Vidas

Houve época em que a duração média de uma vida era pequena. As pessoas viviam por volta de trinta anos. Casavam-se assim que a biologia permitia, tinham seus filhos cedo (um monte!), e morriam também cedo (em relação a hoje).

Os poetas românticos brasileiros morreram extremamente jovens: Laurindo Rabelo, o que mais durou, morreu com 38 anos (1826-1864); Álvares de Azevedo, com 20 anos (1831-1852); Junqueira Freire, com 22 (1832-1855); Casimiro de Abreu, com 21 (1839-1860); Fagundes Varella, com 33 (1841-1875); Castro Alves, com 24 (1847-1871)… [Dados retirados da Wikipedia.] Nenhum destes chegou as quarenta anos e alguns morreram quando mal haviam entrado nos vinte.

São chamados de “poetas românticos brasileiros”. Lendo sua obra, tem-se a impressão de que amaram muito – mas fica a pergunta: Quando??? A vida lhes foi tão curta!!! Quando eu hoje olho para uma pessoa de vinte anos, não imagino que possa ter vivido intensamente…

A expectativa de vida de uma pessoa que nasce hoje no Brasil chega aos setenta anos – mas isso é uma média. Provavelmente muitos dos que hoje são jovens passarão dos 120 anos, e os que hoje são crianças passarão dos 150 — tal é o desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

Isso significa que quem morre, hoje, aos 85 anos, como Olavo Setúbal, já viveu mais do que quatro vidas de Álvares de Azevedo ou Casimiro de Abreu. Na verdade, Olavo Setúbal, com seus 85 anos ao morrer, viveu basicamente a soma das vidas de Álvares de Azevedo (20), Junqueira Freire (22), Casimiro de Abreu (21) e Castro Alves (24). Quatro vidas em uma. Deixando o amor ao dinheiro de fora, será que Olavo Setúbal amou tanto quanto apenas um deles???

Nossos filhos e netos hoje com dez anos, por aí, viverão quantas vidas de Álvares de Azevedo? Seis? Talvez sete? Amarão quantas vezes? Apaixonar-se-ão quantas? Irão se casar? Em caso positivo, quantas vezes? Mas será que esse modelo de casamento que temos sobreviverá diante de vidas tão longevas?

Há religiões que acreditam em reincarnação. O mais provável, porém, é que, com vidas tão prolongadas, a gente vá se reencarnar em si próprio e viver várias vidas num só corpo (se é que se pode dizer que o corpo aos 65 anos seja o mesmo corpo do adolescente, do jovem de 18, do ainda jovem de 30…).

Mesmo hoje, quando a vida ainda não é tão duradoura quanto será no futuro, já é difícil reconhecer em nós, hoje, a mesma pessoa que éramos quando tínhamos 13, 20, 35 anos… O que é que nos mantém os mesmos??? As células do corpo que tínhamos quando entramos na puberdade certamente já foram todas substituídas. O que é que nos permite dizer que o nosso corpo, hoje, maltratado e envelhecido, é o mesmo corpo daquele adolescente de carne firme de 15 anos?

Seria o fato de que aquele corpo é habitado pela mesma mente? Mas e a mente — não muda??? A minha mente hoje, aos 65 anos, é a mesma mente do adolescente bobão de 12 anos que eu era quando entrei no Ginásio em 1956? Dificilmente. Talvez minha mente, durante esse período, tenha mudado ainda mais do que o meu corpo…

John Locke, o maior filósofo do século XVII (na minha opinião), sugeriu que o que ancora a identidade pessoal é a memória. Eu, hoje, sou o mesmo menino de oito anos que se mudou de Maringá para Santo André em 1951 porque eu me lembro da mudança… E me lembro do meu primeiro amor (será legítimo usar o mesmo nome?), a Eladir Pereira, também de nove anos, como eu, à época… Eu me lembro de quando entrei no Ginásio em 1956, de quando entrei no Clássico, em 1961, de quando me apaixonei pela Reacy Camargo naquele mesmo ano no JMC… (Fiquem tranquilos: paro por aqui).

Mas nós, hoje, sabemos que a memória “plays tricks”, como dizem os anglófanos – nos pega peças, como diríamos nós no nosso tupiniquinês. Esquecêmo-nos de coisas que aconteceram (reprimimos algumas memórias que não causam dor, ou simplesmente esquecemos outras que não tiveram tanto significado), inventamos acontecimentos que não se deram (porque eles enriquecem nossa história de vida), embelezamos outros…

Enfim… Quantas vidas eu já vivi nesses 65 anos que vou completar em poucos dias? Vivi uma vida de criança, outra de adolescente, outra de jovem, outra de jovem adulto… Quantas outras? Restam-me ainda vidas para viver?

A gente em geral admira quem é capaz de viver uma só vida em vários anos. Um casal de noventa e poucos anos que celebra setenta cinco anos de casado (um com o outro!) é notícia suficiente para o Fantástico. Mas será que viver uma só vida em tantos anos é mérito ou demérito??? Quantas vidas terá vivido Castro Alves em seus vinte e quatro anos? Aos vinte e quatro anos eu estava me casando pela primeira vez, começando o que era (no mínimo) minha segunda vida – e Castro Alves estava terminando a única que teve… Ou será que Castro Alves teve apenas uma vida em seus 24 anos??? Se o Coronel Slade (Al Pacino, em Perfume de Mulher) está certo, quando afirma que se pode viver uma vida num minuto, é possível que Castro Alves tenha vivido centenas, milhares mesmo, de vidas nos seus curtos 24 anos…

É possível viver vidas puramente virtuais? Vidas que não são vividas no espaço-tempo, mas, sim, numa dimensão puramente mental, inventada ou preservada pela pessoa, em que as coisas acontecem conforme a sua vontade e não conforme as regras da interação humana na realidade não-mental, não-inventada?

E o que acontece quando deixamos a vida virtual irromper na vida real e gerar, nesta, fatos e consequências que não podemos mais controlar totalmente? 

E vidas vicárias? Há muitas mães cujas vidas são vicárias, i.e., consistem em viver a vida de seus filhos… Na verdade, pior ainda, há muitas mulheres cujas vida consistem em viver a vida de seus maridos… Em nenhum caso têm vida própria. Vivem a vida de outrem. Se essa vida lhes é subtraída, acaba também a sua…

Há inúmeros casos, entre os quais o dos meus avós maternos, em que as identidades de duas pessoas se mesclam de tal maneira que, quando uma morre, a outra morre em seguida… Pergunta importante: Isso é para ser celebrado ou lastimado???

