Lulla se afunda cada vez mais ao defender o governo de ditadores

Infelizmente sou obrigado a elaborar mais um dossiê dos disparates que o presidente Lulla perpetra no caso dos prisioneiros de consciência em Cuba. O primeiro dossiê foi no dia 27/02/2010 e tem o título “Luís Inácio Lulla da Silva vs Orlando Zapata Tamayo”.

Os disparates agora são piores.

Protestam, na edição de hoje de A Folha de S. Paulo, a própria Folha, em Editorial, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, Clóvis Rossi, e Carlos Heitor Cony. Protesta também o Estadão, em editorial.

O editorial da Folha chama as novas declarações de Lulla de “escandalosas” — “mesmo para os padrões de Lula, que habitou os brasileiros a seus disparates”.

Clóvis Rossi as descreve como “ignomínia, uma completa ignomínia”.

É pouco. Mas fica registrado – com os parabéns à Folha e aos seus contribuidores. E parabéns ao Estadão, embora o material da Folha seja mais contundente.

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

Editoriais
editoriais@uol.com.br
Passou do limite

Ao defender mais uma vez a ditadura cubana, e equiparar presos políticos a comuns, Lula escarnece dos valores democráticos

NÃO PARECE demais, em nome do registro histórico, reproduzir mais uma vez as palavras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à Associated Press: "Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba. A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade".

A declaração é escandalosa -mesmo para os padrões de Lula, que habituou os brasileiros a seus disparates. Lembre-se, por exemplo, quando disse, ainda em 2003: "Quem chega a Windhoek [capital da Namíbia], não parece que está num país africano. Poucas cidades do mundo são tão limpas e bonitas arquitetonicamente quanto esta".

Desta vez, porém, a manifestação não se reveste de nenhuma graça, tosca que seja. E não pode ser atribuída a mais um entre tantos deslizes de quem abusa dos improvisos, não esconde o orgulho por falar errado e se diverte com as gafes que comete. Não. Lula, este personagem satisfeito com as suas próprias precariedades, desta vez passou dos limites na agressão aos valores democráticos.

Vejamos mais de perto a escalada de impropriedades: Lula endossa uma ditadura que reprime a divergência de opinião. Prega "respeito" pela legislação cubana, que autoriza a prisão de pessoas cujo crime é dar sinais de "conduta manifestamente em contradição com as normas da moralidade socialista".

A seguir, avança outra casa ao qualificar os direitos humanos de "pretexto" dos presos políticos que fazem greve de fome. Pretexto? Em 2003, o governo cubano fuzilou três dissidentes que tentaram fugir do país. Outros 75 opositores foram presos, entre os quais Orlando Zapata. Condenado inicialmente a três, ele teve sua pena ampliada para mais de 25 anos de prisão. Morreu após uma greve de fome, no dia em que Lula chegou à ilha, semanas atrás, para visitar Fidel Castro pela quarta vez.

Surpreendido por jornalistas, primeiro alegou desconhecer o apelo que entidades defensoras dos direitos humanos haviam feito para que intercedesse por Zapata. Limitou-se, a seguir, a lamentar que "um preso se deixe morrer por greve de fome".

Como disse ontem à Folha o jornalista e dissidente cubano Guillermo Fariñas, também em greve de fome: "Lula demonstra seu comprometimento com a ditadura dos Castro e seu desprezo com os presos políticos".

Nada supera, porém, o escárnio da conclusão presidencial: os presos políticos da ditadura cubana são equiparáveis aos presos comuns de um país democrático, no caso o Brasil. "Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade."

Imaginemos, nós, com mais razão, que tal aberração a serviço da defesa de um regime homicida não seja apenas um tropeço, mas, antes, a revelação do real apreço de Lula pela democracia.

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

TENDÊNCIAS/DEBATES

Palavras ao Lula

JOSÉ CARLOS DIAS


Presidente Lula, ex-preso político, como é possível submeter a filtro ideológico a questão do direito de oposição, de contestação?

 


PELA PRIMEIRA vez escrevo algumas palavras que eu gostaria que fossem lidas pelo Lula presidente -Lula que conheci quando ele veio ao meu escritório, na década de 1970, para que eu defendesse seu irmão, meu amigo até hoje, conhecido como Frei Chico, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano, que estava preso.

Após esse episódio, encontramo-nos muitas vezes naquela época em que ele era o grande líder sindical dos metalúrgicos, e eu, advogado de muitos perseguidos políticos e presidente da Comissão Justiça e Paz de São Paulo.

Lembro-me especialmente de uma madrugada na sua casa, e isso ocorreu durante a greve dos metalúrgicos de São Bernardo, em 1980. Lá estava Frei Betto, e a casa tinha sido rodeada por policiais à paisana que esperavam para prendê-lo, o que viria a ocorrer ao amanhecer. Logo depois, também Dalmo Dallari foi preso em sua casa.

Ao sair de casa em direção ao escritório, onde pretendia preparar um habeas corpus para ambos, eu também vim a ser preso, na praça Panamericana, de forma espalhafatosa.

Ficamos no Dops com cerca de 20 prisioneiros. Dalmo, Lula e eu ficamos isolados numa sala. Algumas horas depois, após interrogatório, Dalmo e eu fomos libertados. Lula permaneceu preso por muitos dias mais.

Essas cenas afloraram à memória e lembro que a sua história merece respeito e reverência, mesmo por parte dos que se opõem ao seu governo e às suas posições de hoje.

E por isso mesmo me espanta a notícia de que Lula se solidariza com o governo cubano, não somente naquilo que historicamente representa de importante e positivo mas também naquilo que tem de abjeto, que é o desrespeito aos direitos humanos daqueles que se opõem ao regime.

