os atuais advogados vão enfrentar.

Em outra disputa, aqueles jornalistas que têm diploma de Jornalismo querem impedir os jornais e outras empresas de mídia de contratarem empregados ou prestadores de serviços, para exercer funções relevantes para o jornalismo, que não possuam diploma de jornalista.

Temos vários tipos de problema aí.

No caso da OAB, temos um órgão corporativo querendo controlar, através de um exame, quem pode e quem não pode exercer a profissão de advogado. Aqui há, evidentemente, uma tentativa de desvalorizar o diploma de Direito. A OAB e muitos advogados no exercício do cargo afirmam que muitos cursos de Direito, por não receberem fiscalização e controle de qualidade por parte do MEC, são uma porcaria. O último concurso da OAD reprovou (se bem me lembro) quase 90% dos candidatos. Pessoalmente, não sei se isso se deu porque 90% dos candidatos eram picaretas ou porque a OAB quer restringir o número de profissionais que concorrem com os atuais profissionais do Direito. A OAB tenta apelar para a população que, segundo ela, seria atendida por um bando de picaretas se o exame da OAB deixar de ser requisito obrigatório para o exercício da profissão de advogado.

No caso dos jornalistas, sindicatos e grupos de jornalistas que possuem diploma de jornalista (que também podem ser designados como órgãos corporativos) querem impedir que jornais e outras empresas de mídia contratem, como jornalistas, pessoas que não possuem o referido diploma.  Aqui há, evidentemente, uma tentativa de valorizar o diploma de Jornalismo (porque não há um exame para ingresso na profissão). Mas a finalidade também é restringir o acesso ao mercado de jornalismo.

O mercado, em várias outras áreas, em especial em áreas inovadoras, está muito além desse debate e é bastante aberto. As empresas em geral contratam pessoas independentemente dos diplomas que possuam ou dos exames em que tenham sido aprovadas. Elas contratam as pessoas pela competência que elas exibem em entrevistas e testes elaborados, em regra, pelas próprias empresas.

Lembro-me, no contexto, de um dos livros de Valnir Chagas, em que ele discutia o clima liberal do fim do Império e início da República, em que havia uma citação que dizia o seguinte: “Deve poder ensinar quem deseje fazê-lo e para tanto se julgue qualificado” (o sentido era esse – as palavras podem não ser exatamente essas, pois cito de memória).

Tendo a concordar com essa tese – em qualquer área, não só na educação.

Não creio que as universidades e outras instituições educacionais devam ter função credenciadora para o exercício de uma profissão. Sua função deve ser simplesmente educar – de forma não profissionalizante. As pessoas devem ter, nas universidades e em outras instituições educacionais, o direito de estudar o que querem – com a orientação de um mestre ou não.

E não creio que as corporações devam ter o poder de controlar quem exerce e quem não exerce a profissão que elas pretendem representa. Quando elas têm esse poder, não atuam no interesse da população, mas, sim, exclusivamente para proteger um mercado que lhes é reservado.

Assim, fico com a posição liberal do fim do século XIX. Para qualquer profissão, exerça-a quem desejar fazê-lo e, para tanto, se julgue qualificado.

Em São Paulo, 19 de Dezembro de 2010

Ainda o Qatar e o Brasil

Fico me perguntando por que o Brasil não faz coisas assim, como o Summit WISE (World Innovation Summit for Education), agora esse Prêmio WISE da Educação, e tantas outras coisas que a fundação do governo do Qatar está fazendo pela educação mundial.

Com essas iniciativas o Qatar vai se tornar, de um lado, a Davos da Educação. Anualmente se digirão para cá mais de mil pessoas envolvidas com educação em universidades, escolas, na administração central, regional ou local de sistemas educacionais, em ONGs, na mídia, na política, etc. O Summit WISE, este ano apenas em seu segundo ano de vida, vai se tornar referência. Apenas brasileiros havia aqui 21. Eis os nomes:

    • Paulo Alcântara Gomes – Presidente, Conselho da Educação do Estado do Rio de Janeiro
    • José Augusto – Gerente de Educação a Distância, Governo do Amazonas
    • Rodrigo Baggio – Fundador, Centro de Inclusão Digital
    • Vera Bottrel Tostes – Diretora, Museu Histórico Nacional
    • Francisco Cavalcanti – Coordenador do Projeto Educacional, Viva Rio
    • Eduardo Chaves – Diretor de Educação, Zoom Education for Life
    • Regiane de Oliveira – Jornalista, Brasil Econômico
    • Paulo Egon Wiederkehr – Assessor Especial, Ministério da Educação
    • Marcos Fadanelli Ramos – Gerente de Educação, Fundação Banco do Brasil
    • Fernando Garcia Moreira – Professor, Universidade do Vale do Paraíba
    • Heitor Gurgulino de Souza – Secretário Geral, Associação Internacional de Reitores
    • Fredric Michael Litto – Presidente, Associação Brasileira de Educação a Distância
    • Juliana Opipari Paes Barreto – Vice Superintendente, Alfasol
    • Sérgio Pompeu – Jornalista, O Estado de S. Paulo
    • Norma Reis Valle Coutinho – Coordenadora Pedagógica, Espaço Criança Esperança
    • Dilvo Ristoff – Diretor, Universidade Federal de Santa Catarina
    • David Santos – Diretor, Educafro
    • Vandyck Silveira – Diretor Gerente, HSM Business School
    • Rafael Torino – Diretor, Fundo Nacional de Desenvolvimento Econômico
    • José Vicente – Presidente, Afobras
    • Samara Werner – Diretora de Educação, Instituto Oi Futuro

Mas Qatar vai também se tornar a Estocolmo da Educação, com o seu Prêmio WISE da Educação. Todo ano o mundo da educação vai estar olhando para Doha no último trimestre do ano para saber quem é o premiado com a significativa quantia de 500 mil dólares.

Um país pequeno, que tem uma população total mais ou menos igual à da cidade do Recife, e cuja população com direitos de cidadão não passa de cerca de 300 mil – a população de Uberaba (o resto é imigrante que só entra aqui para trabalhar) – de repente, por ações inteligentes e bem focadas, chama para si, de forma positiva, a atenção do mundo inteiro, por causa de suas iniciativas na área da educação.

E note-se que as iniciativas não são bairristas, voltadas para o mundo árabe, ou para as nações do Golfo Pérsico, coisa assim. O olhar do Qatar é para o mundo, não para o próprio umbigo.

Eis uma lista das universidades do Qatar:

Note-se só. Seis delas são “filiais” de reputadas universidades americanas.

Enquanto isso o Brasil coloca obstáculos a que universidades estrangeiras abram filial aqui e ameaça não reconhecer diplomas de cursos a distância ministrados pelas melhores universidades do mundo, como Harvard, Yale, Stanford, Massachusetts Institute of Technology, etc. Quando faz parcerias com outros nações, elas são com a Venezuela, a Bolívia, o Equador, o Paraguai, Cuba…

O Brasil é grande, em território e população, mas pensa pequeno, pensa localmente, pensa regionalmente. O Qatar é pequeno, em território e população, mas pensa grande, pensa globalmente.

Aí está a diferença.

Em Doha, 9 de Dezembro de 2010

Qatar: o anti-Brasil?

Não estou entre aqueles que costumam falar magistralmente sobre um país que acabou de conhecer. Estou no Qatar desde o dia 6, segunda-feira, e volto para o Brasil amanhã, sexta-feira, dia 10. Mas há alguns fatos e algumas impressões que posso desde já registrar, e que justificam a pergunta colocada no título.

FATOS (buscados na Wikipedia):

Fuso Horário
Brasil: GMT -3
Qatar: GMT +3

Área
Brasil: 8.514.877 km2
Qatar: 11.437 km2

População
Brasil: cerca de 200 milhões (arredondando um pouco para cima)
Qatar: cerca de 2 milhões (arredondando muito para cima)

Renda per Capita
Brasil: USD 10.513
Qatar: USD 83.840.513 (segunda do mundo, atrás apenas de Liechtenstein)

Idade como unidade política autônoma
Brasil: desde 1822
Qatar: três datas celebradas – o Dia Nacional, 18/12/1878, o dia da Independência do Império Otomano (1913) e o dia do término de um tratado especial com o Reino Unido (3 de Setembro de 1971). Esta última é a data da real autonomia – menos de 30 anos atrás.

Regime Político
Brasil: República federativa constitucionalista, presidencialista 
Qatar: Monarquia (Emirado), parlamentar

Religião Oficial
Brasil: Nenhuma
Qatar: Muçulmana

Pico mais elevado
Brasil: Neblina: 2.994m
Qatar: Qurayn Abu al Bawl, 103m

Podemos deixar os fatos aí. Não só somos muito maiores em território e população, somos muito mais “altos” também, como o último indicador comprova de forma incontestável… Mas levamos uma surra em renda per capita.