E olhem que estou me limitando a discorrer, por assim dizer, sobre este lado da eternidade… Se houver uma vida futura, quem amou várias vezes aqui, serial ou paralelamente, vai amar quem na vida eterna futura? (A questão já foi levantada nos Evangelhos…)

Vidas. O que dá sentido à vida é o fato de que ela não é eterna, é mortal. Já escrevi sobre isso e vou escrever mais ainda. Preciso achar uma passagem linda de Popper sobre o assunto…

E quanto mais próxima do fim a vida está, mais sentido ela adquire. Ou mais pressionados ficamos para dar-lhe sentido…

Em Campinas, 30 de Agosto de 2008

NOTA acrescentada em 6 de Abril de 2017:

No dia seguinte ao dia 30 de Agosto de 2008, em que escrevi este artigo, parti de viagem para os EUA, a trabalho. Uma viagem de cinco dias, na Microsoft, em Redmond, WA. Saí de lá  no dia 5 de Setembro, e cheguei de volta ao Brasil no dia seguinte, 6 de Setembro. Nesse mesmo dia, véspera do meu aniversário de 65 anos, tomei uma decisão radical: sem voltar para a casa em que eu até ali havia vivido por cerca de 24 anos, comecei uma vida nova, em uma nova casa, em uma nova cidade, que este ano completará nove anos: a minha vida com a Paloma, minha mulher amada. Essa vida (de que número?) tem sido de longe a melhor das que eu já tive. Deus ajude a que continue assim.

EC

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Eu chego lá… (ou a ciência finalmente chega a mim)

Tive um infarto em Março de 2002 – e me vi forçado a mudar minha dieta. Aos poucos, porém, liberalizei-a um pouco: os remédios ajudam a manter o colasterol sob controle. Mesmo assim, não é fácil.

Mas tinha dois grandes consolos.

Primeiro, eu podia tomar vinho tinto, o meu favorito. Quem dizia que vinho tinto era bom para o coração sempre aconselhava a tomar uma taça por dia. Perguntei ao meu cardiologista se haveria problemas em tomar um pouco mais do que isso. Ele me respondeu que o problema mais grave que poderia ocorrer seria eu me tornar alcóolatra. E me advertiu que vinho tinto tem calorias – e que, portanto, não deveria me esquecer de que muito vinho pode dificultar o controle do peso. Resolvi enfrentar os dois riscos – e tenho me dado bem. Não fiquei alcoólatra (por enquanto) e estou com o peso razoavelmente sob controle.

Segundo consolo: salmão, que é meu peixe favorito (quando grelhado, com alcaparras), também é bom para o coração. Sempre que vou a um bom restaurante, peço salmão – especialmente quando estou em Seattle ou em Santiago, em ambos os casos cidades em que se vendem excelentes salmões em não menos excelentes restaurantes.

Hoje vi uma reportagem no Jornal Nacional informando o resultado de pesquisas que provam que chocolate do tipo escuro (amargo) também é bom para o coração. Excelente. Mais uma coisa de que gosto que é boa para o coração. Um terceiro consolo.

Estou esperando que a ciência prove que pão francês, salame italiano e presunto de Parma são bons para o coração. Daí não preciso mais me preocupar com alimentação:

No almoço, salmão ao molho de alcaparras, acompanhado de pão francês e de  vinho tinto, com chocolate amargo de sobremesa;

À tarde, um lanche de pão francês com presunto italiano e/ou presunto do tipo Parma, acompanhado de vinho tinto, com chocolate amargo de sobremesa.

A ciência ainda chegará até mim. Só falta algum bom cientista provar que, entre as refeições, umas colheradas de Leite Condensado fazem bem ao coração. Daí o mundo será dos cardíacos.

(Andar, de que também gosto, a ciência já provou que faz bem para o coração. Sexo a ciência já provou que faz bem ao coração. Antigamente se dizia que tudo que é gostoso ou faz mal para a saúde, ou engorda, ou é pecado. Do jeito que as coisas estão caminhando, um dia se provará que tudo o que é gostoso faz bem para o coração.)

Em Campinas, 28 de Agosto de 2008

O elogio à pobreza – material e do espírito (não nessa ordem)

Parte da herança funesta do Cristianismo, que o Socialismo prontamente absorveu, é o elogio à pobreza – material e espiritual.

A Bíblia – em especial o Novo Testamento – desanca os ricos. "É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (Mar 10:23-25). Um jovem rico fica desolado quando ouve de Jesus a injunção de que venda tudo o que tem e dê o dinheiro aos pobres (Mat 16:21). Ou seja, se quiser manter a sua fortuna, ficará fora do Reino dos Céus. 

Por outro lado, o mesmo Novo Testamento elogia os pobres – mesmo sem deixar clara a razão desse elogio à pobreza. Mais do que as referências elogiosas aos pobres materiais – a pobreza ali é tido como meritória e virtuosa, ao contrário da riqueza – assusta-me o elogio à pobreza espiritual.

Nas Bem-Aventuranças, Jesus declara bem-aventurados os "pobres de espírito", afirmando que "deles é o Reino dos Céus" (Mat 5:3; Luc 6:20).

Sempre tive dificuldade em entender essa bem-aventurança. Na verdade, a dificuldade não está tanto em entender o que foi  dito. Até acho que entendo. Minha dificuldade está em entender que justificativa poderia haver para bem-aventurar os pobres de espíito… Que fosse os pobres de matéria, ainda vá – mas os pobres de espírito !?!?!?

O que poderia ser um pobre de espírito?

Um site espírita que encontrei na Internet tenta definir pobre de espírito da seguinte forma: "É necessário explicar primeiro o que Jesus quis dizer com pobres de espírito. São as pessoas que não querem ser o centro das atenções, que não buscam só o seu destaque individual, mas sim, trabalham para a coletividade, mesmo que isso venha a incomodar sua própria vida. Os pobres de espírito são as pessoas que buscam o conhecimento, a riqueza interior, deixando as aparências exteriores em segundo plano. Estas pessoas cultivam a humildade e a caridade e por isto o Reino dos Céus será delas."

(http://www.espirito.org.br/portal/palestras/geap/palestra14.html)

Ora… não sei de onde o autor dessa passagem tira essa definição de pobre de espírito. Pobre de espírito é quem busca conhecimento e riqueza interior??? Quer o autor nos fazer crer que pobreza de espírito é, na verdade, riqueza de espírito??? Faça-me o favor.

No meu entender, pobre de espírito é alguém que tem carência de espírito, ou seja, alguém cuja habilidade mental – para usar uma linguagem meio politicamente correta – deixa a desejar… Enfim, um – agora usando uma linguagem politicamente incorreta – retardado mental. É nesse sentido que usamos o termo quando chamamos alguém de "pobre de espírito". Contrário ao que pretende o site espírita, chamar alguém de "pobre de espírito" certamente NÃO É elogiá-lo. 

Até aí, tudo bem… Acho que o meu entendimento da expressão "pobre de espírito" é correto. Meu problema é outro.

