O Exame da OAB

No Ceará um juiz decretou que o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não é necessário para que uma pessoa formada em Direito por uma faculdade reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) possa exercer a advocacia.

A OAB, naturalmente, está, como se dizia antigamente, tiririca. Quer, porque quer, controlar quem entra no mercado de advogados. Quer poder determinar, portanto, qual o nível de concorrência que os atuais advogados vão enfrentar.

Em outra disputa, aqueles jornalistas que têm diploma de Jornalismo querem impedir os jornais e outras empresas de mídia de contratarem empregados ou prestadores de serviços, para exercer funções relevantes para o jornalismo, que não possuam diploma de jornalista.

Temos vários tipos de problema aí.

No caso da OAB, temos um órgão corporativo querendo controlar, através de um exame, quem pode e quem não pode exercer a profissão de advogado. Aqui há, evidentemente, uma tentativa de desvalorizar o diploma de Direito. A OAB e muitos advogados no exercício do cargo afirmam que muitos cursos de Direito, por não receberem fiscalização e controle de qualidade por parte do MEC, são uma porcaria. O último concurso da OAD reprovou (se bem me lembro) quase 90% dos candidatos. Pessoalmente, não sei se isso se deu porque 90% dos candidatos eram picaretas ou porque a OAB quer restringir o número de profissionais que concorrem com os atuais profissionais do Direito. A OAB tenta apelar para a população que, segundo ela, seria atendida por um bando de picaretas se o exame da OAB deixar de ser requisito obrigatório para o exercício da profissão de advogado.

No caso dos jornalistas, sindicatos e grupos de jornalistas que possuem diploma de jornalista (que também podem ser designados como órgãos corporativos) querem impedir que jornais e outras empresas de mídia contratem, como jornalistas, pessoas que não possuem o referido diploma.  Aqui há, evidentemente, uma tentativa de valorizar o diploma de Jornalismo (porque não há um exame para ingresso na profissão). Mas a finalidade também é restringir o acesso ao mercado de jornalismo.

O mercado, em várias outras áreas, em especial em áreas inovadoras, está muito além desse debate e é bastante aberto. As empresas em geral contratam pessoas independentemente dos diplomas que possuam ou dos exames em que tenham sido aprovadas. Elas contratam as pessoas pela competência que elas exibem em entrevistas e testes elaborados, em regra, pelas próprias empresas.

Lembro-me, no contexto, de um dos livros de Valnir Chagas, em que ele discutia o clima liberal do fim do Império e início da República, em que havia uma citação que dizia o seguinte: “Deve poder ensinar quem deseje fazê-lo e para tanto se julgue qualificado” (o sentido era esse – as palavras podem não ser exatamente essas, pois cito de memória).

Tendo a concordar com essa tese – em qualquer área, não só na educação.

Não creio que as universidades e outras instituições educacionais devam ter função credenciadora para o exercício de uma profissão. Sua função deve ser simplesmente educar – de forma não profissionalizante. As pessoas devem ter, nas universidades e em outras instituições educacionais, o direito de estudar o que querem – com a orientação de um mestre ou não.

E não creio que as corporações devam ter o poder de controlar quem exerce e quem não exerce a profissão que elas pretendem representa. Quando elas têm esse poder, não atuam no interesse da população, mas, sim, exclusivamente para proteger um mercado que lhes é reservado.

Assim, fico com a posição liberal do fim do século XIX. Para qualquer profissão, exerça-a quem desejar fazê-lo e, para tanto, se julgue qualificado.

Em São Paulo, 19 de Dezembro de 2010

Marido e Mulher e as “Novas Conjugalidades”

Mirian Gondenberg (miriangoldenberg@uol.com.br) escreveu dois artigos interessantes na Folha recentemente (o segundo, hoje, 14 de Dezembro). Transcrevo-os abaixo.

Mas antes, a minha opinião.

Minha mulher e eu vivemos a situação parcialmente descrita por ela: vivemos juntos há dois anos e meio quase. Há, portanto, co-habitação. O divórcio dela já saiu mas o meu se enrosca em questões patrimoniais. Sempre a chamei, entretanto, desde o início, de “minha mulher”, e ela, a mim, de “meu marido”. É isso que somos um para o outro, afinal!

Quatro considerações:

1) O uso linguístico de chamar a esposa de mulher e o esposo de marido é antigo e consagrado. Os ritos matrimoniais consagram o casal como “marido e mulher”. Mulher, assim, tem como contrapartida não só homem – se se foca o sexo – mas também marido – se se foca o estado civil. A contrapartida de “mulher” não precisa, portanto, ser “homem”, se se foca o estado civil.

2) Hoje em dia não faz mais sentido reservar o termo “marido” (ou mulher) apenas para aquele(a) com quem se está casado de papel passado. Marido (ou mulher) é aquele(a) com quem se vive conjugalmente. 

3) Sempre preferi as expressões “minha mulher” e “meu marido” às expressões (que me parecem demodées e desnecessariamente pomposas!) “minha esposa” e “meu esposo”.

4) Mas não tenho nada contra a tentativa de resgatar a expressão “meu homem” para se referir ao marido. Pelo contrário.

Mas gostei muito dos artigos da Mirian.

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OUTRAS IDEIAS

Meu homem

MIRIAN GOLDENBERG

Sugestões recebidas: parceiro, companheiro, rolo, querido, ficante, namorido, marinado, sei lá, tanto faz

NA ÚLTIMA coluna escrevi sobre um problema que afeta muitas brasileiras: como apresentar o homem com quem elas vivem novas formas de conjugalidade? Como defini-lo, se não há vínculos legais, co-habitação, filhos?

Recebi sugestões engraçadas, criativas e inteligentes. Exemplos: marido, esposo, cônjuge, namorado, noivo, namorido, ficante, rolo, marido oficial, marido social, marido informal, parceiro, companheiro, “significant other”, consorte, com-sorte, querido, amado, amante, afeto, amigo, amigo predileto, amor da minha vida, UE (união estável), gato, caso, colega de viagem, macho, dono do meu coração, vizinho de cama, amizade colorida, compromisso enrolado, compromisso sério, o cara, sei lá, tanto faz.

Uma das mais “votadas” foi: “Este é o meu amor”.

A Sandra escreveu: “Achei muito divertido o seu texto, porque é uma situação muito atual, talvez pela falta de necessidade de se ter um relacionamento que resulte em certa dependência. As mulheres têm ficado financeiramente independentes e isso se reflete no setor afetivo”.

E essa leitora continua: “Ainda é difícil classificar de forma que todo mundo entenda esse novo tipo de relacionamento. Só sei que o meu já dura cinco anos. Me lembro como o apresentei para minha mãe: -Mãe, esse é o Jorge. Ela perguntou se era meu namorado, e eu: -Não, mãe, é o meu amor!. E ainda o apresento assim”.

