Os ruídos da noite

São duas da manhã. A Chácara Klabin está bem silenciosa.

Por causa disso se ouvem bem alguns ruídos que, fosse o bairro mais barulhento, se perderiam em meio a barulhos mais fortes. De vez em quando passa um carro na minha rua. Mas dá para ouvir o ruído de carros passando na Avenida Ricardo Jafet, a uns bons 500 metros daqui. Como estou no décimo andar, dá para ouvir bem o som dos motores e dos pneus em atrito com o asfalto. Os ruídos dos caminhões e dos ônibus são naturalmente mais audíveis, mas ouvem-se até mesmo os barulhos mais suaves, quase ininterruptos, dos automóveis.

Infelizmente, não dá para ouvir o ruído do Riacho do Ypiranga correndo sobre as pedras. Passa aqui do lado, entre as duas pistas da Ricardo Jafet, Foi às margens dele que Dom Pedro, o primeiro, proclamou nossa independência, dizendo, mais ou menos na linha do que Patrick Henry disse 50 anos antes nos Estados Unidos, “Independência ou Morte”. (O que Patrick Henry disse é um dos motos – o principal – deste space).

Os ruídos veiculares competem com vários outros ruídos. O da geladeira, o do ar condicionado… Mas dá bem para notar a diferença, em grande parte por causa da regularidade do ruído da geladeira e do ar condicionado. O aparelho de ar condicionado fica na sala. Mas como o apartamento não é muito grande, e o aparelho é bem potente, dá para refrigerar o quarto, se a gente deixar a porta aberta.

Por incrível que pareça, de vez em quando, algumas noites, bem tarde, ouço o apito de um guarda noturno, Gosto desse apito, Lembro-me de quando era criança, e as casas tinham uma plaquinha com as letras maiúsculas GN – de Guarda Noturna. Meu avô, José (Juca) de Campos foi guarda civil noturno, que é como os chamavam em Campinas em meados do século passado. E me deu de presente o seu apito de guarda – bem como o seu espelhinho de dentista amador e o seu relógio de bolso de colete, com as iniciais JC gravadas, de forma rebuscada, na parte de trás. Abrindo o relógio, na parte de trás, havia um JC feito com a letra dele, cortado no metal com algum material de ponta, do jeitinho que ele rubricava as coisas (ou iniciava a sua assinatura).

Mas voltemos para a noite. Motocicletas virtualmente não se ouvem a essa hora da noite. Felizmente. Iria ser um inferno escutar barulho de motocicleta quando se quer dormir. Mas acabou de passar um carro aqui na frente de casa – acelerando. Deve ter saído de algum prédio aqui perto. Estava assim tipo passando da segunda para a terceira… Até isso dá para perceber quando nenhum outro ruído atrapalha. Fico imaginando quem estaria saindo a essas horas, e por quê. Seria uma emergência? Ou seria alguém indo embora que chegou bem mais cedo, festou um pouco, caiu no sono e só acordou agora, apavorado pela hora?

Escutei agora o ruído de um avião. O que pareceu estranho foi que, a essas horas, não há tráfego aéreo em Congonhas, aqui perto. Assim, o avião deve ter passado lá nas alturas. Só com o silência da noite foi possível ouvi-lo.

Dei-me conta agora de que ouço um chiado constante, parecido com o canto baixinho de uma cigarra, que não sei de onde vem. Talvez seja a água passando pelos canos, ou a eletricidade circulando pelos fios, ou os bitzinhos voando pelo ar do meu computador para o roteador no escritório, a partir de onde eles passam a trafegar pelos cabos coaxiais da Net… Ou pode ser que o zumbido esteja nos meus ouvidos, vá lá saber… A gente vai ficando velho e pode ter uma colônia de mosquitinhos dentro do chamado ouvido interno…

Desde que me lembro, sou notívago. Gosto de dormir tarde. E o interessante é que não sou de levantar tarde. Levanto-me cedo. Gosto dessa hora, quando tudo é silêncio e eu tenho a casa totalmente para mim… Gosto de trabalhar a essas horas. Não é raro eu ir dormir duas horas da manhã ou mais. Quando fazia meu doutorado, nos EUA, dormia um pouquinho (uns 45 min, no máximo uma hora) depois do jantar (que lá é cedo, cerca de 17h30), e, depois, ia até as 3 da manhã estudando, escrevendo (fazendo meus trabalhos, minha tese…). Para me levantar às 6h e ir dormir às 2h ou 3h, só cochilando um pouquinho entre um e outro. Cochilo de gato (catnap) é como os anglófonos chamam esse soninho supostamente fora de hora.

Um barulho mais alto, certamente de um caminhão, chegou até aqui. Não foi na minha rua, e acredito que não foi na Ricardo Jafet. Talvez tenha sido na Vergueiro, no rumo do cruzamento com a Avenida Prefeito Fábio Prado – a rua mais importante da Chácara Klabin. (A Ricardo Jafet fica no limite do bairro, e a Vergueiro o cruza, mas nenhuma das duas é rua do bairro: elas começam e terminam em outros bairros. A Fábio Prado, não. Começa e termina na Chácara Klabin. Tem duas pistas, cada uma com três faixas de rolamento (uma geralmente usada para estacionamento). Tem uma mediana, que em alguns pontos se alarga para formar a Praça Giordano Bruno. É nessa rua – na verdade uma avenida – ou em ruas que desembocam nela mas virtualmente na esquina, que ficam o Itaú e o Bradesco, a Drogaria São Paulo, a Padaria Iracema, a Kopenhagen, La Maison du Vin, o Nice Cup (uma coffee shop meio metida a besta que serve um delicioso pastelzinho de beringela com curry – desafio o leitor a encontrar outro lugar que sirva essa delicatesse), a Cinq à Sec, o Posto Shell (com sua nova coleção de lojinhas de conveniência – houve uma reforma recente), cabeleireiro, videolocadora, pet shop, imobiliária, pizzaria (também meio metida a besta), uma loja de móveis, uma loja de quadros e molduras, duas bancas de jornal, um Franz Café, e todo o comércio mais nobre do bairro. A Estação Imigrantes do metrô fica na Rua Saioá, que termina na Fábio Prado, e a Estação Klabin fica na Vergueiro, do lado do Liceu Pasteur (que perdeu um pedaço bom do terreno para a construção da parte subterrânea da estação). Lá trabalha nossa amiga Barbara Dieu. (Gozado, não? Nunca vi alguém ter Deus como sobrenome. A Barbara tem, herdado do marido, um belga).

Mas estou abandonando o meu tema. É duro falar sobre o silêncio por muito tempo. Só um mestre como Nelson Rodrigues pode comentar o silêncio, do qual nunca se ouviu tamanho, que teve lugar no Maracanã em 16/7/1950.

É gozado… Silêncio é a ausência de ruído, de barulho. No entanto, a professora do primário diz: “Façam silêncio!” Deveria dizer: “Não façam barulho!”, porque barulho é o que a gente faz – o silêncio acontece quando a gente não faz barulho nenhum, mas é difícil imaginar como ele possa ser feito, ou como ele possa ter lugar (como acabei de escrever) – ou, a despeito do Nelson Rodrigues, como ele possa ser ouvido. A gente “ouve” silêncio quando a gente não ouve (agora sem aspas) ruídos e barulhos.

Apesar do que acabei de dizer, as pessoas gostam de usar expressões como “A Voz do Silêncio”. Um colega meu da UNICAMP escreveu uma tese de doutoramento em 1974, com o título “A Voz do Intervalo”. Recém-chegado dos Estados Unidos, ainda sentindo o peso de uma filosofia analítica para a qual a clareza e a precisão lingüistica eram valores supremos (e as metáforas e figuras de linguagem muito pouco apreciadas), tive dificuldade para entender a tese. Só aos poucos percebi que ele estava procurando analisa
r as pausas na fala, as pausas no discurso… A Voz do Intervalo. Bonito. Deve estar aposentado também, o Luiz Orlandi. Fui suplente da banca dele, naquela época de escassez de doutores na UNICAMP. Não tive como recusar, apesar de não ter, naquela época, nenhum interesse no tópico. Quem diria que, trinta e tantos anos depois, eu estaria escrevendo uma crônica sobre o silêncio – porque, invertendo a perspectiva, os ruídos da noite nada mais são do que intervalos do silêncio que é “default”.

Bon silence.

Em São Paulo, na Chácara Klabin, 21 de Março de 2010

Saber-Fazer

A Edição 964 revista Exame, com data de 24/3/2010, traz uma memorável matéria com Jorge Paulo Lemannm Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira – os gênios por detrás do Garantia, da GP Investimentos, das Lojas Americanas, da Ambev e da AbInBev. Desta gigante multinacional, que é agora é dona da Anheuser-Busch, eles são os três maiores acionistas individuais.

Cito uma passagem que me parece antológica de Sicupira, em resposta à pergunta: “Na formação de gente, o que é inato e o que se pode ensinar?”

“Ensinar vontade é muito difícil. É uma característica inata, da mesma forma que você pode nascer com olho verde ou azul. A Endeavor, por exemplo, não tenta transformar ninguém em empreendedor. A idéia é mostrar a um empreendedor que ele pode fazer um negócio muito maior do que estava pensando. A gente tem de alavancar a vontade que a pessoa tem. Disciplina dá para ensinar. O que uma pessoa tem de saber? Não tem de saber nada. As pessoas valem pelo que elas são capazes de fazer, e não por aquilo que elas conhecem. Algumas pessoas sabem de tudo, mas não conseguem transformar isso em nada”.

É isso. Está aqui o princípio básico que, se fosse realmente entendido, revolucionaria nosso sistema escolar. Uma educação centrada no desenvolvimento de competências, ancorada nos interesses, nos talentos, nos pontos fortes dos alunos.

Os saberes que a escola transmite de nada valem. As pessoas precisam ser capazes de fazer, precisam saber-fazer. O que a escola deveria fazer é desenvolver competências. Em cima de interesses e talentos que já existem.

Na página principal deste space, numa seção que tem o título de “Como eu vejo o que eu faço hoje”, cito uma frase de Herbert Spencer (1820-1903), que disse: “O grande objetivo da educação não é conhecimento, mas ação”. É isso. E sabemos disso há muito tempo. Era hora de colocar isso em prática em nosso sistema educacional.

A seguir, o trecho da matéria da Exame que contém a entrevista com Sicupira – que, a meu ver, é o ponto alto da matéria.

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http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0964/especiais/melhor-ideia-gente-boa-nao-vai-lugar-algum-541040.html?page=full 

Exame Especial Cultura

“A melhor ideia, sem gente boa, não vai a lugar algum"

O empresário Carlos Alberto Sicupira conta como se dedica atualmente ao que muitas vezes não passa de platitude no jargão corporativo – a formação de pessoas

Sicupira (centro), com a equipe da Endeavor:

Sicupira (centro), com a equipe da Endeavor: "Meu papel hoje é mostrar caminhos que já tive"
(Foto de Germano Lüders)

Entrevista de Cristiane Mano
17.03.2010 | 13h05

O empresário Carlos Alberto Sicupira, um dos controladores da ABInBev e presidente do conselho de administração da Lojas Americanas, não tem hoje escritório em nenhuma das duas grandes empresas em que investe. Mas ele ainda faz questão de ocasionalmente circular, em seu traje habitual – tênis, camisa e calça jeans -, entre os funcionários de ambas as empresas. Uma dessas rondas deve acontecer na China, no final de março, num encontro dos 300 principais executivos da cervejaria em todo o mundo. Trata-se de uma chance valiosa, segundo ele, de conhecê-los de uma só vez. Gente é uma de suas obsessões declaradas. Ao lado dos sócios Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, Sicupira deu sentido próprio a algo que muitas vezes não passa de platitude no jargão corporativo. Aos 62 anos, ele dedica boa parte de seu tempo a formar talentos em três ONGs – a Endeavor, que promove o empreendedorismo, a Fundação Brava, que apoia projetos de gestão no setor público, e a Fundação Estudar, que patrocina bolsas de estudo. Cada uma a seu modo, todas servem para o que ele chama de "alavancar gente". Numa rara entrevista, concedida a EXAME em São Paulo, Sicupira conta como faz isso acontecer.

Quanto tempo o senhor dedica hoje a causas fora das companhias que controla?

Como não tenho mais escritório em empresa alguma, tenho de arrumar mais o que fazer. Não consigo parar de me meter em encrenca. Grande parte do meu tempo hoje é dedicada às causas em que acredito – empreendedorismo, governos mais eficientes e educação. Estou sempre disponível para todas elas, por isso minha de dicação fica meio difusa. As coisas aca bam muito interligadas. Se estou no governo, às vezes vejo uma oportunidade para a Endeavor. Na Endeavor, vejo uma oportunidade para a Fundação Estudar. Mas todas elas se baseiam no mesmo princípio de alavancar pessoas. Meu papel é ba sicamente mostrar caminhos que já tive. Na Endeavor, o senhor vem ajudando a formar uma rede de empresários e executivos que se tornam mentores de empreendedores. Como isso funciona? Hoje, temos 300 voluntários dedicados a ajudar os empreendedores. Alguns procuram a Endeavor. Em outros casos, a gente faz o convite. É uma oportunidade única para os empreendedores, já que a hora desses voluntários não está à venda por preço nenhum. O Fabio Barbosa (presidente do banco Santander no Brasil) ou o Pedro Passos (um dos controladores), da Natura, não vão alugar a hora deles para ninguém. Mas eles estão ali disponíveis para atender essas empresas que estão surgindo.

Tanto nas empresas como nas ONGs, uma das marcas do senhor e de seus sócios é colocar gente muito nova em cargos de chefia. Por quê?

A gente acredita que a pessoa é capaz de dar o próximo pulo com base no que ela fez até então e sobretudo na pessoa que ela é. O Rodrigo (Teles) assumiu a diretoria-geral da Endeavor aos 28 anos. É preciso dar a chance às pessoas que querem fazer. Tem risco? Sim. Mas é muito calculado. Risco muito maior é botar alguém que você tem certeza de que não vai errar mas que também não vai fazer nada porque a forma mais fácil de não errar é não fazer nada.