Meu problema é: (a) Por que esse tipo de pessoa seria bem-aventurado? (b) Por que esse tipo de pessoa herdaria o Reino dos Céus?

Na verdade, tenho um terceiro problema: (c) Se o Reino dos Céus será herdado por esse tipo de gente, quem mais vai querer ir para lá??? Mas esse problema reconheço que não é meu).  

Lanço essas perguntas para quem ouse tentar respondê-las. Anos de estudos da religião e da teologia não me deram uma resposta.

Devo, porém, qualificar um pouco minha afirmação anterior. Mas a qualificação será feita não em nome de meus anos no estudo da religião e da teologia, mas, sim, em nome de minha experiência de vida.

Entendo que os pobres de espírito sejam bem-aventurados, se, por bem-aventurança, se considera, apenas, uma felicidade negativa, como a ausência de sofrimento, físico ou mental. Isso quer dizer que entendo que os pobres de espírito sejam bem-aventurados se bem-aventurado é o cara não-infeliz, totalmente desencucado, mesmo que sua não-infelicidade ou seu desencucamento sejam decorrentes, digamos, de sua… pobreza de espírito, de sua incapacidade de imaginar coisas que pudessem fazê-lo feliz além do feijão-com-arroz (ou baião de dois) diário.

Esse entendimento da expressão é corroborado por ditos dos Evangelhos em que se recomenda que não devemos nos preocupar com o dia de amanhã, com o que haveremos de comer, de beber e de vestir porque… "Olhai os pássaros que voam; eles não semeiam nem colhem, nem ajuntam comida em celeiros; contudo, seu Pai celestial os alimenta… Olhai os lírios do campo, como crescem! Eles não tecem nem fiam e, entretanto, nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como eles"… (Mat 6:25-29; Luc 12:22-24). Em miúdos: não é preciso ficar trabalhando, dando o duro – na hora Deus proverá. (Ou o Lulla).

O problema – devo dizer o pobrema??? – é que quanto menos pobres de espírito somos, mais crescem as nossas "infelicidades" – até mesmo nossas "misérias", ambos os termos entre aspas. Imaginamos coisas que não temos, passamos a querê-las, ainda que supérfluas, e nos sentimos infelizes quando não conseguimos… Se não temos carro, sonhamos com um, ainda que seja um Brasília amarela 1977. Se temos um Brasília 77, queremos um Monza 1986. Se temos um Monza 86, queremos um Escort XR3 vermelho 1993. Se temos o Escort, queremos um Corolla 2000. Se temos o Corolla 2000, queremos um Corolla 0, novinho em folha. Se temos o Corolla novinho, queremos um Hilux. Se temos o Hilux, queremos um BMW. Se temos o BMW, queremos uma Ferrari (da cor do XR3)… [Aqui entre nós, só consinto em colocar a Ferrari no feminino – nos outros casos todos usei o masculino.] Todos esses quereres ocorrem a quem não é pobre de espírito e consegue ir saindo, pouco a pouco, da pobreza material. Quem mora debaixo da ponte há décadas se contentará com um carrinho de empurrar lixo, ou com uma bicicleta – se tanto.

Os santos eremitas encontraram uma forma de bem-aventurança ou felicidade coerente com a bem-aventurança citada: não querer nada. Quem não quer nada é bem-aventurado porque nada lhe falta. Mas a felicidade é negativa. Talvez tenha sido isso que Jesus quis dizer quando afirmou que os pobres de espírito são bem-aventurados. São bem-aventurados apenas porque nada querem; e nada querem exatamente porque são pobres de espírito. São (nesse sentido negativo) mais felizes do que os ricos de espírito que, por mais que tenham, sempre conseguem se sentir infelizes por não ter alguma coisa que sua rica imaginação (parte do seu espírito) pode lhes sugerir…

Eis o que digo em meu artigo "Justiça Social, Igualitarismo e Inveja", publicado em 1991:

"O desejo é a energia básica que alimenta a evolução humana. O que chamamos de felicidade é o estado criado pela satisfação de nossos desejos: ficamos felizes quando nossos desejos são realizados e infelizes quando não o são. A experiência nos mostra que, em regra, desejamos o maior grau possível de felicidade – um estado em que todos os nossos desejos são satisfeitos – e que temos cada vez mais desejos.

Na verdade, nossa felicidade não depende necessariamente de bens materiais ou objetivos: depende, fundamentalmente, de nossos desejos. Se estes são satisfeitos, seremos felizes. Caso contrário, não. 

Se nossos desejos são poucos, ou facilmente realizáveis, não é tão difícil ser feliz. Na verdade, quem nada deseja não tem como ser infeliz, pois não terá nenhum desejo frustrado ou contrariado. O asceta, definido como aquele que conscientemente procura reduzir seus desejos a um mínimo, é, devemos presumir, tanto mais feliz quanto menos deseja.

É preciso registrar, também, que há uma relação estreita entre, de um lado, felicidade e, de outro lado, conhecimento e imaginação. imaginação – ou, talvez seja melhor dizer, entre felicidade e ausência de conhecimento e imaginação. E isto por uma razão simples: não podemos desejar aquilo de que não temos conhecimento ou que somos incapazes de imaginar. Só o (de alguma forma) conhecido ou imaginado pode ser objeto de desejo. Assim sendo, quem ignora e é incapaz de imaginar as várias possibilidades que a vida oferece tem seus desejos circunscritos por sua falta de conhecimento e imaginação, e pode, por causa disso, ser mais feliz do que quem muito conhece ou é capaz de imaginar e, em conseqüência disso, muito deseja, mas não tem como satisfazer seus desejos.

É inegável, porém, que, embora o asceta, o ignorante e o não-imaginativo (que têm poucos desejos) possam ser felizes, sua felicidade é negativa, vazia e estéril, por decorrer do fato de que (conscientemente ou não) pouco desejam. Além disso, sua ética (no caso do asceta) e seu comportamento são involutivos, não levam à evolução humana.

O progresso e o desenvolvimento humano não são frutos da felicidade (negativa) causada pela ausência ou supressão do desejo. São conseqüência, isso sim, muito mais do desejo insatisfeito – mas que se acredita poder satisfazer. São a ética e o comportamento daqueles que observam ou imaginam estados e coisas que não possuem, e resolvem atingi-los ou consegui-los, que produz o progresso e o desenvolvimento humano."

(http://chaves.com.br/TEXTSELF/PHILOS/Inveja-new.htm)

Gosto de ver TV porque a TV me mostra, freqüentemente, um mundo diferente do meu. Programas como o do Sílvio Santos, o do Gugu, o do Luciano Hulk, nos mostram gente extremamente rica explorando a pobreza – material e de espírito – de outras pessoas.

