A Passagem do Tempo: Sunrise, Sunset – Do Nascer ao Pôr do Sol

Como dizia Fiori Gigliotti ao irradiar os jogos de futebol na Rádio Bandeirantes, "o tempo passa!". Yes, it does. Tempus fugit, já diziam os latinos. Sunrise, Sunset, que fez parte da trilha de Fiddler on the Roof, fala disso de forma muito poética. Força-me a perguntar onde é que eu estava enquanto o tempo passava… 

[Vide, no Tou Tube, http://www.youtube.com/watch?v=nLLEBAQLZ3Q].

[Aproveitem e vejam também Dou You Love Me? http://www.youtube.com/watch?v=h_y9F5St4j0&feature=related]

Sunrise, Sunet é uma das canções de que mais gosto, tanto a música como a letra – especialmente na voz de Perry Como.

Meu querido amigo Joseph Stein, ex-marido de minha ainda mais querida amiga, Patricia Gleason, a cantava – e a cantava muito bem.  Lembro-me de ouvi-lo cantar Sunrise, Sunset em Jerusalem, em 1984. Fiquei emocionado. Eu tinha quarenta anos então (minha filha mais nova, também Patrícia, tinha oito — estava para fazer nove, no final do ano).

Minha vida teve vários envolvimentos com as vidas do Joe e da Patricia. Por exemplo, eu estava com ela Los Angeles em 1978 quando ouvi You Needed Me [objeto de um outro post recente] pela primeira vez. Voltamos juntos de Los Angeles a Chicago num daqueles vôos que saem à meia-noite e chegam de manhã — e no qual não servem nem café. Não sei como me lembro com tanto detalhe dessas coisas. Então ela não estava casada com o Joe. Ficou casada pouco tempo. O casamento era daqueles que, por fora, parecia perfeito. Ambos eram muito bonitos — na verdade, ele era um cara bonito e ela era linda. Por dentro, quantos problemas! Felizmente, ela teve uma outra chance e hoje, pelo que sei, vive feliz.

A Patricia Gleason chegou a ocupar, nos anos 90 e no começo desta década, um cargo que eu desejei muito, e não obtive, no início dos anos setenta: o de diretor do Oldenborg Center for Modern Languages and International Relations, no Pomona College. Se eu tivesse obtido o cargo que então pleiteei, e que perdi na finalíssima, para uma mulher, porque Pomona College precisava ter mulheres em posição de direção, minha vida teria sido totalmente diferente. Provavelmente nunca teria voltado ao Brasil.

Curiosamente, portanto, minha volta ao Brasil se deve ao programa de "Ação Afirmativa" americano, que eu tanto detesto. Talvez não devesse falar tão mal desse programa… Sem ele, provavelmnte teria ficado nos Estados Unidos e não teria a Patrícia, o Rodrigo, a Tatiana, o Gabriel, a Gabriela, o Marcelo, o Felipe… Não teria mais um monte de coisas (embora, certamente, provavelmente tivesse outras).

É disso que trata o filme Match Point, de Woody Allen. Há momentos, na vida da gente, em que a bolinha do tênis bate na rede, sobe, e pode cair de um lado ou de outro. Vale a pena conferir… Mas essa é outra história…

A propósito, para fechar a referência, a Patricia Gleason fez doutorado em Harvard, na área de teologia feminista (of all things!), e escreveu um excelente livro sobre a teologia de Friedrich Schleiermacher (Schleiermacher and Gender Politics), que eu tenho em minha estante. O livro foi escrito já sob seu novo nome: Patricia E. Günther-Gleason. 

Não sei por que em geral só a mulher muda o nome quando casa. O Joe (que, infelzmente, eu perdi de vista), quando se casou com a Patricia, adotou o nome de Joseph Gleason-Stein. Achei um barato, então, que ele se dispusesse a fazer isso. Mostra que era um indivíduo pouco convencional por detrás do terno escuro. Gosto de gente que tem coragem de desafiar as convenções, as verdades e as práticas estabelecidas. Joe era um cara assim.  

Saindo do passado e voltando a Sunrise, Sunset, e ao presente, qualquer hora (no futuro) traduzo a letra inteira dessa música… Por enquanto traduzo só as duas primeiras estrofes:

É esta a menina que carreguei?
É este o menino com que brinquei?
Não me lembro de ter ficado mais velho!
Quando foi que eles o ficaram?

