Desigualdade material e igualdade formal

A natureza cria os seres humanos, uns machos, outros fêmeas; uns brancos, outros negros, outros vermelhos, outros amarelos, outros meio marrons; uns com olhos castanhos, outros com olhos negros, outros com olhos verdes, outros com olhos azuis; uns com cabelos negros, outros com cabelos castanhos, outros com cabelos vermelhos, outros com cabelos loiros; uns com cabelos lisos, outros com cabelos ondulados, outros com cabelos encaracolados, outros com cabelos bem enroladinhos; uns maiores do que outros ao nascer, uns com tendência a ser altos; uns magrinhos ao nascer, outros gordinhos ao nascer, uns com tendência a engordar, outros com tendência a ser ou permanecer magros; uns com dedos longos e finos, outros com dedos curtos e fofinhos; uns com covinhas no rosto, outros sem; uns com orelhas ou nariz grandes, outros não; uns com nariz afinado, outros com nariz achatado; uns com lábios finos, outros com lábios grossos; uns com olhos puxadinhos, outros com olhos quase arredondados; e assim vai.

Dada toda essa desigualdade em nossaos aspectos físicos, é de supor que, do ponto do vista intelectual, mental em geral, e emocional, nós seríamos todos formatados pela natureza de acordo com uma única forma?

Que somos diferentes, desiguais, únicos seria a coisa mais evidente do mundo se não houvesse uma ideologia igualitária que insiste, contra toda evidência, na nossa igualdade substantiva e material. A desigualdade é tão patente que, quando encontramos duas pessoas muito parecidas, fora gêmeos idênticos, isso nos chama a atenção — exatamente pela exceção.

A filosofia liberal, que eu endosso, defende a tese de que, apesar de todas essas diferenças e desigualdades substantivas e materiais, devemos ser tratados, pela lei e diante dela, e, portanto, na esfera formal, como iguais.

É por isso que sou contra os tratamentos preferenciais aplicados a mulheres, ou a gays, ou a grupos étnicos e raciais, ou a grupos sócio-econômicos. Esses tratamentos introduzem a desigualdade — no caso, o tratamento desigual pela lei e diante dela — exatamente onde essa desigualdade não deveria existir, numa busca, comprovadamente vã, da igualdade substantiva e material.

Em São Paulo, 25 de Abril de 2010

Atores favoritos

Al Pacino faz setenta anos hoje (25/4/2010) – nasceu em 1940.

Ele, Robert de Niro, Jack Nicholson e Anthony Hopkins estão entre meus atores favoritos.

De Al Pacino o meu filme favorito é Scent of a Woman (Perfume de Mulher) – em especial a cena em que ele dança o tango “Por una Cabeza” com Gabrielle Anwar, com, naturalmente, com os trechos que precedem e sucedem a dança, propriamente dita (cena que, a meu ver, é uma das melhores da cinematografia americana), e a cena final, do discurso que ele faz na Assembléia do colégio. 

De de Niro gosto especialmente de sua capacidade de, depois de participar de filmes seríssimos, como The Godfather (O Poderoso Chefão), fazer comédia com extrema competência em Meet the Parents (Entrando numa Fria) e Meet the Fockers (Entrando numa Fria Maior Ainda). Vai haver uma seqüência de Meet the Fockers. Parece que já está em produção. De Niro nasceu (como eu) em 1943. É o guri dessa turma.

De Nicholson gosto de vários filmes, especialmente de três, dois dramas e uma comédia: As Good as it Gets (Melhor é Impossível), About Schmidt (As Confissões de Schmidt), e Something’s Gotta Give (Alguém tem que Ceder). Nicholson nasceu em 1937.

De Anthony Hopkins gosto de quase tudo que ele faz, mas cito, em especial, The Remains of the Day (Vestígios do Dia), Shadowlands (Terra das Sombras), Meet Joe Black (Encontro Marcado), The Human Stain (A Culpa Humana) e Fracture (Um Crime de Mestre). Hopkins também nasceu em 1937. [No comentário que escrevi no Facebook lamentavelmente me esqueci de mencionar Anthony Hopkins].

Mas acrescento dois atores: um, em função de sua interpretação em apenas um filme; o outro, em função de sua interpretação em pelo menos dois.