Entretanto, a sugestão campeã absoluta foi: “Este é o meu homem”.

A Angélica disse: “Mirian, eu adorei seu texto. Também tenho essa dificuldade de apresentação. Para ele, meu amor, eu digo que ele é meu homem! Eu fico entre essas duas definições: esse é meu homem, esse é meu amor.

Mas, dependendo das circunstâncias, eu vou mudando: esse é meu gato, meu amado, meu namorado. Mas, lá no fundinho, eu continuo querendo uma única coisa: que ele continue sendo meu homem, meu amor, minha paixão”.

Por fim, fica a proposta da Lélia, que fez uma enquete com dezenas de amigos: “Sabe Mirian, eu acho que deveríamos ter a coragem de dizer “este é o meu homem”. Vamos derrubar o preconceito. Vamos enterrar a ideia de achar que falar “meu homem” é vulgar. Se homem pode dizer “esta é a minha mulher”, nós também podemos dizer “este é o meu homem”. Ponha em prática a ideia. Seja a precursora. Vamos pôr fim a esse tabu. Lance a campanha!”.

Então, queridos leitores e leitoras, vamos aceitar o desafio da Lélia?

[MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de “Intimidade”(Record)]

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OUTRAS IDEIAS

MIRIAM GOLDENBERG

Nem marido, nem namorado

Apesar de tantas mudanças, ainda faltam bons nomes para definir os novos formatos de relacionamento amoroso

MUITAS mulheres dizem que não sabem como definir o homem com quem estão tendo uma relação afetiva e sexual.

Algumas moram junto, mas não são casadas legalmente. Outras moram sozinhas, mas têm um compromisso estável. Outras ainda moram no mesmo apartamento, mas cada um tem seu quarto, banheiro, computador, telefone, televisão etc.

Elas dizem que não gostam de chamá-los de “marido”, porque indicaria um nível de compromisso que não assumiram. Acham a palavra “namorado” pior ainda, consideram esquisito dizer que estão namorando depois de certa idade. “Namorido” (mistura de namorado e marido) dizem, é ridículo, apesar de o termo estar na moda em alguns meios.
Uma psicóloga de 47 anos diz: “Estou com uma pessoa há mais de dez anos. Eu acho estranho dizer que é meu “marido”, porque não moramos juntos. “Namorado” é coisa para adolescente. “Companheiro” parece que sou do Partido Comunista. “Parceiro” parece que ele é meu sócio num negócio. Ele diz para todo mundo: esta é a minha mulher. Adoraria fazer como ele e dizer, apenas, ‘este é o meu homem'”.

Apesar de décadas de mudanças nas relações de gênero, nas famílias e nos casamentos, não foi inventado um bom nome para definir os homens e as mulheres que vivem novas conjugalidades.

O fato de não existir um nome indica que essas relações não são plenamente reconhecidas socialmente. Daí a necessidade de homens e mulheres usarem velhas definições, talvez como forma de tornar os novos arranjos conjugais mais legítimos, reconhecidos ou seguros.
Trata-se de um problema de classificação. Não conseguimos nomear adequadamente novas formas de compromisso amoroso sem recorrer a categorias anacrônicas, que estão muito longe de serem adequadas.

Uma antropóloga de 50 anos diz que o Facebook está mais antenado com os relacionamentos atuais. “Lá tem como opções: solteira, em um relacionamento sério, em um noivado, casada, em um relacionamento enrolado, amizade colorida, viúva, separada, divorciada. Eu me classifico como tendo um relacionamento sério. Mas na vida real como posso apresentá-lo aos meus amigos? Este é fulano, o meu relacionamento sério?”
Caros leitores e leitoras, alguma sugestão? Enviem suas ideias para o meu e-mail e, quem sabe, conseguimos descobrir uma definição mais satisfatória para as novas formas de conjugalidade.

Mas, por favor, nada de namorido!

[MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de “Intimidade” (Record)]

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Em São Paulo, 14 de Dezembro de 2010

Ainda o Qatar e o Brasil

Fico me perguntando por que o Brasil não faz coisas assim, como o Summit WISE (World Innovation Summit for Education), agora esse Prêmio WISE da Educação, e tantas outras coisas que a fundação do governo do Qatar está fazendo pela educação mundial.

Com essas iniciativas o Qatar vai se tornar, de um lado, a Davos da Educação. Anualmente se digirão para cá mais de mil pessoas envolvidas com educação em universidades, escolas, na administração central, regional ou local de sistemas educacionais, em ONGs, na mídia, na política, etc. O Summit WISE, este ano apenas em seu segundo ano de vida, vai se tornar referência. Apenas brasileiros havia aqui 21. Eis os nomes:

    • Paulo Alcântara Gomes – Presidente, Conselho da Educação do Estado do Rio de Janeiro
    • José Augusto – Gerente de Educação a Distância, Governo do Amazonas
    • Rodrigo Baggio – Fundador, Centro de Inclusão Digital
    • Vera Bottrel Tostes – Diretora, Museu Histórico Nacional
    • Francisco Cavalcanti – Coordenador do Projeto Educacional, Viva Rio
    • Eduardo Chaves – Diretor de Educação, Zoom Education for Life
    • Regiane de Oliveira – Jornalista, Brasil Econômico
    • Paulo Egon Wiederkehr – Assessor Especial, Ministério da Educação
    • Marcos Fadanelli Ramos – Gerente de Educação, Fundação Banco do Brasil
    • Fernando Garcia Moreira – Professor, Universidade do Vale do Paraíba
    • Heitor Gurgulino de Souza – Secretário Geral, Associação Internacional de Reitores
    • Fredric Michael Litto – Presidente, Associação Brasileira de Educação a Distância
    • Juliana Opipari Paes Barreto – Vice Superintendente, Alfasol
    • Sérgio Pompeu – Jornalista, O Estado de S. Paulo
    • Norma Reis Valle Coutinho – Coordenadora Pedagógica, Espaço Criança Esperança
    • Dilvo Ristoff – Diretor, Universidade Federal de Santa Catarina
    • David Santos – Diretor, Educafro
    • Vandyck Silveira – Diretor Gerente, HSM Business School
    • Rafael Torino – Diretor, Fundo Nacional de Desenvolvimento Econômico
    • José Vicente – Presidente, Afobras
    • Samara Werner – Diretora de Educação, Instituto Oi Futuro

Mas Qatar vai também se tornar a Estocolmo da Educação, com o seu Prêmio WISE da Educação. Todo ano o mundo da educação vai estar olhando para Doha no último trimestre do ano para saber quem é o premiado com a significativa quantia de 500 mil dólares.