Quando foi que ela se tornou tão linda?
Quando foi que ele ficou tão alto?
Parece que foi apenas ontem
Que eram tão pequenos?

O nascer do sol, o pôr do sol
O nascer do sol, o pôr do sol

                    o O o

Is this the little girl I carried?
Is this the little boy at play?
I don’t remember growing older
When did they?

When did she get to be a beauty?
When did he get to be so tall?
Wasn’t it yesterday
When they were small?

Sunrise, sunset
Sunrise, sunset

Swiftly flow the days
Seedlings turn overnight to sunflowers
Blossoming even as we gaze

Sunrise, sunset
Sunrise, sunset

Swiftly fly the years
One season following another
Laden with happiness and tears
What words of wisdom can I give them?
How can I help to ease their way?

Now they must learn from one another
Day by day
They look so natural together
Just like two newlyweds should be
Is there a canopy in store for me?

Sunrise, sunset
Sunrise, sunset

Swiftly flow the days
Seedlings turn overnight to sunflowers
Blossoming even as we gaze

Sunrise, sunset
Sunrise, sunset

Swiftly fly the years
One season following another
Laden with happiness and tears

Em Salto, 2 de Agosto de 2008 (2 da manhã)

You Needed Me

You Needed Me é o nome de uma canção popular americana que a cantora canadense Anne Murray popularizou. Foi a música mais popular nos Estados Unidos em 1978. Foi nessa época que eu ouvi a canção pela primeira vez, na festa de encerramento de um congresso de Filosofia da Ciência em Los Angeles. Foi cantada por um homem, de cujo nome não me lembro, mas me apaixonei imediatamente pela canção: pela música e pela letra.

Desde então, venho adquirindo CDs e CDs de Anne Murray, especialmente os hinos e as músicas Gospel. Mas nada chega perto de You Needed Me. O YouTube está cheio de vídeos de Anne Murray cantando a canção.

Transcrevo a letra no final no original em Inglês. Mas a seguir coloco minha tradução meio livre para o Português. Não tentei ser totalmentte fiel ao original, mas fui fiel ao seu espírito. No resto, simplesmente deixei-me levar pela emoção. Nunca fui poeta, nem mesmo tentei escrever poesia. Mas a tradução saiu fácil, em poucos minutos. A primeira metade traduzi de memória, dirigindo o carro pela cidade hoje à tarde.

Você Precisava de Mim

Randy Goodrum

Lágrimas verti, com beijos você as secou;
No mundo me perdi, você me reencontrou;
A alma eu vendi, de volta você a comprou;
Você me pôs de pé, a dignidade voltou…

De alguma forma você precisava de mim…

Coro

A ficar de pé sozinho você me ajudou;
A enfrentar o mundo você me encorajou;
Num alto pedestal você me colocou;
Tão alto que de lá o mundo se apagou…

Você precisava de mim…
Você precisava de mim…

Não pode ser verdade, não posso crer ser você…
Justo quando eu precisava, você aqui se vê!
Nunca mais vou partir — por que partiria?
Finalmente encontrei você… Louco seria!!!

Pois você é alguém que verdadeiramente me quer.

Quando estava fria, minha mão você segurou;
Quando meu pé falseou, para casa você me levou;
Quando tudo era terror, esperança você me mostrou;
Até minhas mentiras em verdades você transformou…

E você ainda me chamou de amigo…

Coro

———-

You Needed me

Randy Goodrum

I cried a tear, you wiped it dry;
I was confused, you cleared my mind;
I sold my soul, you bought it back for me;
And held me up and gave me dignity…

Somehow you needed me…

Chorus

You gave me strength to stand alone again,
To face the world out on my own again,
You put me high upon a pedestal,
So high that I could almost see eternity…

You needed me…
You needed me…

And I can’t believe it’s you, I can’t believe it’s true…
I needed you and you were there!
And I’ll never leave, why should I leave?
I’d be a fool!!!
‘Cause I’ve finally found someone who really cares.

