Modelos pedagógicos

A quantidade de besteira que se publica na área da educação neste país é inacreditável.

Abaixo um artigo de Antonia Leila Rocha Neves, no jornal O Povo, de Fortaleza (8/1/05). Não sei quem é ela — nem pretendo descobrir. Não me move aqui, portanto, nenhuma animosidade pessoal. Estou interessado, isto sim, nas idéias que se divulgam por aí acerca da educação. Por isso aqui faço um resumo organizador e uma crítica do que ela afirma.

Primeiro, ela faz uma afirmação leviana, sem fundamentação alguma: a “sociedade vigente” é “autoritária”. Notem o uso do “portanto” da frase dela: “A avaliação educacional escolar, atualmente no Brasil, é baseada na sociedade vigente, portanto autoritária.” É isso: ela falou, está falado. Mas onde há pelo menos um esboço das razões que a levam a afirmar isso??? Ela não nos esclarece: imagina que todos vamos aceitar o que ela diz simplesmente porque foi ela quem disse. (Isso sim é pensamento autoritário…)

A sociedade atual brasileira pode ser um monte de coisa ruim — mas autoritária??? De onde saiu isso?

Continua a moça: “Para chegar à superação do autoritarismo, pretendemos fazer um apanhado dos modelos pedagógicos…” No que um apanhado de modelos pedagógicos nos ajuda a “superar o autoritarismo” da sociedade (ainda que se admita, “ad argumentandum”, que nossa sociedade seja autoritária)?

Em seguida, continua a autora, ela pretende “desocultar as tendências autoritárias” desses modelos pedagógicos. Vamos ver como ela faz isso.

Por fim, ela pretende mostrar que “a avaliação [NB: não a educação] deve ser um instrumento de transformação social”.

Os modelos pedagógicos que ela tenta “apanhar” em sua análise foram todos retirados de Luckesi — nome citado assim, sem prenome, como se todo mundo o conhecesse tão bem como Sócrates. São três — e — surprise!!! — todos eles têm vigência apenas em um “modelo liberal conservador da sociedade”.

Deixemos os chavões de lado e vamos aos três modelos, um a um:

PRIMEIRO: “A pedagogia tradicional, centrada no professor, o detentor do conhecimento, na transmissão de conteúdos e no intelecto.”

Não resta dúvida de que esse modelo pedagógico existe e é tradicional (isto é, tem uma longa tradição). Mas liberal??? Esse modelo existe desde que o mundo é mundo! Quando começou a surgir o Liberalismo?

Além do mais, para se chamar o modelo de conservador é preciso haver uma referência. Os jesuítas fizeram desse modelo uma verdadeira arte de converter gentios (os índios, por exemplo), revolucionando a sociedade indígena que havia aqui no Brasil. A Ratio Studiorum da Sociedade de Jesus é corretamente colocada na base da sociedade colonial brasileira — mas esse sociedade não era conservadora em relação à sociedade que existia antes dela aqui no Brasil na época e que ela pretendia substituir (como de fato conseguiu).

SEGUNDO: “A pedagogia renovada ou escolanovista centrada nos sentimentos, na espontaneidade da produção do conhecimento e no educando com suas diferenças individuais.”

Não resta dúvida de que este modelo pedagógico também existe há algum tempo — tendo raizes nos séculos XVIII e XIX. Em certo sentido, pode-se dizer que é tradicional (pois tem uma razoável tradição). Mas conservador???

Cabe aqui indagar da autora (e de seus mentores intelectuais) como é que a “pedagogia renovada ou escolanovista”, que teve, como principal objetivo, criticar e, oportunamente substituir, a pedagogia tradicional (centrada no processor, e voltada para a transmissão de conteúdos pelo ensino) por uma pedagogia centrada no aluno, e voltada para a aprendizagem ativa por projetos, e que, por cima, via a tarefa da educação como sendo a transformação renovadora (reconstrução) sociedade — como é que essa pedagogia pode ser vista como modelo pedagógico conservador da sociedade.