Primeiro, Dustin Hoffman, em Tootsie. Hoffman nasceu também em 1937 (safra boa!).

Segundo, Clint Eastwood, em The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison) e Gran Torino (Gran Torino, mesmo, em Português) – filmes bastante diferentes um do outro, em que ele é ator e diretor.

Clint Eastwood nasceu em 1930. Fará 80 anos no próximo dia 31 de maio – ou seja, daqui a um pouquinho mais de um mês. É o vovô dessa turma.

Isso quer dizer que ele interpretou e dirigiu Gran Torino quando tinha nada menos do que 77 anos (o filme foi lançado em 2008). Com quase 80 anos, continua trabalhando firme, e cada vez com mais competência e dedicação. O site IMDB indica que três filmes dirigidos por ele estão para sair: Invictus, Hereafter e Hoover. Os filmes que ele dirige são ousados e muito diferentes um do outro, o que mostra a sua criatividade, amplitude de interesses e diversidade de técnicas.

Nesse ponto, Clint Eastwood é meu ídolo sem competição no cinema.

Gostaria, na vida, de chegar aos oitenta com a mesma competência, criatividade, saúde e energia…

Em São Paulo, 25 de Abril de 2010 (enquanto me preparo para viajar para Taipei, capital de Taiwan)

Joaquim José da Silva Xavier – Tiradentes

Sentença proferida contra os réus do levante e conjuração de Minas Gerais:

“Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu”.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes

Em São Paulo, 21 de Abril de 2010

Vergueiro

Meus dois posts anteriores foram desabafos, reclamações. Este também vai ser.

Em Inglês há um ditado que diz “If it ain’t broke, don’t fix it” – “Se não está quebrado, não conserte”. Esse ditado deveria ter sido levado em conta pela Prefeitura de São Paulo fem relação à Avenida Vergueiro, no trecho que vai da Estação Paraíso do metrô até a Av. Sena Madureira.

Moro por ali, passo sempre nesse trecho. Nunca tive maiores problemas antes. A Prefeitura, entretanto, resolveu criar uma faixa para motociletas nesse trecho. Para fazer isso, eliminou todas as conversões à esquerda, em ambas as direções, no trecho. Havia pelo menos três conversões à esquerda, uma na direção da Vila Mariana, duas na direção do Paraíso.  Elas funcionavam bem, porque a rua se alargava um pouco na proximidade delas. O trânsito fluía bem, apesar das conversões à esquerda.

Agora, para ir da Vila Mariana ao Paraíso, se você quer fazer uma conversão à esquerda, tem de entrar por umas ruinhas estreitas que atravancam o tráfego. Para vir do Paraíso para a Viila Mariana, você tem de entrar pela Domingos de Moraes – que já era atravancada e, com o trânsito que se dirige ao Ipiranga e à Imigrantes, fica intransitável. E, não sei exatamente por quê, a Vergueiro ficou totalmente entupida.

Não havia um problema. Quiseram consertar. Criaram um enorme problema. Espero que o consertem logo.

Em São Paulo, 20 de Abril de 2010

Hora de Brasília

Os Estados Unidos têm vários fusos horários. O horário em determinado lugar, como, por exemplo, Washington, DC ou New York, NY, é sempre mencionado como “Eastern Standard Time” (EST). Se o horário é o de San Francisco, CA ou de Seattle, WA, ele é descrito como “Pacific Standard Time” (PST).

Por que nós, no leste do Brasil, e especificamente em São Paulo, precisamos dizer “Hora de Brasília”???

Por que privilegiar um critério político em vez de um critério geográfico?

Eu protesto.

Em Campinas, 20 de Abril de 2010

Taiwan, Estados Unidos e Brasil

Um tempo atrás tive de tirar um visto para Taiwan enquanto estava nos Estados Unidos. Fui ao Consulado de Taiwan em Chicago. O visto ficava 18 dólares para entrega em três dias e 36 dólares para entrega em três horas.

Hoje fui tirar o mesmo visto no Consulado de Taiwan aqui no Brasil: 115 reais para entrega em cinco dias, 175 reais (CEM DÓLARES) para entrega em 24 horas.

Pergunta:  Por quê?

Fiz a pergunta à senhora que atendia… Ela me disse que Taiwan cobra dos cidadãos de um país um valor equivalente àquele que aquele país cobra dos cidadãos de Taiwan.

