Ainda sobre a riqueza e a densidade da informação vs imaginação

Coloquei aqui há dias uma entrevista de Juergen Boos que alegava que a riqueza e a densidade da informação presentes em materiais multimídia inibe a imaginação. Vide:

http://ec.spaces.live.com/default.aspx?_c01_BlogPart=blogentry&_c=BlogPart&handle=cns!511A711AD3EE09AA!3445 

Mauricio Ernica comentou no Facebook:

“Riqueza e densidade negam o imaginário? Essa afirmação me parece baseada numa visão ao mesmo tempo pobre e ingênua no que diz respeito à construção do imaginário e preconceituosa no que diz respeito à integração de mídias.”

Viviane Camozzato contestou, também no Facebook:

“Fiquei pensando que as imagens e outros recursos visuais tem o poder, sim, de preencher muitos dos vazios tão importantes para a imaginação. No caso dos contos de fadas, por exemplo, a imagem de determinado tipo de princesas (louras, altas, magras…) tem sido fecunda para limitar a imaginação a partir destas formas. Por muito tempo certas imagens eram praticamente as únicas, e acho que tudo isto tem a ver mais com a força e recorrência de certas formas de representação do que com a representação em si. Atualmente tem ocorrido um movimento crescente (mas ainda muito insuficiente, creio) para pluralizar mais as imagens e as possibilidades de contar as histórias. Entretanto, acho que tudo isto seria melhor se a prática de contar e construir histórias com as crianças e  representá-las de formas variadas (sem insistir, por exemplo, em fixar as coisas em consonância com uma suposta correspondência na "realidade") fosse uma atividade primeira ao invés de fazer dos livros multimídia uma nova babá eletrônica como a TV. Abs!”

Tendo a concordar com a Viviane.

Tomemos uma história contada em livro. Neste caso, temos apenas a história, narrada pelo texto. Dom Casmurro, de Machado de Assis, por exemplo, livro que provavelmente todos nós lemos na adolescência. Cada leitor precisava usar a sua imaginação para atribuir a Bentinho e Capitu as suas vozes e a sua aparência, para construir os cenários… Para aqueles de imaginação rica, a história ficava muito mais rica do que para aqueles de imaginação mais pobre…

Compare-se o livro com as rádionovelas, que continham apenas áudio (sim, sou desse tempo). Agora a gente tinha uma história representada por diálogos e uma voz que narrava… Ainda podíamos imaginar a aparência dos personagens. Mas os personagens agora tinham voz (e os efeitos especiais sonoros eram criados por aquela figura especial, o “sonoplasta” [Lima Duarte foi sonoplasta, pelo que consta]). Nossa imaginação, nesse caso, preenchia os detalhes visuais: como era a aparência dos atores, como era o cenário, como se desenvolviam as cenas. Mas nossa imaginação não conseguia mais imaginar, para os personagens, uma voz diferente daquela provida pelo rádio. As vozes de Albertinho Limonta e Isabel Cristina na primeira edição de O Direito de Nascer no rádio ficaram para sempre cristalizadas na mente de quem as ouviu. Edições subseqüentes da novela na rádio não pareciam críveis, porque as vozes eram diferentes. Tal é o poder da mídia para inibir a imaginação!

Entra o vídeo – e a nossa imaginação da aparência dos personagens é afetada… Quando a gente lia (digamos) Gabriela, Cravo e Canela antes de haver uma novela e um filme sobre o livro, cada um podia imaginar a aparência de Gabriela e de Mundinho… Depois da novela da Globo, não é fácil imaginar uma Gabriela que não tenha a cara, o corpo e o jeito da Sonia Braga… Ou um Mundinho muito diferente de José Wilker. No filme, em que Mascelo Mastroianni representa Mundinho, algo parece estar fora de lugar… E assim vai… Nosso imaginário ficou circunscrito por a gente já ter cristalizado uma imagem da Gabriela, do Mundinho, não ficou?

Continuando: Para quem assistiu a Os Dez Mandamentos de Cecil B de Mille, é possível imaginar um Moisés que não tenha a cara de Charlton Heston??? Para várias gerações que assistiram a O Vento Levou, Rhett Butler é Clark Gable.

E assim vai.

Meus dois romances favoritos são, nesta ordem, Atlas Schrugged (Quem é John Galt?) e The Fountainhead (A Nascente), ambos de Ayn Rand, escritos em 1957 e 1943, respectivamente. De The Fountainhead foi feito um filme em 1949, com Gary Cooper e Patricia Neal nos papéis principais de Howard Roark e Dominique Francon. Um desastre, na minha opinião. Ayn Rand era fã de Cooper e quis que ele tivesse o papel. Mas ele era totalmente inadequado para representar Roark. Bem mais velho, com uma voz rouca, rápida e meio em staccato, seco, sem nenhum charme… Neal, então, na minha imaginação, é a anti-Francon: baixinha, agitada, com um rosto que deixa muito a desejar. Quando vi o filme, custei agüentar até o fim. O livro, entretanto, já li uma dezena de vezes. Dizem que está sendo planejada uma série sobre Atlas Shrugged (que dificilmente caberá em um filme – o livro tem mais de mil páginas de história densa e complicada). Duvido que achem atores que consigam corporificar as imagens de John Galt, Dagny Taggart, Francisco D’Anconia, Ragnar Danneskjöld, Hank Rearden. (Para a imagem de James Taggart, o vilão e anti-herói, consigo imaginar vários!). Dizem que Angelina Jolie pleiteia a parte de Dagny. Mas, na minha imaginação, não há como Angelina possa se transmutar em Dagny. Por outro lado, se eu não tivesse lido o livro, e viesse a ver a série, com Angelina Jolie no papel de Dagny Taggart, provavelmente, quando fosse ler o livro, Dagny seria Angelina…

É isso.

A pergunta interessante é a levantada por Viviane, em seu comentário. Na escola, ambiente em que desejamos (entre outras coisas) estimular ainda mais a já rica imaginação das crianças, devemos usar histórias em vídeos e histórias em multimídia? Será que, se o fizermos, a imaginação das crianças não ficará compremetida e se tornará menos rica?

Maurício, em seu comentário, disse que esse receio “me parece basead[o] numa visão ao mesmo tempo pobre e ingênua no que diz respeito à construção do imaginário e preconceituosa no que diz respeito à integração de mídias.” Por que, Maurício? Você apenas alegou, não argumentou… Vamos argumentar um pouco?

Em São Paulo, 11 de Abril de 2010

“Educação sem Doutrinação” e “Escolas sem Partido”

Quando fui contratado pela UNICAMP em Julho de 1974, tive de elaborar um Plano de Pesquisa que justificaria minha permanência na universidade em tempo integral e dedicação exclusiva. Meu plano de pesquisa foi sobre Educação e Doutrinação.

Não consigo encontrar, no momento (posto que estou separado de meus arquivos e de meus livros), o texto daquele plano. Mas encontrei um artigo, que originalmente escrevi em 1976 (“A Filosofia da Educação e a Análise de Conceitos Educacionais”, publicado no livro Introdução Teórica e Prática às Ciências da Educação, organizado por Antonio Muniz de Rezende, Editora Vozes, Petrópolis, 1977), que que resumiu parte de minha pesquisa. O material apresentado a seguir consta de uma segunda versão, expandida desse artigo, versão que publiquei na Internet. Introduzo nessa segunda versão, agora, algumas pequenas alterações editoriais:

Quem doutrina, ao contrário de quem educa, está interessado em que seus alunos simplesmente venham a aceitar (acreditar em) os pontos de vista que ele adota e esposa. Ele é, acima de tudo, um partidário, um mercador de pontos de vista.

Quem educa, ao contrário de quem doutrina, está interessado em que seus alunos venham a examinar os fundamentos dos diferentes pontos de vista sobre um determinado assunto, e, assim, venham, em conseqüência desse exame, a compreender o assuntosó tomando a decisão de aceitar ou rejeitar os diferentes pontos de vista (acreditar ou não acreditar neles) em decorrência do exercício livre de seu julgamento das credenciais dos fundamentos epistêmicos (em termos de evidências e argumentos) desses pontos de vista.

Procurei a seguir esclarecer um dilema que aflige muitos pais e educadores bem intencionados.

A possibilidade da doutrinação faz com que aqueles que se preocupam com a educação, de seus filhos ou de seus alunos, se confrontem com um sério dilema. Este dilema, embora possa surgir em qualquer área, aparece mais freqüentemente naquelas áreas em que a evidência parece ser mais inconcludente mas em que, por ironia do destino, se encontram algumas das questões mais básicas e importantes com que tem de se defrontar o ser humano: a moralidade, a política, e a religião.

Por um lado, nós, como pais e educadores, em geral acreditamos (por exemplo) ser necessário apresentar a nossos filhos e alunos o ponto de vista moral, o lado moral das coisas, para que venham a ser seres morais.

Por outro lado, acreditamos (se somos bem intencionados) que temos de evitar a doutrinação, se queremos realmente educar nossos filhos e alunos, isto é, se queremos que eles se tornem indivíduos livres para pensar, escolher e agir, liberdade esta que é pré-condição para que eles venham a ser seres morais.

É diante desse dilema que temos de procurar as melhores maneiras de prosseguir, sabendo, de antemão, que a tarefa é difícil e que muitos, antes deles, optaram, OU por não oferecer nenhum ensino nessas áreas, OU, então, pela doutrinação pura e simples como única outra alternativa viável.

É em confronto com esse dilema que muitos têm optado pela alternativa da chamada “educação negativa”, que não é nem educação nem negativa, devendo, talvez, ser descrita como “não educação neutra”, por pardoxal que essa expressão possa parecer. Eles afirmam que o ensino da moralidade, da política, e da religião não deve ser ministrado até que a criança atinja maturidade suficiente para analisar a evidência e tirar suas próprias conclusões.