Um país pequeno, que tem uma população total mais ou menos igual à da cidade do Recife, e cuja população com direitos de cidadão não passa de cerca de 300 mil – a população de Uberaba (o resto é imigrante que só entra aqui para trabalhar) – de repente, por ações inteligentes e bem focadas, chama para si, de forma positiva, a atenção do mundo inteiro, por causa de suas iniciativas na área da educação.

E note-se que as iniciativas não são bairristas, voltadas para o mundo árabe, ou para as nações do Golfo Pérsico, coisa assim. O olhar do Qatar é para o mundo, não para o próprio umbigo.

Eis uma lista das universidades do Qatar:

Note-se só. Seis delas são “filiais” de reputadas universidades americanas.

Enquanto isso o Brasil coloca obstáculos a que universidades estrangeiras abram filial aqui e ameaça não reconhecer diplomas de cursos a distância ministrados pelas melhores universidades do mundo, como Harvard, Yale, Stanford, Massachusetts Institute of Technology, etc. Quando faz parcerias com outros nações, elas são com a Venezuela, a Bolívia, o Equador, o Paraguai, Cuba…

O Brasil é grande, em território e população, mas pensa pequeno, pensa localmente, pensa regionalmente. O Qatar é pequeno, em território e população, mas pensa grande, pensa globalmente.

Aí está a diferença.

Em Doha, 9 de Dezembro de 2010

Finalmente um Prêmio “Nobel” na Educação

A Fundação QATAR, que realiza o World Innovation Summit in Education (WISE), acabou de anunciar, hoje, 9 de Novembro de 2010, na Cerimonia de Encerramento do WISE-2010, a criação do PRÊMIO WISE DE EDUCAÇÃO, a ser concedido, anualmente, ao educador, indicado pelos seus pares e selecionado por um comitê internacional de onze especialistas, que tiver feito a maior contribuição para a educação.

O prêmio será no valor de quinhentos mil dólares americanos, e trará consigo uma medalha de ouro.

O primeiro prêmio será concedido em Doha, durante WISE-2011, que terá lugar de 1 a 3 de Novembro de 2011.

A Fundação Qatar receberá indicações a partir de 1 de Fevereiro de 2010.  

Como o anúncio do ganhador se dará mais ou menos na mesma época em que se anunciam ou premiam os ganhadores dos Prêmios Nobel (nem todos dos quais são dados pela família Nobel), é possível que o Prêmio WISE se incorpore aos demais, colocando o Qatar no mapa da Educação.

Em Doha, 9 de Novembro de 2010

 

As Competências Essenciais para o Século 21 de Marc Prensky

Marc Prensky tem o dom de sempre me surpreender positivamente. (É verdade que de vez enquanto surpreende negativamente: ontem, aqui na WISE, em Qatar, todos os homens estavam não só de terno e gravata, mas de terno escuro – só ele de camiseta, e ainda verde. E, por cima, quando chamado ao pódio, deu uma dançadinha no caminho. Por que, pergunto eu?).

A última surpresa foi sua lista de Competências Essenciais para o Século 21. Vide http://www.marcprensky.com/writing/Prensky-Essential_21stCenturySkills.pdf.

Eu as transcrevo abaixo.

Gosto da lista e da forma como está organizada. Acho muito melhor essa forma de organização do que os Quatro Pilares da UNESCO, ou as não sei quantas Inteligências Múltiplas de Howard Gardner, que eu próprio já utilizei para organizar as Competências do Século 21.

Gosto ainda mais do “Prefácio”: O objetivo do desenvolvimento dessas competências é permitir que as pessoas sejam capazes de perseguir sua paixão, ou suas paixões, até o limite de suas habilidades. A aprendizagem é escrava da paixão (vale dizer, do interesse apaixonado, dos sonhos). A única aprendizagem que funciona é “passion-based learning”, aquela que resulta da tentativa de perseguir nossas paixões, de transformar nossos sonhos (vale dizer, nossos projetos de vida) em realidade.

Essa ideia Marc Prensky claramente toma emprestado de Sir Ken Robinson. Vide seu importante livro, The Element: How Finding your Passion Changes Everything (2008; tradução brasileira: O Elemento-Chave: Descubra Onde a Paixão se Encontra com seu Talento e Maximize o seu Potencial, 2010).

Para conseguir perseguir suas paixões, até o limite de suas habilidades, o indivíduo precisa possuir as seguintes “macrocompetências:

    • Saber qual é a coisa certa a fazer
    • Conseguir fazê-la
    • Fazê-la com os outros
    • Fazê-la de forma criativa
    • Fazê-la cada vez melhor

>Um primor de simplicidade. Tudo o mais que jamais se listou como competência do Século 21 se encaixa perfeitamente debaixo de uma dessas categorias. Temos aqui o esboço de um currículo de MBA em Educação.

Eis o que Marc Prenksy coloca debaixo de cada “macrocompetência”:

I. Saber qual é a coisa certa a fazer

  1. Comportar-se de forma ética
  2. Pensar criticamente
  3. Definir metas
  4. Fazer juizos sólidos
  5. Tomar boas decisões

II. Conseguir faze-la

  1. Planejar
  2. Solucionar problemas
  3. Executar
  4. Monitorar e Avaliar
  5. Repetir o processo

III. Faze-la com os outros

  1. Assumir a liderança
  2. Comunicar-se com indivíduos e grupos
  3. Usar tecnologia
  4. Comunicar-se com uma audiência global
  5. Comunicar-se com culturas diferentes

IV. Faze-la de forma criativa

  1. Adaptar
  2. Pensar criativamente
  3. Projetar e “mexer aqui e ali”
  4. Brincar, jogar
  5. Encontrar sua própria voz

V. Faze-la cada vez melhor

  1. Refletir
  2. Ser proativo
  3. Tomar riscos com prudência
  4. Pensar no longo termo
  5. Melhorar sempre através da aprendizagem

Vou começar a usar essa lista. É muito mais fácil convencer as pessoas da validade de uma abordagem à educação centrada em competências com base em uma lista dessas do que em qualquer outra que eu conheço.