Agora algumas impressões que saltam aos olhos.

Trânsito

Li em algum lugar que Qatar possui as multas de trânsito mais altas do mundo para excesso de velocidade e outras violações com o veículo em movimento. Isso explica o trânsito mais ordeiro e monótono que já vi na vida. Da janela do hotel (Möwenpick) vejo uma avenida de duas mãos, três faixas de trânsito em cada mão, separadas as mãos por uma mediana, que é cruzada por outra avenida com exatamente as mesmas características. Algo mais ou menos equivalente com o cruzamento da Avenida Brasil com a Avenida 9 de Julho em São Paulo. Aqui não há farol. Há simplesmente um balão sem indicação de Pare ou de Preferência. E os carros diminuem a velocidade, olham para a esquerda e entram no balão, de forma disciplinada. Uma coisa inimaginável em São Paulo. É verdade que o número de carros aqui é bem menor – mas a cidade também é muito menor.

Hábitos Sociais

A piscina do hotel tem horas especiais para senhoras – porque não é costume, aqui, mulheres e homens se banharem juntos em público. No hotel há duas pequenas mesquitas: uma para homens, outra para mulheres. A venda e o consumo público de bebida alcoólica são proibidos (embora tenha sido informado que os grandes hotéis abrem uma exceção em uma sala privada se se trata de um grupo razoável de estrangeiros).

Relações Sociais

A minoria árabe (cerca de 25%) manda no país. Os restantes 75% são mão de obra importada. Li – mas não posso garantir a veracidade – que essa mão de obra importada precisa ter um sponsor para entrar no país e esse sponsor fica como se fosse senhor de um escravo, podendo impedi-lo de mudar de emprego, voltar para o país de origem, etc. No entanto, a situação econômica e as condições de vida aqui são tão boas que esses verdadeiros escravos ficam satisfeitos com seu destino. Conversei com vários deles. O rapaz que limpa meu quarto – curioso, só homens trabalham como camareiros — é filipino e está aqui há dois anos. Fala inglês perfeito, é extremamente cortês e executa seu trabalho com perfeição e eficiência. Perguntei se estava feliz aqui. Olhou-me como que surpreso com a pergunta: “Of course, sir! Very happy.”. Uma amiga australiana minha que está dando uma formação para pessoal de escolas concluiu que uma professora era muito mais preparada e competente para ser diretora de uma escola do que a diretora que estava no cargo. Num momento de intervalo perguntou à responsável pela área do Ministério da Educação por que essa professora não era a diretora: “She is not a qatari, ma’m”, foi a resposta. Isso significa que, a partir de um certo nível na hierarquia das organizações, os cargos estão reservados para a minoria qatari. Os outros, como estão aqui em condições precárias, se beneficiando de uma situação econômica que não encontram em seus próprios países, não protestam.

Relação com a Autoridade

Ontem fiquei comovido no jantar de gala que contou com a presença de Her Highness Sheikha Mozah Bint Nasser Al-Missned, segunda mulher do Emir (51 anos, sete filhos, mas com uma aparência fantástica – vejam o site oficial dela: http://www.mozahbintnasser.qa/pages/default.aspx). O que me comoveu foi o fato de que uma cantora famosa aqui do país (preciso pegar o nome certo, depois divulgo), que cantou acompanhada Orquestra Filarmônica do Qatar, antes de iniciar seu contexto, disse o seguinte, com a voz embargada de emoção e os olhos com lágrimas que por pouco não transbordavam:

“Your Highness. Two weeks ago I had the privilege and highest honor to sing for His Highness Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani. Today, two weeks after, I have the privilege and honor to sing for Your Highness. My happiness is now complete.”

O que me comoveu nessa história foi que tudo indicava que a emoção da cantora era genuína e que suas palavras representavam a mais pura verdade. Cantar para o Emir e a Sua Princesa era, para ela, a mais subida honra que podia caber a ela, uma cantora.

Ninguém aqui se refere ao Emir e à Princesa a não ser como His Highness… and Her Highness… No Brasil, é Lulla e  Dona Marisa.