Parece-me evidente que, se a pedagogia da Escola Nova é liberal, a pedagogia tradicional não o é, pois as duas sempre se viram como inimigas mortais — até hoje (com exceção de lugares em que a influência das idéias de Dermeval Saviani se fez sentir).

Cabem outros questionamentos em relação a esse modelo.

A autora o caracteriza como “centrado nos sentimentos”. Embora os autores escolanovistas tenham sempre defendido a “educação [ou ‘formação’] integral”, entendendo por isso que não basta apenas desenvolver o intelecto das crianças, sendo necessário também desenvolver seus sentimentos, as suas habilidades artísticas, a sua capacidade de se relacionar com seus semelhantes, as suas competências ativas e práticas, como agentes “fazedores de coisas”, etc., é uma representação absolutamente falsa dizer que o modelo pedagógico da escola nova é “centrado nos sentimentos”.

Além disso, embora tenha havido alguns precursores da escola nova, como Rousseau, que defenderam a chamada “educação negativa”, a Escola Nova, em si, nunca defendeu a tese de que o conhecimento se desenvolve “espontaneamente” na criança — sem que ela se envolva em ambientes e atividades que facilitem e propiciem a construção desse conhecimento. A Escola Nova foi um modelo de renovação pedagógica da escola — algo que não faria sentido se ela acreditasse que as crianças se desenvolvem adequadamente de forma espontânea. Mesmo os construtivistas atuais, como Piaget, propõem a criação de ambientes de aprendizagem que desafiem, instiguem, provoquem, incitem, propiciem, e, em última instância, facilitem, o desenvolvimento cognitivo da criança.

Por fim, os escolanovistas estavam muito mais interessados no desenvolvimento de competências e de modelos mentais pelas crianças — processo que é eminentemente cognitivo — do que na “produção espontânea conhecimentos” — expressão que sugere que, se deixarmos uma criança sozinha ela pode, eventualmente, produzir, de forma “espontânea” (seja lá o sentido que se dê a essa expressão), a teoria da relatividade de Einstein, ou algo assim.

TERCEIRO: “E, por último, a pedagogia tecnicista centrada nos meios técnicos de transmissão e apreensão dos conteúdos e o princípio do rendimento tentando em vão uma transformação social, fundamentada no princípio de que todos são iguais.”

Confesso que tenho grande dificuldade para entender o que está escrito nesse parágrafo que acabei de citar. Vejo que a autora se refere a um terceiro modelo que seria “tecnicista”. Ao mesmo tempo, ela afirma que esse modelo tecnicista “tenta[…] em vão uma transformação social, fundamentada no princípio de que todos são iguais”.

Ora: a autora havia afirmado que os três modelos que ela iria discutir eram modelos de uma sociedade conservadora (na verdade, até mesmo autoritária). Agora ela diz que o modelo tecnicista tenta (embora em vão) promover uma “transformação social” — algo que parece indicar que ele não é tão conservador assim. E, pior, promover uma transformação social “no princípio de que todos são iguais”. Ora: o liberalismo é acusado, em geral, de ser uma filosofia e um sistema político-social que se construiu em cima da desigualdade e que tende não só a preservá-la, mas a aumentá-la! (Note-se que, ao descrever o modelo da Escola Nova, a própria autora observa que ele parte do reconhecimento das “diferenças individuais” das crianças…). E agora ela vem dizer que o modelo tecnicista é conservador e liberal e, no entanto, tem como objetivo transformar a sociedade com base no princípio de que todos são iguais — que é exatamente o princípio defendido pelos arqui-inimigos dos liberais, os socialistas???

OS MODELOS DEFENDIDOS PELA AUTORA:

“Diante disso, vem se aspirando um outro modelo social, onde a igualdade e a liberdade dos seres humanos ultrapassem a lei e se realizasse de fato. Assim, foi nascendo uma nova pedagogia fundada, representada e inspirada na prática pedagógica de Paulo Freire, chamada de Pedagogia Libertadora, cujo objetivo é a ascensão das camadas populares, que se define como uma conscientização social, cultural e política fora dos muros da escola. E, por último, está nascendo a Pedagogia dos Conteúdos-Sócio-Culturais, centrada na idéia de igualdade de oportunidade, representada pelo Professor Dermeval Saviane (sic)”.