Justo, não é?

Mas pagamos quase três vezes mais porque o governo brasileiro é faminto por dinheiro.

Em Campinas, 20 de Abril de 2010

Brasil: A Primeira Potência de Semiletrados (Gustavo Iochpe na VEJA)

Artigo muito interessante de Gustavo Iochpe na VEJA.

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VEJA
14/4/2010

Brasil: A Primeira Potência de Semiletrados?

Gustavo Iochpe

"Apesar do oba-oba, o Brasil está próximo de ser um colosso econômico e esquecer a formação de sua gente"

"Quando voltei ao Brasil, depois de anos no exterior, queria montar meu escritório rapidamente. Contratei, então, um desses serviços de secretariado virtual para me ajudar enquanto iniciava o processo de busca por uma equipe permanente. Notei que a secretária virtual não era um gênio, mas achei que quebraria o galho. Certo dia, mandei um e-mail a ela pedindo que me conseguisse a informação de contato do cônsul brasileiro em Houston (EUA). Informação encontrável na internet em poucos minutos. Passaram-se cinco minutos, cinco horas, e nada.

Três dias depois, recebi um e-mail da fulana: "Sr. Gustavo, procurei na Cônsul e até na Brastemp, mas ninguém conhece esse tal de Houston". Pensei que fosse piada. Reli. Não era. Para quem havia ficado alguns anos construindo teses acadêmicas sobre a importância da educação para o desenvolvimento das nações, através do seu impacto na produtividade de uma população, estava ali o exemplo pronto e acabado de como é difícil produzir algo quando a ignorância campeia à volta. É assim para uma pessoa, uma empresa e um país.

Os economistas Gustav Ranis, Frances Stewart e Alejandro Ramirez ilustraram essa relação de forma clara. Analisaram 76 países durante um período de 32 anos. Dividiram-nos de acordo com dois critérios: crescimento econômico e desenvolvimento humano (nesse caso, medido através de uma combinação de indicadores de educação e saúde). Usando essas duas dimensões, você pode ter duas situações de equilíbrio (quando o lado humano e o econômico são igualmente altos ou baixos) e duas de desequilíbrio (quando o humano é alto e o econômico baixo, e vice-versa).

Surgem algumas conclusões interessantes desse estudo.

A primeira é que as situações de desequilíbrio duram pouco. Se um país tem muito crescimento econômico e pouco capital humano (CH), ele tende a parar de crescer (caso, sim, do Brasil nas décadas de 60 e 70) ou a aumentar seu lado humano.

A segunda: é muito difícil sair de uma situação de equilíbrio negativo: mais da metade dos países que tinham baixo crescimento e baixo CH em 1960 permanecia empacada na mesma posição na década de 90.

A terceira é que o crescimento econômico, quando desacompanhado de evolução do lado humano, dura pouco: de todos os países que tinham alto crescimento econômico e baixo CH no início do período, nenhum conseguiu chegar ao equilíbrio em alto nível. Todos, sem exceção, terminaram o período com baixo crescimento e baixo CH.

A quarta, e mais importante, é que a estratégia de privilegiar o lado humano dá frutos muito melhores do que aquela que enfatiza só o lado econômico: dos países que começaram o período com alto CH e baixo crescimento econômico, um terço chegou ao nirvana da alta renda e alto nível humano; um terço continuou com um lado mais desenvolvido que o outro, e apenas um terço regrediu para o fim trágico do baixo crescimento e baixo CH.

O resumo da ópera é o seguinte: é muito difícil passar de uma situação de subdesenvolvimento e chegar ao chamado Primeiro Mundo. Mas, se o período 1960-92 servir de guia, das duas estratégias possíveis – privilegiar o crescimento econômico versus privilegiar o crescimento humano –, a primeira se mostrou um fracasso total, e só através da segunda é que um terço dos países chegou ao objetivo desejado.

Esse aprendizado é, hoje, especialmente importante para o Brasil. Apesar de todo o oba-oba com o país nas capas de revistas e jornais estrangeiros, o Brasil está, na verdade, perigosamente próximo de repetir a trajetória do fim da década de 60: ser um colosso em termos de crescimento econômico e esquecer a formação de sua gente. Essa estratégia tem destino certo: a falta de pessoas qualificadas faz com que o processo emperre e o crescimento acabe. Temo, inclusive, que seja tarde demais para evitar parte desse enredo: várias indústrias, especialmente as ligadas à engenharia, já têm seu crescimento cerceado pela impossibilidade de encontrar gente qualificada. O problema será muito pior nos próximos vinte anos, à medida que a demanda por pessoas qualificadas for aumentando e as escolas continuarem formando incompetentes.