O Qatar é um país pequeno. Fico imaginando que o Lulla pensa que ser Emir de um paisinho de menos de dois milhões de pessoas é equivalente a ser prefeito de Belo Horizonte. Certamente ele, Lulla, se acha muito mais importante. Mas o porte, a postura e a dignidade dos governantes aqui dá inveja. O ritual do cargo é prestigiado e respeitado. No plebiscito que tivemos no Brasil há tempos votei a favor da monarquia, porque achava (e continuo achando) que o Brasil, país informal demais, a ponto de ser às vezes esculachado, precisa de um pouco de formalidade, um pouco de ritual, um pouco de liturgia no trato da coisa pública.

A Princesa é a presidente da Qatar Foundation que promoveu o World Innovation Summit for Education, WISE, ora no seu segundo ano. O Qatar, com esse evento, pretende se afirmar como a Davos da Educação. Há mil e duzentos educadores, políticos, pessoal de empresas, de NGOs e de mídia aqui. Vou listar alguns dos órgãos de mídia que têm repórteres e fotógrafos aqui, para dar uma dimensão (há mais de 150 pessoas da mídia, com uma infraestrutura fantástica no Centro de Convenções do Hotel Sheraton):

Euronews (mais de dez)
Le Monde Education
L’Express
The Times (UK)
The Times Higher Education (UK)
The Times Education Supplement (UK)
The New York Times
International Herald Tribune
CNN
RAI
Brasil Econômico
O Estado de S. Paulo

Como dizia, a Princesa é a principal articuladora dessa projeção do Qatar na área cultural, com ênfase na educação. Nos oito anos do governo Lulla, o que fez essa não-entidade que é Dona Marisa, além de plásticas no rosto (e, possivelmente, no resto do corpo).

Não ouvi o Emir falar. Mas deve falar pelo menos tão bem quanto sua mulher, que tive o privilégio de ver e ouvir ontem à noite. E não deve aparecer em palanques com os olhos vermelhos e esbugalhados alardeando quão bom ele é e quão ruim é todo o resto.

Precisava dizer isso. Como disse, ao todo vou ficar aqui apenas três dias inteiros, não contando o dia da chegada e da saída. Senti uma enorme falta de um vinhozinho às refeições. Mas a experiência me provocou essas reflexões. Seria o Qatar o anti-Brasil? O país pequeno que consegue se projetar mundialmente em uma área enquanto o Brasil fica tentando obter respeito em várias, sem conseguir?

Para terminar, mais uma reação pessoal. Num jantar, anteontem à noite, no Tajine Restaurant, um restaurante marroquino, sentei-me ao lado de um amigo meu, educador russo, que, como eu, faz parte de Education Impact. Ele me perguntou: “Você gostaria de viver num país como este?” A pergunta me pegou de surpresa, mas a resposta saiu mais ou menos espontânea e clara: “Se for preciso, vivo; se puder escolher, prefiro outro”. Depois fiquei pensando sobre minha resposta. Estou com 67 anos, dos quais 60 vividos no Brasil (os outros 7 vivi nos Estados Unidos, de 1967 a 1974). Este jeito de ser meio bagunçado, bastante informal, de certo modo entrou no meu DNA, durante esse tempo. Acho que, a essas alturas, não me acostumaria muito facilmente aqui não – embora me adapte bastante bem a circunstâncias diferentes. Mas quando olho ao que esse jeito de ser tem causado ao Brasil, não tenho dúvida de que ele, no global, é nefasto. Ter no malandro o seu tipo nacional é divertido quando a gente assiste a um filme, não quando a gente vê a performance ao vivo do Presidente.

Em Doha, 9 de Dezembro de 2010

O Rei do Paraíso Imaginário (ou: Indico Lulla para a ABL)

Já fui assinante de VEJA algumas vezes, quando recebia uma oferta bastante boa. Uma vez, em 1995 ou 1996, o UniBanco me deu uma assinatura anual para abrir uma conta lá – conta que fechei recentemente, quando o UniBanco foi absorvido pelo Itaú. Entre assinaturas, compro um ou outro número na banca, quando há alguma matéria de meu especial interesse. Hoje, assino EXAME – mas sempre estou com um olho na VEJA, por suas denúncias de corrupção no governo, pelos artigos do Diogo Mainardi, etc.

Estou pensando seriamente em voltar a assinar a revista – especialmente se arrumarem uma assinatura eletrônica em que a revista é entregue no meu iPad recentemente adquirido. Já comprei dois números, desde que recebi o iPad, segunda-feira passada: o de 24/11 e o de 1/12 – e ganhei o de 8/12 de brinde, porque o iPad é assunto de capa. A edição da revista no iPad é fabulosa.