You held my hand, when it was cold
When I was lost, you took me home
You gave me hope, when I was at the end
And turned my lies back into truth again

You even called me friend…

Chorus

Em Campinas, 31 de Julho de 2008

Juliette Binoche e Olivier Martinez

Acabei de ver meu segundo filme hoje — este em DVD, um lindo filme Francês, com os atores cujos nomes estão no título deste post. O título do filme é longo, em Português: O Cavaleiro do Telhado e a Dama das Sombras. O título original é Le Hussard sur le Toit (literalmente, O Cavaleiro no Telhado), de 1995. Trata-se de um filme de época, passado em Provence, no sul da França, em 1832 — momento em que acontecia uma terrível epidemia de cólera que dizimou a população local.

Os artistas são de primeira grandeza – ambos franceses.

Ela, Juliette Binoche, premiada na França e nos Estados Unidos, é famosa no Brasil por razões certas e por razões erradas. Começando com estas, ela foi atriz do famoso Je Vous Salue, Marie, de 1985, que o Presidente José Sarney, apesar de terminada a ditadura e abolida a censura, resolveu proibir que fosse exibido no Brasil a pedido do lobby católico. (Hoje a gente compra o filme em DVD por 9.99 reais nas Lojas Americanas). O filme não é grande coisa e só ficou famoso aqui pela censura sarneyana. Entra as boas razões de sua fama estão The Unbearable Lightness of Being (A Insustentável Leveza do Ser), de 1988, na minha opinião o seu melhor trabalho falando Inglês: história forte e com um grau de erotismo elevadíssimo nas cenas em que ela contracenou com Daniel Day-Lewis.  Em 1992 participou de Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes), mas sua boa atuação não chamou tanto a atenção, e de Damage (Perdas e Danos), onde representou cenas lindas de amor quentíssimo com Jeremy Irons — bem mais velho do que ela e o pai de seu namorado no filme. O filme aqui comentado foi feito em 1995 e sua atuação foi excelente. Mas a consagração em nível mundial veio em 1996 com The English Patient (O Paciente Inglês), que lhe trouxe o Oscar de Melhor Atriz em Papel Principal, e em 2000 com Chocolat (Chocolate), filme que lhe trouxe nova indicação para o Oscar de Melhor Atriz em Papel Principal. Duas indicações e uma vitória nessa prestigiosa categoria do Oscar em menos de cinco anos é algo notável, em especial em se tratando de atriz que não fez carreira nos Estados Unidos e cuja língua principal não é o Inglês – mas, no caso, inteiramente merecido. Eu uma vez disse que Juliette Binoche (como Julianne Moore) não é uma atriz tipicamente bonita pelos padrões de beleza de Hollywood – mas quando interpreta se torna lindíssima. Continuo a achar isso.

Olivier Martinez é menos conhecido do que ela, mas ficou famoso com o filme Unfaithful (Infidelidade), de 2002, em que tem um caso bastante quente com Diane Lane, mulher de Richard Gere na história. Não é conhecido fora da França por nenhum outro filme. Mas teve papel destacado no filme aqui comentado. Bonito, é conhecido com o Brad Pitt Francês.

Juliette Binoche viveram juntos de 1995 a 1998 — ou seja, durante três anos, logo depois do filme.

Mas volto ao filme mencionado no início – que é uma linda história de amor. Como as mais lindas histórias de amor, é uma história que não dá certo. Dar certo, no caso, significaria que os dois protagonistas terminassem o filme juntos. Ficam separados. O amor surge e cresce entre eles enquanto ela procura o marido, que havia sumido no início da epidemia de cólera e ele a ajuda e protege. Mas o marido reaparece no final do filme e eles não conseguem consumar o amor que havia surgido entre eles. Amores não consumados são sempre tristes e frustrantes. E a história termina nesse tom de desapontamento.

Mas o filme vai além da história e filme termina com uma mensagem desesperança na tela dizendo que o marido percebeu, antes dela, que o amor que ela vivera com o amante (amante que foi, sem nunca ter sido) era algo que ela nunca iria esquecer — e dizendo que, por isso, o marido, generoso e compreensivo, não a impediria de sair um dia ao encontro do amado, se ela assim o desejasse.

A audiência, tenho certeza, teria seria sido unânime em aplaudir a decisão, se ela acontecesse. Juliette Binoche não tomou essa decisão dentro dos 135 minutos do filme. Fê-lo, entretanto, na vida real. Durante o caso de três anos dos dois, correram freqüentemente na imprensa sérios boatos de que ela havia ficado grávida dele.  Os boatos, evidentemente, não se confirmaram. Mas se tivessem tido um filho, a criança provavelmente teria sido linda, inteligente, forte de personalidade, e talentosa, como ambos são. Um menino, eu diria…

Em Salto, 26 de Julho de 2008

Doçura

Das filhas da Ana Paula Arósio na novela Ciranda de Pedra, a mais doce certamente é aquela que também é filha do Marcelo Antony. Parece haver consenso sobre isso. E olhem que a concorrência ali é dura: a novela é absolutamente adocicada. E é minha novela favorita hoje.

