O Leilão da Virgindade: A Culpa é do Mercado?

O artigo de fundo da VEJA desta semana é: “Será que estamos virando uma sociedade em que tudo se compra? Ela vendeu a virgindade”.

A capa tem uma moça puxando para baixo um lado da calcinha e mostrando, na virilha, um código de barras… Criativo!  Embora a foto na capa mostre apenas do pescoço até os joelhos da moça, dentro se vê que a foto é, de fato, da catarinense que colocou a virgindade em leilão (e, aparentemente, arrecadou cerca de um milhão e quinhentos mil reais pela cessão de algo que a maioria das mulheres dá de graça).

Dentro, a VEJA dedica vários artigos ao assunto, sob o título, em letras garrafais vermelhas. “NEM TUDO SE COMPRA”.

A estrela da matéria é o filósofo de Harvard Michael Sandel, que escreveu um livro O que o Dinheiro não Compra, em que procura prescrever uma ética para o mercado. Segundo ele (em entrevista à VEJA), casos como de Ingrid Megliorini (a que leiloou a  virgindade) se classificam como “aplicação da lógica do mercado” fora do mercado, isto é, em áreas da sociedade que não fazem (ou não deveriam fazer, não fica claro) parte do mercado. 

A VEJA perguntou: “Em seu livro, o senhor faz uma distinção entre economia de mercado e uma sociedade de mercado. Qual a diferença?”

A resposta dele me parece fraca:

“A economia de mercado é uma ferramenta valiosa e efetiva para organizar a atividade produtiva. Trouxe prosperidade e riqueza para diversas sociedades ao redor do mundo.”

Arre, até aí tudo bem, exceto, talvez, pelo termo “diversas”… Gostaria que Sandel me desse exemplos de sociedades que se tornaram prósperas e ricas sem a economia de mercado. Se não fornecer, continuo a presumir que as sociedades só se tornam prósperas e ricas à medida que adotam a economia de mercado.

Mas o pior está por vir.

“Uma sociedade de mercado, no entanto, é diferente. Nem tudo está à venda. É um modo de vida no qual o pensamento econômico invade esferas a que ele não pertence”.

O problema está no “pensamento econômico” – isto é, no liberalismo econômico – ou no interesse econômico das pessoas?

A tese do liberalismo econômico é que as pessoas devem ser livres para vender ou trocar  o que quer que seja que, sendo de sua propriedade, queiram vender ou trocar. E que devem ser livres para, tendo meios (recursos financeiros ou bens e serviços), comprar ou receber em troca o que quer que seja que desejam ou que lhes agrada.

Uma observação importante sobre o artigo da VEJA. O surpreendente não é, como sugere a capa e o título, que haja quem compre o direito de disvirginar uma pessoa – ou que haja quem compre o voto de um deputado ou senador. O surpreendente é que haja quem queira vender essas coisas… Se alguém está disposto a vender alguma coisa, qualquer que seja, e é flexível no preço e nas condições de venda, cedo ou tarde aparece quem queira comprar aquela coisa. O problema está na venda, não na compra.

De igual maneira, o título do livro de Sandel é mal posto. Não deveria ser “o que o dinheiro não compra”, porque o dinheiro compra qualquer coisa que esteja à venda. Seu livro estaria na direção certa se o título fosse: O que não se deve vender…

O liberalismo econômico defende a liberdade das pessoas para vender ou trocar o que quiserem e para comprar ou obter em troca o que quiserem.

Mas também defende a tese de que as pessoas devem ter princípios morais e não se dispor a vender (ou trocar) determinadas coisas, ainda que sejam legitimamente suas: sua honra, sua opinião, seu voto, seu apoio político…

As coisas citadas (honra, opinião, voto, apoio político) são, na perspectiva moral do liberalismo, coisas que não se devem vender (nem trocar) nunca. A virgindade, nessa linha, talvez não seja algo que deva ser vendido, devendo ser guardada ou dada  de graça a quem faça por merece-la. Mas vender a virgindade me parece algo muito menos grave do que vender honra, opinião ou voto. Afinal da contas, diariamente vemos gente vendendo acesso sexual ao seu corpo (mesmo que não seja um corpo sexualmente virgem) sem que muita gente se escandalize com o fato ou por ele culpe o capitalismo ou a economia de mercado. (Afinal, a prostituição, ou a venda por alguém do direito de outra pessoa aceder sexualmente ao seu corpo, existe desde que o mundo é mundo, há milhares e milhares de anos, muito antes do aparecimento do capitalismo e da economia de mercado).

O problema não está no “pensamento econômico”, no capitalismo, no liberalismo econômico. O liberalismo defende a liberdade das pessoas para dispor do que é seu da forma que preferirem. Ponto final.

O problema está no código moral das pessoas. Se alguém está disposto a vender a mãe ou o filho, a virgindade, o acesso sexual ao seu corpo, ou um órgão vital de seu corpo, o problema não está no sistema que viabiliza a transação, mas nas pessoas que fazem uso desse sistema.

Qual seria o remédio?

Acabar com o capitalismo com pretendem nossos esquerdistas de plantão? Esta é a solução socialista.

Limitar a esfera de atuação do mercado, como pretende Sandel, determinando, por lei, que algumas coisas não podem ser vendidas, trocadas, compradas ou adquiridas por troca? Esta a solução social democrata.

Ou educar as pessoas na área de valores para que aprendam a respeitar certas coisas, que são suas, sim, mas que não deveriam, por razões morais, ser vendidas ou trocadas – porque, afinal, não têm preço, como diz o bordão de um comercial? Esta a solução liberal.

Eu não tenho dúvida alguma quanto ao remédio certo.

Em São Paulo, 18 de novembro de 2012

O Português dos Jornalistas

Ouvido na CBN nos últimos dias:

“Havia duas milhões e quatrocentas mil pessoas…”.

“A ocorrência foi registrada no Quarenta Distrito Policial”.

Será que ela diria que, no ano passado, houve duas milhões de ocorrências registradas no Um Distrito Policial?

Em São Paulo, 5 de Março de 2012

A Educação das Emoções e da Vontade

Originalmente publicado no Blog das Editoras Ática e Scipione.

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1. Introdução

Sócrates morreu no domingo. Não o grego, naturalmente, que morreu já faz tempo. Quem morreu esta semana foi o Sócrates Brasileiro (com “b” maiúsculo): o homem do futebol arte, o capitão daquela seleção brasileira que muitos consideram a melhor de todos os tempos — mas que, entretanto, perdeu a Copa do Mundo na Espanha.

Estava pensando sobre o assunto deste artigo quando soube que Sócrates, o homem, havia, como antes o jogador, encerrado sua carreira. 

Eu lia um livro genial quando fiquei sabendo da notícia: The Goal, de Eliyahu Goldratt. Foi a partir de uma discussão interessante no Facebook que alguém me sugeriu a leitura dele. Não é um tratado ou um ensaio: é um romance. Procurei na Internet algumas resenhas, achei-as interessantes, e comprei o livro. Foi um excelente investimento. Gosto de romances que não apenas entretêm, mas que, ao contar bem uma história, também ilustram uma filosofia de vida. Melhor do que isso: ilustram a busca por uma filosofia de vida interessante.

Aos poucos, Sócrates e The Goal se juntaram…

2. A Meta

É difícil descrever o enredo do livro quando já é complicado traduzir o título. “Goal” é o quê? “Goal” é gol (“o grande momento do futebol”, como dizia um programa de rádio e de TV antigo). Foi esse título que me fez juntar mentalmente a morte de Sócrates com o conteúdo do livro. O termo “goal/gol” é usado no futebol para descrever a meta que os jogadores devem perseguir. A meta, no futebol, é representada por aquele retângulo delimitado por dois postes e um travessão que a bola deve ultrapassar para que um time faça pontos e, caso os faça em maior número que o time adversário, ganhe o jogo. Por isso, enquanto uma equipe tenta fazer a bola ultrapassar a meta da equipe adversária, esta busca protege-la. Tanto isso é assim que o goleiro era antigamente chamado de “guarda-meta”. E, quando se fazia um gol, dizia-se que a meta havia sido “vasada”.

Embora haja uma grande e interminável discussão sobre “futebol arte” vs “futebol resultado”, não há como discordar do truísmo que “futebol é bola na rede”, ponto final. Ganha o jogo, ao final, quem fez mais gols. Ou, em outro chavão, jogo bonito não ganha campeonato — nem a Copa, como descobrimos tristememente em 1982.

Apesar de que, muitas vezes, pode parecer mais gostoso ver nosso time jogar bonito do que ganhar, se o time perder o jogo, ficamos frustrados, porque o objetivo real do futebol é fazer mais gols do que o adversário. Como dizem os mais fanáticos, o objetivo é fazer gol, ainda que seja gol contra, em impedimento, de canela, sem querer, chorado, com a ajuda do morrinho artilheiro, ou então do juiz, etc.

O livro de Goldratt discute a história de uma empresa. E procura deixar claro que, se a empresa não sabe qual é a sua meta, não tem jeito de ganhar no jogo do mercado — a menos que tenha muita sorte e, ainda assim, quando isso acontece, a vitória é por pouco tempo.

A sugestão de Goldratt é simples e óbvia: a meta de uma empresa é (como todo empresário deveria saber) fazer dinheiro. Fazer dinheiro, “make money”, é diferente de simplesmente ganhar dinheiro. Alguém que acerta na Loteria ganha dinheiro. Fazer dinheiro, porém, é dar lucro, é gerar mais dinheiro do que se investe e gasta para gerá-lo. Para não conquistar a antipatia dos meus leitores de simpatias esquerdizantes, que acham que a meta de uma empresa é exercer sua responsabilidade social, contribuir para a melhoria do meio ambiente, contribuir para o crescimento econômico do país, fazer filantropia, etc., paro aqui o relato sobre o livro de Goldratt.

Mas fica a lição: nenhuma organização, nenhuma pessoa, e nenhuma atividade consegue ser bem sucedida se não souber qual é a sua meta.

Aqui chegamos à educação.

3. A Meta da Educação

Qual a meta da atividade que chamamos de educação?

Hoje a gente houve várias sugestões: formar cidadãos, preparar trabalhadores do conhecimento para a economia digital, etc.

Prefiro, entretanto, uma visão diferente… Para usar uma expressão bonita da Viviane Senna, a meta da educação é fazer com que as pessoas “dêem certo”. Ou, para usar uma expressão que foi incluída pela Microsoft na sua missão, fazer com que as pessoas realizem seu pleno potencial. Ou ainda, como eu mesmo venho dizendo aqui neste blog, fazer com que as pessoas se desenvolvam, plena e integralmente, como seres humanos.

Essas três formulações são bonitas, nobres e, estou convicto, corretas. Mas não bastam, porque é preciso que se esclareça o que queremos dizer quando afirmamos que uma pessoa “deu certo”, ou “realizou seu pleno pontencial”, ou “se desenvolveu plena e integralmente como ser humano”?

Quando Goldratt afirma que a meta de uma empresa é fazer dinheiro ou dar lucro, todo mundo entende claramente o que ele quer dizer, mesmo que não concordo ou que não saiba o que uma empresa precisa fazer para alcançar essa meta.

Mas quando a gente diz que a meta da educação é fazer as pessoas darem certo, realizarem seu pleno potencial, ou se desenvolverem como seres humanos, não há uma clareza comparável de entendimento. Parece que fica faltando explicar alguma coisa.

E aqui chegamos à filosofia. Mais cedo ou mais tarde a gente chega a ela.

4. A Contribuição da Filosofia

Pegando uma sugestão dos principais filósofos gregos clássicos (Sócrates, Platão e Aristóteles), gostaria de sugerir que uma pessoa dá certo, ou realiza o seu potencial, ou se desenvolve como ser humano, quando se torna uma “pessoa virtuosa” (no sentido técnico que vou tentar esclarecer).

Muitos vão me acusar de estar trocando seis por meia dúzia, por que, afinal de contas, o que queremos dizer quando chamamos uma pessoa de virtuosa?

Mas os gregos tinham uma resposta para essa questão…

Para chegar à resposta dos gregos, precisamos, como Jack o Estripador, ir por partes…

Primeiro, os gregos (que eram muito lógicos — na verdade, eles inventaram a lógica…), sabiam que, para responder à pergunta “O que é uma pessoa virtuosa?” tinham de esclarecer antes o que é uma pessoa e o que é a virtude…

Assim, refletiram sobre o que significa ser uma pessoa.

Uma pessoa, concluíram, é um ser que é capaz de pensar, sentir (emocionar-se, por exemplo) e agir. Para agir, ele tem de ser capaz de escolher e decidir. Essas competências (ou “faculdades”) de pensar, sentir, escolher, decidir e agir compreendem a mente (ou “alma”) da pessoa.

(Algumas pessoas, como, por exemplo, as pessoas humanas, têm, além de sua mente, um corpo. Isso não é novidade. Outras, porém, como quem sabe os anjos e os deuses, não teriam um corpo, por não terem necessidade dele. Mas deixemos de lado esses detalhes).

Virtude, por seu lado, é aquilo que é bom (ou certo) na ação ou na conduta.

(A propósito, os gregos davam enorme importância a três coisas que consideravam “transcendentais”: o verdadeiro, o belo e o bom. O verdadeiro deve reger os nossos pensamentos; o belo, os nossos sentimentos; e o bom, a nossa ação ou conduta. O leitor pode notar que os gregos gostavam de deixar tudo muito bem “amarradinho”).

Uma pessoa virtuosa, portanto, é uma pessoa que, em suas ações, faz o que é bom ou certo, ou que pauta sua conduta por aquilo que é bom ou certo.

Mas como é que descobrimos o que é bom ou certo em nossas ações e em nossa conduta?

Resposta dos gregos (que considero difícil de melhorar): pensando, isto é, refletindo, discutindo, criticando e sendo criticado. Nesse processo, é possível (eles estavam convictos disso) descobrir algum critério que nos permita  distinguir a ação boa, ou conduta correta, da ação má, ou conduta incorreta. Digamos que um critério como este seja próximo do que é procurado: uma ação é boa ou correta se é generalizável, isto é, se eu, ao contemplá-la, posso desejar que qualquer outra pessoa, mesmo um inimigo meu, em circunstâncias semelhantes, faça a mesma coisa. (Essa é uma versão meio kantiana e afirmativa da lei áurea cristã: não fazer aos outros aquilo que não queremos que eles nos façam).

Aqui os gregos constataram um fato importante sobre a natureza humana. Mesmo que eu saiba (por concluir, através de um processo de reflexão, discussão, etc.) que determinada ação é certa, e, portanto, deve (ou pode) ser realizada, ou que é errada, e, portanto, deve (sem o “pode”, aqui) ser evitada, esse conhecimento é suficiente para que eu faça o que é certo e deixe de fazer o que é errado?

Resposta: não. Saber o que é certo e o que é errado é condição necessária, mas não suficiente, para fazer o certo e não fazer o que é errado. Há uma lacuna, ou “gap”, entre saber o que é certo e fazer o que é certo, entre saber o que é errado e não fazer o que é errado.

Os gregos também descobriram que esse “gap” pode ser de dois tipos:

a) Em alguns casos, a pessoa sabe o que é certo e o que é errado, mas não quer fazer o certo e evitar o errado;

b) Em outros casos, a pessoa sabe o que é certo e o que é errado, quer fazer o certo e evitar o errado, mas não consegue.