Mas comprei um dos números mencionados por causa do artigo de J. R. Guzzo, transcrito abaixo. E, no número de 8/12, que ganhei de brinde, há um outro artigo fabuloso dele, que vou procurar transcrever nos próximos dias. Se voltar a assinar a revista, será por causa dos artigos de J. R. Guzzo.

Abril, se toque: coloque rapidamente à disposição dos assinantes uma assinatura de VEJA via iPad.

Quanto ao artigo abaixo, sugiro que Lulla seja indicado para a Academia Brasileira de Letras pela sua contribuição à ficção nacional. Sempre tive dúvida (e ainda ontem discuti o assunto com a Paloma) se faz sentido falar em Letras Orais (porque seria essa a especialidade presidencial), ou em pessoas que seriam consideradas letradas mas são analfabetas, ou em pessoas que seriam letradas em artes que nada têm que ver com a letra, em si, (como pintura, fotografia, gráficos, etc.)…

Em todo caso, vale o artigo. E o lançamento do quase ex-presidente à ABL é sério – tão sério como a instituição à qual o indico.

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VEJA,
24 de novembro de 2010

Paraíso Imaginário

J. R. GUZZO

De todos os presidentes que o Brasil já experimentou em seus 121 anos de República, provavelmente nenhum teve tanto sucesso em criar um mundo imaginário como Luiz Inácio Lula da Silva. às vésperas de passar o cargo para a sua sucessora, Lula dá a impressão, pelo menos quando fala em público, de acreditar cada vez mais num Brasil que inventou na sua própria cabeça – um Brasil curiosamente parecido com o paraíso terrestre que se pode ver todos os dias na televisão, nos anúncios da Petrobrás, do Banco do Brasil e de outros agentes da propaganda oficial.

É como se o presidente assistisse àquilo tudo, na sua poltrona do Palácio do Planalto, e acreditasse, realmente, que está olhando para um documentário com a imagem de fatos reais; casais felizes correndo com os filhos em gramados impecáveis, operários entusiasmados, transbordando de alegria em uniformes cortados sob medida e sem a mínima mancha de graxa, rostos de todas as raças com sorrisos luminosos nos lábios, máquinas de última geração, plataformas de petróleo em mar de almirante, fábricas do terceiro milênio, usinas espetaculares, todo um mundo de eficiência, operosidade e riqueza. O que mais? Mais tudo aquilo que bons diretores de filmes comerciais conseguem enfiar num anúncio de TV quando são encarregados de inventar uma vida ideal – seja para exibir a família em estado de adoração diante da margarina que vai consumir no café da manhã, seja para mostrar o cidadão comum sendo recebido numa agência bancária como um príncipe da Casa Real da Inglaterra.

Este é, hoje, o Brasil do presidente Lula – e o melhor, para ele, é a quantidade de gente que acredita a mesma coisa, ou algo parecido. Se o homem diz que o país vive uma época de ouro (“estamos num momento mágico”, informa ele), e tanta gente concorda, ou tão pouca gente se dá ao trabalho de discordar, por que não continuar com a mesma procissão? É exatamente o que Lula vem fazendo. Na verdade, em vez de apenas continuar, vai aumentando o conto. “Temos indicadores sociais dos países desenvolvidos”, disse ele tempos atrás – um fenômeno, realmente, em matéria de invenção direta na veia, quando se considera que o Brasil não tem simplesmente nenhum indicador comparável aos do Primeiro Mundo, um só que seja, em àreas fundamentais como educação, saúde, esgotos, transporte coletivo, criminalidade, rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e por aí afora. Não tem competência, sequer, para montar um exame de escola como o Enem – mas Lula está convencido, e convenceu o público em geral, de que isso que se vê aí é o Brasil-potência. Da mesma forma, em sua última viagem à África, falou, ao passar por Moçambique , no prodigioso sucesso da política brasileira de ajuda aos países pobres. Justamente em Moçambique – onde o seu governo prometeu, num acordo assinado em 2003, doar aos moçambicanos uma fábrica de remédios que até hoje, sete anos depois, ainda não conseguiu produzir uma única pastilha contra tosse. Julga-se capaz, em encontros como o que acaba de ser feito pelo G-20 em Seul, de intimidar as grandes potências; voltou de lá, mais uma vez, sem que sua presença tivesse alterado coisa alguma.