Mas não há consenso sobre o que significa para uma pessoa ser doce.

No post anterior disse que a Gabrielle Anwar é, nos dois filmes que ali listei (Perfume de Mulher e Mergulho na Paixão), tão doce que deveria ser proibida para diabéticos. As outras atrizes que ali menciono (Meg Ryan, Claire Forlani, Rachel Adams) são todas incrivelmente doces nos seus papéis naqueles filmes.

Mas no que consiste a sua doçura? Difícil de dizer. Mas a doçura é quase impossível de não reconhecer.

Já fui chamado de duro, seco, insensível, até desumano. Mas sei que consigo, de vez em quando, ser doce. No entanto, confesso que não consigo direito identificar o locus da minha doçuram quando consigo ser doce. Estaria no olhar? No sorriso? No jeito de tratar? Nas frases ditas? Na leveza e delicadeza do toque? Num mix de tudo isso?

Em A Insustentável Leveza do Ser, filme baseado no livro de Milan Kundera, Juliette Binoche, linda como sempre, consegue ser doce. Também é doce em Chocolate (como não poderia ser, num filme com esse nome?) — mas a doçura é diferente. A primeira é uma doçura sensual, como a doçura erotizante do doce de leite, ou do leite condensado, ou do licor Grand Manier ou Cointreau. A a outra é uma doçura mais leve, quase como a doçura de um adoçante — ou o doce extremamente leve de uma água aromatizada ou do refrigerante H20. A gente sente a diferença, mas tem dificuldade de definir no que exatamente ela consiste.

Em Zen e a Manutenção da Motocicleta Robert Pirsig pergunta, através do personagem principal, o que é qualidade no pensamento e na sua expressão. No fundo, ele sabe e reconhece. Mas, como o resto de nós, tem dificuldade de definir. Como é que um professor de redação sabe que um trabalho merece 8,5 e o outro 8,75?

É difícil dar notas numéricas a coisas como a qualidade de um pensamento ou de sua expressão, a doçura de alguém, ou a intensidade ou profundidade de um sentimento, como a amizade ou o amor.

Mas, no fundo, a gente sabe, reconhece e consegue comparar. 

Em Salto, 26 de Julho de 2008

Gabrielle Anwar

Não sou daqueles que se apaixonam por uma atriz de cinema e se tornam seus devotos incondicionais. Ingrid Bergman e Marilyn Monroe chegaram perto de ser exceções. Mas me apaixono com freqüência por combinações de atriz-papel. Há atrizes lindas e cativantes em um determinado papel — e horríveis e detestáveis em outros. Quando uma combinação dá certo, é imbatível. Meg Ryan em Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle), por exemplo; ou Claire Forlani em Encontro Marcado (Meet Joe Black); ou, então, Rachel Adams, em Diário de Uma Paixão (The Notebook), por exemplo. Sou irremediavelmente apaixonado por essas combinações de atriz-papel.

Um outro caso, que quero comentar aqui agora, envolve Gabrielle Anwar. Ela é a atriz que dança o tango Por una Cabeza com Al Pacino em Perfume de Mulher (Scent of a Woman), de 1992. A música — de Carlos Gardel — é maravilhosa (é tema musical deste Space quase desde o início) e a cena inesquecível. A maior parte do que torna a cena inesquecível é, naturalmente, o desempenho de Al Pacino. Mas Gabrielle Anwar, convenhamos, é uma coadjuvante perfeita. Linda, doce, com um riso natural cativante, e com um sorriso de desmontar as mais deliberadas resistências, ela ajuda tornar a cena perfeita.

