Mercadores da bondade e da justiça

“Ser gay não é orgulho nem vergonha, não é ideologia nem espetáculo, não é chique nem brega. Não é revanche. Não é moderno. Não é moda. É apenas humano. A luta contra o preconceito precisa ser urgentemente tirada das mãos dos mercadores da bondade. Eles semeiam, sorridentes, a intolerância e o autoritarismo. Já para o armário!” (Guilherme Fiuza, Época)

Concordo.

Acrescento: a luta contra a miséria e a pobreza precisa ser urgentemente tirada das mãos dos mercadores da justiça (vale dizer, das mãos do governo e seus apologetas).

Na verdade, ambos mercadeiam a pseudo-bondade e a pseudo-justiça (conhecida como “justiça social”).

Em São Paulo, 27 de Maio de 2013

 

Educação 3.0: A Escola do Futuro chegou? – NÃO!

Nos últimos 200 anos, por aí, tem havido um só modelo de Educação Escolar, que permanece firme até hoje, com insignificantes variações de uma época para outra e de um país para outro. Esse modelo foi inventado para atender às necessidades da Sociedade Industrial. Embora não tenha ainda sido enterrada em algumas partes do mundo, essa sociedade claramente já está morta. Foi substituída por uma sociedade diferente, extremamente dinâmica e em rápida evolução, que já foi chamada de Sociedade da Informação e do Conhecimento. Mas informações e conhecimentos se tornam obsoletos muito rapidamente. Por isso, mais recentemente, essa nova realidade tem sido rotulada de forma diferente: Sociedade da Criatividade, Sociedade da Inovação, Sociedade da Aprendizagem.

Não há diferença significativa entre a escola de hoje e a escola inventada, na primeira metade do século 19, para atender basicamente a duas necessidades da Sociedade Industrial:

a)   Capacitar a população que, abandonando o ambiente rural, procurava, nas cidades, emprego nas fábricas, para que ela aprendesse a ler, escrever e contar (fazer as operações aritméticas básicas) e, assim, pudesse entender instruções, diretivos, e manuais simples e se comunicar de forma clara e precisa;

b)   Transmitir à população, em geral, mas em especial aos migrantes do campo e aos imigrantes estrangeiros, os conhecimentos, valores, costumes e tradições tidos como essenciais no novo tipo de sociedade em que eram chamados a viver, para que pudessem a ela se ajustar sem maiores problemas.

O olhar dessa escola, estruturada segundo o modelo da fábrica industrial, estava voltado para o presente (emprego na fábrica) e para o passado (preservação da sociedade). Sua função era preparar pessoas para a realização do trabalho rotineiro da fábrica e para o exercício das formas básicas de convivência em sociedade.

O mundo, entretanto, mudou substantivamente nos últimos 70 anos, desde o final da Segunda Guerra Mundial, e ainda mais rápida e radicalmente nos últimos 35, desde a invenção e inacreditável popularização dos computadores pessoais e seus derivados (smart phones, tablets, etc.).

Hoje, em países como os EUA, a chamada indústria cultural — músicas, filmes, vídeos, programas de TV, livros, revistas, e software – é o principal produto de exportação.

Essa indústria é o resultado do exercício, pelos indivíduos, de sua imaginação e criatividade, e de sua capacidade de explorar, através de inovações sucessivas, o valor econômico de suas ideias. Seus produtores / autores transformam ideias em riqueza. Eles literalmente fazem dinheiro. (É por isso que a sociedade atual é a mais rica que jamais existiu. Essa riqueza está distribuída desigualmente porque também é desigual a distribuição da imaginação, da criatividade e da capacidade de inovação.)

É por isso que a sociedade em que a indústria cultural predomina sobre as atividades econômicas convencionais (indústria de extração, agropecuária, indústria manufatureira e de transformação, e mesmo o comércio e os serviços convencionais, de natureza rotineira) é chamada hoje de Sociedade da Criatividade, da Inovação, da Aprendizagem.

Nela se olha para o futuro. Nela se privilegia a imaginação, a criatividade, a inovação. Nela se foca a solução de problemas. Nela se requer colaboração, não trabalho individual. Nela se exige desapego a velhos paradigmas. Nela se remunera a capacidade de desaprender para depois reaprender. Nela, em suma, aprender é se tornar capaz de fazer o que não se conseguia fazer antes: é resolver problemas, criar, inventar, inovar, dar à luz o novo — muito mais do que absorver, assimilar e aplicar o velho.

Será que a escola que temos, criada e organizada para atuar a Sociedade Industrial, sobreviverá na Sociedade da Criatividade, da Inovação, da Aprendizagem?

Alguém está vendo uma escola adequada a essa nova realidade mesmo entre nossas melhores escolas? Mesmo nos países que se classificam nos primeiros lugares no PISA?

Eu, não.

A Sociedade da Criatividade, da Inovação, da Aprendizagem exigirá novas formas de aprender e novos ambientes de aprendizagem, permeados de tecnologia, que transcenderão em muito os limites do que hoje chamamos “educação escolar”. Será um grave erro continuar a chamar de escola esses novos ambientes de aprendizagem, onde se aprenderá, de forma diferente, a fazer coisas diferentes.

Em São Paulo, 27 de Maio de 2013

[Este artigo foi escrito a pedido da Futuro – Educador / Educar, onde dei uma palestra mais ou menos sobre o mesmo tema. Ele foi originalmente publicado no site do evento, no URL:

http://www.futuroeventos.com.br/educar/noticias/educacao-3-0-escola-futuro-chegou-nao/

VERSÃO COMPACTA

Educação 3.0: A Escola do Futuro chegou? – NÃO!

Nos últimos 250 anos tem havido um só modelo de Educação Escolar, que permanece firme até hoje. Foi inventado para atender às necessidades da Sociedade Industrial – embora hoje vivamos na sociedade da Criatividade, da Inovação, da Aprendizagem.

Não há diferença significativa entre a escola de hoje e a escola inventada para atender basicamente a duas necessidades da Sociedade Industrial:

a) Capacitar a população que procurava emprego nas fábricas a ler, escrever e contar;

b) Transmitir à população, em especial a migrantes do campo e imigrantes estrangeiros, os conhecimentos, valores, tradições e costumes tidos como essenciais na sociedade em que eram chamados a viver.