Se consigo entender corretamente o texto da autora nesse parágrafo, ela defende, aqui, dois modelos pedagógicos, ambos, segundo ela, construídos em cima de “um outro modelo social, onde a igualdade e a liberdade dos seres humanos ultrapassem a lei e se realizasse (sic, sic) de fato”. Segundo ela, esses dois modelos não seriam nem liberais nem conservadores. Seu objetivo é a “ascensão das camadas populares”. (Ascensão para onde? Para o local em que os “burgueses” sempre estiveram?)

O primeiro desses modelos pedagógicos aprovados é a Pedagogia Libertadora, “representada e inspirada na prática pedagógica de Paulo Freire”.

O segundo é “a Pedagogia dos Conteúdos-Sócio-Culturais, centrada na idéia de igualdade de oportunidade, representada pelo Professor Dermeval Saviane (sic)”.

Dispenso-me de comentar aqui a Pedagogia Libertadora. Mas tenho algo a comentar sobre a pedagogia de Dermeval Saviani — que tem sido apresentada em vários livros seus com vários títulos diferentes (como, por exemplo, “Pedagogia Histórico-Crítica”).

A pedagogia savianina, como os seus vários títulos sempre indicam, é uma pedagogia “de conteúdos”. Ela tem como objetivo a transmissão de conteúdos aos alunos. Nesse sentido, ela é bastante tradicional. Na verdade, os conteúdos que Dermeval Saviani acha que os pobres devem dominar são, em parte, os mesmos conteúdos que a elite tem dominado — e que têm sido criticados pela escola nova… Obviamente esses conteúdos precisam ser transmitidos no contexto de um bom programa de doutrinação marxista — com um leve toque “renovado”, gramsciano… Saviani parece acreditar que, de posse dos conteúdos que a classe dominante possui, e imbuídos de fervor revolucionário, os pobres vão finalmente conseguir “libertar” a sociedade (razão pela qual a autora agrupa da pedagogia savianina com a freireana). [Para uma crítica mais completa à pedagogia de Dermeval Saviani ver meu artiguete “Pedagogia Histórico-Crítica: É Preciso Aproximar Mais” (http://chaves.com.br/TEXTSELF/PHILOS/dermeval.htm), escrito para ajudar meus alunos de pedagogia a entender melhor o pensamento savianino.]

É isso, por enquanto. Dispenso-me de comentar a apenas semi-inteligível bobageira final sobre avaliação.

Cortland, OH, 10 de janeiro de 2005

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O Povo, 08/01/2005 – Fortaleza CE

Avaliação da aprendizagem escolar

Para chegar à superação do autoritarismo, pretendemos fazer um apanhado dos modelos pedagógicos, em seguida tentaremos desocultar as tendências autoritárias

Antonia Leila Rocha Neves

A avaliação educacional escolar, atualmente no Brasil, é baseada na sociedade vigente, portanto autoritária. Tentaremos aqui, baseado em teóricos, sugerir maneiras de superar o autoritarismo. Para chegar à superação do autoritarismo, pretendemos fazer um apanhado dos modelos pedagógicos, em seguida tentaremos desocultar as tendências autoritárias, entendendo que a avaliação deve ser um instrumento de transformação social.

O modelo liberal conservador da sociedade, segundo Luckesi, produziu três pedagogias, com um mesmo objetivo, conservar a sociedade na sua configuração, a saber:

(a) a pedagogia tradicional, centrada no professor, o detentor do conhecimento, na transmissão de conteúdos e no intelecto.

(b) A pedagogia renovada ou escolanovista centrada nos sentimentos, na espontaneidade da produção do conhecimento e no educando com suas diferenças individuais.