Outros têm se desesperado e concluído que a única outra alternativa, apesar dos pesares, é doutrinar – estes são os doutrinadores contra sua própria vontade. [Estes são os pais e educadores bem intencionados, que prefeririam não doutrinar mas concluem que, em algumas áreas, em especial na área da moralidade, da política e da religião, é impossível não doutrinar. Eles diferem dos pais e educadores mal intencionados que não respeitam a liberdade dos filhos e alunos desejam doutriná-los, para que venham a pensar como eles, pais e professores, pensam.]

Tanto os defensores da “educação negativa” como os que, contra a vontade, optam pela doutrinação, não vêem uma terceira alternativa, não vêem uma solução realmente educacional para o problema. Embora não seja fácil promover essa alternativa,,desenvolvimentos recentes no campo da educação moral, da educação política e da educação religiosa, têm nos indicado o caminho a seguir na direção de uma educação moral, política e religiosa viável e digna do nome. Mas ainda há muito por fazer nessa área.

Concluindo aquele artigo de 1976, procurei resumir por que a doutrinação é indesejável.

Fica claro, do que foi dito, porque a doutrinação é indesejável e moralmente censurável.

Quem doutrina não respeita a liberdade de pensamento e de escolha de seus filhos e alunos, procurando incutir crenças em suas mentes e não lhes dando condições de analisar e examinar a evidência, decidindo, então, por si próprios.

Quem doutrina desrespeita os cânones de racionalidade e objetividade, tratando questões abertas como se fossem fechadas, questões incertas como se fossem certas, enunciados falsos ou não demonstrados como verdadeiros como se fossem verdades acima de qualquer suspeita.

É verdade que essa tomada de posição contra à doutrinação já implica, ao mesmo tempo, um comprometimento com certos valores e ideais básicos, como o da liberdade de pensamento e de escolha dos alunos (e de qualquer pessoa), o da racionalidade, etc. É importante que se reconheça isso para que não se incorra no erro de pensar que a adoção desses valores e ideais não precisa ser defensável, e, mais que isto, defendida, através da argumentação. Argumentos contra a adoção desses valores e ideais precisam ser cuidadosamente analisados para que, ao propor a tese da indesejabilidade e falta de apoio moral da doutrinação, não o façamos de modo a imitar os doutrinadores, isto é, tratando como fechada uma questão que é realmente aberta. Cremos não ser esta a ocasião de fazer esta defesa dos valores e ideais da liberdade de pensamento e escolha, nem da racionalidade. Mas isto não significa que estes valores e ideais não precisem ser defendidos.

Com estas observações concluímos esta seção sobre doutrinação. Cremos que a análise desse conceito, além de valiosa em si mesma, nos ajuda a compreender melhor, por contraste, o que seja a educação. Uma análise mais completa deveria incluir um exame das semelhanças e diferenças existentes entre doutrinação, treinamento, condicionamento, lavagem cerebral, etc. Há importantes diferenças, bem como semelhanças, entre esses conceitos. Isto, porém, precisará ficar para um outro trabalho.

Em 1974, em que acabava de retornar ao Brasil depois de sete anos nos Estados Unidos, preocupava-me principalmente a doutrinação religiosa, da qual eu havia sido, em parte, vítima. Mas me preocupava, também, naquela época, a infeliz iniciativa dos militares de tornar obrigatória em nossas escolas a “Educação Moral e Cívica” – destinada a incutir “bom mocismo”, patriotismo e, naturalmente, lealdade ao governo dos alunos. (Comecei a me preocupar com isso quando, no final da década de sessenta, quando eu morava nos Estados Unidos, minhas irmãs, nascidas em 1957 e 1959, começaram a me enviar cartas em que as palavras vinham escritas, alternadamente, nas cores verde, amarela e azul — em um papel branco).

Não tinha, naquela ocasião, idéia do que estava por vir com o fim do regime militar e a implantação, a partir de 1984, de uma república que se pretendia nova. A odiosidade do regime militar permitiu que esquerdistas (especialmente comunistas e socialistas) tivessem condições de difundir o ponto de vista de que fora a esquerda que havia derrubado o regime militar e reimplantado o estado de direito e a democracia no país.

Esse ponto de vista, além de mentiroso, por ignorar o papel dos liberais na luta pela liberdade (afinal de contas, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, etc. não eram esquerdistas), é especialmente odiosa porque os comunistas e a boa parte dos socialistas não queriam a reimplantação do estado de direito e da democracia no país. Queriam, isto sim, substituir a ditadura militar por uma ditadura de esquerda, supostamente do proletariado ou dos trabalhadores, liderados por uma vanguarda intelectual, política, e sempre ativista, composta de esquerdistas de carteirinha.

Esse ponto de vista gerou também um trabalho de “formiguinha” dessa vanguarda de esquerda que, antes de assumir controle da máquina política (agora em grande parte controlada), aparelhou a máquina acadêmica, em especial os mecanismos de formação de professores, doutrinando os futuros professores na cartilha (“vulgata”) marxista.

O resultado está aí, vinte e poucos anos depois: um sistema educacional que, até mesmo na rede privada, vomita o tempo todo em cima dos alunos um lixo esquerdizante horrível, com o objetivo de doutrinar esses alunos, tornando-os sensíveis às campanhas políticas e às manobras eleitoreiras da esquerda.

O sucesso desse empreendimento pode ser julgado em muitas frentes.

Uma frente é, naturalmente, a política.

Depois de dezesseis anos de governo de viés esquerdizante no governo federal, temos, agora, em 2010, uma campanha presidencial em que todos os principais candidatos são nitidamente de viés esquerdista: um ex-presidente da União Nacional dos Estudantes, uma ex-terrorista, uma militante ambiental, e um ex-governador metido a radical de esquerda, que foi ministro do governo Lulla durante as duas gestões.

Não nos deixemos enganar pelas manobras da esquerda. O PT tenta descaracterizar o PSDB como esquerda, procurando colar nele o rótulo de neo-liberal (apesar de o partido se rotular de “Partido da SOCIAL-Democracia Brasileira” e se comportar, consistentemente, como social-democrata. Lulla tenta descaracterizar FHC como esquerda. No entanto, todos comemoraram, juntos, em 1994, a “eleição [de FHC] como o primeiro presidente de esquerda do Brasil”. O PT e os partidos mais à esquerda comemoraram, de novo, em 2002, oito anos depois, a “eleição [agora de Lulla] como o primeiro presidente de esquerda do Brasil”. Os partidos mais à esquerda de Lulla, e mesmo parte do PT, não hesitam agora em rotular Lulla como neo-liberal. Para eles, Serra é de direita…

A outra frente, mais importante no longo prazo, porque viabiliza a frente política, é a educacional. Seguindo a orientação de Gramsci, a esquerda assumiu controle de todos os espaços formadores de opinião, dos quais a educação (seguida da mídia e das editoras) é o principal.

O resultado, nessa frente, é descrito e denunciado muito bem no excelente site: “Escolas sem Partido” – que tem o lema “Educação sem Doutrinação”.

Leiam, em especial:

“Envenando a mente das crianças”

http://www.escolasempartido.org/index.php?id=38,1,article,2,283,sid,1,ch

“O que ensinam às nossas crianças”

http://www.escolasempartido.org/?id=38,1,article,2,182,sid,1,ch

Eis, a seguir, duas páginas desse site.

A primeira, “Deveres do Professor”, descreve deveres do professor que não quer doutrinar. Ela descreve o oposto daquilo que se vê na sala de aula dos professores politicamente engajados na esquerda e que militam, simultaneamente, em partidos políticos de esquerda.

A segunda é uma apresentação do site.

Recomendo que visitem o site e leiam o que ali está descrito e denunciado.

O Coordenador do site está sendo processado, com grande alarde, pelo COC (Curso Oswaldo Cruz), com sede em Ribeirão Preto, por ter denunciado o fato de que um livro de História daquela rede de ensino está cheio de lixo esquerdista.

———-

http://www.escolasempartido.org/index.php?id=38,1,article,2,154,sid,1,ch

DEVERES DO PROFESSOR

1. O professor não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente político-ideológica, nem adotará livros didáticos que tenham esse objetivo.

2. O professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, religiosas, ou da falta delas.

3. O professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.

4. Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade –, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.

5. O professor não criará em sala de aula uma atmosfera de intimidação, ostensiva ou sutil, capaz de desencorajar a manifestação de pontos de vista discordantes dos seus, nem permitirá que tal atmosfera
seja criada pela ação de alunos sectários ou de outros professores.

http://www.escolasempartido.org/?id=38,1,topico,2,20,new_topic

EscolasemPartido.org é uma iniciativa conjunta de estudantes e pais preocupados com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras, em todos os níveis: do ensino básico ao superior.

A pretexto de transmitir aos alunos uma “visão crítica” da realidade, um exército organizado de militantes travestidos de professores prevalece-se da liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo, normalmente identificada com a de alguma corrente política e ideológica.

Como membros da comunidade escolar – pais, alunos, educadores, contribuintes e consumidores de serviços educacionais –, não podemos aceitar esta situação. Entretanto, nossas tentativas de combatê-la por meios convencionais sempre esbarraram na dificuldade de provar os fatos e na incontornável recusa de nossos educadores em admitir a existência do problema.

Ocorreu-nos, então, a idéia de divulgar testemunhos de alunos, vítimas desses falsos educadores. Abrir as cortinas e deixar a luz do sol entrar. Afinal, como disse certa vez um conhecido juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, “a little sunlight is the best disinfectant”.

Quando começávamos a pôr mãos à obra, tomamos conhecimento de que um grupo de pais e estudantes, nos EUA, movido por idêntica preocupação, já havia percorrido nosso caminho e atingido nossa meta: NoIndoctrination.org.

Inspirados nessa bem sucedida experiência, decidimos criar o EscolasemPartido.org, uma associação informal, independente, sem fins lucrativos e sem qualquer espécie de vinculação política, ideológica ou partidária.

Miguel Nagib – coordenador

———-

Em Salto, 10 de Abril de 2010

NOTA de 11/5/2018

Este artigo é parte de uma série de cinco artigos que começou há quase dez anos neste blog Liberal Space e que defende o Liberalismo Clássico e uma Educação Liberal, que leve o Liberalismo Clássico a sério, combatendo uma educação que não merece o nome, pois é mais doutrinação do que educação, que foi moldada para combater o Liberalismo Clássico e para promover uma educação de viés socialista, quando não comunistizante.