O olhar da escola estava voltado para o presente (emprego na fábrica) e para o passado (preservação da sociedade). Formação para o trabalho e a cidadania.

O mundo, entretanto, mudou substantivamente nos últimos 70 anos e mais rápida e radicalmente nos últimos 35 (ca 1977).

Hoje, em países como os EUA, a indústria cultural — músicas, filmes, vídeos, programas de TV, livros, e software – é o principal produto de exportação.

A indústria cultural é o resultado do exercício, pelos indivíduos, da imaginação e criatividade, da capacidade de explorar, por inovações, o valor econômico das ideias. Seus autores transformam ideias em dinheiro.

Como a escola que temos sobreviverá numa era que privilegia imaginação, criatividade, inovação, que olha para o futuro, que remunera a capacidade de desaprender para reaprender, que requer colaboração, que foca a solução de problemas, que exige desapego a velhos paradigmas – em suma, em que aprender é resolver problemas, criar, inventar, inovar, dar à luz o novo, muito mais do que absorver, assimilar e aplicar o velho?

Alguém está vendo uma escola adequada a essa realidade mesmo entre nossas melhores escolas? Eu, não.

Em São Paulo, 10 de Maio de 2013

O sensório e o suprassensório: a física e a metafísica

Um comentário ao meu artigo anterior me chamou a atenção para a relevância do livro de Hannah Arendt citado abaixo para o artigo em questão.

Comprei o livro no Amazon/Kindle e achei na Introdução esta fantástica passagem que cito abaixo.

Antes, porém, quero chamar a atenção para o último parágrafo citado:

“In other words, once the always precarious balance between the two worlds is lost, no matter whether the “true world” abolishes the “apparent one” or vice versa, the whole frame-work of reference in which our thinking was accustomed to orient itself breaks down. In these terms, nothing seems to make much sense any more.”

Arendt está falando da distinção entre:

(a) aquilo que é sensório, que percebemos pelos sentidos, e que é objeto de estudo e investigação por parte das ciências experimentais — das quais a física é a rainha;

e

(b) aquilo que seria suprassensório, captável, quem sabe, apenas pelo nosso pensamento ou por nossa “razão pura” — i.e., pela “meta-física”. É nesse reino que habitariam Deus e a mente humana.

O segundo domínio era, na era clássica e até o surgimento da ciência moderna, de longe considerado o mais importante — na verdade, o mais real, o primeiro domínio sendo chamado de domínio das aparências ou dos fenômenos. Apesar disso, a distinção ainda é claramente pressuposta por Kant, embora ele tenha negado que possamos ter conhecimento das “coisas em si mesmas” que habitariam o suprassensório.

Por várias razões, essa distinção caiu em desuso — morreu, razão pela qual se anunciou “a morte de Deus” (Nietzsche) e “o fim da metafísica” (os positivistas lógicos).

A tese de Arendt é que a distinção é indispensável, porque, quando se perde um desses domínios, cedo ou tarde perde-se o outro também…

Ou seja, e agora a conclusão é minha, talvez a ciência e os filósofos que são seus apologetas tenham feito mal até mesmo a si próprios ao afugentar a metafísica do cenário atual. Assim fazendo, acabaram por se desacreditar a si mesmos.

Terá chegado a hora de ressuscitar a metafísica, entre outras razões porque as bases metafísicas e epistemológicas da ciência — vale dizer, seu paradigma — precisam ser revistas.

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“What has come to an end is [not God, but] the basic distinction between the sensory and the suprasensory, together with the notion, at least as old as Parmenides, that whatever is not given to the senses— God or Being or the First Principles and Causes (archai) or the Ideas— is more real, more truthful, more meaningful than what appears, that it is not just beyond sense perception but above the world of the senses.

What is “dead” is not only the localization of such “eternal truths” but also the distinction itself.

Meanwhile, in increasingly strident voices the few defenders of metaphysics have warned us of the danger of nihilism inherent in this development; and although they themselves seldom invoke it, they have an important argument in their favor: it is indeed true that once the suprasensory realm is discarded, its opposite, the world of appearances as understood for so many centuries, is also annihilated. The sensory, as still understood by the positivists, cannot survive the death of the suprasensory.

No one knew this better than Nietzsche, who, with his poetic and metaphoric description of the assassination of God, has caused so much confusion in these matters. In a significant passage in The Twilight of Idols, he clarifies what the word “God” meant in the earlier story. It was merely a symbol for the suprasensory realm as understood by metaphysics; he now uses, instead of “God,” the expression “true world” and says: “We have abolished the true world. What has remained? The apparent one perhaps? Oh no! With the true world we have also abolished the apparent one.”

This insight of Nietzsche’s, namely, that “the elimination of the suprasensory also eliminates the merely sensory and thereby the difference between them” (Heidegger), is actually so obvious that it defies every attempt to date it historically; all thinking in terms of two worlds implies that these two are inseparably connected with each other.

Thus, all the elaborate modern arguments against positivism are anticipated by the unsurpassed simplicity of Democritus’ little dialogue between the mind, the organ for the suprasensory, and the senses. Sense perceptions are illusions, says the mind; they change according to the conditions of our body; sweet, bitter, color, and so on exist only nomo, by convention among men, and not physei, according to true nature behind the appearances. Whereupon the senses answer: “Wretched mind! Do you overthrow us while you take from us your evidence [pisteis, everything you can trust]? Our overthrow will be your downfall.”

In other words, once the always precarious balance between the two worlds is lost, no matter whether the “true world” abolishes the “apparent one” or vice versa, the whole frame-work of reference in which our thinking was accustomed to orient itself breaks down. In these terms, nothing seems to make much sense any more.”

Arendt, Hannah (1981-03-16). The Life of the Mind: Vols 1&2 (Combined 2 Volumes in 1) (Kindle Locations 193-214). Houghton Mifflin Harcourt. Kindle Edition.

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Em São Paulo, 27 de Maio de 2013

São a Mente e o Cérebro a Mesma Coisa?