O sonho da pessoa que aparece nesses programas geralmente é ganhar algo como 35 ou 50 mil reais para… comprar ou construir uma casinha própria!!! Meus Deus do céu, que casinha se pode comprar ou construir com 50 mil reais??? Qualquer pedaço de terra que me interesse, pelado, sem nenhuma benfetoria, custa no mínimo dez vezes mais… Mas esse pessoal pelo menos quer alguma coisa!

A reforma (ainda que impressionante) de uma casinha paupérrima, sem água encanada e tudo o mais, situada no fim do mundo (devo dizer "no cu do Judas"???), feita pelos patrocinadores do segmento "Lar, Doce Lar" do programa do Luciano Hulk (ao qual, admito, assisto todos os sábados – gosto dele: mais ainda da mulher dele, que não me parece tão babaca…), e mostrada no sábado passado, é evidência de que aquilo que a maior parte das pessoas (no Brasil) considera felicidade (ou bem-aventurança material) seria, pela minoria chamada de privilegiada, considerado uma desgraça total, absoluta. Será que qualquer membro da classe média brasileira (cujo teto superior de rendimento é 4.500,00 reais por família) se consideraria bem-aventurado de morar na casa reformada no sábado passado??? Tenho certeza que não. Provavelmente referiria pagar aluguel no Meyer ou na Vila Clementino.

[A pobre moça que morava na casa que foi reformada era pobre de bens materiais mas não tanto de espírito: na verdade, espiritualmente era (é) uma heroína. Levou um tiro que a deixou em cadeira de roda, mas ainda assim cuida da casa e dos filhos como se não tivesse nenhum problema. Na realidade, ela uma lição de vida. Fico contente que o programa do Hulk lhe tenha dado uma casa melhor. Discordo, isto sim, da exploração da pobreza e da desgraça alheia.]

E aqui chega o ponto em que o fiísico se liga ao mental, o material se liga ao espiritual…

Por que alguém que se julgaria extremamente feliz em morar no fim do mundo (i.e….), numa casinha simples, mas bem decorada pela Tok Stok, dada de mão beijada, e, portanto, não correspondendo a nenhum grande esforço seu (além de escrever uma carta) – por que, repito, seria essa pessoa bem-aventurada e digna de herdar o Reino dos Céus?

Para ser bem pessoal, refraseio a pergunta: Por que eu não?

Explico… Nasci de pais pobres. Só vim morar em casa com água encanada, luz elétrica e banheiro dentro quando me mudei para Santo André, com oito anos e meio. Durante todo o tempo em que morei com meus pais, nunca morei em casa própria: só em casa alugada (e cujo aluguel nem era pago por meus pais, mas, sim, pela Igreja Presbiteriana do Brasil). Até que completei 32 anos, em 1975, quando já trabalhava na UNICAMP, sempre morei em casa alugada. Em 1975 comprei minha primeira casa, financiada pelo SFH, mas com meu próprio dinheiro, decorrente do meu trabalho e do meu esforço. Paguei a entrada com uma pequena poupança. Paguei as 180 prestações com o meu salário. Depois de nove anos comprei outra… Não me considero rico (ainda falta a minha Ferrari  vermelha, admito), mas também não sou pobre. Procuro viver corretamente. Por que eu não sou bem-aventurado? Por que eu não sou digno de herdar o Reino dos Céus, seja lá o que esse reino???

Transcrevo a seguir um artigo de João Luiz Mauad, relevante. Ele mesmo cita uma matéria de jornal.

"Pobreza não é virtude

por João Luiz Mauad em 20 de agosto de 2008

Talvez não exista nada mais representativo das diferenças culturais entre as sociedades brasileira e americana do que o tratamento que dispensam à riqueza e à pobreza.  Enquanto os americanos costumam reverenciar a riqueza, os brasileiros a demonizam de todas as formas possíveis, como se ela fosse um pecado mortal e sua posse sinônimo de má índole ou crime pregresso. Já a pobreza, se – graças aos esforços politicamente corretos da esquerda – já não é mais motivo de vergonha, como foi um dia lá por aquelas bandas, pelo menos ainda não se tornou razão de orgulho altaneiro, como é por aqui.

Um amigo, que estudou por vários anos nos EUA durante a década de 70, conta que, certa vez, assistindo a uma cerimônia de fim de ano no campus da universidade, deparou-se com algo bem estranho. Havia na platéia dezenas de senhores e senhoras segurando placas com números os mais variados. Sem nada entender, perguntou a um colega o que era aquilo. Para sua surpresa, ficou sabendo que os números escritos nas tais placas, expostas com orgulho para o alto, significavam a quantidade de milhões de dólares que cada um deles já havia feito – nos EUA, se costuma dizer que alguém faz dinheiro, ou seja, transforma trabalho em dinheiro, e não que ganha como se diz por aqui – desde que deixara a faculdade. Não é incomum também que os ex-alunos façam doações generosas às universidades, numa forma de demonstrar gratidão pela ajuda na obtenção do sucesso.

Aqui no Brasil, por outro lado, muita gente é levada a esconder o dinheiro que possui, ainda que obtido licitamente e a troco de muito trabalho, para não despertar o preconceito alheio. Enquanto isso, ser pobre virou sinônimo de virtude. A começar pelo indefectível "Central da Periferia", programa apresentado na TV pela atriz Regina Casé, cuja proposta é a exaltação dos hábitos e costumes das gentes da dita "periferia", o "pobrismo" no país de Macunaíma está mais em alta do que nunca. Tudo que emana dos pobres é "do bem", é "tudo de bom". Vejam, por exemplo, o famigerado estilo "funk" de música, que mistura uma batida horrível com letras degradantes, e virou uma verdadeira cachaça país afora.  Ou a moda "cachorra" e suas calças torturantes de tão apertadas, que vestem onze de cada dez adolescentes do país.

Uma das conseqüências mais visíveis desse estado de coisas está no fato de a maioria dos políticos, de uns tempos para cá, fazer questão de declarar-se formalmente pobre.  Alguns, inclusive, declaram-se tão miseráveis que dá até pena.

Dos candidatos a prefeito do Rio de Janeiro, por exemplo, apenas um declarou possuir algum patrimônio, ainda que este não chegue nem perto do que se possa chamar de riqueza. Só para se ter uma idéia do descalabro reinante, um certo candidato – representante daquela que Nelson Rodrigues chamaria de "esquerda festiva" – chegou a apresentar uma declaração de bens onde tudo que consta é uma caderneta de poupança com pouco mais de 11 mil reais. Alega também que mora de favor, num apartamento emprestado pela octogenária vovozinha de sua mulher.

Tudo bem, ninguém tem nada com a vida privada dele, mas o indigitado é filho de uma família de classe média e detentor de mandatos legislativos há vários anos. Portanto, seguindo a lógica dos fatos, de duas, uma: ou o fulano é um perdulário inconseqüente que, já na meia-idade, ainda não conseguiu poupar nada nem adquirir um único bem de valor, malgrado uma renda bem acima da média nacional; ou, por pura demagogia, esconde o patrimônio que tem.