(c) E, por último, a pedagogia tecnicista centrada nos meios técnicos de transmissão e apreensão dos conteúdos e o princípio do rendimento tentando em vão uma transformação social, fundamentada no princípio de que todos são iguais.

Diante disso, vem se aspirando um outro modelo social, onde a igualdade e a liberdade dos seres humanos ultrapassem a lei e se realizasse de fato. Assim, foi nascendo uma nova pedagogia fundada, representada e inspirada na prática pedagógica de Paulo Freire, chamada de Pedagogia Libertadora, cujo objetivo é a ascensão das camadas populares, que se define como uma conscientização social, cultural e política fora dos muros da escola. E, por último, está nascendo a Pedagogia dos Conteúdos-Sócio-Culturais, centrada na idéia de igualdade de oportunidade, representada pelo Professor Dermeval Saviane.

Luckesi, no entanto, propõe uma avaliação diagnóstica como um instrumento para auxiliar cada educando no seu processo de competência e crescimento para a autonomia, mas não quer dizer que seja menos rigorosa na prática da avaliação. A avaliação no sentido diagnóstico deverá verificar os

conhecimentos nos mínimos necessários e não nos mínimos possíveis.

Portanto, avaliação educacional escolar deve favorecer a elevação do cidadão, no sentido mais amplo de ser cidadão, cultural, social e politicamente, para que este possa atuar conscientemente na realidade na qual está inserido, para que possa haver uma transformação no cotidiano das práticas pedagógicas docentes no contexto da escola. Precisamos fazer da avaliação, como nos ensina Luckesi, um ato amoroso, pois ”o acolhimento integra, o julgamento afasta” (Luckesi, s.d.).

Tamanho máximo do cabelo masculino socialista

Olhem no que dá o socialismo comunista:

"Segundo a BBC, em reportagem carregada de ironia, a Coréia do Norte iniciou ‘um ataque intensivo de mídia contra seu mais recente arqui-inimigo: o corte errado de cabelo’. A televisão estatal expõe – até entrevista – cidadãos que considera maus exemplos, em contraste com bons exemplos no ‘estilo de vida socialista’. Recomenda no máximo cinco centímetros para os fios de cabelos, mas permite aos homens com mais de 50 anos até sete centímetros, para cobrir a calvície."

(Seção "Toda Mídia", de Nelson de Sá, na Folha de 10/1/2005).

O governo socialista-comunista da Coréia do Norte, que controla a propriedade dos meios de produção no país, controla as mídias, controla a religião, etc., resolveu controlar agora o tamanho máximo do cabelo dos homens: cinco centímetros — podendo chegar a sete em homens de mais de 50 anos com tendência à calvície.

E tem gente que ainda acha esse sistema sério.

Cortland, OH, 10 de janeiro de 2005

Preços monitorados e administrados

Prestem atenção ao Editorial da Folha de S. Paulo de hoje, 10/1/2005:

"Mais uma vez, os preços monitorados e administrados desempenharam o papel de vilão no aumento do custo de vida na cidade de São Paulo. Os 16 itens enquadrados nessa categoria, que representam apenas 3% dos 525 pesquisados, foram responsáveis por 44,5% da taxa [de inflação] acumulada em 2004, que foi de 6,56%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Seis produtos -luz, água e esgoto, telefone, gasolina, planos de assistência médica e educação- responderam por 35% do IPC. . . . Para 2005, a alta de preços deve ser novamente puxada pelos preços administrados…"

Admitidamente, a razão que o governo invoca para "monitorar" ou "administrar" preços, não deixando que o mercado os regule, é… não deixar que os preços de bens e serviços críticos, como luz, água e esgoto, telefone, gasolina, saúde e educação, AUMENTEM DEMAIS, colocando esses bens e serviços fora do alcance da população.

No entanto, consistentemente, o preço desses bens e serviços monitorados e administrador pelo governo É O QUE MAIS AUMENTA. Eles aumentaram mais em 2004 e a previsão é de que vão aumentar mais em 2004.