Em ambos os casos, a pessoa não tem nenhum problema no plano cognitivo: ela sabe o que é certo e o que é errado.

No primeiro caso, porém, a vontade da pessoa, o seu querer, não está alinhado com a sua cognição. Ela sabe que uma determinada ação é certa, mas não quer faze-la. Ou ela sabe que uma determinada ação é errada, mas ainda assim quer faze-la.

Consequentemente, ela não vai ser uma pessoa virtuosa: ela não vai fazer o que é bom ou certo.

Se o objetivo da educação é fazer com que as pessoas se tornem virtuosas, ou a educação acha um jeito de fazer a pessoa mudar o que ela quer (mudar a sua vontade) ou ela terá fracassado.

Note-se que não basta que a educação consiga que a pessoa faça ou que é certo e deixe de fazer o que é errado. Isso pode ser conseguido constrangendo-a ou mesmo obrigando-a (caso tenhamos como fazer isso) a fazer o certo e a não fazer o errado. Mas, nesse caso, ela não estaria escolhendo e decidindo ser virtuosa: estaria apenas agindo certo e deixando de agir errado por coação, física ou mental. A sua vontade, o seu querer, estaria inalterado, ainda desejando não fazer o certo e a fazer o errado. Assim que a coação fosse removida, possivelmente ela iria deixar de fazer o certo e fazer o errado.

O desafio da educação aqui é como agir sobre a vontade da pessoa, para alterá-la, na verdade, para conseguir que a pessoa mesma, de forma livre e espontânea, e, portanto, consentida, mude sua vontade.

Esse é um desafio enorme para a educação.

No segundo caso, o problema é outro. Nesse caso, a vontade da pessoa é fazer o que é certo e deixar de fazer o que é errado. Mas ela não consegue.

Até o apóstolo Paulo, que conhecia o pensamento grego, sabia que há um fosso difícil de transpor não só entre saber o que é certo e o que é errado e fazer o que é certo e não fazer o que é errado, mas também entre querer fazer o certo e não querer fazer o errado, e, de fato, fazer o certo e não fazer o errado. Ele disse algo assim: o bem que eu quero, esse eu não faço, e o mal que eu quero, esse eu faço… (Ver Romanos 7:19).

Se a pessoa, mesmo querendo, não consegue fazer o que ela sabe ser certo, e, mesmo querendo, não consegue deixar de fazer o que ela sabe ser errado, aqui também ela não se tornará uma pessoa virtuosa. Mas o problema é outro. Se há problema com a vontade, aqui, o problema é que a vontade é demasiado fraca para produzir a ação.

5. As Emoções e os Sentimentos 

David Hume, filósofo sobre o qual escrevi minha tese de doutoramento nos idos de 1970-1972, escreveu sua primeira obra, que se tornou, oportunamente, sua obra prima, antes de completar 30 anos: A Treatise of Human Nature. Essa obra está dividida em três partes, que correspondem ao “Thought, Emotion and Will” (Pensamento, Emoção e Vontade) da filosofia clássica: “Of the Understanding, Of the Passions, Of Morals” (Do Entendimento, Das Paixões, Da Moral”).

Nesse livro ele diz algo que se tornou um ponto de vista importante na filosofia posterior.

“Reason is, and ought only to be the slave of the passions, and can never pretend to any other office than to serve and obey them” (A razão é, e apenas deve ser, a escrava das paixões, e não pode pretender nenhuma outra função além de servir e obedecer a elas).

Para Hume, a razão é incapaz de mover a vontade, ou, havendo a vontade, de produzir a ação — a menos que haja a intermediação do que ele chamava de paixões: as emoções e os sentimentos.

Em outras palavras: a razão me diz que é certo ou que é errado fazer determinada coisa, mas não é capaz de me fazer querer fazer o certo e evitar o errado, nem de capaz de, assumindo-se que eu queira fazer o certo e deixar de fazer o errado, de me levar a agir como eu quero.

Para mover a vontade ou fazer com que a vontade produza a ação, as emoções e os sentimentos são necessários.

Se Hume está basicamente correto, a educação, como um todo, precisa dar muito mais importância do que dá hoje (se é que dá alguma) à educação das emoções, dos sentimentos, da sensibilidade, porque esse aspecto da educação será indispensável para que uma pessoa possa “dar certo” na vida, ou “realizar seu potencial”, ou “se desenvolver como ser humano”.

6. Conclusão

No dia 25 de Outubro último o Instituto Ayrton Senna realizou um Seminário Internacional que teve o título de “Educação para o Século XXI”. A principal estrela do evento foi o James Heckman, professor de economia da Universidade de Chicago e ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2000. Ladeado por três ex-alunos, ele discorreu sobre a importância — para o sucesso na escola e na vida — das chamadas “competências não-cognitivas”. Não só elas seriam tão importantes quanto as competências cognitivas para explicar o sucesso na escola e na vida, como seriam importantes até mesmo para o desenvolvimento das competências cognitivas.

Vimos aqui que, se os filósofos gregos e David Hume estavam na direção certa, os desafios que a educação enfrenta são maiores do que a dicotomia cognitivo-não cognitivo deixa entrever. A dimensão não cognitiva abrange não só competências não-cognitivas como liderança, colaboração, persistência, resiliência, etc. Ela envolve também a educação das emoções, dos sentimentos, da sensibilidade, e da vontade.

Esse complexo de “educações” está estreitamente relacionado com a formação de hábitos, desde que a criança é muito pequena… É nessa fase que se desenvolvem, muito antes que a criança possa entendê-las racionalmente, atitudes e posturas básicas perante os outros, perante a vida, perante a natureza, perante as coisas, que farão com que a criança oportunamente venha a ter respeito pelo verdadeiro, pelo bom e pelo belo, sem os quais, mesmo que venha a saber, no plano cognitivo, o que é certo e o que é errado, dificilmente vai querer fazer o que é certo: por que não posso bater nele? por que não posso levar comigo o que é dele? por que não devo falar quando os outros estão falando? por que não devo chamar de você alguém que merece o meu respeito e a minha consideração?

Suspeito que, nesse caso, relações interpessoais sadias e afetivas, e os bons exemplos que elas produzem, são muito mais eficazes do que hoje passa por trabalho escolar.

Escrito em São Paulo, 5 de Dezembro de 2011, e transcrito aqui em 28 de Dezembro de 2011

Desabafo

Originalmente publicado no Blog das Editoras Ática e Scipione.

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Este artigo é um desabafo. Um desabafo a propósito de um vídeo de um rapaz português de quinze anos, prestes a completar dezesseis, chamado Marco, que vi no Youtube. O vídeo me foi recomendado por um amigo meu, de Odivelas, perto de Lisboa. Fiquei revoltado com o que vi — e com o que não vi, mas sei que existe. Por isso o desabafo.

O que me revoltou mais foi saber que coisas assim acontecem também aqui no Brasil, em números absolutos bem maiores e, talvez, em números percentuais também superiores aos de Portugal: jovens que chegam aos quinze ou dezesseis anos totalmente analfabetos (e não só analfabetos funcionais), apesar de haverem frequentado a escola desde os sete anos, ou seja, durante pelo menos oito anos.

A imprensa brasileira de vez em quando relata fatos semelhantes. Mas a leitura de uma reportagem de jornal ou do resumo comentado de uma pesquisa parece que não comunica a tragédia que os fatos representam. O relato escrito parece não chocar tanto como um vídeo em que parte da tragédia tem rosto, tem voz…

Quando a gente vê o vídeo que mostra, de forma clara e inequívoca, que oito anos de escolaridade não valeram absolutamente nada para um rapaz, porque durante esse tempo todo ele não aprendeu nada, absolutamente nada, na escola, nem mesmo a ler e escrever, nem a dizer a data em que nasceu, nem a indicar quais são as outras cidades de sua terra natal, Portugal (outras em relação àquela, perto da qual vive), a gente só pode concluir que alguma coisa está errada, muito errada.

Como a escolaridade básica é obrigatória em Portugal, mais ou menos como aqui, podemos dizer que os anos passados por Marco na escola, sem que ele nada aprendesse, simplesmente foram oito anos de vida que ele perdeu: roubaram-lhe esses anos ao obriga-lo a frequentar uma escola em que ele nada aprendeu.

Alguém deveria ter visto, na escola, pelo menos ao final do primeiro semestre de frequência do menino, que ele não estava aprendendo nada. Se ele era deficiente mental, incapaz de aprender o que a escola esperava que seus alunos aprendessem, deveria ter sido encaminhado para uma escola especial. Se era um caso extremo de deficiência, um menino que não iria aprender nada nem mesmo com a ajuda de profissionais especializados em uma escola especial, alguém deveria ter percebido isso, decidido que ele era inescolarizável, requerido a um juiz qualquer que o dispensasse da escola, e enviado o menino para casa. Lá ele certamente teria sido, pelo menos, mais feliz. Teria brincado, uma parte do tempo. Teria ajudado sua família em tarefas simples, na outra parte. Brincando ou trabalhando, quem sabe teria aprendido alguma coisa que lhe interessasse ou que lhe fosse útil.

Vejam o vídeo e me digam se concordam ou não concordam comigo:

http://youtu.be/OnINSyWX1yU

o O o

O que dizer de uma tragédia dessas? Por onde começar?

Começo ressaltando que, na minha maneira de ver a coisa, há pelo menos três tragédias aqui — talvez mais.

Há, primeiro, a tragédia pessoal do rapaz. Trata-se de um rapaz evidentemente infeliz. Talvez com problemas sérios de aprendizagem. Uma coisa é clara: ele detesta a escola. Fica apenas sentado lá. Não aprende nada e ninguém parece se preocupar com isso. Marco claramente preferiria trabalhar a estar na escola.

Há, segundo, a tragédia representada pela escola. O que se passa numa escola, como a que foi frequentada por Marco, que um menino (depois adolescente) passa oito anos lá, sem aprender nada, e ninguém toma uma providência? (Minha mulher levanta a hipótese mais trágica ainda de que talvez a professora e a diretora da escola nem estivessem cientes de que o menino / rapaz não estava aprendendo nada…). Do ponto de vista da repercussão e do alcance, essa tragédia, em qualquer de suas versões, é maior ainda do que a tragédia individual do aluno.

E há, terceiro, a tragédia representada por uma sociedade que vê um sistema escolar em que alunos não aprendem nada, ou aprendem muito pouco, em que não aprendem a ler e escrever, ou não aprendem a ler e escrever direito, durante oito longos anos, e que concorda em manter esses alunos, inocentes de qualquer crime, institucionalizados, presos na escola, sem poder sair de lá até que tenham cumprido sua sentença…

Repetindo: Marco conseguiu chegar aos quinze ou dezesseis anos, nos quais frequentou a escola durante oito, sem aprender a ler e escrever, sem ficar sabendo direito quando nasceu, sem conseguir dizer se conhece alguma outra cidade de Portugal (ele diz que conhece um pouco da França, mas fica em dúvida se essa “cidade” está localizada em Portugal). A escola parece concluir que nada tem que ver com isso… E a sociedade não parece concluir que uma injustiça está sendo cometida, porque um menino (depois adolescente) está sendo mantido preso sem ter cometido nenhum crime…

o O o

O mais ridículo — na verdade, revoltante — é ver a professora do aluno (ou diretora da escola) tentando explicar como é que um analfabeto total pode chegar até o oitavo ano da escola. Ela diz apenas que o aluno “tem tido alguma satisfação com a escola”, e cita como prova o fato de que ele ultimamente tem faltado menos do que antes… Ou seja, ela tenta jogar a culpa no próprio aluno, ao apelar para suas faltas… Ela nem sequer tenta especular por que o aluno faltou (aparentemente) bastante.

O aluno desmente a afirmação da professora de que ele tem tido alguma satisfação com a escola. Diz, taxativamente, que não gosta da escola — talvez seja por isso que falte tanto? Ele esclarece à repórter que, na escola, não faz nada: só fica sentado lá.

A escola (aparentemente) não o molesta. O aluno diz que prefere trabalhar a ir à escola. Pelo jeito a escola também preferiria isso, se não fosse ilegal mandá-lo embora da escola, por incapacidade ou inapetência para aprender

o O o

É compreensível que o aluno prefira trabalhar a frequentar uma escola que lhe é totalmente inútil. Mas não pode, porque a frequência à escola, em Portugal, como aqui no Brasil, é obrigatória, pelo menos até uma certa idade (que, é bom que se diga, pretende-se aumentar aqui no Brasil, tornando o Ensino Médio também obrigatório). Seus pais poderiam ser punidos caso ele desistisse, por decisão pessoal, da escola.

A “ideologia escolária” que é hegemônica em Portugal, no Brasil e no mundo não só quer aumentar a idade de escolaridade obrigatória (hoje de 6 a 14 anos), mas quer também aumentar o número de dias letivos (de 200 para 220) e o número de horas diárias que o aluno é obrigado a permanecer na escola (havendo os proponentes da escola de tempo integral, em que o aluno fica na escola simplesmente o dia inteiro). Além disso, há propostas para que o tempo escolar seja mais bem aproveitado com o ensino, reduzindo-se o tempo usado para a gestão da sala de aula, para o lazer, e para qualquer outra coisa que não seja ensino…

Isso resolve o problema? É evidente que não adianta nada, se o resultado é algo parecido com o que vemos no caso de Marco, o aluno do filme. Ele detesta a escola, não porque a escola lhe exige que aprenda coisas difíceis ou chatas. Ele detesta a escola porque ali perde o seu tempo, não faz nada o tempo todo, além de ficar sentado à sua carteira. Faz bem em detestá-la, porque esse tipo de escola é uma perda total e absoluta de tempo. O fato de que é capaz de concluir isso é prova de que alguma inteligência ele tem, que nem os oito anos de escola conseguiram destruir…

Esse vídeo me evocou algumas observações sobre a escola feitas por autores famosos. Primeiro, uma de Karl Popper, que disse:

“Tem-se dito, e com verdade, que Platão foi o inventor tanto de nossas escolas secundárias como de nossas universidades. Não conheço melhor argumento para uma visão otimista da humanidade, nem melhor prova de seu amor indestrutível pela verdade e pela decência, de sua originalidade, de sua teimosia e de sua saúde, do que o fato de que esse devastador sistema educacional não tenha até hoje sido capaz de arruiná-la completamente“.

(The Open Society and Its Enemies, Vol. I: “The Spell of Plato” [Princeton University Press, Princeton, NJ, 1962, 1966, 1971], p. 136 – ênfase acrescentada. A tradução é minha.)

A outra passagem é de Samuel Butler, que disse:

“Fico às vezes imaginando como é que o mal causado pela escola às crianças e jovens não deixa, a maior parte das vezes, marcas mais claramente perceptíveis, e como é que moços e moças conseguem crescer tão sensatos e bons, a despeito das deliberadas tentativas feitas pela escola de entortar ou mesmo interromper o seu desenvolvimento. Alguns, sem dúvida, sofrem danos de tal monta que sentem seus efeitos até o fim da vida. Mas muitos parecem não se deixar afetar pela vida da escola e uns poucos até se saem bem. A razão disso me parece ser que o instinto natural dos jovens se rebela de forma tão absoluta contra a formação que recebem na escola que, não importa o que possam fazer os professores, nunca conseguem que seus alunos os levem suficientemente a sério”.