A idiossincrasia pobrista chegou a tal ponto que o velho desejo de ascensão de classe sequer existe mais. Essa característica comportamental, tão estranha quanto absurda, pôde ser vista com clareza a partir da divulgação recente de um estudo estatístico (a meu ver capenga, mas isso é o que menos importa aqui) da FGV, amplamente comentado pela mídia, onde se procura demonstrar que a classe média é hoje a maioria no país. Vejam esta matéria do jornal Folha de São Paulo (os grifos são meus):

CLASSE MÉDIA EMERGENTE SE ACHA POBRE

ELVIRA LOBATO

DA SUCURSAL DO RIO

Poucas notícias provocaram mais reação em Vila Kennedy – bairro de 200 mil habitantes, na zona oeste do Rio – do que a pesquisa da Fundação Getulio Vargas que classificou como classe média as famílias com renda mensal a partir de R$ 1.064. Até moradores com rendimento acima desse patamar se vêem como pobres e rejeitam serem chamados de classe média.

"É uma baixaria. Fiquei revoltado quando vi a notícia na TV. A classificação é vazia e mentirosa", reagiu o aposentado João Galdino de Melo, presidente da Associação dos Moradores de Vila Progresso. Pai de três filhos, que estudam e trabalham, Galdino diz não ter dúvida de que sua família é pobre, embora a renda familiar atinja R$ 2.400.

(…)

Mara Martins, 32, cinco filhos, tem renda familiar mensal de R$ 1.800, somando a pensão de R$ 200 que recebe do pai de um dos filhos; (…) Ela diz que ficou "doente" ao saber da notícia sobre a classe média, da qual, agora, seria parte. "A única roupa que comprei para mim neste ano foi um vestido, de R$ 10. Nunca fui a um cinema. Trabalho todos os dias e não tenho lazer. Classe média, para mim, tem de ter lazer."

(…)

O ex-funcionário da Petrobrás José Camilo Neves, 57, taifeiro aposentado, tem pensão de R$ 3.400 por mês, mas nem ele se considera classe média, pois cinco pessoas dependem de sua renda, não tem lazer e mora em rua sem calçamento, que há até pouco tempo tinha esgoto a céu aberto.

A posse de bens de consumo não foi considerada pelos entrevistados de Vila Kennedy como indicador de classe média, porque mesmo os que se definem como pobres possuem televisão, geladeira, fogão, DVD, aparelho de som e pelo menos um telefone celular.

Na avaliação do aposentado João Galdino de Melo, 51, a renda familiar mínima para definir classe média deveria ser de R$ 4.000 por mês. Isso porque ele e os filhos têm rendimento conjunto de R$ 2.400 e a família se considera pobre, morando na periferia da cidade, onde o Estado é ausente.

Os salários dos filhos não são suficientes para pagar as despesas deles, e o pai, cuja pensão é de R$ 1.200, paga parte delas. Os três estudam em faculdade particular.

Galdino leva a reportagem da Folha até sua casa, para mostrar o padrão de vida da família. Na garagem, um Fiat Prêmio de 18 anos. A casa tem TV, geladeira, fogão, aparelho de som, DVD e computador. A TV por assinatura e a internet rápida são oferecidos por operador clandestino. (…)

Independentemente dos eventuais erros cometidos no referido estudo, está na cara que há muita gente aí com medo de perder as benesses do assistencialismo estatal que o status de pobre lhes confere, bem como alguns outros que assim reagem por puro oportunismo político, como parece ser o caso do Presidente da Associação dos Moradores. O fato, porém, é que a ascensão de classe, uma realização que, num passado não muito distante, seria motivo de orgulho para qualquer um, hoje passou a ser considerado quase uma desonra. É a velha luta de classes, cantada em prosa e verso pela esquerda irresponsável, mostrando a que veio."

Em Campinas, 28 de Agosto de 2008

O livre pensar

Uma leitora de nome Cassandra deixou o seguinte comentário neste space: "Actualmente, ser um livre pensador é uma utopia".

Não concordo que pensar livremente seja uma utopia.

Primeiro, é preciso caracterizar bem no que consiste o livre pensar.

Para isso uso duas passagens que estão transcritas no meu perfil, ambas retiradas da Wikipedia – primeira da Wikipedia em Português, a segunda da Wikipedia em Francês. 

O livre pensador, diz uma, é aquele que analisa e julga as coisas, as pessoas, e os eventos que o rodeiam com base em sua capacidade de:

  • observar e coletar evidência (experiência, percepção);
  • analisar e avaliar essa evidência objetivamente (razão); 
  • extrair dela suas próprias conclusões (lógica).

O livre pensador é levado a concluir isto ou aquilo pela experiência, pela razão e pela lógica – não pelo que pensam ou pensaram os outros.

O livre pensador, diz a outra passagem, não se caracteriza por afirmar verdades (doutrina ou teoria), mas, sim, por adotar um método de buscar a verdade, a saber, a experiência, a razão e a lógica.

Essa caracterização do pensamento livre é perfeitamente coerente com uma citação de Lessing que coloquei como post ontem aqui neste space:

"O verdadeiro valor de um homem não é determinado por sua posse, real ou pretendida, da verdade, mas por seu sincero esforço de encontrá-la. Não é pela posse da verdade, mas por sua busca, que o homem expande sua capacidade de pensar, de se desenvolver, de se aperfeiçoar. A crença na posse da verdade nos torna indolentes, passivos, e indevidamente orgulhosos e insolentes. Se Deus contivesse em sua mão direita todas as verdades do mundo, e, na mão esquerda, contivesse apenas a ambição diligente e firme de buscar a verdade, ainda que, no processo, pudesse errar e freqüentemente fracassar, e me desse a escolha, não hesitaria em, com humildade, escolher o conteúdo da sua mão esquerda."

Essa passagem é refletida em vários lugares na obra de Popper, quando ele afirma que o filósofo (que, para ele, é o livre pensador por excelência), longe de ser o orgulhoso possuidor da verdade, é quem a procura e persegue – com humildade, mas com os instrumentos adequados, a saber, a experiência / observação, a razão e a lógica.

Em resumo: o livre pensador não depende de autoridades, divinas ou humanas, para chegar às suas conclusões. Depende unicamente de sua própria capacidade de observar, pensar e inferir. Depende, portanto, unicamente de si. Isso não quer dizer que o livre pensador não se beneficie do diálogo com os outros, da leitura de livros, e de outras coisas afins. Claro que se beneficia. Mas, em última instância, é ele quem tem de analisar e avaliar o que os outros dizem e escrevem – mesmo que os outros pretendam falar e escrever com autoridade divina. A contribuição dos outros não lhe chega, portanto, na forma de revelações a serem aceitas com base na autoridade de quem as emite, mas, sim, na forma de considerações que ele deve analisar e avaliar com base em suas observações, em sua capacidade de pensar, em sua capacidade de argumentar e julgar.