O nosso presidente chegou ao desplante de comparar os presos políticos de Cuba aos criminosos comuns. Condenou Lula a greve de fome ali utilizada, instrumento também adotado por tantos brasileiros que se opuseram à ditadura.

Frei Betto, nosso querido Frei Betto, um dos que heroicamente optaram por se expor à morte, descreve o que foi a greve de fome na penitenciária de Presidente Venceslau (SP).

E, por falar em Frei Betto, lembro-me de frei Tito, morto pela memória da tortura, de frei Giorgio Callegari e de todos aqueles mortos na cadeira do dragão, como Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho.

A indignação contra a violência, que levou tantos heróis à morte ou que os expôs à morte, é a mesma que deve estar presente quando os mesmos métodos são adotados por fundamentação ideológica diversa.

Acompanhei, com visitas diárias, vários clientes que sentiram que a greve de fome era o último recurso para que fossem respeitados os direitos mínimos que lhes eram sistematicamente negados. Acaso poderiam ser rotulados de criminosos comuns também nossos heróis?

Então, presidente Lula, ex-preso político, como é possível submeter a um filtro ideológico a questão do direito de oposição, de contestação?

Por que não usou o presidente Lula, pelo respeito à sua história, a força de seu prestígio e de seu carisma para influenciar os irmãos Castro a dar um basta à tortura e às violências contra os opositores do regime?

Se queremos apresentar ao mundo o rosto de um país que preserva a democracia, não podemos ser tolerantes nem lenientes com a violação de direitos humanos, trocando afagos com os dirigentes de um país que adota a tortura ao mesmo tempo em que é enterrado um opositor do regime, morto de inanição como derradeira forma de protesto.

Tive que escrever estas poucas linhas para sentir-me coerente com o compromisso de respeito aos direitos humanos que devem ser preservados -qualquer que seja a ideologia do preso e do detentor do poder.

Os tempos mudaram. Um operário corajoso de ontem representa esta República, uma conquista pelo voto democrático. Mas o coração que batia em seu peito de metalúrgico deve continuar a bater no mesmo ritmo no peito do presidente.

A coerência impõe o dever de expressar com mesmo ímpeto a indignação contra a violência quando ela é praticada contra qualquer preso, seja comum, seja político, seja qual for a vertente política do ordenante e do carrasco.

JOSÉ CARLOS DIAS , 70, advogado criminal, foi secretário da Justiça do Estado de São Paulo (governo Montoro) e ministro da Justiça (governo FHC).

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

CLÓVIS ROSSI
Ignomínia

SÃO PAULO – É uma ignomínia, uma completa ignomínia, a coleção de absurdos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disparou a respeito de Cuba, em entrevista à agência Associated Press.

Seria ignominioso em qualquer pessoa decente, mas se torna exponencial no caso de Lula, porque seus conceitos contra os dissidentes cubanos em greve de fome e a favor da ditadura acabam sendo uma condenação a seu próprio passado.

Ao equiparar a motivação (política) dos dissidentes a uma eventual ação similar dos criminosos de São Paulo, Lula está se declarando um ex-delinquente. Afinal, ele fez greve de fome, que agora repudia, e por motivos políticos.

Lula diz que é preciso "respeitar a determinação da Justiça e do governo cubano de deter as pessoas em função da legislação em Cuba".

Por que, então, não respeitou determinações da Justiça e do governo brasileiro no tempo em que era um líder sindical?

Pela simples e boa razão de que determinações de um poder judicial totalmente subordinado ao governo -e um governo ditatorial- não merecem respeito dos democratas. Nem aqui nem em Cuba.

A menos que Lula ache que há "boas" ditaduras e ditaduras "más".

Não há. O que há são valores universais: liberdades públicas, respeito aos direitos humanos -enfim, democracia. São princípios que organizam a convivência, os únicos decentes que o ser humano inventou até agora.

Em sendo assim, não há como discordar do preso político Guillermo Fariñas quando diz, como o fez a Flávia Marreiro, desta Folha, que Lula demonstrou seu "comprometimento com a tirania dos Castro".

Uma tirania que fez de Cuba o museu do fracasso do socialismo real, só louvado por três ou quatro intelectuais de quinta, que, sem público em seus próprios países, vêm à América Latina lamber as botas de tiranos e tiranetes de opereta.

crossi@uol.com.br

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Folha de S. Paulo
11 de Março de 2010

CARLOS HEITOR CONY
Pisada de bola

RIO DE JANEIRO – Que Lula pisou na bola, pisou. Sua declaração a propósito da greve de fome de um dissidente cubano foi infeliz -e, além de infeliz, oportunista e contrária à sua própria biografia.

Infeliz porque se espera de Lula uma coerência mínima com o seu passado, passado de luta na oposição. Ele próprio chegou a ser um preso político e sabe melhor do que ninguém a diferença entre um deles e o preso comum.

A greve de fome é antes de mais nada um recurso à propaganda contra um regime ou contra as condições subumanas das prisões. É um recurso válido até mesmo para os presos comuns, e muito mais para os presos políticos.

O oportunismo de Lula está claro: as suas relações com o regime cubano são estridentes e até louváveis, pois, de certa forma, sem o apelo à violência, a cartilha do petismo não é tão diferente da cartilha castrista, seja ela administrada por Fidel ou por Raul.

Ele sabe compensar essa predileção pelos governos de esquerda indo visitar amistosamente velhos ditadores de direita, o que lhe dá uma aura de equidistante, de cidadão do mundo.