Discordo totalmente da opção que Hélio Schwartsman faz na Folha de S. Paulo de hoje, 26/5/2013, ao final de seu artigo. Chamo o que ele faz de “opção” porque claramente não é a “conclusão” de um argumento bem fundamentado.

O Hélio se pergunta:

“A mente humana é idêntica ao cérebro ou encerra algo mais?”

E responde:

“Até prova em contrário, fico com a primeira hipótese”, ou seja, com a hipótese (ou tese) de que “a mente humana é idêntica ao cérebro”. Em outras palavras: a hipótese (ou tese) é de que a mente não existe — tudo o que existe é o cérebro; a realidade não tem uma dimensão mental: ela é totalmente material; enfim: a hipótese é de que o materialismo é verdadeiro.

Se se tratasse meramente de uma hipótese, tudo bem. Ela tem sido proposta e mantida por muita gente.

Mas o Hélio quer que tratemos a hipótese como se fosse verdadeira — ou pelo menos como tese comprovada de alguma forma.

Com base em quê?

Eis o que ele diz:

“Descartá-la [descartar essa hipótese] significaria jogar fora o paradigma materialista que está na base de todas as conquistas científicas dos últimos 200 anos.”

Essa justificativa de Hélio Schwartsman “begs the question”. “Begging the question” é pressupor que é verdadeiro exatamente aquilo que se deseja provar. Os antigos chamavam isso de “petitio principii”: justificar o princípio (a tese) que se deseja provar com o próprio princípio (a própria tese).

Por que devo considerar a mente idêntica ao cérebro? Porque eu sou materialista, diz ele. Isto é: considero a mente idêntica ao cérebro porque… porque considero a mente idêntica ao cérebro. Em última instância é isso que ele diz.

É lastimável.

O Hélio diz que, “até prova em contrário”, acredita nisso.

Não vou nem discutir a quem cabe a prova — o “onus probandi”, como diziam os antigos e ainda dizem os advogados.

Ele quer uma prova em contrário?

Muitas pessoas ficam doentes mentalmente em função de coisas em que acreditam. O paranóico acredita que todo mundo o persegue — e isso faz com que se comporte de forma que consideramos doentia. O hipocondríaco acredita que está doente quando não está — e isso faz com que se comporte de forma que consideramos doentia. O ciumento compulsivo vê riscos e evidência de traição em comportamentos perfeitamente normais e naturais — e isso faz com que se comporte de forma que consideramos doentia (levando-o, às vezes, até a matar a pessoa a quem ama e, não raro, outras).

Se a ciência que, segundo Schwartsman, adota o “paradigma materialista”, conseguisse identificar e mostrar, ao escanear o cérebro da pessoa, e sem que depender do que ela diz, o que ela pensa ou acredita, e que está na base de sua doença (patologia), e, manipulando o cérebro, seja por inputs elétricos, seja ação química (medicamentos), ou seja de qualquer outra forma, e, assim fazendo, conseguisse curar o indivíduo, eu ficaria razoavelmente convencido de que o “paradigma materialista” é digno de credência…

Mas a ciência não consegue fazer isso – pelo menos por enquanto. O Hélio afirma que “o conhecimento do cérebro . . . só engatinha”, assim dando a entender que, quando esse conhecimento estiver mais desenvolvido (quem sabe na fase de andar como uma criança de 3 anos), a ciência será capaz de demonstrar que “a toda patologia [inclusive às chamadas doenças mentais hoje] correspondem alterações anatômicas ou eletroquímicas no encéfalo”.

Então, SE e QUANDO isso acontecer, deixará de existir a “doença mental”, propriamente dita: toda doença, que hoje parece mental, será doença cerebral. E os psicanalistas e psicoterapeutas, que trabalham com a mente, e que usam a fala (não descargas elétricas, drogas ou outra forma de manipulação física do cérebro) como meio de terapia, ficarão desempregados.

Acho difícil (embora não impossível) que isso venha a acontecer.

Mas enquanto não acontece, acho que deveríamos manter a mente aberta (ou seria o cérebro aberto?), não é verdade?

Não basta dizer, como o faz o Hélio, que, como o paradigma hoje usado pela ciência é materialista, devemos acreditar que a mente não existe e se comportar como não existisse. O método científico é um método autolimitante: ele se aplica em ou sobre coisas que podem ser observadas. Não lida — ou não lida bem — com coisas em princípio não observáveis — como se acredita ser a mente humana.

E o pensamento e as crenças das pessoas não são observáveis examinando-se o seu cérebro. Pelo menos, não o são, por enquanto, no estágio atual do desenvolvimento científico.

Estudei e lecionei epistemologia, filosofia da religião e filosofia da ciência. Fui cético por muito tempo das crenças religiosas, em geral, e do Cristianismo, em particular. Considerei-me ateu por cerca de 35 anos. Voltei para a igreja depois que comecei a aplicar meu ceticismo para a própria ciência e suas pretensões.

Hoje reconheço que é preciso muita fé — mas muita fé, mesmo — para acreditar que um dia os neurocientistas que pesquisam o cérebro vão ser capazes de dizer, escaneando o meu cérebro:  “este cara é presbiteriano, sãopaulino, liberal, cético de determinadas pretensões científicas e, por cima, ama a Paloma e acredita que é correspondido…”

A fé necessária para eu acreditar, hoje, no que está no parágrafo anterior é maior do que a fé necessária para eu acreditar que temos uma mente e que essa mente é capaz de causar eventos no mundo material e, evidentemente, social (bem como, naturalmente, de sofrer a sua influência).

Para a crença na existência da mente e sua causalidade no mundo não mental temos excelente evidência.

Temos, eu creio, uma manifestação constatável de que a mente existe no fato de que algumas (se não todas) doenças ditas mentais podem ser curadas apenas com a fala, com conversa, com papo, sem que saibamos (nem mesmo o terapeuta) um iota sobre o estado físico do cérebro do paciente.

Pode até ser que a cada “evento mental” corresponda um “evento cerebral” (a chamada tese dualista-paralelista). Mas, neste caso, parece-me plausível que o evento mental seja a causa do cerebral — e não vice-versa.