Tendo caracterizado o que significa pensar livremente, é preciso perguntar: é utopia imaginar que possamos pensar livremente, como pretende a leitora?

É difícil saber por que a leitora afirmou ser utópico o livre pensar, porque ela não aduziu nenhuma evidência, nenhum argumento. A afirmação que fez foi absolutamente gratuita.

No entanto, mesmo assim, é possível mostrar que o livre pensar não é uma utopia – que ele não só é possível mas vem ocorrendo o tempo todo, desde que o ser humano habita a Terra. É verdade que a maioria das pessoas prefere seguir a liderar na área do pensar. Os que ousam pensar por si próprios são sempre minoria. As sociedades têm sempre demonstrado uma tendência conservadora, de preservar a tradição, em vez de uma tendência inovadora, que só surge quando alguém ousa discordar e divergir da tradição.

Por exemplo… A grande maioria das pessoas acredita que está agindo corretamente quando está fazendo o que se acredita ser a vontade de Deus. Por muito tempo "a vontade de Deus", expressa em supostas revelações, colocadas no papel e transmitidas, ou em supostas comunicações feitas diretamente à consciência das pessoas, foi considerada o critério único (ou principal) do comportamento moral. Até que alguém ousou perguntar: isso é certo (ou errado) porque Deus ordena (ou proíbe) – ou Deus ordena (ou proíbe) porque é certo (ou errado)?

Se algum comportamento é certo (ou errado) apenas porque Deus o ordena (ou proíbe), então a moralidade é totalmente arbitrária, dependendo apenas da vontade de um ser – que pode ter decidido assim, mas poderia ter decidido doutra forma. Se, no entanto, Deus não poderia ter decidido doutra forma, então o certo (ou o errado) moral não dependem de sua vontade, mas, sim, da própria natureza das coisas, da própria natureza dos atos em questão. É porque algo é certo (ou errado) que Deus o ordena(ou proíbe). E se conseguimos, por nós mesmos, determinar o que é certo (ou errado), não precisamos de que Deus, ou quem quer que seja, nô-lo diga.

Quem primeiro elaborou esse argumento era um livre pensador. Ousou pensar fora da tradição — "out of the box", como dizem os anglófonos hoje.

Era um livre pensador quem primeiro pensou que as pessoas não são vítimas de possessão demoníaca, mas, sim, de problemas mentais que é possível, em muitos casos, corrigir.

E assim vai.

Pensar livremente é não só difícil mas, freqüentemente, também doloroso. É duro analisar criticamente e, eventualmente, concluir que devemos rejeitar, idéias que vêm nos acompanhando há tempo — há décadas, em muitos casos, ou até mesmo a vida toda. Por isso muitas pessoas têm medo de embarcar na análise crítica das idéias que lhe serviram de bússola até aqui – pois poderão ficar desnorteadas sem essa bússola. No entanto, pensar livremente é parte de nossa busca por liberdade e autonomia. Como bem ressaltou Erich Fromm, a maioria das pessoas tem medo da liberdade – preferindo a segurança que um ambiente não livre, mas conhecido e seguro, fornece. O mesmo se dá na área do pensamento. As idéias que adotamos até aqui freqüentemente nos dão um certo nível segurança. Mesmo que totalmente falsas. Essa é a segurança do costume e do hábito. A questão é: buscamos segurança ou a verdade? segurança ou a liberdade?

Espero que a Cassandra volte ao assunto e nos dê suas razões para afirmar que o livre pensar é utópico.

Em Salto, 25 de Agosto de 2008

25 de Agosto

25 de Agosto é Dia do Soldado – com homenagem para o Duque de Caxias. Mas é também o dia em que Jânio da Silva Quadros renunciou à Presidência do Brasil em 1961. Começaram aí as escaramuças que, no devido tempo, um pouco mais de dois anos e meio depois, levaram ao Golpe Militar de 1964 e aos vinte anos de ditadura. 

Getúlio, em 24 de Agosto de 1954, deixou uma Carta Testamento. Jânio, sete anos e um dia depois, deixou uma Carta Renúncia. É este o texto dela.

          "Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o cumprido dia e noite, trabalhando infatigavelmente, sem prevenções, nem rancores. Mas baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação, que pelo caminho de sua verdadeira libertação política e econômica, a única que possibilitaria o progresso efetivo e a justiça social, a que tem direito o seu generoso povo.

          Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou de indivíduos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa de colaboração.

          Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranqüilidade, ora quebradas, indispensáveis ao exercício da minha autoridade. Creio mesmo que não manteria a própria paz pública.

          Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grande família do Brasil, esta página da minha vida e da vida nacional. A mim não falta a coragem da renúncia.

          Saio com um agradecimento e um apelo. O agradecimento é aos companheiros que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo e, de forma especial, às Forças Armadas, cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta oportunidade. O apelo é no sentido da ordem, do congraçamento, do respeito e da estima de cada um dos meus patrícios, para todos e de todos para cada um.

          Somente assim seremos dignos deste país e do mundo. Somente assim seremos dignos de nossa herança e da nossa predestinação cristã. Retorno agora ao meu trabalho de advogado e professor. Trabalharemos todos. Há muitas formas de servir nossa pátria."

Brasília, 25 de agosto de 1961.

Jânio Quadros"

Na época da eleição em 1960 do Jânio eu tinha dezessete anos e, portanto, não podia votar ainda. Mas torci por ele e fiquei contente com sua vitória. Não achei nenhuma graça nos seu curto governo (menos de sete de meses: 31/1/61 a 25/8/61), entretanto. No plano doméstico, ele focou sua energia em questiúnculas sem importância, verdadeiros factóides: a proibição do uso de biquini nos concursos de miss televisionados, de brigas de galo, do uso de lança perfume, coisas desse tipo. Tentou regulamentar o carteado. No plano externo, reatou relações diplomáticas comerciais com a União Soviética e com a China Comunista, esta então ainda dominada com mão de ferro pelo fascínora Mao Tse Tung. Pior ainda, dias antes de renunciar condecorou com a Grã Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul ninguém menos do que Che Guevara, outro fascínora, que só não matou tantos quanto Mao Tse Tung porque não chegou a ter tanto poder. A condecoração de Che Guevara criou condições para aqueles que desejam desestabilizar o seu governo e, dias depois, ele se viu na necessidade de renunciar.

Conheci Jânio Quadros pessoalmente quando ele era Prefeito de São Paulo. Deu-me uma grande foto dele autografada. Apesar do governo chinfrim e da renúncia, continuei gostando dele até o fim. Torci para ele contra Mário Covas quando se candidatou a Prefeito de São Paulo, embora mais uma vez não tivesse votado nele por não ser eleitor na Capital. Guardo com carinho a foto que ele me deu e outra, a foto oficial de quando tomou posse como Governador de São Paulo em 1956, foto essa que, por vias complicadas e tortuosas, me chegou às mãos.