Há três diferenças importantes entre o momento atual do Brasil e aquele da época do milagre econômico.

A primeira é que o atraso educacional brasileiro em relação aos países desenvolvidos aumentou consideravelmente. Há trinta anos, o ensino superior era um nível para poucos, mesmo nos países mais ricos. Levantamento feito em 2000 mostrou que a porcentagem de adultos com diploma universitário no Brasil era bastante parecida com a de outros países – 1 ou 2 pontos porcentuais abaixo de Chile e Argentina e 3 a 4 pontos abaixo de Itália e França, por exemplo. Quando se olha para a taxa de matrícula atual do ensino universitário, porém, nota-se que o Brasil tem uma diferença de 20 pontos porcentuais para nossos vizinhos latino-americanos e de 40 ou mais pontos para os países desenvolvidos. A maioria dos brasileiros não se dá conta de quão ruim é a educação nacional. Uma pesquisa de 2009 sobre alfabetização, feita pelo Instituto Paulo Montenegro, mostrou que apenas 25% da população adulta brasileira é plenamente alfabetizada. Deixe-me repetir: só um quarto dos brasileiros conseguiria ler e entender um texto como este. Nenhum país jamais se tornou potência com uma população de semianalfabetos. É improvável que o Brasil seja o primeiro, mesmo com todos os recursos naturais de que dispomos.

Segunda diferença: nos anos 60/70, pouquíssimo se falava sobre educação. Hoje, a questão está em pauta. O diacho é que a maior parte do discurso ainda é pré-científica (ou anticientífica) e continua insistindo em teses furadas e demagógicas: que o Brasil investe pouco e que o principal problema é o salário do professor.

A terceira e última é que naquela época éramos uma ditadura inserida no polo pró-americano em um contexto de Guerra Fria, e hoje somos uma democracia altiva em um mundo multipolar. Se então nossos males nos eram impostos por um regime autocrático, hoje temos liberdade e responsabilidade por nossos destinos. Os problemas e os erros são todos nossos, e as soluções também terão de ser."

FabioAccorsi

Foto de Fabio Accorsi que acompanhou o artigo na VEJA. Tinha a seguinte legenda:
"QUALIFICAÇÃO TECNOLÓGICA: Ela é crucial para que o Brasil possa mesmo ser uma real potência econômica"

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Em Campinas, 20 de Abril de 2010

“Vitrines de Amsterdã”

O artigo de João Pereira Coutinho na Folha de S. Paulo de hoje toca em vários assuntos já discutidos aqui: a obsessão com a exposição e o aparente desprezo pela privacidade, o sentido da amizade na Internet, e as virtudes do esquecimento.

Discordo de alguns pontos.

Os contatos na Internet (FaceBook, por exemplo) não são, a meu ver, amizades: são apenas contatos, mesmo. Também tenho poucos amigos. Mas tenho milhares de contatos. Não sei se meus poucos amigos se fizeram por acaso, como pretende Coutinho.

Apesar das discordâncias, vale a pena ler o artigo.

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Folha de S. Paulo
20 de Abril de 2010

JOÃO PEREIRA COUTINHO
Vitrines de Amsterdã


É porque existe um espaço só nosso que há liberdade de pensarmos como entendemos


RECEBO CONVITES de amizade todos os dias. Por e-mail. Alguém deseja ser meu amigo e convida-me para integrar uma lista virtual em que existem dezenas ou centenas ou milhares de amigos virtuais. A pretensão encanta-me e remete-me para memórias de infância. No recreio da escola, alguém se aproximava, alguém perguntava: "Queres ser meu amigo?".

A comparação é talvez ofensiva para a infância: nesses tempos, havia pelo menos o contato real com um ser humano real. Hoje, nem isso: a palavra "amizade", usada na internet, é uma traição da sua natureza verdadeira. A amizade não é um convite. É um acaso. O melhor de todos os acasos.