Mas condenar a greve de fome de um dissidente de um regime antidemocrático, como o de Cuba, é ir além da imagem que ele procura firmar, de político mais importante do mundo.

A comparação que ele fez também foi infeliz. Se os presos comuns de São Paulo fizessem greve de fome, não deveriam ser soltos, mas atendidos em suas exigências de tratamento carcerário, que, como sabemos, não é lá essas coisas.

Em resumo: a declaraç
o de Lula sobre o dissidente cubano mostra que cada vez mais ele se afasta de suas origens pessoais e políticas, tornando-se não um preso comum, mas um político comum.

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O Estado de S. Paulo

Quinta-Feira, 11 de Março de 2010

Editorial

A ditadura justificada

O presidente Lula, que tanto admira o cubano Fidel Castro, devia saber que certa vez ele disse: "Os tiranos tremem na presença de homens capazes de morrer por seus ideais." Essas palavras datam de maio de 1981, quando o ativista irlandês Bobby Sands morreu depois de 66 dias de greve de fome em protesto contra as condições carcerárias a que eram submetidos os seus companheiros e pelo direito de ser considerado prisioneiro político. Hoje, quando a tirania castrista se vê confrontada pela morte do preso político Orlando Zapata Tamayo, depois de 85 dias de jejum, e pela greve similar, que já dura 16 dias, do dissidente Guillermo Fariñas, Lula descortina o lado mais tenebroso de sua personalidade política, ao condenar os "homens capazes de morrer por seus ideais" ? e, pior ainda, ao sair em defesa dos seus algozes.

A morte de Tamayo, em 23 de fevereiro passado, coincidiu com a presença do brasileiro em Cuba. Já então, instado pelos jornalistas que o acompanhavam a se manifestar sobre a tragédia, lamentou "que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome", calando sobre as razões que a levaram a esse extremo. Um dos 75 condenados da infame leva de 2003, o pedreiro de 42 anos tinha sido adotado pela Anistia Internacional como "prisioneiro de consciência". À maneira de Bobby Sands, deixou de se alimentar para pressionar o governo a melhorar as condições dos mais de 200 presos políticos cubanos. De seu lado, o jornalista e psicólogo Fariñas, de 48 anos, que vive em Santa Clara, a 280 quilômetros de Havana, iniciou a sua greve pela causa de Tamayo e para pedir a libertação dos 26 daqueles detentos em pior estado de saúde.

Como se sabe, Lula recorreu à ferramenta política da fome quando, líder sindical, foi preso pela ditadura militar. Teoricamente, portanto, estaria à vontade para considerar o ato uma "insanidade", como disse anteontem numa entrevista à agência noticiosa americana Associated Press. Mas, salvo engano, nunca antes ele se pôs a verberar o autossacrifício ? praticado, entre tantos outros, por Nelson Mandela. Inspirado pelo exemplo de Sands, o líder sul-africano, então confinado na ilha onde o regime de supremacia branca mantinha os seus opositores, liderou uma greve de fome pelo direito dos presos de serem visitados por seus filhos menores. Depois de seis dias, a reivindicação foi atendida. Ainda que se tentasse fazer de conta que as atuais objeções de Lula a tal modalidade de protesto não têm relação com os casos cubanos, ele próprio tomou a iniciativa de desmanchar essa interpretação ingênua.

Na citada entrevista, reiterou que "a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos (sic) para libertar as pessoas". E, com palavras das quais jamais se libertará, sugeriu: "Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade." Para ele, "temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba" ? que autoriza a prisão de pessoas tidas como suspeitas de vir a cometer o que o regime considera crimes. Disse mais Lula: "Gostaria que não ocorressem (as detenções), mas não posso questionar as razões pelas quais Cuba os deteve, como tampouco quero que Cuba questione as razões pelas quais há pessoas presas no Brasil" ? nenhuma delas, como bem sabe, por motivos políticos. Ou seja, leis repressivas não devem ser contestadas, nem quando baixadas por governos ditatoriais ou autoritários.

Na filosofia lulista do direito, a Lei de Segurança Nacional brasileira que condenou a militante Dilma Rousseff a 6 anos de prisão (das quais cumpriu três) ou a legislação do apartheid que aprisionou Nelson Mandela por 27 anos, por exemplo, não são menos legítimas do que as provisões das democracias. Se violam os direitos humanos, não há nada que líderes de outros países possam fazer, salvo afirmar que gostariam que isso não ocorresse. Eis por que o Brasil de Lula se distingue no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas pela leniência com as denúncias das práticas brutais de governos como os de Cuba e do Irã, enquanto reluta em reconhecer o novo governo hondurenho escolhido em eleições livres. Outros países também adotam esse duplo padrão, mas os seus dirigentes ao menos se guardam de escarnecer das vítimas das ditaduras.

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Em São Paulo, 11 de Março de 2010

“No Child Left Behind” or “No Child Moving Ahead”

O Presidente George W Bush criou, logo que assumiu o governo em seu primeiro mandato, um mega-programa educacional chamado “No Child Left Behind” – Nenhuma Criança Deixada para Trás. Seu objetivo é melhorar a qualidade da educação americana e combater a desigualdade de oportunidades educacionais. Para isso apelou-se para uma reforma educacional fundamentada em padrões (standards), que se baseia na crença que a qualidade da educação melhora quando se propõem para a educação objetivos elevados traduzidos em metas mensuráveis. O programa exige que os estados elaborem avaliações (testes) de habilidades básicas a serem aplicados a todos os alunos de certa idade (e em certas séries). Se as metas não são alcançadas, o governo federal não repassa recursos; se são, os estados recebem considerável ajuda do governo federal. Os padrões não são fixados pelo governo federal: são fixados pelos estados.