Vide a esse respeito o fantástico (e já antigo) livro de Sir Karl Popper (filósofo e dualista) e Sir John Eccles (este neurocientista e brain researcher, prêmio Nobel em neuromedicina) The Self and Its Brain… O título do livro é significativo: sugere que o cérebro é conduzido pela mente, não vice-versa: the self and ITS brain.

É isso. Por enquanto. Que venga el fuego.

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Folha de S. Paulo
26 de Maio de 2013

HÉLIO SCHWARTSMAN

A unificação

SÃO PAULO – Saiu a quinta versão do “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM)”. Embora essa seja uma publicação da Associação Psiquiátrica Americana, a obra funciona como uma bíblia das doenças mentais no mundo todo. Não é coincidência que laboratórios acompanhem de perto a elaboração do DSM, que, quase a partir do nada, cria e extingue moléstias que movimentam bilhões de dólares.

Não é, porém, a questão econômica que me interessa aqui, mas a filosófica. Se há um ponto em que defensores e críticos do DSM-5 concordam, é que o novo manual, na hora de descrever os transtornos, segue recorrendo mais a sintomas subjetivos do que a marcadores biológicos, no que representa um revés para aqueles que advogam pela unificação da psiquiatria com a neurologia.

Para esse grupo, não há distinção entre mente e cérebro. A toda patologia correspondem alterações anatômicas ou eletroquímicas no encéfalo. O que temos de fazer é identificá-las e encontrar um meio de atuar sobre elas, providenciando assim a cura.

Nem todos concordam. Há correntes que enfatizam os aspectos não orgânicos das doenças, em especial fatores sociais e culturais. É certo que a esquizofrenia tem bases genéticas, mas o ambiente familiar em que vive o paciente define o impacto que a moléstia terá em sua vida. Garante-se aí espaço para a psiquiatria e a psicologia clínica, com seus subjetivismos e discurso por vezes metafísico.

Ao menos no atual estágio da medicina, em que o conhecimento do cérebro só engatinha, é difícil descartar as objeções de psiquiatras e psicólogos à unificação. Mas essa é uma consideração prática que não afeta a questão de princípio: a mente humana é idêntica ao cérebro ou encerra algo mais? Até prova em contrário, fico com a primeira hipótese. Descartá-la significaria jogar fora o paradigma materialista que está na base de todas as conquistas científicas dos últimos 200 anos.

helio@uol.com.br

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Em São Paulo, 26 de Maio de 2013

Ayn Rand e Graham Greene

Meus dois autores favoritos de ficção são Ayn Rand e Graham Greene.

Dificilmente poderia haver dois indivíduos mais diferentes em quase todos os aspectos. Só menciono um. De um lado, uma atéia, do outro um católico fervoroso (embora tenha sido um dos grandes pecadores da história que se penitenciou narrando seus pecados, não a um confessor, mas a seus leitores).

Rand descreve seres humanos, como eles deveriam ser, interagindo com seres humanos, como efetivamente o são os da pior espécie — isto, dentro da sociedade que temos, mas na qual, ainda que pelas margens, vai sendo construída uma nova sociedade (Atlantis), agora como ela deveria ser, que, aos poucos, consegue fazer com que aquela se dobre à sua superioridade.

Greene descreve seres humanos vivendo vidas reais, agoniadas por conflitos pessoais, alguns de natureza amorosa, outros de natureza ética e religiosa, às vezes política, mas que se misturam uns com os outros e transforman a vida dos que os exibem muitas vezes num inferno.

Talvez, de todos os heróis de Rand, Hank Rearden, um dos principais personagens de Atlas Shrugged (A Rebelião de Atlas), é o que mais se parece com os anti-heróis de Greene. Dilacerado pela lealdade que ele sentia que devia ter para com uma mulher que ele não amava e a paixão que ele sentia por uma mulher que ele acreditava que não poderia ser sua, ele sofre tanto quanto os mais sofridos personagens de Greene. Mas Rearden, no decorrer do romance, vê a luz, descobre a verdade, e transcende, ou “overcomes”, o seu conflito. Os personagens de Greene em geral não têm igual sorte. Maurice Bendrix, em The End of the Affair, sofre o tempo todo, por se apaixonar por Sarah Miles, mulher de seu amigo, e, depois, por achar que ela o está traindo com um personagem misterioso, e, ainda depois, por perde-la, em uma sequência de fatos que absolutamente não parecem fazer sentido. Quando descobre o segredo que explica os fatos, esse segredo é pior do que a presumida traição, porque ele vai rouba-la dele — e do mundo — para sempre. Ninguém ganha quando luta contra Deus, é o que aparentemente conclui o romance, que termina com um Bendrix emocionalmente destruído vivendo com o amigo, agora viúvo, que ele traía. Parece um dramalhão, mas Greene sabe descrever a história com maestria e incomparável suspense de modo a prender o leitor. E o filme, na versão de 1999 (não tanto na versão de 1955) transfere a beleza da história, o sofrimento dos personagens, e o suspense da narrativa, que mantém a atenção, de forma inigualável na cinematografia recente.

Em São Paulo, 25 de Maio de 2013.

Main Winners of the Oscar for 1943

I was born in 1943. Here we have the most important winners of the Oscar for that memorable year… Dedicated to everybody was born that year.

Transcribed from http://www.filmsite.org/aa43.html, with grateful recognition.

1943

Best Picture:

“CASABLANCA”.

Other nominees: “For Whom the Bell Tolls”, “Heaven Can Wait”, “The Human Comedy”, “In Which We Serve”, “Madame Curie”, “The More the Merrier”“The Ox-Bow Incident”, “The Song of Bernadette”, “Watch on the Rhine”

Best Actor:

PAUL LUKAS in “Watch on the Rhine”

Other nominees: Humphrey Bogart in “Casablanca”, Gary Cooper in “For Whom the Bell Tolls”, Walter Pidgeon in “Madame Curie”, Mickey Rooney in “The Human Comedy”

Best Actress:

JENNIFER JONES in “The Song of Bernadette”

Other nominees: Jean Arthur in “The More the Merrier”, Ingrid Bergman in “For Whom the Bell Tolls”, Joan Fontaine in “The Constant Nymph”, Greer Garson in “Madame Curie”

Best Supporting Actor:

CHARLES COBURN in “The More the Merrier”

Other nominees: Charles Bickford in “The Song of Bernadette”, J. Carrol Naish in “Sahara”, Claude Rains in  “Casablanca”, Akim Tamiroff in “For Whom the Bell Tolls”

Best Supporting Actress:

KATINA PAXINOU in “For Whom the Bell Tolls”

Other nominees: Gladys Cooper in “The Song of Bernadette”, Paulette Goddard in “So Proudly We Hail”, Anne Revere in “The Song of Bernadette”, Lucile Watson in “Watch on the Rhine”

Best Director:

MICHAEL CURTIZ for “Casablanca”

Other nominees: Clarence Brown for “The Human Comedy”, Henry King for “The Song of Bernadette”, Ernst Lubitsch for “Heaven Can Wait”, George Stevens for “The More the Merrier”

This was the first year that Best Supporting Actors and Actresses received full-sized Oscar statuettes, rather than miniature Oscar plaques.