Em sua trajetória o senhor também aprendeu muita coisa na fogueira?

A vida toda. Trabalho desde os 14 anos de idade. Comecei com compra e venda de carros. Aos 17, pedi a meu pai para me emancipar para comprar uma distribuidora (de títulos e valores) do
Banco Central. Vendi e, mais para a frente, comprei outra. Estudava à noite e trabalhava durante o dia.

Quem mais influenciou as suas decisões como empresário?

O Jorge Paulo (Lemann) e o Sam Walton (fundador do Walmart) são as pessoas que mais me inspiraram.

O senhor ainda busca novas influências?

Sempre. Todo ano a Endeavor mundial monta uma visita, geralmente nos Estados Unidos. A última aconteceu no Vale do Silício. Visito todo ano uma ou duas companhias que eu acho excepcionais em alguma coisa para ver o que dá para aprender. É como a gente fez com o Sam Walton ou com o Goldman Sachs. E com a própria Anheuser-Busch. Em 1991, o Marcel (Telles) foi visitar a empresa e várias coisas que fizemos no Brasil foram totalmente copiadas de lá. Que companhias o senhor colocou em sua lista de visitas recentemente? Hoje existem algumas coisas tão transformacionais no mundo que ninguém pode deixar de acompanhar. Passei um dia no Google para entender como eles funcionam, há uns três anos. Voltei com uma porção de ideias. Tenho interesse também na coreana Hyundai, que tem uma maneira criativa de abordar o consumidor. No meio da crise, eles ofereceram um seguro para garantir que as prestações fossem quitadas caso o comprador perdesse o emprego.

Na formação de gente, o que é inato e o que se pode ensinar?

Ensinar vontade é muito difícil. É uma característica inata, da mesma forma que você pode nascer com olho verde ou azul. A Endeavor, por exemplo, não tenta transformar ninguém em empreendedor. A ideia é mostrar a um empreendedor que ele pode fazer um negócio muito maior do que estava pensando. A gente tem de alavancar a vontade que a pessoa tem. Disciplina dá para ensinar. O que uma pessoa tem de saber? Não tem de saber nada. As pessoas valem pelo que elas são capazes de fazer, e não por aquilo que elas conhecem. Algumas pessoas sabem tudo, mas não conseguem transformar isso em nada.

Quanto tempo o senhor se dedicou a formar gente durante toda a vida?

A vida toda. Só faço isso. Gente é a pedra fundamental de tudo. A melhor ideia, sem gente boa, não vai a lugar algum. A execução não vai ser boa e também vai parar de aparecer ideia boa. O pilar básico de tudo é: gente boa, unida por um sonho comum, reconhecida e com oportunidade de crescer.

A valorização das pessoas é um daqueles discursos corporativos que muitas vezes se perdem entre outras prioridades. Na correria para entregar resultados, dá tempo de realmente se preocupar com as pessoas?

É o contrário. Você se preocupa com as pessoas e as pessoas vão transformar o resultado. Se você se preocupar com o resultado, e não com as pessoas, o resultado vai acontecer uma vez só. Se for diferente, você tem uma perpetuação de resultado. Durante o ano inteiro, eu não pergunto a ninguém sobre o resultado. Minha preocupação é como eu posso ajudá-los a fazer isso acontecer.

E o que as empresas podem fazer para motivar as pessoas?

Não acho que se deva motivar ninguém. A pessoa tem de ser automotivada. Senão, será preciso ter o Silvio Santos o dia todo ao lado dela. As pessoas se sentem motivadas a trabalhar se existe um ambiente em que possam se dar bem pessoal e financeiramente. A vida é um pacote. Não adianta acreditar que basta alguém se rea lizar no trabalho fazendo coi sas importan tes mas sem ganhar nada. Também não adianta dar dinheiro e a pessoa não fazer algo que lhe interesse. É preciso ter certeza de que ela vai se realizar ao fa zer coisas grandes e reconhecê-la por isso.

Numa estrutura grande, como garantir que isso aconteça?

O grande desafio é manter a chama acesa numa companhia muito grande. Tenho hor ror a companhias grandes. A chance de uma companhia grande virar medíocre é enorme. Meu grande desafio é impedir que isso aconteça. Para isso, tenho de conhecer as pessoas, estabelecer os desafios. É preciso fomentar uma cultura que aceite esse tipo de profissional. Se prevalecer uma cultura em que não se pode arriscar, as pessoas com esse perfil não ficam. E então alguém do seu ramo vai acabar te passando.

Como o senhor faz isso na prática?

Primeira coisa: conhecendo as pessoas. Nos encontros de conselho, sempre busco jovens para fazer as apresentações. Senão você fica vendo as mesmas caras a vida inteira. No fim de março vou à China para uma reunião com todas as lideranças da ABI, durante quatro dias, para trabalhar juntos em diversos temas. Para mim é o momento mais importante. Vou ver as 300 principais pessoas da companhia. Alguém me diz: "Dá uma olhada naquele cara ali". Ou: "Aquele outro é interessante". Chamo um deles para almoçar. É muito bom para ter certeza de que a cultura está no lugar e para ter contato com todo mundo.

O senhor diz que não dá para ensinar vontade a um profissional nem motivá-lo. Mas como é possível inspirar?

Exemplo é tudo. Você tem de fazer o que você fala. Todo mundo está olhando o tempo todo para o líder de uma organização. Não dá para falar uma coisa e fazer outra. Senão todo mundo vê logo que se trata de um discurso de mentira. A gente, por exemplo, acredita que uma vantagem é ter custos mais baixos. Nas viagens da companhia, todos ficam nos mesmos hotéis. Todos os conselheiros seguem as mesmas regras que os demais funcionários. Não tem essa de ficar num hotel melhor e viajar em primeira classe. Se eu quero fazer isso, viajo no meu avião ou pago a passagem eu mesmo. Isso é dar o exemplo.

É muito comum a associação da capacidade de inspirar a um líder carismático. O que o senhor acha sobre a importância do carisma?

Na minha definição de boa liderança, a palavra carismático não aparece. Boa liderança é atingir o resultado proposto com as pessoas certas fazendo as coisas certas. Prefiro o líder que entrega ao líder que tem carisma. Ter um carisma louco pode ser muito bom para você ter um programa de televisão ou ser político. Nas companhias, você tem de procurar gente que vai entregar. Carisma num sentido messiânico, de alguém com grande poder de convencimento, não garante nada. O desafio de qualquer empresa é fazer tudo dar certo sem a necessidade de uma pessoa específica estar lá, é institucionalizar as coisas.

O que pode ser mais nocivo numa empresa?

Não ter cultura. Qualquer agrupamento de pessoas gera uma cultura, um protocolo de comportamento. Você sempre vai ter uma cultura, o problema é quando você não tem controle sobre ela. O que você tem de fazer é desenhar uma de acordo com seus objetivos e valores. Várias empresas têm valores escritos em algum lugar mas não têm cultura, porque não associaram uma coisa a outra. Às vezes
o empresário acha que a companhia segue os mesmos valores que ele, mas aquilo ali nunca foi dito para ninguém.

O que move o senhor hoje?

Construir coisas duradouras de excelência. Construir e institucionalizar. Fico feliz de saber que a Endeavor, por exemplo, não depende de mim.

O senhor e seus sócios sempre pregaram a máxima de que sonhar grande ou sonhar pequeno dá o mesmo trabalho. Hoje vocês estão à frente da maior cervejaria do mundo. Vocês esperavam chegar até aqui?

Muito mais (risos). O sonho é grande mesmo.

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Em São Paulo, 20 de Março de 2010

A Felicidade

No dia 6 de Maio de 2005 (cinco dias antes de encontrar a Paloma no SENAC da Lapa) ministrei uma palestra na PUC do Rio de Janeiro, num evento patrocinado pelo Instituto Telemar (hoje Instituto Oi Futuro), cuja coordenação, na área da educação, estava nas mãos de Maíra Pimentel – como, de resto, continua até hoje. Escolhi como tema e título para a palestra o seguinte:

“A educação, a felicidade, o tempo e a vida”.

Comecei falando sobre a educação e a escola. Disse que a educação que faz com que aprendamos a viver e a fruir a vida pouco tem que ver com aquela educação que receebemos na escola. A maior parte do que a gente aprende na escola não serve pra viver… E isto porque ou não serve pra nada, ou só serve pra gente continuar na escola…

A educação que importa, a educação que faz com que aprendamos a viver e a fruir a vida, a gente a adquire vivendo… e fruindo a vida.

No meu Discurso de Formatura no Curso Clássico, em Novembro de 1963,citei uma quadrinha de um poeta de Americana, Antonio Zoppi, encontrada em um livrinho chamado Uma Vida que Nasce, que dizia:

Sapiência não se esmola,
Tem de ser adquirida:
Na doce vida da escola
Ou na acre escola da vida.

Já estava parcialmente preocupado com a temática naquela Primavera de 1963. Meu discurso assinalava (entre outras coisas) que no JMC (escola do tipo internato em que fiz o Curso Clássico) a gente aprendia nas aulas mas também muito (e coisas mais importantes) na vida ali no internato, fora das aula. Ali, fora das aulas, o JMC era uma escola de vida, melhor, talvez, do que a escola circunscrita pelas paredes das salas de aula. Mas a quadrinha de Zoppi enfatiza que a vida, ela própria, é uma escola (mesmo quando não tem relação nenhuma com qualquer a escola, dentro ou fora das salas de aulas). 

Fiz um levantamento, nos mais de 30 anos em que dei aula para as primeiroanistas do curso de Pedagogia da UNICAMP, sobre os objetivos possíveis para a escola. Listava vinte possíveis objetivos para a escola e pedia que elas os hierarquizassem segundo sua preferência. Aquele que fosse o principal objetivo da escola ficaria em primeiro lugar. E assim por diante. O objetivo colocado em vigésimo lugar, não seria, na realidade, um objetivo que a escola deveria perseguir.

“Ajudar os alunos a alcançar a felicidade” sempre apareceu em penúltimo lugar. (Em último lugar sempre apareceu: “Ajudar os alunos a alcançar sucesso financeiro”.

No tocante à felicidade, isso é, no meu entender, uma séria aberração. A felicidade tem que ver com nosso projeto de vida e com nossos valores.

Ser feliz (diferentemente de estar contente), é uma condição duradoura, não um estado momentâneo. É feliz aquele que, sobre o alicerce de seus valores, é capaz de definir seu projeto de vida e transformá-lo em realidade. Em outras palavras, feliz é aquele cujos valores determinam os seus sonhos e que é capaz de transformar os seus sonhos em realidade.

Transcrevo abaixo um artigo de Stephen Kanitz, publicado na VEJA de 22 de Junho de 2005 – quarenta e cinco dias depois da minha palestra. O artigo definir a felicidade. É um artigo interessante, que vale a pena ler. Mas, estranhamento, o artigo não menciona valores. E isso considero uma falha grave.

Diz Kanitz:

“O conceito de felicidade que uso em meu dia-a-dia é difícil de explicar num artigo curto. Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly Csikszentmihalyi e de outros nessa linha. A idéia é mais ou menos esta: todos nós temos desejos, ambições e desafios que podem ser definidos como o mundo que você quer abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria do mundo, casar-se com um príncipe encantado, jogar futebol, e assim por diante. Até aí, tudo bem. Imagine seus desejos como um balão inflável e que você está dentro dele. Você sempre poderá ser mais ou menos ambicioso inflando ou desinflando esse balão enorme que será seu mundo possível. É o mundo que você ainda não sabe dominar. Agora imagine um outro balão inflável dentro do seu mundo possível, e portanto bem menor, que representa a sua base. É o mundo que você já domina, que maneja de olhos fechados, graças aos seus conhecimentos, seu QI emocional e sua experiência. Felicidade nessa analogia seria a distância entre esses dois balões – o balão que você pretende dominar e o que você domina. Se a distância entre os dois for excessiva, você ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se a distância for mínima, você ficará tranqüilo, calmo, mas logo entediado e sem espaço para crescer. Ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter.”

Para ele, portanto, como se constata na última frase, “ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer”.

Para ele, ser feliz não é, necessariamente, eliminar essa distância, conseguindo ter tudo o que se quer. Muitas vezes, queremos muito uma coisa (ou uma pessoa), e quando a alcançamos, o ter aquela coisa (ou aquela pessoa) não mais nos faz feliz – porque agora passamos a querer mais…

Se não conseguimos nem sequer encurtar um pouco a distância entre o que se tem e o que se quer, tendemos a desanimar, achando que a felicidade não existe – é uma quimera.

A felicidade, para ele, está em contrar “a distância certa” entre aquilo que se tem e aquilo que se quer. O sonho deve sempre ser ajustado de modo a ficar um pouco à frente da realidade, para que haja uma tensão sadia entre o sonho e a realidade que nos motiva e nos leva a continuar lutando.

É muito interessante essa sugestão… Só faltam os valores.

Valor é aquilo que a gente luta para ganhar ou manter…

Há valores que são meios, coisas que só se tornam valores porque nos permitem fazer coisas que de fato queremos (e.g. dinheiro)

A realização da nossa vida, no sentido mais pleno do termo, isto é, não a nossa mera sobrevivência, é o valor maior que temos – o valor que não é meio para nada, que é um fim em si mesmo. essa realização é a nossa felicidade. O que nos traz a felicidade é a realização de nossos valores  – não o alcançar daquilo que meramente queremos.

Como já disse no post anterior, tomando emprestada uma idéia de Karl Popper, o que torna a vida o valor supremo é o fato de ela ter duração limitada e desconhecida: pode terminar a qualquer hora… Os jovens em geral não se dão conta disso: pensam que têm todo o tempo do mundo. São os mais velhos que em geral percebem que seu recurso mais valioso não é dinheiro ou qualquer outro: é tempo… Tempo de vida.

Tempo é vida!

E onde fica a educação nisso tudo?

O ser humano nasce incompetente e, por causa disso, totalmente dependente, sem autonomia, sem ser capaz de assumir responsabilidade pelos seus atos, pelo seu destino. 