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Marc Prensky‟s Essential 21st Century Skills

The Goal: To be able to follow one‟s passion(s) as far as one‟s abilities allow. In order to do that, no matter what the future brings, individuals must master the following skills:

1. Knowing the right thing to do

a. Behaving ethically
b. Thinking critically
c. Setting goals
d. Having good judgment
e. Making good decisions

2. Getting it done

>a. Planning
b. Solving problems
c. Self-directing
d. Self-assessing
e. Iterating

3. Doing it with others

a. Taking leadership
b. Communicating/interacting with individuals and groups (especially using technology)
c. Communicating/interacting with machines (= “programming”)
d. Communicating/interacting with a world audience
e. Communicating/interacting across cultures

4. Doing it creatively

a. Adapting
b. Thinking creatively
c. Tinkering and designing
d. Playing
e. Finding your voice

5. Constantly doing it better

a. Reflecting
b. Being proactive
c. Taking prudent risks
d. Thinking long-term
e. Continually improving through learning

(Note that many of these terms and ideas come from Stephen Covey‟s Seven Habits of Highly Effective People. “Tinkering‟ is from John Seeley Brown. )

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Em Doha, 9 de Dezembro de 2010
(Pequena edição em São Paulo, 25 de Setembro de 2013)

Qatar: o anti-Brasil?

Não estou entre aqueles que costumam falar magistralmente sobre um país que acabou de conhecer. Estou no Qatar desde o dia 6, segunda-feira, e volto para o Brasil amanhã, sexta-feira, dia 10. Mas há alguns fatos e algumas impressões que posso desde já registrar, e que justificam a pergunta colocada no título.

FATOS (buscados na Wikipedia):

Fuso Horário
Brasil: GMT -3
Qatar: GMT +3

Área
Brasil: 8.514.877 km2
Qatar: 11.437 km2

População
Brasil: cerca de 200 milhões (arredondando um pouco para cima)
Qatar: cerca de 2 milhões (arredondando muito para cima)

Renda per Capita
Brasil: USD 10.513
Qatar: USD 83.840.513 (segunda do mundo, atrás apenas de Liechtenstein)

Idade como unidade política autônoma
Brasil: desde 1822
Qatar: três datas celebradas – o Dia Nacional, 18/12/1878, o dia da Independência do Império Otomano (1913) e o dia do término de um tratado especial com o Reino Unido (3 de Setembro de 1971). Esta última é a data da real autonomia – menos de 30 anos atrás.

Regime Político
Brasil: República federativa constitucionalista, presidencialista 
Qatar: Monarquia (Emirado), parlamentar

Religião Oficial
Brasil: Nenhuma
Qatar: Muçulmana

Pico mais elevado
Brasil: Neblina: 2.994m
Qatar: Qurayn Abu al Bawl, 103m

Podemos deixar os fatos aí. Não só somos muito maiores em território e população, somos muito mais “altos” também, como o último indicador comprova de forma incontestável… Mas levamos uma surra em renda per capita.

Agora algumas impressões que saltam aos olhos.

Trânsito

Li em algum lugar que Qatar possui as multas de trânsito mais altas do mundo para excesso de velocidade e outras violações com o veículo em movimento. Isso explica o trânsito mais ordeiro e monótono que já vi na vida. Da janela do hotel (Möwenpick) vejo uma avenida de duas mãos, três faixas de trânsito em cada mão, separadas as mãos por uma mediana, que é cruzada por outra avenida com exatamente as mesmas características. Algo mais ou menos equivalente com o cruzamento da Avenida Brasil com a Avenida 9 de Julho em São Paulo. Aqui não há farol. Há simplesmente um balão sem indicação de Pare ou de Preferência. E os carros diminuem a velocidade, olham para a esquerda e entram no balão, de forma disciplinada. Uma coisa inimaginável em São Paulo. É verdade que o número de carros aqui é bem menor – mas a cidade também é muito menor.

Hábitos Sociais

A piscina do hotel tem horas especiais para senhoras – porque não é costume, aqui, mulheres e homens se banharem juntos em público. No hotel há duas pequenas mesquitas: uma para homens, outra para mulheres. A venda e o consumo público de bebida alcoólica são proibidos (embora tenha sido informado que os grandes hotéis abrem uma exceção em uma sala privada se se trata de um grupo razoável de estrangeiros).

Relações Sociais

A minoria árabe (cerca de 25%) manda no país. Os restantes 75% são mão de obra importada. Li – mas não posso garantir a veracidade – que essa mão de obra importada precisa ter um sponsor para entrar no país e esse sponsor fica como se fosse senhor de um escravo, podendo impedi-lo de mudar de emprego, voltar para o país de origem, etc. No entanto, a situação econômica e as condições de vida aqui são tão boas que esses verdadeiros escravos ficam satisfeitos com seu destino. Conversei com vários deles. O rapaz que limpa meu quarto – curioso, só homens trabalham como camareiros — é filipino e está aqui há dois anos. Fala inglês perfeito, é extremamente cortês e executa seu trabalho com perfeição e eficiência. Perguntei se estava feliz aqui. Olhou-me como que surpreso com a pergunta: “Of course, sir! Very happy.”. Uma amiga australiana minha que está dando uma formação para pessoal de escolas concluiu que uma professora era muito mais preparada e competente para ser diretora de uma escola do que a diretora que estava no cargo. Num momento de intervalo perguntou à responsável pela área do Ministério da Educação por que essa professora não era a diretora: “She is not a qatari, ma’m”, foi a resposta. Isso significa que, a partir de um certo nível na hierarquia das organizações, os cargos estão reservados para a minoria qatari. Os outros, como estão aqui em condições precárias, se beneficiando de uma situação econômica que não encontram em seus próprios países, não protestam.

Relação com a Autoridade

Ontem fiquei comovido no jantar de gala que contou com a presença de Her Highness Sheikha Mozah Bint Nasser Al-Missned, segunda mulher do Emir (51 anos, sete filhos, mas com uma aparência fantástica – vejam o site oficial dela: http://www.mozahbintnasser.qa/pages/default.aspx). O que me comoveu foi o fato de que uma cantora famosa aqui do país (preciso pegar o nome certo, depois divulgo), que cantou acompanhada Orquestra Filarmônica do Qatar, antes de iniciar seu contexto, disse o seguinte, com a voz embargada de emoção e os olhos com lágrimas que por pouco não transbordavam:

“Your Highness. Two weeks ago I had the privilege and highest honor to sing for His Highness Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani. Today, two weeks after, I have the privilege and honor to sing for Your Highness. My happiness is now complete.”

O que me comoveu nessa história foi que tudo indicava que a emoção da cantora era genuína e que suas palavras representavam a mais pura verdade. Cantar para o Emir e a Sua Princesa era, para ela, a mais subida honra que podia caber a ela, uma cantora.

Ninguém aqui se refere ao Emir e à Princesa a não ser como His Highness… and Her Highness… No Brasil, é Lulla e  Dona Marisa.