Em todo lugar que o governo bota as suas mãos acontece o oposto das intenções do governo — supondo que as intenções declaradas sejam as intenções reais.

Cortland, OH, 10 de janeiro de 2005

Centenário do nascimento de Ayn Rand

No dia 2 de Fevereiro próximo — ou seja, daqui a exatamente um mês — todos os amantes da liberdade comemoraremos o centenário do nascimento de Ayn Rand — Alissa Zinovievna Rosenbaum, ao nascer. Nascida em São Petersburgo, Russia, em 2005, Rand emigrou para os Estados Unidos em 1926, quando tinha 21 anos – e nunca mais viu sua família.

Nos Estados Unidos, acabou se tornando uma das maiores romancistas e uma das maiores filósofas do século XX.

Sugiro que visitem o meu site www.aynrand.com.br.

Cortland, OH, 02 de Janeiro de 2005

A desejada morte de Fidel Castro e a proximidade da liberdade em Cuba

Numa de minhas listas de discussão (livremente@yahoogrupos.com.br – vr. também www.livremente.net) foi levantada a questão da morte de Fidel Castro e da libertação de Cuba, a propósito de uma mensagem de bons augúrios para o ano novo, que eu enviei, desejando que, entre outras coisas, Fidel Castro morresse em 2005 e o povo cubano alcançasse liberdade.

Retrucou-se, de um lado, que o desejo de que Fidel Castro morresse seria tipicamente um desejo americano. Meu amigo Antonio Morales afirmou isso.

Retrucou-se, de outro lado, que a morte de Fidel Castro poderia não trazer a libertação tão desejada, dentro e fora da ilha, do povo cubano. Minha amiga Lenise Garcia levantou essa possibilidade.

Eu respondi às duas observações no texto que segue.

1) O desejo de que o liberticida Fidel Castro passe desta para pior não é exclusivamente americano: é o desejo inequívoco de todos amantes da liberdade. É claro que o povo americano, amante da liberdade que é, comunga desse desejo — como o faço eu, brasileiro de nascimento e transnacional por vocação e escolha.

2) Não tenho dúvida de que, com a morte do serial killer Fidel Castro, a ditadura cubana se esmoronará. Poucos regimes liberticidas sobrevivem à morte de seu principal avalista. A população cubana, estou certo, anseia pela liberdade — só não tomando as providências necessárias para antecipá-la por puro medo. Mas quando a morte de Fidel for anunciada, ou descoberta, ou executada, haverá uma explosão de manifestações populares a favor da liberdade nas ruas, internamente — e uma pressão externa, oriunda dos cubanos da Flórida, irresistível. Cuba já não vive hoje sem o dinheiro dos cubanos em diáspora. Morto o tirano, ninguém os segura mais fora do seu país. Vão levar os dólares acumulados para investir no país.

No nível do emocional, gostaria de ver Castro derrubado, de dentro, e fuzilado no “paredón”, para experimentar o próprio remédio que ele tornou famoso. Mas isso poderia iniciar um novo ciclo de violência. No nível do racional, prefiro que ele morra um morte rápida, à vista de todos (durante um discurso, por exemplo), para não dar para esconderem a sua morte enquanto tramam sua sucessão. E prefiro que dentro de poucas horas os cubanos do exterior desembarquem na ilha numa festa de liberdade, e que as estátuas de Fidel tenham o mesmo destino das de Lenin.

Cortland, OH, 02 de Janeiro de 2005

Graham Greene e sua biografia

Olhando minha lista de livros a comprar, sinto-me na obrigação de esclarecer que comprei os três volumes da magnífica biografia de Graham Greene escrita por Norman Sherry. No total os três volume chegam perto de 2.500 páginas, que custaram a Norman Sherry bem mais de uma década de vida.

Estou avançado na leitura do primeiro volume, que cobre a vida de Greene do nascimento, em 1904, até 1939. Ao mesmo tempo, estou relendo três dos livros dele de que mais gosto: The Power and the Glory, The Heart of the Matter e The End of the Affair (cujo filme, em sua versão mais recente, com Julianne Moore e Ralph Fiennes, é maravilhoso).