Mas nasce com uma enorme capacidade de aprender. Aprender é se tornar capaz de fazer aquilo que antes não se era capaz de fazer.

A educação é o processo que, através da aprendizagem, nos torna competentes para viver e autônomos para escolhar nossa vida

Viver não é apenas sobreviver, manter-se vivo… Viver é ser capaz de fruir a vida, ser feliz… O papel fundamental da educação é nos ajudar a viver a vida que, com base em nossos valores (aquilo que lutamos para ganhar ou manter), escolhemos para nós mesmos…

Assim, o papel fundamental da educação é nos a definir um projeto de vida, com base em nossos valores, e transformá-lo em realidade. Em outras palavras: o papel fundamental da educação é nos ajudar a ser felizes…

O tempo é um recurso interessante… É igual para todos: um dia tem 24 horas para todo mundo, rico ou pobre, culto ou inculto, britânico, suíço ou brasileiro. No entanto, uns conseguem fazer muita coisa em um dia, outros vêem os dias passar sem conseguir fazer grande coisa…

Administrar o tempo não é tornar-se escravo do tempo, mas tornar-se senhor dele. Administrar o tempo não é ficar obsecado com o relógio: é definir prioridades e levá-las a sério. Tem tempo, não aquele que não faz nada, mas aquele que sabe administrar prioridades e fazer o que realmente importa para ele.

Não somos donos de boa parte de nosso tempo – pois o vendemos (em troca de dinheiro)… Mas a importância do dinheiro está no fato de que ele também nos permite comprar tempo.  A solução do dilema está em conseguir ganhar dinheiro fazendo o que realmente importa…

Ser produtivo, portanto, não é estar sempre ocupado. (Na verdade, gente muito ocupada em geral não é muito produtiva…). Ser produtivo é saber administrar o tempo, ter prioridades, ter sentido de direção, saber para onde se vai.

Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a vida

Quem dentre nós tem um projeto de vida, ou seja, realmente sabe o que deseja e espera da vida?

Quem dentre nós tem um plano para onde deseja estar na vida daqui a 5, 10, 20, 50 anos?

“Quem não sabe para onde vai nunca vai chegar lá – ou acaba indo para qualquer lugar” (Vide Alice no País das Maravilhas).

A importância da administração do tempo está em que, quando acaba o nosso tempo, acaba a nossa vida… Quem administra o tempo, ganha vida, ainda que viva o mesmo tempo que os outros. Prolongar a vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Mas ganhar mais vida, administrando o tempo, está ao alcance de todos!

Para planejar estrategicamente a vida o primeiro passo é determinar onde estamos e escolher aonde queremos chegar. Escolher aonde queremos chegat é definir um projeto de vida.

A natureza da educação tem que ver com mudança: transformar o ser incompetente, dependente, inautônomo, arresponsável que nasce em um adulto capaz, competente, livre, autônomo para escolher sua vida e responsável pelas escolhas que faz…

Muitos de nós tentamos mudar os outros, ou as instituições, antes de entender que a mudança começa conosco: em realidade, só conseguimos mudar a nós mesmos

A educação deve ser voltada para a vida, nos capacitar para viver a nossa vida. Isso envolve a construção de competências, habilidades, valores, atitudes – e a aquisição de conhecimentos e informações. Mas a competência central é a de planejar estrategicamente a vida – para a qual a administração do tempo é essencial

Sem isso, ninguém será realmente feliz

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http://veja.abril.com.br/220605/ponto_de_vista.html 

Ponto de vista

Stephen Kanitz

Uma definição de felicidade

"Felicidade é um processo, e não um lugar onde finalmente se faz nada. Fazer nada no paraíso não traz felicidade, apesar de ser o sonho de tantos brasileiros"

Todas as profissões têm sua visão do que é felicidade. Já li um economista defini-la como ganhar 20.000 dólares por ano, nem mais nem menos. Para os monges budistas, felicidade é a busca do desapego. Autores de livros de auto-ajuda definem felicidade como "estar bem consigo mesmo", "fazer o que se gosta" ou "ter coragem de sonhar alto". O conceito de felicidade que uso em meu dia-a-dia é difícil de explicar num artigo curto. Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly Csikszentmihalyi e de outros nessa linha. A idéia é mais ou menos esta: todos nós temos desejos, ambições e desafios que podem ser definidos como o mundo que você quer abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria do mundo, casar-se com um príncipe encantado, jogar futebol, e assim por diante. Até aí, tudo bem. Imagine seus desejos como um balão inflável e que você está dentro dele. Você sempre poderá ser mais ou menos ambicioso inflando ou desinflando esse balão enorme que será seu mundo possível. É o mundo que você ainda não sabe dominar. Agora imagine um outro balão inflável dentro do seu mundo possível, e portanto bem menor, que representa a sua base. É o mundo que você já domina, que maneja de olhos fechados, graças aos seus conhecimentos, seu QI emocional e sua experiência. Felicidade nessa analogia seria a distância entre esses dois balões – o balão que você pretende dominar e o que você domina. Se a distância entre os dois for excessiva, você ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se a distância for mínima, você ficará tranqüilo, calmo, mas logo entediado e sem espaço para crescer. Ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter.

O primeiro passo é definir corretamente o tamanho de seu sonho, o tamanho de sua ambição. Essa história de que tudo é possível se você somente almejar alto é pura balela. Todos nós temos limitações e devemos sonhar de acordo com elas. Querer ser presidente da República é um sonho que você pode almejar quando virar governador ou senador, mas não no início de carreira. O segundo passo é saber exatamente seu nível de competências, sem arrogância nem enganos, tão comuns entre os intelectuais. O terceiro é encontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois mundos. Saber administrar a distância entre seus desejos e suas competências é o grande segredo da vida. Escolha uma distância nem exagerada demais nem tacanha demais. Se sua ambiç
ão não for acompanhada da devida competência, você se frustrará. Esse é o erro de todos os jovens idealistas que querem mudar o mundo com o que aprenderam no primeiro ano de faculdade. Curiosamente, à medida que a distância entre seus sonhos e suas competências diminui pelo seu próprio sucesso, surge frustração, e não felicidade.

Quantos gerentes depois de promovidos sofrem da famosa "fossa do bem-sucedido", tão conhecida por administradores de recursos humanos? Quantos executivos bem-sucedidos são infelizes justamente porque "chegaram lá"? Pessoas pouco ambiciosas que procuram um emprego garantido logo ficam entediadas, estacionadas, frustradas e não terão a prometida felicidade. Essa definição explica por que a felicidade é tão efêmera. Ela é um processo, e não um lugar onde finalmente se faz nada. Fazer nada no paraíso não traz felicidade, apesar de ser o sonho de tantos brasileiros. Felicidade é uma desconfortável tensão entre suas ambições e competências. Se você estiver estressado, tente primeiro esvaziar seu balão de ambições para algo mais realista. Delegue, abra mão de algumas atribuições, diga não. Ou então encha mais seu balão de competências estudando, observando e aprendendo com os outros, todos os dias. Os velhos acham que é um fracasso abrir mão do espaço conquistado. Por isso, recusam ceder poder ou atribuições e acabam infelizes. Reduzir suas ambições à medida que você envelhece não é nenhuma derrota pessoal. Felicidade não é um estado alcançável, um nirvana, mas uma dinâmica contínua. É chegar lá, e não estar lá como muitos erroneamente pensam. Seja ambicioso dentro dos limites, estude e observe sempre, amplie seus sonhos quando puder, reduza suas ambições quando as circunstâncias exigirem. Mantenha sempre uma meta a lcançar em todas as etapas da vida e você será muito feliz.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard

(www.kanitz.com.br)

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Em São Paulo, 20 de Março de 2010

Tempus fugit… ergo, carpe diem

Que o tempo passa não é novidade alguma. Todo mundo sabe disso. Mas muitos não percebem que ele foge. Quem foge, anda depressa, corre. O tempo é assim. Passa depressa demais. Pela pressa com que passa, faz com que muitas vezes não o vejamos passar. O dia em que a gente falsificava a caderneta escolar para entrar em filme proibido para menores de 14 anos parece que foi ontem. Depois era a ânsia para que chegassem os 18 anos para a gente finalmente poder ver filme realmente proibido – hoje, quando filmes que eram realmente proibidos no meu tempo passam na Seção da Tarde, ninguém nem sequer entende a ansiedade com que a gente esperava os 18 anos… Depois, o medo de ficar velho aos 30… Tudo isso passa depressa, vôa…

Mais dois dias e chega o Outono — minha estação favorita. Será meu sexagésimo sétimo Outono. Nasci no finzinho do Inverno de 1943. Pena que, aqui em SP, as folhas das árvores não mudem de cor, em preparação para sua queda no Inverno. Mas mesmo sem o festival de cores, gosto do Outono. Talvez porque eu esteja no Outono da vida.

Meu sobrinho me perguntou no Facebook, quando dei as boas-vindas ao Outono de 2010: Como é o Outono da vida?

Tentei responder. Transcrevo aqui (com pequenas modificações: nunca consigo transcrever um texto meu sem modificá-lo um pouco).

A ordem em que dizemos as estações do ano é lógca: Primavera, Verão, Outono e Inverno.

A Primavera é a época que segue ao nascimento, em que as plantas brotam, vicejam, dão suas primeiras flores, frutificam pela primeira vez… As cores são novas, como nova é a pele das crianças e dos jovens: sem manchas e rugas.

O Verão é a época da exuberância da idade adulta, cheia de energia e realizações. É no Verão que em geral a nossa pele adquire manchas (em geral do Sol) e começa a se enrugar. É no Verão que as pessoas, inconformes com a passagem do tempo, começam a buscar as cirurgias plásticas…

No Outono, as folhas mudam de cor nas árvores, os cabelos, nas cabeças — e, em alguns casos, começam a cair, tanto as folhas como os cabelos. Mas há uma sensação de quietude e calma no ar. Nem o vento consegue balançar facilmente uma árvore totalmente sem folhas… Não há mais aquela ansiedade por fazer coisas no plano material. Há o desejo de fruir o que se construiu, e experimentar algumas delícias da vida para as quais não se teve tempo antes… É a hora de coletar e, quem sabe, botar no papel (ou no disco rígido) as memórias.

O Inverno… bem, o Inverno é o frio, os dias mais curtos e com menos luz, o prenúncio do fim. No caso das estações, prenúncio de um recomeço. Quem sabe no nosso caso também.

Muitos não chegam ao Outono, porque algum acidente, alguma doença, ou a vontade de algumm assassino não deixou. É um privilégio estar no Outono. É a época por excelência da fruitio vitae. A compensação de chegar à velhice, como uma vez disse a grande e sempre linda Ingrid Bergman, é que você adquire uma consciência viva de que não morreu cedo demais…

Mas, como disse um dia aquele estraga-prazeres do Rubem Alves, não é fácil, quando a gente chega ao Outono, passar a pensar em sua idade em termos, não de quantos anos você já viveu, mas em termos de quantos anos você ainda tem para viver… Mas a gente aprende. Karl Popper disse uma vez que o que torna a nossa vida valiosa é o fato de que ela tem fim, que a gente pode morrer. Se a gente não morresse, se a vida fosse interminável, ela não teria valor. Os jovens, que acreditam ainda ter um monte de anos pela frente, a arriscam desnecessariamente.

Ayrton Senna, que depois de amanhã faria 50 anos, é exemplo disso. Se não fosse corredor de F-1, provavelmente estaria vivo aqui entre nós ainda. Mas nós provavelmente nem saberíamos quem era, não teríamos, por ele, o reconhecimento que temos. E provavelmente não haveria o Instituto Ayrton Senna, e a Viviane Senna Lalli não seria a personalidade que se tornou.

Tudo, na vida, tem suas compensações. Fazemos trocas e permutas o tempo todo. Um pouco mais de excitação na juventude, em troca, quem sabe, de um pouco menos de vida… Um pouco mais de vida, em troca, quem sabe, de um pouco menos de excitação e glamour.

O mesmo sobrinho que me perguntou como é o Outono da vida colocou uma citação do atual Papa no FaceBook:

“Não sou um homem que está constantemente inventando e contando piadas. Mas acho que é importante olhar para o lado divertido da vida, aproveitar sua dimensão alegre, não levar tudo tão seriamente, não privilegiar o seu lado trágico. Eu diria que isso é indispensável para o meu ministério. Um escritor disse uma vez que os anjos podem vovar porque não se tomam muito a sério… Talvez pudéssemos também voar um pouquinho se não nos considerássemos assim tão importantes”. (Papa Bento XVI).

É isso. Belo texto.

O tempo foge. Por isso, aproveite a vida. Voe um pouco. Mas saiba que nem todo vôo aterriza tranqüilamente. Se não julgássemos a nossa vida tão importante e valiosa, voaríamos mais – a arriscaríamos mais.

Para vocês, Epitáfio, dos Titãs. A primeira música (da “nova geração”) que a Paloma me deu.

Titãs – Epitáfio

Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar
Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar…
Devia ter complicado menos
Trabalhado menos

Tempus fugit. Ergo, carpe diem. 

Em São Paulo, 19 de Março de 2010

O café de coador

Tenho enorme receio de que o longo reinado do incomparável café de coador esteja chegando ao fim – vítima, de um lado da tecnologia, de outro lado da diversidade dos gostos e das preferências (que, hoje, chega às raias da frescura).

No passado, não havia grande diversidade. A gente chegava a um bar ou a uma padaria e pedia um cafezinho – e não havia o que discutir. Cafezinho era cafezinho, de coador, já com açúcar (em geral bastante), sem leite (naturalmente). Só se pedia uma média ou um pingado de manhã, na padaria, junto com um pãozinho com manteiga. A média vinha na xícara, o pingado no copo. A média em geral era mais clara do que o pingado – que, naturalmente, tinha mais café. Mas, fora disso, era cafezinho, ou cafezinho. Nada de frescura.