São estes os cinco artigos:

O mais antigo dos artigos, “Dogmatismo e Doutrinação“, foi publicado em 3/4/2009, há quase dez anos, no endereço https://liberal.space/2009/04/03/dogmatismo-e-doutrinacao/.

Em seguida, “‘Educação Sem Doutrinação’ e ‘Escolas Sem Partido’“, que foi publicado em 10/4/2010, no endereço https://liberal.space/2010/04/10/educacao-sem-doutrinacao-e-escolas-sem-partido/.

O terceiro artigo, “Doutrinação e Educação: A Esquerda Pretende Argumentar que Doutrinar não Passa de um Jeito ‘Crítico’ de Educar“, que foi publicado em 28/5/2016, no endereço https://liberal.space/2016/05/28/doutrinacao-e-educacao-a-esquerda-pretende-argumentar-que-doutrinar-nao-passa-de-um-jeito-critico-de-educar/.

O quarto artigo, “A Controvérsia Acerca do ‘Escola Sem Partido’ Continua: PL 867/2015“, publicado em 14/5/2018, no endereço https://liberal.space/2018/05/14/a-controversia-acerca-do-escola-sem-partido-continua/.

Por fim, o quinto artigo, “A Escola e a Liberdade”, publicado em 10/11/2018, no endereço https://liberal.space/2018/11/10/a-escola-e-a-liberdade/.

Eduardo CHAVES

As pequenas coisas que esquecemos ou perdemos

Fantástica matéria na Folha de S. Paulo, Simples, objetiva, essencial. Trata das pequenas coisas do dia-a-dia que não podemos esquecer ou perder, mas que estamos sempre esquecendo ou temporariamente (às vezes definitivamente) perdendo.

Pretendo praticar vários desses conselhos.

———-

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq0804201013.htm

Folha de S. Paulo
8 de Abril de 2010

VIDA PRÁTICA

Para não esquecer

Chega de controle remoto escondido e de papel do estacionamento perdido na bolsa

EM CASA

Deixe um bloquinho para recados (junto com uma caneca cheia de canetas) perto da porta, ao lado das chaves, por exemplo. Assim dá para lembrar de avisar quem vai ficar em casa se o técnico da TV a cabo vai fazer uma visita, se é preciso pagar o gás etc.

Tenha um espaço perto da porta de casa para guardar celular, carteira, papéis importantes e tudo mais que você usa quando vai sair. Pode ser um cabideiro com nichos, como o da foto, ou uma bandeja sobre um aparador, por exemplo.

Use uma bandejinha sobre a mesa de centro para colocar todos os controles remotos juntos e não perdê-los pela casa. Os porta-controles com nichos, vendidos em lojas de decoração, costumam ter pouco espaço, por isso a bandeja funciona melhor. Pode ser até uma tampa de caixa forrada com tecido.

Quando for guardar alguma coisa importante, como o passaporte, diga em voz alta o que você está guardando e onde. Isso serve para chamar sua própria atenção ao que você está fazendo.

NA RUA

Centralize os objetos que vão na bolsa dentro de nécessaires, para não ficar tudo espalhado. Assim, cada vez que a bolsa é aberta, dá para ver o que está lá dentro e perceber o que está faltando. Miudezas, como maquiagem, podem ser colocadas em caixas de óculos ou bolsinhas forradas com plástico, para facilitar a limpeza.

Deixe um dos bolsos internos da bolsa reservado para guardar os itens que precisam estar sempre à mão, como o papelzinho do estacionamento e um dinheiro trocado. Deixe pouca coisa nesse bolso, senão logo tudo vai se misturar e ele vai perder sua função.

Quando for levar um guarda-chuva para sair, experimente usar um acessório diferente, como uma pulseira, ou mudar um anel de dedo, para lembrar que está carregando algo a mais. A estratégia é usada pela organizadora de lares Cristina Papazian. O neurocienista Felipe Viegas Rodrigues alerta, no entanto, que a estratégia pode não funcionar, porque a pessoa pode esquecer qual é a relação do acessório com o objeto a ser lembrado.

Antes de sair do carro, por exemplo, pense no que vai ter que levar: “Estou com duas sacolas de compras e uma pasta”. Segundo o neurocientista Felipe Viegas Rodrigues, parar para se planejar evita a automatização das ações e permite que você preste atenção ao que está fazendo.

[Fontes: CRISTINA PAPAZIAN, organizadora de lares, e FELIPE VIEGAS RODRIGUES, neurocientista do Laboratório de Neurociências e Comportamento da USP]

———-

Em São Paulo, 8 de Abril de 2010

A riqueza e densidade da informação no livro inibe a imaginação

Quanto mais rica e densa é a informação em um livro, menor é o espaço deixado para a imaginação – e esta é extremamente importante.

Por isso, o diretor da Feira de Frankfurt tem dúvidas quanto aos méritos de livros multimídia, com sons, vídeos, etc. Eis a entrevista dele publicada na Folha.

———-

http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u717325.shtml 

07/04/2010 – 09h53

Livro interativo limita capacidade de imaginação, diz diretor da Feira de Frankfurt

MARINA LANG
da Reportagem Local

Um livro que fala, canta, tem ilustrações animadas e tecnologia 3D. Há dez anos essas características seriam fantasia de filmes de ficção. Mas, daqui a outros dez, elas devem vigorar –e com a força total de um mercado em expansão.

O livro digital multimídia –que compila outros atrativos além da leitura trivial, como dublagem e animações– mal começou a ser desenvolvido na rota do mercado e, mesmo assim, já foi alvo de críticas pela possível subtração da capacidade imagética dos leitores.

A opinião é compartilhada por Juergen Boos, diretor da Feira do Livro de Frankfurt, um dos maiores eventos mundiais voltados ao segmento, que ocorre anualmente na Alemanha.

Em entrevista à Folha, Boos fala da limitação que o e-livro multimídia traz à imaginação do leitor. Mas acrescenta: "para livros profissionais ou de não-ficção, isso pode ser uma tremenda vantagem".

FOLHA – Pesquisas recentes mostram que o leitor não quer pagar por conteúdo on-line, e que até deixaria de ler algumas publicações, caso elas optassem por esse caminho. O que o senhor pensa a respeito disso?

JUERGEN BOOS – A cultura do gratuito que existe on-line se tornou um problema existencial para pessoas e instituições que vivem da produção e exploração da propriedade intelectual. Consideramos nossa responsabilidade transmitir o valor real da propriedade intelectual para os usuários, para que também haja uma disposição de pagar por conteúdo on-line em um futuro próximo.

Em qualquer caso, é necessário chegar a uma solução o mais rápido possível, em que tanto provedores de conteúdo quanto usuários possam coexistir.

Isto significa que editoras vão ter que experimentar mais e mais modelos com novo pagamento no futuro –por exemplo, pay-per-view, publicidade ou conteúdo exclusivo.

FOLHA – Dentro dessa perspectiva, qual o futuro dos direitos autorais no mercado editorial?

BOOS – Editoras do mundo todo estão perdendo bilhões de dólares em vendas devido à pirataria –e a maior prioridade é o controle deste problema, encontrando uma solução que seja adequada para editores e fornecedores de conteúdos. A proteção de conteúdo é sempre central, independentemente do meio ou a forma em que ele é transmitido.

FOLHA – O senhor acha que o modelo Creative Commons oferece um tipo de vantagem financeira para a indústria editorial?

BOOS – O Creative Commons é uma abordagem interessante, na minha opinião. No passado, autores concediam seus direitos à editora –e ela tentava explorar toda a gama de direitos.

Hoje, o autor concede os direitos de edição da cópia de seu livro para a editora de livros tradicionais, os direitos de um audiobook a uma editora de audiolivros, os direitos de e-books para a Amazon ou outra plataforma. Em outras palavras, o negócio de direitos está se tornando cada vez mais fragmentado.

Em geral, o negócio está produzindo mão-de-obra com mais intensidade, e as partes envolvidas devem conversar entre si com mais frequência. Não faz muito sentido a concessão de direitos de uso diferentes para diferentes conteúdos.

Mas os editores, sem dúvida, vão colher menos benefícios financeiros a partir deste modelo; no lugar disso, os autores vão ganhar vantagem.

FOLHA – O que o senhor pensa sobre o iPad? O que ele representa para o mercado editorial?

BOOS – O iPad é um dispositivo fascinante. O que eu acho problemático, no entanto, é o fato de que se trata de um sistema fechado, que não permite a troca com outros sistemas.

Assim, estou certo que muitos mais dispositivos aparecerão no mercado nos próximos meses, que serão comparáveis ao [sistema do] iPad em termos das suas funções de multimídia, e que vão criar concorrência.

Em princípio, não existem limites para esse desenvolvimento, e estou realmente ansioso para ver quais os produtos que vão surgir nos próximos meses.

FOLHA – O senhor acredita no conceito dos livros multimídia que incorporam animação, gráficos, narração e interatividade?

BOOS – O e-book ainda está nas fases iniciais de desenvolvimento, e oferece inúmeras possibilidades.

A integração de fotos, animações e outros elementos interativos será certamente um aspecto que fará com que esta mídia seja particularmente atrativa no futuro.

FOLHA – Dentro desse conceito, o senhor crê que os leitores possam perder sua capacidade de criar suas próprias imagens e construção narrativa na leitura de livros multimídia?

BOOS – Quando eu leio um romance, a minha imaginação embarca em uma jornada. Eu imagino como um personagem deve se parecer, a figura definida do personagem e que tipo de voz que ele ou ela possa ter.

Eu fico total e completamente imerso na história. O e-book multimídia impõe limites para minha imaginação, desde o início, porque eu sou abastecido com imagens precisas.

Por outro lado, para livros profissionais ou de não-ficção, isso pode ser uma tremenda vantagem.