Em Salto, 25 de Agosto de 2008.

24 de Agosto

Hoje comemoram-se várias datas. Algumas conhecidas, outras desconhecidas, outras conhecidas de poucos.

A data mais famosa e conhecida que hoje se relembra é a da morte de Getúlio Vargas. Em 24 de Agosto de 1954 ele se suicidou com um tiro no peito em seus aposentos no Palácio do Catete. Deixou uma linda Carta Testamento, que transcrevo a seguir:

          "Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

          Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

          Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

          Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

          Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

          E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."

Rio de Janeiro, 23 de Agosto de 1954

Getúlio Vargas"

Este é um documento daqueles que transcendem o momento histórico em que foram escritos. Eu tinha quase onze anos quando o Getúlio se matou. Lembro-me de meu pai chorando feito criança quando ouviu, no Matutino Tupi, do jornalista Corifeu de Azevedo Marques, que Getúlio havia se suicidado. Renunciou à vida. Deixou a vida para entrar na história, como ele mesmo o disse.

Mas muitas outras datas pouco conhecidas, ou totalmente desconhecidas, se celebram hoje. Quem vai saber o que aconteceu um século, uma década, um ano, um mês, uma semana atrás. Ou o que aconteceu ontem. Centenários, decadários, aniversários, mensários, semanários, diários.

Ao lembrar da morte de Getúlio, lembro-me também da mini-série "Agosto" da Globo. Com a Vera Fischer, mais linda do que nunca, amando José Meyer ao som de Una Furtiva Lacrima, cantada por Bieniamino Gigli. (Prefiro Una Furtiva Lacrima cantada por Nana Moskouri, mas a versão escolhida por quem dirigiu "Agosto" é suficientemente boa). Além desse linda música, a mini-série teve outros destaques musicais: Mulher, Mulher, com Sílvio Caldas, J’attendrai, com Jean Sablon…

A propósito de Jean Sablon, há uma história interessante. Desde que era criança, em Maringá, nos anos 1947-1951, conheço o nome próprio Jean Sablon — e o substantivo comum jeansablon, que se referia a uma jaqueta do tipo dupla face que Jean Sablon costumava usar. Do cantor, lembrava-me de algumas músicas que ele cantava e que me fascinavam… Quanto criei meu primeiro site (http://chaves.com.br) em 1995 coloquei uma seção sobre Favoritos — cantores, músicas, atores, filmes — e, na seção Cantores, diferenciei cantores brasileiros, americanos e franceses, e, na sub-seção de Cantores Franceses, coloquei Jean Sablon, porque a mini-série "Agosto" acabava de ser exibida e a música "J’attendrai" ficara no meu inconsciente. Um tempo depois, creio que em 1996, recebi uma carta, com envelope sofisticado e lindamente sobrescrito, vinda da Bélgica. Era o biógrafo de Jean Sablon. Disse-me ele que estava escrevendo a biografia de Jean Sablon, que havia morrido há pouco, e que estava procurando na Internet referências ao biografado quando encontrou o meu site. Queria saber como eu havia ficado conhecendo Jean Sablon. Escrevi de volta, dizendo que Jean Sablon era um nome famoso na minha infância, mas que apenas me havia me lembrado dele por causa da mini-série… Ele me escreveu de volta perguntando se podia me enviar xerox de materiais relativos à vida de Jean Sablon no Brasil. Disse-lhe que sim. Alguns dias depois recebi um pacote enorme de xeroxes de jornais e revistas, que me mostraram que Jean Sablon passava seus verões no Brasil, na década de 30 e 40. Na verdade, tinha em um sítio em São João da Boa Vista, entre Campinas e Poços de Caldas, e fora amigo de Roberto Marinho, Carmen Mayrink Veiga, e vários outros socialites da época. Mandou-me também uma foto de Jean Sablon. O episódio pela primeira vez me tornou consciente do poder da Internet…

Enfim, tudo isso por causa de um dia 24 de Agosto…

Em Salto, 24 de Agosto de 2008

Aos que deixam mensagens neste space

Em Dezembro deste ano fará quatro anos que mantenho este space. Já tinha um blog, antes, no Blogspot. Mas este space é mais do que simplesmente um blog. Permite-me compartilhar albuns de fotografias, listas de filmes e músicas preferidos, e, além do mais, receber comentários nos posts, nas fotos, e no próprio space – além, naturalmente, de manter uma lista de amigos (dos quais tenho mais de 400 aqui – quase quatro vezes mais dos que tenho no Orkut.

Criei este space em Dezembro de 2004 por sugestão de minha amiga Marcia Teixeira, da Microsoft – quando eu estava em Redmond, WA, na companhia de outra amiga, Ana Ralson, também da Microsoft.

O tempo passa rápido. Nesses quase quatro anos muita coisa aconteceu na minha vida. Não tenho idéia de quantos posts já escrevi aqui, nem de quantas fotos compartilhei. E não tenho paciência de contar.

Este post é dirigido aos que visitaram este space com certa regularidade durante esse período e tiveram a paciência de ler o que escrevi, ver as fotos que compartilhei, analisar as minhas sugestões de livros, músicas e filmes. Dentre eles, é dirigido especialmente aos que, tendo visitado o space, tomaram tempo para deixar uma mensagem de incentivo e elogio – por menor que fosse.

Quero agradecer as visitas de vocês.

Quando comecei a escrever, escrevia mais para mim mesmo, para permanentizar (se me permitem o neologismo) experiências que, doutra forma, poderiam se tornar voláteis, fugindo com o passar do tempo. Ou para registrar pensamentos e idéias sobre assuntos diversos, que, não registrados, poderiam ser rapidamente esquecidos.

Apesar de ter formação em filosofia, não sou especialista em nada. Interesso-me por tudo. Sou um generalista típico. Concordo com Terêncio, quando disse nihil humanum a me alienum puto: nada que é humano me é alheio. Aprecio mais, naturalmente, os aspectos mais elevados, heróicos mesmo, do ser humano. Emociono-me quando o ser humano é capaz de se transcender, de revelar o seu lado melhor, como Maurren Maggi fez ontem e as meninas do vôlei fizeram hoje cedo. Mas deliberadamente tento não ignorar os demais aspectos do ser humano, mesmo aqueles que freqüentemente me desgostam ou mesmo revoltam. Não os ignoro porque sei que, em determinadas circunstâncias, seria capaz de matar – na verdade, imagino situações em que seria capaz de matar sem guardar nenhum remorso. E sei que, se sou capaz de matar sem remorso, se as circunstâncias forem certas, também sou capaz de fazer outras coisas que considero erradas, sem sentir qualquer arrependimento. Assim sendo, tento nunca me esquecer do fato de que nós, humanos, somos seres complicados, muitas vezes contraditórios, que temos dificuldade em nos manter fiéis a nossos valores e ideais.