(Samuel Butler, em Erewhon, passagem citada por Karl Popper como moto de uma seção de “Replies to My Critics”, in The Philosophy of Karl Popper, org. por Paul Arthur Schilpp [Open Court, La Salle, IL, 1974], Vol. II, p. 1174 – ênfase acrescentada. A tradução é minha.)

Mas a passagem mais relevante à espécie (como dizem os advogados) nos vem de Leon Tolstói. É uma passagem longa, mas vale a pena citá-la por inteiro:

“As crianças, em todos os lugares do mundo, são obrigadas, pela força, a frequentar a escola. Na verdade, os pais são obrigados a enviar seus filhos à escola, seja pela severidade da lei, seja porque se lhes prometem vantagens, seja por uma retórica que os ludibria. Fora da escola, as pessoas, em geral, em todos os lugares do mundo, aprendem e estudam por vontade e iniciativa própria e consideram a educação como algo bom. Como é que isso se dá? A necessidade da educação é sentida por todos os homens. As pessoas adoram aprender, amam a educação e a buscam, da mesma forma que amam e buscam o ar que respiram. O governo e a sociedade têm enorme desejo de educar o povo. E, todavia, a despeito do uso da força, da persistência do governo e da sociedade, e de todas tentativas de ludibriar o povo a aceitar a importância da escola, as pessoas do povo constantemente manifestam insatisfação com a educação que lhes é fornecida na escola e só se submetem a ela pela força, quando a escolarização é tornada obrigatória. É possível provar a justeza do método atual de escolaridade compulsória? É difícil descobrir se há métodos melhores, porque até aqui as escolas nunca foram realmente livres. É verdade que no nível mais alto do processo de escolarização – a universidade – se tenta implantar um regime mais livre. Será que, talvez, nos níveis inferiores a escolarização deva ser realmente obrigatória? Será que, talvez, a experiência um dia ainda nos vá provar que escolas de frequência compulsória são boas? Vamos examinar essas escolas, não pela consulta às tabelas estatísticas que nos são fornecidas, mas tentando descobrir o que elas realmente são e fazem e qual o seu real impacto sobre as crianças do povo. Quando voltamos nosso olhar para as escolas de frequência obrigatória, é isto que a realidade nos mostra: as escolas se apresentam às crianças como uma instituição destinada a torturá-las – uma instituição em que elas são privadas de seu principal prazer e necessidade: a movimentação livre; em que obediência e silêncio são exigidos como condição de permanência; em que elas precisam de autorização especial para ‘sair um minutinho’ da sala de aula; em que qualquer ação errada é de pronto punida. Quanto aos resultados da ação da escola sobre as crianças do povo, se atentarmos para a realidade e não para as tabelas estatísticas, somos forçados a concluir: nove décimos da população escolar retiram da escola apenas um conhecimento mecânico da leitura e da escrita; por outro lado, saem da escola com uma aversão tão grande para com os caminhos do conhecimento que foram obrigados a trilhar que nunca mais na vida botam as mãos em um livro. A escola não apenas consegue inculcar nos alunos a aversão para com a educação, ela também os induz a praticar a hipocrisia e a trapaça, em decorrência da posição não-natural em que os coloca. A educação deve ser apenas uma busca de resposta às questões que a vida nos coloca. Mas a escola não só não permite que os alunos ali levantem questões que lhes interessam como se nega a tentar ajudar os alunos a responder as questões que a vida fora da escola os força a confrontar. Ela fica eternamente respondendo às mesmas questões – mas essas são questões que não são levantadas pela mente das crianças. Basta olhar para uma mesma criança, de um lado, em casa e na rua, e, de outro lado, na escola. Em casa e na rua você observa uma criança vivaz, curiosa, com um sorriso nos lábios, explorando e tentando aprender tudo, da mesma forma que explora e busca prazeres, expressando seus pensamentos em suas próprias palavras, com clareza e, freqüentemente, com força e eloqüência. Na escola, você observa um ser como que aposentado da vida, cansado e com uma expressão de fatiga, tédio, enfado e por vezes terror, repetindo palavras estranhas em uma língua estranha – um ser cuja alma, como num caracol, se esconde dentro da própria casa. Basta comparar essas duas condições em que podemos observar a criança para constatar, sem sombra de dúvida, qual delas é mais vantajosa para o seu desenvolvimento. A natureza compulsória da freqüência à escola impede que a criança ali se eduque.”

(Leon Tolstói, “Sobre Educação Popular”, em Artigos Pedagógicos, 1862, traduzido do Russo para o Inglês por Leo Wiener [Dana Estes & Co., Boston, 1904], passagens retiradas das pp. 7-18 [ênfases acrescentadas]. Citado apud Daniel Greenberg, Announcing a New School: A Personal Account of the Beginnings of the Sudbury Valley School [The Sudbury Valley School Press, Framingham, MA, 1973, p. 175]. A tradução é minha.)

Forte, não? Mas será que quem vê o vídeo tem condições de argumentar que há alguma coisa errada naquilo que diz Tolstói?

o O o

Alguma coisa está seriamente errada, sim, mas não com o que Tolstói diz, nem necessariamente com o menino do vídeo, e nem só com a escola, mas com toda uma sociedade que valoriza a escolaridade independentemente da qualidade da aprendizagem que ali tem lugar (se é que alguma aprendizagem importante ocorre ali), e que acha bom aplicar a crianças inocentes, que não cometeram nenhum crime, uma sentença de prisão de nove a doze anos em que um rapaz como esse não aprende nada, perde seu tempo, tempo esse que poderia estar sendo gasto em alguma atividade produtiva que lhe rendesse algo e na qual ele aprendesse a fazer coisas úteis que lhe permitissem oportunamente melhorar de vida.

É isso que faz a obrigatoriedade da frequência à escola, mesmo que a escola seja ruim, mesmo que o aluno nada aprenda ali e, em decorrência disso, deteste ficar ali, preferindo até trabalhar a ficar sem fazer nada dentro da sala de aula: a obrigatoriedade da frequência a uma escola ruim faz com que o aluno deixe de acreditar na importância e no valor da aprendizagem e da educação. É esse o principal recado de Tolstói.

Vivemos, como disse, sob o jugo de uma “ideologia escolária”, uma ideologia que promove a escolarização — quando deveríamos estar promovendo a aprendizagem ativa, interativa, significativa e, por conseguinte, a educação incorporada (embedded) na vida, vale dizer, uma aprendizagem e uma educação que a gente constrói no lazer, enquanto brinca, e no trabalho, enquanto faz alguma coisa útil. No gueto escolar típico nem se brinca, nem se trabalha, e, por isso, não se aprende grande coisa de útil.

Como já disse em artigo anterior neste blog, Cristóvam Buarque, que me parece uma pessoa honesta e bem intencionada, uma vez disse, quando era Ministro da Educação, que qualquer escola é melhor do que nenhuma escola. Para ser franco e sincero, nunca ouvi uma bobagem pedagógica tão grande. Queria ver Cristóvam Buarque responder por que é que os oito anos desperdiçados na escola por Marco, o rapaz do vídeo, representam algo melhor do que oito anos em que o rapaz brincasse e curtisse a vida, ou trabalhasse e ganhasse algum dinheiro para si e para seus pais (fatalmente aprendendo alguma coisa útil, seja no brinquedo, seja no trabalho)…

Repito: escola ruim, além de representar desperdício de tempo e de dinheiro, causa um mal ainda pior do que esse desperdício: convence as pessoas de que a aprendizagem e a educação não valem nada, de nada servem para o seu desenvolvimento, não fazem diferença em sua vida…

A “ideologia escolária”, quando aplicada a uma escola ruim, prega um verdadeiro conto do vigário, de que são vítimas especialmente os pobres. A escola é obrigatória. Todo mundo parece achar isso bom. Nunca encontrei alguém aqui no Brasil que fosse contra a obrigatoriedade da escola para quem está na faixa etária de 6 a 14 anos. O governo, no caso do Brasil, ainda paga aos pobres para que enviem seus filhos à escola. O fato de a escola ser obrigatória não é suficiente para que as pessoas enviem seus filhos a ela: eles ainda precisam ser subornados a fazê-lo com uma esmola monetária do governo. Tudo isso porque, como se alega, a escola vai mudar para melhor a vida das crianças sentenciadas a frequentá-la durante longos anos.

Mas, como Tolstói deixa claro, é mentira que a mera frequência à escola, ainda que ela seja ruim, vá melhorar a vida dos pobres alunos… A escola ruim, a escola em que não aprende, não muda a vida de ninguém. Só entedia e revolta os alunos. Só os leva a crer que a aprendizagem e a educação, tal qual a escola, também não servem de nada.

Mas quando os alunos acabam por acreditar nisso, que a aprendizagem e a educação não lhes serve para nada, eles passam a acreditar em outra mentira, porque a aprendizagem e a educação são úteis — na verdade, são indispensáveis — para o desenvolvimento humano, no plano pessoal, social e profissional. O problema é uma escola que não educa, em que não se aprende, em que o potencial dos alunos não se desenvolve. Uma escola que faz dos que passam por ela perpétuos bonsais humanos — não do ponto de vista do tamanho físico, mas do ponto de vista do ser, do conviver, do empreender, do aprender.

o O o

Mas resta uma pergunta, que não quer calar… E a escola em que o aluno aprende um bocado de coisas, daquelas que conseguem que o aluno, ao sair delas, saiba o suficiente para entrar numa universidade (quem sabe uma universidade particular, através do ProUni) e para obter, um dia, um diploma universitário? Essa escola é útil?

Bom… esse tipo de escola admitidamente é útil para que seus alunos entrem na universidade. Mas entrar na universidade é necessariamente bom? Bom para todos? A resposta correta talvez seja: Talvez… Dois talvezes intencionais, porque depende da universidade, depende da pessoa… Esse é um outro problema de nossa sociedade: ela sugere que todos devem ir para a universidade, incentiva todos a fazerem isso… Será que a universidade é para todo mundo, independente de seus interesses e capacidades? Será, no espírito de Cristóvam Buarque, que qualquer universidade é melhor do que nenhuma universidade?

Muita escola de Ensino Básico no Brasil é considerada boa apenas porque permite que o aluno continue a frequentar a escola depois de sair dela, agora em nível mais alto… Mas nem ela, nem a universidade que o aluno irá frequentar, necessariamente preparam o aluno para a vida, no plano pessoal, interpessoal e profissional. Nem ela nem a universidade ajudam o aluno a alcançar auto-realização…

A situação, portanto, é complicada.

Uma simples reforma, uma mera “melhorada” nesse sistema escolar não vai ser suficiente para torná-lo realmente valioso, em termos de aprendizagem, educação, e desenvolvimento humano.

Hoje se fala muito em dar uma “repaginada” em alguma coisa. Repaginar parece ser o verbo da moda, prestigiado por escritores afetados: o Carrefour está “repaginando” suas lojas, diz um jornalzinho distribuído de graça no ABC; a prefeitura de Barcelona deu uma boa “repaginada” na cidade com apenas 22 bilhões de Euros quando dos Jogos Olímpicos de Barcelona, diz alguém em entrevista na CBN… Uma “repaginada” era o que a gente antigamente chamava de uma “guaribada” e que mais recentemente se chamou de um “tapa”… Qualquer que seja o nome, uma melhorada, uma guaribada, um tapa, uma repaginada não bastam para tornar a escola útil para a a aprendizagem, para a educação, para o desenvolvimento humano, para a vida.

Falo aqui não da escola admitidamente ruim, mas da escola considerada relativamente boa (aquela que ajuda o aluno a entrar pelo menos anuma universidade conveniada com o ProUni). A escola reconhecidamente ruim é inutil, como vimos, até mesmo para ajudar o aluno a aprender a ler e escrever — algo admitidamente útil para a sua educação, para o seu desenvolvimento humano, para a sua vida — mas esse básico do básico é muito pouco para justificar tanto gasto, tanto discurso, tanto faz-de-conta.

Precisamos, não “repaginar” a escola, mas reinventá-la, a partir do zero. É indispensável inventar ambientes de aprendizagem novos. A tecnologia nos ajudará a fazer isso, mas só a tecnologia não basta: a tecnologia, deixada a si mesma, ou deixada exclusivamente na mão de engenheiros, cria réplicas fiéis de ambientes de aprendizagem tipicamente escolares, nos quais, por paradoxal que pareça, não se aprende muita coisa de útil.

Até que essa reinvenção aconteça, precisamos encontrar formas de colocar um basta nesse desperdício de tempo (do aluno) e de dinheiro (do país, do aluno, de seus pais, mesmo que o aluno e os pais não paguem nada, porque o rapaz está deixando de ganhar dinheiro enquanto frequenta uma escola em que não aprende nada) que são as escolas ruins, em que nada se aprende.

Quem sabe um Código do Aprendente, que responsabilize e puna a escola, na pessoa de seus gestores e professores, quando seus alunos não aprendem?

Escrito em São Paulo, 17 de outubro de 2011, transcrito aqui neste blog em 28 de Dezembro de 2011

Steve Jobs (1955-2011)

Post que publiquei no Blog das Editoras Ática e Scipione em 10 de Outubro de 2011, no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/steve-jobs.

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Talvez nem seja necessária uma justificativa para escrever sobre Steve Jobs, neste momento em que ele acaba de partir, num blog em que trato essencialmente de educação e tecnologia. Ainda assim, esboço uma justificativa: em seu ciclo inicial, a empresa que Jobs fundou considerou a educação o seu principal mercado – entre 1977 e 1984, por exemplo, o Apple II (principal produto da casa) provocou o surgimento de uma quantidade enorme de softwares educacionais. Ao longo de sua trajetória, a Apple fez parcerias com um grande número de Distritos Educacionais na Califórnia (onde estava sua sede) e em outros estados; implantou, ainda, descontos substantivos para professores e alunos (como, de resto, faz até hoje).

Apple Jobs Silhouette

Apple Crying

Fotos: Divulgação/Apple

Meu primeiro contato com um microcomputador remonta a estes tempos: conheci um Apple II por volta de 1979, através de um colega da Unicamp, especialista em Linguística Computacional (algo que eu nem sabia que existia). O equipamento em si me chamou a atenção, mas quando ele me demonstrou as aplicações da linguagem de programação ProLog (Programming in Language) para o aprendizado de Lógica, eu me encantei. Ali na hora tomei a decisão de comprar um equipamento daqueles quando pudesse… Até hoje, cerca de 30 anos depois, ainda guardo o meu clone brasileiro do aparelho, fabricado pela Unitron.

Depois travei contato com a linguagem de programação Logo, desenvolvida no MIT – Massachusetts Institute of Technology, por Seymour Papert, para uso na educação, em especial pelas crianças. Havia, para o Apple II, pelo menos duas implementações de Logo: a da LCSI – Logo Computer Systems International, chamada Apple Logo, de Toronto, e a da Terrapin Logo, de Cambridge (MA), que era, segundo constava, a implementação mais próxima das diretrizes de Papert.