E quem é amigo de dezenas, ou centenas, ou milhares de pessoas, obviamente não é amigo de uma só. A amizade implica tempo, disponibilidade. E, como no amor, existe na amizade uma dimensão de sacrifício e exclusividade que o ruído cibernauta contamina. Na minha vida profissional, conheço dezenas de pessoas.

Mas os meus amigos são tão poucos que não excedem os dedos de uma mão.

Recebo convites de amizade todos os dias. Todos os dias nada respondo, uma forma educada de recusar perguntas que não se fazem. Mas sei que pertenço a uma espécie em vias de extinção.

Conta o "Courrier Internacional", na sua edição portuguesa, que o maior site social é o Facebook, com os seus 350 milhões de utilizadores. Se fosse um país, o Facebook seria o terceiro mais povoado, depois da China e da Índia.

Um admirável mundo novo? Será. Mas um mundo novo traz dilemas novos. E novas ameaças. Não falo da ameaça metafísica, ou existencial, de sermos incapazes de manter ligações significativas com alguém. As ameaças lidam também com a privacidade, ou com o valor que conferimos à privacidade num mundo onde nos expomos e espiamos.

Ainda segundo a revista, e só nos EUA, um adolescente em cada cinco e um jovem adulto em cada três já enviou fotografias ou vídeos seus onde estão nus ou seminus. Mas não é preciso entrar nessas doces pornografias para ver nas "redes sociais" o que os turistas encontram nas vitrines de Amsterdã: a revelação pública da intimidade. Em fotos ou palavras. Lamentos ou pensamentos.

Alguns especialistas discordam. E defendem que, no mundo moderno, não faz mais sentido defender a esfera privada. Porque tudo é privado; ou, inversamente, tudo é público, o que facilita a comunicação, a partilha e, em certos casos, a denúncia da violência e da arbitrariedade.

Não estou convencido. Creio, aliás, no oposto: a conquista da privacidade, só possível no Ocidente com a emergência do Cristianismo, não foi apenas importante ao garantir aos homens um refúgio último e pessoal em que a consciência, e não a pressão da turba, é soberana. A conquista da privacidade, conferindo a Deus o que é de Deus e a César o que é de César, permitiu também o culto de outras liberdades.

Como relembra o escritor Jordi Soler no mesmo número da revista, é precisamente porque existe um espaço nosso, e só nosso, que existe também a liberdade de pensarmos como entendemos; de nos reunirmos com quem quisermos; e de nos expressarmos sem temer as interferências do poder político com a sua pata potencialmente censória.

Quando expomos voluntariamente a nossa privacidade, estamos voluntariamente a entregar a desconhecidos o que levou séculos a conquistar e preservar. Uma rendição da nossa identidade. Não será de espantar, por isso, que comecem a surgir vozes preocupadas. Como Alex Türk, presidente da Comissão Nacional de Informática e Liberdade, da França. Para Türk, todos os interessados deveriam poder solicitar às autoridades judiciais e aos servidores de internet o "direito ao esquecimento". O direito a podermos apagar do mundo virtual as pegadas que fomos deixando, e que outros foram copiando, sobre os nossos trajetos passados.

Num dos seus contos mais notáveis, "Funes el Memorioso", Jorge Luis Borges construiu uma parábola sobre um homem incapaz de esquecer. O conto de Borges não é apenas a descrição sardônica do infeliz e insone Funes, que após acidente juvenil passou a registrar, com precisão patológica, cada minuto, gesto, palavra ou imagem do mundo em volta. Uma coleção interminável que o impede de viver normalmente. O conto é uma elegia sobre a importância do esquecimento. Porque sem esquecimento não existe liberdade para continuarmos ainda e um pouco mais.

jpcoutinho@folha.com.br

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Em São Paulo, 20 de Abril de 2010

“Afinal, quem faz o quê” em casa?

A Folha de S. Paulo de hoje aborda uma questão que toda pessoa casada já enfrentou: a divisão das tarefas domésticas. Antes, quando a mulher cuidava da casa e dos filhos e o homem trabalhava fora, a divisão das tarefas era tacitamente acordada. Hoje, quando os dois trabalham fora, ou os dois trabalham profissionalmente, mas dentro de casa (Home Office ou algo equivalente), a coisa fica complicada.