Mas espero sinceramente que a nossa capacidade de explorar o poder de nossa imaginação, como um resultado [da leitura], não se perca por completo.

FOLHA – Com dispositivos digitais, o custo do livro reduz drasticamente. Sob esta ótica, qual a perspectiva para o mercado editorial?

BOOS – Não ocorre, necessariamente, a situação de que a produção de um e-book é substancialmente mais barata do que um livro impresso. Sim, o processo de impressão não faz parte da equação, mas o processo de produção de um e-book é mais complexo, pois ele deve ser preparado de forma completamente diferente.

Acima disso, na Alemanha existe o problema adicional do preço fixo do livro [a regulamentação alemã exige que todos os livros, digitais ou não, sejam vendidos sob mesmo preço; descontos são ilegais no país].

Exatamente como os preços dos e-books devem ser determinados já é objeto de intenso debate na indústria.

FOLHA – Existe a possibilidade de ocorrer a supressão do livro impresso?

BOOS – Quando o audiobook chegou no mercado, as pessoas também pensaram inicialmente que eles iriam substituir os produtos impressos –mas eles se revelaram complementares.

Estou convencido de que o livro impresso não morrerá, mas que o livro eletrônico vai se tornar um componente adicional e substancial da nossa socialização por meios de comunicação –como foram antes o rádio, a TV e a internet.

FOLHA – Qual o panorama atual das vendas de livros eletrônicos?

BOOS – Um estudo recente sobre os e-readers prevê que haverá cerca de 50 modelos no mercado em 2010.

Com base em estimativas conservadoras, o número de leitores eletrônicos vendidos na Alemanha, em meados de 2011, será em torno de 170 mil. E cerca de 65 mil livros eletrônicos foram vendidos nos primeiros seis meses de 2009 na Alemanha.

Os números são simples. A partir deles, podemos deduzir que a demanda do cliente sobre a informação está aumentando, mas a vontade de comprar ainda é pequena. No entanto, tudo pode mudar em breve.

Com relação ao Brasil, infelizmente, não há dados disponíveis no mercado. Será muito interessante observar o desenvolvimento desse mercado aí.

FOLHA – O que o senhor pensa a respeito da criação de um formato padrão para arquivos de e-book?

BOOS – Os usuários não querem sistemas fechados –caso eles tenham boas alternativas. Por isso acho que um formato padrão e-book será estabelecido a longo prazo –como foi o caso da indústria da música com o formato MP3, por exemplo. Qual será esse formato é algo que ainda está sendo visto.

———-

Em São Paulo, 7 de Abril de 2010

“O ranço ideológico na educação”

Magnífico editorial do Estadão em sua edição de hoje (7/4/2010). Dispensa comentários.

———-

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100407/not_imp534839,0.php

O Estado de S.Paulo
07 de abril de 2010 | 0h 00

Editorial

O ranço ideológico na educação

A exemplo do que ocorreu com as Conferências Nacionais de Comunicação e Direitos Humanos, as propostas aprovadas pela 1.ª Conferência Nacional de Educação, que foi encerrada na última quinta-feira com a participação do presidente Lula, têm como denominador comum a expansão do dirigismo estatal e a supressão da liberdade de iniciativa no setor. Atualmente, as universidades particulares respondem por 75% das matrículas do ensino superior no País e muitas delas, além de abrir capital, têm recebido vultosas somas de fundos de investimentos para financiar sua expansão.

A justificativa dos participantes da 1.ª Conferência Nacional de Educação é que o ensino superior seria um "bem público", motivo pelo qual a oferta de vagas por universidades privadas e confessionais teria de ser feita por meio do regime de concessão, como ocorre nas áreas de energia, petróleo e telecomunicações. Para os 3 mil sindicalistas e representantes de movimentos sociais e ONGs que aprovaram essa proposta absurda, se cabe ao governo federal "articular" o sistema educacional, a União deveria "normatizar, controlar e fiscalizar" as instituições de ensino superior do País, por meio de uma agência reguladora, além de estabelecer parâmetros para currículos, projetos pedagógicos e programas de pesquisa para todas elas.

Essa tese colide frontalmente com a Constituição de 88, que é clara e objetiva em matéria de ensino. Ela prevê a livre iniciativa no setor educacional, concede autonomia didática, científica, administrativa e patrimonial às universidades e assegura aos Estados e municípios ampla liberdade para organizar suas respectivas redes escolares.

Como ocorreu nas Conferências Nacionais de Comunicação e Direitos Humanos, as entidades representadas na 1.ª Conferência Nacional de Educação ? das quais pelo menos 40 atuam em áreas estranhas aos meios acadêmicos ? em momento algum esconderam sua aversão ao livre jogo de mercado. Segundo elas, por visar ao lucro, as universidades particulares, ao contrário das universidades públicas, não se preocupariam com a qualidade dos serviços que prestam.

A afirmação é falaciosa, uma vez que há instituições privadas muito bem classificadas no ranking do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), assim como existem instituições federais que certamente não seriam autorizadas a funcionar, caso o Ministério da Educação fosse mais rigoroso na aplicação das regras por ele mesmo estabelecidas. É esse o caso das Universidades Federais do Vale do Jequitinhonha, que foi inaugurada por Lula sem ter corpo docente, e do ABC, que funciona em meio a um canteiro de obras atrasadas e abriu seu primeiro processo seletivo sem dispor sequer de laboratórios e de bibliotecas.

Além de investir contra a iniciativa privada, as propostas aprovadas na 1.ª Conferência Nacional de Educação esvaziam as competências das Secretarias Municipais e Estaduais de Educação, atribuindo-lhes o papel de meros fóruns consultivos. E, em nome da "democratização" do ensino, defendem a inclusão de integrantes da "sociedade civil organizada" nos órgãos educacionais. Com isso, os Conselhos Nacional e Estaduais de Educação deixariam de existir e sindicalistas vinculados à Central Única dos Trabalhadores, militantes de agremiações partidárias e representantes de ONGs sustentadas por dinheiro governamental poderiam interferir na formulação, implementação e execução da política do setor, colocando os interesses corporativos, políticos e ideológicos à frente do interesse público.

Tão ou mais espantoso do que o ranço ideológico das propostas da 1.ª Conferência Nacional de Educação foi a reação das autoridades educacionais. Elas se comprometeram a incluí-las no Plano Nacional da Educação ? o projeto do MEC que define as principais políticas educacionais dos próximos dez anos e que em breve será enviado ao Congresso. Nos países desenvolvidos, o poder público estimula o aumento dos investimentos privados no ensino superior. O MEC, que na gestão do presidente Lula não conseguiu diminuir as taxas de evasão e repetência, faz o contrário.

———-

Em São Paulo, 7 de Abril de 2010

“Chega de saudade”

Não sou pessedebista. Na verdade, não sou afiliado ou simpatizante de partido político nenhum. Mas considero o Editorial da Folha de hoje perfeito. Ele está transcrito adiante. Endosso-o em sua totalidade.

Só acrescento o registro que boa parte das mudanças que resultaram na liberalização econômica do Brasil, e colocaram o Brasil na trilha do desenvolvimento econômico, foram feitas por Fernando Collor de Mello. Até o seu governo nossos cartões de crédito tinham uma tarja que dizia “Valid only in Brazil”. Foi ele que chamou os carros feitos pelas quatro montadoras que tinham o monopólio (na realidade, um oligopólio) da fabricação de automóveis no Brasil de carroças – e abriu o mercado para outras montadoras, criando um clima de concorrência do qual nos beneficiamos até hoje.

Itamar Franco deu continuidade à obra de Collor – e teve o mérito de nomear Fernando Henrique Cardoso Ministro da Economia. Foi FHC, como ministro de Itamar, que implantou o Plano Real.

Lulla se beneficiou de tudo isso – que chamou de “herança maldita”.

Crédito a quem crédito é devido.

———-

Folha de S. Paulo
07 de Março de 2010

Editoriais
editoriais@uol.com.br
Chega de saudade

A candidata oficial erra ao voltar-se para o passado com o intuito de forjar uma revanche na disputa particular de FHC e Lula

EM SEU PRIMEIRO discurso depois de deixar a Casa Civil, a candidata Dilma Rousseff insistiu na tentativa de comparar o atual governo com o anterior.

Não se sabe o que pesa mais nessa estratégia enviesada, se a obsessão íntima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se medir com o antecessor Fernando Henrique Cardoso ou a percepção de que é mais vantajoso para a representante da situação transformar eleições que decidem o futuro do país em avaliação de fatos passados.

Não é demais lembrar que um brasileiro com 18 anos completados em 2010 comemorava 10 ao término do governo FHC – e era uma criança de dois anos quando o sociólogo tucano assumiu.

Esse hipotético cidadão não terá idade para lembrar em que país se vivia no início da década de 90. Mas, se procurar informações, saberá que coube a FHC, na sequência do impeachment de Fernando Collor, e ainda no governo de Itamar Franco, lançar um plano -depois de várias tentativas frustradas- capaz de superar o perverso ciclo hiperinflacionário que havia anos dilapidava a economia popular e impedia o desenvolvimento do país.

Se pretende incursionar pelo passado, poderia a candidata lembrar a seus potenciais eleitores que o Partido dos Trabalhadores negou sustentação ao presidente Itamar Franco e bombardeou o Plano Real. Ou seja, opôs-se de maneira pueril e ideológica a uma das mais notáveis conquistas econômicas da história moderna do país, que propiciou aos brasileiros pobres benefícios inestimáveis, sob a forma de imediato aumento do poder aquisitivo e inédito acesso ao sistema bancário.

Sabe bem a ex-ministra que se alguém nesses anos mudou de pele foi antes o PT do que o PSDB. O que terá sido a famosa "Carta aos Brasileiros" senão uma providencial e pública troca de vestimenta ideológica do candidato Lula -que, eleito, sob aplausos do mundo financeiro, indicou um tucano para o Banco Central (agora no PMDB) e um ex-trotskista com plumagem neoliberal para a Fazenda?