O Qatar é um país pequeno. Fico imaginando que o Lulla pensa que ser Emir de um paisinho de menos de dois milhões de pessoas é equivalente a ser prefeito de Belo Horizonte. Certamente ele, Lulla, se acha muito mais importante. Mas o porte, a postura e a dignidade dos governantes aqui dá inveja. O ritual do cargo é prestigiado e respeitado. No plebiscito que tivemos no Brasil há tempos votei a favor da monarquia, porque achava (e continuo achando) que o Brasil, país informal demais, a ponto de ser às vezes esculachado, precisa de um pouco de formalidade, um pouco de ritual, um pouco de liturgia no trato da coisa pública.

A Princesa é a presidente da Qatar Foundation que promoveu o World Innovation Summit for Education, WISE, ora no seu segundo ano. O Qatar, com esse evento, pretende se afirmar como a Davos da Educação. Há mil e duzentos educadores, políticos, pessoal de empresas, de NGOs e de mídia aqui. Vou listar alguns dos órgãos de mídia que têm repórteres e fotógrafos aqui, para dar uma dimensão (há mais de 150 pessoas da mídia, com uma infraestrutura fantástica no Centro de Convenções do Hotel Sheraton):

Euronews (mais de dez)
Le Monde Education
L’Express
The Times (UK)
The Times Higher Education (UK)
The Times Education Supplement (UK)
The New York Times
International Herald Tribune
CNN
RAI
Brasil Econômico
O Estado de S. Paulo

Como dizia, a Princesa é a principal articuladora dessa projeção do Qatar na área cultural, com ênfase na educação. Nos oito anos do governo Lulla, o que fez essa não-entidade que é Dona Marisa, além de plásticas no rosto (e, possivelmente, no resto do corpo).

Não ouvi o Emir falar. Mas deve falar pelo menos tão bem quanto sua mulher, que tive o privilégio de ver e ouvir ontem à noite. E não deve aparecer em palanques com os olhos vermelhos e esbugalhados alardeando quão bom ele é e quão ruim é todo o resto.

Precisava dizer isso. Como disse, ao todo vou ficar aqui apenas três dias inteiros, não contando o dia da chegada e da saída. Senti uma enorme falta de um vinhozinho às refeições. Mas a experiência me provocou essas reflexões. Seria o Qatar o anti-Brasil? O país pequeno que consegue se projetar mundialmente em uma área enquanto o Brasil fica tentando obter respeito em várias, sem conseguir?

Para terminar, mais uma reação pessoal. Num jantar, anteontem à noite, no Tajine Restaurant, um restaurante marroquino, sentei-me ao lado de um amigo meu, educador russo, que, como eu, faz parte de Education Impact. Ele me perguntou: “Você gostaria de viver num país como este?” A pergunta me pegou de surpresa, mas a resposta saiu mais ou menos espontânea e clara: “Se for preciso, vivo; se puder escolher, prefiro outro”. Depois fiquei pensando sobre minha resposta. Estou com 67 anos, dos quais 60 vividos no Brasil (os outros 7 vivi nos Estados Unidos, de 1967 a 1974). Este jeito de ser meio bagunçado, bastante informal, de certo modo entrou no meu DNA, durante esse tempo. Acho que, a essas alturas, não me acostumaria muito facilmente aqui não – embora me adapte bastante bem a circunstâncias diferentes. Mas quando olho ao que esse jeito de ser tem causado ao Brasil, não tenho dúvida de que ele, no global, é nefasto. Ter no malandro o seu tipo nacional é divertido quando a gente assiste a um filme, não quando a gente vê a performance ao vivo do Presidente.

Em Doha, 9 de Dezembro de 2010

As Classes Econômicas Brasileiras

No artigo abaixo, publicado hoje na Folha de S. Paulo, Fernando Canzian faz várias afirmações. Queria pinçar apenas algumas delas.

1) Apenas cerca de 3 milhões de brasileiros (1,5% do total) vivem em famílias com renda familiar mensal superior a R$ 10.201. Note-se que estamos falando de famílias, não de indivíduos. O objeto de discurso é um coletivo, a família. Esta é a chamada Classe A.

2)Cerca de 30 milhões de brasileiros (15% do total) vivem em famílias com renda familiar entre R$ 2.551 e R$ 10.200. Esta é a chamada Classe B.

3) Cerca de 79 milhões de brasileiros (41,5 % do total) vivem em famílias com renda familiar entre 1.020 e R$ 2.550. Essa é a chamada Classe C.

4) Cerca de 79 milhões de brasileiros (41,5 % do total) vivem em famílias com renda familiar até R$ 1.020. Essa é a chamada Classe D.

5) Embora o autor do artigo não chame a atenção sobre o fato sobraria uma fração (cerca de 0,5% do total, ou 1 milhão de pessoas) cujas famílias, aparentemente, não têm renda nenhuma, ou que não têm família. Essa seria a chamada Classe E.

Vale a pena discutir esses dados – arredondados e aproximados ainda que sejam.

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Folha de S. Paulo
5 de Dezembro deo 2010

Luta de classes 2.0

FERNANDO CANZIAN

SÃO PAULO – O Brasil é um dos únicos países do mundo onde quartos de empregada ainda constam da planta de apartamentos novos.

Basta examinar a Folha de hoje. Apesar de proporcionalmente exíguos na comparação com a metragem total dos imóveis, esses espaços estão e ficarão cada vez mais difíceis de ser preenchidos.

Péssima notícia para a chamada classe B, ótima para os antigos “serviçais” e um desafio de proporções consideráveis à produção, à infraestrutura urbana e à qualidade dos serviços no Brasil pós-Lula.

Para os realmente ricos, isso custará só um naco a mais. Mas, para os hoje espremidos entre eles e as emergentes classes D/E e C, o preço (ainda incalculável) será salgado.

A expressão “esse aeroporto parece uma rodoviária” talvez explicite como nenhuma outra o mau humor do segmento que mais tem a “perder” com a transformação social em curso no país.

Pelo critério do Datafolha, cerca de 3 milhões de brasileiros (1,5% do total) vivem em famílias com renda mensal superior a R$ 10.201. Já os menos favorecidos (renda familiar até R$ 2.550) são 158 milhões (83%). Sendo que mais da metade deles vive ainda pior, com renda familiar abaixo de R$ 1.020.

Espremidos entre os mais pobres embaixo e os ricos por cima, sobram cerca de 30 milhões de brasileiros (15% do total) em famílias que atravessam o mês com renda entre R$ 2.551 e R$ 10.200. (Alguém aí se identifica com isso?)

Esse segmento, considerado aqui classe B, depende do andar de baixo em diversos aspectos, muitos voltados exatamente para a expansão de sua renda presente e futura: via babás, domésticas e outros serviços pessoais que os liberam para trabalhar e/ou se aperfeiçoar.

Em um país ainda muito pobre, mas cada vez mais emergente, esses serviços existirão por muito tempo ainda. Assim como o desconforto e os preços cada vez maiores para quem quiser comprá-los.