Vale a pena ler.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1504201004.htm

Folha de S. Paulo

GUERRA DOS SEXOS 2.0
Afinal, quem faz o quê?

As mulheres ainda reclamam da "dupla jornada", mas poucas sabem delegar aos homens tarefas domésticas e cuidados com os filhos

RACHEL BOTELHO
DA REPORTAGEM LOCAL

Os homens estão mais solidários e mais envolvidos com a criação dos filhos do que jamais estiveram.Mas, a julgar pelas queixas de boa parte das mulheres, isso não é o suficiente para resolver a velha questão da divisão de tarefas. Porquê?

Muitas mulheres, apegadas ao poder ancestral que detêm sobre o lar, tratamos parceiros como meros ajudantes, reforçando estereótipos de gênero e dificultando qualquer movimento em direção a uma distribuição mais igualitária de responsabilidades.

Homens inseguros no papel de pai, por exemplo, vão se encolher, em termos cooperativos, diante de uma mãezona perfeita, lembra o psiquiatra Luiz Cuschnir, do Centro de Estudos da Identidade do Homem e da Mulher. "Com frequência, as críticas e atitudes professorais da mãe inibem o desenvolvimento do pai. Ser criticado, além de ter recebido uma educação de que o ambiente doméstico não é o seu campo de atuação, faz com que o homem se sinta inábil, desengonçado e facilmente se constranja nesse papel."

Constrangido ou não, o homem fica cada vez mais com os filhos. Um estudo da Universidade da Califórnia mostra que esse tempo mais que dobrou nos últimos 15anos.

Outro dado que chama a atenção, nessa mesma pesquisa, é que ele passa pelo menos duas das horas extras em família ao lado da mulher, sinal de que o casal tem dividido mais as responsabilidades relacionadas à casa e ao trabalho, de modo a ficar fisicamente mais próximo, dizem os pesquisadores.

Mulher e trabalho

Por outro lado, quando o marido trabalha demais, ainda é comum a mulher abrir mão da própria carreira para segurar as pontas em casa. Se é ela que trabalha demais fora de casa, o impacto na carreira dele é quase nenhum, como comprovou um outro estudo feito nos EUA.

A casa e os filhos ainda são vistos como problemas de mulher, no imaginário deles e delas, segundo a análise de Rosa Macedo, coordenadora do Núcleo de Família e Comunidade da PUC-SP: "Tem homens mais cooperativos que dizem que ajudam, mas isso significa que não é responsabilidade deles.

Elas querem que eles assumam que a responsabilidade é igual", afirma. Para a psicóloga, essa visão de que o homem está fazendo um favor para a mulher precisa mudar.

Em países desenvolvidos, a divisão dos cuidados com as crianças e das tarefas domésticas é mais igualitária. Até porque, no hemisfério Norte, empregada doméstica é um luxo.

"O homem participa e tem que participar muito. Eles fazem as compras sozinhos, cozinham", diz a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

"Aqui, onde a mulher manda em outra mulher que manda também, é difícil para o homem assumir responsabilidades."

Novo modelo

Independentemente da presença de uma auxiliar oficial, a rotina familiar costuma demandar um esforço extra para não sair dos trilhos. Uma alternativa para dividir as coisas sem que ninguém fique sobrecarregado nem de cara amarrada é considerar as aptidões e preferências individuais.

"A solução é entrar em uma negociação em que os dois sejam encarregados de fazer a divisão.

Se os dois trabalham, se respeitam, são dois indivíduos que querem ter uma relação legal, isso é possível", acredita Goldenberg.

Outro componente importante é a flexibilidade. "As tarefas precisam ser divididas de acordo com a disponibilidade do momento. Se tem reunião das crianças na escola e ela não pode ir, o marido dá um jeito.

Não é assim:o filho está doente, a mulher larga tudo e leva ao médico. Precisa conversar e ver quem pode fazer", afirma Rosa Macedo, da PUC-SP.

Com um pouco de boa vontade, o trabalho doméstico pode ser até divertido. "É um momento de estar junto, conversando, isso pode ser prazeroso", diz a psicanalista Belinda Mandelbaum, coordenadora do Laboratório de Estudos da Família do Instituto de Psicologia da USP.