A tentação é enorme, dado o volume de recursos disponibilizado pelo governo federal, de baixar o nível de padrões e de criar mecanismos, não para que os mais fracos não fiquem para trás, mas para que os mais fortes não disparem na frente, assim reduzindo a desigualdade – sem melhorar a qualidade…

Pode?

Em São Paulo, 9 de Março de 2010

O Oscar de 2010

Todo ano compartilho aqui neste space a lista ganhadores do Oscar e dos indicados.

Este ano me senti feliz com o resultado na área de filme estrangeiro: El Secreto de sus Ojos, sobre o qual escrevi quatro posts aqui, ganhou, merecidamente, o Oscar de melhor filme estrangeiro.

A lista foi aproveitada do site http://g1.com.br/bomdiabrasil 

São os seguintes os vencedores do Oscar 2010:

Melhor filme: "Guerra ao terror"
Melhor direção: Kathryn Bigelow, “Guerra ao terror”
Melhor atriz: Sandra Bullock, "Um sonho possível"
Melhor ator: Jeff Bridges, “Coração louco”
Melhor filme estrangeiro: “O segredo dos seus olhos” (Argentina)
Melhor edição (montagem): “Guerra ao terror”
Melhor documentário: “The cove”
Melhores efeitos visuais: “Avatar”
Melhor trilha sonora: “Up – Altas aventuras”
Melhor cinematografia (fotografia): “Avatar”
Melhor mixagem de som: “Guerra ao terror”
Melhor edição de som: “Guerra ao terror”
Melhor figurino: “The young Victoria”
Melhor direção de arte: “Avatar”
Melhor atriz coadjuvante: Mo’Nique, “Preciosa”
Melhor roteiro adaptado: “Preciosa”
Melhor maquiagem: “Star trek”
Melhor curta-metragem: “The new tenants”
Melhor documentário em curta-metragem: “Music by Prudence”
Melhor curta-metragem de animação: “Logorama”
Melhor roteiro original: “Guerra ao terror”
Melhor canção: “The weary kind”, de “Coração louco"
Melhor animação: “Up – Altas aventuras”
Melhor ator coadjuvante: Christoph Waltz, “Bastardos inglórios”

Esta é a lista dos indicados ao Oscar:

MELHOR FILME
"Avatar", de James Cameron
"O lado cego", de John Lee Hancock
"Distrito 9", de Neill Blomkamp
"Uma educação", de Lone Scherfig
"Guerra ao terror", de Kathryn Bigleow
"Bastardos inglórios", de Quentin Tarantino
"Preciosa", de Lee Daniels
"Um homem sério", de Ethan e Joel Coen
"Up – Altas aventuras", de Pete Docter e Bob Peterson
"Amor sem escalas", de Jason Reitman

MELHOR ATOR
Jeff Bridges, “Crazy heart”
George Clooney, “Amor sem escalas”
Colin Firth, “A single man”
Morgan Freeman, “Invictus”
Jeremy Renner, “Guerra ao terror”

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Matt Damon, “Invictus”
Woody Harrelson, “The messenger”
Christopher Plummer, “The last station”
Stanley Tucci, “Um olhar do paraíso”
Christoph Waltz, “Bastardos inglórios”

MELHOR ATRIZ
Sandra Bullock, “O lado cego”
Helen Mirren, “The last station”
Carey Mulligan, “Uma educação”
Gabourey Sidibe, “Preciosa”
Meryl Streep, “Julie & Julia"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Penélope Cruz, “Nine”
Vera Farmiga, “Amor sem escalas”
Maggie Myllenhaal, “Crazy heart”
Anna Kendrick, “Amor sem escalas”
Mo’Nique, “Preciosa”

MELHOR FILME ANIMADO
“Coraline”
“O fantástico Sr. Raposo”
“A princesa e o sapo”
“O segredo de Kells”
“Up – Altas aventuras”

MELHOR DIRETOR
Quentin Tarantino, por "Bastardos Inglórios"
Kathryn Bigelow, por "Guerra ao Terror"
Lee Daniels, por "Preciosa – Uma História de Esperança"
James Cameron, por "Avatar"
Jason Reitman, por "Amor sem Escalas"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Argentina, "O Segredo dos Seus Olhos", de Juan Jose Campanella
França, "Un Prophète", de Jacques Audiard
Alemanha, "A Fita Branca", de Michael Haneke
Israel, "Ajami", de Scandar Copti e Yaron Shani
Peru, "A Teta Assustada", de Claudia Llosa

ROTEIRO ORIGINAL
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"O Mensageiro"
"A Serious Man"
"Up – Altas Aventuras"

ROTEIRO ADAPTADO
"Distrito 9"
"Educação"
"In the Loop"
"Preciosa – Uma História de Esperança"
"Amor sem Escalas"

DIREÇÃO DE ARTE
"Avatar"
"O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus"
"Nine"
"Sherlock Holmes"
"The Young Victoria"

CANÇÃO ORIGINAL
"Almost There", de "A Princesa e o Sapo"
"Down in New Orleans", de"A Princesa e o Sapo"
"Loin de Paname", de "Paris 36"
"Take It All", de "Nine"
"The Weary Kind", de "Crazy Heart"

TRILHA SONORA
"Avatar"
"O Fantástico Mundo do Senhor Raposo"
"Guerra ao Terror"
"Sherlock Holmes"
"Up – Altas Aventuras"

EDIÇÃO DE SOM
"Avatar"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"Star Trek"
"Up – Altas Aventuras"