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Em São Paulo, 5 de Dezembro de 2010

O Rei do Paraíso Imaginário (ou: Indico Lulla para a ABL)

Já fui assinante de VEJA algumas vezes, quando recebia uma oferta bastante boa. Uma vez, em 1995 ou 1996, o UniBanco me deu uma assinatura anual para abrir uma conta lá – conta que fechei recentemente, quando o UniBanco foi absorvido pelo Itaú. Entre assinaturas, compro um ou outro número na banca, quando há alguma matéria de meu especial interesse. Hoje, assino EXAME – mas sempre estou com um olho na VEJA, por suas denúncias de corrupção no governo, pelos artigos do Diogo Mainardi, etc.

Estou pensando seriamente em voltar a assinar a revista – especialmente se arrumarem uma assinatura eletrônica em que a revista é entregue no meu iPad recentemente adquirido. Já comprei dois números, desde que recebi o iPad, segunda-feira passada: o de 24/11 e o de 1/12 – e ganhei o de 8/12 de brinde, porque o iPad é assunto de capa. A edição da revista no iPad é fabulosa.

Mas comprei um dos números mencionados por causa do artigo de J. R. Guzzo, transcrito abaixo. E, no número de 8/12, que ganhei de brinde, há um outro artigo fabuloso dele, que vou procurar transcrever nos próximos dias. Se voltar a assinar a revista, será por causa dos artigos de J. R. Guzzo.

Abril, se toque: coloque rapidamente à disposição dos assinantes uma assinatura de VEJA via iPad.

Quanto ao artigo abaixo, sugiro que Lulla seja indicado para a Academia Brasileira de Letras pela sua contribuição à ficção nacional. Sempre tive dúvida (e ainda ontem discuti o assunto com a Paloma) se faz sentido falar em Letras Orais (porque seria essa a especialidade presidencial), ou em pessoas que seriam consideradas letradas mas são analfabetas, ou em pessoas que seriam letradas em artes que nada têm que ver com a letra, em si, (como pintura, fotografia, gráficos, etc.)…

Em todo caso, vale o artigo. E o lançamento do quase ex-presidente à ABL é sério – tão sério como a instituição à qual o indico.

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VEJA,
24 de novembro de 2010

Paraíso Imaginário

J. R. GUZZO

De todos os presidentes que o Brasil já experimentou em seus 121 anos de República, provavelmente nenhum teve tanto sucesso em criar um mundo imaginário como Luiz Inácio Lula da Silva. às vésperas de passar o cargo para a sua sucessora, Lula dá a impressão, pelo menos quando fala em público, de acreditar cada vez mais num Brasil que inventou na sua própria cabeça – um Brasil curiosamente parecido com o paraíso terrestre que se pode ver todos os dias na televisão, nos anúncios da Petrobrás, do Banco do Brasil e de outros agentes da propaganda oficial.

É como se o presidente assistisse àquilo tudo, na sua poltrona do Palácio do Planalto, e acreditasse, realmente, que está olhando para um documentário com a imagem de fatos reais; casais felizes correndo com os filhos em gramados impecáveis, operários entusiasmados, transbordando de alegria em uniformes cortados sob medida e sem a mínima mancha de graxa, rostos de todas as raças com sorrisos luminosos nos lábios, máquinas de última geração, plataformas de petróleo em mar de almirante, fábricas do terceiro milênio, usinas espetaculares, todo um mundo de eficiência, operosidade e riqueza. O que mais? Mais tudo aquilo que bons diretores de filmes comerciais conseguem enfiar num anúncio de TV quando são encarregados de inventar uma vida ideal – seja para exibir a família em estado de adoração diante da margarina que vai consumir no café da manhã, seja para mostrar o cidadão comum sendo recebido numa agência bancária como um príncipe da Casa Real da Inglaterra.

Este é, hoje, o Brasil do presidente Lula – e o melhor, para ele, é a quantidade de gente que acredita a mesma coisa, ou algo parecido. Se o homem diz que o país vive uma época de ouro (“estamos num momento mágico”, informa ele), e tanta gente concorda, ou tão pouca gente se dá ao trabalho de discordar, por que não continuar com a mesma procissão? É exatamente o que Lula vem fazendo. Na verdade, em vez de apenas continuar, vai aumentando o conto. “Temos indicadores sociais dos países desenvolvidos”, disse ele tempos atrás – um fenômeno, realmente, em matéria de invenção direta na veia, quando se considera que o Brasil não tem simplesmente nenhum indicador comparável aos do Primeiro Mundo, um só que seja, em àreas fundamentais como educação, saúde, esgotos, transporte coletivo, criminalidade, rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e por aí afora. Não tem competência, sequer, para montar um exame de escola como o Enem – mas Lula está convencido, e convenceu o público em geral, de que isso que se vê aí é o Brasil-potência. Da mesma forma, em sua última viagem à África, falou, ao passar por Moçambique , no prodigioso sucesso da política brasileira de ajuda aos países pobres. Justamente em Moçambique – onde o seu governo prometeu, num acordo assinado em 2003, doar aos moçambicanos uma fábrica de remédios que até hoje, sete anos depois, ainda não conseguiu produzir uma única pastilha contra tosse. Julga-se capaz, em encontros como o que acaba de ser feito pelo G-20 em Seul, de intimidar as grandes potências; voltou de lá, mais uma vez, sem que sua presença tivesse alterado coisa alguma.

Lula sempre conseguiu tirar mais benefícios dos seus defeitos do que de suas qualidades; na construção dessas fantasias todas sobre o Brasil Grande, tem se mostrado capaz, também de construir fantasias sobre si mesmo e colocar-se sempre no papel de herói que “este país” nunca teve. Sua mais recente realização no gênero é dizer que foi “o primeiro presidente que teve coragem” de comprar um Airbus de última geração para a Presidência da República. Assim fica tudo muito fácil; se a compra do Aerolula é um ato de bravura, então não há nada que possa estar errado com o seu governo em geral e, menos ainda, com ele em particular. Nem o exame do Enem. Quando o desastre aconteceu, Lula disse que a prova tinha sido um “sucesso total e absoluto” e, como sempre, veio com suas ameaças sobre “gente interessada” no fracasso da sua política educacional. Quando, logo em seguida, achou que perdia mais do que ganhava ao sustentar um disparate desse tamanho, saltou fora de sua convicção sobre o “sucesso total e absoluto” e passou a dizer que o exame poderia ser refeito quantas vezes fosse necessário. E dai? A vida é essa. Como o burrinho pedrês de Guimarães Rosa, Lula nunca entra em lugar de onde não possa sair; seja lá o que diga ou o que faça, sempre resolve seu problema, se alguma coisa der errado, desdizendo o que disse ou desfazendo o que fez.