Ao ler a biografia fico me perguntando o que leva uma pessoa, como Norman Sherry, a dedicar tantos anos de sua vida a biografar uma outra — por mais importante e interessante que seja essa outra pessoa…

Consta que Norman Sherry visitou todos os lugares que se sabe que Graham Greene visitou, retraçando os passos do seu biografado. Leu tudo o que se sabe existir que tenha partido da pena ou da máquina de escrever de Graham Greene, inclusive cartas particulares, caçadas mundo afora. Investigou tudo o que já foi publicado sobre Graham Greene, inclusive em autobiografias e memórias. Entrevistou milhares de pessoas.

Acho fantástico esse esforço, notável essa dedicação a uma tarefa.

Cortland, OH, 30 de Dezembro de 2004

Ajuda às vítimas da tragédia na Ásia

Escrevo em 30/12/2004, penúltimo dia do ano de 2004.

Sem dúvida o terremoto que aconteceu recentemente na Ásia, seguido da invasão de vários países por ondas oceânicas gigantescas, que ficaram conhecidas como tsunamis, e que causou um número de mortes cuja estimativa parece a cada hora aumentar, é algo consternador, e é um tributo à generosidade da raça humana ver a mobilização de indivíduos e organizações privadas para ajudar as vítimas que sobreviveram ou os sobreviventes das vítimas que não tiveram tanta sorte.

Não acredito, porém, que governos democráticos, pelo menos os dois países não atingidos,  tenham o direito de fazer contribuições em dinheiro ou espécie para os países atingidos ou seus cidadãos.

Governos não geram riquezas. Toda a riqueza do mundo é produzida por indivíduos ou organizações produtivas de bens ou serviços. Governos vivem do dinheiro que conseguem arrancar, através de taxação, dos habitantes de seus territórios ou das atividades exercidas nesses territórios (ainda que por agentes estrangeiros). As chamadas organizações multilaterais (as do sistema das Nações Unidas e outras) vivem das contribuições que lhes fazem os países membros. Fundações e ONGs são financiadas por indivíduos produtivos ou por empresas. É evidente que a única fonte de riqueza são indivíduos e empresas (organizações produtivas).

Países democráticos deveriam levar a sério o princípio de que o dinheiro que o governo arrecada por impostos não é dele — é dos cidadãos que pagam esses impostos. Por isso, ao contemplar qualquer taxação, o governo deveria, primeiro, esclarecer aos cidadãos sobre os quais o imposto irá recair os princípios que, se aprovado o imposto, iriam reger sua cobrança e aplicação: quem iria arcar com ele, e em quanto, e para que seria usado aquele recurso. Com essas informações, a população atingida teria de decidir, caso a caso, se concordava ou não com a taxação pretendida. Mais ou menos como acontece em alguns condados dos Estados Unidos, como expliquei em mensagem anterior neste blog. Se a população atingida estiver de acordo com o uso pretendido do imposto, e com o valor e a duração de sua cobrança, irá pagá-lo sem reclamar. Se não estiver, o governo estará proibido de cobrá-lo. Ponto final. Tertium non datur.

O governo não é dono do dinheiro arrecadado por impostos. Por isso não pode dispor dele como dá na cabeça dos governantes de plantão. Nem o Lula, nem o Bush, nem nenhum outro governante de país democrático, tem o direito de pegar o dinheiro arrecadado de seus cidadãos pagantes de impostos e doá-lo a outros países e/ou a seus cidadãos, por maior que seja a necessidade destes e por mais nobre que seja ajudá-los. O direito à propriedade significa que só os donos do dinheiro podem dispor dele, podem decidir os usos que serão dados a esse dinheiro.

Pessoas físicas e organizações produtivas podem e devem fazer isso — as empresas, caso seus acionistas, ou quem claramente os represente, esteja de acordo. Não governos.

