Tecnologia, criatividade e mudanças

I – Tecnologia

Comemorou-se, no último dia 12 de agosto, o vigésimo quinto aniversário do lançamento, em 1981, do “IBM Personal Computer” – o “IBM PC”.

O computador pessoal, entretanto, está perto de fazer trinta anos, porque, embora tenha sido a primeira fabricante de computadores a adotar o nome “Personal Computer”, ou simplesmente “PC”, a IBM não foi a primeira empresa a fabricar e comercializar computadores pessoais. O computador pessoal, vendido pré-montado e pronto para usar, e não em kit a ser montado pelo comprador, surgiu no final de 1977, e três empresas disputam a honra de terem colocado no mercado o primeiro computador pessoal – designado, genericamente, de microcomputador (pré-montado e pronto para usar). Falarei sobre elas logo adiante. Antes, há um desenvolvimento importante que é preciso registrar.

Em 1975 a revista Popular Electronics, dedicada a hobbystas em eletrônica, dedicou seu artigo de capa a um microcomputador que estava sendo vendido em forma de kit a ser montado pelo usuário: o Altair, cujo kit era fabricado e distribuído por uma empresa chamada MITS, de Albuquerque, NM. Muita gente leu o artigo e encomendou o Altair (que só era vendido por correio), apesar de o microcomputador vir sem nenhum software, nem mesmo o sistema operacional, que é o software que, na perspectiva de hoje, permitiria que o equipamento, uma vez montado, executasse funções internas, interagisse com o usuário e, em última instância, rodasse outros softwares (chamados aplicativos) de interesse do usuário. Isso significa que só “hackers” (fuçadores em eletrônica) seriam capazes de conseguir fazer com que o kit da MITS fizesse alguma coisa de útil ou interessante. Mesmo assim, a demanda foi tanta que a MITS teve dificuldade para atender a ela.

Entre os computadores do kit estava Bill Gates, então um jovem aluno da Universidade de Harvard. Gates comprou o kit porque viu nele uma oportunidade de negócio: pretendia desenvolver uma versão da linguagem BASIC (Beginners’ All-Purpose Instruction Code) para o Altair, que poderia servir como o sistema operacional do microcomputador, simplificando a vida dos usuários, que, com BASIC, poderiam dar suas instruções ao equipamento em algo bastante próximo da língua inglesa. Gates convenceu seu amigo, um pouco mais velho, Paul Allen a ir para Albuquerque, NM, onde estava a MITS, e lá incorporar uma empresa, que iria comercializar o BASIC que Gates já estava desenvolvendo. Assim nascia a Microsoft, em 1975, da visão de um pós-adolescente – que, quando era bem mais novo, conseguiu convencer os donos de uma empresa que tinha um computador a deixá-lo procurar erros no software, simplesmente em troca do direito de fuçar na máquina (enquanto comia pizza e tomava Coca-Cola, diz a história, que já virou uma lenda).   

Mas voltemos às três empresas que lançaram computadores pessoais no final de 1977, dois anos e pouco depois do Altair, só que, desta vez, já pré-montados e prontos para usar. São elas: Apple Computers, Commodore Business Machines, e Tandy Corporation (Radio Shack).

A) A Apple Computers, de Steve Jobs e Steve Wozniak, de novo dois jovens adolescentes, criada na garagem de um deles, em Cupertino, CA, lançou o microcomputador Apple II no último trimestre de 1977. Nunca houve um Apple I: o termo “Apple II” foi uma “sacada” de marketing para dar a impressão de que o produto era mais tecnologicamente "maduro" do que realmente era. Depois do Apple II a Apple lançou um computador pessoal enorme, e magnífico, com interface gráfica, o Lisa, que, entretanto, foi um fracasso comercial (custava mais de 10 mil dólares), e, finalmente, acertou a mão com o Macintosh, ainda popular hoje, especialmente no formato notebook, e que, na sua versão atual, é um computador totalmente diferente, do ponto de vista eletrônico (mas não tanto na interface), do original. A Apple quase quebrou com a concorrência do IBM PC e seus clones – e, em parte, quem salvou a Apple foi Bill Gates, que investiu na companhia. Mesmo assim, Wozniak saiu da companhia porque queria fazer outras coisas na vida, e Jobs foi eventualmente forçado a se demitir. Quando parecia que a Apple ia acabar no destino de tantas empresas promissoras de tecnologia, Jobs voltou, vitorioso, para salvar a pátria. Acabou lançando a incrivelmente bem sucedida linha de tocadores de música .mp3, os iPods. Eu tenho dois clones brasileiros do Apples II e um Macintosh 128 original. Gostaria muito de ter um Lisa… E tenho dois iPods, de modelos diferentes.

B) A Commodore Business Machines, empresa canadense que fazia calculadoras profissionais, também lançou, na último trimestre de 1977, o seu microcomputador, ao qual deu o nome de PET, que quer dizer “Personal Electronic Transactor”. O acrônimo “PET” joga eficazmente com a ambigüidade: “pet” em Inglês quer dizer animal de estimação. A idéia, que se transformou em realidade, foi sugerir que o microcomputador seria algo equivalente a um animalzinho de estimação. A Commodore lançou, depois do PET, o VIC-20 (tenho dois deles), o Commodore 64 (também tenho dois deles), e o Amiga (infelizmente, não tenho nenhum deles). A Commodore, que foi a primeira empresa a vender mais de 2 milhões de computadores num ano (com o Commodore 64), não agüentou a competição em meados dos anos 80 e quebrou.  

C) A Radio Shack, braço comercial (com suas lojas de eletrônica onipresentes nos Estados Unidos) da Tandy Corporation, empresa com sede no Texas, lançou, na mesma época, ainda em 1977, o TRS-80, talvez o mais bem acabado dos três produtos que reinvindicam a honra de terem sido o primeiro microcomputador (“TRS” sendo acrônimo de “Tandy Radio Shack”). Tudo nele vinha numa só módulo: placa mãe, placa de vídeo, monitor, placa controladora de drive, até duas unidades de discos (5 polegadas e ¼), teclado… Tenho um clone brasileiro dele, o CP-500, da Prológica – bem mais feio do que o original, que era lindo.

Como se vê, mesmo deixando de lado a MITS e o kit do Altair, três empresas disputam a honra de terem lançado o primeiro computador pessoal, pré-montado e pronto para usar, em 1977 – quatro anos antes da IBM. Das três, uma delas, a Apple, era, como a Microsoft, uma empresa de jovens recém-saídos da adolescência. O sucesso dos produtos fabricados e comercializados por essas empresas era alimentado por um espírito juvenil – ainda que alguns dos propalados gurus do movimento fossem já de meia idade. Mesmo os gurus de meia idade, porém, tinham um espírito de “contra-cultura”, queriam conduzir uma guerra contra o “establishment” – e o establishment era a IBM, de longe a maior empresa de computadores do mundo, que chegou a controlar mais de 70% do mercado mundial de computadores (apesar de um processo “antitrust” do governo americano) e teve, em seu auge, mais de 420 mil empregados.  

Quando a IBM lançou seu produto, várias outras marcas de microcomputadores, além das três já mencionadas, também disputavam o mercado, a mais conhecida delas sendo a Atari, que começou com seu extremamente popular videogame e, depois, se aventurou no mercado mais profissional e corporativo com alguns modelos de microcomputadores, nunca conseguindo convencer os usuários, porém, de que era mais do que uma bem sucedida fabricante de videogames. 

Quanto à IBM, ela lançou o seu microcomputador porque alguns executivos, em clara minoria, achavam que ela não poderia ficar fora desse mercado. A maioria dos executivos achava que microcomputador era brinquedo de hacker. Assim, a IBM lançou o PC sem acreditar muito nele. Aqui estão algumas peças de evidência:

a) Todos os componentes do IBM PC original podiam ser encontrados no mercado – na Rua Santa Efigênia, em São Paulo, havia todos em 1981-1982. A IBM, que tinha toda condição de fazê-lo, não desenvolveu nenhum chip especial (o processador principal ou o processador auxiliar de vídeo), nenhuma placa de circuitos impressos especial, etc., para proteger o seu bebê contra cópias e clonagens. Usou o microprocessador fabricado pela Intel. Resultado: em pouco tempo havia inúmeros clones do PC, vendendo mais, porque mais barato, do que a IBM, que sempre se posicionou na faixa mais alta de preços do mercado, convencida (arrogantemente) de que o público iria preferir produtos com sua marca, ainda que mais caros. Errou. Desconhecia totalmente o mercado de microcomputadores, que correu para os clones mais acessíveis e forçou a IBM, para não baixar os preços dos seus microcomputadores, a lançar no mercado um produto mais barato para concorrer com os clones, o IBM PC Junior.  O Junior foi um total desastre comercial.

b) A IBM não achou que o sistema operacional (como já se disse, o software que permite que o equipamento execute funções internas, interaja com o usuário e, em última instância, rode outros softwares de interesse do usuário) do IBM PC merecia tanto cuidado da parte dela. Resolveu terceirizá-lo. Procurou, inicialmente, a Digital Research, de Gary Kildall, para comprar os direitos de uso de um sistema operacional, o CPM 86, que era uma versão bastante popular do famoso sistema operacional CP/M que rodava em computadores que possuíam o "chip set" da Intel que a IBM havia escolhido para o PC. Marcaram um encontro, os executivos da IBM naturalmente compareceram, mas Kildall (fiel à imagem do empreendedor juvenil da época) não apareceu: foi voar de asa delta. Kildall esnobou a IBM, achando que ela não tinha nenhuma outra alternativa. Os sizudos executivos da IBM, entretanto, ficaram indignados com o tratamento e imediatamente descartaram a solução CPM 86. Alguém soprou em seus ouvidos que Bill Gates, cuja Microsoft já tinha seis anos (foi criada, como se viu, em 1975, em Albuquerque, NM, para comerciar o Basic que Gates havia desenvolvido, e depois se mudou para Seattle, WA), tinha um sistema operacional que poderia servir ao IBM PC. Na verdade, não tinha – mas Gates sabia onde arrumar um: conhecia alguém em Seattle que estava em estágio avançado no desenvolvimento de um sistema operacional que funcionava com unidade de discos (o que se chamava de “Disk Operating System”). Os executivos da IBM foram procurar Gates em Seattle, sua terra natal, e gostaram da sua firmeza e daquilo que Gates lhe prometeu: fornecer-lhes um sistema operacional. Fecharam negócio. Gates foi à casa do desenvolvedor e comprou o que se tornou, em pouco tempo, MS-DOS (MicroSoft Disk Operating System). Mas o ponto chave da negociação revela mais uma vez quão visionário e esperto Gates é para negócios e quão imbecis foram os negociadores da IBM: Gates vendeu à IBM o direito de comercializar o seu software sob um nome diferente (PC-DOS) nos PCs que ela fabricasse, mas garantiu pra si mesmo (para a Microsoft, naturalmente) o direito de também comercializá-lo, com o nome de Microsoft DOS, ou MS-DOS, para terceiros – isto é, para os fabricantes de clones, no atacado, ou para qualquer pessoa que quisesse adquiri-lo, no varejo. Da mesma forma que havia percebido a oportunidade gerada pelo kit da MITS, Gates anteviu, ali na hora, que o microcomputador da IBM, sendo feito com partes disponíveis no mercado, seria imediantamente clonado –  e ele reservou para si o direito de fornecer o sistema operacional dos clones, como de fato o fez, tornando a Microsoft a companhia líder no mercado de software para microcomputadores e dando um passo decisivo para se tornar a gigante que é hoje. Mas ele só conseguiu isso porque ele acreditou mais no potencial do IBM PC, como tecnologia, do que a própria IBM, que, ela própria, não acreditava muito no seu produto.

c) Por muito tempo, depois de lançado e famoso o IBM PC, e de lançados e famosos os seus clones mais conhecidos, o Compaq e o Dell, a IBM ainda fazia o marketing do seu produto de modo a favorecer os computadores de grande porte que ela fabricava e comercializava. Em seu marketing o IBM PC era apresentado simplesmente como um terminal (meio inteligente, isto é, com alguma capacidade de processamento local) para acessar computadores de grande porte remotos – para fazer a chamada “PC – Mainframe Connection”. A IBM não acreditava que seu equipamento pudesse vir a ser um computador independente (stand-alone) sério – e também não acreditou no potencial corporativo de redes locais de microcomputadores (LANs), sem mainframes. A IBM quase faliu, porque não percebeu que o seu pequenino filhote iria um dia conquistar o mercado corporativo um dia dominado por seus gigantes pais e avôs. Eis o que diz o artigo do PC World que registra o jubileu de prata do IBM PC: "A previsão da empresa era comercializar cerca de 250 mil máquinas até 1986. Antes do final desse prazo, mais de um milhão de computadores pessoais já tinham sido vendidos. Nos últimos 25 anos, cerca de 1,6 bilhão de PCs foram comercializados, com 870 milhões atualmente em uso, e a receita anual do setor é estimada em US$ 200 bilhões, de acordo com a consultoria Gartner."