Agora, até em bares chinfrins há as benditas máquinas que fazem café expresso, com ou sem leite, com ou sem espuminha, carioquinha ou canelinha, sempre sem açúcar, que pode ser adoçado com açúcar, açúcar light, açúcar mascavo, ou os adoçantes Zero-Cal, Finn, Assugrin, Adocyl, Doce Menor, Gold, etc. Em coffeeshops (que, agora, até os McDonald’s têm) pode-se optar por um capuccino (ou frappuccino), um café bombom, um café baunilha, café caribe (tem leite condensado), ou, então, por um americano, um latte, um mocha, um machiatto, ou, ainda, por um café com licor (em cujo caso se pode optar por Amaretto, Amarula, Baileys, etc.), ou, em caso extremo, por um café gelado (tall, naturalmente). E sempre se pode tomar um café descafeinado – que sempre me deu a impressão de ser um café sem café.

Só Deus sabe onde vai parar essa diversidade.

Acho tudo isso frescura multiculturalista. Fico tentado a atribuir essa frescura multiculturalista à esquerda Pierre Cardin – a esquerda bem vestida (donde o Pierre Cardin), chique, e esnobemente culta, pleine de finesse, que tem apartamento no 16e. arrondissement em Paris… (Aquela esquerda a que o Lulla nunca vai poder aspirar).

Eu, por mim, gosto é de cafézinho de coador. Quentinho. Quando é de manhã, na padaria, um pingado, em copo grande (tipo copo de requeijão), com o café já vindo adoçado. E um pãozinho com manteiga na canoa (sem miolo – para não engordar muito) e sem ir à chapa (para não perder a crocância), ao qual eu infalivelmente acrescento sal (porque a manteiga, por mais salgada que seja, nunca é suficientemente salgada para mim).

O resto é para quem não tem o que fazer. Menu de café é, para mim, o fim da picada.

Abandonei os restaurantes Frango Assado na beira das estradas por duas razões. Primeiro, não vendem mais café de coador. Segundo, para o lanchinho do meio do dia, não vendem mais empada de frango (apesar de serem uma loja de frango). Só empada de algo que de frango passa longe misturado com palmito e com catupiry. Quem inventou isso que vá chupar prego.

Em São Paulo, 16 de Março de 2010

Mario Vargas Llosa sobre Lulla

Transcrevo, de O Estado de S. Paulo.

Maria Vargos Llosa, peruano, é, em minha opinião, o maior escritor latino-americano da atualidade. E um dos grandes porta-vozes do liberalismo. Foi candidato a Presidente do Peru contra Alberto Fujimori. Perdeu por pouco – por causa de uma campanha sórdida dos adversários. O tempo mostrou a verdadeira natureza desses adversários, hoje na cadeia. Os peruanos provavelmente lamentam até hoje a sua derrota.

Ele aqui critica Lulla. É uma crítica violenta. Mas totalmente justa e merecida.

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O Estado de S. Paulo – Domingo- 07/03/2010

Mario Vargas Llosa

A decepcionante visita de Lula

Minha capacidade de indignação política atenua-se um pouco nos meses do ano que passo na Europa. Suponho que a razão disso seja o fato de que, lá, vivo em países democráticos nos quais, independentemente dos problemas de que padecem, há uma ampla margem de liberdade para a crítica, e a imprensa, os partidos, as instituições e os indivíduos costumam protestar de maneira íntegra e com estardalhaço quando ocorrem episódios ultrajantes e desprezíveis, principalmente no campo político.

Entretanto, na América Latina, onde costumo passar de três a quatro meses ao ano, esta capacidade de indignação volta sempre, com a fúria da minha juventude, e me faz viver sempre temeroso, alerta, desassossegado, esperando (e perguntando-me de onde virá desta vez) o fato execrável que, provavelmente, passará despercebido para a maioria, ou merecerá o beneplácito ou a indiferença geral.

Na semana passada, experimentei mais uma vez esta sensação de asco e de ira, ao ver o risonho presidente Lula do Brasil abraçando carinhosamente Fidel e Raúl Castro, no mesmo momento em que os esbirros da ditadura cubana perseguiam os dissidentes e os sepultavam nos calabouços para impedir que assistissem ao enterro de Orlando Zapata Tamayo, o pedreiro pacifista da oposição, de 42 anos, pertencente ao Grupo dos 75, que os algozes castristas deixaram morrer de inanição – depois de submetê-lo em vida a confinamento, torturas e condená-lo com pretextos a mais de 30 anos de cárcere – depois de 85 dias de greve de fome.

Qualquer pessoa que não tenha perdido a decência e tenha um mínimo de informação sobre o que acontece em Cuba espera do regime castrista que aja como sempre fez. Há uma absoluta coerência entre a condição de ditadura totalitária de Cuba e uma política terrorista de perseguição a toda forma de dissidência e de crítica, a violação sistemática dos mais elementares direitos humanos, de falsos processos para sepultar os opositores em prisões imundas e submetê-los a vexames até enlouquecê-los, matá-los ou impeli-los ao suicídio. Os irmãos Castro exercem há 51 anos esta política, e somente os idiotas poderiam esperar deles um comportamento diferente.

DESCARAMENTO

Mas de Luiz Inácio Lula da Silva, governante eleito em eleições legítimas, presidente constitucional de um país democrático como o Brasil, seria de esperar, pelo menos, uma atitude um pouco mais digna e coerente com a cultura democrática que teoricamente ele representa, e não o descaramento indecente de exibir-se, risonho e cúmplice, com os assassinos virtuais de um dissidente democrático, legitimando com sua presença e seu proceder a caçada de opositores desencadeada pelo regime no mesmo instante em que ele era fotografado abraçando os algozes de Zapata.

O presidente Lula sabia perfeitamente o que estava fazendo. Antes de viajar para Cuba, 50 dissidentes lhe haviam pedido uma audiência durante sua estadia em Havana para que intercedesse perante as autoridades da ilha pela libertação dos presos políticos martirizados, como Zapata, nos calabouços cubanos. Ele se negou a ambas as coisas. Não os recebeu nem defendeu sua causa em suas duas visitas anteriores à ilha, cujo regime liberticida sempre elogiou sem o menor eufemismo.

Além disso, este comportamento do presidente brasileiro caracterizou todo o seu mandato. Há anos que, em sua política exterior, ele desmente de maneira sistemática sua política interna, na qual respeita as regras do estado de direito, e, em matéria econômica, em vez das receitas marxistas que propunha quando era sindicalista e candidato – dirigismo econômico, estatizações, repúdio dos investimentos estrangeiros, etc. -, promove uma economia de mercado e da livre iniciativa como qualquer estadista social-democrata europeu.

Mas, quando se trata do exterior, o presidente Lula se despe de suas vestimentas democráticas e abraça o comandante Chávez, Evo Morales, o comandante Ortega, ou seja, com a escória da América Latina, e não tem o menor escrúpulo em abrir as portas diplomáticas e econômicas do Brasil aos sátrapas teocráticos integristas do Irã.

O que significa esta duplicidade? Que Lula nunca mudou de verdade? Que é um simples mascarado, capaz de todas as piruetas ideológicas, um político medíocre sem espinha dorsal cívica e moral? Segundo alguns, os desígnios geopolíticos para o Brasil do presidente Lula estão acima de questiúnculas como Cuba, ou a Coreia do Norte, uma das ditaduras onde se cometem as piores violações dos direitos humanos e onde há mais presos políticos. O importante para ele são coisas mais transcendentes como o Porto de Mariel, que o Brasil está financiando com US$ 300 milhões, ou a próxima construção pela Petrobrás de uma fábrica de lubrificantes em Havana. Diante de realizações deste porte, o que poderia importar ao "estadista" brasileiro que um pedreiro cubano qualquer, e ainda por cima negro e pobre, morresse de fome clamando por ninharias como a liberdade? Na verdade, tudo isto significa, infelizmente, que Lula é um típico mandatário "democrático" latino-americano.

Quase todos eles são do mesmo feitio, e quase todos, uns mais, outros menos, embora – quando não têm mais remédio – praticam a democracia no seio dos seus próprios países, mas, no exterior, não têm nenhuma vergonha, como Lula, em cortejar ditadores e demagogos, porque acham, coitados, que desta maneira os tapinhas amistosos lhes proporcionarão uma credencial de "progressistas" que os livrará de greves, revoluções e de campanhas internacionais acusando-os de violar os direitos humanos.

Como lembra o analista peruano Fernando Rospigliosi, em um artigo admirável: "Enquanto Zapata morria lentamente, os presidentes da América Latina – entre eles o algoz cubano – reuniam-se no México para criar uma organização (mais uma!) regional. Nem uma palavra saiu dali para exigir a liberdade ou um melhor tratamento para os mais de 200 presos políticos  cubanos." O único que se atreveu a protestar – um justo entre os fariseus – foi o presidente eleito do Chile, Sebastián Piñera.

De modo que a cara de qualquer um destes chefes de Estado poderia substituir a de Luiz Inácio Lula da Silva, abraçando os irmãos Castro, na foto que me revoltou o estômago ao ver os jornais da manhã. Estas caras não representam a lib
erdade, a limpeza moral, o civismo, a legalidade e a coerência na América Latina. Estes valores estão encarnados em pessoas como Orlando Zapata Tamayo, nas Damas de Branco, Oswaldo Payá, Elizardo Sánchez, a blogueira Yoani Sánchez, e em outros cubanos e cubanas que, sem se deixarem intimidar pelas pressões, as agressões e humilhações cotidianas de que são vítimas, continuam enfrentando a tirania castrista. E se encarnam ainda, em primeiro lugar, nas centenas de prisioneiros políticos e, sobretudo, no jornalista independente Guillermo Fariñas, que, enquanto escrevo este artigo, há oito dias está em greve de fome em Cuba para protestar pela morte de Zapata e exigir a libertação dos presos políticos.

O curioso e terrível paradoxo é que no interior de um dos mais desumanos e cruéis regimes que o continente conheceu se encontrem hoje os mais dignos e respeitáveis políticos da América Latina.

Yoani SanchezYoani Sánchez

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Em São Paulo, 15 de Março de 2010

10 inovações que afetarão o mundo dos negócios

Os onze textos abaixo são retirados da Folha de S. Paulo de hoje (14/3/2010), que, por sua vez, o traduziu do Financial Times. Vale a pena ler.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201006.htm

DO "FINANCIAL TIMES"

"Financial Times" mapeia tendências de consumo e de gestão diante de um cenário que concilia o pós-crise a novas tecnologias

Daniel Mihailescu – 2.mar.10/France Presse

Visitantes da feira de tecnologia CeBIT, em Hannover, na Alemanha, são retratados em tela que detecta, em tempo real, gênero, idade e humor dos passantes

A CRISE econômica que se alastrou pelo mundo no fim de 2008 e causou transtornos só superados, nos últimos cem anos, pelo crash de 1929 pôs em xeque dogmas de gestão. A obsessão pelo lucro, simbolizada por empresas como o Lehman Brothers, o uso insustentável de recursos naturais, materiais e humanos e mesmo a noção de que é preciso esconder os fracassos de uma companhia mostraram-se técnicas ineficientes, quando não prejudiciais, de administração.

Paralelamente, novos comportamentos, associados a tecnologias inovadoras nas áreas financeira, energética e computacional, sinalizam transformações profundas na maneira de fazer negócios em todo o planeta.

Esses fenômenos, alguns dos quais já perceptíveis, foram mapeados por colunistas e repórteres do diário britânico "Financial Times", que nestas páginas apresentam tendências que devem se disseminar até o final da próxima década.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201007.htm

1 – Computação em céu aberto: Portáteis serão como supercomputadores

DO "FINANCIAL TIMES"

O assunto quente do setor de tecnologia, nos últimos anos, vem sendo a ascensão da "computação em nuvem". Mas o que exatamente é esse novo desdobramento, e de que maneira influenciará as nossas vidas? São necessárias duas coisas para compreender a plataforma. A primeira se relaciona ao poder de processamento e de armazenagem de dados, que vem se transferindo de máquinas individuais para grandes centrais remotas de processamento de dados.

Isso permite que números sejam processados em escala industrial e que o poderio de um supercomputador seja aplicado a tarefas cotidianas: analisar os padrões de tráfego de uma cidade, por exemplo, e prever onde surgirão congestionamentos.

A segunda parte se relaciona aos bilhões de aparelhos pessoais inteligentes -por exemplo, netbooks e celulares inteligentes- capazes de se conectar a esse recurso centralizado de computação via internet. Isso significa que indivíduos (e não apenas empresas ou governos) poderão tirar vantagem dessas "nuvens" de informações.

Assim, para onde isso nos conduz? Duas previsões gerais surgem rapidamente. Uma é a de que oferecer tanto poder de processamento e armazenagem a baixo custo resultará em novos avanços.

A ciência, por exemplo, poderia ser revolucionada, já que os pesquisadores ganhariam acesso a montanhas inimagináveis de dados e desenvolveriam maneiras de produzir referências cruzadas entre as diferentes disciplinas.

A segunda previsão é a de que os aparelhos pessoais de computação se tornarão superinteligentes, à medida que puderem aproveitar a inteligência da "nuvem". O Google já está falando sobre adicionar tradução de voz instantânea aos recursos de seus celulares. As grandes mudanças que esses avanços da computação representarão podem não estar concluídas ao final da próxima década, mas estarão a caminho.

RICHARD WATERS, chefe da sucursal de San Francisco

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201008.htm 

2 – Trabalhar por mais tempo: Aposentadoria dá lugar à gestão de empresas

DO "FINANCIAL TIMES"

A próxima década verá pessoas mais velhas trabalhando por mais tempo. Não surpreende: além da elevação da idade mínima de aposentadoria pelos governos do Reino Unido e da Grécia, as baixas taxas de juros e a morte das aposentadorias de valor fixo significam que muita gente não terá dinheiro bastante, aos 65 anos, para desfrutar de lazer nos anos de ocaso. Essas pessoas terão de trabalhar para bancar suas contas.

O que considero interessante -e pode mudar o mundo dos negócios- é o fato de que elas talvez prefiram trabalhar por conta própria. Um recente estudo conduzido pela seguradora Standard Life sugeriu que um em cada seis britânicos dos 46 aos 65 anos planeja abrir um negócio novo, em lugar de se aposentar.
Isso representa sete vezes mais potenciais empresários do que na geração precedente -e pode significar o surgimento de milhões de novas empresas no Reino Unido.