Para as jovens mães, não custa lembrar que a criação da nova geração de adultos está, em boa parte, em suas mãos. "Muitos homens são educados de uma forma que não têm noção de cuidado pessoal -não aprenderam nem a arrumar a cama. As mulheres reclamam, mas continuam mantendo certas diferenças na educação de filhos e filhas", diz Macedo.

Leia a seguir como três casais organizaram sua rotina.

[…]

Ser criticado faz com que o pai se sinta desengonçado nesse papel

LUIZ CUSCHNIR

[…]

Elas reclamam, mas continuam educando filhos e filhas com diferenças

ROSA MACEDO

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1504201005.htm

ELA MANDA, ELE OBEDECE

"Ela pergunta se eu aprendi a lavar louça em Harvard"

Eu não tinha o costume, mas ela foi me ensinando e hoje eu participo bastante. Com as crianças, como ela cuida melhor, sou "sossegado". Não achava que podia dar banho neles, então assumi as coisas da casa. Pode não sair igual ao que ela faz, mas sai.

Às vezes, ela pergunta se eu aprendi a lavar louça em Harvard. Fiscaliza e me fala para refazer. Uma vez, me pediu para passar um pano em casa e, quando eu estava acabando, falou que tinha que passar três vezes! Nesse dia, eu falei não, uma estava bom. Mas levo numa boa. Sei que ela está cuidando bem das nossas coisas, não tem por que brigar.

A Viviane podia assumir um pouco mais de coisa, porque acho que faço muito, mas vou negociando. (Pausa) Se dividir no meio, fico no prejuízo, melhor deixar assim. Dou muito valor para o que ela faz. Eu acabo minha parte, sento para ver TV e ela continua. Ela não para.

Marcelo Carriço Garcia, 44, motorista

"A divisão é bem bacana, não preciso ficar cobrando"

Dividimos as tarefas sem pressão. O Marcelo não tem paciência para dar banho, trocar fraldas, então cuido dos pequenos enquanto ele põe roupa na máquina, lava a louça, tira o lixo. A organização diária é com ele.

Ele não tem hora para chegar, mas as tarefas são sempre as mesmas. Às vezes, ele me pede para lavar a louça e eu falo que já fiz a minha parte. Em outras, fico com dó porque o trabalho dele é muito cansativo e adianto alguma coisa. A divisão é bem bacana: ele sabe o que precisa fazer e eu não preciso ficar cobrando. Mas nem sempre foi assim. Eu ficava limpando a casa e ele ali, dizendo que tinha orgulho de mim. Até que vi como era idiota.

Gosto das minhas coisas certinhas. Ele sabe que a louça não pode acumular. Se não pego no pé, a louça vai para o armário toda engordurada.

Viviane Lolis, 31, analista em comércio exterior

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1504201006.htm

ELE NA RUA, ELA EM CASA

"No fim de semana, cuido do cachorro"

Meu trabalho requer muita dedicação: não tenho horário, preciso jantar com clientes e viajo muito. Infelizmente, não posso estar tão presente em casa.

Por isso, é complicado para mim enxergar o tempo e o esforço que ela dedica, do que ela abre mão. Mas ela também não vê os meus compromissos. Como só eu trabalho, procuro desempenhar minha função da melhor forma possível para proporcionar coisas melhores para a nossa família.

Eu pergunto para amigos meus como funciona essa questão na casa deles _porque as discussões desgastam o relacionamento_ e fico tranquilo porque sei que não sou um ponto fora da curva.

No fim de semana, cuido do cachorro e, se ela me pede para fazer algo, eu ajudo. Muitas vezes, procuro descansar. Eventualmete, dou banho no Enzo, lavo uma louça. À noite, quando o Enzo chora, sou eu que vou socorrê-lo. Enquanto isso, a Melina amamenta a Júlia.

Max Ferrari, 33, farmacêutico

"Estou cansada e isso é motivo de discussões"

Parei de trabalhar para cuidar das crianças e, para o Max, isso foi suficiente para achar que sou totalmente responsável pela criação deles.

Quando só tínhamos o Enzo, ele até participava mais, mas atualmente sempre encontra coisas para fazer depois do trabalho e nunca vem para casa no pior horário, que é quando meu filho volta da escola e eu preciso dar banho, comida e colocá-lo para dormir. Se alguém me visitar nesse horário vai desistir de ter filhos! A última dele foi se inscrever em um grupo que responde pesquisas de mercado. Ajuda zero.