A propósito, era a segunda vez que a IBM errava feio em suas previsões acerca de computadores. A empresa, que nasceu em 1911, fabricava inicialmente relógios de ponto e máquinas de calcular, e, depois, máquinas de escrever e outros equipamentos de escritório (“business machines”). Logo depois do aparecimento, em Fevereiro de 1946, do primeiro computador eletrônico, o ENIAC, na Universidade da Pennsylvania, quando outras empresas (em geral de máquinas de escrever e calcular, como a Remington e a Burroughs) começaram a fabricar computadores em linha, a IBM contratou alguns consultores – que só podiam ser professores de engenharia em universidades, que são notórios em seu desconhecimento do mercado… – para fazer um estudo da viabilidade do mercado de computadores, a fim de poder decidir se entrava ou não nele. A conclusão dos consultores foi de que não valia a pena, porque, no futuro, iriam existir no máximo uns quinze computadores no mundo inteiro, todos localizados em grandes universidades de pesquisa e em entidades militares. A IBM não entrou no mercado naquele momento. Só veio a entrar alguns anos mais tarde, quando percebeu que havia jogado dinheiro fora – e, com o dinheiro, quase que também o seu futuro – com os consultores externos.  Quando agiu,  agiu rápida e competentemente, vindo em pouco tempo a controlar o mercado.

Essa história longa do surgimento dos microcomputadores foi contada, ainda que de forma resumida, para ilustrar o fato de que os microcomputadores surgiram, e em grande medida floresceram, numa contra-cultura extremamente criativa de jovens que queriam derrotar o establishment. Apesar de eventualmente o próprio establishment, através da IBM, ter reconhecido, ainda que sem muita convicção, que o movimento era mais sério do que parecia, durante o final dos anos setenta e a maior parte dos anos oitenta o ambiente era de guerra contra os computadores de grande porte – os “mainframes” – e, nessa guerra, era preciso persuadir o mercado de que os microcomputadores eram mais do que brinquedos e animais de estimação: eram máquinas sérias, que estavam destinadas um dia a substituir os monstrengos mainframes nos quais a IBM e suas “irmãs” investiam tão tanto…

Ainda no final dos anos oitenta a IBM estava tentando persuadir universidades como a UNICAMP a comprar (na verdade, alugar) IBMs 3090, em vez de soluções mais compatíveis com suas necessidades, como o cluster de VAXes, máquinas menores da Digital Electronics Corporation (DEC), que, também, logo se tornaram terrívelmente obsoletas, levando a DEC, tardiamente, a investir em microcomputadores profissionais, mas nem assim salvando a empresa, que foi comprada pela Compaq, que, por sua vez, foi comprada pela HP, num momento já mais próximo de nós.

Enfim, foi um incrível surto de criatividade, em geral vindo de quem não se esperava grande coisa (pós-adolescentes, representantes da contra-cultura, gente anti-establishment) que acabou produzindo a tecnologia e a indústria de microcomputadores e computadores pessoais. Esse desenvolvimento acabou operando como o motor de enormes mudanças na sociedade. Mais detalhes sobre a história dos microcomputadores no indispensável livro Fire in the Valley – o vale em questão sendo o “Vale do Silício” (Silicon Valley), região ao sul de San Francisco, na California, que gravita, de certo modo, em torno da Apple, em Cupertino, ao lado de San José.

II – Criatividade

Não tem passado despercebido a alguns estudiosos da criatividade que esta surja de forma mais generalizada e tenha seus surtos em ambientes que atraem e alimentam pessoas desejosas de mudança e que têm sua mente centrada na solução de problemas – em geral bastante práticos.

Tenho usado, em minhas palestras, a seguinte definição de tecnologia: “Tecnologia é o conjunto daquilo que o ser humano inventa para resolver problemas, tornando, assim, sua vida mais fácil ou mais agradável”. Trabalhando como parceiro e consultor da Microsoft há oito anos, não poderia deixar de enfatizar que a tecnologia não é apenas “hard”, isto é, não consiste apenas de equipamentos, instrumentos, e ferramentas tangíveis. Qualquer invenção humana, ainda que intangível, como é o caso da fala, da escrita, das linguagens em geral (inclusive as de programação), das notações (como o alfabeto, o sistema numérico, as notas e as pautas musicais), bem como dos métodos e das metodologias, das técnicas e das artes, dos procedimentos e dos algoritmos, é tecnologia. (Em relação aos microcomputadores, a visão de Gates em 1975, plenamente confirmada pela realidade, foi de que, a médio prazo, o software seria mais importante do que o hardware…)

A tecnologia, assim, é a forma que o ser humano encontra para resolver seus problemas. E a tecnologia se alimenta de criatividade e é, por sua vez, alimentada por ela. É por isso que a indústria de microcomputadores, apesar de ter surgido no estado de New Mexico, acabou se identificando com a Costa Oeste dos Estados Unidos – onde ficam Cupertino, sede da Apple, símbolo do hardware dos microcomputadores, e “capital” do Vale do Silício, e Seattle, em cuja vizinhança (originalmente em Bellevue, depois em Redmond) Bill Gates resolveu instalar definitivamente a Microsoft, símbolo do software para microcomputadores, como o seu próprio nome indica.

O Vale do Silício e a Região de Seattle se tornaram polos de criatividade, como bem mostrou Richard Florida em seu livro The Rise of the Creative Class, atraindo não só um enorme número de empresas mas, também, uma quantidade enorme de gente inteligente, motivada, e criativa. Outros polos de criatividade se desenvolveram nos Estados Unidos, ao redor da região de Boston, MA, em que fica o Masachussets Institute of Technology (MIT), ao redor da região de Austin, TX, e ao redor de outras regiões que, por uma série de razões (analisadas por Richard Florida), atraem empresas de alta tecnologia – que, por sua vez, atraem profissionais competentes e criativos. Outros países quase sempre têm os seus “Silicon Valleys”. Campinas pretende ser o Vale do Silício brasileiro.

Domenico de Masi, o sociólogo italiano, em um estudo pioneiro, procurou identificar por que é que determinadas instituições parecem atrair mais gente competente e criativa do que outras e conseguir mantê-las – e, como Richard Florida, depois, chegou a algumas conclusões interessantes. Instituições (não apenas empresas) se tornam extremamente competentes e criativas quando são abertas, horizontais, desburocratizadas, quando privilegiam quem tem competência e iniciativa e não têm medo de assumir riscos e de lidar com potenciais fracassos. Essas instituições freqüentemente estão dispostas a abrir novas perspectivas, descortinar novos horizontes, a se reinventar, a redefinir seu “core business”. Nesse processo elas contam com o combustível da diversidade, do pensamento lateral ou divergente, da multidisciplinaridade (ou mesmo da transdisciplinaridade) – e, por isso, não hesitam em contratar pessoas competentes e criativas de áreas que parecem estar além de sua “especialidade”, como marketing, artes (design, por exemplo), ciências humanas, até mesmo filosofia. As cidades ou regiões em que essas empresas florescem, e que acabam por se tornar polos de criatividade, também compartilham várias dessas características. Embora muitos dos habitantes dessas cidades ou regiões acabe se tornando milionários, tudo indica que o desafio de encontrar uma solução criativa para um problema importante é, para eles, uma motivação maior do que o próprio dinheiro.  

III – Mudanças

Toda vez que, através de algum tipo de tecnologia, encontramos uma solução para um problema, que torna a nossa vida mais simples ou mais agradável, a tendência é não guardar essa solução apenas para nós, mas, ao contrário, procurar fazer com que seja amplamente adotada – gerando, assim, para nós, um retorno (em termos de reconhecimento ou, mais freqüentemente, também financeiro). É por isso que novas tecnologias, em geral identificadas, em seu nascedouro, com ambientes criativos, se tornam potentes alavancas de mudanças.

Mudanças, por sua vez, estimulam mais mudanças. O aparecimento do microcomputador, por exemplo, que tornou possível colocar nas mãos de quase qualquer pessoa, a um preço acessível, uma enorme capacidade de processamento, mudou, inicialmente, o mundo dos negócios envolvidos com computadores, para, logo em seguida, mudar o mundo dos negócios em geral, permitindo não só o chamado e-business, mas também, e mais importante, a invenção de novos negócios ou a reinvenção de alguns já tradicionais, como os jornais eletrônicos (que pegaram muitas empresas jornalísticas no contrapé, tornando difícil a sua redefinição em empresas de mídia) e a venda de livros, para citar apenas dois exemplos. Quando a Amazon surgiu, muita gente duvidou que pudesse se tornar lucrativa. Não só se tornou como expandiu o seu negócio incrivelmente, vendendo online, hoje, não só livros, CDs e DVDs como também produtos para bebês e uma enormidade de outras coisas. As mudanças no mundo dos negócios em geral por sua vez influenciou mudanças em várias outras áreas: cultura, política, a vida pessoal e cotidiana, etc. Só para dar um exemplo dessa última (a área da vida pessoal e cotidiana), nós hoje acedemos a informações de forma diferente daquela que fazíamos há 25 anos, nos comunicamos uns com os outros de forma diferente, fazemos compras de forma diferente, trabalhamos de forma diferente, nos divertimos de forma diferente, fazemos amigos e, de vez em quando, até mesmo encontramos romance de forma diferente.

Todas essas mudanças, por sua vez, estão pressionando fortemente a mudança das nossas formas de aprender, em especial em ambientes formais, como a escola. E, é de crer, se a escola oportunamente mudar, isso gerará mais uma potente onda de mudanças no resto da sociedade, uma mudança alimentando a outra.

É por isso que, como bem anteviu Alvin Toffler em vários de seus livros, a começar com Future Shock, publicado em 1970, a nova era, cujo nascimento alguns colocam nos anos 50, mas que eu prefiro colocar no final da Segunda Guerra, com o surgimento do ENIAC, é caracterizada por mudanças: em quantidade nunca antes vista, em velocidade e ritmo de aceleração nunca antes vistos, em intensidade inédita, de modo a afetar todas as dimensões da vida, tanto pública como privada (e até mesmo pessoal e íntima).

Com essas mudanças, a estabilidade que caracteriza a sociedade tradicional desapareceu e, com ela, as soluções prontas para os problemas. Os novos problemas que essa nova era coloca estão a exigir, cada vez mais, soluções radicalmente novas e, por conseguinte, criativas, inovadoras. Não é, portanto, por acaso que nossa era, que é chamada de Sociedade da Informação e Economia do Conhecimento,  é descrita também como a era em que surge, pela primeira vez na história, uma massa crítica tão grande de “criativos” que é possível afirmar que existe, na sociedade, uma Classe Criativa que a puxa para inovações cada vez mais radicais, em todas as áreas, da tecnologia às artes.

 Sobre o Pacífico, 20 de agosto de 2006, às 7h42, hora de San Francisco – 11h42, hora de Salto.

O que será dos meus hard disks?

Quando nos lembramos de que não iremos viver para sempre, em geral nos preocupamos com o que irão fazer, depois de nossa morte, com as coisas que para nós são tão importantes. A minha enorme coleção de livros, que não parece ser de interesse para nenhum de meus filhos, nem, por enquanto, para nenhum de meus netos… Minha mulher também não parece se interessar muito pela maioria deles. Milhares de revistas que separei porque continham algo importante… A minha papelada, que enche dezenas de arquivos de aço com gavetas… A minha grande coleção de discos em vinil, de CDs… A minha também grande coleção de fitas VHS, de DVDs… A minha coleção de alicates, chaves de fenda, ferramentas de vários tipos, medidas em centímetros e em polegadas… Minha coleção de corujas, tartarugas e elefantes em miniatura, amealhada ao longo de tantos anos.

Hoje cedo, dia 20/8, quando ainda estava em Sydney (agora estou no avião voando de Sysdney para San Francisco), conversava pelo MSN Messenger com minha amiga Adriana Portella, hoje também Hollenbeck (a mãe do Nicholas) – que ainda estava no sábado, dia 19/8 (em Watertown, Wisconsin, onde ela mora).  Ela levantou uma questão que imediatamente passou a me preocupar: “O que será de nossos hard disks quando a gente morrer?”

O problema com essa pergunta é que nenhuma resposta parece ser suficientemente adequada para ela.