Director Michael Curtiz’ Casablanca (with eight nominations and three Oscar wins – Best Picture, Best Director, and Best Screenplay for Julius J. Epstein, Philip G. Epstein and Howard Koch) – the melodramatic story of international intrigue, romance and politics in the Nazi-occupied exotic locale of French Morocco, is now considered one of filmdom’s best pictures ever made. The classic masterpiece of sacrifice and comradeship deservedly won the Best Picture award for 1943, but it was a dark horse candidate. Actually, it should have competed against Mrs. Miniver (1942) (the Best Picture winner in the previous year), since it premiered in New York in November of that year. However, it didn’t show in Los Angeles until its general release that January, so it competed in 1943.

With an inspired cast, As Time Goes By, a great director, and unexpected wartime publicity, the superior film told the story of an aloof American owner (Bogart) of a bar in Casablanca who rescues his old girlfriend (Bergman) and her Resistance husband (Henreid) from the clutches of Axis authorities.

During WWII’s height, four of the Best Picture nominees in 1943 had war as their themes. In addition to the Best Picture winner, three of the other nine Best Picture nominees of 1943 were also war films with patriotic or sentimental themes:

  • writer/co-director Noel Coward’s outstanding production (with director David Lean) of the flag-waving British film In Which We Serve (with two nominations and no wins in 1943), about the lives of the crew of the torpedoed and sinking destroyer HMS Torrin during the Battle of Crete (based upon the true story of Lord Louis Mountbatten’s destroyer HMS Kelly). This film had already received a Special Award in 1942 (for Coward’s “outstanding production achievement”)
  • director Herman Shumlin’s Watch on the Rhine (with four nominations and one win – Best Actor), a film adaptation of Lillian Hellman’s successful stage play about anti-fascism and the pursuit of a European couple that is part of the anti-Nazi underground
  • director Sam Wood’s For Whom the Bell Tolls (with nine nominations and one win – Best Supporting Actress), a film adaptation of Ernest Hemingway’s romantic/adventure novel and the story of the romance between an American school teacher and a traumatized woman he meets in a rebel camp during the Spanish Civil War
  • director Henry King’s The Song of Bernadette (with twelve nominations and four wins – Best Actress, Best B/W Cinematography, Best B/W Interior Decoration, and Best Dramatic Score), the film with the most nominations for the year, based on a novel by Franz Werfel about a peasant girl who sees a vision of the Virgin Mary in a grotto at Lourdes in 1858
  • director Ernst Lubitsch’s romantic comedy/satire Heaven Can Wait (with three nominations and no wins) – a remake of Here Comes Mr. Jordan (1941) about a philandering, amorous rogue who tries to convince the Devil in Hell that he was really a good human being
  • director Clarence Brown’s The Human Comedy (with five nominations and one win – Best Original Story by William Saroyan) about the experiences of a small-town (California) Western Union telegram delivery boy during World War II
  • director Mervyn LeRoy’s film biography of the discoverer of radium, Madame Curie (with seven nominations and no wins) – both male and female leads of Best Picture nominee Madame Curie lost – they were the popular, re-teamed romantic duo Walter Pidgeon and Greer Garson (the husband and wife of Mrs. Miniver)
  • director George Stevens’ romantic comedy about a working, female civil servant who shares a cramped apartment in war-time Washington DC with two bachelors (one old gentleman – Charles Coburn and one handsome young man – Joel McCrea) in The More the Merrier (with six nominations and one win – Best Supporting Actor)
  • director William A. Wellman’s western The Ox-Bow Incident (with only one nomination – Best Picture), about a mob that wrongly lynchs the wrong men, based on Walter Van Tilburg Clark’s true story

Hungarian-born Paul Lukas (with his sole career nomination) won the Best Actor award – his first and only Oscar – for his role as Kurt Muller, a German engineer and anti-Nazi underground Resistance leader who flees the Nazis with wife Bette Davis to seek refuge in the US (Washington) and continue his freedom-fighting activities – until he is blackmailed – in Watch on the Rhine. Unfortunately, Humphrey Bogart (with his first of three career nominations), in his quintessential, signature role as disaffected cafe owner Rick Blaine in Casablanca lost the Oscar, but his nomination brought him recognition and status as a top actor.

The other three Best Actor nominees were:

  • Gary Cooper (with his fourth nomination) as freedom fighter/war hero Robert Jordan in For Whom the Bell Tolls
  • Walter Pidgeon (with his second and last unsuccessful career nomination) as co-star Greer Garson’s scientist husband Pierre Curie in Madame Curie
  • Mickey Rooney (with his second of four unsuccessful career nominations) as Western Union messenger Homer Macauley who delivers death telegrams during WWII in The Human Comedy

In the Best Actress race, this was the first time in six years that Bette Davis didn’t receive an Oscar nomination. She had been nominated as Best Actress for six consecutive years (from 1938-1942), and had won in both 1935 and 1938.