A duração da cena é pequena — logo o babaca do namorado dela vem buscá-la, e nem percebe que ela acaba de viver (como Al Pacino disse ser possível) uma vida inteira num minuto. (Interessante que essas experiências de viver como se fosse uma vida inteira num minuto são vividas, às vezes, na frente de um monte de pessoas que nem percebem que uma incrível intimidade aconteceu diante de seus olhos — sem que eles vissem. Infelizmente, essas experiências raramente acontecem entre namorados, noivos ou cônjuges. Parece que um toque de ilegitimidade, talvez até mesmo de perigo iminente, seja indispensável para que esses momentos de experiência ou vivência altamente compactada possam acontecer.)

Tenho certeza de que adoro a música Por una Cabeza porque me apaixonei por Gabrielle Anwar naqueles cinco minutos (se tanto) de cena. E a música, através do blog, continua a servir de tema musical para a minha vida. [NOTA: Como já dito atrás, essa música foi tema deste blog quando ele era hospedado no Microsoft Spaces. 27/12/2013]

Hoje (26/7/2008) estava com a TV ligada sem finalidade alguma — só para que ela me fizesse companhia, por assim dizer — quando começou (às 16h35) um filme: Mergulho numa Paixão (Wild Hearts Can’t be Broken), de 1991 — um ano antes do outro filme. É uma história real — e também muito linda e triste. E Gabrielle Anwar é a protagonista. Linda e doce novamente. Magnífica atriz. Dulcíssima em seu papel. Diabéticos deveriam ser proibidos de vê-la em cena.

A história, em si, é bonita (e, como disse, triste). Mas é uma história de quem define ou escolhe um sonho e um projeto de vida e não mede esforços para torná-lo realidade — nem quando a sorte parece conspirar contra. O título do filme no original corresponde melhor à natureza da história: Corações Selvagens não Podem ser Domados (a história envolve cavalos — donde a referência à domesticação — mas o coração, bem humano, é o dela).

Recomendo. Gabrielle Anwar e o filme. Ainda estou com os olhos cheios de lágrima que correram quando da cena final de vitória sobre a adversidade. História real.

Vejam os dados técnicos sobre o filme em http://www.imdb.com/title/tt0103262/.

Em Salto, 26 de Julho de 2008

Instantes e Epitáfio

[O poema a seguir é atribuído a Jorge Luís Borges. Na Internet há uma viva discussão se ele é o autor, ou se o poema é de outro autor (Don Herold, talvez), tendo Borges apenas o adaptado, se tanto. De qualquer modo, o conteúdo não se altera, qualquer que seja o autor.]

Si pudiera vivir nuevamente mi vida,
en la próxima trataría de cometer más errores.
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.
Sería más tonto de lo que he sido,
de hecho tomaría muy pocas cosas con seriedad.
Sería menos higiénico.
Correría más riesgos,
haría más viajes,
contemplaría más atardeceres,
subiría más montañas, nadaría más ríos.
Iría a más lugares adonde nunca he ido,
comería más helados y menos habas,
tendría más problemas reales y menos imaginarios.

Yo fui una de esas personas que vivió sensata
y prolíficamente cada minuto de su vida;
claro que tuve momentos de alegría.
Pero si pudiera volver atrás trataría
de tener solamente buenos momentos.

Por si no lo saben, de eso está hecha la vida,
sólo de momentos; no te pierdas el ahora.

Yo era uno de esos que nunca
iban a ninguna parte sin un termómetro,
una bolsa de agua caliente,
un paraguas y un paracaídas;
si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.

Si pudiera volver a vivir
comenzaría a andar descalzo a principios
de la primavera
y seguiría descalzo hasta concluir el otoño.
Daría más vueltas en calesita,
contemplaría más amaneceres,
y jugaría con más niños,
si tuviera otra vez vida por delante.

Pero ya ven, tengo 85 años…
y sé que me estoy muriendo.

Compare-se a linha mestra desse poema com Epitáfio, dos Titans:

Devia ter amado mais, ter chorado mais,
Ter visto o sol nascer…
Devia ter arriscado mais e até errado mais,
Ter feito o que eu queria fazer…

Queria ter aceitado as pessoas como elas são,
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração.
O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído,
O acaso vai me proteger, enquanto eu andar…

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr…
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor…

Queria ter aceitado a vida como ela é,
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier.
O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído,
O acaso vai me proteger, enquanto eu andar…

Devia ter complicado menos, trabalhado menos…

A tônica dos dois poemas pode ser resumida na frase de Horácio: carpe diem, quam minimum credula postero – aproveite o dia de hoje, porque no futuro não se pode confiar…

Em Salto, 24 de Julho de 2008

Educação e Escola

[Este texto foi escrito, em parte, com base numa conversa com Ricardo Semler em 23 de Julho de 2008, e publicado no dia seguinte. Há uma nova versão dele, com pequenas modificações, publicada em 2010, com a indicação de que se trata de uma reimpressão.] 