MIXAGEM DE SOM
"Avatar"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"Star Trek"
"Transformers – A Vingança dos Derrotados"

EFEITO ESPECIAL
"Avatar"
"Distrito 9"
"Star Trek"

CURTA-METRAGEM
"The Door"
"Instead of Abracadabra"
"Kavi"
"Miracle Fish"
"The New Tenants"

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"French Roast"
"Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty"
"The Lady and the Reaper"
"Logorama"
"A Matter of Loaf and Death"

MAQUIAGEM
"Il Divo"
"Star Trek"
"The Young Victoria"

EDIÇÃO
"Avatar"
"Distrito 9"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"Preciosa – Uma História de Esperança"

FOTOGRAFIA
"Avatar"
"Harry Potter e o Enigma do Príncipe"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"A Fita Branca"

FIGURINO
"Bright Star"
"Coco Antes de Chanel"
"O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus"
"Nine"
"The Young Victoria"

DOCUMENTÁRIO
"Burma VJ"
"The Cove"
"Comida S/A"
"The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers"
"Which Way Home"

DOCUMENTÁRIO CURTA-METRAGEM
"China’s Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province"
"The Last Campaign of Governor Booth Gardner"
"The Last Truck: Closing of a GM Plant"
"Music by Prudence"
"Rabbit à la Berlin"

No Rio de Janeiro, 8 de Março de 2010
Dia Internacional da Mulher

Fusos horários

Estamos agora naquele interregno em que os países / as regiões ao Sul do Equador que praticam o Horário de Verão já saíram dele, e os países / as regiões ao Norte do Equador que praticam o Horário de Verão ainda não entraram nele.

Se você viaja bastante, ou tem clientes / contatos ao redor do mundo, é bom saber que horas são nos diferentes países / nas diferentes regiões do mundo.

Abaixo, uma tabela que elaborei para usar com o meu KybTec clock, que permite exibir até mais de 24 relógios na tela. Eu tenho 25 relógios na tela, um em cada um dos 24 fusos horários (começando e terminando com São Paulo).

Pode ser útil.

CIDADE          HORA     GMT    PAÍS

01-São Paulo    00:00    -03    Brazil
02-Noronha      01:00    -02    Brazil
03-Cape Verde   02:00    -01    Portugal
04-London       03:00     00    England
05-Paris        04:00    +01    France
06-Jerusalem    05:00    +02    Israel
07-Moscow       06:00    +03    Russia
08-Yerevan      07:00    +04    Armenia
09-Karachi      08:00    +05    Pakistan
10-Dacca        09:00    +06    Bangladesh
11-Hanoi        10:00    +07    Vietnam
12-Beijing      11:00    +08    China

13-Tokyo        12:00    +09    Japan
14-Brisbane     13:00    +10    Australia
15-Sydney       14:00    +11    Australia
16-Fiji         15:00  +/-12    Fiji Islands
17-Auckland     16:00    -11    New Zealand
18-Honolulu     17:00    -10    US
19-Juneau       18:00    -09    US
20-Seattle      19:00    -08    US
21-Denver       20:00    -07    US
22-Chicago      21:00    -06    US
23-New York     22:00    -05    US
24-Saint John   23:00    -04    Canada

25-São Paulo    24:00    -03    Brazil

Em São Paulo, 3 de Março de 2010

Crônicas sobre um tempo que não volta mais

Transcrevo, a seguir, uma mensagem do Rubem Alves (de hoje, 2/3/2010), que traz, embutida nela, uma crônica de José Antonio Oliveira de Resende, da Universidde Federal de São João del Rey. As duas são tocantes – e refletem também um tempo que eu vivi.

—–Mensagem do Rubem—–

O CAFÉ ESTÁ NA MESA.

Não fui eu quem escreveu esse texto. Foi o professor José Antônio Oliveira de Resende, professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. Mexeu comigo. Vivi aquilo sobre que ele fala. Pedi licença… Ele deu. Se o texto dele mexer com você do jeito como mexeu comigo você vai lhe enviar um email: jresende@mgconecta.com.br

—–Crônica do Resende—–

“Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.

Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.

– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.

E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.

– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:

– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… tudo sobre a mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam… era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…

Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… até que sumissem no horizonte da noite.

O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:

– Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.

Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

Casas trancadas. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos, do leite…

Que saudade do compadre e da comadre!”

—–Continua a mensagem do Rubem—–

MAIS SAUDADE… Já esse texto eu vivi…

O fogão de lenha aceso era um altar. A lenha queimava, perfumando o ar com o cheiro das resinas que a madeira chorava através de suas gretas. O fogo avermelhava os rostos. A prosa era sempre sobre coisas de antigamente que todos já conheciam. “Pai, conta daquela vez que, pra visitar a mamãe, você atravessou a enchente do rio num tacho do engenho de cana puxado por uma corda…” A conversa era só uma desculpa para estar juntos. As palavras tinham carne. Na cozinha, diante do fogo, o silêncio era bem-vindo. Só contemplar o fogo já bastava. Era um silêncio carnudo, cheio de ser, tranquilo e feliz. O fogo incendiava a imaginação. Um espaço com um fogo aceso é um espaço aconchegante. As sombras não param. Movem-se ao sabor da dança das chamas. O fogo tranqüiliza a alma, espanta os medos.

A chapa quente do fogão era lugar para uma cafeteira de ágata. Quando não o café, um chá de folha de laranjeira. Minha amiga Maria Alice, nascida em Mossâmedes, Goiás, viveu a cozinha como eu vivi. Toda noite era igual. Ela conta: “A mãe dizia: ‘Vou é lá fora apanhar umas folhas de laranjeira prá fazer um chá pra nós…’ O pai advertia: ‘Mulher, você vai é ficar estuporada. Está com a cara quente do calor do fogo e vai sair na friagem? Vai acabar de boca torta…’ Ela nunca seguiu a advertência do marido e nunca ficou de boca torta.