Se os nossos herdeiros resolverem, em respeito à nossa privacidade, simplesmente reformatar tudo, sem ler nada, nossos segredos estarão preservados mas, além de morrermos fisicamente, a maior parte do que pensamos e sentimos, e que deixamos registrado em arquivos .doc de Microsoft Word, .ppt de Microsoft PowerPoint, .pst de Microsoft Outlook, ou então na história preservada de nossos papos pelo (agora) Windows Live Messenger (ex MSN Messenger), nas fotos .jpg que tiramos, nos filminhos .wmf ou .mpg que produzimos ou simplesmente guardamos…  A reformatação de tudo isso deixará ferido para sempre o nosso orgulho: ninguém se interessou o suficiente pelo que fomos, pensamos e sentimos, pelas coisas que achávamos importantes, para querer preservar alguma coisa do estava armazenado em nossos hard disks.

Por outro lado, se resolverem fuxicar a nossa vida, podem encontrar coisas que os deixarão surpresos – quando não indignados. É incrível quão pouco os nossos parceiros, os nossos filhos, os nossos netos, os nossos outros parentes, conhecem da gente. Fazemos blogs – mas poucos dos parentes os lêem sistematicamente. O meu está no Live Spaces (antigo MSN Spaces). Mas também escrevemos uma quantidade enorme de textos que não colocamos em blogs. Escrevi livros, capítulos de livros, artigos, prefácios, posfácios, etc. que ninguém de minha família jamais leu. Tenho milhares e milhares de slides, correspondentes a palestras que ministrei, em arquivos de Microsoft PowerPoint que ninguém de minha família jamais viu.  Participo de dezenas de listas de discussão, nas quais escrevo, diariamente, dezenas de mensagens, de que ninguém de minha família jamais tomou conhecimento. Envolvi-me em brigas homéricas em algumas dessas listas, e nessas brigas nem sempre me comportei de forma impecável (em termos de elegância no trato e na linguagem) – e minha família nunca ficou sabendo delas. Troquei e-mails pessoais com gente que ninguém de minha família conhece – e com gente que minha família nem imagina que exista e que seja importante para mim. O mesmo vale pelos papos pelo Windows Live Messenger.  Se minha família fosse fuxicar os meus hard disks, quanta surpresa teria… Seria um redescobrir do marido, do pai, do avô – na verdade, um descobrir, porque nunca tomaram conhecimento desse meu eu, para eles, desconhecido, mas que é conhecido, às vezes bem conhecido, por meus companheiros de listas, de e-mails, de papos no Messenger… E que em muitos aspectos é o meu eu mais íntimo!

Além disso, há muita coisa que escrevo para mim mesmo… Meus hard disks estão cheios de pequenas notas que rabisco para mim mesmo, no Notes do Microsoft Outlook, no Microsoft Notebook, às vezes em arquivos do Microsoft Word ou até mesmo do Notepad e do (um de meus programas favoritos) Notetab Pro. Verdadeiros diários, sem o nome.

Fico me lembrando de um dos filmes mais lindos que já vi: The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison). Francesca, já viúva, morreu. E deixou um baú para seus dois filhos (um casal) – com cadernos e relíquias, cheios de surpresa. Nos cadernos, a história de um amor vivido em segredo. Entre as relíquias, fotos e lembranças diversas do amor vivido com Robert Kincaid. Os filhos ficaram inicialmente chocados e revoltados. O filho homem quase teve um ataque ao ficar sabendo que sua mãe havia traído o seu pai – reação de homem. A filha mulher pareceu compreender mais rápido. Ambos relutaram em concordar com jogar as cinzas da mãe no mesmo lugar em que haviam sido jogadas as de Robert Kincaid… No fim, os dois entenderam. Apesar de terem vivido com sua mãe durante cerca de trinta anos, não a haviam conhecido de fato, no que ela tinha de mais íntimo.

Entre as minhas coisas há os meus sites, mais de trinta, hoje hospedados todos no Globat.com. Minha família nem toma conhecimento deles, exceto, talvez, de vez em quando, do chaves.com.br. No entanto, gente desconhecida da minha família considera importantes o aynrand.com.br, o 4pilares.net, o contaoutra.net, o fora.com.pt — até mesmo o vovodudu.net… Será que alguém vai cuidar desses sites depois de eu ter morrido??? Duvido muito. Ninguém sabe quanto eu pago por mês para manter esses sites no ar, muito menos como pagar, caso valha a pena mantê-los no ar. (By the way, o preço que irá custar para manter um deles no ar é o mesmo que custará mantê-los todos no ar – armazeno-os todos no mesmo local, por um preço que me permite manter trinta domínios no ar em uma conta só. O pagamento é anual.) Quando o contrato anual vencer, Globat enviará uma cobrança automática para meu cartão de crédito. Mas como eu terei morrido, meu cartão de crédito terá sido cancelado. Não conseguindo debitar o valor de um novo contrato anual, Globat cancelará meu espaço no hard disk deles, e meus 30 sites irão para o espaço. Tenho cópia deles nos meus hard disks, mas será que alguém vai achar? Um aspecto importante da minha vida terá sido apagado para sempre.   

[Como sou otimista, vou ajudar o trabalho de meus descendentes, caso eles decidam manter meus sites no ar. Estes são os trinta domínios hospedados em Globat.com: chaves.com.br, infoutil.org, edutec.net, 4pilares.net, escola2000.net, unicamp.net, vovodudu.net, livremente.net, escolanova.net, jmc.org.br, mindware.com.br, contaoutra.net, palestras.net, myblogs.net, cronicas.info,  aynrand.com.br, liberty.com.br, trivium.org.br, mathetics.net, educhange, hughakston.net, newed.net, mindtools.org, autobio.info, paideia.com.br, racionalmente.net, fora.com.pt, learningpathways.net, rotary-saldo.net, lucelia.info. A propósito, tenho setenta outros domínios que não estão sendo hospedados no momento, a não ser em MyDomain.com, que deixa a gente estacionar os domínios lá de graça. Mas é demais ter qualquer esperança em relação a eles…]

Enfim, é isso. E, talvez, muito mais. Não sei por que tenho pensamentos fúnebres quando estou voando.

Sobre o Pacífico, 20 de agosto de 2006, às 18h19, hora de Sydney – 5h19, hora de Salto. As vaquinhas, os bezerros, as galinhas e os galos do meu sítio estão acordando. Deles tenho certeza de que alguém vai cuidar.

A esquerda e Cuba: dois pesos e duas medidas

Tenho me dedicado, nos últimos tempos, a estudar a ilogicidade da esquerda. Ou talvez o nome certo seja a logicidade dialética da esquerda… Nada melhor para evidenciá-la do que as várias subscrições de brasileiros de esquerda ao manifesto de "cientos de intelectuales" em defesa da liberdade e autonomia do povo cubano.

Nós tivemos a nossa ditadura militar no Brasil. Começou cinco anos depois da ditadura cubana de Fidel Castro e durou vinte anos — menos da metade do que a ditadura do El Comandante já dura.

Durante a ditadura brasileira um monte de brasileiro foi morto, ou foi expulso do país, ou teve de sair daqui correndo para não ser preso ou morto. Perderam seus bens e propriedades. Ficaram exilados um bom tempo. Voltaram quando da anistia — concedida enquanto os militares ainda estavam no poder. Puderam voltar tranqüilamente. Nenhum dos exilados foi preso ao entrar no país. Foram considerados heróis nacionais. Alguns chegaram a se candidatar à Presidência da República, outros se tornaram ministros, outros senadores, outros deputados federais. Tudo gente fina. Hoje a gente sabe que alguns tinham vocação de larápios, mas tudo bem. Ladrões ou não, ninguém duvida de sua brasilidade ou de seu patriotismo. Boa parte deles está sendo generosamente indenizada pelo governo brasileiro. Patati-patatá.

A ditadura brasileira é considerada de direita. Os que foram perseguidos por ela são, em geral, considerados de esquerda (embora nem todos o fossem, é bom que se diga: a esquerda não teve nenhuma exclusividade na luta contra a ditadura brasileira).

No caso da sanguinária ditadura cubana, houve mortes (ninguém pode esquecer "el paredón"), houve gente que foi expulsa, houve gente que teve de sair de lá fugida para não morrer. Perderam todos os bens e propriedades que tinham. Foram para Miami. Lá se estabeleceram e muitos deles se enriqueceram através de seu trabalho, tornando-se multimilionários.

A ditadura cubana é comunista — ditadura de esquerda. Os que foram perseguidos por ela são, em geral, considerados de direita.

O que se nota agora é que a esquerda mundial, incluindo nossa esquerdinha chique (a esquerda chamada Pierre Cardin ou cu de veludo, composta de auto-denominados intelectuais, e que inclui, entre os intelectuais, artistas de novela, cantantes, etc. — se bobear até jogador de futebol famoso vira intelectual no Brasil se estiver do lado ideológico certo), trata a ditadura cubana e suas vítimas de forma diferente da que tratou a ditadura brasileira e suas vítimas.

Fidel não é, para a esquerda, um pulha. É um herói, que trata bem os cubanos, tanto que é admirado até por um carregador de malas (a mensagem está circulando na Internet). Se procurar bem, a esquerda vai achar engraxates, limpa-botas, putas, travestis, etc., que acham o fétido ditador uma pessoa profundamente humana, atenciosa com os humildes, até carinhosa com gente que, segundo o ideário socialista, não deveria estar recebendo toda essa atenção, porque lá todo mundo seria igual, do ponto de vista econômica e social, não é mesmo? Igualmente pobre e miserável e igualmente oprimido, é o que quero dizer — com a exceção de Fidel, Raúl e uns poucos apaniguados.

Em suma: os ditadores militares brasileiros foram uns pulhas, uns canalhas, etc. etc. O ditador militar cubano é um herói profundamente humano para a esquerda. Ele está há quase 50 anos no poder, não porque nunca fez eleições — mas porque o povo cubano o adora!!! Para nós mortais que não somos de esquerda é difícil entender porque o déspota cubano nunca decidiu testar a adoração dos seus súditos.

Mas continuo.

Os que foram mandados para fora do Brasil, estes são os heróis aqui. Continuam a ser heróis mesmo depois que se provou que estavam envolvidos em corrupção (só porque foram aprendizes de guerrilheiros na selva). Ninguém nunca duvidou de sua brasilidade e de seu direito de voltar e assumir posições de proeminência no cenário nacional.

No caso de Cuba, a esquerda demonizou aqueles que Fidel expulsou de Cuba ou obrigou a se exilarem em Miami. São pulhas, canalhas, e tudo que é nome feio que que a esquerda chique se permite dizer em público. (Em privado falam palavrões cabeludos como todo mundo quando estão com raiva, como estão agora, que o reinado de Fidel está chegando ao fim). Os cubanos de Miami, para a esquerda, não são cubanos. Se voltarem para Cuba quando Fidel morrer ou cair, não serão vistos como heróis pela esquerda: serão golpistas. Na verdade, não serão considerados nem golpistas, porque para serem considerados golpistas teriam de ser considerados cubanos, e a esquerda se recusa a considerá-los assim. Serão considerados como invasores americanos, a mando de Bush.

Para a esquerda, diferentemente dos exilados brasileiros que voltaram ao seu país e receberam as boas-vindas da esquerda, os exilados cubanos não têm direito nenhum de voltar à sua terra natal, se estabelecer, um dia se candidatar a deputado, senador ou até mesmo à Presidência de Cuba.

A esquerda, inclusive a brasileira, tem dois pesos e duas medidas para julgar ditadores e exilados. Esse o sentido da lógica dialética. Se o ditador é de esquerda, é herói. Se o exilado é de esquerda, é herói. Quando são considerados de direita, são pulhas, canalhas, e pior — sejam ditadores ou exilados.

A esquerda está querendo caracterizar as movimentações dos cubanos de Miami para voltar à sua terra natal como tentativa de invasão da ilha pelos americanos — não como planos de exilados cubanos para o retorno à casa depois de quase 50 anos de exílio. A esquerda diz que o povo cubano corre risco de ser atacado — e sua autonomia corre o risco de ser violada. Como se essa autonomia não viesse sendo sistematicamente violada nos últimos 50 anos por um ditador despótico e sanguinário, que não reconhece a liberdade de expressão, de associação e de ir-e-vir de seu povo, bota na cadeia quem critica o regime, prende e arrebenta, mata friamente. O que os cubanos de Miami vão fazer é ajudar os seus irmãos — que sofreram por 50 anos na própria casa, não conseguindo fugir, apesar das tentativas de fuga em bóias de pneu, em jandadas e barcos improvisados — a restabelecer a autonomia que o povo cubano perdeu a partir de 1959.

Quem está disposto a defender o povo cubano que não conseguiu fugir de casa é, agora, o povo cubano que precisou e pode fugir para Miami, e que agora vai voltar — e, suspeito, ser considerado como herói, como deve, pelo povo cubano que vai ser liberado.