É o mundo da imaginação.

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Em São Paulo, 5 de Dezembro de 2010

Seis Anos do Liberal Space

Hoje, 2 de Dezembro de 2010, este blog completa seis anos de idade. Todo ano celebro o aniversário aqui. Este ano não iria ser diferente.

Foram, ao longo desses seis anos, 650 posts, que mereceram cerca de 310 comentários dos leitores. São quase 110 posts por ano – cerca de um post a cada três dias e um terço.

Os assuntos foram variados, predominando, porém, a educação e a filosofia política.

Agradeço a todos os que têm me acompanhado nessa jornada.

Em São Bernardo do Campo, 2 de Dezembro de 2010

28 de Novembro de 2010

Hoje cedo, no Culto das Primícias (na última quinta-feira foi celebrado o Dia de Ação de Graças), na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, a Catedral Evangélica, na Rua Nestor Pestana, ao lado do Teatro de Cultura Artística (que deveria estar em reforma, depois de um incêndio, mas está lá, abandonado, em esqueleto), a Paloma e eu formalmente nos tornamos membros daquela comunidade, que frequentávamos com regularidade desde 2008.

A primeira igreja tem uma bela história. É a primeira igreja presbiteriana de São Paulo, fundada há 145 anos. A Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo (ainda não era Independente então) foi organizada no dia 5 de março de 1865, pelos missionários norte-americanos Ashbel Green Simonton (o primeiro missionário presbiteriano a vir ao Brasil, que chegou ao Rio de Janeiro no dia 12 de agosto de 1859) e Alexander L. Blackford (seu cunhado). Bkackford foi seu primeiro pastor.

Com o cisma de 1903, que criou a ala Independentemente da Igreja Presbiteriana, a igreja acompanhou os que saíam. O Rev. Eduardo Carlos Pereira, também famoso gramático, ficou com os independentes, que se opunham aos vínculos da Igreja Presbiteriana com a missão americana e ao fato de que os presbiterianos não impediam que seus crentes e pastores fossem maçons.

Antes da divisão, porém, “a Primeira Igreja foi o berço do Mackenzie College [hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie], da Associação Cristã de Moços (ACM), do Hospital Samaritano, da Associação Evangélica Beneficente (AEB), [e] do Seminário Teológico de São Paulo”. Foi nela que se procedeu a divisão entre a Igreja Presbiteriana e a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, criada em 31 de julho de 1903 sob a liderança do Rev. Eduardo Carlos Pereira, então pastor da igreja.

A Primeira Igreja só teve treze pastores titulares ao longo dos seus 145 anos de vida – o último deles, o Rev. Valdinei, assumindo este ano.

Foram pastores da Primeira Igreja: 

De 1865 a 1867 – Rev. Alexander L. Blackford
De 1867 a 1887 – Rev. George W. Chamberlain
De 1887 a 1888 – Rev. Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa
De 1888 a 1923 – Rev. Eduardo Carlos Pereira
De 1923 a 1924 – Rev. José Maurício Higgins
De 1925 a 1931 – Rev. Otoniel Mota
De 1931 a 1933 – Rev. Isaac Gonçalves do Valle
De 1933 a 1958 – Rev. Jorge Bertolaso Stella
De 1959 a 1962 – Rev. Aretino Pereira de Matos
De 1963 a 1971 – Rev. Daily Rezende França
De 1971 a 1973 – Rev. Sérgio Paulo Freddi
De 1973  a 2009 – Rev. Abival Pires da Silveira
Desde 2010 – Rev. Valdinei Aparecido Ferreira

A igreja, naturalmente, não esteve sempre ali na Rua Nestor Pestana. Se não me engano, começou na Rua 24 de Maio, no centrinho da cidade.

Há uma breve história da igreja no seu site:

http://www.catedralonline.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=49&Itemid=114

Eis algumas fotos da fachada e da nave da igreja, retiradas do próprio site:

Frontal-3

Frontal-1

Interna-1

O Rev. Elizeu Rodrigues Cremm é Pastor Auxiliar da igreja há muito tempo. Ele foi meu colega no Instituto José Manuel da Conceição (JMC), em Jandira, São Paulo, em 1961-1962. Foi um privilégio ser recebido na igreja hoje por ele e pelo Rev. Valdinei. O Elizeu é um dos poucos colegas do JMC que continuei a chamar amigo e irmão (num sentido que vai muito além do religioso) nestes quase 50 anos, desde que nos conhecemos no JMC.

Eis duas fotos dele, retiradas da Internet:

 

Elizeu-1

 

Elizeu-2

Nos próximos dias, quem sabe meses, irei discutir um pouco essa decisão minha de voltar para a igreja. Esclareço que a decisão, enquanto processo, foi tomada com cuidado e responsabilidade, e que a escolha da Primeira Igreja tem profundas raízes na minha história.

Quando estudei no JMC, de 1961 a 1963, convivi com algumas pessoas que tiveram um papel importante na minha decisão de optar pela Primeira Igreja agora – um deles já falecido.

O primeiro, João Wilson Faustini, que, quando o conheci, era “apenas” professor, maestro e compositor, hoje é pastor e uma das maiores autoridades em música sacra no Brasil. Ele regia os corais do JMC. Sob sua batuta, cantei na Primeira Igreja várias vezes, em audições de Páscoa e de Natal. Ainda sob sua regência, cantei no Teatro Municipal de São Paulo, duas vezes, em uma delas, bem me lembro, uma Cantata de Dietrich Buxtehude. Ainda regido por ele, cantei no Coral de Mil Vozes que, na Concha Acústica do Pacaembu, abrilhantou a impressionante campanha de Billy Graham no Brasil no início da década de sessenta. Lembro-me dessas ocasiões todas como se tivessem acontecido hoje – e o Faustini, hoje querido amigo, esteve presente em todas elas. Para mim, o Faustini está identificado com a Primeira Igreja, mais do que qualquer outra.

(Sou amigo de boa parte dos irmãos e da família estendida Faustini. Adoro a Martha e a Loyde, as mulheres da família. A Martha foi colega de meu pai no JMC nos anos 30. É minha amiga até hoje. Sua voz acalentou minha meninice e juventude, no dueto de Jesus o Bom Pastor, com Carlos René Egg, que veio a se tornar seu marido. Com a Loyde vim a conviver bastante na Associação dos Ex-Alunos do Instituto José Manuel da Conceição. Fui colega do Marcos, no JMC. Sou amigo dele até hoje. Mais recentemente fiquei conhecendo o Sérgio, que é diácono da Primeira Igreja. Mais recentemente ainda fiquei amigo do Volney, sobrinho da Faustinada… Curiosamente, o João mora hoje em Irati, PR, com sua segunda mulher, Rosi. Morei lá quando criança pequena, em 1944.).