Enfim, apenas estas breves linhas justificam minha decisão de escrever sobre Steve aqui. Mas há mais. Muito mais. Em seu discurso de paraninfo na Universidade de Stanford, em 12 de junho de 2005, Steve diz uma série de coisas importantes em que eu venho insistindo neste blog. Vou especificar algumas.

A primeira é que a escola às vezes atrapalha – e quando ajuda, frequentemente o faz sem querer. No discurso, Jobs diz que aos 17 anos foi enviado para a universidade (Reed College, uma instituição realmente cara), conforme promessa solene que seus pais adotivos fizeram à sua mãe biológica. O rapaz cursou apenas um semestre e desistiu. Ele explica:

“Depois de seis meses, eu não conseguia ver nenhum valor no que eu estava fazendo. Eu não tinha a menor ideia do que eu queria fazer com a minha vida nem de como a universidade poderia me ajudar a descobrir. E eu estava lá gastando toda a poupança que meus pais haviam feito durante sua vida inteira. Assim, decidi abandonar o curso na confiança de que as coisas de alguma forma iriam dar certo. Foi bastante assustador, na época, mas, olhando no retrovisor, aquela foi uma das melhores decisões que tomei em toda minha vida.”

Steve desistiu do curso, mas ficou durante um ano e meio rodando pelo campus universitário. Sem dinheiro, dormia em colchões no chão do quarto de seus amigos. Recolhia e devolvia garrafas para receber cinco centavos por cada uma, assim ganhando o dinheiro com o qual se alimentava (em geral, mal). No fim de semana andava mais de dez quilômetros para ir a um templo Hare Krishna para ganhar sua única refeição decente da semana.

O que fazia ele perambulando pelo campus?

“Tendo desistido da Universidade, eu não tinha a obrigação de frequentar as aulas de nenhum curso que não me interessava, e podia aparecer em aulas de cursos que pareciam interessantes. (…) Isso eu amava fazer. E muito daquilo em que tropecei enquanto seguia minha curiosidade e intuição, acabou por se tornar inestimável mais tarde em minha vida.”

Uma universidade sem dúvida é um lugar onde existem coisas interessantes. Às vezes é preciso procurar bastante, mas no final a gente geralmente acha. Steve achou. O quê? Um curso de caligrafia!

“O Reed College naquela época oferecia o que possivelmente era o melhor curso de caligrafia do país. Todos os posters existentes no campus, toda etiqueta de gaveta, tudo era maravilhosamente caligrafado à mão. Porque eu havia desistido do meu curso e não tinha de frequentar as aulas regulares, decidi fazer o curso de caligrafia para aprender a escrever de maneira assim tão linda. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre a variação no espaço entre diferentes combinações de letras – tudo aquilo que torna a melhor tipografia um lugar fantástico. Era lindo, histórico, artisticamente sutil de uma forma que a ciência não tem jeito de capturar. E eu achei tudo fascinante. Mas nada daquilo parecia, nem mesmo de longe, ter qualquer utilidade para minha vida.”

O belo e o útil… A caixa de brinquedos e a caixa de ferramentas de Rubem Alves. Aqui está a diferença que Edgar Morin apontou, entre a prosa, que nos permite dizer o que precisamos ou queremos dizer, e a poesia, que nos dá l

Só muito mais tarde Steve descobriu quão útil aquele curso de caligrafia lhe foi, quando descobriu a importância do design nos produtos da Apple: o design limpo (clean), simples, atraente, lindo mesmo, em que forma e função se integram. Foi por isso que decidiu dar uma interface gráfica ao Macintosh, com tipos gráficos na tela que faziam lembrar o seu curso de caligrafia, deixando para trás, definitivamente, aquelas letras feias com espaço fixo entre elas que apareciam na tela dos outros computadores. Assim, Reed College acabou sendo útil para Steve – embora sem querer…

Agora, a explicitação da segunda grande lição que Steve nos dá no seu discurso de paraninfo. Ele já havia mencionado que, no seu único semestre como aluno regular da Universidade, “não tinha a menor ideia do que eu queria fazer com a minha vida nem de como a universidade poderia me ajudar a descobrir”, mas adiante diz: “Eu tive sorte: descobri o que eu amava fazer cedo na vida. Woz [Steve Wozniak] e eu fundamos a Apple na garagem da casa dos meus pais quando eu tinha 20 anos”.

Três anos depois de perceber que não tinha a menor ideia do que queria fazer da vida, Steve descobriu que queria projetar computadores. E projetou. O primeiro (o Apple I) e o segundo (o Apple II) não foram lá uma beleza em termos de design, mas este último se tornou um sucesso, mesmo assim. Foi ele que me atraiu (também) para a área de informática.

A lição de Steve é que o sucesso eventualmente chega para quem ama o que faz. E que quanto mais cedo a gente descobre o que é que a gente ama fazer, maiores são as chances de sucesso. Como é que Steve descobriu o que é que ele amava fazer? Ele não nos diz.

Ele reconhece que, quando desistiu da universidade, o fez por si mesmo e por consideração aos pais: estava perdendo seu tempo ali e desperdiçando o dinheiro deles. Sentiu-se perdido. No entanto, não perdeu a confiança de que “as coisas de alguma forma iriam dar certo”. Sabia que em algum momento descobriria o que queria fazer da vida. “A fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de coisas que se não veem”, já dissera São Paulo.

Foi só em retrospectiva que Steve conseguiu “unir os pontos” e enxergar com clareza como sua vida posterior se ligou com aqueles acontecimentos dos seus 17, 18 anos.

“Ninguém é capaz de conectar os pontos do passado para o futuro. Mas é possível conectá-los do presente para o passado, olhando no retrovisor. Assim, lá atrás, você tem de confiar que os pontos vão de alguma forma se conectar no futuro. Você precisa confiar em algo – seu instinto, seu destino, seu carma, seja o que for. Esta maneira de ver as coisas nunca me deixou na mão, e fez toda a diferença em minha vida.”

Steve não nos conta como descobriu o que amava fazer na vida, mas nos revela onde está a chave do segredo.

Às vezes pode parecer que as coisas não vão dar certo. Em 1985, Steve foi mandado embora da companhia que ele mesmo havia criado. Parecia que um desastre havia acontecido no caminho de seu encontro com o seu destino.

“Eu não conseguia ver, então. Mas as coisas acabaram acontecendo de tal maneira que ter sido mandado embora da Apple foi a melhor coisa que jamais podia ter acontecido comigo. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser novamente um iniciante, agora menos certo acerca de tudo. Esse fato me libertou e me permitiu entrar num dos períodos mais criativos de minha vida.”

A insustentável leveza de ser capaz de começar de novo, sem o peso do passado. Mas, diz ele, não foi fácil:

“O remédio foi terrível, mas creio que o paciente precisava dele. Às vezes a vida acerta uma tijolada na cabeça da gente. Nunca perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me manteve em pé, disposto a continuar, foi o fato de que eu amava o que eu fazia. Você tem de encontrar o que você ama. Isso é verdade em relação ao seu trabalho, mas é verdade também em relação aos seus amores. Seu trabalho vai preencher um espaço grande de sua vida, e o único jeito de ficar satisfeito com o seu trabalho é fazendo aquilo que você considera um trabalho excelente. E o único jeito de fazer um trabalho excelente é amando o que você faz. Se você ainda não descobriu o que você ama fazer, continue procurando. Não se acomode. Como tudo o que diz respeito ao coração, você vai saber quando você encontrar aquilo que você ama fazer. E, como em qualquer relacionamento amoroso genuíno, as coisas só ficam melhores, a partir daí, com o passar do tempo. Assim sendo, continue a procurar, até que você ache. Não se acomode.”

É porque ele fazia o que amava fazer que Steve foi capaz de construir tantos produtos tão desejados por nós hoje. No entanto, em outro lugar, não no discurso de paraninfo, ele demonstra que o que o movia a fazer esses produtos não era um desejo altruísta de agradar o consumidor, nem mesmo o desejo egoísta de ganhar dinheiro: era a satisfação, talvez mais egoísta ainda, de saber que ele fez simplesmente o melhor que podia — e que podia fazer coisas da mais alta qualidade e beleza.

Eis o que disse, logo depois de lançar o Macintosh:

“Sabemos que o Mac vai vender zilhões, mas nós não o construímos para ninguém mais: nós o construímos para nós mesmos. Nós, que o construímos, seríamos o grupo que iria julgar e decidir se o Mac era fantástico ou não. Nós não iríamos sair de onde estávamos para fazer pesquisa de mercado. Nós simplesmente queríamos construir a melhor coisa que fôssemos capazes de construir.”

Em outras palavras, o Mac poderia ser um fracasso de mercado (como o Lisa, antes dele, o foi) – mas esse fato não os levaria a considerá-lo menos fantástico. Eis outra citação magnífica:

“Quando você é um carpinteiro fazendo uma linda cômoda, você não usa aglomerado na parte de trás, mesmo que aquela parte vá ficar grudada na parede e ninguém jamais a veja. Você sabe que a parte de trás da cômoda estará lá, em aglomerado. Para que você possa dormir bem à noite, a estética, a beleza, a qualidade têm de ser levadas ao extremo, em todos os aspectos”.

Termino com duas citações que me parecem ser as melhores de Steve, estas novamente retiradas do discurso de paraninfo:

“O tempo de sua vida é limitado. Por isso, não o desperdice vivendo uma vida ditada por terceiros. Não se deixe pegar na armadilha do dogma que lhe diz para viver com o resultado dos pensamentos de outrem. Não deixe que o barulho das opiniões dos outros abafe o som de sua própria voz interior. E, mais importante de tudo, tenha coragem para seguir a sua intuição, o seu coração. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário.”

A segunda citação nos dá uma pista acerca do que pode ter levado Steve a encarar a vida tão a sério e a descobrir, depois de sair da Universidade, aos 17 anos, mas antes dos 20 anos, o que queria fazer de sua vida.

“Quando eu tinha 17 anos, li uma citação que dizia algo assim: ‘Se você viver cada dia como se fosse o último dia de sua vida, um dia qualquer você certamente estará certo’. Essa citação causou profundo impacto sobre mim. Desde então, nos 33 anos que decorreram de lá para cá, eu me olho no espelho toda manhã e me pergunto: ‘Se hoje fosse o último dia da minha vida, eu iria querer fazer o que estou prestes a fazer hoje?’ E sempre que a resposta foi ‘não’ por um número demasiadamente grande de dias seguidos, eu soube que precisava mudar alguma coisa”.

Que bela lição de educação. Que bela lição de vida. Estou convicto de que Steve só conseguiu nos legar essas lições porque abandonou a universidade.

Em São Paulo, 10 de Outubro de 2011, transcrito aqui em 11 de Outubro de 2011

O Desafio da Formação do Professor na Sociedade da Informação

Post que publiquei no Blog das Editoras Ática e Scipione em 03 de Outubro de 2011, no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/o-desafio-da-formacao-do-professor-na-sociedade-da-informacao.

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No contexto atual da sociedade da informação – em que o professor não é um especialista em determinada área de conteúdo curricular, mas, sim, um facilitador da aprendizagem –, é possível questionar: pode alguém que não é um especialista em Física facilitar o aprendizado da Física, por exemplo?

1. A sociedade industrial, a divisão do trabalho e a especialização

A sociedade industrial surgiu, no fim do século 17 e início do século 18, com a divisão do trabalho. Adam Smith, em A Riqueza das Nações, publicado em 1776, deixa isso bastante claro. Com a divisão do trabalho foram inventadas as especialidades e, acompanhando-as, a figura do profissional especializado.

Até há cerca de cinquenta anos, éramos uma sociedade tipicamente de especialistas. Os generalistas eram mal vistos. Mesmo na filosofia, onde os profissionais em geral dão pitaco sobre toda e qualquer coisa, a especialização começou a surgir. O indivíduo não era mais filósofo, puro e simples. Ele passou a ser filósofo da ciência, da política, da religião… Na filosofia da ciência, subespecializações surgiram: filosofia das ciências naturais, filosofia das ciências humanas etc. Dentro da filosofia das ciências naturais, filosofia da física – quando não da mecânica quântica e de outras subáreas.

A situação ficou tão séria que o maior filósofo do século 20, Karl Popper, ele próprio um generalista inveterado (dentro e fora da filosofia), sentiu-se na obrigação de advertir que, em outras áreas, a especialização pode ser um pecado venial necessário e, portanto, desculpável, mas na filosofia é um pecado mortal, imperdoável como tal…

Na sociedade industrial o ideal (colocando a questão no plano caricatural) passou a ser saber cada vez mais sobre cada vez menos. Seus profissionais foram, aos poucos, se tornando ultraespecializados. Lembro-me de ter visto, na Unicamp, uma tese de uma aluna que se especializava em Letras (subespecialização Literatura, “sub-subespecialização” Literatura Brasileira) que tinha um título mais ou menos assim: “O uso da partícula ‘ora’ na prosa de Guimarães Rosa”. Tese mais especializada do que essa é difícil de imaginar.

2. A escola da sociedade industrial

Como mais que sabido, a escola moderna surgiu com a sociedade industrial. Inicialmente, ela era pequena e simples, seus cursos não duravam mais de cerca de quatro anos (Escola Primária ou Elementar) e os professores eram polivalentes. O professor polivalente é um profissional especializado, quando comparado com outros profissionais: o médico, o engenheiro, o advogado. Mas, dentro da área da educação, o professor polivalente é um generalista: ele cuida da alfabetização de seus alunos e, depois, da leitura, da escrita, do cálculo, dos estudos sociais, das ciências, das artes e até mesmo da educação física. Em alguns contextos pouco heterogêneos do ponto de vista religioso, esse professor se ocupava até mesmo da educação religiosa dos alunos.

À medida que a escola cresceu, o ensino diferenciou-se e as séries foram se estendendo além do nível primário. E, numa sociedade cada vez mais complexa, o professor começou a virar especialista. É verdade que, ainda hoje, o professor da Educação Infantil e das séries iniciais da Educação Fundamental é, em muitos contextos, polivalente: um generalista. Mas mesmo aí a especialização já coloca a sua cara. O professor alfabetizador se especializa em conseguir que a criança aprenda a ler e escrever. O professor de Matemática e Ciências se especializa em ajudar a criança adquirir as competências básicas dessas áreas. O professor de Estudos Sociais e Meio Ambiente faz o mesmo com suas áreas. Professores de Educação Artística e de Educação Física completam o quadro. São vários especialistas, ainda dentro da Educação Fundamental, onde havia antes apenas um professor polivalente e generalista.

3. A sociedade da informação

Hoje em dia, com o aparecimento da sociedade da informação, a figura do generalista está readquirindo prestígio. Algum nível de especialização parece inevitável, especialmente em profissões liberais como engenharia, medicina, direito. Dentro destas áreas, porém, a sociedade da informação começa a esperar que seus profissionais sejam cada vez mais polivalentes, vale dizer, generalistas. No trabalho empresarial, então, mais do que nunca.

Espera-se do profissional de marketing, por exemplo, que entenda dos produtos e do core business da empresa, do profissional de treinamento que entenda dos processos básicos para os quais precisa organizar formações, do profissional de vendas que entenda dos produtos e processos e, mais, que entenda de psicologia e de relações interpessoais. Aqueles que transitam com facilidade de uma área para outra da empresa são os mais credenciados a subir na escada do sucesso.