Está próxima a hora de verificarmos se o povo cubano adorava mesmo Fidel — ou se era puro medo. Está próxima a hora de ver o que o povo cubano prefere, depois de 50 anos de ditadura e doutrinação comunista.

Viva Cuba! Viva o povo cubano! Fora Fidel e os comunistas.

Torço para que Fidel recupere a sua saúde para ser colocado no "paredón", como fez com tantos. Mas suspeito que os cubanos se contentarão com prendê-lo e deixá-lo morrer com o triste recorde de ditador mais longo e sanguinário da história de Cuba. São mais civilizados do que ele.

Em Perth, Austrália, 10 de agosto de 2006 (9 de agosto aí no Brasil).

Dá pra viver o mesmo dia duas vezes? Ou pra pular um dia, sem vivê-lo?

Estou na Austrália. Na verdade, estou escrevendo de um café no aeroporto de Sydney, enquanto aguardo meu vôo da Qantas para Perth.

O vôo (non-stop) da United de San Francisco a Sydney levou 14 horas num Boeing 747. Tempo suficiente para jantar, ver um filme, dormir bastante e ficar tentando entender os fusos horários — questão que sempre me fascinou. Na época da transição do segundo para o terceiro milênio da era cristã, estava na casa de minha filha, nos Estados Unidos, e acompanhei na televisão a cobertura da entrada no milênio de países de todos os fusos horários: a Austrália foi um dos primeiros países, mas não o primeiro: Sydney está em GMT +10; Perth em GMT +8. Adelaide, no meio das outras duas cidades, num curioso GMT +9.5. Fiquei olhando o mapa do mundo impresso na revista Hemispheres, da United, que tem todas as linhas que separam os fusos horários… O mapa é uma obra de arte. Arranquei as duas folhas em que ele aparece e trouxe comigo. Bem no centro do mapa, no plano horizontal (Leste-Oeste) e vertical (Norte-Sul) está Chicago — que, por coincidência, é a cidade em que ficam o World Headquarters e o hub principal da United Airlines… Chicago é GMT -6. Nós, no Brasil, temos quatro fusos horários: o de São Paulo é GMT -3. Isso quer dizer que Chicago normalmente está três horas atrás de São Paulo. Isso não vale agora, porque os Estados Unidos (e também a Europa e vários outros países) estão no Horário de Verão e, portanto, fizeram avançar seus relógios em uma hora. Hoje a diferença entre Chicago e São Paulo é de apenas duas horas. Quando nós estamos no Horário de Verão e eles, nos Estados Unidos, não, a diferença é de quatro horas…

(A propósito, acho um despropósito no Brasil se dizer “Horário de Brasília”. Bestagem de brasileiro. Nos Estados Unidos nunca se diz “Horário de Washington”. Diz-se “Eastern Standard Time” — Tempo Padrão do Leste (do país). Deveríamos fazer a mesma coisa no Brasil. Eu fico revoltado quando tenho de selecionar “Horário de Brasília” para configurar um computador, um PDA, um telefone celular meu… Não moro em Brasília! Na verdade, detesto a cidade… Fim do parêntese.)

Mas é importante notar que a expressãozinha que venho usando, GMT, quer dizer: Greenwich Meridian Time. Greenwich é uma localidade perto de Londres. Por ali, algum dia no passado, foi definido que passava o Meridiano 0 — o Meridiano de Greenwich (da mesma forma que o Trópico de Capricórnio passa um pouco ao norte da cidade de São Paulo). Todo o sistema de fusos horários foi definido tomando como base a Hora do Meridiano de Greenwich, que é GMT, simplesmente. Todos os outros fusos horários são definidos como um número, de 1 a 12, positivo ou negativo, que representa a distância, em meridianos, do Meridiano de Greenwich. De Greenwich para o Oeste, o número é negativo, até chegar -12. De Greenwich para o Leste, é positivo, também até chegar 12. São Paulo, sendo GMT -3, está três horas atrás do horário de Greenwich (também chamado de “Universal Time”…). Deveria estar três horas atrás de Londres, também. Só que hoje Londres está em horário de verão e, por isso, São Paulo está quatro horas atrás de Londres (mas só três atrás do “Universal Time”).

(Na Copa, os horários dos jogos na Alemanha estavam cinco horas na frente dos horários no Brasil — isto é, no Leste Brasileiro. Isso porque o fuso horário da Alemanha é GMT +1, o que a colocaria quatro horas na frente do Leste do Brasil. Mas estando a Alemanha, como toda a Europa, em horário de verão, a diferença passa a ser de cinco horas.

Por que o meridiano que passa perto de Greenwich foi definido como o Meridiano 0 e usado como base para definir todo esse complexo sistema? Pela mesma razão que o mapa da United coloca Chicago no centro. Para os Ingleses, o país e, dentro do país, a capital dele, Londres, era nada menos do que o centro do mundo. Nada demais, portanto, definir o meridiano que passava ali como o Meridiano 0 e o horário de Greenwich como “Universal Time” – o horário padrão de referência.

Sydney, disse eu, está em GMT +10. São Paulo, em GMT -3. Nem Sydney nem São Paulo estão em horário de verão. Logo, a diferença entre Sydney e São Paulo hoje é de treze horas. A diferença entre -3 e +10 dá 13 — não é uma soma essa operação. Sydney está 13 horas na frente de São Paulo. Agora são 10h00 aqui, no domingo, dia 6 de agosto. Em São Paulo são 21h00, do sábado, dia 5 de agosto. Entre 21 horas de sábado e 10 horas do dia seguinte, há uma diferença de treze horas. QED.

Há outro jeito de fazer a operação. O dia tem 24 horas. Como Sydney está treze horas na frente de São Paulo, se diminuirmos 13 de 24, teremos 11. São 21h em São Paulo, no sábado dia 5 de agosto. Se tirarmos esses 11 (24-13) de 21h, teremos 10 — que é exatamente a hora de Sydney — só que seriam as 10h de ontem… Por isso, se tomarmos as 21h do sábado, dia 5/8, e diminuirmos onze, teremos de acrescentar 24 para ter a hora de Sydney agora, 10h do domingo dia 6 de agosto. Complicadinho…

Em algum lugar do Pacífico, a leste da Nova Zelândia, passa a chamada “International Date Line”. Se você estiver cruzando essa linha, você ganha ou perde um dia. Se você estiver indo na direção Leste-Oeste, e cruzar essa linha à meia noite de domingo, ao cruzar a linha você estará à meia-noite de segunda: perdeu um dia (nunca vai viver essa segunda-feira). Se, por outro lado, você estiver indo na direção Oeste-Leste, e cruzar a linha à meia-noite da segunda-feira, voltará para a meia-noite de domingo: ganhou um dia, pois poderá viver a segunda-feira duas vezes. A “International Date Line, não há surpresa ao descobrir, está na posição exatamente oposta à de Greenwich… [no plano horizontal representado pelos mapas]. A “International Date Line” é o espelho do “Universal Time”.

Tem gente que acha que essas coisas apontam para algo transcendental… Complicado esse negócio de voltar no tempo, viver o mesmo dia duas vezes… Parece sugerir que podemos regredir no tempo, reviver vidas passadas… Quem sabe? Back to the Future — or Forward into the Past.

[Devo ter cometido alguma gafe geográfica neste artigo. Estou escrevendo sem verificar nada, a não ser o mapa da United Airlines… Se você achar algum erro, me escreva para eduardo@chaves.com.br] [PS: Não uso mais esse e-mail: escreva para eduardo@chaves.pro – Nota de 14.04.2020].

Em Sydney, 6 de agosto de 2006 (na data do Spaces vai aparecer dia 5 de agosto…)

O trem no Brasil

Fazia tempo que vinha procurando sites sobre a história do trem no Brasil. O trem foi muito importante na minha vida. Com um mês e doze dias fiz minha primeira viagem de trem. Nasci em 7/9/1943. Meu pai escreveu um pequeno relato de meus primeiros dois anos. Eis o que ele diz sobre essa primeira viagem de trem, nos dias 19-20/10/1943:

"No dia 19 de outubro tomamos a jardineira até Tupã. O dia estava quente, mas o Oscarzinho dormiu quase o tempo todo. Só chorava quando a jardineira parava. Às 2 hs. da tarde chegamos a Tupã e às 3,45 tomamos o trem. A viagem não foi muito boa, pois o trem estava muito cheio! Metade da viagem foi feita no carro de 2ª classe, pois não pudemos arranjar lugar na 1ª classe, devido ao grande número de pessoas. Passamos a noite com o Nenê nos braços. Ele não deu trabalho, pois dormiu mais ou menos bem. Às 6 hs. da manhã chegamos a Campinas."

Esta foi a primeira de muitas viagens de trem do local de residência dos meus pais até Campinas, onde moravam minha avó materna e minha tia, irmã de minha mãe (que faleceu faz um mês, aos 85 anos — minha mãe faz 82 agora segunda-feira). Meus pais se mudaram de Lucélia para Irati, no Sul do Paraná, depois para Marialva, no Norte do Paraná, depois ainda para Maringá, também no Norte do Paraná, e, finalmente, para Santo André, em São Paulo, onde minha mãe e meus irmãos ainda residem (meu pai faleceu em 1991). Viajávamos sempre de trem.

As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo — verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, como meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas…

Quando mudamos para Santo André, o trajeto mudou. Pegávamos o trem subúrbio até São Paulo e lá pegávamos o trem da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí para o interior. Em Jundiaí a locomotiva (vermelho meio escuro) era removida e uma locomotiva da Companhia Paulista de Estrada de Ferro assumia — linda, linda, azul… — e o trem passava a ser da Paulista. Em Jundiaí o trem parava uns 15 minutos e a plataforma da estação ficava cheia de vendedores ambulantes vendendo, entre outras coisas, "pipóóóóóóóóóóóca". Vendiam uva e figo também: Jundiaí é terra de uva e figo.

Campinas era um importante entrocamento ferroviário. Além dos trilhos da Companhia Paulista passarem pela cidade, começava ali também a linha da Companhia Mogiana, e havia um ramal, o da Companhia Ituana, que ligava Campinas diretamente à Estrada de Ferro Sorocabana, em Itu. Salto, onde estou agora, ainda tem sua estação — devidamente abandonada. Elias Fausto, aqui juntinho, também. Estive lá na semana passada e vi fotos da estação.

De Santo André também íamos a Santos de trem. A Jundiaí do trajeto para Santos era Paranapiacaba, pequena cidade, que nunca vi sem neblina, na beirada da serra, onde o trem começava a ser literalmente puxado para subir a serra. Emocionante.

Alguém cometeu um crime contra o Brasil, deixando todo o nosso enorme sistema ferroviário ser sucateado. Precisavam ser identificados e punidos os criminosos, post mortem, se necessário.

Por indicação do jornalista José Carlos Daltozo, de Martinópolis, SP, que tem escrito sobre Lucélia (vide artigo recente  "Lucélia – Terra Natal", neste space), encontrei o site http://www.estacoesferroviarias.com.br. Lá você pode encontrar fotos da estação ferroviária de sua cidade, se ela teve uma. E lá encontrei referência ao site http://www.trem.org.br, que, por sua vez, tem vários links relacionados. Uma mina de informação. Ao escrever essas referências me lembrei de que o meu caro amigo, Tonhão (Antonio Morales), de Bauru, um dia fez referências a sites sobre ferrovias. O pai dele foi ferroviário.

Vamos ajudar a preservar a memória do trem…

Em Salto, 2 de agosto de 2006

PROCON ou PAICON?

Enquanto ia do meu sítio para o "downtown, Greater Salto", ouvia a CNN, que, em programa local, de Campinas, entrevistava alguém do PROCON de Vinhedo.

Tradicionalmente o PROCON tenta proteger o consumidor. Se você é lesado ao comprar alguma coisa ou algum serviço, ou se alguma loja anuncia alguma oferta e na hora se recusa a honrá-la, você recorre ao PROCON.

Mas agora fiquei sabendo que o PROCON está ocupado em "proteger" (termo do entrevistado) as pessoas que estão endividadas. Segundo a ele, as pessoas contraem dívidas, que depois não podem pagar, porque em algum momento consumiram algo que se propuseram a pagar a prazo. Chega um ponto em que alguns têm mais dívidas do que conseguem pagar com sua renda mensal. E, segundo o entrevistado, não têm a quem recorrer. Não tinham: agora têm, o "paizão" PROCON. O órgão deveria mudar seu nome para PAICON.

Quando recorrerem ao PROCON nesse caso, estarão recorrendo contra quem??? Só pode ser contra si mesmos, porque ninguém os obrigou a contrair mais dívidas do que conseguem pagar.