O segundo, Jonas Christensen, era meu colega de classe no JMC. Maestro, compositor, cantor, era um gênio precoce da música – que também precocemente nos foi tirado. Moramos no mesmo quarto em 1962, quando estávamos ambos no segundo ano do Curso Clássico. Ele morava em Osasco e era o regente do Coral Johann Sebastian Bach da Quinta Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo (a primeira de Osasco). Ele me levou para cantar nesse coral – com o qual viajei por várias cidades. Levou-me também para cantar no Coral Johann Sebastian Bach de São Paulo. Foi com ele que fiquei conhecendo o Teatro Municipal de São Paulo, em 1962, que eu nunca havia visitado. Assistimos lá audições inesquecíveis, como a d’O Cravo Bem Temperado, com João Carlos Martins, e a da Nona Sinfonia de Beethoven (na companhia do Faustini). Fiquei freguez dos Concertos Matinais Mercedes Benz. O Jonas criou um octeto, do qual eu era membro, para cantar em casamentos na Primeira Igreja. É isso que liga o Jonas à Primeira Igreja em minha memória.

O terceiro é o Elizeu. Ele veio a se tornar pastor da Primeira Igreja muito depois. Nessa condição, abrigou ali as principais reuniões da Associação dos Ex-Alunos do Instituto José Manuel da Conceição, criada em 1992, da qual eu tive o privilégio de ser presidente por um período. O Elizeu e eu éramos colegas de paixão no JMC (lá chamada, por razões que desconheço, de “butina”). Em 1961 ele começou a namorar a Marli, que veio a se tornar mulher dele, e eu a Reaci Camargo. No JMC era proibido namorar de qualquer forma que fosse além de olhares. As moças moravam de um lado do vale, os rapazes de outro. Passávamos boa parte da tarde sentados, um ao lado do outro, olhando para além do vale, na esperança de ver a namorada…  O namoro dele frutificou. O meu chegou ao fim com o final do ano.  Mas os nossos respectivos namoros cimentaram a nossa amizade.

No culto de hoje, estavam presentes as seguintes pessoas que viveram parte de suas vidas no JMC:

  • Elizeu Cremm (colega meu, já comentado)
  • Marli Cremm (colega minha, mulher do Elizeu, já comentada)
  • Martha Faustini (já comentada)
  • Loyde Faustini (já comentada)
  • Isva Xavier (era secretária da escola)
  • Reinhold Felipe Ortlieb (colega meu, colega de classe do Elizeu)
  • João Rhonaldo (colega meu)

Assim, a partir de hoje, 28 de Novembro de 2010, a Paloma e eu somos membros da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo. Apesar de ter ficado afastado da igreja durante cerca de 40 anos, sinto-me totalmente em casa na Primeira Igreja.

Além de nós dois, foram aceitos quinze outros membros na Primeira Igreja hoje. A Igreja Presbiteriana recebe novos membros por Batismo e Profissão de Fé, por Transferência e por Jusrisdição a Pedido.

O Batismo e a Profissão de Fé se aplicam a pessoas que querem se tornar membros da igreja mas não foram batizados antes nem fizeram sua pública profissão de fé em alguma Igreja Presbiteriana ou em alguma igreja co-irmã. O Batismo, na Igreja Presbiteriana, em geral se faz na infância para os que nasceram em um lar pertencente à igreja. A Profissão de Fé só acontece quando a pessoa já é adulta ou tem condições de decidir por si mesma. É possível, portanto, fazer a admissão de um novo membro adulto por Batismo e Profissão de Fé ou apenas por Profissão de Fé.

(Eu fui batizado na infância, na Igreja Presbiteriana de Campinas, pelo Rev. José Borges dos Santos Júnior. A Paloma foi batizada na infância (15 de Maio de 1977) na Igreja Metodista de Itaquera e, posteriormente, foi rebatizada por imersão na Igreja Evangélica (hoje Evangélica Ágape) de Ubatuba, em 1991. Eu fiz minha profissão de fé aos 17 anos, em 1960. O meu pai, Rev. Oscar Chaves, foi quem presidiu a cerimônia. O batismo adulto da Paloma corresponde a uma profissão de fé.)

A Transferência acontece quando uma pessoa que frequentava uma Igreja Presbiteriana (ou co-irmã) muda de cidade, ou de local dentro de uma mesma cidade, e passa a frequentar uma outra igreja. Nesse caso, pode pedir à igreja anterior que envie, para a nova igreja, a sua Carta de Transferência.

Por fim, a admissão por Jurisdição a Pedido se dá quando alguém, que já foi batizado e já fez sua Profissão de Fé, simplesmente solicita a uma igreja que o aceite como membro. Isso acontece quando é difícil obter cópia de uma Carta de Transferência. No meu caso, a última Igreja Presbiteriana de que fui membro no Brasil (até 1967, quando me mudei para os Estados Unidos) foi a Igreja Presbiteriana do Jardim das Oliveiras, em São Paulo. Dado que fiquei fora de lá por 43 anos, é pouco provável que a obtenção de uma Carta de Transferência, hoje, fosse viável. No caso da Paloma, não sabíamos qual seria exatamente a resposta da Igreja Batista do Povo, que foi a última igreja de que foi membro – até que deixou de frequentar em Setembro de 2008.

Conosco as seguintes pessoas foram admitidas à Primeira Igreja hoje:

Por Batismo e Profissão de Fé:

  • Anderson Luís Barreto
  • Oscar Henrique Claros Lacerda

Por Profissão de Fé apenas:

  • Andreza Soares Martins
  • Márcia Garcia Fuentes
  • Marcos Alexandre de Souza Oliveira
  • Maristela Lacerda do Nascimento
  • Marluce Aragão dos Santos
  • Roberto Bernardique Júnior

Por Transferência:

  • Edinice Francisca Santos
  • Eduardo Leonel Correa Cardoso
  • Gerson de Andrade Correa
  • Luís Augusto de Souza Correa
  • Maria Aparecida de S. Andrade Correa
  • Priscila Rocha Cunha

Por Jurisdição a Pedido

  • Delza Maria de Souza Oliveira
  • Paloma Epprecht e Machado
  • Eduardo Oscar de Campos Chaves

Em tempo: a Bianca e a Priscilla, filhas da Paloma e, portanto, minhas enteadas, estavam conosco na Primeira Igreja hoje de manhã. Ficamos muito contentes com a companhia delas.

Enfim, por ora, é só.

Em São Paulo, 28 de Novembro de 2010