A escola convencional, que até hoje persiste, é uma instituição totalmente alicerçada no passado.

O fato de que ela dá férias prolongadas aos seus alunos no verão é reflexo de uma era pré-industrial, quando a agricultura dominava a vida. Na época da colheita, os alunos precisavam ajudar os pais no campo – daí, as férias mais longas nesse período.

A duração da aula, fixada em cerca de 50 minutos, se deve ao fato de que, antigamente, se considerava que o “attention span” das crianças não passava de mais ou menos isso. Hoje, outros estudos mostram que a televisão, as empresas de marketing, etc., calculam o “attention span” dos adultos em cerca de apenas oito minutos. Por isso os segmentos das novelas e dos noticiários são quebrados em vários períodos de mais ou menos oito minutos – e os vídeos institucionais raramente ultrapassam essa duração. (E, no entanto, uma criança jogando um videogame novo, desses em que você pode progredir para estágios cada vez mais avançados, fica até três horas jogando, sem perder a concentração…)

O tamanho da sala de aula tradicional – para no máximo 40 alunos – representa o espaço que podia ser alcançado pela voz humana desassistida da tecnologia.

Os professores, todo especialistas, refletem um período em que se acreditava que a verdade estava na especialização e que era preferível saber quase tudo sobre quase nada do que saber um pouco sobre um monte de coisas.

A retenção média pelos alunos daquilo que o professor diz numa aula normal de uma escola convencional é 6%. Isto significa que na escola há uma perda de 94% do que o professor diz.

Nenhuma instituição com uma taxa de perda ou rejeição de 94% sobrevive – exceto a escola. Manter esse sistema hoje é manter o mais incompetente sistema que jamais se criou. Ele nega tudo o que sabemos sobre como crianças, adolescentes e jovens aprendem – na verdade, sobre como qualquer um aprende.

A aprendizagem é fruto da curiosidade, e a curiosidade, do interesse. Basta assistir ao lindo filme Céu de Outubro (October Sky). Quando temos interesse por alguma coisa, e temos a liberdade de explorá-la, não há problema de falta de motivação, de perda de atenção… Mas explorar é algo ativo, diferente de simplesmente prestar atenção, ver, ouvir ou ler… Se a curiosidade e o interesse da criança tiverem a sorte de topar com a paixão pelo tema e o know-how necessário para explorá-lo de um adulto experiente, será um “match perfeito”. Nada impedirá a aprendizagem da criança nesse caso.

Estudos têm mostrado que, quando nós, adultos, olhamos para trás para identificar os mestres que fizeram uma diferença em nossa vida, encontramos no máximo uns três, talvez uns quatro – cinco ou seis se tivermos muita sorte. E esses não são lembrados pelo conteúdo que nos ensinaram. São lembrados, primeiro, porque tinham paixão por alguma coisa. São lembrados, também, pelo fato de que essa paixão os levara a se dedicar boa parte de sua vida a essa coisa, a explorá-la de todos os ângulos. A paixão, a sede de conhecer mais sobre o objeto da paixão, e a competência decorrente tinham o poder de contagiar as jovens mentes que tinham contato com eles. E, assim, elas abriam os horizontes das jovens mentes.

Eis o que diz sobre esse assunto, por exemplo, John Steinbeck, escritor americano, Prêmio Nobel de Literatura:

“O bom professor, como o grande artista, é raro… Encontramos muito poucos deles na vida. Se você tem sorte, ao olhar para trás, descobre uns dois ou três deles. Eles não lhe passaram informações. Eles não lhe disseram o que fazer. Eles lhe abriram a porta de um novo mundo e o ajudaram a entrar nele, acreditando que aprender é sempre uma aventura fascinante, porque é assim que a gente constrói a própria vida.”

Crianças curiosas, interessadas, motivadas não precisam que ninguém lhes ensine nada. Aprendem por si só, quando têm curiosidade, interesse, motivação – e, quando são contagiadas pela paixão, pelo entusiasmo, pelo conhecimento, pela competência de alguém. Educar não é encher um balde. Educar é acender uma luz: uma vela que, por sua vez, vai, um dia, acender uma outra… (A imagem é de William Butler Yeats).