Lula sempre conseguiu tirar mais benefícios dos seus defeitos do que de suas qualidades; na construção dessas fantasias todas sobre o Brasil Grande, tem se mostrado capaz, também de construir fantasias sobre si mesmo e colocar-se sempre no papel de herói que “este país” nunca teve. Sua mais recente realização no gênero é dizer que foi “o primeiro presidente que teve coragem” de comprar um Airbus de última geração para a Presidência da República. Assim fica tudo muito fácil; se a compra do Aerolula é um ato de bravura, então não há nada que possa estar errado com o seu governo em geral e, menos ainda, com ele em particular. Nem o exame do Enem. Quando o desastre aconteceu, Lula disse que a prova tinha sido um “sucesso total e absoluto” e, como sempre, veio com suas ameaças sobre “gente interessada” no fracasso da sua política educacional. Quando, logo em seguida, achou que perdia mais do que ganhava ao sustentar um disparate desse tamanho, saltou fora de sua convicção sobre o “sucesso total e absoluto” e passou a dizer que o exame poderia ser refeito quantas vezes fosse necessário. E dai? A vida é essa. Como o burrinho pedrês de Guimarães Rosa, Lula nunca entra em lugar de onde não possa sair; seja lá o que diga ou o que faça, sempre resolve seu problema, se alguma coisa der errado, desdizendo o que disse ou desfazendo o que fez.

É o mundo da imaginação.

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Em São Paulo, 5 de Dezembro de 2010

A União Européia

O texto abaixo foi escrito no final de 2006, durante uma viagem à Europa. Eu havia comprado e estava lendo uma história da União Européia, chamada Guide to the European Union: The Definitive Guide to all Aspects of the EU, de Dick Leonard (9ª edição, publicada pelo The Economist). Transcrevo-o aqui porque originalmente apareceu eu outro blog.

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Gostaria de comentar um pouco a questão da União Européia. Acho que a criação da União Européia foi uma decisão errada que ainda vai cobrar um preço alto dos europeus. Sou totalmente a favor do que se chamava Mercado Comum Europeu: o esforço para juntar diversos países em um mercado livre, com livre circulação de mercadorias, serviços e pessoas. Também não me oponho a que vários países se unam para cuidar, de maneira integrada e, presumivelmente, mais racional e barata, de sua defesa – como acontece com a OTAN. Mas criar uma união política  (e, depois, monetária)  é outra coisa – envolve criar uma nova esfera e burocracia governamental em cima de todas as já existentes. A tendência, já há bom tempo, tem sido buscar e conseguir autonomia política – não perder autonomia política para uma esfera política superior. Como se a ONU não fosse o bastante, criaram uma ONUzinha européia.

Só a Comissão Européia, conforme diz o livro, já tem acima de 17 mil funcionários. O Conselho de Ministros passa de 2.500. O Parlamento Europeu, está chegando a 5 mil. A Corte de Justiça passa de 1.500 e a Corte de Auditores (Tribunal de Contas) passa de 600. As diversas agências, instituições de pesquisa, etc., têm por volta de 10 mil funcionários. Em suma: a burocracia da União Européia já possui acima de 35 mil funcionários – técnicos, administrativos e subalternos. [O texto do post é de 2006].

Para considerar apenas os gastos com o Parlamento Europeu, que não tem função legislativa plena, ele possui (pelo que os europeus provavelmente devem ser gratos), hoje [2006], mais de 700 deputados. Eles todos moram em seus respectivos países. Não poderiam morar na sede do Parlamento, porque o Parlamento tem mais de uma sede… A sede principal, por exigência francesa, é em Strasbourg. Os deputados passam ali uma semana por mês em sessões plenárias ordinárias. Como não têm casa, precisam ficar em hotel. Como não são de ferro, precisam de um excelente hotel. Além disso, precisam comer em bons restaurantes (Brasília que o diga). Por fim, nenhum deputado consegue viver sem suas secretárias e seus assistentes e seus assessores por perto. Sessões plenárias extraordinárias, bem como reuniões de comissões e sub-comissões, são, entretanto, realizadas em Bruxelas – que é a sede da Comissão Européia. E o Secretariado do Parlamento (os funcionários da casa, vamos chamá-los assim) estão em Luxemburgo – mas boa parte deles não fica em Luxemburgo, mas acompanha as sessões do Parlamento e as reuniões das comissões e sub-comissões. Já imaginaram o gasto que isso acarreta com viagem, hospedagem, alimentação, comunicação?