The Best Actress winner was twenty-four year-old Jennifer Jones (with her first career nomination) as the 14 year-old, 19th century French peasant girl of Lourdes named Bernadette in an adaptation of Franz Werfel’s novel The Song of Bernadette. Jones portrayed a young, saintly girl who became canonized after claiming to have seen a vision of the Virgin Mary (played by Linda Darnell, Darryl Zanuck’s mistress) while gathering firewood, and was inspired to dig a well at the spot. [Producer/director David O. Selznick’s protege (and future wife in 1949) was, in all respects, appearing in her debut film, although she had been in a few minor low-budget pictures a few years earlier under her real name – Phyllis Isley. Jennifer Jones never won another Oscar, but she was nominated four more times in the films:Since You Went Away (1944)Love Letters (1945)Duel in the Sun (1946), and Love is a Many Splendored Thing (1955).]

The Best Actress win for Jennifer Jones also deprived other great actresses of awards:

  • twenty-nine year old Ingrid Bergman, Bogart’s lovely co-star in Casablanca was unacknowledged when she failed to be nominated for her role as Ilsa Lund; however, she was nominated (her first career nomination) as Best Actress for her role as traumatized rape victim – a peasant girl named Maria in For Whom the Bell Tolls.
  • Greer Garson (with her fourth of seven Best Actress nominations – one of six nominations between 1939 and 1945) as famous scientist Madame Marie Curie who discovered radium in the fact-based biopic Madame Curie
  • Joan Fontaine (the last of three nominations in the four years between 1940 and 1943) as Tessa Sanger – a young Belgian girl in love with composer/co-star Charles Boyer in director Edmund Goulding’s The Constant Nymph (the film’s sole nomination)
  • Jean Arthur (with her sole career nomination) as career girl/government worker Connie Mulligan who shares her DC apartment with two other men in The More the Merrier. [Jean Arthur was a great screen comedienne and director Frank Capra’s favorite actress – she appeared in key roles in many classics, including:Mr. Deeds Goes to Town (1936)Easy Living (1937), Best Picture and Director winner You Can’t Take It With You (1938)Only Angels Have Wings (1939) Mr. Smith Goes to Washington (1939), and  Shane (1953), among others.]

In the Best Supporting Actor race, Charles Coburn (with his second nomination and sole Oscar win) won the Oscar for his role as Benjamin Dingle – an old, daffy gentleman who is a rich philanthropist/matchmaker sharing a room for rent in an apartment with Jean Arthur and Joel McCrea in the overcrowded, wartime US capital during wartime in The More the Merrier. The other four nominees were:

  • Claude Rains (with his second of four unsuccessful nominations) as the suave, Casablanca police chief Captain Louis Renault in  Casablanca
  • Akim Tamiroff (with his second and last unsuccessful nomination) as Spanish guerrilla leader Pablo in For Whom the Bell Tolls
  • Charles Bickford (with the first of three unsuccessful nominations) as local priest Peyremaie in The Song of Bernadette
  • J. Carrol Naish (with his first of two unsuccessful nominations) as Italian POW Giuseppe in director Zoltan Korda’s Libyan desert war film Sahara (with three nominations and no wins)

Greek actress Katina Paxinou (in her first American film and with her first and sole nomination) won the Best Supporting Actress award – her first and only Oscar – for her role as the powerful and fiery hill woman and gypsy Spanish Civil War revolutionary Pilar (Akim Tamiroff’s wife in the film) who is a member of a loyalist band helped by Gary Cooper in For Whom the Bell Tolls.

Paxinou’s victory defeated two co-stars of The Song of Bernadette:

  • Gladys Cooper (with her second of three unsuccessful nominations) as doubting Sister Vauzous
  • Anne Revere (with her first nomination) as Bernadette’s poor mother Louise Soubirous

The remaining two nominees in the Best Supporting Actress category were:

  • Paulette Goddard (with her sole career nomination) as WW II Army nurse in Bataan named Lt. Jean O’Doul in director Mark Sandrich’s So Proudly We Hail(with four nominations and no wins)
  • Lucile Watson (with her sole career nomination) as bossy Fanny Farrelly (Bette Davis’ mother) in Watch on the Rhine

Max Steiner’s score for the Best Picture winner, including the immortal song: “As Time Goes By,” lost to Alfred Newman’s Score for The Song of Bernadette. Arthur Edeson’s Oscar-nominated B/W Cinematography for  Casablanca was defeated by Arthur Miller for The Song of Bernadette.

Oscar Snubs and Omissions:

Although The More the Merrier had received nominations for Best Picture, Best Actress, Best Director (George Stevens), Best Original Story and Screenplay, and a win for Best Supporting Actor, Joel McCrea was deprived of an Oscar nomination for his crucial comic role in the film. In fact, McCrea never received an Oscar nomination.

Ironically, Ingrid Bergman was nominated (and lost) for For Whom the Bell Tolls as Gary Cooper’s lover, but was un-nominated for her most famous role as beautiful and radiant Ilsa Lund, co-star Humphrey Bogart’s Parisian love interest, in Casablanca. Also un-nominated was Ida Lupino’s great performance in The Hard Way – the role won her the Best Actress award from the New York Film Critics. Likewise, the great silent film director Erich von Stroheim was omitted from the nominees for his role as Erwin Rommel in Billy Wilder’s second film, Five Graves to Cairo. [Stroheim would have to wait seven years for his first nomination — for his unforgettable role as Max von Mayerling in Sunset Boulevard (1950).]

The Best Picture-nominated film The Ox-Bow Incident was a deserved honor, but none of the cast, including Henry Fonda, was nominated. Ernst Lubitsch’s nomination for Best Director for the Best Picture nominee Heaven Can Wait was doomed to lose. Actor Don Ameche turned in one of his best performances in the film and it was one of Lubitsch’s greatest, but 20th Century-Fox was promoting The Song of Bernadette instead.

One of Hitchcock’s greatest thrillers (and the director’s own favorite), Shadow of a Doubt, deserved more recognition than it received – only a Best Original Screenplay nomination – snubbed were both Joseph Cotten’s chilling role as dark-hearted, widow-murdering serial killer Uncle Charlie, and Teresa Wright’s performance as Young Charlie (Charlie’s niece). [Joseph Cotten never received an Oscar nomination, although he appeared in some of the greatest films ever made, including  Citizen Kane (1941) and The Magnificent Ambersons (1942).]