A experiência, os contatos e a sabedoria dessas pessoas serão suas armas secretas. Mas é igualmente provável que elas tenham mais tempo e dinheiro a gastar do que a atual geração de empresários. Hoje, a idade típica em que uma pessoa abre sua empresa fica entre os 30 e os 45 anos. Um aspecto inconveniente desse fato é que, nessa idade, as pessoas também costumam ter filhos pequenos e hipotecas a pagar.

Os empresários mais velhos, enquanto isso, estarão em muitos casos próximos de liquidar essas responsabilidades, bem como ávidos por encontrar maneiras de se manter em contato com pessoas de todas as gerações, como clientes, parceiros, fornecedores ou funcionários. Prevejo que muitas companhias importantes serão criadas nos próximos anos. A geração de mais de 50 anos bem pode se tornar a maior responsável por acelerar a recuperação.

LUKE JOHNSON escreve uma coluna sobre empresários e dirige a Risk Capital Partners, uma empresa de capital privado

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201009.htm

3 – A geração X chega ao topo: Após crise, geração
X ganha espaço

DO "FINANCIAL TIMES"

No final dos anos 90, as regras usuais de senioridade no trabalho não pareciam se aplicar aos trabalhadores na casa dos 20 e começo dos 30 anos. O boom da internet transferiu poder a esses jovens -a geração X- e permitiu que seus líderes enriquecessem.

Mas o estouro da bolha da internet expôs a ilusão e forçou os jovens a aceitar papéis subalternos. O fim do castigo, porém, parece estar próximo. Hoje, com 30 ou 40 anos, muitos dos membros da geração X devem chegar ao apogeu de seu poderio profissional até 2020 -e sua falta de ideologia pode ser vantajosa diante dos desafios modernos.

Mas há um novo grupo que já tenta conquistar espaço. Confortáveis no uso de tecnologias digitais, os membros da geração Y não gostam de hierarquias. A crise prejudicou sua ascensão, mas a recuperação pode complicar a retomada da geração X.

ADAM JONES, repórter especial de empresas

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201010.htm 

4 – Energia mais inteligente: Novas tecnologias racionalizam a geração e o uso da eletricidade

DO "FINANCIAL TIMES"

Já estamos vendo algumas das maneiras pelas quais as fontes de energia mudarão nos próximos dez anos. Leitores inteligentes de eletricidade nos EUA, por exemplo, oferecem aos consumidores e às empresas de energia informações detalhadas sobre o seu uso e não só contam com o apoio do presidente Barack Obama como devem substituir os medidores "burros" convencionais.

Isso significa que uma pessoa em breve poderá saber quanta energia está sendo usada em sua casa e quanto dinheiro está sendo gasto, por meio de uma divisão aparelho a aparelho -o que permitirá que a iluminação e o aquecimento sejam ajustados para reduzir custos.

Eletrodomésticos inteligentes, enquanto isso, vão se comunicar com a rede elétrica. Assim, uma secadora de roupas pode se desligar nos horários de pico (e tarifa mais elevada) e ligar de novo quando o preço da eletricidade for mais baixo. As empresas de energia mesmo poderiam interferir ao reduzir um pouco o ar-condicionado no auge da demanda.

Também estamos vendo as vantagens dos diodos emissores de luz (LEDs) como substitutos das velhas lâmpadas incandescentes (e novas fluorescentes, que economizam mais energia). Enquanto as lâmpadas incandescentes geram calor para produzir luz, os LEDs a criam com movimentos de elétrons em chips de silício. A luz é mais natural, pode mudar de cor, pode ser mais precisa e pode ser atenuada ou intensificada sem dificuldade.

A próxima década verá as cidades substituírem sua iluminação pública por LEDs, que duram anos a mais e podem reduzir sua intensidade de forma inteligente quando não houver tráfego, minimizando o uso de energia e a poluição luminosa.

Já que 20% da demanda mundial de eletricidade se relaciona à iluminação, a capacidade dos LEDs para reduzir em 75% o uso de energia pode ter efeito dramático sobre as emissões de dióxido de carbono.

As fontes de energia também podem mudar, especialmente no que tange a aparelhos de pequeno porte. Energia gratuita pode ser capturada de fontes como o calor do corpo ou ondas de rádio de torres de telefonia móvel e Wi-Fi. Girar o controlador para ler um e-mail em um BlackBerry gerará energia suficiente para aumentar a duração da bateria.

CHRIS NUTTALL, correspondente de tecnologia

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201011.htm

5 – A informação tem valor: Dogma do conteúdo gratuito perde força

DO "FINANCIAL TIMES"

Se existe uma ortodoxia dos últimos dez anos que o setor de mídia tem todos os motivos para amaldiçoar é aquela que surgiu em 1984, quando Stewart Brand declarou, em palestra na Hackers" Conference, que "a informação deseja ser livre".

As pessoas ainda discordam sobre o que ele quis dizer, mas a frase oferece uma capa de respeitabilidade intelectual a diversas coisas, da pirataria de música à ideia de que não pagar pelo acesso a notícias é traço imutável da cultura da web.

Quando as pessoas ainda falavam em "via expressa da informação", desdenhavam a ideia de que a estrada proposta precisasse de pedágios. A publicidade on-line supostamente cobriria os custos incorridos pelos donos da informação.

Mas o conteúdo grátis para todos erodiu os modelos de negócios das companhias de mídia e acarreta o risco de sobrecarga das redes de informação. Agora, os proprietários de conteúdo, de editoras de revistas a emissoras de TV imaginam por que teriam depositado toda a sua confiança em uma só fonte de receita, a publicidade.

É hora de relermos a citação completa de Brand: "Por um lado, a informação deseja ser dispendiosa, porque é muito valiosa. Por outro lado, ela deseja ser livre [ou gratuita], porque o custo de obtê-la não para de cair. Por isso, temos essas duas tendências em permanente combate".

Na primeira década digital do novo século, esse combate muitas vezes não aconteceu, mas agora o lema de que "a informação quer ser dispendiosa" vem ganhando força. As editoras pressionaram a Amazon.com a elevar os preços dos livros eletrônicos. A "economia dos aplicativos" criada pela Apple está permitindo que até mesmo sites gratuitos cobrem pelo acesso via iPods e iPads, e o "New York Times" está seguindo o exemplo de publicações especializadas como o "Financial Times" e o "Wall Street Journal" de cobrar pelo acesso on-line às suas notícias.

Para os consumidores que desfrutavam de todo esse conteúdo gratuitamente, isso parece ameaçador. Por outro lado, acabamos de passar uma década nos fartando de conteúdo excessivo e de muito baixo valor nutritivo. Talvez o conteúdo pago se prove mais denso. Quanto à máxima de Brand, é melhor que tentemos uma nova, na próxima década: o conteúdo quer ser valioso.

ANDREW EDGECLIFFE-JOHNSON, editor de mídia nos Estados Unidos

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201012.htm 

6 – Ganhando com o fracasso: Tentativa e erro viram técnica de negócios

DO "FINANCIAL TIMES"

O fracasso sempre foi parte fundamental da economia de mercado. Se os mercados funcionam, fazem-no porque novas ideias são constantemente tentadas. A maioria fracassa. As que encontram o sucesso podem causar o fracasso de ideias mais antigas.

Nos Estados Unidos, cerca de 10% das empresas existentes desaparecem a cada ano. Trata-se de percepção desconfortável -mas tentativa e erro podem enfim estar assumindo o papel que merecem como técnica de negócios, em lugar de serem vistos como um segredinho sujo do capitalismo.

Existem alguns sinais positivos. Stefan Thomke, da escola de administração de empresas da Universidade Harvard, argumenta que os avanços na computação tornaram possível conduzir experiências com novos produtos sem maiores dificuldades, com a tentativa de muitas ideias e a expectativa de grande número de fracassos.

Agora é fácil, por exemplo, experimentar mudanças no layout de um site, mostrando diferentes versões a diferentes usuários e acompanhando as reações em tempo real. O Google, enquanto isso, costuma lançar seus produtos novos com o rótulo "beta", ou experimental. E superastros do mundo acadêmico, tais como Stephen Levitt, o coautor de "Freakonomics", vêm fazendo palestras a executivos sobre o papel da experimentação no mundo dos negócios.

Também estamos começando a aprender mais sobre a psicologia de aprender com os erros. Richard Thaler, o economista comportamental que criou a Nudge, cunhou a frase "edição hedonista" para descrever nosso hábito de combinar pequenas derrotas a grandes vitórias, a fim de mascarar as dores das derrotas.

Esconder os fracassos é humano, mas também significa não aprender com eles. Thaler e seus colegas chegaram a estudar o comportamento dos participantes em game shows televisivos. Ele constatou que as pessoas que faziam escolhas desafortunadas começavam a aceitar riscos insensatos, o que muitas vezes resultava em agravar perdas.

A crise nos conscientizou de que um sistema incapaz de tolerar certa dose de fracasso é muito perigoso. A ideia de que uma instituição fosse "grande demais para falir" costumava parecer reconfortante. Não é mais esse o caso.

TIM HARFORD, colunista e autor do livro "Undercover Economist"

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201013.htm

7 – A cobiça não é tão boa: Obsessão pelo lucro pode quebrar empresas

DO "FINANCIAL TIMES"

Nos anos 80, o economista Al Rapaport capturou o espírito da era ao desenvolver um novo objetivo para as empresas: a maximização de valor para os acionistas. A medida das realizações de um executivo seria o retorno total conquistado pelos acionistas em seu mandato.

Bill Allen, o lendário líder da Boeing entre 1945 e 1968, descreveu o espírito de sua companhia assim: "Beber, respirar e dormir o mundo da aeronáutica". Por volta de 1998, o novo presidente da companhia, Phil Condit, dizia: "Vamos avançar para um ambiente cuja base é o valor e no qual o custo unitário, o retorno sobre o investimento e os retornos dos acionistas serão as medidas sob as quais seremos avaliados".

Isso aconteceu em múltiplos setores. Quando John Reed e Sandy Weill, que eram copresidentes do Citigroup no final dos anos 90, descreveram os propósitos do conglomerado recém-criado, Reed, banqueiro tradicionalista, declarou que "o modelo que tenho em mente é o de uma companhia global de serviços ao consumidor, que ajude a classe média com algo em que não foi bem servida". Weill, mais sintonizado no espírito do tempo, interrompeu: "Meu objetivo é aumentar o valor para os acionistas". Tudo isso terminaria mal.

Sob Allen, a Boeing conquistou a liderança do setor aeronáutico; sob Condit, a empresa não só perdeu sua liderança como se envolveu em escândalos.

Weill forçou a saída de Reed, mas se envolveu em problemas de reputação que abalaram a empresa. Em 2008, quase todo o valor do Citigroup para os acionistas foi destruído.

A Enron, paradigma do novo modelo, quebrou de forma espetacular em 2001. Em 2008, o colapso do Lehman Brothers, banco cujo foco obsessivo era o lucro, quase derrubou o sistema financeiro mundial. Essas duas quebras abriram e encerrarão a década com uma lição: concentração obsessiva nos lucros faz com que uma empresa corra o risco de perder a oportunidade de lucrar.

JOHN KAY, colunista

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201014.htm

8 – Livrai-nos das contas: Internet agora muda a forma de lojas físicas

DO "FINANCIAL TIMES"

Da mesma forma que a chegada das prateleiras que permitiam self-service mudou a disposição física das lojas nos cem últimos anos, as compras on-line o farão no novo século. Já vimos o comércio via internet se tornar concorrente sério das lojas físicas. Agora ele fará com que mudem de forma. No Walmart, por exemplo, mais de 40% dos pedidos pelo site da cadeia de varejo nos EUA são enviados a uma loja local da rede para retirada, porque os clientes preferem evitar os custos e a incerteza de horários das entregas domiciliares.

A empresa, como resposta, está testando opções "drive-through" de retirada e alterando suas unidades de forma a instalar balcões de retirada. No Reino Unido, a rede de supermercados Tesco adotou arranjo semelhante (mas por enquanto sem "drive-through").

Em uma loja piloto perto de Chicago, chamada MyGofer, a Sears Holdings foi além, e 80% do espaço serve como armazém de estoque, com um quinto da área reservada a clientes que retiram compras ou usam terminais de computador para pedir o que desejam da loja.

Eis outra variante: o Kmart também está tentando persuadir outras redes de varejo a usar suas lojas como ponto central para retirada de pedidos feitos on-line. Alguns analistas do setor de varejo especulam que até mesmo a Amazon, que só opera on-line, poderia um dia estabelecer pontos de retirada.

A web também mudará os produtos presentes nas prateleiras. Um cliente que vá a uma loja com seu celular inteligente pode obter preços comparativos de lojas rivais -a menos que o produto em questão só esteja à venda naquela loja específica.

Assim, haverá mais pressão da parte do varejo por acordos seletivos com marcas líderes -ou pelo desenvolvimento de mais produtos com marca própria, em todas as categorias.

JONATHAN BIRCHAIL, correspondente de varejo nos Estados Unidos

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201015.htm

9 – Fazer mais com menos: Concorrência força ganho de eficiência

DO "FINANCIAL TIMES"

O triunfo inevitável dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) se tornou quase um lugar-comum no mundo empresarial. Mesmo que alguns ovos exóticos estejam sendo contados antes que sejam chocados, a ameaça que representam está mudando o modo como as empresas pensam.

Com a concorrência, as empresas hoje dominantes terão de ser mais eficientes. É por isso que, ao longo dos próximos anos, será comum ouvir variações do seguinte lema: fazer mais com menos. Outro fator de estímulo será a sustentabilidade ambiental: produzir mais usando menos recursos.

Mas uma demanda permanente para que produzamos mais com menos pode se revelar prejudicial e resultar em um mundo de trabalho permanente, que por sua vez poderia afetar a qualidade do trabalho realizado. O ímpeto de fazer mais pode conter as sementes de sua própria derrota.