Nesse contexto, dados os condicionamentos que nos fazem esperar especialidades, caímos na tentação de definir especializações híbridas, bidisciplinares, ou multi ou pluridisciplinares: Engenharia Biomédica, Sociobiologia, Psicolinguística. Ou, ainda melhor, especializações transdisciplinares, que seriam especializações literalmente não especializadas.

4. A escola na sociedade da informação

A escola, como sempre, resiste a essas inovações. Os professores, na visão da educação tradicional, seriam, na melhor das hipóteses, biespecialistas: especialistas numa área de conteúdo curricular (Língua Portuguesa, Matemática, Ciências etc.) e especialistas na ciência (ou quem sabe arte) de transmitir a outrem o conteúdo de sua área de especialização: Pedagogia. (É por isso que professores são sempre professores de alguma coisa, e que se espera que eles tenham alguma formação pedagógica).

Há quem ache que alguns professores – os de Didática Geral, por exemplo – seriam uniespecialistas: sua especialidade seria a arte de ensinar ou transmitir conteúdos de qualquer natureza. Os professores de Didática Específica (Didática da Língua Portuguesa, Didática da Matemática, Didática da Física etc.) seriam, entretanto, biespecialistas. E os professores de Língua Portuguesa, Matemática, Física, idem: também biespecialistas.

No contexto atual da sociedade da informação – em que o professor não é um especialista em determinada área de conteúdo curricular, mas, sim, um facilitador da aprendizagem –, é possível perguntar: pode alguém que não é um especialista em Física facilitar o aprendizado da Física, por exemplo? Eu tendo a crer que sim, embora reconheça que a resposta a essa questão esteja longe de ser simples e dificilmente poderá ser discutida adequadamente aqui.

No centro de pesquisas da Microsoft em Redmond, nos Estados Unidos, encontrei por várias vezes um especialista em facilitação de interação em reuniões. Ele não era especializado em facilitar qualquer coisa – a aprendizagem, por exemplo –, mas era um genuíno expert em propiciar, ao longo de uma reunião, a discussão sobre qualquer assunto, ainda que fossem temas sobre os quais ele pouco ou mesmo nada entendia.

Todas vezes que o vi e fui (literalmente) vítima de sua ação implacável, ele mostrou-se altamente competente no processo de articular debates, inclusive quando a pauta soava bizantina. Ele se concentrava no processo: quem falava muito, quem falava pouco, quem ficava calado, quem queria controlar o fluxo ou a direção da discussão… E aplicava regras: nenhuma fala podia ultrapassar dois minutos, por exemplo; ou ninguém podia falar pela segunda vez até que todos tivessem contribuído ao menos uma vez; ou era preciso parar a discussão se alguém não tivesse entendido algum conceito ou afirmação proposta (a discussão, contudo, não era parada, nem a ordem do discurso alterada, simplesmente porque alguém discordara dos demais).

O professor do futuro será alguém assim? Um facilitador, um mediador, uma mistura de mentor e coach? Alguém que sabe ouvir, que sabe fazer perguntas (de esclarecimento e de sondagem, como diria meu amigo Les Foltos), que sabe argumentar, deixar de lado os acessórios e chegar direto ao essencial? Será ele o sujeito que, além de facilitar, também problematizará, questionará, levará os outros a pensar? Um maieuta? Uma parteira intelectual que ajuda os outros a conceber e a parir ideias, explicações, formas interessantes de ver o mundo?

As faculdades de Educação não têm a menor ideia do que está envolvido na formação de um professor diferente do tradicional – aquele biespecialista meio capenga, “3×1”, que cursa três anos de conteúdo em algum Instituto (Física, Química, Biologia, Matemática, Letras, Ciências Humanas) e, numa faculdade de Educação, um ano de matérias pedagógicas (Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia da Aprendizagem, Didática), de uma perspectiva, a maior parte das vezes, totalmente anacrônica e ineficiente para o ofício do professor (tradicional ou moderno).

Está na hora de pensarmos na formação do professor sob a ótica de um paradigma diferente: um professor para a sociedade da informação, cuja formação não seja, necessariamente, a de um especialista em alguma fração do currículo, mas aquela que lhe permita mediar e facilitar o desenvolvimento de competências por parte de seus alunos, ainda que ele próprio não as domine.

Em São Paulo, 3 de Outubro de 2011, transcrito aqui em 11 de Outubro de 2011

Escola e Ensino não são Sinônimos de Educação

Post que publiquei no Blog das Editoras Ática e Scipione em 26 de Setembro de 2011 no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/escola-e-ensino-nao-sao-sinonimos-de-educacao.

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Por que a escolarização é obrigatória, e não a educação? A maior parte das pessoas considera escola e educação como conceitos basicamente equivalentes, e, portanto, nem sequer lhes ocorre que poderiam educar seus filhos em casa, sem precisar enviá-los à escola.

1. Paradigmas

Paradigmas são construídos à medida que um determinado conjunto de ideias passa a ser aceito de forma tácita pela maior parte de um grupo – o grupo para o qual essas ideias são especialmente relevantes e importantes (ou o foram, em uma determinada fase de sua história).

Na realidade, para que se construa um paradigma é necessário que as ideias que compõem esse conjunto sejam consideradas não só verdadeiras, mas evidentes – para dizer a verdade, tão evidentes que se acredite ser desnecessário explicitá-las e demonstrar que há evidência e bons argumentos que as sustentam (se é que há).

Para quebrar um paradigma é necessário desconstruí-lo. Para desconstruir um paradigma bem firmado na mente de um grupo de pessoas, é necessário frequentemente mostrar suas falhas – até que alguém se disponha a prestar atenção. Quando alguém mais é convencido, serão dois a repetir as falhas do paradigma. Assim, o movimento prosseguirá até que o grupo dos que se opõem cresça e ameace seriamente a estabilidade dele. Neste momento, os que lhe eram favoráveis começam a considerar o grupo de críticos como visionários, românticos ou simplesmente loucos.

Thomas Kuhn descreveu esse processo de forma bastante interessante no âmbito da ciência. Seu livro The Structure of Scientific Revolutions (A Estrutura das Revoluções Científicas), de 1962, argumenta que verdadeiras revoluções científicas são raras, mas acontecem. Durante a maior parte do tempo os cientistas simplesmente dão por pressuposto que o paradigma sob o qual trabalham está acima de qualquer suspeita e, por isso, não o questionam e simplesmente ignoram críticas feitas a ele. Em geral, os pesquisadores mais velhos investiram muito nas concepções vigentes (quem sabe escreveram vários livros e artigos defendendo-as), o que os leva a raramente admitirem falhas.

No entanto, há um ponto em que as críticas são tantas, e tão fortes, que aqueles que ainda não estão tão “apegados” ao velho paradigma passam a observá-lo com certo ceticismo e a contemplar a possibilidade de adotar, ou mesmo criar, um novo modelo. É assim que as coisas acontecem na ciência. Paradigmas se sucedem vagarosamente e não sem muitas dificuldades, já que algumas pessoas preferem morrer a mudar de ponto de vista.

Se isso acontece na ciência, que seria a prática mais racional existente entre os humanos, é de esperar que os paradigmas tenham vida relativamente segura entre os componentes dos grupos que os aceitam na política, na religião e, como procurarei mostrar, na educação.

Na política, se alguém é de direita, ou socialista, ou de esquerda ou, alternativamente, liberal, em geral considera esse paradigma como dado e simplesmente ignora comentários adversos. Na religião, se alguém é judeu, ou cristão, ou muçulmano, faz a mesma coisa. Por isso a maioria das pessoas morre na mesma religião em que nasceu. Mudança de religião ou abandono total de qualquer religião são fenômenos relativamente raros – embora nos últimos tempos pareçam mais comuns.

A situação na educação é parecida. Embora para quem estude a área com mais cuidado esteja claro que educação é uma coisa, ensino outra, e escola ainda uma outra, na cabeça da maior parte das pessoas esses termos são basicamente sinônimos, ou, pelo menos, equivalentes.

Nossa lei maior da educação, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, deixa claro no primeiro parágrafo de seu primeiro artigo que disciplina “a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente, por meio do ensino, em instituições próprias” – ou seja, em escolas.

No entanto, nem mesmo adotando como foco a educação que tem lugar através do ensino em escolas, a lei deixa de mencionar, em seu segundo artigo, que “a educação é dever da família e do Estado”. Tal especificação é curiosa, vindo, como vem, no artigo seguinte ao que esclarece que a norma disciplinará apenas a educação escolar, pois a educação provida no lar não parece se exaurir naquela fornecida nas salas de aula… Mas deixemos isso para lá.

Em parte porque a lei foca a educação que tem lugar através do ensino escolar, ela parece considerar os termos educação, ensino e escola de forma quase intercambiável em alguns lugares. Isso contribui para reforçar a ideia, que é parte do paradigma, que esses conceitos se referem, todos, à mesma coisa. Para alterar este senso comum, precisamos descontruir essa equivalência. É isso que venho tentando fazer neste blog.

2. A educação em casa (Home Education)

No momento, estou relendo um livro instigante, que conheci há alguns anos. Trata-se de Teach Your Own: The John Holt Book of Homeschooling (Ensine os seus: O livro de Educação em Casa de John Holt), autorado por John Holt e Pat Farenga (Perseus Publishing, 2003).

A obra é uma revisão, por Pat Farenga, de dois livros anteriores:Teach Your Own: A Hopeful Path for Education (Ensine os seus: Um caminho que traz esperança para a Educação), de John Holt, publicado em 1981, e The Beginner’s Guide to Homeschooling (Guia de Educação em Casa para o iniciante), do próprio Pat Farenga, publicado em 2000.

Nos Estados Unidos e em alguns outros países mais desenvolvidos a opção da Educação em Casa, ou Home Education, com a consequente desescolarização das crianças, já virou um movimento digno de nota há algum tempo.

Hoje, acho difícil que a proposta de que os pais eduquem os filhos em casa, em vez de enviá-los à escola, encontre eco no Brasil – até porque a lei proíbe que isso se dê no caso da Educação (ou seria Ensino?) para as crianças e adolescentes na faixa de 6 a 14 anos.

Aqui no Brasil, alguns pais já realizaram tentativas nesse sentido. Pediram permissão ao MEC e se comprometeram a levar os filhos para fazerem as provas oficiais etc., mas a permissão não apenas foi negada como alguns foram processados pelas autoridades educacionais (embora fossem professores competentes que certamente fariam um bom trabalho – talvez até melhor do que aquele que se realizaria na escola). No fim, tiveram de desistir, porque no Brasil não é a educação que é obrigatória: é a escolarização – na verdade, o Ensino Fundamental para crianças e adolescentes. O que eu acho um absurdo.

Por que a escolarização é obrigatória, e não a educação? Acredito que isso se dê em grande parte porque a maior parte das pessoas considera escola e educação como conceitos basicamente equivalentes, e, portanto, nem sequer lhes ocorre que poderiam educar seus filhos em casa, sem precisar enviá-los à escola – e que os resultados, em muitos casos, seriam até mesmo melhores. O livro de John Holt elabora essa tese que deveria ser ou se tornar evidente: um novo paradigma.

Por muito tempo as pessoas se educaram fora da escola porque simplesmente não havia escolas, ou não havia escolas para todos. Mesmo quando passou a haver escolas para quase todos, elas só cobriam uma fase limitada da vida, em geral a infância – a faixa etária de 7 a 10 anos, especificamente. Antes dessa idade, as crianças eram educadas em casa. Depois dessa idade – e pelo resto de suas vidas – continuavam a se educar fora da escola, através do trabalho, do lazer e ao simplesmente viverem suas vidas.

O processo de se preparar para uma profissão era um estágio de educação não-formal, para o qual não havia escolas. O sujeito se tornava um aprendiz, que trabalhava junto de um mestre e oportunamente se graduava e assumia, de forma desassistida, o exercício da profissão.

A escola que hoje temos é uma instituição criada na era industrial, que persiste em adotar várias das características dos processos industriais de produção (manufatura) em massa. A escola pega crianças que são diferentes uma das outras em termos de talentos naturais, interesses, estilos de aprendizagem, níveis de curiosidade, motivações etc. e coloca todas numa mesma forma para que, ao final do processo, se tornem basicamente intercambiáveis. Todo mundo tem de aprender a mesma coisa, na mesma hora, do mesmo jeito. Isso, além de não fazer bem a ninguém, faz mal a muitas crianças que são obrigadas a se dedicar, por horas a fio, a atividades pelas quais não têm o menor interesse e, em muitos casos, o menor talento, com grande prejuízo para seu desenvolvimento.

Diante deste cenário, por que proibir que os pais que conhecem bem os seus filhos e têm condições e interesse em educá-los fora da escola possam fazê-lo? Numa sociedade como a nossa, em que a informação existe em grande quantidade e o acesso a ela é simples, e a comunicação, inclusive com especialistas, é relativamente fácil, as pessoas (jovens e adultas) já obtêm a maior parte de sua educação – pelo menos aquela que importa – fora da escola, através dos meios de comunicação, entre os quais se destacam a televisão, o rádio, as revistas e especialmente a internet (web, e-mail, mensagens instantâneas, fóruns, grupos de discussão, redes sociais).

Não há a menor dúvida de que um adolescente tem seus interesses próprios, não escolares, e se educa para cultivá-los e desenvolvê-los fora da escola. Nenhuma escola ensina crianças, adolescentes e jovens a jogar videogames, estejam eles em arcadas, em computadores, em telefones ou em consoles grandes ou pequenos.

Mas os meios de comunicação educam em outras áreas também: a área dos costumes, das atitudes e dos valores. Meu neto de seis anos esta semana me perguntou se eu achava que ele um dia teria filhos. Disse que achava que sim, caso ele encontrasse uma namorada de quem gostasse muito e com quem resolvesse se casar. Ele não se lembrou de dizer que há muita gente que tem filhos e não é casada, mas me retrucou que há muita gente casada que não tem nenhum filho, e eu tive de admitir que é verdade – mas acrescentei que a maioria tem um ou mais filhos, meninas ou meninos.

A isso ele observou: mas tem gente que também tem filho que é gay. Fui pego meio de surpresa, e tentei descobrir se ele realmente sabia o que estava dizendo. Sabia, sim. Conversei com o pai dele, depois, para entender porque ele havia dito aquilo. A resposta foi: “As novelas, Eduardo, as novelas. Ali aparecem, agora, todo dia, casos de pais que descobrem que os filhos são gays”. Independentemente do teor daquilo a que as crianças estão expostas na televisão, elas se educam no processo e passam a considerar o homossexualismo algo natural; passam a imaginar que, ao nascer, as crianças são meninos, meninas ou gays.

O mesmo neto me disse que, na escola nova que está frequentando, ele tem duas namoradas. Perguntei se isso era certo, ou “legal”, e a resposta foi que nas novelas um monte de gente tem mais de uma namorada… (Logo, deve ser certo, não é verdade?).

Apesar de ser realidade o fato de crianças como o meu neto estarem se educando pela televisão (que está fora da escola), caso os seus pais resolvam educá-las em casa (também fora da escola), eles poderão ser processados. Bem, como já comentei, acho isso um absurdo.