Elizabeth Taylor’s second film Lassie Come Home, the first feature film to star a collie, helped to launch her career and the beloved animal series that began in 1954 – it received only one nomination – for Color Cinematography. [Lassie Come Home was followed by six sequels.] The feature film that was the directing debut of Vincente Minnelli was Cabin in the Sky – it featured an all-black cast. The film’s sole un-successful nomination was for Best Song, “Happiness is a Thing Called Joe.”

Other films without any nominations included Old Acquaintance (with Bette Davis and Miriam Hopkins) and two of Jacques Tourneur’s best horror films with producer Val Lewton: Cat People with Simone Simon, and I Walked With a Zombie. Hangmen Also Die received only two nominations (for Best Song and Score).

Em São Paulo, 24 de Maio de 2013

 

Ainda o Casamento entre Homossexuais

O termo “casamento” tem sentidos diferentes em várias “comunidades de sentido”.

Para a Igreja Católica, e para os legisladores brasileiros até 1977, influenciados pela tradição católica, casamento era uma união INDISSOLÚVEL (a não ser pela morte de um deles) entre UM HOMEM E UMA MULHER. Se um dos dois morresse, a união estaria desfeita, e o que ficava poderia se casar de novo.

Algumas religiões vão além. O casamento, para eles, é uma união INDISSOLÚVEL E ETERNA entre UM HOMEM E UMA MULHER. Neste caso, nem a morte os separa — isto é, nem a morte dissolve o casamento. Quem ficar, está obrigado a manter-se fiel ao cônjuge morto, vivendo sozinho, até que a sua morte lhe torne possível continuar o casamento com seu cônjuge na eternidade.

Os Muçulmanos, por sua vez, defendem a POLIGAMIA (do homem), permitindo que UM HOMEM se case, ou melhor, esteja casado, com VÁRIAS MULHERES, ao mesmo tempo, sem esperar que uma morra, ou sem precisar de alguma forma se separar dela, para se casar com outra.

Para ateus e para membros de religiões menos exigentes ou mais liberais, o casamento era uma UNIÃO, regida por CONTRATO, entre um HOMEM e uma MULHER que poderia ser desfeito, nos termos da lei, nada impedindo que os ex-contratantes celebrassem novo contrato com outras pessoas.

As situações em que o divórcio era possível eram bastante estritas no passado. Na própria Bíblia se admite o divórcio em caso de adultério, por exemplo. Mas essas situações foram se ampliando até o que são hoje, em que o “desamor”, ou o fim do amor, ainda que apenas de um dos cônjuges, é causa suficiente (embora não necessária) para o divórcio. (Que não é causa necessária é evidente: quem quiser continuar casado, mesmo sem amor, pode).

Mais recentemente, a partir do reconhecimento por parte das sociedades (principalmente ocidentais) de que a homossexualidade é um fenômeno muito mais generalizado do que se imaginava, do reconhecimento, na jurisprudência, de que relacionamentos estáveis entre homossexuais geram efeitos jurídicos (direito a pensão, participação em herança, etc.), e reconhecimento do fato inegável que os envolvidos demonstram claramente o desejo de que esses relacionamentos sejam rotulados de CASAMENTO (palavras são importantes — mais sobre isso adiante), muitos países (ou estados, no caso de confederações mais descentralizadas), passaram a reconhecer o direito de homossexuais se casarem, no pleno sentido legal do termo. O casamento, no caso, deixa de ser entre UM HOMEM E UMA MULHER e passa a ser entre DUAS PESSOAS, independentemente de seu sexo, em reconhecimento de que, no caso desse tipo de contrato, o sexo das partes é irrelevante. Um “casal”, nesse caso, passa a ser dois parceiros comprometidos em união estável, independentemente de seu sexo.

Essa evolução tem caminhado em paralelo com uma outra, igualmente importante, que tornou a primeira bem mais plausível do ponto de vista jurídico.

Deixando de lado razões religiosas ou teológicas, a principal razão para se considerar que o casamento precisava ser entre UM HOMEM E UMA MULHER é que se acreditava que a principal, se não a única, função do casamento era procriar. Entre os gregos cultos, por exemplo, entre os quais muitos filósofos respeitados até hoje, a mulher não era igual ao homem. Ela servia apenas para que o homem gerasse filhos e tivesse uma descendência. Ficava apenas um pouco acima dos animais, porque, afinal de contas, era capaz de comunicar-se linguisticamente e através de outros comportamentos simples que requerem (alguma) inteligência. Como o amor, no entender dos gregos, só podia ter lugar entre iguais, o amor era, necessariamente, homossexual – na verdade, o amor pleno aconteceria apenas entre homens.

Em parte com o surgimento do Cristianismo, mas plenamente só depois do Iluminismo, a mulher gradativamente conseguiu um status de igualdade com o homem – embora mesmo um país em certos sentidos “prafrentex” como a Suíça apenas lhe tenha dado direito de voto em 1947.

Foi só a partir da pílula anticonceptional e de outros métodos contraceptivos eficazes e relativamente simples, como o Dispositivo IntraUterino (DIU), que se tornou claro e evidente que poderia tranquilamente haver casamentos sem nenhuma intenção procriativa – apenas para apoio e prazer mútuo, inclusive o prazer que o sexo descontraído evidentemente traz, mesmo que envolva comportamentos ou ações que não exigem a penetração de uma vagina por um pênis.

Métodos de concepção que não envolvem a relação sexual e bancos de esperma permitiram também que mulheres produzissem filhos “autonomamente”, fora do casamento, novamente, sem a penetração de uma vagina por um pênis.

Separou-se, assim, de um lado e de outro, o elo que ligava o casamento e a procriação eliminando daquele a necessária relação sexual digamos convencional.

Se, porém, um homem e uma mulher podem se casar mesmo que não queiram e não contemplem ter filhos, simplesmente pelo prazer de estar juntos e de se apoiarem mutuamente, por que não duas pessoas do mesmo sexo?

Se, entre duas pessoas, há união afetiva e relacionamento estável e duradouro, e o casamento não tem mais, como única ou mesmo principal função, gerar prole por meios convencionais (em cujo caso a presença de um homem e de uma mulher era necessária), por que continuar negando aos homossexuais o direito de ter o seu relacionamento afetivo reconhecido como casamento, posto que o sexo biológico diferente dos envolvidos não é mais um componente essencial da relação matrimonial?