Sigo, enfim, a sugestão de Karl Popper de que a especialização pode ser um pecado venial no cientista, mas, no filósofo, é um pecado mortal. E a sugestão de David Hume, de que, antes de sermos filósofos, sejamos homens.

Comecei escrevendo para mim mesmo mas, aos poucos, ao receber feedback, comecei a escrever pensando em quem lia. Os posts, com o passar do tempo, deixaram de ser apenas para mim. Passaram, pouco a pouco, a ser destinados a um público maior, muitas vezes indefinido e difuso, mas que começava a se caracterizar como um público meu, fiel (embora certamente não exclusivo) e constante em suas visitas a este space, e cujos comentários comecei a esperar até com ansiedade.

Vezes houve, admito, em que escrevi pensando em leitores específicos – mas sabedor de que o que escrevia iria alcançar um público maior, pois a natureza humana nos permite apreciar, como se dirigido a nós, até aquilo que foi destinado a outrem.

Sou extremamente grato pelos comentários – o mais das vezes gentis, elogiosos, críticos, amigos. Sou grato até pelos comentários abusados de alguns professores e alunos de pós-graduação da UNICAMP, devotos de Karl Marx – comentários que deixei intactos no local, embora todos eles fossem basicamente idênticos, ritualmente repetidos, como se seguissem uma cola. Os demais comentários foram feitos sobre o space como um todo, sobre posts no blog, sobre fotos nos albuns. Alguns vieram do distante Portugal, inclusive da minha cidade de Chaves, no Trás-os-Montes, onde fiz amigos virtuais através deste space. Estou ficando dependente desse feedback. Ele me estimula e desafia. Ele me anima a continuar escrevendo mesmo quando, não fosse ele, preferiria me isolar um pouco, recolhendo-me a mim mesmo (como o fiz recentemente durante cerca de um mês).

Muito obrigado. Um abraço. Voltem sempre.

Em Salto, domingo, 24 de Agosto de 2008

A posse e a busca da verdade

"O verdadeiro valor de um homem não é determinado por sua posse, real ou pretendida, da verdade, mas por seu sincero esforço de encontrá-la. Não é pela posse da verdade, mas por sua busca, que o homem expande sua capacidade de pensar, de se desenvolver, de se aperfeiçoar. A crença na posse da verdade nos torna indolentes, passivos, e indevidamente orgulhosos e insolentes. Se Deus contivesse em sua mão direita todas as verdades do mundo, e, na mão esquerda, contivesse apenas a ambição diligente e firme de buscar a verdade, ainda que, no processo, pudesse errar e freqüentemente fracassar, e me desse a escolha, não hesitaria em, com humildade, escolher o conteúdo da sua mão esquerda."

Gotthold Lessing, Anti-Goeze (1778)

[Nota acrescentada em 20 de Outubro de 2008: Vide, adiante, meus posts com o título "A Verdade: Contra o Ceticismo, o Relativismo e o Dogmatismo"]

Em Salto, 24 de Agosto de 2008

Somos ouro no vôlei feminino

 

Ouro no volei 4

Ouro no volei

Somos ouro no vôlei feminino. Finalmente. Jogo lindo… Perdemos das americanas no futebol, mas demos o troco no vôlei.

Ao ver as meninas comemorando, saltando, abraçando-se, lembrei-me de uma crônica velha do Mário Prata, chamada “As Meninas Moça”. No caso, falava ele do time de vôlei feminino do Leite Moça. Ele era apaixonado por aquelas meninas. (Quem não era?) Escreveu uma crônica quase erótica, mas light – muito bonita. Falava de como é bom olhar as meninas jogando vôlei. Se bem me lembro (mas posso estar embelezando um pouco), ele falava daqueles shorts justos, realçando as formas das garotas, atrás e na frente. Falava das coxas batendo uma na outra quando elas saltavam para bloquear ou cortar. Falava das pernas esparramadas quando elas caíam tentando interceptar uma cortada adversária. Falava dos seios balançando quando elas saltavam – embora os seios fossem relativamente pequenos e estivessem bem bloqueados em sutiãs apertados.

Um pouco disso é Mário Prata. O resto sou eu mesmo, entusiasmado de ver a vitória das meninas brasileiras sobre as meninas dos Estados Unidos. Não debitem na conta dele o que é meu. Nem me creditem o que é dele. Mas foi lindo ver as meninas ganhar o ouro. As meninas de ouro, como diz o Galvão Bueno…

Fico me lembrando da Vera Mossa, de Campinas… da Ana Paula, de anos anteriores. Da Sheilla, agora. Todas elas lindas. Todas elas musas.

Ouro no volei 2

Ouro no volei 3

[UOL: Desculpe por usar as fotos… Sou cliente de vocês. E pelo menos dou o crédito.]

Em Salto, 23 de Agosto de 2008

O Canto da Coruja

 

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Meu sítio se chama "O Canto da Coruja". Comprei-o em Setembro de 2001. Fará sete anos em poucos dias que o tenho.

Quando o comprei, chamava-se "São Benedito". Decidi na hora que, se o comprasse, iria mudar o nome, mas não tinha um nome escolhido ainda. Mas ao sair de lá no primeiro dia que estive lá, para conhecer a propriedade, vi duas lindas corujas sentadas em mourões da cerca de arame farpado. Decidi na hora que o nome do sítio, caso eu o comprasse, teria que ver com corujas…

Já fazia um bom tempo que eu colecionava corujas. Não sei exatamente porque comecei a colecioná-las. Talvez porque sejam símbolos de seres acadêmicos como eu.

Da segunda vez que fui ao sítio as corujas estavam de novo lá — e cantaram, quando passei perto delas. Um canto curto e meio assustado, antes de voarem, ariscas. Decidi o nome na hora: "O Canto da Coruja" — mantendo a ambigüidade: o canto, no caso, é a voz das corujas — mas é também a casa delas. A casa nossa.

Dia 15 de agosto, quando estava aqui, à noite, uma coruja caiu pela chaminé da lareira e ficou presa embaixo, pela tela. Com cuidado, abaixei a tela e ela voou – e foi para o mezanino. Peguei a câmera e fui lá — onde tirei essa linda foto.

Depois, abri todas as janelas, que dormiram abertas a noite inteira. No sítio dá pra fazer isso. No dia seguinte a minha coruja tinha tido embora.

Não sei se essa coruja é uma das que vi em 2001. Não sei quanto tempo uma coruja vive. Se não for uma delas, provavelmente é sua descendente. Mas não faz mal. O canto é dela também.

Em Salto, 23 de Agosto de 2008