STEFAN STERN, repórter de gestão

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1403201016.htm

10 – O hedge, agora pessoal: Temidas, inovações financeiras podem estimular o crescimento

DO "FINANCIAL TIMES"

Inovação financeira se tornou uma expressão obscena nos últimos meses, devido ao papel dos títulos complexos -pacotes de hipotecas e outras formas de passivo- na crise. Mas o segredo sujo é que, se as economias ocidentais desejam se recuperar devidamente, as verbas terão de vir dos mercados. E a concorrência por dinheiro será tamanha que alguns projetos devem se ver forçados a criar inovações a fim de atrair investidores.

Uma dessas inovações é a transferência de risco. Transação que vinha ganhando popularidade antes da crise, ela agora está de volta. Robert Schiller, professor de economia na Universidade Yale, publicou em 2003 um livro no qual propunha novos instrumentos financeiros para indivíduos que permitiriam que se protegessem contra os riscos que correm -fizessem hedge- por contratos negociados em Bolsa. Se você, por exemplo, estiver preocupado com a possibilidade de que a carreira que escolheu não vá oferecer o salário que planeja ter dentro de dez anos, poderia criar um contrato sob o qual receberia certa quantia caso sua renda naquela data for inferior a determinado patamar.

Os investidores se interessarão em apostar nesse tipo de coisa, diz Schiller. De fato, mercados como esses estão sendo criados para grandes organizações. Há, por exemplo, o mercado futuro das nevascas, sob o qual cidades ou empresas recebem dinheiro caso as tempestades de neve sejam piores que o esperado. No mês passado, um grupo de bancos, fundos de pensão e seguradoras anunciou que estava desenvolvendo um novo mercado para longevidade -o risco de que as pessoas vivam mais que o esperado.

Será que essa ideia não parece terrível, tendo em vista a situação em que os contratos de risco deixaram os bancos no passado recente? Schiller argumenta que a crise de crédito simplesmente demonstra que "muito mais trabalho precisa ser feito para democratizar as finanças. A crise ocorreu porque os princípios de gestão de risco financeiro não estavam sendo aplicados à mais ampla população possível".

Ou seja, o risco é para todos: empresas, governos e cidadãos agora podem rolar os dados nesse negócio arriscado.

JENNIFER HUGHES, correspondente sênior de mercados

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Em Salto, 14 de Março de 2010

Veneno Curricular

Da coluna de Élio Gaspari na Folha de S. Paulo de 14/3/2010:

“VENENO CURRICULAR

A Secretaria de Educação do Rio de Janeiro preparou uma proposta curricular para a disciplina de sociologia das escolas de ensino médio da rede do Estado. Entre os tópicos relacionados com as "desigualdades sociais", está a recomendação para que o professor leve os alunos a "compreender que a dominação europeia expressa pelo colonialismo e pelo imperialismo é a causa fundamental das desigualdades sociais".

Não explicaram como se ensinará o fracasso do colonialismo inglês na América do Norte, onde surgiram nações prósperas e livres como as dos Estados Unidos e do Canadá.”

Em Salto, 14 de Março de 2010

What Happens to Your Website If You Die?

Artigo divertido mas, ao mesmo tempo, muito sério. Já escrevi algo aqui sobre quem herdará os meus discos rígidos, e o que fará com eles. Mas não pensei nos meus sites online, nos meus blogs, nas minhas contas bancárias, no site de registro e armazenamento de domínios,, etc.

Foi transcrito de:

http://menwithpens.ca/what-happens-to-your-website-if-you-die?

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8 Mar

What Happens to Your Website If You Die?

Written by James44 Comments

My great-aunt passed on this winter. We thought everything would be quite simple – read the will, carry out her last wishes and move on.

Things weren’t so simple.

We found her will, and the executor named within let everyone know the details of it. He made arrangements and began carrying out my great aunt’s last wishes. And while going through her paperwork, the executor found another will.

This will was different from the first – considerably so. It didn’t even list the same executor. So, the new executor had to contact a lot of people and do some backtracking, then contact the new heirs and advise them of the changes. It was annoying and inconvenient, and a few people muttered, but it got done.

Then the executor found another will.

Throughout the months of phone calls, backtracking, moving forward, and backtracking again, there was a lot of confusion. A lot of hurt feelings. A lot of irritation.

And a lot of thought about my own will and testament, and what would happen to my business if I died.

Who Wants My Business?

You may not think that your website, your blog, your freelance business, is something you need to think about in your last will and testament, but it is. It’s an asset you own, and it needs to be sold, dissolved, or left to someone you trust to continue running it.

Otherwise everything just sits there in virtual space, lost and forgotten, collecting dust.

We tend to not think about this. Most people reading this right now probably have a will that leaves their house to their spouse and their insurance money to their children, but they haven’t covered what happens to their virtual lives and businesses after they die.

Consider what you’d like for your website, your blog or your online business if you were to pass on. Do you want to leave it to your children and have them continue operations or close up shop? Do you want to leave it to a partner or one of your staff? Do you want it sold and the profits distributed amongst heirs?

Hang on a second – before you go leaving your business to your kids or spouse, ask them whether they even have the faintest interest in taking over. If they don’t, would another arrangement be more suitable, such as having them continue as owners but letting someone else handle operations? And if so, does the person you’d like to have operate your business want that responsibility?

They aren’t easy questions – but they are important ones to think over.

How Will People Find Out?

People are becoming increasingly active online, but when that activity suddenly ceases, then what? Someone’s going to have to take care of telling those who need to know that you’ve passed on. That means possibly posting something to your blog, sending out a press release, tweeting a public notice or emailing clients.

Most of us don’t write out information like, “Hi, I’ve died,” while we’re here and able, but perhaps we should. We have the advantage of being able to draft a piece just in case and tailor it properly to say what we want to say. Who wants to leave those grieving our passing the task of having to figure out what to post on your blog – and maybe even how to use your blog in the first place?

So go ahead. Write something up, just in case. It’s not morbid – it’s thoughtful. Keep a copy handy and let executors know how to access this information so they can post it if they need to. Provide them with login links, usernames and passwords. If they’re not familiar with blogs, give them step by step instructions, too.

Speaking of Logins…

If you sit down and write a list of every application you use, every site that requires a username and password, every bit of online world you visit, you’d be astounded. There’s a lot of essential information locked behind virtual doors – and your heirs and executor don’t have the keys unless you leave them behind.

Write down a master list somewhere of all the links to important sites and the usernames and passwords to them. Your PayPal accounts, for example. Imagine leaving a few thousand dollars sitting in virtual space, and your children never even knew it existed. And even if they did, they may not know where to look for it.

Think about your other applications. Twitter,Facebook, your project manager, your to-do list app, Google Analytics, your bookkeeping software, or your email accounts? Those are all important, too, and people who need to organize and finalize your life on this earth have to have that information.

Write down everything you can think of that belongs to you – license information, domain names, web hosting services, the whole nine yards. Make sure someone can access this list in case of emergency and tell them where to get the information. Leave a copy with your notary or lawyer to have him attach it to the will, or put it in a safety deposit box that’s been listed in your testament.

Be careful about third-party site accounts, like Gmail or Facebook. Each site tends to have its own rules about who can do what should someone pass on, and executors may need to make special requests to close down accounts or access your information.

Lastly, write down when certain memberships or subscriptions are due to be paid. You might bequeath your blog to your partner but forget to tell him that the domain name renewal is due in June. June rolls around, someone else snatches up that name, and the whole situation just became complicated and difficult.

And for the love of Pete, keep all your lists of information up to date with the most recent passwords.

I
t’s tough to think about what happens after we’re gone, but the truth is that none of us are immortal. We have the advantage of making many decisions now, preparing and writing the words that we’d like to be said, and creating a smooth transition for our loved ones to deal with our passing.

Welcome to our community. Kick back, put your feet up and join the discussion.
44 Responses – Leave your comments too!
  1.  Michal Kozak says:

    March 8, 2010 at 6:13 am

    Great article, makes you think about thisstuff.

    But it made me very sad, more than I dare to admit, o gosh.

    Michal Kozak´s last blog ..michalkozak: on Chapter 5 of "How To Be A Rockstar WordPress Designer" http://goo.gl/NYls @envato @collis My ComLuv Profile

  2.  pamela says:

    March 8, 2010 at 6:30 am

    So what you’re saying is that I should write a draft post and save it?

    pamela´s last blog ..In A World Without Consequences.. (NSFF) My ComLuv Profile

  3.  pamela says:

    March 8, 2010 at 6:34 am

    Then maybe I should draft up a post and title it “if you’re reading this, I’m dead” just in case right?Whoops sorry. My phone plressed the return key and it submitted. Why not just write a letter of what to say on your blog and leave it in your will.. Maybe I should start my will now..

    pamela´s last blog ..In A World Without Consequences.. (NSFF) My ComLuv Profile

  4.  Sharon Hurley Hall says:

    March 8, 2010 at 7:15 am

    I’ve often thought about this, James. I’ve got a document giving access to some of my online stuff, but I don’t think I’ve got it all written down (it could take quite a while). There’s a site called LegacyLocker that I reviewed some time back that aims to help people solve this problem by collecting that information and having them designate two people who could have access to it. Thanks for this timely reminder.

    Sharon Hurley Hall´s last blog ..Are You A Buttoned-Up or Buttoned-Down Freelance Writer? My ComLuv Profile

  5.  Michael says:

    March 8, 2010 at 7:37 am

    Great article, certainly thinking outside the box. This is something I never thought much about really, and I dare say that is the case with other people too!

    Something not alot of people like to really think about, touchy subject

  6.  Dee Harrison says:

    March 8, 2010 at 7:44 am

    There was a new service announced some months ago www.mywebwill.com although there doesn’t appear to be much going on there right now.

    I do think we need to do more than leave a note of our passwords. We need a custodian too. My husband and daughter wouldn’t know where to start in dismantling or maintaining my little portfolio of sites. Perhaps this is a service for someone to consider……….

  7.  Annabel says:

    March 8, 2010 at 8:31 am

    Yes, I’ve thought of this too and have a master list of all my accounts and passwords.

    It occurs to me that if none of your heirs are particularly tech savvy (as is the case with me), they will also need more detailed instructions about the function of each account and what to do with them. Maybe a little screen capture video to make it easy for them.

  8.  Chase March says:

    March 8, 2010 at 8:44 am

    I have thought about this a bit (not in much detail as you have here though)

    I drafted a final post and have left instructions for my cousin to post it for me so that my blog will have some closure when I die. It won’t just abruptly go silent. I think this shows respect for my regular readers.

    Chase March´s last blog ..A Sad Picture Story (Update of my Life – Part 2) My ComLuv Profile

  9.  John Soares says:

    March 8, 2010 at 9:24 am

    I’ve given a list of all my passwords for all my websites to m
    y life partner.

    We also need to put all the relevant passwords for our financial accounts into our wills.

    John Soares´s last blog ..Capturing and Keeping Your Freelance Writing Ideas My ComLuv Profile

  10.  John Hoff – WP Blog Host says:

    March 8, 2010 at 9:38 am

    It’s funny you wrote a post like this because my wife recently brought this topic up. She said what would I do (in regards to my online dealings) if something happened to you?

    I had a quick / short answer. First I made sure she knows how to get into PayPal and then second I said go into my email “Online Contacts” folder and email everyone there. They will know how to spread the word.

    Not as in depth and could be better, I know.

    John Hoff – WP Blog Host´s last blog ..WordPress Defender: 30 Ways to Secure Your Blog from Attack Anyone Can Do My ComLuv Profile

  11.  iLoveCoding says:

    March 8, 2010 at 10:16 am

    James, thank you so much for this thoughtful article. I have thought about this many a times. Over the years I have accumulated hundreds of account information. I am managing quite a number of web sites, blogs, pages, dealing with several payment system accounts and so on. In fact I have a fat excel workbook having numerous woksheets having numerous rows and columns on each sheet just to store all those specifics. I maintain this password book (let’s say passbook) religiously and store online and offline (don’t even think about stealing or hacking it, it is protected quite strongly), not only because it will help me to recall whenever and wherever needed but also because I have thought about “what happens when I die”. Master password, I still have not fully disclosed to anybody though. But I did it partially. Yes, I have written a riddle :) and already informed about that to whoever I trust. That riddle if solved (some hints still to be delivered) would disclose the master password to the solver.

    The riddle about the passbook is just a temporary arrangement, just in case I do not get enough time to disclose the exact password before I die – it is better than saying nothing. But I hope I will be able to pass on the password immediately before my passing.

    You see I do not consider my virtual life funny anymore. Thanks again, I could share about my passbook only because your article has set the context. After reading your article what I am thinking is that I have to prepare a plan also to determine the fate of my virtual presence and assets.

    iLoveCoding´s last blog ..What Hourly Rate is Feasible for You to Outsource Your MS Access Development Works to a Freelancer? My ComLuv Profile

  12.  James says:

    March 8, 2010 at 12:38 pm

    @John – While I was thinking about it myself, I realized that there were many things I was forgetting simply because I was so used to the automation of everything, taking it for granted. It’s only when I started writing everything down that I realized how much info we don’t keep track of – and we should.

    @John – *points to reply to otherjohn above* Would you believe I forgot two PayPal accounts on my list? Ouch.

    @Chase – Indeed. If a blog did go silent, there’d certainly be a bunch of people wondering why. Pre-drafting something helps prevent those, “Hey, what happened?” questions.

    @Annabel – I can’t think of one heir of mine that would be able to even check my email. So… yeah. “Click here. Now click here. Now click there…”

    @Dee – That’s actually a pretty smart idea, offering a service. Hm!

    @Michael – Well, even touchy subjects need to be talked about, and I agree – I did some searching of my own and there wasn’t much out there. Time to put it on the table.

    @Sharon – Oh very cool. I’ll have to go check that service out and see what it offers.

    @Pam – Why not? “If you’re reading this…” Sure. And yes. Everyone should have a will! Get thee hence and get one!

    @Michael – I know. I actually got a little wigged out writing this and had to stop and do happy stuff every now and then.

  13.  Kathy | Virtual Impax says:

    March 8, 2010 at 1:14 pm

    James…

    Wow – talk about a well timed blog post…. a client of mine just passed away last week after a prolonged battle with cancer.