Segundo o entrevistado, o PROCON agora se propõe proteger esses até aqui desprotegidos, e ajudá-los. A razão? Quem está endividado, fica com a auto-estima baixa, e nenhum ser humano deve sentir humilhado por estar devendo demais, acima de sua capacidade de pagar.

Fico imaginando o que o PROCON fará, numa situação dessas… Ajudará o indivíduo a renegociar suas dívidas e assinará com avalista? E se o indivíduo não pagar a dívida negociada, como fica a auto-estima dele? O PROCON daí paga a dívida no lugar dele para ele não ser humilhado?

O entrevistado do PROCON se mostra ciente de alguns dos riscos da nova empreitada do órgão. Entre os super-endividados pode haver gente de "má fé", que consumiu com a intenção de não pagar… O entrevistado diz saber que isso acontece. Por causa disso, o PROCON estará realizando, nos próximos meses, uma grande pesquisa para identificar "o consumidir de ‘boa fé’ que está sobre-endividado". É esse que o PROCON quer proteger.

Mais uma vez o governo está intervindo para proteger as pessoas dos resultados de suas próprias ações. Me faz lembrar de um dito que ouvi há tempo: "A humanidade começou a ir pro brejo quando, pela ação do governo, a burrice deixou de ser fatal".

Em Salto, 28 de julho de 2006

Lucélia… Terra natal

[Os materiais transcritos neste artigo foram retirados do site "Nossa Lucélia": http://www.geocities.com/nossalucelia/]

[Nota: Este material foi colocado aqui no blog no dia 25/7/2006. Não estava muito clara a autoria dos diversos textos que transcrevi. Por isso interpretei o melhor que pude — mas cometi erros. Hoje, 1/8/2006, fui contatado por José Carlos Daltozo, a quem havia atribuído a autoria do artigo de 1942. Isso teria sido possível, porque José Carlos Daltozo nasceu apenas em 1950… Vou corrigir as referências, mantendo a data original da inserção do artigo no blog.]


[Abaixo, texto de Eduardo Chaves]

Nasci em Lucélia, Estado de São Paulo. No dia 7 de setembro de 1943. Só que naquele tempo Lucélia não era uma cidade (município). Não era nem mesmo um Distrito de Paz. Como diz o autor desconhecido do artigo publicado em 1942 no Correio Paulistano, transcrito adiante, Lucélia, quando nasci, "do ponto de vista administrativo não [era] nada": era apenas uma "vila rural", um povoado, um agrupamento de gente, um "patrimônio", como se dizia então. Pertencia, em sua maior parte, a Balisa. Mas Balisa, também, não era quase nada: era apenas um bairro — mas já era Distrito de Paz. Pelo jeito pertencia a Martinópolis (antiga José Theodoro), esta sim, já uma real cidade ("do ponto de vista administrativo") naquela época. 

Minha Certidão de Nascimento original, emitida logo depois de meu nascimento em 1943, esclarece: "Nascido em Lucélia, Distrito de Balisa, Município de Martinópolis, Comarca de Presidente Prudente". Faltou mencionar, como esclarece o artigo transcrito adiante, Valparaíso e Guararapes.

Há pouco tempo (creio que em 2003), quando visitei Lucélia (pela primeira vez, desde que saí de lá em 1944), fui ao Cartório do Registro Civil da cidade (agora sem dúvida uma cidade, e, portanto, alguma coisa, "do ponto de vista adminsitrativo" — mas ainda hoje, mais de sessenta anos depois, apenas com cerca de 20 mil habitantes!) e lá pedi — e, maravilha, obtive — uma segunda via de minha Certidão de Nascimento. Nenhuma referência agora a Balisa, a Martinópolis, a Presidente Prudente. Só se faz referência a Lucélia. E não há, no livro de registros, que fiz questão de ver e fotografiar, nenhuma referência, nas margens, aos meus dois casamentos (e ao meu divórcio, no primeiro casamento), que deveriam estar devidamente averbados lá!!! Segundo o Cartório de Registro Civil de minha terra natal sou solteríssimo da silva. Só o bom senso me impede de fugir para um outro estado e me casar de novo, pela terceira vez… Se o cartório do novo casamento fizesse o que os outros não fizeram, e mandasse averbar o casamento no Cartório de Lucélia, este o faria, sem problemas. Mas não será preciso. O segundo casamento, dizem os entendidos, é a vitória da esperança sobre a experiência. Já o terceiro!!! Esse não seria vitória de nada, a não ser, talvez, do sentimento, ou da tesão, sobre a razão…

Essa bagunça administrativa, o fato de que nasci em uma "terra de ninguém", como diz o artigo publicado em 1942 no Correio Paulistano, talvez explique o meu liberalismo radical, quase anárquico. Se nasci em uma "terra de ninguém", que, "do ponto de vista administrativo", não era nada, e consegui sobreviver, por que precisamos de governo? Ou, pelo menos, de muito governo? Melhor é o governo que menos governa, já dizia Thomas Jefferson (nascido, se bem me lembro, em 1743, duzentos anos antes de mim). 

Transcrevo, abaixo, três matérias, retiradas da Internet. A primeira de autoria de Marcos Antonio Vazniac, jornalista de Lucélia; a segunda é um artigo de José Carlos Daltozo, jornalista de Martinópolis, com o título "Um Distrito Chamado Balisa"; e a terceira é um artigo, de autor desconhecido, com o título "Povoado de Lucélia – Terra de Ninguém", publicado no Correio Paulistano de 11 de março de 1942 (18 meses antes do meu nascimento), e que foi encaminhado para o site "Nossa Lucélia" por Ralph Mennucci Giesbrecht. As três matérias estão todas na página http://www.geocities.com/nossalucelia/1942.html. O texto de Marcos Antonio Vazniac serve de introdução aos outros dois. Dou, portanto, o devido crédito aos responsáveis pelo site "Nossa Lucélia" pelo material transcrito.

Balisa, como afirma José Carlos Daltozo, pelo jeito sumiu não só de minha nova Certidão de Nascimento, mas até mesmo do mapa: simplesmente desapareceu da face da Terra. Quem sabe tenha deixado saudade em alguém. Ouvi, quando estive em Lucélia, que o nome "Balisa" vinha do fato de que naquele lugar houve uma tentativa de demarcar as terras, e os habitantes do local, todos "posseiros" (grileiros?) simplesmente jogaram as "balisas" de demarcação no rio… Donde o nome. No caso de Lucélia, porém, não sei de onde vem o nome da cidade. Só sei que as perspectivas de crescimento da "vila rural" que o autor do artigo no Correio Paulistano descortinou não deram em nada. Mas, pelo menos, Lucélia não teve o destino de Balisa: não sumiu do mapa. Continua lá, à beira da estrada que vai de Marília para Dracena. E tem até Igreja Universal do Reino de Deus na entrada. A população, porém, não chega a 20 mil "almas": 18.316 habitantes, sendo 9.472 homens e 8.844 mulheres, segundo o Censo de 2000.

Apesar de o artigo de José Carlos Daltozo afirmar que Lucélia foi colonizada a partir de 1927 e a cidade ter sido fundada em 1939, pelo que sei Lucélia só se tornou município depois de eu ter nascido (fato de certo modo confirmado pelo artigo do Correio Paulistano, que afirma que em 1942 (ano em que o artigo foi publicado) Lucélia não era uma cidade (município) ainda, só tendo condições de vir a ser "em fins de 1943". Pelo jeito a burocracia complicou a vida do patrimônio que administrativamente não era nada por mais um tempo, ainda, porque pelo que sei não foi nem "em fins de 1943" que Lucélia se tornou um município. Em e-mail José Carlos Daltozo me informa que Lucélia só se "emancipou" (tornando-se distrito de paz, município e comarca ao mesmo tempo) em 1944. Eis o que informa José Carlos Daltozo: "Através do Decreto 14.334, de 30.11.1944, Lucélia se tornou Distrito de Paz, Município e Comarca simultâneamente (um caso raríssimo, senão único, no Brasil). Seu território englobou parte do município de Martinópolis, desde o Rio do Peixe (Balisa deixou de ser distrito de Martinópolis e se tornou um simples bairro rural de Lucélia) e também englobou parte dos territórios de Valparaíso, Guararapes, Presidente Prudente, Presidente Venceslau e outros". Agradeço ao José Carlos Daltozo a gentileza dessas infomações.

Deixo aqui registrados esses fatos para que, se alguém os ler, e souber mais do que eu, possa, tendo a gentileza, me informar… O meu e-mail é eduardo@chaves.com.br.

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[Texto de Marcos Vazniac, diretor do jornal Gazeta Regional, de Lucélia, incluindo referências a um artigo de José Carlos Daltozo, publicado no jornal Folha da Cidade, de Martinópolis – cidade em que Daltozo reside]

A duas léguas do Bairro Balisa, no alto do espigão do Peixe/Aguapeí, acontecia muito rápido o nascimento de LUCÉLIA. E com isso, começava o desaparecimeto do Bairro Balisa.

Nada mais existe no local, nem vestígios de construções. Apenas um rio chamada Balisa, que separa Lucélia de Pracinha. Nas margens desse rio é que existia o povoado.

A reportagem da Folha da Cidade de Martinópolis, esteve no local em 1997 e encontrou um remanescente, um senhor de origem russa, Stepan Povliuk que apesar dos 79 anos, ainda lúcido, contou o que sabia.

"Na época que vim para José Theodoro (nome antigo de Martinópolis), em 1932, já havia uma colônia russa no local chamado Balisa. Ainda nem se pensava que existiria a cidade de Lucélia.

O motivo de se juntarem muitos russos naquele local é que havia um capataz de uma fazenda dessa origem e foi chamando os demais, espalhados em várias cidades do interior paulista. Lá nas margens do rio Balisa, chegou a ter umas quarenta residências, cinco casas comerciais, uma igreja ortodoxa, cemitério, farmácia, uma serraria e hoje nada mais existe. Todos venderam seus lotes baratos e mudaram-se para Lucélia, quando abriram o novo povoado. Só eu estou ainda aqui, neste sítio. Sou nascido em Pitronka, na Bessarábia, atual Romênia. Quando nasci (27.10.1918), minha cidade pertencia à Russia.

A vida naquele tempo era uma dificuldade. Na roça, nosso povo não estava acostumado com lavouras do tipo que se plantava aqui. Foi difícil se acostumar com mandioca, café, banana, mamão, manga. Era tudo desconhecido para nosso povo. Mas sobrevivemos e alguns descendentes hoje moram em Lucélia.

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Um Distrito Chamado Balisa

José Carlos Daltozo
(MTb 32.709)

Hoje é uma simples pastagem, cortada por um riacho assoreado denominado Balisa, mas já foi de grande importância para as cidades de Martinópolis, Lucélia e Osvaldo Cruz. Estamos falando do antigo distrito de Balisa, que pertenceu originalmente a Martinópolis e depois da emancipação de Lucélia, em fins de 1944, passou a ser distrito daquela cidade da Alta Paulista.

Quando surgiu o povoado de Califórnia, atual cidade de Osvaldo Cruz, este também passou a pertencer juridicamente ao distrito de Balisa, como bem informa o escritor José Alvarenga em seu livro Osvaldo Cruz – Achegas Históricas: "…a 16 de novembro de 1942, pelo decreto-lei estadual nº 13.050, a então Vila de Califórnia, sob a administração de Walter Wild, foi elevada à categoria de distrito de 2ª zona com sede em Balisa, no município de Martinópolis e comarca de Presidente Prudente." Balisa era, então, um florescente povoado com várias residências, algumas casas comerciais, uma serraria, um clube esportivo, uma igreja Batista e uma Igreja Ortodoxa Russa, uma vez que ali residiam inúmeros eslavos. O motivo de ter existido, naquele povoado, vários descendentes de povos eslavos, é interessante.

Em recente visita à cidade de Lucélia, entrevistei alguns imigrantes eslavos e fiz um ligeiro apanhado histórico da chegada deles neste longínquo rincão do Brasil. Eles fugiam do comunismo e da pobreza reinante na então União Soviética e nos países satélites. Eram russos, ucranianos, romenos, búlgaros, entre outros, que ao chegar ao Brasil se espalharam por várias cidades do interior paulista. Ficaram sabendo da venda de terras em suaves prestações, por parte de Luiz Ferraz de Mesquita, que estava parcelando parte de sua fazenda de 2.735 alqueires, tendo denominado-a Fazenda Balisa. Mesquita obteve essa fazenda como pagamento pelos seus serviços de agrimensor na demarcação de terras da gigantesca Fazenda Monte Alegre. Deu esse nome ao local porque perdeu três balisas de demarcação nas proximidades do ribeirão que cortava o loteamento rural. Ficava a cerca de 50 km. de Martinópolis, sede do município, pois naquela época nosso território avançava além do rio do Peixe, nossa atual divisa municipal com Pracinha, chegando até o espigão divisor Peixe-Aguapeí.