3. A Educação sem ensino

Já citei neste blog uma passagem de um outro livro de John Holt em que ele discute como as crianças – e as pessoas em geral – aprendem. Vale a pena retomá-la, agora neste contexto, para mostrar que a maior parte das coisas realmente importantes são aprendidas por processos diferentes do ensino formal:

Bill Hull uma vez disse a John Holt que “se a gente ensinasse as crianças a falar, elas nunca aprenderiam”. Vou transcrever a seguir a maior parte do artigo “Teaching Children How to Speak”, de Holt, no qual ele discorre sobre as implicações do que o outro lhe dissera. Mas antes devo dizer que Hull, Holt, Everett Reimer, A. S. Neill, Paulo Freire, e, por que não dizer, Ricardo Semler, são todos pássaros da mesma plumagem.

Eis o que diz John Holt no artigo:

“Vamos supor que tomemos a decisão de ‘ensinar’ as crianças a falar. Como é que a gente faria? Primeiro, um comitê de especialistas analisaria a fala e a quebraria em um certo número de ‘habilidades requeridas para a fala’. Provavelmente os especialistas diriam que, visto que a fala é composta de sons, seria necessário, primeiro, ensinar a criança a emitir todos os sons requeridos por sua língua materna. Sem isso não seria possível ensiná-la a falar… Sem dúvida eles classificariam os diversos sons dos mais fáceis e frequentes para os mais difíceis e raros. E o professor então começaria a ensinar à criança, primeiro os sons mais fáceis e frequentes, depois os mais difíceis e raros, até passar por toda a lista. Talvez, para não ‘confundir’ a criança, a gente a colocasse em um ambiente segregado, isolado da vida normal, para que ela não ouvisse a fala regular dos já falantes, mas apenas repetidamente ouvisse, em cada estágio, os sons que o professor está tentando ensinar a ela. Ao lado de uma lista de sons, os especialistas comporiam uma lista de sílabas que combinassem os sons, e uma lista de palavras selecionadas que combinassem as sílabas pertencentes à lista de sílabas. Num segundo estágio, o professor ensinaria a criança a combinar sons em sílabas, num terceiro, a combinar sílabas em palavras. Em estágio subsequente, o professor ensinaria a criança a combinar palavras em frases e sentenças. Mas, antes disso, teria de ensinar à criança as regras gramaticais que regem a formação de frases e sentenças. Tudo seria completa e meticulosamente planejado, nada sendo deixado ao acaso. Em cada estágio haveria uma grande quantidade de exercícios práticos, revisões, testes, para garantir que nenhuma criança esquecesse o que já lhe havia sido ensinado. Suponhamos que fizéssemos isso. O que aconteceria? O que aconteceria seria que a maior parte das crianças, antes de ir muito longe, ficaria confusa, frustrada, desencorajada, humilhada, temerosa – e provavelmente desistiria de aprender a falar. Se, fora da sala de aula, elas vivessem vidas normais de crianças, poderiam, sem prejuízo, simplesmente ignorar o ‘ensino’ e aprender a falar do jeito normal. Se, entretanto, a escola tivesse controle integral e completo de sua vida desde os primeiros meses de vida (o sonho de demasiados educadores), elas buscariam refúgio no silêncio e no fracasso deliberado, como tantas fazem, quando tentamos ensiná-las, não a falar, mas a ler e escrever…”.

4. Conclusão

É isso. Educação é uma coisa, ensino outra, e escola ainda uma outra. Quanto mais cedo a gente desimbricar esses conceitos e deixar de confundi-los e considerá-los equivalentes, ou quase sinônimos, melhor.

Em São Paulo, 26 de Setembro de 2011, transcrito aqui em 11 de Outubro de 2011.

A Questão das Políticas Públicas na Educação

Post que publiquei em 14 de Setembro de 2011 no Blog das Editoras Ática e Scipione no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/a-questao-das-politicas-publicas-em-educacao.

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Erra quem afirma que “qualquer escola é melhor do que nenhuma escola”. Em tempos em que a sociedade sugere tantas formas de fazer política pública para a educação, por que não ousamos de fato transformá-la?

Lendo e ouvindo o que se escreve e diz sobre a educação no país, parece que chegamos a alguns consensos, ou quase-consensos, acerca da escola pública brasileira.

Primeiro, ela vai mal. Disso ninguém mais duvida (e está aí o último resultado do Enem para provar a afirmação). Segundo, é necessário fazer alguma coisa, urgentemente, para que sua qualidade melhore.

Terceiro, ela só vai melhorar se lhe destinarmos mais recursos e conseguirmos implantar “políticas públicas” adequadas que corrijam seus problemas mais graves. (“Políticas públicas” é a expressão-chave na qual todo discurso acaba chegando).

O problema, porém, é que, ao tentar melhorar a qualidade da escola pública brasileira, a maior parte das iniciativas, governamentais ou não, nacionais ou estrangeiras, tem buscado soluções de problemas segmentados e específicos que, mesmo que solucionados, não representarão necessariamente uma melhoria substantiva e significativa na qualidade da educação brasileira.

Ilustro com algumas políticas públicas desse tipo que têm sido sugeridas e, em alguns casos, até mesmo implementadas:

  • Políticas voltadas para o aumento do período de escolaridade obrigatória: era de 4 anos, passou a ser de 8, depois 9, e já se faz campanha para que seja de 12 anos e abranja o Ensino Fundamental e o Ensino Médio;
  • Políticas voltadas para o aumento do número mínimo de dias letivos: o ano escolar tinha 160 dias, passou a ser de 180, chegou a 200 e já se fala em aumentá-lo para 220;
  • Políticas voltadas para o aumento da duração dos turnos diários, chegando-se, no limite, à escola de tempo integral (que quase todo mundo parece considerar ideal);
  • Políticas voltadas para a garantia da presença e da permanência na escola da criança e do adolescente que, por alguma razão, estão fora dela;
  • Políticas voltadas para a redução da repetência e da evasão (ainda que se aplique a promoção automática);
  • Políticas voltadas à correção das defasagens idade/série;
  • Políticas voltadas à melhoria do salário dos professores ou à introdução de mecanismos de remuneração que privilegiem desempenho e mérito;
  • Políticas voltadas à extensão e melhoria da formação dos professores;
  • Políticas voltadas à introdução da tecnologia na escola e à implantação de programas de educação a distância (inclusive para a formação de professores).

Quando os políticos, a mídia ou a academia propõem essas medidas, raramente levantam questões pedagógicas básicas como, por exemplo:

  • A natureza da educação –> O que é educar?
  • A razão de ser da educação –> Por que educar?
  • O objetivo da educação –> Para que educar?
  • Os agentes da educação –> Quem educa?
  • A essência da aprendizagem –> O que é aprender?
  • O currículo –> O que as pessoas devem aprender?
  • A metodologia –> Como as pessoas aprendem?
  • A avaliação –> Como se afere se alguém aprendeu o que se propôs aprender ou o que se esperava que aprendesse?

No entanto, é a resposta a essas questões sobre a natureza, a razão de ser e o objetivo da educação e da aprendizagem que deve nortear, de forma tácita ou consciente, as decisões acerca da função da escola, do acesso a ela, da obrigatoriedade da permanência nela, ou acerca da formação do professor e da avaliação e remuneração do seu trabalho. Ou vejamos.

Políticas voltadas para garantir a presença e a permanência da criança na escola e aumentar seu tempo de permanência nela só fazem sentido se a experiência escolar for uma genuína experiência de aprendizagem. Há evidência incontestável, hoje, de que a mera permanência dos alunos na escola, ainda que em período integral e durante quase o ano inteiro, não produz, necessariamente, aprendizagem genuína daquilo que é essencial ou importante saber e saber fazer.

Na maior parte do tempo a experiência escolar é vista – pelo menos por suas vítimas, os alunos – como basicamente inútil (não serve para grande coisa) ou até mesmo desagradável (“chata” é o principal termo que se aplica à aula, que ainda hoje é a experiência pedagógica central no ambiente escolar). O resultado comprovado são crianças e adolescentes que passam oito anos na escola e não aprendem nem mesmo a ler e escrever decentemente na língua materna – quanto mais em língua estrangeira. As coisas interessantes que eventualmente aprendem, eles parecem aprender fora da escola.

(A situação me faz lembrar uma frase atribuída ao escritor norte-americano Mark Twain, que teria dito que nunca deixou que a escola interferisse na sua educação…).

Como ressaltei em 2003 em minha fala do congresso “Educação e Tecnologia para o Desenvolvimento Humano” (realizado pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com a Microsoft Brasil), não é qualquer escola que serve. Erra quem afirma – como um dia afirmou o Senador Cristovam Buarque, quando Ministro da Educação – que “qualquer escola é melhor do que nenhuma escola”.

A escola ruim, além de não fazer bem, causa muitos males, como, por exemplo:

  • Desperdício de recursos de quem a cria e mantém e perda de tempo de quem a freqüenta;
  • Diminuição da curiosidade e da vontade natural de aprender por parte dos alunos, que passam a ver a aprendizagem, a educação e a escola como coisas chatas, não desafiadoras, que nada têm a ver com as coisas boas e interessantes da vida;
  • Fracasso escolar de alunos que poderiam aprender muito e com prazer em uma escola diferente mas que, em decorrência da experiência escolar, concluem que a causa do fracasso está em si mesmos e não na inadequação da escola.

É por isso que políticas públicas voltadas para a solução de problemas segmentados, ou específicos, não resolvem o desafio da qualidade na educação – em especial na educação pública. Precisamos de uma abordagem sistêmica, que olhe para a educação como um todo, formal e não-formal, e que seja radical, isto é: tenha por objetivo uma transformação radical e não pequenas mudanças que podem melhorar um pouquinho aqui e ali, que podem reformar um ou outro aspecto mais grave ou urgente, mas não afetam o todo de forma significativa.

Esse tipo de transformação radical e profunda precisa buscar real inovação, o claramente novo. Não basta melhorar, reformar o que já existe. Precisamos de transformação, não de reforma. Precisamos, na verdade, de uma nova educação, não de uma melhora na educação que temos.

No fundo, todos nós sabemos que é verdade o que diz Jay Allard (ex-vice-presidente da Microsoft Corporation) na revista Business Week, edição de 4 de dezembro de 2006:

“Para mudar o mundo, precisamos imaginá-lo diferente do que é hoje. Se, nessa visão, usarmos muito do conhecimento e da experiência que nos trouxeram até aqui, terminaremos exatamente onde começamos… Para ter um resultado diferente, temos de olhar as coisas de uma perspectiva radicalmente diferente.”

Uma frase atribuída a um monte de gente famosa diz que o cúmulo da estupidez é continuar a fazer exatamente a mesma coisa e esperar que o resultado venha a ser significativamente diferente.

Cito um exemplo do que boa parte da sociedade propõe como mudança na educação: todo mundo diz que o professor precisa ser melhor formado e remunerado porque ele é e continuará a ser o portão de entrada para a educação para a maioria das pessoas. Mas será que isso, ainda que verdade no passado, continuará a ser verdade no futuro? Quem garante que a escola do futuro, transformada, terá professores como os conhecemos? Na realidade, quem garante que a educação do futuro terá escolas como as que conhecemos hoje?

Ivan Illich vinha, já há muito tempo, insistindo na desescolarização da sociedade, como já falamos neste blog. E ele propôs isso muito antes de a tecnologia transformar a nossa sociedade em uma sociedade da informação, do conhecimento, da aprendizagem – na verdade, em uma sociedade aprendente (learning society). John Holt, amigo de Illich, escreveu em Freedom and Beyond:

“As pessoas, mesmo as crianças, são educadas muito mais por toda a sociedade em que vivem e pela qualidade geral da vida dessa sociedade do que por aquilo que lhes sucede na escola”.

Por que, então, a gente não ousa transformar o que passa por educação e reinventar a escola? Cito um exemplo agora de fora da área da educação, envolvendo o mercado livreiro, Jeff Bezos e a Amazon. Neste setor sim tem ocorrido uma real mudança de paradigma.

  • Os livros impressos, como os conhecemos, existem há cerca de 550 anos num mercado que era, até há pouco tempo, bastante estável.
  • Livrarias físicas eram a principal forma de distribuição dos livros aos usuários finais, e, por muito tempo, funcionário com pouca ou mesmo nenhuma tecnologia (usando cadernos e fichas para controle de estoque, cadernos ou simples máquinas de calcular ou caixas registradoras para controle de vendas e fluxo de caixa, folhas de cálculo para contabilidade e, se fosse o caso, folha de pagamento.
  • A chegada de tecnologia básica (computadores com planilhas eletrônicas ou programas comerciais integrados) permitiu que o livreiro continuasse a fazer a mesma coisa que já fazia, só que, agora, com pequenos ganhos de eficiência – uso conservador da tecnologia.
  • A chegada de tecnologia ainda básica, mas com acesso à internet, permitiu que o livreiro criasse um site para a livraria e que anunciasse seus livros nele, assim aumentando o alcance de sua comunicação e propaganda – uso levemente reformador da tecnologia.
  • A chegada de tecnologia um pouco mais avançada permitiu que o livreiro passasse a vender livros também online, acrescentando um subsite de venda ao site da livraria – uso bem mais reformador da tecnologia que estendeu o escopo do negócio, posto que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode comprar um livro no site. Entra Jeff Bezos em cena e cria uma livraria que não tem estoque, só tem catálogo, e que, na realidade, intermedeia a venda de livros para o comprador-leitor.
  • O desenvolvimento de tecnologia relativamente sofisticada permitiu que Jeff Bezos passasse a criar perfis altamente sofisticados dos seus clientes – uso de tecnologia (banco de dados com ferramentas analíticas sofisticadas) que leva o uso reformador da tecnologia no ambiente livreiro ao seu limite.
  • Tecnologias mais sofisticadas permitem a criação e a comercialização de livros eletrônicos e de leitores de livros eletrônicos – uso agora criativo, inovador e transformador da tecnologia, que revoluciona o mercado livreiro e deixa editores e livreiros tradicionais, para não falar em fabricantes de computadores, em polvorosa.

Por que não conseguimos fazer uma transformação desse tipo na educação? Por que não conseguimos reinventar a escola como Jeff Bezos reinventou o mercado livreiro?

Eu sugiro que, para transformar a escola atual em um ambiente de aprendizagem digno do nome, é preciso repensar, de forma drástica e radical, o que entendemos por educação e dar respostas verdadeiramente inovadoras a questões como “Por que educar?”, “Para que educar?”, “Como educar?”

Somente dessa forma seremos capazes de “integrar políticas” voltadas para a educação – esta entendida como desenvolvimento humano – e apresentar soluções sistêmicas que, aplicadas, melhorem substantivamente a experiência de aprendizagem de nossas crianças, adolescentes e jovens (na realidade, de todas as pessoas).

Em São Paulo, 14 de Setembro de 2011, transcrito aqui em 11 de Outubro de 2011

Educação a Distância “Suficientista”

Artigo que publiquei, com o título acima, e no URL abaixo, no Blog das Editoras Ática e Scipione em 29/08/2011.

http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/educacao-a-distancia-suficientista

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Conheço Wilson Azevedo há cerca de quinze anos. Quando o conheci ele era pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil e responsável pelo site (webmaster) e pelas listas de discussão da igreja. Já naquela época era também responsável por um interessante programa de EaD – Educação a Distância na área teológica no Seminário Presbiteriano do Rio de Janeiro (STPr-RJ).