E crianças não precisam aprender a aprender. Ela vem de fábrica com essa capacidade. Aprende a reconhecer as faces da mãe, do pai, dos familiares sem que ninguém lhe ensine nada; aprende a entender a fala humana e, no devido tempo, a falar, sem que ninguém lhe ensine nada; aprende a andar, a correr, a pular, sem que ninguém lhe ensine nada. Basta querer – e querer ela cedo ou tarde quer, se a escola tradicional não matar a sua curiosidade.

A Lumiar é uma escola criada dentro dessa visão.

Em Salto, 24 de Julho de 2008

Tempos que não voltam mais…

[Conforme prometido na crônica "Eu era pobre e feliz… e não sabia", aqui está a crônica, escrita em 1954 por meu pai, Oscar Chaves, e enviada ao “Programa da Saudade”, da Radio Difusora (não Tupi, como eu disse) pelo apresentador do programa, Décio Pacheco da Silveira, por quem meu pai tinha enorme admiração.]

Por que gostamos de recordar os dias passados, longínquos, saudosos, da nossa infância?

Todos nós, depois de grandes, temos um pouco da nostalgia e do sentimentalismo de Casemiro de Abreu, quando chorava, nos versos, a sua “infância querida que os anos não trazem mais”.

Sim, amigo, você tem as suas recordações, com certeza. Eu também as tenho. E como é doce lembrar aquele tempo em que a gente, inocente e despreocupado, “adormecia sorrindo e despertava a cantar”.

Minha cidade era pequena, sossegada e poética, escondida entre as montanhas grandes e corcundas lá do oeste de Minas: Patrocínio. Foi lá que meus pais nasceram, e foi lá que eu vi a luz do sol e me criei. Patrocínio antiga era melhor e mais encantadora do que a de hoje. Talvez eu tenha esta impressão por causa dos sonhos e das alegrias da minha meninice. Tudo, antigamente, parecia melhor, mesmo com o atraso e com a falta de conforto que havia. Ainda me lembro de minha cidade sem luz elétrica. Parecia mais gostosa ainda, pois, em vez de brincarmos à noite, nós, os moleques, nos sentávamos ao redor da “Sia Adélia”, a velhinha magra e bondosa que nos contava histórias todas as noites, à porta de sua casa.

Que histórias extraordinárias ela nos contava! Almas do outro mundo, mulas sem cabeça, assombrações, homens que viram lobisomens… Ela contava, com arte de mestre, coisas que nos deixavam arrepiados!

Eu, o Raul e o Mauro (meus manos), o Joãozinho da S’Adélia, o João do Nilo, o Bias seu irmão, o Walterson (que nós chamávamos de Son) e outros, nós nem piscávamos, eletrizados pelas palavras da nossa boa velhinha. A noite, lá pelas dez horas, quando ela se despedia de nós e entrava em sua casa, nós ficávamos com um medo terrível de nos separarmos para dormir. Parecia-nos ver aquele vulto branco que toda sexta-feira, à meia-noite, gemia debaixo da árvore, perto da porteira, e que costumava montar na garupa do cavaleiro que transitasse por aquelas bandas…

Eu e os manos tínhamos receio até de atravessar a rua, pois nossa casa ficava bem em frente à casa da S’Adélia. – Boa e inteligente velhinha!

Às vezes, sentados em grupos, na calçada de minha casa, à noite, nós fazíamos um dueto triste e dolente, que enchia o “Largo da Cadeia”. Cantávamos a “Tristeza do Jeca”, “O Meu Boi Morreu”, “A Madrugada que já passou”… E esse dueto, bem afinado e sentimental, não deixava de ter a sua poesia e a sua beleza simples. No dia seguinte, no Grupo Escolar, dona Amélia, minha professora, que morava perto, elogiava, alegre e entusiasmada, as vozes tão bonitas que tinham cantado lá no Largo…

E o futebol, no Largo da Cadeia? A molecada se reunia ali, e quase sempre, com bola de pano (ponta de meia velha) a peleja chegava a tal ponto de entusiasmo que terminava em briga. Quanto dedão machucado, quanta unha arrancada naqueles jogos!