O povoado de Balisa era pequeno, mas a zona rural ao redor era formada de terras férteis, chegando a ter 2.756 habitantes. Segundo entrevista do autor deste artigo com Stepam Povliuki, em junho de 1997, para o jornal Folha da Cidade de Martinópolis, este relatou: "desci na estação ferroviária de José Teodoro, nome antigo de Martinópolis, no ano de 1932, me dirigindo ao povoado de Balisa, onde já haviam outros russos, uma vez que um capataz de uma fazenda nas proximidades era dessa nacionalidade e foi chamando os conterrâneos. Lembro que Balisa chegou a ter umas quarenta residências, cinco casas comerciais, uma igreja ortodoxa, uma farmácia, uma serraria e um cemitério. Hoje nada mais existe no local, todo mundo foi se mudando para Lucélia quando fundaram aquele povoado e venderam terras baratas. Sou nascido em Pitronska, na Bessarábia, atual Romênia, mas na época que nasci, em 1918, pertencia à Rússia. Tivemos muita dificuldade ao chegar no Brasil e, depois, na adaptação ao clima e costumes da nova terra, pois não conhecíamos lavouras de café, nem sabíamos como cultivá-lo. Também desconhecíamos a mandioca e frutas como banana, mamão e manga. Aqui era tudo muito diferente."

No Histórico de Lucélia, fornecido pela Prefeitura daquela cidade, consta que a colonização de Lucélia foi iniciada por volta de 1927, quando o Dr. Luiz Ferraz de Mesquita iniciou a abertura e formação das fazendas Balisa e Santa Cecília. Nessa mesma época chegaram pela E.F.Sorocabana, imigrantes russos e outros povos eslavos que, negociando com o Dr. Mesquita, se estabeleceram nos bairros de Balisa e Água Grande. A gleba foi ligada por uma estrada de rodagem ao povoado de José Teodoro (atual Martinópolis), de onde o Dr. Mesquita passou a orientar e dirigir os trabalhos de desbravamento e colonização. Os estrangeiros que compravam terras tinham que parar em Balisa para iniciar a derrubada da mata, o que fez dela um patrimônio centro de colonização, com a instalação de uma serraria e uma máquina de beneficiar arroz.

A cidade de Lucélia, fundada em 1939, a seis quilômetros do distrito de Balisa, mas ainda dentro do município de Martinópolis, foi fruto de um plano urbanístico e econômico racional, numa associação de Luiz Ferraz de Mesquita com Max Wirth e a CAIC – Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização."

Lucélia tem um histórico curioso em seus primeiros anos de vida, quando era um insipiente povoado e seu território fazia parte de Martinópolis. Os comerciantes estabelecidos no lado esquerdo da atual Avenida Internacional pagavam seus impostos à Prefeitura de Martinópolis, enquanto parte dos comerciantes estabelecidos no lado direito pagavam para a Prefeitura de Valparaíso e outra parte para a de Guararapes.

A avenida, situada exatamente no espigão divisor dos rios Peixe-Aguapei, foi implantanda exatamente na fronteira dos territórios dessas três cidades, uma da região Alta Sorocabana e duas da região Noroeste. O Decreto 9.775, de 30.11.1938, que criou o Município de Martinópolis, foi publicado no Diário Oficial de 19.12.1938 e menciona, no final, a criação de Balisa com as seguintes confrontações: "O distrito de paz de Balisa, que fica criado, terá as seguintes divisas internas, com a sede do município de Martinópolis: começam no rio do Peixe, na foz do Ribeirão da Confusão e descem por aquele até a barra do ribeirão dos Ranchos." Do outro lado, como dissemos anteriormente, ia até o espigão divisor dos rios Peixe-Aguapeí. Uma entrevista realizada há poucos meses com Jorge Cavlak, nascido em Balisa e atualmente residindo em Lucélia, esclarece que na realidade haviam dois pequenos povoados, um ao redor do ribeirão Balisa, no local onde passava a estrada de rodagem de Martinópolis para Lucélia, e outro um pouco mais adiante, no ribeirão Água Grande. Mencionou vários nomes de pequenos proprietários eslavos que residiam em sitios vizinhos ao povoado e à estrada de rodagem. O sítio mais próximo à estrada era de Stefan Paley, no sítio ao lado moravam os Trukshen, em seguida vinham os sítios de Inácio Brichiuk, Simão Popik e por último Demétrio Bastinvadji. Do outro lado do ribeirão, fazendo fronteira com esses proprietários, havia os sítios de Nicolau Uzum, Jorge Delive, Basílio Greck, Hartion, Afanásio, Jeremias Posledniak, Profor, Jacob e por fim Demétrio Cavlak.

Terminando os sítios havia a fazenda do Dr. Mesquita. Nos fundos dos sítios dos primeiros citados, havia os sitios de Jorge Mueulik, Jorge Puskof, Basílio Kirkoff e João Berholf. Do outro lado da estrada só havia dois pequenos proprietários, Stepan Pavioliuk e Pedro Peikof, em seguida vinham as terras pertencentes à fazenda do Dr. Zeferino Veloso. Jorge Cavlak informou também que a igreja próxima à estrada, dentro do sítio dos Paley, era protestante (Batista) e que a Igreja Ortodoxa Russa ficava um pouco mais distante, na propriedade de Jeremias Posledniak. Um padre russo visitava essa igreja poucas vezes por ano, devido à distância da ferrovia e a precariedade das estradas. As recordações que ele tem do pequeno povoado de Água Grande são poucas, ficava distante dois quilômetros de Balisa, em direção de Lucélia. Recorda-se da existência de apenas uma casa comercial, uma serraria e um clube social e esportivo com o nome de ABC. Ambos, Balisa e Água Grande, desapareceram com o crescimento de Lucélia, principalmente depois da chegada da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e os atrativos e oportunidades de uma cidade em franco desenvolvimento. Todos os eslavos foram vendendo, aos poucos, suas propriedades rurais e mudando para Lucélia, até extinguir os dois povoados.

A mãe do Jorge, Dona Helena, bastante idosa mas ainda muito lúcida, informou que nasceu na Bulgária, acompanhou seu marido no desbravamento da região de Balisa, onde morou muitos anos. O que mais se recorda são as festas rurais, onde as mulheres podiam se alegrar um pouco. Isso porque os homens, mesmo trabalhando de sol a sol nas lavouras, iam aos jogos de futebol nos finais de semana, ou jogavam baralho, bebiam, viajavam para Martinópolis buscar mantimentos, vender porcos, galinhas etc. As mulheres, no entanto, passavam a maior parte de suas vidas trancadas em casa, costurando, bordando, fazendo comida, cuidando dos filhos. Os bailes e as cerimônias religiosas eram as únicas oportunidades que tinham de se divertir um pouco.

O jornalista Marcos Antonio Vazniac, do jornal Gazeta Regional, editado em Lucélia, também é descendente de eslavos e sempre que consegue algumas fotos antigas, publica-as no jornal onde trabalha, na seção Recordando.

Outro morador de Lucélia, o professor Jeová Severo da Silva, escreveu uma monografia de conclusão de curso de Geografia na Unesp de Presidente Prudente sob o tema "Lucélia-SP, do início ao meio: uma análise da evolução do município", onde também faz breve apanhado histórico sobre Balisa, considerando-a o berço de sua cidade.

Quem passar pela estrada vicinal que liga Lucélia ao novo município de Pracinha, em direção ao Rio do Peixe, verá um pequeno riacho assoreado, barrancos de dois metros de altura nas laterais, algumas árvores nas margens, terreno todo plantado com capim, alguns bois pastando, esse era o local onde existiam os sítios dos russos e demais eslavos, onde um povoado chamado Balisa foi formado, mas que desapareceu completamente a partir da década de 1950. Foi um povoado de grande valor histórico, pertenceu a Martinópolis muitos anos e tornou-se a célula mater de duas importantes cidades da Alta Paulista: Lucélia e Osvaldo Cruz.

(Escrito com a colaboração de Marcos Antonio Vazniac)

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Povoado de Lucélia – Terra de Ninguém

[Autor desconhecido]

(Correio Paulistano, 11 de março de 1942)

Todos nós temos a impressão de que a era de criação das cidades espetaculares, das cidades que brotam do dia para a noite, como se as tocasse a varinha mágica da iniciativa particular, já passou. Os casos típicos de Marília e Presidente Prudente — originada esta de um vagão de estrada de ferro, que servia de posto telegráfico e que já possuía oitocentas casas quando lhe deram o primeiro escrivão de paz, ao mesmo tempo que o primeiro prefeito; enquanto Marília crescia, sistematicamente, de dois mil habitantes por ano, vindo a ter na sede 24 mil almas doze anos depois de nascida — esses casos, dizíamos, parece que já se não poderia reproduzir com facilidade.

É engano, porém. São Paulo continua a ser a mesma terra das surpresas de sempre. E como ainda possui duas largas faixas de zona pioneira, a primeira entre o Rio Grande e o Tietê, na qual se está processando o avançamento da Estrada de Ferro de Araraquara, e a segunda, entre o Aguapeí e o rio do Peixe, em que a Companhia Paulista está realizando seu prolongamento para além de Marília, é nesses territórios que vêm surgindo as repetições daqueles fenômenos.

O noticiário dos jornais se refere a miúdo a uma povoação de Brasilândia que está em formação no município de Tanabi, para além do ribeirão Marinheiro, cerca de cem quilômetros além de Rio Preto, localidade que já possui cerca de duzentas casas, embora não passe, a rigor, de um bairro rural.

O caso mais interessante, entretanto, é Lucélia. Logo depois de criado o distrito de paz de Balisa, no município de Martinópolis, que acaba de ser desmembrado de Regente Feijó, na Alta Sorocabana, a povoação daquela vila começou a mudar-se para um ponto situado no alto do espigão Peixe-Aguapeí e distante de Balisa cerca de duas léguas. O aglomerado cresceu rapidamente em prazo muito curto e dentro de pouco, sob a denominação de Lucélia, paralisou completamente o surto de Balisa e se impôs como o núcleo de uma grande cidade futura. Hoje Lucélia, que do ponto de vista administrativo não é nada, pois não term nem mesmo cartório de paz e registro civil, possui melhoramentos e requisitos que faltam em cidades bem mais antigas.

A dificuldade para pôr ordem na vida daquele povoado provem do fato de que a cidade — chamêmo-la assim — não pertence a ninguém. Foi construída de tal forma que seu perímetro está compreendido dentro de três municípios e de três comarcas diferentes. Já dissemos que fica sobre o espigão. O lado do sul, o território é de Martinópolis, comarca de Presidente Prudente. Do lado norte, as coisas complicam-se ainda mais: o povoado é dividido pela conhecida reta do governo, que vai ao Salto de Carlos Botelho, no rio Aguapeí, e nessas condições a zona de leste é do município de Valparaíso, comarca do mesmo nome, e a zona de oeste é do município de Guararapes, comarca de Araçatuba. E Lucélia fica a cerca de 60 quilômetros tanto de Valparaíso como de Martinópolis como de Tupã, que é hoje a ponto dos trilhos da Companhia Paulista. O remédio, pois, seria dar autonomia municipal ao novo povoado. Mas isto, de acordo com a lei federal, só poderá acontecer em fins de 1943. E até lá Lucélia terá de esperar como simples bairro.

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Em Salto, 24 de julho de 2006 (com correções em 1 de agosto de 2006) 

"Give me liberty or give me death"

Patrick Henry’s Speech: Give Me Liberty or Give Me Death

[From the site A Chronology of US Historical Documents at The University of Oklahoma College of Law –

Give Me Liberty or Give Me Death

March 23, 1775

By Patrick Henry

No man thinks more highly than I do of the patriotism, as well as abilities, of the very worthy gentlemen who have just addressed the house. But different men often see the same subject in different lights; and, therefore, I hope it will not be thought disrespectful to those gentlemen if, entertaining as I do opinions of a character very opposite to theirs, I shall speak forth my sentiments freely and without reserve. This is no time for ceremony. The question before the house is one of awful moment to this country. For my own part, I consider it as nothing less than a question of freedom or slavery; and in proportion to the magnitude of the subject ought to be the freedom of the debate. It is only in this way that we can hope to arrive at the truth, and fulfill the great responsibility which we hold to God and our country. Should I keep back my opinions at such a time, through fear of giving offense, I should consider myself as guilty of treason towards my country, and of an act of disloyalty toward the Majesty of Heaven, which I revere above all earthly kings.