    It’s a first for me … and your post has pointed out a few “curves” in the road ahead for me. THANKS!

    Kathy | Virtual Impax´s last blog ..Creating Authority with Your Business Blog My ComLuv Profile

  14.  Julien says:

    March 8, 2010 at 2:17 pm

    Yeah, it’s a quite complicated issue, i was wanting to solve starting this website : www.facebookafterli
    fe.com
    . I don’t think people realize yet the connection between their death and the internet, it’s good you talk about it.

  15.  Amy says:

    March 8, 2010 at 2:42 pm

    Many thanks… I have given some consideration to this before since “online” friends have passed away, but not to the extent that you have talked about. Kind regards for the extra tips and prodding to get affairs in order… never know when our day is going to come!

  16.  Lexi Rodrigo says:

    March 8, 2010 at 3:13 pm

    Funny you should blog about this today, James. Just a few days ago, I created a document with all the details about my online businesses — hosting, logins, passwords, regular expenses, etc. — so that if anything happened to me, my hubby would be able to either continue publishing my blogs, or sell them off.

    He’ll also know to cancel my many memberships and other monthly subscriptions. I balk at the idea of him finally knowing exactly how much I spend every month but, you know, when the time comes, I won’t care anymore, right?

    In fact, I’ve told him, “If anything happens to me, look for so-and-so document in the laptop. Then email (a client) and ask him to help you sell my sites.”

    I’m actually very happy to think that my family will be able to quickly cash in my various sites for a few thousand dollars. Made me realize that I really have been building up assets all this time (well, two years actually).

    Lexi Rodrigo´s last blog ..The Power of Follow-Up: A Case Study My ComLuv Profile

  17.  GeeWhiz says:

    March 8, 2010 at 4:37 pm

    If our lives were a business, we’d have a succession plan for the people on the leadership team and a business continuity plan (aka disaster recovery plan) for the systems and data.

    James’ post reminds us that so far, none of us have been granted immortality on this planet.

    GeeWhiz´s last blog ..E-mail signature blocks. How to. My ComLuv Profile

  18.  clickonportal says:

    March 8, 2010 at 7:00 pm

    That’s kind of a very morbid idea, but a practical one at that.

    clickonportal´s last blog ..Alice is a Wonderland of Visual Fascination! My ComLuv Profile

  19.  Deb Ng says:

    March 8, 2010 at 8:19 pm

    I wrote about this several years ago when I blogged for Performancing. I actually did make plans for if something happened and gave my information, passwords etc. to my blogging sister. If anything should happen, she is to sell FWJ and put the funds away for my son’s college education and future.

    Deb Ng´s last blog ..Four Types of Freelance Writing Sites We SHOULD Be Talking About My ComLuv Profile

  20.  Roezer says:

    March 8, 2010 at 8:34 pm

    Thanks for the Inspiration I have just found a solution to this and that is to save your passwords as a text file.

    Roezer´s last blog ..The Site My ComLuv Profile

  21.  Amie Boudreau says:

    March 8, 2010 at 10:22 pm

    When my dad died, we couldn’t cancel even his POGO account on Pogo.com or access his yahoo to delete it because we didn’t have passwords and to get access we would have to mail these places a certified copy of his death certificate.

    You only get so many without having to pay for extras and those we got were used for life insurance, etc.

    You never think of online stuff in the event of death.. but this article really pointed that out for me in a new way.

    One more thing to add to the will.. but also my spouse and I keep a list of passwords and because we use firefox we have discovered a cool application/add on that you can use called Password/Exporter 1.2 that will put all your saved usernames and logins in a file for you.

    Amie Boudreau´s last blog ..Manic Monday My ComLuv Profile

  22.  Saad says:

    March 8, 2010 at 11:41 pm

    You know what, for the past few days, I had the same question in my mind as your post topic. It all emerged when I was s
    earching for some troubleshooting with one of my site at free MSN account. While going through the FAQ’s a question was posted by one of the user of the same service. Which was as:

    “I’ve been diagnosed with cancer, now I want to close my account so what should I do now.”

    That was very sad. I don’t remember what the reply of the team was as it’s not even necessary but it forced me to think that what would happen to a person’s “cash cow” if he dies. Would the income keep on accumulating forever and the relatives never know that it even exists?

    I decided to write on this topic. Thankfully, I landed on your blog as many ideas have just surged in my mind after reading this post.

    Thanks.

    Saad´s last blog ..Building Interpersonal Relationships – Key To Success In Making Money Online My ComLuv Profile

  23.  Mary E. Ulrich says:

    March 8, 2010 at 11:59 pm

    Ah, the circle of life.

    I keep a file box next to my computer with passwords on index cards. I can’t even remember what I have/don’t have. NOT a good system.

    Somewhere there is a lawyer figuring how he/she can charge for a “blogging will” (get it–a take off of “living will”–okay, it’s late)

  24.  Long, a probate attorney in Florida says:

    March 9, 2010 at 1:14 am

    I wrote about this topic back in January. It can be messy and can overwhelm your loved ones if your entire life is online. Paypal accounts can be ripe for abuse as well. Good write up. Here’s mine if you care to check it out: http://weprobateflorida.com/what-happens-to-online-accounts-after-you-die/

  25.  MinnieRunner says:

    March 9, 2010 at 3:25 am

    That thought had already passed my mind months ago. I already had the list of sites, username, and passwords on an excel file. Only, I still haven’t let someone knew about it. I would really want someone to know it.

    A draft of a blog post to be published after I died is something I was not able to think of. And I guess that idea was remarkable. I would consider that.

  26.  Kelly says:

    March 9, 2010 at 7:01 am

    James,

    You mean I can’t live forever?

    :(

    Oh, all right. I’ve been thinking about it for a while, guess I’ll print this out and put it on my formal to-do list now. You’ve made it a lot easier by putting all sorts of memory-jogs in this post. Thanks.

    Regards,

    Kelly

    P.S. This showed up in my email inbox a day late or I’d have been over here with my little frown yesterday. Voodoo, I tell you.

    Kelly´s last blog ..The 2¢ Staple and other stories My ComLuv Profile

  27.  Tim Brownson says:

    March 9, 2010 at 7:37 am

    One of the worst experiences I’ve had on Twitter, was when I clicked through on link to somebody that was dead. She was a girl that had been killed in a car accident and she’d done a video on her own site a week or so previously where she joked about dying.

    It was really disturbing and I’ll not be following links like that again.

    On a brighter note it’s due to hit 77 degrees here today!

    Tim Brownson´s last blog ..What Are My Values? My ComLuv Profile

  28.  poch says:

    March 9, 2010 at 7:51 am

    I don’t think I can add any more but I think the best way
    of assuring that your website will not be left hanging is
    by giving the passwords of your website and your webhost to
    a ‘heir’ or ‘heiress’.

  29.  James says:

    March 9, 2010 at 10:42 am

    @Poch – And don’t forget the instructions on how to log in and the URL of the cPanel and when it’s time to renew… :)

    @Tim – Ookay. That’s pretty disturbing indeed, and I’ve just read your comment. Wow. Twitter sucks sometimes.

    @Kelly – Yes, you can live forever because I’m planning to live forever and if you pass on, I’ll be horribly sad and lonely, and that’s no good at all. Plus, I need someone to remind me of all the things I’m going to forget in my old age. ;)

    @Minnie – If no one knows about it, it’s as good as never existing. Go give that sheet to someone.

    @Long – Thanks for that, I’ll check that out for sure (even though I’m in Canada!)

    @Mary – I’m getting better at info collecting thanks to my penchant of reformatting my PC every year. Lastpass.com, Diigo.com and Dropbox.com have proved helpful.

    @Saad – Oh wow, that is sad, eh? How does someone read that without thinking of their own mortality? Wow. Life sucks sometimes.

    @Amie – Thanks for that service; I’ll check that out. Thanks also for the heads up that sometimes, it’s not as easy as it seems and that some sites might require documents and legal paperwork. Oy.

    @Deb – Selling for profit and going to the kids was my first thought, then I realized that the legacy of a fully operational business my teen could step into and continue was something I’d like to consider. How many people have that handed to them?

    Of course, when I asked her if she wanted it, she snorted, rolled her eyes and said, “What the hell would I do with that?”

    “Uh… I don’t know… Make money?”

    “Right.” Rolls eyes again.

    *sigh*

    @ClickonPortal – My apologies. When I read your keyword, I though your name was Chicken Portals. Either way, we have policies on keywording that way. Might want to read up on them!

    @GeeWhiz – Not yet, but I’m working really hard to have my wishes granted!

    @Lexi – Like I told you on Twitter, I love your thoughtful comments.

    @Amy/Julien – You’re welcome!

    @Kathy – There’s always a first and it’s never pleasant, sadly, but it is educational. My Dad passed away when I was a teen and I’ve never forgotten the lessons of life that’s taught me. There’s good that comes of every negative experience.

  30.  Mary E. Ulrich says:

    March 9, 2010 at 11:38 am

    Thanks for the sites. Can you tell us a little more about how you use:

    Lastpass.com, Diigo.com and Dropbox.com?

    ps. I’m thinking of your daughters–suppose it’s normal to eye-roll and just take “the family business” for granted. Wonder what they would think is valuable?
    It might make an interesting post to interview them about the future and talk about Men with Pens, the next generation….:) How do you make long range plans and engage your successors in a field that changes by the minute? Hell, when I was their age we were juggling blue carbon paper and learning to type on manual typewriters. They hadn’t invented the calculator, much less a computer. Wonder what things will be like in another 10, 20, 30 years….

  31.  J.D. Meier says:

    March 9, 2010 at 12:46 pm

    I hadn’t thought about how sites are the new family heirloom.

    I can imagine Who Dunnits with a new twist.

    J.D. Meier´s last blog ..Less is More, Slower is Better My ComLuv Profile

  32.  Nathan Hangen says:

    March 9, 2010 at 1:11 pm

    Such an important discussion James. I thought long and hard about this after I got to Afghanistan last year and realized I hadn’t passed any of this info to my wife:

    Clickbank info
    E-Junkie info
    blog info
    merchant acct info
    paypal info
    etc

    List is endless…I don’t have a great answer, but I can’t think of anyone that would want my business after I’m gone (at least until it hits 6 and then 7 figures :)

    I really need a master list db of passwords and info.
    Nathan Hangen´s last blog ..
    Podcast: Choosing Between Text, Audio, and Video My ComLuv Profile

  33.  Shane Hudson says:

    March 9, 2010 at 1:45 pm

    I have thought about this briefly in the past (though have done nothing about it) but my thoughts then wonder to security.

    If I keep a list of passwords then a hacker or a thief etc. could quite easily get access to EVERY THING. Nathan just said in the post before me that he needs a master list. I do not know how much Nathan earns but I know he is classed as a problogger. So if Nathan’s passwords got stolen then there would be a lot of problems for himself and his family (and his readers as I am sure he has a mailing list).

    So how would we go about being secure about it? I suppose it would have to be put in with the will, I do not have one yet (I am only 16) so have no idea how secure (very I hope) they are.

    Shane Hudson´s last blog ..Britain’s Answer To Gary Vaynerchuk My ComLuv Profile

  34.  Kelly says:

    March 9, 2010 at 1:49 pm

    James,

    & who will remind you of the things you forget now?

    Kelly´s last blog ..The 2¢ Staple and other stories My ComLuv Profile

  35.  Vanessa says:

    March 9, 2010 at 1:56 pm

    Wow. I wrote an article about this at a now defunct blog a few years ago. Writing all this stuff down is quite a task. Where to store it and with whom would you trust it? If it’s a husband or wife, what happens if you divorce? If an attorney, well many people don’t have one. Not everyone who has a site online running a business but they may have other accounts that could be issues.

    Using online resources to handle your stuff, they tend to go out of business or be acquired by other companies. Now, it’s in the hands of a new TOS and policies.

    Your article reminds me that updating this stuff is important and a reminder to think about what I use online that could become a legal matter after I’m gone. I can imagine my siblings wondering, “What in the world did she want us to do with THAT!”

    Great write-up.

    Vanessa´s last blog ..Artists Think Different My ComLuv Profile

  36.  John says:

    March 9, 2010 at 10:51 pm

    My partner and I did up our wills 2 years ago, I’m glad I read your post because I had never really considered our online businesses. Sounds stupid, but we have been so consumed with our virtual and real life that updating our will has been totally overlooked. It’s on the “to do” list for this week. I just hope my kids are keen on running online businesses.

  37.  MinnieRunner says:

    March 11, 2010 at 3:38 am

    Don’t worry, I will :)

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Em Salto, 13 de Março de 2010

Lulla se afunda cada vez mais ao defender o governo de ditadores

Infelizmente sou obrigado a elaborar mais um dossiê dos disparates que o presidente Lulla perpetra no caso dos prisioneiros de consciência em Cuba. O primeiro dossiê foi no dia 27/02/2010 e tem o título “Luís Inácio Lulla da Silva vs Orlando Zapata Tamayo”.

Os disparates agora são piores.

Protestam, na edição de hoje de A Folha de S. Paulo, a própria Folha, em Editorial, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, Clóvis Rossi, e Carlos Heitor Cony. Protesta também o Estadão, em editorial.

O editorial da Folha chama as novas declarações de Lulla de “escandalosas” — “mesmo para os padrões de Lula, que habitou os brasileiros a seus disparates”.

Clóvis Rossi as descreve como “ignomínia, uma completa ignomínia”.

É pouco. Mas fica registrado – com os parabéns à Folha e aos seus contribuidores. E parabéns ao Estadão, embora o material da Folha seja mais contundente.

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

Editoriais
editoriais@uol.com.br
Passou do limite

Ao defender mais uma vez a ditadura cubana, e equiparar presos políticos a comuns, Lula escarnece dos valores democráticos

NÃO PARECE demais, em nome do registro histórico, reproduzir mais uma vez as palavras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à Associated Press: "Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba. A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade".

A declaração é escandalosa -mesmo para os padrões de Lula, que habituou os brasileiros a seus disparates. Lembre-se, por exemplo, quando disse, ainda em 2003: "Quem chega a Windhoek [capital da Namíbia], não parece que está num país africano. Poucas cidades do mundo são tão limpas e bonitas arquitetonicamente quanto esta".