É um exercício vão buscar comparações e escolhas plebiscitárias entre gestões que se encadeiam no tempo. Os avanços e problemas de uma transformam-se em acúmulo ou em fatos acabados na outra. Ou será que faz sentido questionar como teria sido a gestão lulista se tivesse de formular um plano para vencer a hiperinflação, precisasse sanear instituições financeiras públicas e se visse obrigada a estancar uma crise sistêmica dos bancos privados nacionais?

O Brasil precisa pensar e agir com olhos no futuro. Nada tem a ganhar com a tentativa da candidatura governista de forjar uma revanche de disputas pretéritas. Se o presidente Lula não venceu a contenda com Fernando Henrique Cardoso em 1994 não será agora que o fará -pelo simples motivo de que nenhum dos dois é candidato. O governo que se encerra neste ano teve méritos inegáveis, mas muitos deles, é forçoso reconhecer, nasceram de sementes plantadas no passado.

———-

Em São Paulo, 7 de Abril de 2010
[Obrigado a Gilmar Rocha que, no Facebook, corrigiu dois errinhos meus. Um na data,que eu havia colocado 7 de Março de 2010, e outro no "monopólio" de quatro empresas que, na realidade, é um oligopólio].

A ditadura lingüística do Politicamente Correto

O Politicamente Correto é uma ditadura lingüística que especifica, em detalhes, o que podemos e o que não podemos dizer…

Começou nos Estados Unidos, espalhou-se pelo Canada e pela Europa, chegou ao Brasil já faz algum tempo.

Aqui, por volta de 2005, a Secretaria de Direitos Humanos (a mesma que está tentando agora rever a Lei da Anistia) tentou distribuir uma Cartilha do Politicamente Correto que considerava discriminatório até mesmo o termo “anão”. Cinco mil volumes já estavam impressos quando alguns ministros conseguiram convencer o Presidente Lulla a mandar a cartilha para o lixo. O principal argumento usado foi o de que a cartilha considerava impróprios vários termos que o próprio Lulla usava freqüentemente…

Nos Estados Unidos há várias “Cartilhas do Politicamente Correto” publicadas – mas elas são todas sátiras da iniciativa, gozações bem feitas dirigidas aos acadêmicos e militantes políticos que defendem o Politicamente Correto. Aqui no Brasil o que é piada nos Estados Unidos vira coisa séria.

No Brasil, recentemente, saiu uma cartilha especificando como devemos e como não devemos nos referir a Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transsexuais, etc. e a outros aspectos da sexualidade.

Ainda falando de nossa Terra Brasilis, aquela peça de anacronismo que é o deputado Aldo Rebello, do PCdoB, tentou nos impor uma dose maior de patriotismo e brasilidade nos proibindo de usar termos estrangeiros. Pelo jeito ele pensava que, proibindo-nos de usar termos em Inglês, a gente admiraria menos os EUA e o capitalismo. Tudo loucura de esquerdista desvairado…

Esses esforços, estrangeiros e tupiniquins, de incutir valores reformando a linguagem, fazem lembrar o livro 1984, de George Orwell, bastante conhecido como “utopia negativa” da sociedade totalitária. Ele instituía a “novilíngua” (“newspeak”), a que todos deveriam se conformar. Esperava-se reformar a mente das pessoas reformando a linguagem que elas falavam…

Junto com a reformulação da linguagem, veio a reformulação dos contos infantis. Histórias como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, etc., foram reescritas para eliminar linguagem e imagens politicamente incorretas. Vira e mexe, alguém acusa Monteiro Lobato de racista…

Os patrulheiros do politicamente correto estão ativos no Brasil. Como mostra o artigo abaixo, de Luiz Felipe Pondé, estão tentando tirar o cachimbo da boca do Saci, para tornar o afrodescendente de locomoção limitada mais correto do ponto de vista político, que hoje condena o fumo…

Abaixo o texto de Pondé. Um protesto lúcido.

———–

Folha de S. Paulo
5 de Abril de 2010

LUIZ FELIPE PONDÉ
De 1984 a 2010


Tiraram o cachimbo do Saci. Amante de charutos cubanos, me senti diretamente afetado

NO ROMANCE “1984”, de George Orwell, o personagem principal trabalha alterando os arquivos históricos para moldar as consciências para o bom convívio social. Chegamos à época em que essa distopia (contrário de utopia) virou realidade. Só que, desta vez, pelas mãos dos herdeiros dos projetos utópicos “mais bem- intencionados”.

Porém, antes, um reparo. A política é um mal necessário, mas existem formas e formas de política. A minha pode ser entendida como uma política herdada de autores como Isaiah Berlin, filósofo e historiador das ideias do século 20, judeu nascido em Riga, Letônia, radicado na Inglaterra. Em matéria de política, prefiro sempre os britânicos aos franceses ou alemães. Tal como ele diz em seu recém-publicado no Brasil “Idéias Políticas na Era Romântica” (Cia. das Letras), prefiro a liberdade à felicidade.

A felicidade se declina no plural, porque os valores são conflitantes e não acredito em nenhuma forma de resolver essas diferenças. A melhor sociedade é a sociedade na qual ninguém tem razão (ninguém sabe a verdade definitiva sobre o bem e o mal), mas um número significativo de pessoas consegue conviver razoavelmente, mesmo sem saber a verdade sobre o bem e o mal.

O furor coletivo de “verdades do bem” deve ser mantido sob controle rígido assim como delírios de um serial killer numa noite de calor insuportável. A sociedade é o lugar do apenas tolerável.

E a profecia de Orwell? Todo mundo já tinha ouvido falar que na China o governo estaria alterando os livros de história das escolas para que a Revolução Cultural Chinesa (uma das maiores monstruosidades cometidas na história da humanidade) desaparecesse da memória das gerações mais jovens. Vale lembrar que muitas das pessoas que entre nós se preparam para assumir o governo concordavam com aquelas atrocidades: matar, saquear, sequestrar gente inocente.

Mas o que dizer de países democráticos como o Canadá? Recentemente, estudantes e professores “amantes da liberdade” quase lincharam uma intelectual americana, Ann Coulter, e impediram que ela falasse numa universidade. Não ouvi nenhum dos intelectuais de plantão defendê-la. Era de esperar que muitas mulheres do mundo das letras não o fizessem, uma vez que ela é loira e gostosa, pecados imperdoáveis para intelectuais feias e azedas. A causa da fúria da “comunidade intelectual” da universidade no Canadá era porque essa loira conservadora é conhecida por não rezar na cartilha dos opressores “do bem”.
O Canadá é um dos países mais totalitários no que se refere à repressão ao uso livre da linguagem e à crítica aos costumes da nova casta fascista que empesteia o mundo.

Lá, de repente, você pode ser preso porque usou uma palavra que esta casta julga inapropriada. Toda vez que estamos diante do controle oficial da língua, estamos diante de um regime opressor.

Mas fiquemos em nossa cozinha e deixemos os canadenses afogados em seu fascismo do detalhe.

Outro dia vi na mão de uma colega uma foto do “novo Saci”. Tiraram o cachimbo da boca do Saci. Eu, que sou um amante de cachimbos e charutos cubanos (e viva la Revolución!!), me senti diretamente afetado. Meu irmão de fé, o Saci, está sendo reprimido. A ideia é que, com cachimbo, ele é um mau exemplo para as crianças. Imagino que esses caras acham que bom exemplo é mulher vestida de homem coçando o saco.

Outro caso recente é a perseguição a velhas cantigas de roda e histórias infantis. Por exemplo, o “atirei o pau no gato” deve virar “não atire o pau no gato” para que as crianças não cresçam espancando gatos por aí. O fascismo “verde” chega ao ponto de tirar das crianças uma música divertida para torná-las defensoras dos gatos.

Lembro-me de meninas na minha infância que cantavam essas músicas e ainda assim choravam quando os meninos ensaiavam torturar pequenos animais só para vê-las chorar e assim chegar perto delas. Como era bom jogar baratas mortas no lanche das meninas só para ver elas pularem deliciosamente das suas cadeiras em lágrimas.

O Lobo Mau não pode mais ser mau e comer a vovozinha da Chapeuzinho Vermelho. Muito menos o Caçador pode salvá-la, porque estaria estimulando às meninas sonharem com príncipes encantados. O novo fascismo quer que os lobos sejam bonzinhos (pobres lobos) e que as meninas não sonhem com caçadores que as protejam (coitadas).

Sim, 1984 é agora.

ponde.folha@uol.com.br

———-

Em São Paulo, 5 de Abril de 2010

Sobre o direito de que se esqueça o que dissemos e fizemos

Escrevi sobre este assunto aqui, recentemente, dois artigos. Um, a propósito da carta de uma leitora da Folha que solicitava ao Ombudsman que intercedesse junto à Redação do jornal para remover, da versão digital, disponível na Internet, uma referência a algo que ela disse, anos atrás, e de que agora discorda e que está lhe causando problemas na vida pessoal e profissional. O outro, sobre um livro (Total Recall [O Futuro da Memória] escrito por dois funcionários da Microsoft Research.

Vide:

O Memorioso e o Pensoso…

https://liberal.space/2010/02/14/o-memorioso-e-o-pensoso…

Ainda sobre o Memorioso…

https://liberal.space/2010/02/20/ainda-sobre-o-memorioso…

O assunto, pelo jeito, está finalmente começando a ocupar a atenção das pessoas.

Acho o assunto fascinante.

Vide, a seguir, a entrevista de Viktor Mayer-Schönberger, e, abaixo, a indicação do livro que ele escreveu. Ele “defende a virtude do esquecimento na era digital e diz que ‘tudo o que é arquivado na rede deve sair do ar em algum momento’”. Em outras palavras: aquilo que é arquivado na Internet deveria ter um prazo de arquivamento, depois do qual seria simplesmente deletado. Nossa ficha, na Internet, iria sendo limpada quando as informações nela contidas completassem x anos (digamos, dez)… Mas não seria só a ficha na Internet: os dados relacionados a nós… Depois de x anos, registros sobre o que escrevemos e fizemos seriam simplesmente apagados. Os registros dos diplomas que duramente obtivemos desapareceriam… Os registros sobre os casamentos e outros contratos que firmamos, seriam deletados. Os registros sobre os crimes que cometemos, sumiriam. Os nazistas históricos (se é que restam alguns ainda) seriam tacitamente reabilitados… A vida começaria de novo, apenas com uma defasagem de (digamos) dez anos. Ficaríamos, por assim dizer, crianças de novo, de ponto de vista da memória escrita e registrada.