Mr. President, it is natural to man to indulge in the illusions of hope. We are apt to shut our eyes against a painful truth, and listen to the song of that siren till she transforms us into beasts. Is this the part of wise men, engaged in a great and arduous struggle for liberty? Are we disposed to be of the numbers of those who, having eyes, see not, and, having ears, hear not, the things which so nearly concern their temporal salvation? For my part, whatever anguish of spirit it may cost, I am willing to know the whole truth, to know the worst, and to provide for it.

I have but one lamp by which my feet are guided, and that is the lamp of experience. I know of no way of judging of the future but by the past. And judging by the past, I wish to know what there has been in the conduct of the British ministry for the last ten years to justify those hopes with which gentlemen have been pleased to solace themselves and the House. Is it that insidious smile with which our petition has been lately received?

Trust it not, sir; it will prove a snare to your feet. Suffer not yourselves to be betrayed with a kiss. Ask yourselves how this gracious reception of our petition comports with those warlike preparations which cover our waters and darken our land. Are fleets and armies necessary to a work of love and reconciliation? Have we shown ourselves so unwilling to be reconciled that force must be called in to win back our love? Let us not deceive ourselves, sir. These are the implements of war and subjugation; the last arguments to which kings resort. I ask gentlemen, sir, what means this martial array, if its purpose be not to force us to submission? Can gentlement assign any other possible motive for it? Has Great Britain any enemy, in this quarter of the world, to call for all this accumulation of navies and armies? No, sir, she has none. They are meant for us: they can be meant for no other. They are sent over to bind and rivet upon us those chains which the British ministry have been so long forging. And what have we to oppose to them? Shall we try argument? Sir, we have been trying that for the last ten years. Have we anything new to offer upon the subject? Nothing. We have held the subject up in every light of which it is capable; but it has been all in vain. Shall we resort to entreaty and humble supplication? What terms shall we find which have not been already exhausted? Let us not, I beseech you, sir, deceive ourselves. Sir, we have done everything that could be done to avert the storm which is now coming on. We have petitioned; we have remonstrated; we have supplicated; we have prostrated ourselves before the throne, and have implored its interposition to arrest the tyrannical hands of the ministry and Parliament. Our petitions have been slighted; our remonstrances have produced additional violence and insult; our supplications have been disregarded; and we have been spurned, with contempt, from the foot of the throne! In vain, after these things, may we indulge the fond hope of peace and reconciliation.

There is no longer any room for hope. If we wish to be free–if we mean to preserve inviolate those inestimable privileges for which we have been so long contending–if we mean not basely to abandon the noble struggle in which we have been so long engaged, and which we have pledged ourselves never to abandon until the glorious object of our contest shall be obtained–we must fight! I repeat it, sir, we must fight! An appeal to arms and to the God of hosts is all that is left us! They tell us, sir, that we are weak; unable to cope with so formidable an adversary. But when shall we be stronger? Will it be the next week, or the next year? Will it be when we are totally disarmed, and when a British guard shall be stationed in every house? Shall we gather strength but irresolution and inaction? Shall we acquire the means of effectual resistance by lying supinely on our backs and hugging the delusive phantom of hope, until our enemies shall have bound us hand and foot? Sir, we are not weak if we make a proper use of those means which the God of nature hath placed in our power. The millions of people, armed in the holy cause of liberty, and in such a country as that which we possess, are invincible by any force which our enemy can send against us. Besides, sir, we shall not fight our battles alone. There is a just God who presides over the destinies of nations, and who will raise up friends to fight our battles for us. The battle, sir, is not to the strong alone; it is to the vigilant, the active, the brave. Besides, sir, we have no election. If we were base enough to desire it, it is now too late to retire from the contest. There is no retreat but in submission and slavery! Our chains are forged! Their clanking may be heard on the plains of Boston! The war is inevitable–and let it come! I repeat it, sir, let it come.

It is in vain, sir, to extentuate the matter. Gentlemen may cry, Peace, Peace–but there is no peace. The war is actually begun! The next gale that sweeps from the north will bring to our ears the clash of resounding arms! Our brethren are already in the field! Why stand we here idle? What is it that gentlemen wish? What would they have? Is life so dear, or peace so sweet, as to be purchased at the price of chains and slavery? Forbid it, Almighty God! I know not what course others may take; but as for me, give me liberty or give me death! 

[Transcribed from http://www.law.ou.edu/ushistory/henry.shtml]

Em Salto, 24 de julho de 2006

Educação fiscal

No dia 16/7/2006 coloquei em minha lista de discussão "4pilares" a mensagem abaixo, descrita, na linha de assunto, como "Educação Fiscal", acompanhada de uma lista das alíquotas de impostos que incidem sobre produtos de consumo básico (que recebi de Winston Ling pela Internet, mas é atribuída ao IBPT – Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário).
 
Eis a mensagem:
 
—–
 
Pode parecer off-topic nesta lista, mas acredito que não seja. Nós todos somos, como cidadãos brasileiros, absolutamente ignorantes dos impostos que pagamos. Repetimos, feito carneirinhos, reclamações do número e do preço de pedágios. Mas o pedágio é, de todas as taxas, uma das mais justas. Paga quem usa — paga por um serviço. Quem paga está vendo a prestação ali no ato, na forma de boas estradas, de segurança (câmeras interligadas por fibras ópticas), de atenção à saúde (ambulâncias e até mesmo helicópteros, como existem na AutoBan). 
 
O duro é pagar impostos altíssimos sem nem saber que está pagando, ou quanto. Abaixo, uma tabela, que esclarece isso um pouco. É um absurdo. Em média, 40% do preço de um produto vai para o governo — para o governo usar você sabe como: fazendo publicidade, viajando, pagando preços superfaturados para receber parte do preço de volta para caixinhas dos partidos (é assim que surge o Caixa 2) ou para os bolsos dos parlamentares. Ou para financiar movimentos criminosos e arruaceiros.
 
Por isso, apesar de todos esses impostos, o reajuste dos aposentados dos INSS foi vetado pelo Presidente Lulla.
 
Precisamos começar a nos preocupar com nossa educação fiscal — e com a de nossos filhos e alunos.
 
–Eduardo
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Eduardo O C Chaves
eduardo@chaves.com.br
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LISTA de ALÍQUOTAS:
 
From: Winston Ling [mailto:winston_ling@yahoo.com]
Sent: Saturday, 15 July, 2006 23:03
To:
Acorda_Brasil@cm-ms5.globat.com
Subject: É vc quem paga..
 
Olá,
 
Não sei se vcs já tiveram acesso a esses números, assim estou tomando a liberdade de enviar-lhes a tabela dos impostos cobrados de alguns produtos brasileiros. Não é por nadad não, mas fiquei impressionado com a taxação de alguns itens básicos de alimentação do brasileiro (trigo, óleo de soja, farinha, etc.).
 
Mas o duro mesmo, é ver que quase nada temos em troca desses impostos…
 
Abraços!
 
QUERO MAIS JUSTIÇA TRIBUTÁRIA NO BRASIL!!!
NÃO DÁ PRÁ CONTINUAR COM ESSES ÍNDICES DE IMPOSTOS SOBRE COISAS TÃO BÁSICAS PARA UMA VIDA DIGNA!!!!
DIVULGUEM! VAMOS NOS MOBILIZAR!             
 
IBPT – INSTITUTO BRASILEIRO DE PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO
Percentual de Tributos sobre o Preço Final
 
PRODUTO – % Tributo s/preço final
 
MÓVEIS
 
Mesa de madeira – 30,57%
Cadeira de madeira –  30,57%
Sofá de madeira/plástico –  34,50%
Armário de madeira – 30,57%
Cama de madeira – 30,57%
Outros móveis –  37,56%
 
MEIOS DE TRANSPORTE POPULARES
 
Bicicleta – 34,50%
Motocicleta de até 125 cc – 44,40%
 
MEIOS DE TRANSPORTE NÃO POPULARES
 
Motocicleta acima de 125 cc –  49,78%
Automóvel – 43,63%
 
FORMAS DE TRANSPORTE
 
Passagens aéreas – 8,65%
Transporte rodoviário interestadual de passageiros – 16,65%
Transporte urbano de passageiros – Metropolitano – 22,98%
Transporte aéreo de cargas – 8,65%
Transporte rodoviário interestadual de cargas – 21,65%
 
MATERIAL DE USO DOMÉSTICO
 
Vassoura – 26,25%
Tapete – 34,50%
 
"UTILITIES"
 
Conta de água – 29,83%
Conta de luz – 45,81%
Conta de telefone – 47,87%
 
MEDICAMENTOS – 36%
 
MATERIAIS DE CONSUMO
 
Roupas – 37,84%
Sapatos – 37,37%
Cigarro – 81,68%
Gasolina – 57,03%
 
PRODUTOS ALIMENTÍCIOS BÁSICOS
  
Carne bovina – 18,63%
Frango – 17,91%
Peixe – 18,02%
Sal – 29,48%
Arroz – 18%
Óleo de soja – 37,18%
Farinha de trigo – 34,47%
Feijão – 18%
Açúcar – 40,4%
Leite – 33,63%
Café – 36,52%
Macarrão – 35,20%
Margarina – 37,18%
Molho de tomate – 36,66%
Ervilha – 35,86%
Milho verde – 37,37%
Biscoito – 38,5%
Chocolate – 32%
Achocolatado – 37,84%
Ovos – 21,79%
Frutas – 22,98%
Álcool – 43,28%
Detergente – 40,50%
Saponáceo – 40,50%
Sabão em barra – 40,50%
Sabão em pó – 42,27%
Desinfetante – 37,84%
Água sanitária – 37,84%
Esponja de aço – 44,35%
 
PRODUTOS BÁSICOS DE HIGIENE
  
Sabonete – 42%
Xampu – 52,35%
Condicionador – 47,01%
Desodorante – 47,25%
Aparelho de barbear – 41,98%
Papel Higiênico – 40,50%
Pasta de Dente – 42,00%
 
MATERIAL ESCOLAR
  
Caneta – 48,69%
Lápis – 36,19%
Borracha – 44,39%
Estojo – 41,53%
Pastas plásticas – 41,17%
Agenda – 44,39%
Papel sulfite – 38,97%
Livros – 13,18%
Papel – 38,97%
Mochilas – 40,82%
Régua – 45,85%
Pincel – 36,90%
Tinta plástica – 37,42%
 
BEBIDAS
  
Refresco em pó – 38,32%
Suco – 37,84%
Água – 45,11%
Cerveja – 56%
Cachaça – 83,07%
Refrigerante – 47%
CD – 47,25%
DVD – 51,59%
Brinquedos – 41,98%
 
LOUÇAS
  
Pratos – 44,76%
Copos – 45,60%
Garrafa térmica – 43,16%
Talheres – 42,70%
Panelas – 44,47%
 
PRODUTOS DE CAMA, MESA E BANHO
  
Toalhas – (mesa e banho) – 36,33%
Lençol – 37,51%
Travesseiro – 36%
Cobertor – 37,42%
 
ELETRODOMÉSTICOS
  
Fogão – 39,50%
Microondas – 56,99%
Ferro de Passar – 44,35%
Telefone Celular – 41,00%
Liquidificador – 43,64%
Ventilador – 43,16%
Refrigerador – 47,06%
Vídeo-cassete – 52,06%
Aparelho de som – 38,00%
Computador – 38,00%
Batedeira – 43,64%
 
CASA E MATERIAL DE CONSTRUÇÃO
  
Casa popular – 49,02%
Telha – 34,47%
Tijolo – 34,23%
Vaso sanitário – 44,11%
Tinta – 45,77%
Fertilizantes – 27,07%
 
MENSALIDADES ESCOLARES – 37,68% (COM ISS DE 5%)
 
  
DIVULGUEM!!!!!!!!
 
A mudança do Brasil depende também de você !!!
 
—–
 
Recebi uma resposta, em privado, de alguém que se descreveu e manifestou assim:
 
—–
From: [nome omitido]
Sent: Monday, 17 July, 2006 14:30
To:
eduardo@chaves.com.br
Subject: educação fiscal
 
boa tarde eduardo. meu noime é lilian. sou de [nome da cidade] e trabalho na secretaria da fazenda. a [sic] 3 anos estou trabalhando com educação fsical [sic].
 
o négócio, eduardo, é alem de pedir a nota e, assim, evitar a sonegação, é o cidadão se dispor a acompanhar os atos do governo. a fiscalizar o uso do dinheiro publico.
 
neste programa de educação fiscal, temos tido muito sucesso com as crianças, pois, os adultos… estes querem a lei de gerson. querem levar vantagem, sonegar. não está sendo fácil, mas estamos plantando sementes
 
um abraço
 
[nome]
equipe educação fiscal
[nome da cidada]
 
—–
 
A recusa do uso de maiúsculas e a pontuação é da missivista.
 