Desta vez, porém, a manifestação não se reveste de nenhuma graça, tosca que seja. E não pode ser atribuída a mais um entre tantos deslizes de quem abusa dos improvisos, não esconde o orgulho por falar errado e se diverte com as gafes que comete. Não. Lula, este personagem satisfeito com as suas próprias precariedades, desta vez passou dos limites na agressão aos valores democráticos.

Vejamos mais de perto a escalada de impropriedades: Lula endossa uma ditadura que reprime a divergência de opinião. Prega "respeito" pela legislação cubana, que autoriza a prisão de pessoas cujo crime é dar sinais de "conduta manifestamente em contradição com as normas da moralidade socialista".

A seguir, avança outra casa ao qualificar os direitos humanos de "pretexto" dos presos políticos que fazem greve de fome. Pretexto? Em 2003, o governo cubano fuzilou três dissidentes que tentaram fugir do país. Outros 75 opositores foram presos, entre os quais Orlando Zapata. Condenado inicialmente a três, ele teve sua pena ampliada para mais de 25 anos de prisão. Morreu após uma greve de fome, no dia em que Lula chegou à ilha, semanas atrás, para visitar Fidel Castro pela quarta vez.

Surpreendido por jornalistas, primeiro alegou desconhecer o apelo que entidades defensoras dos direitos humanos haviam feito para que intercedesse por Zapata. Limitou-se, a seguir, a lamentar que "um preso se deixe morrer por greve de fome".

Como disse ontem à Folha o jornalista e dissidente cubano Guillermo Fariñas, também em greve de fome: "Lula demonstra seu comprometimento com a ditadura dos Castro e seu desprezo com os presos políticos".

Nada supera, porém, o escárnio da conclusão presidencial: os presos políticos da ditadura cubana são equiparáveis aos presos comuns de um país democrático, no caso o Brasil. "Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade."

Imaginemos, nós, com mais razão, que tal aberração a serviço da defesa de um regime homicida não seja apenas um tropeço, mas, antes, a revelação do real apreço de Lula pela democracia.

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

TENDÊNCIAS/DEBATES

Palavras ao Lula

JOSÉ CARLOS DIAS


Presidente Lula, ex-preso político, como é possível submeter a filtro ideológico a questão do direito de oposição, de contestação?

 


PELA PRIMEIRA vez escrevo algumas palavras que eu gostaria que fossem lidas pelo Lula presidente -Lula que conheci quando ele veio ao meu escritório, na década de 1970, para que eu defendesse seu irmão, meu amigo até hoje, conhecido como Frei Chico, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano, que estava preso.

Após esse episódio, encontramo-nos muitas vezes naquela época em que ele era o grande líder sindical dos metalúrgicos, e eu, advogado de muitos perseguidos políticos e presidente da Comissão Justiça e Paz de São Paulo.

Lembro-me especialmente de uma madrugada na sua casa, e isso ocorreu durante a greve dos metalúrgicos de São Bernardo, em 1980. Lá estava Frei Betto, e a casa tinha sido rodeada por policiais à paisana que esperavam para prendê-lo, o que viria a ocorrer ao amanhecer. Logo depois, também Dalmo Dallari foi preso em sua casa.

Ao sair de casa em direção ao escritório, onde pretendia preparar um habeas corpus para ambos, eu também vim a ser preso, na praça Panamericana, de forma espalhafatosa.

Ficamos no Dops com cerca de 20 prisioneiros. Dalmo, Lula e eu ficamos isolados numa sala. Algumas horas depois, após interrogatório, Dalmo e eu fomos libertados. Lula permaneceu preso por muitos dias mais.

Essas cenas afloraram à memória e lembro que a sua história merece respeito e reverência, mesmo por parte dos que se opõem ao seu governo e às suas posições de hoje.

E por isso mesmo me espanta a notícia de que Lula se solidariza com o governo cubano, não somente naquilo que historicamente representa de importante e positivo mas também naquilo que tem de abjeto, que é o desrespeito aos direitos humanos daqueles que se opõem ao regime.

O nosso presidente chegou ao desplante de comparar os presos políticos de Cuba aos criminosos comuns. Condenou Lula a greve de fome ali utilizada, instrumento também adotado por tantos brasileiros que se opuseram à ditadura.

Frei Betto, nosso querido Frei Betto, um dos que heroicamente optaram por se expor à morte, descreve o que foi a greve de fome na penitenciária de Presidente Venceslau (SP).

E, por falar em Frei Betto, lembro-me de frei Tito, morto pela memória da tortura, de frei Giorgio Callegari e de todos aqueles mortos na cadeira do dragão, como Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho.

A indignação contra a violência, que levou tantos heróis à morte ou que os expôs à morte, é a mesma que deve estar presente quando os mesmos métodos são adotados por fundamentação ideológica diversa.

Acompanhei, com visitas diárias, vários clientes que sentiram que a greve de fome era o último recurso para que fossem respeitados os direitos mínimos que lhes eram sistematicamente negados. Acaso poderiam ser rotulados de criminosos comuns também nossos heróis?

Então, presidente Lula, ex-preso político, como é possível submeter a um filtro ideológico a questão do direito de oposição, de contestação?

Por que não usou o presidente Lula, pelo respeito à sua história, a força de seu prestígio e de seu carisma para influenciar os irmãos Castro a dar um basta à tortura e às violências contra os opositores do regime?

Se queremos apresentar ao mundo o rosto de um país que preserva a democracia, não podemos ser tolerantes nem lenientes com a violação de direitos humanos, trocando afagos com os dirigentes de um país que adota a tortura ao mesmo tempo em que é enterrado um opositor do regime, morto de inanição como derradeira forma de protesto.

Tive que escrever estas poucas linhas para sentir-me coerente com o compromisso de respeito aos direitos humanos que devem ser preservados -qualquer que seja a ideologia do preso e do detentor do poder.

Os tempos mudaram. Um operário corajoso de ontem representa esta República, uma conquista pelo voto democrático. Mas o coração que batia em seu peito de metalúrgico deve continuar a bater no mesmo ritmo no peito do presidente.

A coerência impõe o dever de expressar com mesmo ímpeto a indignação contra a violência quando ela é praticada contra qualquer preso, seja comum, seja político, seja qual for a vertente política do ordenante e do carrasco.

JOSÉ CARLOS DIAS , 70, advogado criminal, foi secretário da Justiça do Estado de São Paulo (governo Montoro) e ministro da Justiça (governo FHC).

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

CLÓVIS ROSSI
Ignomínia

SÃO PAULO – É uma ignomínia, uma completa ignomínia, a coleção de absurdos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disparou a respeito de Cuba, em entrevista à agência Associated Press.

Seria ignominioso em qualquer pessoa decente, mas se torna exponencial no caso de Lula, porque seus conceitos contra os dissidentes cubanos em greve de fome e a favor da ditadura acabam sendo uma condenação a seu próprio passado.

Ao equiparar a motivação (política) dos dissidentes a uma eventual ação similar dos criminosos de São Paulo, Lula está se declarando um ex-delinquente. Afinal, ele fez greve de fome, que agora repudia, e por motivos políticos.

Lula diz que é preciso "respeitar a determinação da Justiça e do governo cubano de deter as pessoas em função da legislação em Cuba".

Por que, então, não respeitou determinações da Justiça e do governo brasileiro no tempo em que era um líder sindical?

Pela simples e boa razão de que determinações de um poder judicial totalmente subordinado ao governo -e um governo ditatorial- não merecem respeito dos democratas. Nem aqui nem em Cuba.

A menos que Lula ache que há "boas" ditaduras e ditaduras "más".

Não há. O que há são valores universais: liberdades públicas, respeito aos direitos humanos -enfim, democracia. São princípios que organizam a convivência, os únicos decentes que o ser humano inventou até agora.

Em sendo assim, não há como discordar do preso político Guillermo Fariñas quando diz, como o fez a Flávia Marreiro, desta Folha, que Lula demonstrou seu "comprometimento com a tirania dos Castro".

Uma tirania que fez de Cuba o museu do fracasso do socialismo real, só louvado por três ou quatro intelectuais de quinta, que, sem público em seus próprios países, vêm à América Latina lamber as botas de tiranos e tiranetes de opereta.

crossi@uol.com.br

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

CARLOS HEITOR CONY
Pisada de bola

RIO DE JANEIRO – Que Lula pisou na bola, pisou. Sua declaração a propósito da greve de fome de um dissidente cubano foi infeliz -e, além de infeliz, oportunista e contrária à sua própria biografia.

Infeliz porque se espera de Lula uma coerência mínima com o seu passado, passado de luta na oposição. Ele próprio chegou a ser um preso político e sabe melhor do que ninguém a diferença entre um deles e o preso comum.

A greve de fome é antes de mais nada um recurso à propaganda contra um regime ou contra as condições subumanas das prisões. É um recurso válido até mesmo para os presos comuns, e muito mais para os presos políticos.

O oportunismo de Lula está claro: as suas relações com o regime cubano são estridentes e até louváveis, pois, de certa forma, sem o apelo à violência, a cartilha do petismo não é tão diferente da cartilha castrista, seja ela administrada por Fidel ou por Raul.

Ele sabe compensar essa predileção pelos governos de esquerda indo visitar amistosamente velhos ditadores de direita, o que lhe dá uma aura de equidistante, de cidadão do mundo.

Mas condenar a greve de fome de um dissidente de um regime antidemocrático, como o de Cuba, é ir além da imagem que ele procura firmar, de político mais importante do mundo.

A comparação que ele fez também foi infeliz. Se os presos comuns de São Paulo fizessem greve de fome, não deveriam ser soltos, mas atendidos em suas exigências de tratamento carcerário, que, como sabemos, não é lá essas coisas.

Em resumo: a declaraç
o de Lula sobre o dissidente cubano mostra que cada vez mais ele se afasta de suas origens pessoais e políticas, tornando-se não um preso comum, mas um político comum.

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O Estado de S. Paulo

Quinta-Feira, 11 de Março de 2010

Editorial

A ditadura justificada

O presidente Lula, que tanto admira o cubano Fidel Castro, devia saber que certa vez ele disse: "Os tiranos tremem na presença de homens capazes de morrer por seus ideais." Essas palavras datam de maio de 1981, quando o ativista irlandês Bobby Sands morreu depois de 66 dias de greve de fome em protesto contra as condições carcerárias a que eram submetidos os seus companheiros e pelo direito de ser considerado prisioneiro político. Hoje, quando a tirania castrista se vê confrontada pela morte do preso político Orlando Zapata Tamayo, depois de 85 dias de jejum, e pela greve similar, que já dura 16 dias, do dissidente Guillermo Fariñas, Lula descortina o lado mais tenebroso de sua personalidade política, ao condenar os "homens capazes de morrer por seus ideais" ? e, pior ainda, ao sair em defesa dos seus algozes.

A morte de Tamayo, em 23 de fevereiro passado, coincidiu com a presença do brasileiro em Cuba. Já então, instado pelos jornalistas que o acompanhavam a se manifestar sobre a tragédia, lamentou "que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome", calando sobre as razões que a levaram a esse extremo. Um dos 75 condenados da infame leva de 2003, o pedreiro de 42 anos tinha sido adotado pela Anistia Internacional como "prisioneiro de consciência". À maneira de Bobby Sands, deixou de se alimentar para pressionar o governo a melhorar as condições dos mais de 200 presos políticos cubanos. De seu lado, o jornalista e psicólogo Fariñas, de 48 anos, que vive em Santa Clara, a 280 quilômetros de Havana, iniciou a sua greve pela causa de Tamayo e para pedir a libertação dos 26 daqueles detentos em pior estado de saúde.

Como se sabe, Lula recorreu à ferramenta política da fome quando, líder sindical, foi preso pela ditadura militar. Teoricamente, portanto, estaria à vontade para considerar o ato uma "insanidade", como disse anteontem numa entrevista à agência noticiosa americana Associated Press. Mas, salvo engano, nunca antes ele se pôs a verberar o autossacrifício ? praticado, entre tantos outros, por Nelson Mandela. Inspirado pelo exemplo de Sands, o líder sul-africano, então confinado na ilha onde o regime de supremacia branca mantinha os seus opositores, liderou uma greve de fome pelo direito dos presos de serem visitados por seus filhos menores. Depois de seis dias, a reivindicação foi atendida. Ainda que se tentasse fazer de conta que as atuais objeções de Lula a tal modalidade de protesto não têm relação com os casos cubanos, ele próprio tomou a iniciativa de desmanchar essa interpretação ingênua.

Na citada entrevista, reiterou que "a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos (sic) para libertar as pessoas". E, com palavras das quais jamais se libertará, sugeriu: "Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade." Para ele, "temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba" ? que autoriza a prisão de pessoas tidas como suspeitas de vir a cometer o que o regime considera crimes. Disse mais Lula: "Gostaria que não ocorressem (as detenções), mas não posso questionar as razões pelas quais Cuba os deteve, como tampouco quero que Cuba questione as razões pelas quais há pessoas presas no Brasil" ? nenhuma delas, como bem sabe, por motivos políticos. Ou seja, leis repressivas não devem ser contestadas, nem quando baixadas por governos ditatoriais ou autoritários.

Na filosofia lulista do direito, a Lei de Segurança Nacional brasileira que condenou a militante Dilma Rousseff a 6 anos de prisão (das quais cumpriu três) ou a legislação do apartheid que aprisionou Nelson Mandela por 27 anos, por exemplo, não são menos legítimas do que as provisões das democracias. Se violam os direitos humanos, não há nada que líderes de outros países possam fazer, salvo afirmar que gostariam que isso não ocorresse. Eis por que o Brasil de Lula se distingue no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas pela leniência com as denúncias das práticas brutais de governos como os de Cuba e do Irã, enquanto reluta em reconhecer o novo governo hondurenho escolhido em eleições livres. Outros países também adotam esse duplo padrão, mas os seus dirigentes ao menos se guardam de escarnecer das vítimas das ditaduras.

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Em São Paulo, 11 de Março de 2010