—–Fim das transcrições—–

Em São Paulo, 2 de Março de 2010
Dia do aniversário de minha irmã Priscila, de meu sogro, Machado, de minha sobrinha Juliana e de minha amiga Miranda…

“El Secreto de Sus Ojos” – 4

ATENÇÃO: Se você ainda não viu o filme, e gosta de surpresa, não leia esta quarta parte de meu comentário sobre “El Secreto de Sus Ojos”: ela contém um “spoiler” (uma revelação que tira a surpresa do filme).

Este é um filme cheio de detalhes preciosos. Na segunda parte da minha resenha, destaquei alguns (a porta que abre e fecha, a máquina de escrever sem o “a”…). Aqui está outro – este mais denso, do ponto de vista filosófico.

Ao final (1h55m) do filme descobrimos que Isidoro Gómez, o assassino representado por Javier Godino, é mantido em cárcere privado, em condições sub-humanas, por longos vinte e cinco anos, por Ricardo Morales, o marido da jovem assassinada, representado por Pablo Rago. Durante todo esse tempo, meio século, Morales só alimentou Gómez o suficiente para que este continuasse vivo. Não lhe dirigiu sequer a palavra. Supõe-se que ninguém mais chegou perto do prisioneiro esse tempo todo – até que o policial, Benjamín Esposito, representado por Ricardo Darín, descobriu a cela secreta do prisioneiro.

É esta a pena, pior do que a morte, que Morales escolheu e aplicou para o assassino de sua mulher.

Quando Esposito chega perto de Gómez, a primeira pessoa (com a exceção de Morales) que o vê ou que é visto por ele, o prisioneiro lhe diz:

“Por favor… peça a ele… peça a ele… ainda que seja… que ao menos fale comigo…“

Naquele momento em que finalmente encontra alguém que não é seu carcereiro, depois de vinte e cinco anos vivendo a casca de pão seco e água, em condições sub-humanas, imundas, a coisa que o prisioneiro pede é que se fale com ele… “Por favor… pídale… pídale que… aunque sea… por lo menos me hable” (a frase exata é muito difícil de entender, no que talvez seja a única falha técnica do filme – embora a fala rouca e semi-inteligível do prisioneiro possa ter sido um recurso técnico invocado pelo diretor para realçar o fato de que o prisioneiro não falava há vinte e cinco anos).

Não é atendido.

Uma bela lição àqueles de nós que não gostam muito de conversar, que gostam de ficar calados, ensimesmados. A ausência total e forçada da fala humana é uma das maiores punições que se pode infligir ao ser humano. Reduz-nos ao nível da animalidade talvez mais rápido do que qualquer outro fator.

Em São Paulo, 2 de Março de 2010

Os melhores filmes que já vi

Na minha base de dados de filmes que já vi e gostei bastante tenho atualmente 263 filmes. Deles, apenas quatorze (cerca de 5%) mereceram nota dez de minha parte:

Eles são (pela data de lançamento, do mais antigo para o mais recente):

Casablanca (1942)
Scent of a Woman (1992)
Shadowlands (1993)
The Remains of the Day (1993)
Sommersby (1993)
The Bridges of Madison County (1995)
Meet Joe Black (1998)
October Sky (1999)
Sunshine (1999)
The End of the Affair (1999)
El Hijo de la Novia (2001)
The Notebook (2004)
Atonement (2007)
El Secreto de sus Ojos (2009)

Note-se que há um gap de 50 anos entre o primeiro e o segundo. Foi em 1992 que eu comecei a me interessar por filmes. Assim, a maior parte dos filmes vem dessa data em diante. Os anos de 1993 e 1999 têm três filmes cada.

Notem que deixei de fora Gone with the Wind, Dr. Jhivago e vários outros filmes de que também gosto muito – mas que, no meu julgamento, não merecem nota dez.

Quem quiser ver a lista completa dos 263 filmes, verifique http://imdb.com/mymovies/list?l=2465740.

Se tivesse tempo, me deitaria na minha poltrona do sítio durante alguns dias e ficaria vendo esses filmes todos de novo, um atrás do outro, time and again.

Em São Paulo, 1 de Março de 2010

“El Secreto de sus Ojos” – 3

El Secreto de sus Ojos - 3

Houve uma coisa de que não gostei no “El Secreto de sus Ojos” ontem aqui em São Paulo: o legendamento.

O filme se passa em algo equivalente a uma delegacia ou inspetoria de polícia. O linguajar nesses lugares é pesado.

Assim, em inúmeros momentos os personagens dizem “hijo de puta”, “la puta que te parió”, “culo”, “carajo”, várias formas dos verbos “joder”, “cagar”, etc.

Quem traduziu o filme para legendamento abrandou todos esses palavrões. “Hijo de puta” virou, sistematicamente “filho da mãe”. Os demais palavrões foram evitados mudando-se a construção da frase.

Pergunto: quem determinou que o tradutor de um filme deve poupar nossos ouvidos dos palavrões que quem fez o filme houve por bem colocar nele? Quem é responsável por esse paternalismo ridículo e injustificado???

Abaixo com ele.

A gente ouve palavrão o tempo todo. Na rua, na TV (ligue no Jô Soares ou no BBB ou na transmissão de futebol que deixa um microfone aberto no gramado). Por que a gente deveria ser poupado dos palavrões em uma obra de arte, como um filme?