Interessante. Pouco viável, mas interessante.

E a memória que mora dentro de nós… Será que conseguiríamos esquecer assim tão fácil? É verdade que esquecemos muito e fácil, sem querer. Mas há coisas que não esquecemos, mesmo querendo, mesmo fazendo muito esforço… O que fazer com essas memórias que nos habitam?

———-

Folha de S. Paulo
5 de Abril de 2010

ENTREVISTA DA 2ª – VIKTOR MAYER-SCHÖENBERGER
Esquecer limpa a mente, ajuda a abstrair e a generalizar

Pesquisador da sociedade da informação defende a virtude do esquecimento na era digital e diz que “tudo o que é arquivado na rede deve sair do ar em algum momento”

DANIELA ARRAIS
DA REPORTAGEM LOCAL

Esquecer sempre foi fácil: costumava ser o comportamento padrão diante das tantas vidas que precisam caber em uma só. Lembrar de cada aniversário, início de namoro -e seus consequentes corações partidos-, promoção de emprego, tudo bem. Mas armazenar na memória todos os detalhes dos anos que se passam não era possível nem para aqueles humanos considerados mais evoluídos. Até o momento em que a internet transformou essa utopia em realidade.

Com custos de armazenamento de dados cada vez mais baixos, a era digital modificou completamente a relação do homem com a memória. É tão barato guardar gigabytes de fotos, textos e vídeos que são poucas as pessoas que escolhem o que realmente querem ter para sempre. Elas esquecem, no entanto, que as informações colocadas na rede são difíceis de deletar -sites como o Wayback Machine são capazes de encontrar, em segundos, aquilo que você achava que tinha apagado.

Em consequência, os erros do passado não ficam mais restritos àquele tempo e podem voltar a nos assombrar a qualquer momento.

Precisamos mesmo disso? O pesquisador Viktor Mayer-Schöenberger acredita que não.

Autor do livro Delete – The Virtue of Forgetting in the Digital Age (Delete – A Virtude de Esquecer na Era Digital; Princeton University Press, US$ 24,95), ele afirma que a “limpeza” que o cérebro faz constantemente é uma virtude, e não uma limitação. É o que nos permite uma atitude tão simples quanto essencial: a de seguir em frente.

A seguir, leia a entrevista que Viktor Mayer-Schöenberger concedeu à Folha por e-mail.

FOLHA – A internet está tornando difícil o ato de esquecer informações?

VIKTOR MAYER-SCHÖENBERGER – Não é só a internet, mas a combinação com a digitalização, que nos permite usar as mesmas ferramentas tecnológicas para processar, armazenar e disseminar diferentes fluxos de informação, incluindo imagens, áudio e vídeo. Isso cria fortes economias de escala, o que tem facilitado uma queda dos custos de armazenagem. Hoje é mais barato armazenar todas as imagens digitais em um disco rígido, em vez de gastar alguns segundos para decidir se quer manter uma foto digital ou excluí-la. Adicione a isso grandes avanços na recuperação da informação, bem como uma rede digital global, a internet, para acesso ao armazenamento digital, e você tem uma situação em que a lembrança é o padrão, e esquecer, a exceção.

FOLHA – No seu livro, você fala sobre o papel de lembrar e a importância de esquecer. Pode explicar isso?

MAYER-SCHÖENBERGER – Durante toda a história da humanidade, o esquecimento tem sido fácil para nós. Ele é construído em nosso cérebro: a maior parte do que nós experimentamos, pensamos e sentimos é esquecida rapidamente. E (principalmente) com uma boa razão: essas coisas não são mais relevantes para nós, e esquecer limpa a mente. Esquecer nos ajuda a abstrair e a generalizar, a ver a floresta em vez das árvores, e a viver e agir no presente, em vez de ficar amarrado a um passado cada vez mais detalhado. Esquecer nos ajuda a evoluir, a crescer, a seguir em frente -para aprender novas coisas.

Pelo esquecimento, a nossa mente se alinha com o nosso passado, com nossas preferências do presente, tornando mais fácil a sobrevivência e a vida suportável.

Pelo esquecimento, também facilitamos a nossa capacidade de perdoar os outros por seus comportamentos.

O que é verdadeiro para indivíduos também é verdadeiro para a sociedade em um aspecto mais amplo. As sociedades devem ter a capacidade de perdoar indivíduos esquecendo o que eles fizeram, reconhecendo, deste modo, que os seres humanos têm a capacid
ade de mudar e de crescer.

FOLHA – Em seu livro, você diz que a memória perfeita altera nosso comportamento. Como isso acontece?

MAYER-SCHÖENBERGER – A memória perfeita tem dois potenciais efeitos de congelamento. O primeiro é em relação à sociedade. Se tudo o que dizemos e fazemos hoje puder ser usado contra nós em um futuro distante, acabando com a possibilidade de conseguirmos um emprego melhor ou um relacionamento melhor, muitos de nós vamos começar a nos censurar sobre o que fazemos e dizemos on-line hoje. A memória perfeita criará um pan-óptico temporário -o oposto exato do que precisamos em uma sociedade democrática baseada em robustos debates cívicos.

Minha segunda preocupação recai sobre a nossa capacidade de decidir e agir no presente.

Pessoas com memória perfeita reclamam que sua tomada de decisão é dificultada por sua incapacidade de verter o passado -recordar todo o nosso passado empurra-nos para que nos tornemos indecisos.

Nós devemos saber em que medida a memória perfeita usurpa nossas vidas. Algumas vezes, a memória pode ser útil, mas será que eu realmente preciso buscar no Google o nome de todo mundo antes de encontrar essas pessoas?

FOLHA – A memória é construída tanto pelo que aconteceu quanto pelo que não aconteceu. É parte da evolução humana criar histórias, misturá-las, mentir até. A total capacidade de armazenar informação pode afetar os afetos?

MAYER-SCHÖENBERGER – Sim, certamente. Nossa memória humana não é fixa. Ela é constantemente reconstruída com base em nossas preferências e valores presentes. Isso reduz a dissonância cognitiva e nos permite viver profundamente enraizados no presente. Se percebemos que a nossa memória humana não é perfeita e começamos a confiar em memórias digitais mais do que na nossa, três terríveis consequências podem seguir: (a) podemos acreditar que o que é capturado digitalmente e lembrado é o registro completo, embora não seja (muito pode não ter sido capturado digitalmente); (b) nós podemos nos tornar dependentes da memória digital e quem quer que seja que controla essa memória digital poderá ter o poder de reescrever a história; (c) se percebermos que a memória digital também pode não ser confiável, podemos desistir da história e da memória completamente -uma espécie arrancada sem passado.

FOLHA – Quais são os riscos de termos todas as informações disponíveis na nuvem computacional?

MAYER-SCHÖENBERGER – Se a privacidade dos indivíduos na rede falhasse em massa, todo mundo seria exposto, e a privacidade desapareceria. O sociólogo Goffman tem uma fala famosa sobre a necessidade de os seres humanos terem mais de uma fase em suas vidas. Por exemplo: uma fase para frente e uma fase para trás. Se todos os dados podem ser vistos por todos, a diferenciação desses estágios entraria em colapso, com tensões inimagináveis.

FOLHA – Nós precisamos pensar antes de começar a espalhar tanta informação por aí?

MAYER-SCHÖENBERGER – Sim, nós precisamos pensar. Mas eu estou preocupado que, se pensarmos muito, vamos nos auto-censurar. Isso pode nos proteger individualmente, mas empobrece-nos como sociedade. Seria muito melhor se nós ainda pudéssemos compartilhar muita informação, mas ter um mecanismo para que essa informação fosse esquecida ao longo do tempo. É por isso que eu tenho defendido a reintrodução do esquecimento na era digital.

FOLHA – Como na vida, a internet precisa dar uma segunda chance às pessoas? Se não, a rede pode virar uma espécie de tribunal permanente?

MAYER-SCHÖENBERGER – Realmente. Temos que perdoar, esquecer. O Google não vai nos deixar fazer isso. Se nós procuramos o nome de alguém no Google e descobrimos uma citação de que ele estava dirigindo embriagado há dez anos, o quão relevante é isso para o presente dessa pessoa?

FOLHA – Você diria que a sociedade da era digital não concede perdão?

MAYER-SCHÖENBERGER – Eu acho que isso é bastante apropriado.

FOLHA – Você acha que falta uma regulação para a internet?

MAYER-SCHÖENBERGER – Eu não acho que exista um regulamento simples que possamos estabelecer para evitar os problemas da memória digital. Como eu detalho no meu livro, precisamos de uma combinação de uma série de medidas para enfrentar o desafio do fim do esquecimento na era digital.

FOLHA – Como podemos apagar nossas pegadas na internet?

MAYER-SCHÖENBERGER – Isso é muito difícil porque não temos controle total sobre as informações pessoais. Algumas empresas de internet oferecem (difíceis) formas de eliminar informações pessoais. Outras não. Um grupo no Google está trabalhando em ferramentas para extrair todas as informações pessoais do Google e, em seguida, excluí-las, mas esse serviço ainda está na sua infância. Há empresas comerciais que têm serviços para apagar as pegadas, mas são muito caros. Devemos ensinar os softwares a agirem de acordo com nossa mente. Tudo o que é arquivado deve sair do ar em algum momento. Devemos indicar a data de validade para as fotos que colocamos na rede, por exemplo. Quando chegar o momento, elas serão deletadas. Um exemplo é o site Drop.io.

FOLHA – Como você teve a ideia de escrever o livro?