Acrescente-se a essa enorme – e cara – complicação topo-logística, o problema da linguagem. Hoje são 20 as línguas oficiais da União Européia. Com a entrada da Bulgária e da România, em 2007, aumentarão para 22. Todos os documentos – não só do Parlamento, mas de toda a União Européia – precisam ser traduzidos para todas essas línguas e as reuniões precisam ter interpretação simultânea para todas elas. Complicado, não? E caro.

Outro problema. Os deputados do Parlamento Europeu devem trabalhar em tempo integral. Passam, em princípio, uma semana por mês (menos Agosto, mês de férias) em sessões plenárias em Strasbourg, duas semanas em sessões extraordinárias ou em reuniões de comissões ou sub-comissões em Bruxelas, e a quarta semana passam em contatos “partidários” ou com os seus “eleitores”, no seu país de origem. Por que não? Eles, como os deputados brasileiros, também são filhos de Deus. Todos, supostamente, trabalham o mesmo. No entanto, o salário que recebem é idêntico ao que recebem os deputados federais de seus países – o que quer dizer, extremamente diferente. Um deputado da Eslovênia deve receber bem menos do que um deputado que mora em Paris, não é verdade? Não é de surpreender que o Parlamento já tenha tentado, mais de uma vez, a primeira em 2004, padronizar os salários (como padronizadas são os jetons, as verbas de viagem, comunicações, pesquisa, gabinete, etc.). Mas o Conselho de Ministros vetou. Alguém acha que eles vão desistir?

Estou falando apenas de um órgão da União Européia, o Parlamento, e apenas de problemas logísticos e financeiros. Mas há os problemas políticos, que vão ficar cada vez mais sérios à medida que os países da Europa Central e da Europa Oriental se sintam confiantes o suficiente para levantar a cabeça e protestar… Por exemplo, até o Tratado de Nice, que entrou em vigência em 2002, os cinco maiores países da União Européia (maiores em população: Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Espanha) tinham dois “comissários” na Comissão Européia – o restante tinha apenas um. O Tratado de Nice, já sob pressão dos países pequenos, removou esse poder adicional dos países maiores. No Conselho de Ministros (em que cada país membro tem um representante), e que é o real corpo legislativo da União Européia, costumava exigir-se unanimidade para aprovação de qualquer medida. A França e o Reino Unido vetaram várias medidas importantes, com base em seus interesses. Na verdade, antes de o Reino Unido fazer parte da União Européia, a França, por decisão pessoal de De Gaulle, duas vezes vetou o seu ingresso – por considerá-la mais aliada com os Estados Unidos do que com o resto da Europa. Com o crescimento do número de países, torna-se inviável exigir ou esperar unanimidade em qualquer coisa. O sistema de votação agora é predominantemente a maioria qualificada – em que o voto de cada Ministro tem um respectivo peso, determinado em função da população do país que ele representa, reservando-se a unanimidade apenas para questões realmente importantes (como, por exemplo, o país sede dos vários órgãos… – dá vontade de rir). O Tratado de Nice fixou os seguintes pesos para os votos dos respectivos países: Alemanha, Reino Unido, França e Itália: 29; Espanha e Polônia, 27; România, 14; Holanda, 13; Grécia, República Tcheca, Bélgica, Hungria, e Portugal, 12; Suécia, Áustria e Bulgária, 10; Eslováquia, Dinamarca, Finlândia, Irlanda, e Lituânia, 7; Látvia, Eslovênia, Estônia, Chipre (parte grega), e Luxemburgo, 4; Malta, 3. Para alguns atos do Conselho, exige-se o mínimo de 258 votos, desde que tenham vindo da maioria dos países da União; para outros atos, exige-se o mínimo de 258 votos, desde que tenham vindo de pelo menos dois terços dos países da União; e assim vai. Eu pergunto: tem jeito de isso funcionar a longo prazo?

Além disso, há os países que se consideram donos da União Européia – a França, em especial. Quando os últimos dez países estavam para ser admitidos – todos eles da Europa Central e do Leste – surgiu a questão da guerra do Afganistão e, logo depois, do Iraque. A maior parte desses países apoiou os Estados Unidos e até mesmo forneceu soldados. A França, como se sabe, ficou contra. Jacques Chirac, presidente da França, resolveu passar uma descompostura verbal nos novos países – dizendo algo que parecia sugerir que, se eles fossem se alinhar com os Estados Unidos, seria bom que nem entrassem na União Européia. Recebeu uma saraivada de críticas dos chefes de governo e líderes políticos desses países. A França, mais uma vez, achou que podia mandar na União Européia – como no tempo de De Gaulle, em que fez o que quis.