É ridículo ler na legenda do filme que um policial adulto, irado (puto da vida), chamou um assassino desclassificado de “filho da mãe” – quando a gente ouve a trilha original dizer que ele o chamou (como devia) de “hijo de puta”.

Não tenho paciência com essa mania de purificar a linguagem nossa de cada dia no cinema através da tradução (legendamento ou dublagem). Quando passa uma chanchada brasileira no cinema, a gente só ouve palavrão. Por que uma obra de arte como “El Secreto de sus Ojos” deve ser castrado, emasculado da linguagem forte que ele tem no original?

Poupem-me.

Em São Paulo, 1 de Março de 2010

“El Secreto de sus Ojos” – 2

El Secreto de sus Ojos - 2

Sem querer revelar o enredo do filme, queria destacar alguns temas da história e algumas características do filme.

Começo com as características.

O filme trata do assassinato frio e brutal de uma jovem – linda, casada e aparentemente feliz. Mas é muito diferente de filmes americanos que tratam de tema semelhante. “El Secreto de sus Ojos” não é um filme de ação, em que sai tiro por todo lado, assassinatos em que o sangue espirra na tela, perseguições mirabolantes de automóvel em ruas movimentadas… O filme trata mais do que se passa na cabeça das pessoas, no seu âmago, que leva algumas a cometer crimes horrendos, outras a tentar lidar com a perda, outras a não descansar enquanto não elucidarem o que de fato se passou, e por quê…

O filme é razoavelmente longo (129 minutos) e não é rápido: tem um ritmo tranqüilo, diferentemente de thrillers americanos. O suspense não é daqueles que deixa você com o coração na mão o tempo todo. A trilha sonora não deixa você estressado… O filme termina, depois de mais de duas horas, e você fica sentado na poltrona olhando a tela com a porta fechada e apenas o título do filme sobreposto à imagem: “El Secreto de sus Ojos”.

O título do filme, em Espanhol (e em Português) contém uma ambigüidade. Trata-se do segredo (ou o secreto!) dos olhos de quem? De Espósito? de Irene? do assassino? Quem traduziu o título para o Inglês encontrou dificuldade e saiu pela tangente: “The Secret of Their Eyes” – pluralizou o “sus”, que, em Espanhol (e em Português) pode se referir a uma pessoa só, ou a várias pessoas, do sexo masculino ou feminino. São os olhos de quem que trazem um segredo? Uma só pessoa ou várias? Será que os olhos, destinados a ver, são capazes de esconder segredos?

Quanto aos temas do filme. Há vários.

O primeiro é o risco, que todos corremos, de “vivir una vida vacia, una vida llena de nada”…  Espósito é aquele que corre esse risco e carrega essa reflexão. Quando começa o filme (em 1999) ele está aposentado – mas carrega essa sensação de que viveu uma vida vazia, cheia de nada. Tem no peito um amor enorme,que já dura 25 anos, desde 1974 – mas o contém, porque é um amor por sua chefe, de nível social e educacional maior do que o seu… E que, durante a parte final da história, estava casada e com dois fihos… O que leva uma pessoa que é capaz de agir e lutar por aquilo em que acredita no plano profissional a não ter coragem de agir e lutar pelo amor que lhe consome o peito? A se contentar com uma vida vazia, cheia de pequenos nadas que não a preenchem? Seria esse o segredo? Seriam os seus os olhos que ocultam o segredo?

Esse amor é tão grande que muitos de nós o descreveriam como paixão… Mas há paixões e paixões, como nos revela o segundo tema do filme.

Esse segundo tema é complexo… Sandoval, o personagem coadjuvante representado por Guillermo Francella, em determinado momento do filme diz algo assim: “Um cara pode mudar qualquer coisa. Pode mudar sua face, sua casa, sua família, seu amor, sua religião, seu Deus. Mas há algo que ele não pode mudar. Ele não pode mudar a sua paixão…”

A sugestão aqui é que nossa paixão última é um valor ou uma causa maior que, aparentemente, antes de ser escolhido(a) por nós, nos escolhe e, para o resto da vida, nos impede de ser diferentes… A justiça, por exemplo – aquela fome e sede por justiça… Ou a liberdade – que leva alguns, como Patrick Henry, o revolucionário americano, a dizer, em 1776: “Será a vida tão valiosa, ou a paz tão doce, que estejamos dispostos a pagar por elas o preço da sujeição, da submissão, da escravidão? Que o Deus Todopoderoso nos livre disso! Não sei que curso de ação os demais irão escolher. Mas quanto a mim, ou eu tenho liberdade, ou prefiro a morte”. A liberdade era a paixão de Patrick Henry. A paixão dele continua a inspirar a paixão de muita gente. Essa paixão não é uma paixão sensual: é uma paixão-valor, uma paixão-causa.

Podemos mudar de amor, diz Sandoval, mas não conseguimos nos livrar desse tipo de paixão… Espósito conseguiu resistir por vinte e cinco anos ao amor que o consumia. Mas não conseguia resistir à paixão que o movia a procurar o assassino, para fazer com que ele recebesse a punição que merecia…

Mas que punição seria essa???