MAYER-SCHÖENBERGER – Nos agradecimentos, eu conto a história de que eu esqueci como eu tive a ideia para o livro. Por acaso eu tinha escrito uma pequena nota para mim sobre a ideia. Mais tarde, eu esqueci tudo sobre ele -talvez não fosse tão importante assim.

FOLHA – Você já deve ter ouvido muitas histórias de pessoas com problemas por conta das pegadas digitais. Qual chamou mais sua atenção?

MAYER-SCHÖENBERGER – Foi o caso de uma mulher norte-americana de quase 30 anos que havia ficado alguns anos na prisão por algo que ela tinha feito aos 18 anos. Depois de sua libertação, ela se mudou para uma nova cidade, começou uma nova vida. Encontrou um marido, um emprego, seus filhos cresciam em uma família normal. Até que um colega de um filho “deu um Google” no nome dela e, por acaso, deu de cara com um site que colocava fichas policiais com foto de todos os prisioneiros do Estado nas últimas duas décadas. De repente, a vida dela desmoronou.

FOLHA – Se hoje as pessoas não têm direito a uma segunda chance, o que pode acontecer em dez, 20 anos?

MAYER-SCHÖENBERGER – Se nós não oferecermos a nós mesmos uma chance de escolha significativa em breve, gerações de nativos digitais vão crescer e assumir que a escolha não é possível. Eles vão adaptar suas vidas para as restrições impostas pela máquina. Isso seria terrível. Nós podemos moldar a máquina de qualquer maneira que quisermos. E, se quisermos, podemos fazê-la de uma forma que nos ofereça escolha!

RAIO-X

VIKTOR MAYER-SCHÖNBERGER
>> Natural da Áustria, tem 44 anos
>> Diretor do Professor afiliado do Information + Innovation Policy Research Centre, na LKY School of Public Policy da Universidade de Cingapura
>> Estudou direito em Salzburgo, Cambridge e Harvard
>> Em 1986, fundou a Ikarus Software, empresa especializada em segurança de dados, e desenvolveu o Virus Utilities, que se tornou um produto best-seller na Áustria
>> Já publicou sete livros, como “Governance and Information Technology”
>> Em seu tempo livre, gosta de viajar, ver filmes e aprender sobre arquitetura
www.vmsweb.net/

O LIVRO

DELETE: THE VIRTUE OF FORGETTING IN THE DIGITAL AGE
>> Viktor Mayer-Schönberger
>> Princenton University Press, 2009
>> Edição de capa dura com 256 págs.
>> US$ 24,95 (mesmo preço da versão em e-book)
>> press.princeton.edu/titles/8981.html

———-

Em Ubatuba, 5 de Abril de 2010

POST SCRIPTUM de 16.7.2022:

Relendo este artigo (ou “ameaça de artigo”, porque meu, mesmo, há muito pouco na matéria), na madrugada de hoje, resolvi republicar a peça e acrescentei a ela este comentário que segue.

Republico aqui, intocada, uma “ameaça de artigo” que escrevi em 2010 a propósito de uma importante entrevista que li na Folha de S.Paulo acerca do direito ao esquecimento: ao direito de se esqueçam coisas que a gente já disse, ou mesmo fez. Nossas ideias e ações deveriam ter um prazo de validade, depois do qual qualquer qualquer lembrança, discussão ou mesmo relato delas evaporaria… Prazo de validade vencido.

Estava mentalmente preparado para a releitura dessa “ameaça de artigo” (ainda bem que ela não evaporou) porque ainda ontem tive um bate-papo com “a patroa”, como se dizia antigamente, acerca do esquecimento. Eu estou chegando aos 80 anos. Daqui a menos de dois meses completarei — encerrarei — meu septuagésimo nono ano de vida e entrarei no meu octagésimo ano, dando início à minha oitava década de vida. Tudo, naturalmente, se Deus deixar e, calvinisticamente, quiser e determinar.

Com essa vetusta idade, é natural e compreensível que eu me esqueça de algumas coisas. Tenho percebido que coisas importantes para mim, coisas que mexem com minhas emoções, aquilo que, ao lembrar, os olhos se me enchem de lágrimas difíceis de disfarçar — disso eu raramente me esqueço. Pode ser até coisa ruim. Coisas que me arrependo de ter feito (poucas) ou deixado de fazer (mais do que as anteriores). Coisas que me orgulho de ter feito, pensamentos que me orgulho de ter tido… Mas a Paloma tem uma memória inacreditável. Ela se lembra de tudo: bom, ruim, indiferente, insignificante (para mim: coisas que, no que me concernem, não têm importância ou significado algum.). Ou de quase tudo. Já a flagrei em alguns esquecimentos seletivos e significativos… Mas deixemos isso para lá. Por causa de sua memória fenomenal, ela às vezes não se conforma de que eu não me lembre de determinadas acontecimentos que vivenciamos juntos, ou de coisas que ela me disse ou contou…

A julgar pelo livro que é objeto da entrevista transcrita no artigo abaixo, creio que estou à frente dos tempos e já exerço esse direito ao esquecimento há um bocado de tempo. O Geraldo Alckmin também é partidário e defensor desse direito, agora que é candidato a vice-presidente da República na chapa do ex-presidiário que nunca deveria ter se tornado ex, uma figura que ele, Alckmin, no passado corretamente execrou, e que eu insisto em continuar a execrar. Do passado do Lulla eu não esqueço. Nem de escrever seu nome com dois eles, como um dia a gente escreveu de outro candidato a execrável, o Collor. Lulla foi o indivíduo que redimiu o Maluf (com um ele só).

Em Salto, 16.7.2022

Calligaris, me desculpe, mas você está muito errado…

Gosto de ler Contardo Calligaris. Raramente discordo drasticamente do que ele escreve ou diz (participei com ele de um congresso em Bento Gonçalves algum tempo atrás). Mas discordo, e veementemente, do artigo que ele publicou na Folha de S. Paulo de ontem, 1 de Abril de 2010, sobre “pedófilos, celibatários e infalíveis”.

O artigo de Galligaris é uma crítica àqueles que, como eu, acham que o celibato imposto aos sacerdotes católicos romanos tem muito (embora não tudo) que ver com os vários surtos de pedofilia homossexual que acometem os padres.

Não acho que o celibato clerical seja a única causa da pedofilia homossexual católica. Em minha opinião, ele faz parte de um conjunto de causas que me parece impossível negar.

Em dois artigos anteriores, aqui neste blog, toquei nesse assunto.

Neles argumentei em favor de minha conjectura (em três partes) acerca das causas principais do número relativamente elevado de padres que se envolvem com pedofilia homossexual. 

1) O seminarista, futuro padre, é desde cedo doutrinado a ver na mulher a fonte número um do pecado. Como ele vai ser celibatário, e sabe disso, a mulher é a tentação que ele deve evitar a todo custo. A mulher é, para ele, símbolo de tentação: a Eva que, por influência da serpente, induziu Adão a pecar.

2) A Igreja trancafia o futuro padre, em muitos casos desde cedo, em seminários, onde ele fica segregado de mulheres: só vê guris mais ou menos da sua idade – e, naturalmete, os professores (todos homens). Internatos unissex parece que foram bolados para gerar, nos adolescentes, interesse pelo mesmo sexo (principalmente quando o interesse pelo sexo oposto é não só proibido, mas demonizado).

3) Quando vai exercer o sacerdócio, o padre acaba ficando rodeado de coroinhas, parecidos com os seus coleguinhas de seminário menor, que, agora, o admiram e olham para ele como figura de autoridade. E ele, por outro lado, pela sua doutrinação, é condicionado a fugir das mulheres, e pela sua formação em internato unissex, é condicionado a se interessar por meninos… Sendo figura de autoridade, não tem muita dificuldade em convencer os meninos de que sexo (em alguma modalidade) com o sacerdote é parte de seus deveres.

Essa combinação de fatores é fatal: ela acaba produzindo essa série aparentemente infindável de casos de pedofilia homossexual entre padres católicos. Não se trata, como já disse, de meros escândalos sexuais em relação aos quais se possa dizer: “Sou culpado, mas que igreja pode dizer que não é?” Trata-se de um fenômeno tipicamente católico que não adianta tentar generalizar.

Calligaris “ach[a] bizarro que o fim do celibato dos padres seja apresentado como remédio contra a pedofilia”.

Não é só o fim do celibato que é o remédio. Conforme propus no primeiro dos meus artigos sobre o assunto, a solução, evidentemente, é tripla: que a Igreja Católica acabe com o celibato clerical, acabe com a formação para o sacerdócio no confinamento de internatos unissex, e acabe com as figuras de coroinhas e outros meninos que ficam rodeando o padre na sacristia. 

E acabar com o celibato clerical não é apenas permitir que os padres se casem: é mudar drasticamente a visão que a Igreja Católica tem da mulher como uma Eva tentadora perpétua, contra as quais os padres devem se guardar. No fundo, a Igreja Católica tem uma visão perniciosa da mulher porque tem uma visão distorcida da sexualidade. Para ser considerada pura, Maria teve não só de conceber Jesus ainda virgem como precisou permanecer virgem perpetuamente (a despeito do fato de que o Novo Testamento fala claramente nos irmãos de Jesus). A pureza de Maria não poderia sobreviver, na visão católica, à realização, por ela, do ato sexual, ainda que de forma casta, dentro do casamento dela com José, e não por prazer, mas como dever, com a finalidade de procriar (crescer, multiplicar e encher a terra de gente). Como, para a Igreja Católica, o ato sexual só pode ter como finalidade a procriação, atos sexuais homossexuais, que não podem resultar em procriação, são aparentemente vistos como menos graves…

Calligaris se explica:

“Essa ideia [de que o celibato clerical tem que ver com os surtos de pedofilia homossexual] surge de uma visão hidráulica do desejo sexual, como se esse fosse um rio que, se for impedido de correr no seu leito natural, encontrará todo tipo de caminho torto e desviado. Por essa visão, na ausência de esposa, a libertinagem, não tendo para onde ir, transborda e acaba banhando (quem sabe, afogando) as crianças; portanto, os padres pedófilos não precisariam recorrer a meninos e meninas se dispusessem de uma mulher com quem saciar seus apetites.”