É fácil, mas não correto, ser generoso com o dinheiro alheio.

Recentemente, quando Lula viajou para alguns países da África, fez generosidade com o dinheiro alheio. Doou até laboratórios de computadores para crianças do Gabão, creio — país governado por um ditador de cuja longevidade no poder Lula declarou ter inveja. O dinheiro para fazer essa generosidade não era dele. Se ele desse os laboratórios com a aposentadoria de perseguido pelo regime militar que recebe, teria sido menos ilegítimo — mas nem mesmo essa aposentadoria, paga em parte com o meu dinheiro, eu considero legítima: eu nunca concordei com ela nem fui instado a me manifestar.

Cortland, OH, 30 de Dezembro de 2004

Educação pública nos Estados Unidos

No momento (20041203) estou aqui nos Estados Unidos estudando um programa muito interessante de desenvolvimento profissional de professores usando os próprios professores ("Desenvolvimento profissional ‘inter pares’", ou "Peer Coaching", em Inglês — vide http://peercoach.net). Mas sobre isso falarei noutra hora na lista 4pilares (http://4pilares.net).

Aqui queria ressaltar algo que me impressionou. No processo estou visitando algumas escolas públicas e distritos educacionais aqui no estado de Washington.

A educação básica pública (K-12 — Jardim da Infância até o final do Ensino Médio) aqui é financiada por impostos — e, portanto, gratuita para o usuário. A merenda (almoço, lanche, etc. — os alunos ficam o dia inteiro na escola), porém, apesar de ser fornecida pela escola em um restaurante (cafeteria), é paga pelos alunos, exceto por aqueles que vivem no nível de pobreza (cerca de 2 mil dólares por mês para uma família de quatro).

As escolas estão vinculadas a um distrito educacional — algo equivalente a uma antiga delegacia de ensino do Estado de São Paulo. O distrito educacional que tenho visitado (Edmonds, Estado de Washington) possui 35 escolas mais uma escola experimental.

O superintendente do distrito educacional é eleito pela população do distrito — e pode ser removido se não tiver desempenho satisfatório. Diretores, em regra, são escolhidos pelo superintendente do distrito, dentre professores da escola, em processo de negociação com a escola (não é eleição pela escola).

Mas o mais interessante, em minha opinião, é o seguinte conjunto de fatos:

a) O orçamento de custeio básico das escolas [pessoal, material de consumo, despesas com água, luz, telefone, etc.] já está previsto nos impostos (LOCAIS) pagos pela população.

b) Qualquer investimento [construção de nova escola, reforma de uma escola já existente, aquisição de computadores ou demais equipamentos, substituição de computadores e outros equipamentos, reforço significativo da biblioteca], ou mesmo a implantação de um projeto de reforma pedagógica, etc., dependem de impostos especiais, pagos apenas para cobrir aquela despesa, e que precisam ser especificamente aprovados pela população do distrito.

c) As autoridades educacionais do distrito, como o superintendente e sua equipe, precisam formular o pedido, justificá-lo, objetivamente, e dar à população as informações necessárias para tomar sua decisão — mas estão proibidas, por lei, de advogar a sua aprovação, de fazer lobby para o aumento (ainda que episódico) de impostos. A advocacia do pedido só pode ser feita por grupos de cidadãos, residentes no distrito, interessados em sua aprovação. As autoridades educacionais podem ser presas (sic) se se envolverem na advocacia da suas próprias causas, ainda que justas, fazendo, por exemplo, uma declaração pública a favor do aumento de impostos pleiteado.

d) Dessa forma, a população de um distrito sustenta as suas escolas, mas não dá cheque em branco ao governo local: o dinheiro que dá é dirigido a projetos específicos e sua aplicação, naqueles projetos, é supervisionada e controlada de perto.

É isso. Que diferença.

Vide algumas fotos que tirei numa visita a uma escola (Meadowsdale Elementary School) aqui neste espaço.

Redmond, WA, 3 de Dezembro de 2004