O terceiro tema começa girando em torno da reação de que alguém que vê a pessoa a quem ama assassinada fria e brutalmente. Sua vida era “cheia de graça” e, de repente, um criminoso a esvazia de sentido. O que fazer com esse assassino desumano, se ele for encontrado? Qual seria a punição adequada para um crime desse porte? Matar o criminoso com as próprias mãos, para vê-lo estrebuchar ali na nossa frente? Ou, mais civilizadamente, lutar pela sua condenação à pena de morte? Muitos acham que a pena de morte é punição exagerada, não importa o crime. Mas o filme nos mostra que a morte, em certas situações, é uma punição branda demais. Em um segundo, o assassino está morto – sem descobrir o que é sofrer, minuto após minuto, vinte e quatro horas por dia, dia após dia, ano após ano, a sensação de viver uma vida esvaziada de sentido… Mas se a morte é uma punição branda demais para um crime tão brutal, qual seria a punição adequada? Esse o dilema do viúvo. Mas era também o dilema de Espósito. Seria o dilema de quem o encontrasse primeiro…

Mas para punir o assassino, é preciso identificá-lo e encontrá-lo…

O quarto, o tema do olhar (que dá título ao filme)… A única pista que os investigadores que desvendaram o crime (Espósito e Sandoval) encontraram para levá-los ao criminoso foram fotos antigas, em que alguém (que não o marido) olhava a vítima… O olhar, aqui, continha seus segredos – a pulsão do futuro assassino. Mas também foi o olhar do psicopata que revelou aos investigadores a pista que lhes permitiu identificá-lo. O olhar, no caso, não só oculta: também revela. E como revela!!! Como um olhar diz coisas – não só para quem é o destinatário daquele olhar, mas também para os ciscunstantes que olham o olhar do outro… (Muitas vezes não nos damos conta de que nosso olhar é olhado…). Olhares revelam interesse, amor, paixão, cobiça, indiferença, desamor, ódio, desprezo… Há olhares que machucam mais do que muitas palavras. Que machucam mais do que muitas porradas, talvez… Lembro-me de que meu pai conseguia fazer com que a gente ficasse gelado d
e medo do outro lado da sala apenas com um olhar…

Por fim, o quinto tema: provavelmente só um apaixonado (no sentido revelado por Sandoval) realmente consegue entender o outro… A paixão-valor ou paixão-causa do criminoso era seu time de futebol, o Racing… Só outro apaixonado pelo Racing ajudou Sandoval a chegar ao criminoso. Espósito, a quem o futebol não interessava, não via sentido naquela linha de investigação. Sandoval, em meio a toda sua bebedeira, viu – e isso o levou ao criminoso (e, infeliz e indiretamente, por engano, à sua própria morte).

É isso, por enquanto… Quem saiba eu ainda descubra mais coisas no filme, à medida que continue a pensar sobre ele. Como, por exemplo, a convicção de Espósito de que, em meio àquele crime horrível, havia uma história linda para contar…

Em São Paulo, 1 de Março de 2010
(Dia em que faz oito anos que tive meu enfarto)

“El Secreto de sus Ojos” – 1

Basic CMYK

A Paloma e eu vimos, hoje à tarde, “El Secreto de sus Ojos”. Magnífico. Um dos melhores filmes que eu vi nos últimos tempos.

O filme, que é argentino, concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não vi os concorrentes – mas não tenho dúvida de que “El Secreto de sus Ojos” merece ganhar.

A direção é de Juan José Campanella, que também dirigiu os excelentes “El mismo Amor, la misma Lluvia” (1999) e “El Hijo de la Novia” (2001–também indicado ao Oscar).

O ator principal, o excelente Ricardo Darín, estrelou nos três filmes. A atriz principal é a linda e brilhante Soledad Villamil, que também estrelou em “El mismo Amor, la misma Lluvia”. Destaque-se ainda a participação inspirada de Guillermo Francella.

O site IMDB (vide http://www.imdb.com/title/tt1305806/) tem 23 resenhas de pessoas que viram o filme e resolveram deixar sua análise ou sua avaliação. Todas elas, com exceção de duas, foram entusiasticamente positivas. Do tipo “o melhor filme que eu já vi”. As duas que não foram entusiásticas não foram negativas, embora apontassem aspectos que os resenhadores não gostaram.

Do que eu gostei? De tudo. Mas quero destacar os pontos positivos, um a um:

1) A história é magnífica. O romance que inspirou o filme, que tem o título La Pregunta de sus Ojos, é de Eduardo Sacheri.

2) O roteiro (script) é do próprio diretor, Juan José  Campanella. É uma obra prima.

3) A direção é impecável. O uso de flashbacks (o filme começa em 1999, mas a história volta para 1974, vinte e cinco anos antes) é perfeito. O uso de closeups é impressionante pelo impacto que causa. O diretor também usa, de forma muito eficaz, imagens meio “blurred” (manchadas, borradas) ou de rostos parcialmente cobertos por objetos. A forma em que a história é contada prende a audiência. O desenrolar da história cria suspense – e, quando você pensa que a história vai acabar vem a maior surpresa…

4) A interpretação dos dois atores principais é impecável e a de Guillermo Francella não fica atrás.

5) A fotografia é linda.

6) A trilha sonora se mistura com o filme de forma a não chamar a atenção para si mesma.

7) Apesar de se tratar de um drama e um thriller policial, o uso de humor é cuidadoso e eficaz. As melhores cenas de humor ficam com Guillermo Francella.

8) Por fim, os pequenos detalhes que apenas um diretor inspirado pode bolar… Um deles é a velha máquina de escrever que não tinha mais o “a” – só no fim se entende por que ele escreveu, a mão, T E M O, quando queria dizer T E A M O… Outro, o fecha a porta / abre a porta da sala da linda Irene — só na última cena se entende por quê. Terceiro, a última cena, linda e frustrante – o beijo ficou por trás da porta.

Enfim. Vale a pena ver. Duvido que você não goste.

Em São Paulo, 28 de Fevereiro de 2010