E o Carnaval, então? Era uma beleza! Tudo inocente e engraçado. Não tinha as imoralidades, as malicias de agora. A coisa mais engraçada para nós era ver o Tito padeiro vestido de mulher, muito sério, pela rua afora. O Raul Rodrigues, narigudo e feio, vestido de caipira, era também um número extraordinário! Homens de perna de pau, altos, da altura das casas, mascarados, saíam pelas ruas e jardins, acompanhados da meninada… E o povo cantando: “A baratinha, Yayá, a baratinha Yoyô”, “Periquito louro, do bico dourado”… Oh, tempos felizes aqueles!… Não voltam mais, nunca mais!

Depois fomos crescendo, tomando rumos diferentes, separando-nos devagarzinho… Uns, a morte levou. Outros, levou-os a vida. Separamo-nos.

Faz 20 anos que deixei minha terra (*). Tenho-a visitado de vez em quando. Mas não é mais a minha querida Patrocínio. Tudo diferente. Os amigos velhos não estão mais lá. S’Adélia morreu há pouco tempo, cheia de anos e de bondade. O Totonho, seu marido, que ensaiava a banda de música, também morreu há pouco. O Raul lá está ainda, o meu mano. O Mauro formou-se em Lavras, e trabalha em Belo Horizonte. O Walterson é hoje um médico ilustre na Capital mineira. O João do Nilo e o Bias sumiram-se, não sei para onde. Minha querida mãe também (que tantos socos me deu na cabeça por causa do futebol no Largo da Cadeia) está em Belo Horizonte. Eu cá estou, em São Paulo, como ministro do Evangelho, pregando a doutrina de Jesus aos meus bons patrícios.

Mas tenho saudades, imensas saudades da minha terra. Se me fosse dado viver outra vez, eu gostaria de nascer e passar a minha infância lá mesmo, em Patrocínio, meu querido rincão mineiro. Mas não nessa Patrocínio atual. Naquela outra, aquela antiga, poética, inocente, e sem luz elétrica…

Oscar Chaves
Santo André, SP – 1954

(*) Meu pai saiu de Patrocínio em 1934 para ir estudar no Instituto José Manuel Conceição, em Jandira, SP, de 1934 a 1938. Eu estudei no mesmo Instituto de 1961 a 1963.

Me, myself and I

Letra da música de Billie Holiday citada num dos posts de hoje:

Me, myself and I
Are all in love with you.
We all think you’re wonderful.
We do!

Me, myself and I
Have just one point of view:
We’re convinced
There’s no one else like you.

It can’t be denied, dear,
You brought the sun to us.
We’d be satisfied, dear,
If you’d belong to one of us.

So, if you pass me by,
Three hearts will break in two.
‘Cause me, myself and I
Are all in love with you.

Em Salto, 24 de Julho de 2008

Crepúsculo

Das estações do ano, gosto mais do Outono. Devia viver em um lugar mais distante dos Trópicos, onde as árvores, antes de perder de vez as folhas, se tornam amarelas, alaranjadas, quase marrons. É uma visão linda. Prenúncio do Inverno que chega.

Das estações do dia, gosto mais do Crepúsculo. Hoje, vindo de Campinas para Salto, entre cinco e meia e seis e meia da tarde, fiquei observando o céu… Inicialmente, escuro, ameaçador: parecia que vinha uma tempestade. Depois, aos poucos, o escuro do céu foi abrandando e as cores se tornaram claras: tons de azul e rosa misturados, com um resto de sol tentando aparecer entre nuvens, mostrando, quem sabe, que, mesmo quando tudo parece perigoso e ameaçador, ainda há esperança.

Talvez, anos atrás, preferisse a Primavera e o Amanhecer — ou, pelo menos, o Verão e o Dia. Outono e Crepúsculo são rótulos que se aplicam à fase final — ou, talvez, antefinal — da vida. A fase final mesmo seria o Inverno e a Noite. Talvez minhas preferências, hoje, signifiquem que acredite que ainda tenho algum tempo: que o Inverno e a Noite ainda podem esperar um pouco… Que, talvez, seja possível extrair alguma Primavera e algum Amanhecer do que resta.

Cheguei aqui ao meu sítio, O Canto da Coruja, à noite — mas o céu ainda mostrava, aqui e ali, restos da luz do sol. Agora, tudo é noite.

Em Salto, 24 de Julho de 2008