Desde então, convivemos na lista EduTec.Net, que criei em outubro de 1998, da qual ele foi não só um dos participantes mais ativos, mas o meu principal mentor e consultor pro bono. Encontramo-nos várias vezes em eventos da área de tecnologia e educação – especialmente os que envolviam EaD, como as reuniões promovidas ou apoiadas pela ABED – Associação Brasileira de Educação a Distância, criada e dirigida por nosso amigo Fred Litto, professor hoje aposentado da USP, onde dirigia “A Escola do Futuro”. 

O Wilson e eu já trabalhamos juntos em alguns empreendimentos, como um curso presencial sobre o uso de tecnologia no trabalho eclesiástico para pastores e administradores de igreja, ministrado (lá atrás no tempo) nas dependências de educação religiosa da Catedral Evangélica de São Paulo, e um curso a distância sobre escolas inovadoras, em que José Pacheco, Rosely Sayão e eu discutimos escolas inovadoras com que estivemos envolvidos (na ocasião, Pacheco falou sobre a Escola da Ponte, onde a filha do Wilson estudou quando a família morou em Portugal; Rosely abordou sua experiência como articulista da Folha de S. Paulo e eu falei sobre a Escola Lumiar, de cuja mantenedor, o Instituto Lumiar, fui Presidente e minha mulher Coordenadora Pedagógica).

Recebi, recentemente, um anúncio de que o Wilson estaria ministrando um curso a distância sobre “Ambientes Tecnológicos Minimalistas para EaD”. Resolvi me inscrever. Começou na segunda-feira passada (22/9), e vai durar apenas duas semanas. O Wilson leva a sério o minimalismo até na duração dos cursos dele…

O primeiro texto que li para o curso foi do próprio Wilson: um artigo que tem o título de “O Minimalismo Tecnológico em Educação Online e a Inclusão Educacional e Digital no Brasil”. Fiquei entusiasmado com o que li (embora discorde de algumas coisas pequenas, como vai ficar evidente aqui). Sempre soube, desde os tempos da EduTec.Net, que o Wilson era um “minimalista tecnológico”. Para explicar que bicho é esse, vou ter de fazer um preâmbulo relativamente longo…

Naquela época, fim da década de 1990, estava começando a se tornar possível redigir e-mails “formatados”. Para os usuários de e-mail de hoje essa noção nem faz mais sentido, porque e-mail formatado é tudo o que eles conhecem: uma mensagem na qual você pode escolher o tipo gráfico (fonte), o tamanho e o estilo (normal, negrito, itálico, sublinhado etc.) das letras que você vai usar, acentuar as palavras, incluir links para sites, assim como fotos, desenhos, gráficos, vídeos, etc.

Antes de tudo isso ter se tecnologicamente possível, porém, os e-mails precisavam ser redigidos em “texto puro”, isto é, sem nenhuma formatação, usando tipo de letra que fosse default no seu computador (em geral o que hoje se chama Courier), tudo de um tamanho só – sem acentos, sem links, sem fotos, sem desenhos, sem gráficos. Algo que fazia lembrar pobreza franciscana.

Para deixar claro que a gente queria dizer “é” e não “e”, a gente precisava escrever ” e’ ” ou “eh”… Além da pobreza, sofrimento (pelo menos para quem não estava acostumado a escrever sem acento). Naquele contexto, se alguém tentasse enviar um e-mail com texto formatado, a maioria dos sistemas de e-mail não era capaz de decodificar a meta-informação que especificava como o texto deveria ser recebido e o resultado eram códigos ilegíveis ou, pelo menos, muito difíceis de serem lidos.

Pois bem… Naquela época em que todos estávamos entusiasmados com a possibilidade de escrever e-mails com tipos gráficos exóticos, com letras de cores e tamanhos chamativos, o Wilson não se deixou seduzir: continuou partidário do e-mail com texto puro, porque imaginava que muitos de seus interlocutores usassem um mínimo de tecnologia. Continua assim até hoje.

Mas o que parecia apenas uma mania virou um referencial teórico interessante e sofisticado… Acho que, ao final do curso, o referencial teórico vai ficar mais sofisticado ainda, porque há muita gente boa entre os parcos treze alunos da turma. (O curso dele não é minimalista só na duração: também no número mínimo de alunos com o qual funciona).

Gosto disso. Se o curso do Wilson durasse seis meses, ou mesmo seis semanas, eu não teria optado por fazê-lo – não tenho tanto tempo disponível. Se exigisse que eu fosse a um Centro de Apoio ou a uma universidade para assistir a uma video-conferência (sincronicamente), ou para fazer uma prova, eu passaria longe do curso. Mas duas semanas (na verdade, dez dias úteis, cerca de uma hora por dia, em média), em que posso trabalhar em casa, tarde da noite ou de madrugada, é algo perfeitamente factível.

No artigo que mencionei, Wilson faz uma apologia extremamente interessante dos princípios do minimalismo tecnológico em EaD. O minimalismo teórico envolve outros princípios, como a simplicidade e a parcimônia, e possui uma justificativa teórica e pragmática que vale a pena divulgar.

Exceto no caso de algumas universidades, em especial no Estado de São Paulo, onde a FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa tinha um link exclusivo com o Fermilab, de Chicago, a Internet chegou ao Brasil apenas em 1995, graças aos esforços do então ministro Sérgio Motta – que pode ser considerado o primeiro mártir da internet brasileira. Ele “peitou” o sistema Telebrás, que queria uma Internet “chapa branca” para o Brasil e conseguiu, com o apoio de FHC, que o acesso à rede para os usuários finais fosse propiciado por provedores privados.

Mesmo assim, nos dez anos que se seguiram (1995-2005) a internet foi coisa “de rico”, vamos dizer assim. O preço do hardware era proibitivo, o preço do software era muito alto e o preço do acesso não era baixo, apesar da entrada da iniciativa privada no negócio, e, portanto, da concorrência. O resultado foi que, durante esse período, quase só as classes A e B tiveram acesso à Internet.

A partir de 2005, por aí, segundo o Wilson, o cenário mudou em muitos aspectos:

a) O preço do hardware caiu significativamente: hoje é possível comprar um netbook por cerca de dez prestações mensais de 65 reais, mais ou menos;

b) O preço do software também caiu, mas em proporção menor, embora exista hoje no mercado uma quantidade grande de software gratuito – e o brasileiro pessoa física continue a utilizar software pirateado, malgrado a ilegalidade da prática;

c) Os provedores de acesso à Internet também baixaram o preço e melhoraram um pouco a qualidade do acesso à chamada “banda larga” de 256 Kbps, 512 Kbps e 1 Mbps, já havendo, “no andar de cima”, como diz o Elio Gaspari, empresas oferecendo acesso por fibra óptica de até 100 Mbps). A concorrência do acesso à internet pelo telefone celular e, mais recentemente, pelos tablets que usam tecnologia celular, tem contribuído com a redução do custo do acesso. (Quando escrevo isto, meu acesso é de 100 Mbps, por fibra óptica, na Chácara Klabin, em São Paulo, perto do metrô Imigrantes.)

Fora do plano tecnológico, agora no plano educacional, quase todo mundo na faixa etária da escolarização obrigatória hoje está matriculado. A matrícula no Ensino Médio cresceu, o número de Escolas Técnicas cresceu significativamente e, principalmente, melhorou o acesso ao Ensino Superior, com a criação de mais universidades públicas federais, com o aumento de vagas nos CEFET e FATEC, e com a criação do Prouni. O número de vagas nas Faculdades e Universidades privadas também cresceu significativamente.

Com mais gente completando a Educação Básica e mais gente frequentando a faculdade ou a universidade, aumentou significativamente a demanda pelo acesso à Internet. Como o acesso à Internet (em seu tríplice aspecto de harware, software e acesso, propriamente dito) estava mais barato, muito mais gente se tornou “digitalmente incluída”, como diz o jargão. E essa gente era predominantemente das classes C, D e até mesmo E. Com isso, aumentou a demanda por EaD.

Diante desse quadro, nossa responsabilidade como educadores não se exaure em oferecer a essa clientela composta pelos “emergentes digitais” cursos a distância que exigem, na ponta do usuário, tecnologia extremamente sofisticada, estado da arte. Ou seja: o cenário parece estar pronto para uma abordagem minimalista à EaD – que é o que o Wilson preconiza e oferece.

Na verdade, a discussão no curso tem deixado claro que uma abordagem minimalista é útil até mesmo em contextos em que o argumento financeiro (o custo) não se aplica. É possível defendê-la, no contexto de EaD, argumentando que, em muitos contextos em que existe tecnologia sofisticada disponível para o usuário, o “maximalismo tecnológico” (usar tudo a que se tem direito) em geral funciona como uma distração para o usuário que não contribui, necessariamente, para que a quantidade e qualidade do seu aprendizado melhorem proporcionalmente ao investimento feito.

Isso posto, é preciso esclarecer melhor o que está envolvido na proposta minimalista.

Na discussão tem ficado claro que o minimalismo em EaD, embora combata a “obesidade tecnológica”, não propõe a “anorexia tecnológica”. No caso da alimentação, refeições adequadas são aquelas em que as pessoas comem, em quantidade suficiente, comida de qualidade: saudável, nutritiva, gostosa. Não é preciso que, na alimentação, a gente se empanturre, encha e limpe o prato, de comida pesada, gordurosa, ultra-temperada – isso só produz azia e má digestão (e, talvez, doença coronariana). Nem é preciso que a gente quase não se alimente e saia da mesa morrendo de fome. O princípio minimalista fica entre o “tudismo” e o “nadismo”, defendendo, na realidade, o “suficientismo”.

Que o leitor me desculpe: adoro neologismos. Por isso já usei tantos aqui. E dou outro exemplo.

O liberalismo político clássico, que propõe e defende o “Estado mínimo”, é, nessa linha, suficientista. É contra a proposta de que o Estado seja tudo (como era no mundo comunista) e contra a proposta de que o Estado seja nada (como é a proposta anarquista do não-Estado). O liberalismo político clássico defende a existência de um Estado forte (mas pequeno), exigindo que suas funções sejam clara e especificamente delimitadas e restringidas ao mínimo essencial.

O básico da discussão, até agora, é esse.

Na discussão, porém, foi sugerido um complicômetro interessante – por um médico. Disse ele mais ou menos o seguinte: no passado, em que a tecnologia era bem mais simples, quase minimalista, a “experiência operatícia” de um paciente que tivesse de se submeter a uma cirurgia do abdômen era, digamos, maximamente complexa. Ele ficava internado alguns dias, sofria um corte significativo em sua barriga, tinha uma recuperação lenta, e tinha de se conformar com viver com uma cicatriz feia para o resto da vida. Hoje, com micro-tecnologia ultra-sofisticada, a operação se faz em poucos minutos, o acesso aos órgãos internos se dando pelos “orifícios naturais” do corpo (ou, em casos extremos) fazendo um pequeno orifício artificial – ou um corte pequeno), e o paciente muitas vezes vai embora para casa sem trauma e sem cicatriz, com uma “experiência operatícia” mínima.

Em suma: o que importa, para o paciente (fazendo às vezes de usuário passivo da tecnologia) é que sua operação seja indolor, rápida, sem deixar cicatriz, e, se possível, barata – e que, naturalmente, que seja eficaz, isto é, resolva o seu problema. Se, para isso, é necessário que se use tecnologia ultra-sofisticada, maximalista, que seja.

Aplicando esse princípio à EaD, teríamos o seguinte: o importante é que a experiência de aprendizagem do aluno seja eficaz (isto é, que ele realmente aprenda o que precisa ou deseja aprender), indolor, rápida, sem sequelas negativas, e (ele espera) barata. Se, para isso, quem propicia essa experiência precisa usar tecnologia sofisticada, que use…

O complicômetro a que fiz referência está no fato de que a analogia médico-cirúrgica sugere que é necessário distinguir (pelo menos) dois problemas:

O primeiro problema envolve uma questão de dois lados: de um lado, a tecnologia que se usa ou aplica em determinado contexto (cirúrgico, pedagógico etc.); de outro lado, a experiência (“operatícia”, “aprenditícia” ou que nome quisermos dar a ela) que as pessoas envolvidas nesse contexto têm em decorrência do uso ou da aplicação da tecnologia.

O outro problema diz respeito ao segundo lado da questão anterior (as pessoas envolvidas) e também possui dois lados: a experiência de quem propicia o uso ou aplicação da tecnologia; e a experiência do próprio beneficiário do uso ou aplicação da tecnologia.

Neste segundo problema, temos que, para o operado, a experiência “operatícia”, quando o médico usa a tecnologia maximalista mencionada, é minimalista. Ele não sente quase nada. Ele, na realidade, nem é paciente, no sentido estrito do termo, porque não sofre nada! Para o médico, entretanto, há uma curva de aprendizagem significativa, tanto no uso da tecnologia em si como na aplicação das novas técnicas cirúrgicas que a tecnologia torna possíveis – porque, para propiciar ao paciente operado a experiência minimalista (quase nihilista, ou nadista) de não sentir quase nada, de não ficar com cicatriz etc., o médico teve de aprender a usar essa tecnologia sofisticada, isto é, maximalista!

[Parêntese: será que há resistência, entre os membros da classe médica, à necessidade de estar sempre reaprendendo a profissão, como parece haver entre os professores? Parece-me que não, mas posso estar enganado.]

No caso da educação, porém, não queremos que o aluno seja equivalente ao paciente operado, que não faz nada e é só objeto da ação de outrem: queremos que o aluno participe, seja ativo, interativo, colaborativo, e tenha papel significativo (tudo ativo, nada passivo), no processo de sua própria aprendizagem… Por isso, é difícil, se não totalmente impossível, imaginá-lo, no contexto de EaD, totalmente sem acesso à tecnologia (como acontece com o paciente operado). Mesmo no caso de um telecurso oferecido pela televisão, o aluno precisa fazer uso do aparelho de televisão (que é tecnologia), e, portanto, não se compara exatamente ao paciente de uma operação (embora, admitamos, neste caso fique perto).

Espero ter despertado o interesse dos leitores pelo tema…

Em São Paulo, 29 de Agosto de 2011, transcrito neste blog aqui em 11 de Outubro de 2011

Escrita à Mão, Papel Almaço…

Artigo, com o título acima, que publiquei no Blog das Editoras Ática e Scipione em 18/08/2011, no URL abaixo.

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http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/escrita-a-mao-papel-almaco…

Imaginemos uma escola particular de qualidade razoável em uma grande cidade brasileira nos dias de hoje. Digamos que ela se localize em São Paulo, num bairro tradicional que está tentando conseguir um upgrade para o século 21, e seus alunos pertençam às classes A e B do bairro. Ela usa sistema de ensino de grife. Os alunos, pelo menos os da quinta série em diante, carregam smartphones (fones espertos?) de última geração, têm notebooks (cadernos eletrônicos?), usam Facebook e Messenger o tempo todo etc. E se vestem, digamos, a rigor: GAP, Nike etc.