Estou supercansada e isso é motivo para discussões. Estou me desgastando muito e não estou fazendo as coisas como eu gosto. Quando falei que ia procurar uma empregada, esperava que ele tentasse me ajudar mais. Mas não. Para ele, o mais importante é que não falte nada de material. Ele está muito preso a essa questão ainda.

Melina Ferrari, 34, psicóloga

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1504201007.htm

CADA UM FAZ O QUE QUER

"Se a divisão é justa? Estou tranquilo"

As coisas não são muito programadas, é bem espontâneo. Acho horrível fazer compras de supermercado, mas gosto de ter as contas sob meu controle, então eu faço. Uma vez fizemos juntos e não deu muito certo.

Tem coisa que prefiro nem me meter, como as relacionadas ao colégio. Não que eu me omita, mas ela tem mais perfil para isso do que eu.

Aqui não é "eu faço isso, você faz aquilo". Quando cansa para, o outro dá uma ajuda. Tem hora que cansa um pouco, mas faz parte da vida familiar.

Se a divisão é justa? Para mim está tranquilo, não sei se está pesado para ela.

Antonio Luiz Rocha Filho, 50, funcionário público

"Para ser do meu jeito, tem que ser feito por mim"

Nunca falamos sobre isso, as tarefas são divididas naturalmente. Como ele é mais preocupado com questões práticas, ficou responsável por levar as meninas ao médico e ao dentista e dar os medicamentos. Os estudos ficam sob minha responsabilidade. Vejo se tem dever e estudo junto para as provas.

Como o horário de trabalho do Antonio é flexível, ele leva e busca na escola, mas as reuniões de pais são sempre comigo.

Em relação aos cuidados com a casa, as coisas também se acomodaram. Quando estamos sem empregada, ele varre enquanto brinco com as meninas.

A maneira como o Antonio lava a louça não é lá essas coisas: ele gasta muita água, mas não me irrito, não. Penso o seguinte: para ser feito do meu jeito, tem que ser feito por mim.

Então ele faz do jeito dele e, enquanto isso, faço uma atividade que me dê mais prazer.

Acho que combina: onde meu limite acaba, o dele vai além.

Christiana Martins Ferreira, 43, analista de sistemas

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Em São Paulo, 15 de Abril de 2010

Educação e Ideologia

Trecho do artigo do Rubem Alves na Folha de S. Paulo de 13/4/2010, sobre um assunto que alimenta discussões constantes aqui neste Space:

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Como educador, considero que a tarefa mais importante das escolas é ensinar a pensar, e a ideologia é a negação do pensamento.

O que é pensar? Pensar é um processo mental que acontece quando nos defrontamos com um problema que a vida nos propõe e que precisa se resolvido. Pensamos para resolver problemas. Sem o desafio dos problemas, o pensamento ficaria dormindo, inerte. O pensamento, assim, acontece quando um "não saber" nos desafia. Se alguém se julga possuidor da verdade, não pensa. Pensar, pra que?

O que é "ideologia"? Ideologia é o oposto do pensamento. Ideologia é um conjunto de crenças tidas como verdade. Julgando-se possuidora da verdade, a ideologia torna desnecessário o trabalho de pensar. Ao invés de pensar, a ideologia repete as fórmulas. A ideologia, assim, tem a mesma função que têm os catecismos nas religiões. Catecismos são livros que contêm afirmações tidas como verdadeiras e que, por isso mesmo, devem ser aprendidas de cor e repetidas.
Lembro-me de uma experiência que tive logo que me tornei professor da Unicamp, lá pelo início da década de 70, quando a ideologia da esquerda sabia que "só o materialismo histórico é Deus e Marx, o seu profeta". Eu, sem conhecer direito as regras do jogo acadêmico, pus-me a conversar com um colega sobre ecologia e a crise ambiental -temas provocados pelo Clube de Roma- que eram assuntos proibidos pelo catecismo dominante.

Ele ficou em silêncio, mediu-me de alto a baixo e fulminou-me com uma verdade definitiva: "Tudo isso se resolve com a luta de classes…" Não era necessário pensar, porque a ideologia já tinha a resposta.

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Exceto pelo uso do verbo “ensinar”, que me causa ojeriza, assino embaixo.

Em São Paulo, 13 de Abril de 2010