É simplista essa análise de Calligaris. Há muitos, acredito, padres católicos ou não, que resistem valentemente ao desejo sexual ou são capazes de o sublimar, sem precisar dar vazão a ele. Este, evidentemente, não é o caso dos padres pedófilos. Estes não controlam nem sublimam seu desejo sexual. Optam por realizá-lo. Tendo feito essa opção, têm de escolher (ainda que tacitamente) como realizá-lo.

a) Para casar normalmente, como todo mundo, o padre terá de abandonar o sacerdócio. Essa é uma opção difícil para a maior parte deles.

b) O padre pode arrumar uma companheira secreta, viver com ela maritalmente, ter seus filhos como se fosse um homem casado. Muitos fazem isso. A Igreja Católica felizmente faz vistas grossas. O Presidente do Paraguai foi bispo, teve uma série de companheiras e deixou uma penca de filhos. Até que se tornou presidente, tudo isso estava tranqüilamente preservado do público. Essa, para o padre que quer continuar padre, é, a meu ver, a mais sadia e a mais sensata das diversas opções. Mas, como se pode ver, ela tem seu ônus, que o Presidente do Paraguai está pagando. Companheiras regulares às vezes ficam grávidas, a Igreja é contra o aborto, elas têm a criança, e o “filho do padre” é sempre um estigmatizado – alem de requerer pensão alimentícia e outros cuidados.

c) Resta a opção pelo mesmo sexo. Sem dúvida há padres homossexuais, cujos parceiros são adultos (também padres ou não). Mas essa opção também tem seu ônus. Se a “mulher do padre” é estigmatizada, “o marido do padre” seria ainda mais… Sobram os meninos, os coroinhas… O fato de que o padre é autoridade, que ele pode exigir os serviços sexuais dos meninos como parte de seus deveres como coroinhas, e a vergonha natural dos meninos que torna difícil revelar o que está acontecendo, tudo isso contribui para que muitos padres apostem nessa forma de realizar sua sexualidade. Acham que ela vai permanecer secreta e, conseqüentemente, impune. Mas, como estamos vendo, uma vez que alguém abra a boca, outros se encorajam a fazê-lo, também, e temos um surto.

É isso. Sem rever a sua doutrina acerca da sexualidade, e, conseqüentemente, a visão de que o pecado original foi sexual e induzido pela mulher; sem rever a doutrina do nascimento virginal de Jesus e da virgindade perpétua de Maria; sem rever a doutrina do celibato clerical; sem rever o confinamento em internatos unissex como a forma ideal de preparar sacerdotes; sem rever a doutrina que impede a ordenação de mulheres e a participação das mulheres em posições importantes na alta hierarquia na Igreja, chegando até mesmo ao Papado, a Igreja Católica não vai conseguir resolver o seu problema de padres pedófilos homossexuais.

A Igreja tentou fazer vistas grossas a esse problema, como sempre fez em relação aos padres que possuem companheiras ou que geram filhos com paroquianas disponíveis. Mas o problema aqui é muito mais sério. Trata-se de um crime – cometido contra menores inocentes.

Discordo mais uma vez de Calligaris quando ele diz:

“Aos meus olhos, nesta história que não acaba, o escândalo maior talvez não seja o abuso das crianças, mas o comportamento oficial da igreja: de maneira consistente e repetida, ela parece colocar seu interesse institucional acima de qualquer consideração moral.”

O escândalo maior é o abuso de crianças, sim. A tentativa de colocar panos quentes sobre o problema afeta apenas a imagem da igreja. O abuso de crianças afeta as crianças também e principalmente.

Adiante, o artigo de Calligaris.

———-

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0104201023.htm 

Folha de S. Paulo
1 de Abril de 2010

CONTARDO CALLIGARIS
Pedófilos, celibatários e infalíveis


Os padres pedófilos são minoria, mas a igreja como instituição trata fiéis como crianças


EM 2002, graças a uma série de artigos do "Boston Globe", estourou, nos EUA, o escândalo dos abusos sexuais de crianças por padres católicos. Desde então, uma onda de denúncias varre a Igreja Católica no mundo inteiro.

Última revelação, no "New York Times" da quinta passada: nos anos 1990, quando ele comandava a Congregação da Doutrina e da Fé, o atual papa, Bento 16, suspendeu o julgamento de um padre americano, acusado de molestar 200 meninos surdos, de cujos espíritos e almas, em princípio, ele devia cuidar.

Aos meus olhos, nesta história que não acaba, o escândalo maior talvez não seja o abuso das crianças, mas o comportamento oficial da igreja: de maneira consistente e repetida, ela parece colocar seu interesse institucional acima de qualquer consideração moral. Escândalo, mas sem surpresa alguma: em geral, o projeto dominante de qualquer instituição é o de durar para sempre.

Mas trégua: não escrevo esta coluna para me indignar. Prefiro contribuir ao debate do momento com duas observações, sugeridas pela psicopatologia e pela clínica.

1) Da conversa de botequim até o pronunciamento de um teólogo que admiro (Hans Küng, na Folha de 21 de março), os abusos sexuais de crianças por padres católicos reavivam as críticas contra o celibato dos padres.

Cuidado, não sou um defensor do celibato dos padres. Ao contrário, parece-me que a experiência de amar e conviver melhoraria a qualidade dos ministros da igreja, porque a tarefa de ser consorte ensina uma humildade que é difícil alcançar na solidão, seja ela orgulhosa e casta ou, então, envergonhada e masturbatória.

No entanto, acho bizarro que o fim do celibato dos padres seja apresentado como remédio contra a pedofilia.

Essa ideia surge de uma visão hidráulica do desejo sexual, como se esse fosse um rio que, se for impedido de correr no seu leito natural, encontrará todo tipo de caminho torto e desviado. Por essa visão, na ausência de esposa, a libertinagem, não tendo para onde ir, transborda e acaba banhando (quem sabe, afogando) as crianças; portanto, os padres pedófilos não precisariam recorrer a meninos e meninas se dispusessem de uma mulher com quem saciar seus apetites.

É raro que eu me expresse de maneira tão direta, mas é preciso dizer: essa ideia é uma estupidez. Fantasias e orientações sexuais nunca são o efeito de acumulação de energia sexual insatisfeita. Um pedófilo poderá, eventualmente, desejar uma mulher e casar com ela, mas o fato de cumprir, mesmo com afinco, o dever conjugal não o livrará das fantasias pedofílicas. Teremos, simplesmente, pedófilos casados, em vez de solteiros.

Não vejo o que ganharíamos com isso, mas vejo, isso sim, na própria proposta, um desprezo inacreditável pelas mulheres que se casariam para servir de válvulas de escape para a "depravação" dos seus maridos. Ninguém merece.

A quem propõe o casamento como solução para a pedofilia dos padres, uma sugestão: proponha um programa compulsório de transa diária com a boneca inflável do Geraldão. Será tão ineficiente quanto o casamento, mas, ao menos, as mulheres serão poupadas.

2) Não é exato dizer que pedófilo é quem gosta de "carne" jovem. Pois o que importa ao pedófilo, o que é crucial na fantasia, é induzir a vítima a aceitar algo que ela desconhece e não entende. A jovem idade da vítima é sobretudo garantia de sua inocência e ignorância, ou seja, do fato de que a vítima não entenderá o que lhe será feito.

Por exemplo, um dos padres denunciados em Boston, em 2002, explicou que seu prazer consistia não tanto em ser satisfeito oralmente por um menino quanto em convencer o menino de que essa era uma forma especial de santa comunhão, que ele, o padre, ensinava e administrava.

Em suma, o pedófilo encontra seu prazer iniciando os ignaros e exercendo sobre eles um poder pedagógico absoluto. Agora, considere o jeito como a Igreja Católica tratou seu rebanho, até ser forçada a reconhecer a culpa de alguns de seus ministros. Considere a prática recorrente de camuflar decisões administrativas em dogmas divinos, considere a repressão teológica em lugar do diálogo e ainda considere a doutrina da pretensa infalibilidade do pontífice. Pois bem, aparentemente, os padres pedófilos são pequena minoria, mas a igreja como instituição trata mesmo seus fiéis como criancinhas.

ccalligari@uol.com.br

———-

Em São Paulo, 2 de Abril de 2010

A leitura

A leitura talvez seja, de todos os vícios humanos, o único que não faz mal: pelo contrário, contribui para o nosso desenvolvimento como humanos.

É bonito ver uma criança, em idade tenra, com um livro na mão, absorta, ainda que seja apenas pelas imagens.

É bonito ver livrarias e bibliotecas cheias de crianças, esparramadas em puffs ou deitadas de bruços no chão, lendo.

Talvez dentro de algum tempo as crianças venham a ter um e-book reader na mão. Mas elas estarão lendo – e o que vierem a ler ainda será um livro.

O livro é uma tecnologia que expande a nossa experiência, enriquece a nossa vivência. Através dele, vivenciamos, vicariamente, experiências de outrem – e aprendemos com elas.

A tecnologia digital alterou o nosso acesso ao livro e, até certo ponto, modificou a nossa forma de escrever e ler certos textos. O hipertexto está aqui para ficar e, com ele, surgiu a escrita e a leitura não lineares, que operam “em saltos”. O hipertexto fez do livro um texto com vários possíveis itinerários e finais. Mas não substituiu, nem vai substituir, o livro linear, com começo, meio e fim.

Há muitas formas de contar histórias. Umas lineares, seqüenciais. Outras, cheias de saltos que nos levam para lugares diferentes e flashbacks que nos jogam para tempos diferentes. O livro, bem como o cinema, que dele depende, é a tecnologia mais adaptada para a narrativa – a seqüencial ou a que envolve saltos para diferentes tempos e lugares.

Sem o livro, impresso ou digital, seríamos muito mais pobres, teríamos muito menos oportunidades de desenvolvimento.

Em São Paulo, 2 de Abril de 2010