Respondi da seguinte forma:
 
—–
 
From: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br]
Sent: Tuesday, 18 July, 2006 08:01
To: [nome omitido]
Subject: RE: educação fiscal
Quando eu falo em educação fiscal, [nome], eu não estou pensando em educar pessoas para serem melhores pagadores de impostos, mas, sim, em educar pessoas para lutar para pagar a menor quantidade possível de impostos…
 
–Eduardo
 
—–
 
Recebi, em resposta, o que a missivista claramente acredita ser uma lição de moral. Novamente as idiossincrasias de redação (minúsculas, pontuação) são da missivista.
 
—–
 
From: [nome omitido]
Sent: Tuesday, 18 July, 2006 09:21
To:
eduardo@chaves.com.br
Subject: RE: educação fiscal
 
eduardo !!!
 
todo cidadão tem direitos e deveres
 
temos direito á educação, segurança, saúde e todos os outros que são garantidos pela constituição.
em contrapartida temos deveres.
 
claro que o mais chato é pagar impostos
 
p/a que o cidadão exerça seu direito a educação, saude, segurança, etc… é preciso que o GOVERNO construa.
 
pra realizar tudo isso, o governo precisa de dinheiro
 
e este dinheiro vem do povo, por meio dos tributos (que se dividem em impostos, taxas e contribuição de melhoria)
 
o governo não pode cobrar impostos como bem entender… é a constituição federal quem determina quais impostos podem ser cobrados pela UNIÃO, ESTADOS  e MUNICÍPIOS.
 
E O IMPOSTO PODE SER DIRETO (qdo incide diretamente sobre a pessoa ou patrimonio, como o IR) OU INDIRETO (qdo incide sobre mercadorias, neste caso atingindo os mais pobres, que consumem tais produtos)
 
são impostos da união: importação de produtos estrangeiros e de exportação; IR (o mais importante), IOF (imposto sobre operações financeiras), IPI (imposto sobre produtos industrializados), ITR (imposto sobre propriedade territorial rural), IMPOSTO SOBRE GRANDES FORTUNAS.
 
mas eduardo, a cidadania implica em ficar de olho no $$$ publico
 
agora os impostos que os estados podem cobrar : ITCMD (imposto sobre transmissão causa mortis e doação de quaisquer bens ou direitos de herança), IPVA (imposto sobre a propriedade de veículos automotores), ICMS (imposto sobre a circulação de mercadorias e serviços)
 
impostos cobrados pelos municipios : IPTU (p/a quem tem terreno ou imóvel urbano), IMPOSTO SOBRE TRANSMISSÃO INTER VIVOS DE BENS IMÓVEIS (ao vender uma casa, terreno, pago na lavratura da escrituta), ISS (pago pelos prestadores de serviços, profissionais liberais, etc…
 
vc não fica bravo qdo seu imposto de renda vem descontado na fonte, e aí, qdo vai ao dentista, médico, ele te diz que COM NOTA é um preço, e SEM NOTA é outro… É JUSTO ISSO EDUARDO???? vc paga e ele sonega…)
 
bem, lutar p/a pagar a menor quantidade possivel de impostos é uma coisa, mas SONEGAR É OUTRA.
 
mesmo porque quem paga o imposto corretamente tem o direito e o dever de  controlar, reclamar e exigir
ser cidadão é pagar impostos, e é certo que eles deveriam ser menores, mas ser cidadão é tambem saber escolher corretamente seus candidatos, fiscalizar o uso do 444 publico, apoiar governos honestos
uma coisa eu ensino a meus filhos: tudo nesta vida tem o lado da  sacanagem e o lado certo.
 
fazer a coisa certa é sempre mais dificil , pois nos sentimos Um só caminhando contra a correnteza.
trabalhar com educação fiscal abriu meus olhos p/a a falta de cidadania que eu estava vivendo.
hj eu sou mais exigente comigo mesma e com o resto.
 
não sou conivente com o "jeitinho"
 
critico na cara os pais que param em fila dupla na porta da escola e trancam os carros e vão pegar seus filhos lá dentro…
 
a falta de educação no transito…
 
os produtos pirateados…
 
vc está lembrado da invasão do movimento das mulheres camponesas em março deste ano na fazenda aracruz? em nome da ignorancia, elas destruiram décadas de pesquisa… dinheiro investido… esforço dos pesquisadores…
 
é certo isso???
 
eduardo, nossa luta é esta; educar o cidadão a ser consicente, por iso o programa chama-se EDUCAÇÃO FISCAL  e não EDUCAÇÃO TRIBUTÁRIA
 
E  EDUCAÇÃO FISCAL começa com a EDUCAÇÃO… e não com FISCAL.
 
não queremos treinar ninguem a ser pagadores de impostos.
 
queremos conscientiza-los p/a a função socioeconomica dos impostos.
 
que está nas mãos do cidadão ter um a sociedade mais equilibrada.
 
ok?
 
um abraço
 
[nome]
EDUCAÇÃO FISCAL [nome da cidade]
 
—–
 
O que dizer a quem adota uma postura como a da missivista?
 
Em primeiro lugar, devo distinguir entre a questão do pagamento de impostos, in abstracto, isto é, em teoria, em princípio, e o pagamento de impostos in concreto, isto é, no Brasil de hoje, com a Constituição que possui e com outras excrescências jurídicas e políticas.
 
Vou procurar discutir a questão nos dois níveis, sem deixar de fazer referência a outro artigo meu neste "Space", publicado em 22/8/2005, que teve o título de "Impostos e taxas (e mais: contribuições, empréstimos compulsórios, etc.)".

 
A Questão in Abstracto
 
Não é segredo para nenhum dos leitores deste blog de que sou um liberal ao estilo clássico que está convencido de que "o melhor governo é o que menos governa" e que defende, portanto, um Estado Mínimo, que possui, apenas, três funções básicas: legislar (função legislativa), fazer cumprir as leis (função jurídica) e manter a lei e a ordem (função policial-militar). Meu Estado Mínimo tem apenas essas funções, que, de certo modo, se resumem em resguardar os direitos individuais: à vida e à integridade física, à liberdade (de expressão, de locomoção, de associação, e de ação na busca dos meios que lhe garantam a felicidade), e à propriedade dos recursos e bens gerados pelo seu trabalho. Cada indivíduo, no exercício dos seus direitos, tem dois deveres básicos: (a) respeitar iguais direitos dos demais indivíduos e (b) custear, através de impostos e taxas, a estrutura do Estado Mínimo, ou seja, o governo. Mas ele só tem o dever de custear essas funções do estado — e o governo tem o dever de prestar contas do uso dos impostos e taxas que lhe foram pagos.
 
Os direitos individuais que o Liberalismo Clássico defende são corretamente chamados de "direitos formais" ou "direitos negativos". O único dever que eles impõem a cada cidadão é o dever de não desrespeitar, violar, etc. os direitos de seus co-cidadãos. Se eu não agir em desrespeito ou violação dos direitos dos demais, estarei cumprindo meu dever para com eles. Além desse dever, e o de sustentar a estrutura do Estado Mínimo, o Liberalismo Clássico não impõe nenhum outro dever ao cidadão. O cidadão, enquanto tal, não tem o dever de ajudar os seus co-cidadãos, ainda que extremamente necessitados, ou de custear algum tipo de ajuda a eles por parte do governo. O indivíduo ajuda apenas quando sua consciência lhe determinar, e ajuda quem ele acha que merece ajuda, da forma que achar mais adequada, e pelo tempo que achar que faz sentido.

A Questão in Concreto, no Brasil

 
Não é segredo para ninguém que nossa Constituição Federal é uma excrescência. Definiu direitos — que, para mim, são supostos direitos — sociais, econômicos, ambientais, e sabe-se lá de que outro tipo. Não há dúvida de que seja a mais "generosa" das constituições atuais.
 
A Constituição Federal, ao irresponsavelmente criar direitos chamados positivos, impôs uma série de deveres a pessoas que não são beneficiárias desses direitos. Como é impossível obrigar alguém a ajudar o outro diretamente (dando-lhe educação, saúde, etc. etc.), a Constituição Federal caracterizou o dever de respeitar esses direitos positivos que ela criou como sendo do Estado, vale dizer, do governo. "Educação, direito de todos, dever do Estado". E assim por diante.
 
Acontece que o Estado (apesar de, hoje em dia, emitir e controlar a moeda) não gera um centavo recursos. Qualquer centavo que o governo gaste sai, em última instância, do meu, do seu, do nosso bolso.
 
Assim, dizer que, aos supostos direitos criados pela Constituição Federal, corresponde um "dever do Estado" é, inegavelmente, impor uma série de deveres a todo cidadão que paga impostos — e todos nós pagamos, até o mais pobre (pois imposto indireto não deixa de ser imposto por ser "invisível").
 
Conseqüência: quando o governo dá milhões de reais ao MSLT, entidade arruaceira, criminosa e irresponsávei que destruiu parte das instalações do Congresso, ele está impondo a mim, a você, a todos nós o dever de custear essa organização arruaceira, criminosa e irresponsável e de manter os vagabundos e criminosos que vivem dela. 99,9% dos brasileiros, em sã consciência, nunca dariam seu dinheiro a organizações desse tipo. Mas, mediante os impostos que pagamos, todos nós nos tornamos cúmplices da existência desse absurdo.
O Bolsa Família talvez seja o mais fraudado de todos os programas do governo federal. Ele é custeado por mim, por você, por todos nós.
 
O dinheiro que é roubado pelo superfaturamento de ambulâncias e outros bens e pela devolução aos políticos que patrocinam essas "emendas orçamentárias", vai para o bolso de políticos ladrões que a Justiça nos impede de conhecer — mas nós sabemos muito de quem é o bolso do qual esse dinheiro sai.
Nosso sistema fiscal-tributário é um absurdo. Dou um pequeno exemplo.
 
Tenho uma pequena empresa de consultoria em Campinas. A empresa tem quase 10 anos de existência e eu moro em Campinas desde 1964 (exceto pelo período em que estudei e trabalhei no exterior, de 1967 a 1974). Meus principais clientes todos têm sede na cidade de São Paulo. O Sr. José Serra, que, se eleito governador, será o chefe maior da missivista, criou uma lei, enquanto prefeito da cidade de São Paulo, que obriga empresas prestadoras de serviço com sede em outras cidades, mas que tenham clientes na cidade de São Paulo, a se cadastrarem na Prefeitura, apresentando uma enormidade de documentos, para comprovar que sua sede é realmente na cidade em que afirmam ter sede. Recuso-me a fazer isso. Se o governo da cidade de São Paulo tem alguma evidência de que eu estou mentindo para pagar menos ISS, ele que me acuse disso e prove a acusação. Eu não reconheço a obrigação de provar que a sede de minha empresa é onde a Nota Fiscal dela diz que é. Resultado: envio as Notas Fiscais para meus clientes, e eles, além de deduzirem de meu pagamento, na fonte, os valores correspondentes o pagamento de IRPJ (1,5%), CSL (1,0%), COFINS (3%), e PIS (0,65%), deduzem também os 5% de ISS, que eu deveria pagar em Campinas, cidade em que o ISS é também de 5%. Meu procedimento: como o ISS já foi pago à cidade de São Paulo, não o pago em Campinas. Não vou pagar o ISS duas vezes. Se Campinas reclamar, o que vai fazer, vou entrar com uma ação provando que o ISS foi deduzido na fonte, à minha revelia, pela fonte pagadora, por ordem da Prefeitura Municipal de São Paulo. Se a Prefeitura de Campinas quiser, que reclame o valor junto à Prefeitura de São Paulo. E que a Justiça decida.

Educação Fiscal

 
Neste contexto atual aqui no Brasil, é abusar do termo "educação" chamar de Educação Fiscal programas que visem a doutrinar e condicionar as crianças para, um dia, pagarem impostos (seja lá quais forem, e com as alíqüitas que o governo resolver impor). O programa que a missivista apresenta e defende é um programa governamental cujo único objetivo é aumentar os recursos nos cofres do governo.
 
No contexto atual aqui no Brasil o que seria uma real Educação Fiscal seria um programa que conscientizasse a população acerca do absurdo que é a nossa carga tributária (direta e indireta), do pouco que retorna à população, na forma de serviços, dos impostos pagos, e que a capacitasse para resistir a esse roubo do nosso dinheiro que é permitido, à luz do dia, por essa absurda estrutura fiscal-tributária brasileira. Resistir mesmo. Na Justiça, se for possível.
Em Salto, 18 de julho de 2006