(Além de vetar a entrada do Reino Unido duas vezes, a França, numa ocasião, se viu, numa votação que não exigia unanimidade, prestes a ser o único país a votar contra uma medida. O que fez? Removeu sua representação da União Européia e assim bloqueou, por um bom tempo, as reuniões em que coisas importantes precisavam ser aprovadas por unanimidade. Tudo isso está no livro.)

O Reino Unido, por sua vez, gosta de ser prima donna. Custou para decidir solicitar ingresso na União Européia. Quando solicitou, foi duas vezes rejeitado pelo veto de De Gaulle. Aprendeu a lição: entrou, veta tudo que contraria seus interesses, e entrou assim pela metade: não adotou o Euro e, pelo jeito, não vai adotá-lo tão cedo. (Alguém imagina o Reino Unido abandonando a Libra Esterlina?) Estando numa ilha, não no continente europeu, o Reino Unido se sente um pouco europeu, mas, em parte, um continente próprio. Além disso, tem seus vínculos históricos, culturais, lingüísticos e estratégicos com os Estados Unidos, dos quais não vai abrir mão tão facilmente.

Mas as surpresas vêm de onde menos se esperam: o tratado que aprovaria a Constituição Européia, que exige aprovação unânime para entrar em vigor, foi rejeitado primeiro pela França, depois pela Holanda… O Reino Unido, diante disso, se julgou no direito de nem submetê-lo à apreciação… Se se exige unanimidade, e ela já foi quebrada pela França, why bother?

Posso estar aqui sendo extremamente cético. Mas acho, como disse, que a época é de dar autonomia política às regiões – na Espanha, por exemplo, a região dos catalães, dos bascos… Na própria França há regiões que desejariam mais autonomia. Todos vimos o que aconteceu nos Bálcans. Durante a Copa do Mundo, a Sérbia e o Montenegro, que eram um país só, com participação na Copa, se dividiram em dois países. Em Portugal, a região de Trás-os-Montes tem muito em comum com a Galícia – cuja língua é mais parecida com o português do que com o espanhol – que, na realidade, é o castelhano, a língua de Castela imposta às demais regiões…

Só faria sentido criar a União Européia como a união política (que já é, como Presidente do Executivo, Parlamento, Poder Judiciário, etc.), se os estados nacionais, especialmente os maiores, cometessem eutanásia, desaparecendo do mapa e transferindo seus poderes, em parte para as regiões, e o que falta para que ela seja um Estados Unidos da Europa, para a União Européia.

O Brasil, que tem uma história bastante longa, como estado nacional, está na hora de transferir poderes (políticos, legislativos, tributários, financeiros, administrativos, judiciais) do governo central para os níveis estaduais e até mesmo os níveis regionais (infra-estaduais), tornando-se apenas um grande mercado comum, ao qual podem ser agregados outros países da América do Sul ou mesmo da América Latina. Que não se invente criar uma Comissão Sul-Americana, muito menos uma Comissão Latino-Americana… Já existe em São Paulo uma organização chamada Parlamento Latino-Americano, criado pelo Quércia, quando foi governador… Mas é só nome, não tem realidade de parlamento – felizmente.

Em Lisboa, 17 de Novembro de 2006

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Transcrição em São Paulo, em 2 de Novembro de 2010

O primeiro discurso de Dilma, depois de eleita

Vejam abaixo o primeiro discurso de Dilma, depois de eleita no dia 31 de Outubro de 2010. Vamos precisar conferir as promessas e os compromissos o tempo todo.

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Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui.

Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida.

Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.

Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.

Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.

Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.

Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.

Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões.

O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família.

É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.

Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte.

A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.

O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro.

Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.

Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.

No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.

Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.

Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.

É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo.

Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável.

Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos.

Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos.

Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública.

Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público.

Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo.

Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros.

As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.

Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades.

Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.

Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais.

Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.

O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas.

Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas.

Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde.

Me comprometi também com a melhoria da segurança pública.

Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.

Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos.

Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo.

A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade.

É aquela que convive com o meio ambiente sem agredi-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.

Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa.

Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.

Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.

Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.

Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.

A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política.

Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.

Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.

Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei.

Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia.

Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho.

Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.

Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento.

Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.

Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida.

Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós.

Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta.

Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado.

Saberei consolidar e avançar sua obra.

Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo.

Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.

Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união.

União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país.

Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela.

Muito obrigada.

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Em São Paulo, 1º de Novembro de 2010