Quanto a palavras. Nossa sociedade brasileira não nega o direito aos heterossexuais que apenas vivem juntos sem se casarem de, querendo, se denominarem marido e mulher. Mesmo sem ter se casado legalmente, todo mundo que vive junto diz “esta é minha mulher”, “este é meu marido” — e se diz e considera casado.

Nos EUA as pessoas não legalmente casadas uma com a outra são mais cuidadosas na linguagem que usam: geralmente se referem à outra como “partner”, “significant other (SO)”, etc.

Mas aqui no Brasil, ninguém, nessas situações, se refere à sua mulher ou ao seu marido como “amásia/o”, “amante”, muito menos “concubina/o”, “parceira/o”, “companheira/o” (este último sendo o termo que a lei usava até há pouco tempo). Os costumes aqui, inclusive os linguísticos, são mais liberais.

Só para dar mais um exemplo. Nos EUA, quem tem 1/64 (que seja) de ascendência negra, é negro, mesmo que, em aparência, seja louro. Aqui no Brasil a gente deixa a pessoa se rotular se é branca, preta (sic), parda, etc. Se a pessoa se acha branca aqui, é branca, acabou. Se se acha preta, seja apenas para fins de cotas, é preta, acabou.

Outro exemplo… Houve época, aqui no Brasil, em que “pastor” era alguém formado em um curso regular de Teologia de pelo menos três ou quatro anos. Hoje, quem quer se chamar pastor (ou até bispo, apóstolo, etc.), se chama assim e é chamado assim, sem maiores controvérsias.

Nesse contexto, não vejo nenhuma justificativa (a não ser religiosa ou teológica) para se recusar o termo CASAMENTO à união estável de homossexuais, se eles querem que seu relacionamento seja assim enquadrado, linguística e legalmente.

É isso.

Em São Paulo, 19 de Maio de 2013, levemente revisado em Salto, 6 de Abril de 2017

Não tire o chapéu à burocracia

Ocorreu-me, enquanto lia o livro Globalização, Sociedade da Informação e Educação Superior, de Alex Fiuza de Mello, uma lembrança curiosa. Em 1987, já lá vão 26 anos, quando assumi a Diretoria do Centro de Informações de Saúde da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, descobri que uma de minhas tarefas mais importantes era coordenar o envio, da Secretaria para a Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, Suíça, via Ministério da Saúde, em Brasília, um relatório mensal com dados de incidência e prevalência de 26 moléstias de notificação compulsória. Eram 26, então. Talvez hoje sejam mais.

A diferença é que em 1987 não existia ainda a Internet Comercial. Embora criada em 1969, a Internet foi, até 1993, nos Estados Unidos (aqui no Brasil até 1995), um brinquedo da academia e das instituições de pesquisa que tinham convênio com as instituições de defesa. O envio dos dados era feito em papel, por correio e malote. Consegui, com muito custo, junto à Secretaria Especial de Informática (SEI), a autorização para usar uma linha de dados da Embratel para me comunicar com a OMS. O processo, demorado e burocratizado (talvez porque burocratizado), envolvia a necessidade de justificar, pormenorizadamente, a necessidade de comunicação entre os computadores da Secretaria e os da OMS. Que dados seriam transmitidos? Por que era necessário transmiti-los? Os dados não continham informações estratégicas que poderiam prejudicar os interesses nacionais caso caissem em mãos não autorizadas a conhece-los? E assim por diante.

O Brasil da época, recém-saído da Ditadura Militar, com uma política de informática ainda militarizada, sob controle da SEI, tinha uma política rígida de Fluxo de Dados Trans-Fronteiras (Transborder Data Flow). O governo tinha a ilusão de que era capaz de controlar que informações entravam no país e dele saíam através dos canais, estritamente controlados, de transmissão de dados. A ilusão, sabemos hoje, era totalmente vã.

Ocorreu-me essa lembrança quando me dei conta, lendo o livro mencionado, de que o governo tenta, hoje, ainda controlar a educação que os brasileiros recebem através de programas de Pós-Graduação a Distância de instituições com sede no estrangeiro. O governo de hoje sabe que não pode impedir os brasileiros de fazer esses cursos através da Internet. Usa, portanto, o único mecanismo que detém: a obrigatoriedade de registro no MEC dos diplomas envolvidos, algo que não acontece sem que os cursos realizados sejam declarados equivalentes aos ministrados por uma instituição brasileira.

Situação ridícula. Um Ph.D. ou um MBA realizado em Harvard, a melhor universidade do mundo em qualquer ranking que se utilize, precisa, para ser válido no Brasil, ser primeiro declarado equivalente ao de uma universidade brasileira. A melhor universidade brasileira, a Universidade de São Paulo, ocupa mais ou menos o centésimo lugar no principal desses rankings. As demais ficam mais embaixo, quando conseguem figurar no ranking. O governo imagina que vai conseguir para sempre realizar esse controle, da mesma forma que os militares de 1987 achavam que conseguiriam controlar cada byte que entrava no país ou dele saía.

Ninguém impede a Microsoft Informática, subsidiária brasileira da Microsoft Corporation, de aceitar um diploma de Harvard, ou de qualquer outra instituição, sem que o título que ele atesta seja declarado equivalente ao de uma universidade brasileira. Na verdade, o MEC só vai conseguir, se tanto, controlar o que fazem as Universidades Federais. Não controla nem mesmo as universidades estaduais paulistas. Meu diploma de Ph.D. da University of Pittsburgh foi acatado pela UNICAMP, sem necessidade de ser declarada a sua equivalência a algum título nacional, no formato preconizado pelo MEC. Durante 34 anos trabalhei lá sem precisar fazer o dito processo de equivalência de títulos – 26 como Professor Titular. Nessa condição, participei de bancas de doutoramento e de concursos de ingresso ou acesso (até mesmo ao nível de Professor Titular) em universidades federais, que consideravam o fato de eu ser Professor Titular na UNICAMP suficiente.

Devemos ter a coragem de descumprir essas regras bestas que os governos nos impõem. A maior parte das vezes, as instituições não vão exigir que se tire o chapéu à burocracia.

Em São Paulo, 16 de Maio de 2013.