Imaginemos que nessa escola, numa sala de aula da oitava série, uma professora peça aos alunos que façam uma redação sobre tema de sua escolha e a entreguem numa data combinada. Mas, especifica a professora, a tarefa tem de vir escrita à mão em folha de papel almaço. Isso quer dizer que não serão aceitas redações feitas no computador: nem as impressas em impressora, nem, muito menos, as enviadas por e-mail.

Faz sentido?

A maioria dos alunos, legítimos membros da “Geração dos Nativos Digitais”, nascidos que são por volta de 1998, como é de se esperar, protesta – se não durante a sala, depois dela, na escola, em casa, e, naturalmente, pelo Facebook (há pouco mais de um ano, teria sido pelo Orkut).

Eu, como pai de aluno, como pessoa envolvida com tecnologia, e como professor e pensador na área da educação, não tenho nenhuma dificuldade em entender os alunos protestantes (i.e., que protestam) e, por conseguinte, me solidarizo totalmente com eles. Idade aqui não faz diferença. Nem as divergências em outros contextos.

Na verdade, escrevi uma nota de desabafo no meu mural no Facebook, dizendo:

“Fui testemunha, hoje, de uma coisa que me fez perguntar se estou de fato vivendo no século 21: uma tarefa de escola – uma redação – que tinha de ser feita à mão e entregue pessoalmente à professora em papel almaço. Tive de sair por aí procurando papel almaço (depois das 18h). Achei na Papel Magia, no Shopping Plaza Sul… Mas ainda estou escandalizado e com vontade de citar o nome da professora e do colégio aqui. Ou seria melhor citar a rede do sistema de ensino que o colégio usa?”

Quando saí procurando o papel, esperava que os atendentes das papelarias nem soubessem o que era papel almaço. Afinal de contas, quando eu fazia o Ginásio, no final de 1950, e o Clássico, no início dos anos 1960, ou seja, mais de 50 anos atrás, era nesse bendito papel que tínhamos de entregar nossas redações. A gente era obrigado a fazer uma margem, dobrada, de 2,5 cm (não sabia então que essa medida era basicamente equivalente a uma polegada) e entregar a folha sem dobrar. Para mim, um material desses nem existia mais, ou, se existisse, não seria conhecido do público em geral. Assim, foi com ceticismo que me dirigi às papelarias. Bom, surpreendi-me. Na Papel Magia o atendente não só sabia exatamente o que era aquilo que eu queria como tinha o material para pronta entrega e, ainda, o encontrou de pronto: um pacotinho de vinte folhas por 2,50. O preço me pareceu razoabilíssimo nas circunstâncias. Já estava preparado para fazer um rodízio de livrarias e papelarias de shoppings naquela altura.Se me surpreendi na papelaria, não esperava me surpreender no Facebook. Imaginava que todos os meus contatos concordariam comigo que a exigência da professora era absurda – não, naturalmente, a exigência de que os alunos fizessem uma redação, mas a de que a apresentassem escrita à mão e, pior ainda, em folha de papel almaço.

Bom… Surpreendi-me de novo.

Um contato meu no Facebook disse que achava “sensacional” o aluno ser obrigado a fazer uma redação à mão. OK. Admito que alguém queira discutir isso. Outra foi além e disse que achava “maravilhoso” que a escola obrigasse os alunos a usar o papel almaço e expressava o desejo de que todas as escolas brasileiras voltassem a usar esse material. Neste caso, não OK… Acho isso um absurdo. Uma terceira participante no debate afirmou não entender por que havia tanta gente “se descabelando” por causa de uma coisa tão comum e trivial, como exigir que alguém usasse papel e caneta para fazer alguma coisa… Não era bem isso que era exigido, mas vamos fazer de conta que sim. Uma quarta disse que, se soubesse quem era o professor que havia feito a exigência, dar-lhe-ia um beijo. Disse que daria um beijo mesmo que o imaginado professor fosse de fato uma professora.

É verdade que a maior parte dos meus amigos de longa data no Facebook saiu à luta… De início, um pouco reticentes, meio que se recusando a acreditar que fossem genuínos todos esses elogios a uma exigência que lhes parecia totalmente despropositada. Talvez pensassem que os elogios fossem fake – uma gozação que eles simplesmente não estavam entendendo. Quando viram que era pra valer, muniram-se de brio e combateram o bom combate, mesmo assim com um leve sorriso nos lábios (conjecturo, pois não via seus rostos no Facebook), porque, afinal de contas, era difícil de acreditar que ainda seria preciso engajar-se nesse tipo de batalha no mês em que se comemora o aniversário de 30 anos do lançamento do IBM PC.

O sinal de que a coisa era séria ficou evidente quando uma das defensoras do papel almaço começou a gritar (isto é, a escrever tudo em maiúscula) e a dizer que ERA UMA PENA QUE EU ME DISPUSESSE A CRITICAR O “MELHOR ENSINO” (sic)…

Enfim, quais eram os argumentos alinhavados na crítica delas à minha crítica?

Em respeito aos leitores vou despachar rapidamente a defesa do papel almaço para dedicar mais espaço ao que é mais importante: a defesa da escrita à mão.

Para mim (e para vários participantes no debate que, começando à meia-noite, já tinha alcançado mais de cem comentários pela manhã), dada a exigência de que a redação fosse escrita à mão, exigir que a entrega fosse em papel almaço (em vez de folha de caderno ou papel sulfite) era equivalente a exigir que o texto fosse escrito com caneta tinteiro em vez de esferográfica… Ou datilogrado numa máquina de escrever Remington em vez de impresso por Microsoft Word em uma impressora a laser colorida. Ou, talvez, que fosse escrito com aquelas canetas de pena, sem depósito de tinta, que eu usava na escola a partir do segundo ano primário, que requeriam a colocação de um tinteiro em um buraquinho redondo na carteira que, de vez em quando, fruto de uma joelhada involuntária, espalhava tinta pela carteira inteira, sujando livros, cadernos e não raro a branca camisa dos alunos. (Quase toda carteira, no meu Grupo Escolar Prof. José Augusto de Azevedo Antunes, em Santo André, tinha uma mancha de tinta escura, ou mais de uma, virtualmente impossível de remover sem lixa muito grossa).  Considero isso suficiente para dispor do papel almaço – aquele que foi, sem deixar saudade.

Vejamos então o que foi apresentado em defesa da exigência de que o texto fosse escrito à mão, em letra cursiva.

Na realidade, muito pouco foi apresentado em defesa dessa exigência específica, porque havia confusão entre coisas que são – ou deveriam ser – bem distintas. A primeira dessas confusões estava em atribuir as dificuldades que muitos alunos hoje têm com a escrita e a redação ao fato de que a maior parte dos professores não exige deles que façam redação com frequência e que as façam do modo tradicional: escrevendo à mão num papel qualquer.

A segunda confusão foi atribuir essa escassez na quantidade de redações exigidas dos alunos à presença da tecnologia na escola. Parece que imaginavam que, assim que o computador entra em cena, os professores encontram outras coisas mais “modernosas” para fazer em sala de aula e se descuidam do básico e essencial, como redigir (à mão). É mais ou menos isso.

A primeira tarefa dos defensores da “modernidade”  foi desconfundir as coisas. Afinal, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, e uma terceira coisa é, bem, uma terceira coisa.

Primeiro, nenhum dos críticos da professora tinha qualquer dúvida de que é extremamente importante aprender a escrever e a redigir textos mais complexos e que essas coisas a gente aprende fazendo. Portanto, nada contra o fato de que a professora exigiu dos alunos uma redação. Pelo contrário. E até se deve louvar o fato de que ela deixou o tópico a critério dos alunos – porque isso permite que a criatividade de alguns venha à tona. (Fazer cópia e receber ditado são tarefas que supostamente também nos ajudam no processo de aprender a escrever e a redigir… Mas, convenhamos, são das coisas mais desinteressantes do mundo).

Segundo, as dificuldades com escrita e redação dos alunos de hoje se devem, em parte, ao fato de que os professores não dão a importância devida a elas. Mas só pedir que os alunos façam redação não basta. É preciso ajudá-los a redigir bem, e isso se faz explicando no que consiste uma boa redação, lendo o que escrevem, discutindo com eles o que escrevem, sugerindo formas de expressarem melhor o que querem dizer etc.

Parte importante desse processo, que foi levantada na discussão, reflete algo que dificilmente acontece numa escola típica. A língua, falada e escrita, é o veículo através do qual nos comunicamos uns com os outros e expressamos o nosso pensamento. Toda roda de adolescentes é prova de que é possível falar e falar sem se dizer nada, isto é, de que é possível falar sem expressar pensamentos significativos. É a fala vazia, o falar por falar, a famosa “abobrinha”. (Essas rodinhas também provam que é possível rir o tempo todo – de nada ou daquilo que não tem a menor graça. Mas este é outro assunto…).

A escrita, em especial a redação, foi inventada para que a gente possa comunicar o nosso pensamento aos outros. Assim, se não sabemos pensar de forma clara, precisa, coerente e concatenada, dificilmente conseguiremos fazer uma boa redação. Ou seja, os maiores problemas com a escrita e a redação dos nossos alunos podem não ter causas apenas linguísticas, mas, também, lógicas e epistemológicas. E disso poucos professores das séries iniciais e poucos professores de língua portuguesa parecem se dar conta.

Terceiro, o impacto da tecnologia sobre essas questões é benéfico, não prejudicial. A coisa já vinha ruim desde antes da chegada maciça e significativa da tecnologia na escola (algo que, convenhamos, em relação à escola pública ainda não se deu), e as causas do problema não são tecnológicas.

Seymour Papert, o “papa” do uso da tecnologia na educação, uma vez escreveu um artigo em que dizia algo extremamente importante. Vou dividir a tese dele em partes para que seu argumento seja mais facilmente apreendido.  Reproduzo o argumento de memória, porque não fui capaz de localizar o artigo. Talvez tenha sido numa palestra ou aula dele que ouvi.

a. Aprender a escrever é um processo extremamente complexo. A escrita pressupõe a fala. E tanto a escrita como a fala pressupõem o pensamento (como já foi ressaltado atrás).

b. O ato de escrever à mão em letra cursiva envolve, além disso, em primeiro lugar, o domínio da coordenação motora fina necessária para desenhar as letras, que (exceto no caso de letras hoje chamadas bastão, antigamente de forma) são objetos normalmente muito pequenos e cheios de curvas e detalhes que exigem cuidado e prática para serem serem colocados no papel de forma correta e apresentável.

c. Além disso, o ato de escrever à mão, em letra cursiva ou não, envolve conhecimento da grafia correta das palavras, a “ortografia”: se, num determinado lugar, usa-se – para expressar de forma escrita um mesmo fonema – o “s” (como em sala), ou dois “esses” (como em passarinho), ou “ç” (como em caça), ou “c” (como em cego) ou “sc” (como em piscina)…  E há os acentos, os sinais diacríticos e diferenciais de antigamente, que parecem mudar a toda hora…

d. Para expressar pensamentos inteiros, é preciso usar frases de estrutura relativamente complexa, e, para isso, é preciso conhecer a sintaxe: a concordância, a regência, a combinação de orações coordenadas (sindéticas e assindéticas) e subordinadas, a diferença entre complemento nominal e adjunto adnominal…

e. Enfim, há que se fazer tudo isso e ainda produzir algo que, além de dizer alguma coisa interessante e de forma correta, precisa estar apresentável: a letra tem de estar bonita (para que outra coisa serve a “caligrafia”?), não deve haver borrões e outras manchas, o papel não deve ficar amarrotado etc.

Enfim… Na escola convencional, em que se aprende a escrever à mão, o aluno, ao aprender a dizer coisas por escrito, também tem de aprender tudo isso. É muita coisa ao mesmo tempo para um ser tão pequeno – e que tem tantas outras coisas interessantes para fazer… A atenção do aluno é dividida com todos esses processos que, em muitos casos, claramente não são essenciais ao processo de exprimir o pensamento em linguagem escrita. Olhando para um aluno que está aprendendo a desenhar as letras, a gente vê o esforço e a concentração. Às vezes a linguinha até fica de fora, no canto da boca, para (supostamente) facilitar o processo. Coitado.

Quando o aluno aprende a dizer coisas por escrito usando o computador, porém, vários desses processos acessórios são assumidos pelo computador, que corrige ortografia, acentuação, pontuação, e até sintaxe, e deixa o texto lindo de morrer ao permitir que diferentes fontes ou tipos gráficos sejam usados. Além disso, se o aluno erra, ou quer alterar o texto, é fácil fazer isso, sem que o texto fique rasurado e o papel, borrado ou amassado.

Assim, ele pode concentrar a atenção no processo de escrever, isto é, pensar coisas e dizê-las por escrito.

Depois de aprender a dizer as coisas por escrito, ele pode aprender, se necessário, a desenhar as letras com a mão, a grafar as palavras corretamente sem o auxílio de um corretor ortográfico, a estruturar as frases sem o apoio do computador etc. Há quem ache que ele aprende isso tranquilamente, só no processo – prazeroso – de escrever o que lhe interessa.

Muitos países desenvolvidos já estão abolindo a aprendizagem da escrita cursiva no contexto escolar (o assunto foi discutido na imprensa – “EUA passam a abolir ensino de letra de mão nas escolas”; este blog também registrou o tema).

Uma das pessoas que me criticou no episódio do papel almaço escreveu no post sobre essa notícia:

“Deus me livre que isso aconteça no Brasil, escrever é um habito saudável, deveria ser muito mais estimulado [quem está propondo o contrário?], o fazer exercícios com caneta e papel é que faz com que o individuo aprenda a ler e a escrever [será?]. Nem tudo o que é bom pros Estados Unidos é bom pro Brasil, em vez de imitarem esse absurdo, porque não copiam as leis que realmente funcionam, a tolerância zero, enfim várias medidas que seriam ótimas pro país, agora reclamar e querer denegrir uma escola só porque ela pediu pra ser feita uma redação a mão e num papel almaço, me desculpem, mas é pura ignorância.”

A seguinte afirmação, usada no debate, é falsa: “O método antigo é que valia a pena ser aplicado; a modernidade só trouxe alunos que não sabem escrever, nem ler, corretamente”. A tecnologia, aqui, é parte da solução, não do problema. O problema é causado por uma falsa concepção e uma metodologia inadequada.

Que os que me criticam me desculpem. Fazer uma redação é importante. Fazê-la à mão, um atraso de vida. Fazê-la numa folha de papel almaço, troglodismo puro. A escrita não se limita à escrita cursiva, muito menos numa folha de papel almaço. Ou será que meus críticos preferem também os lindos livros manuscritos da Idade Média à conveniência de um livro impresso ou, melhor ainda, digital, num Kindle ou num iPad? Não foi a modernidade que trouxe alunos analfabetos, não. A tecnologia não é inimiga da aprendizagem – da boa aprendizagem, da melhor aprendizagem. O que prejudica a aprendizagem é a visão estreita e incompetência de quem se propõe a ajudá-la ou apoiá-la.

Assim, o importante é aprender a escrever e redigir. Não necessariamente à mão, nem à máquina, nem no computador: simplesmente aprender. Vamos pensar no que é essencial e não nos fixarmos no que é acessório.

Em São Paulo, 18 de Agosto de 2011, transcrito aqui em 27 de Setembro de 2011