Romance interessante sobre a luta acerca do aborto nos EUA

Estou lendo um livro interessante que comprei na Livraria da Quinta do Marquês – um Restaurante e Posto no km 57 da Castello Branco (direção Leste – i.e., da Capital). Apesar de ser um livro de 700 páginas, estava a venda por R$ 14,90. O livro é Protect and Defend / Proteger e Defender, de autoria de Richard North Patterson (publicado pela Editora Record no Brasil).

A expressão “proteger e defender” faz parte do juramento feito pelo eleitos à Presidência dos Estados Unidos no momento de sua posse:

“Eu, [fulano de tal], juro solenemente que desempenharei fielmente o cargo de presidente dos Estados Unidos e darei o máximo de minha capacidade para preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos…”. Esse trecho do juramento é o moto do livro.

Trata-se de um livro de ficção – mas de ficção realista: a história de Kerry Francis Kilcannon, senador democrata, que acaba de tomar posse como presidente dos Estados Unidos.

A partir daí o romance tem duas vertentes. De um lado, a história de Kilcannon na Casa Branca. Do outro, a história de uma advogada que milita na defesa do aborto.

Os democratas são, em regra, defensores do aborto – são “pró-escolha”, para usar o rótulo adotado nos Estados Unidos. Mas os republicanos, ao deixar a presidência, conseguiram fazer aprovar uma Lei de Proteção à Vida, para agradar a população contrária ao aborto – os “pró-vida”, como são chamados lá.

Para complicar as coisas, o presidente da Suprema Corte, um velhinho, morre de infarto no ato da posse. A Suprema Corte, que andava dividida 4×4, tinha seus votos decididos pelo presidente, conservador, e, portanto, alinhado com os Republicanos. Com sua morte, o Presidente vai ter de indicar alguém ao Congresso para vir a completar a Suprema Corte. Ele pode indicar alguém e já indicar que este será o presidente da Suprema Corte, ou indicar apenas um membro e escolher um dos veteranos como presidente.

Os Democratas esperam que ele inverta a tendência da Suprema Corte. Mas ele precisa também resolver o problema rapidamente, garantindo que a Suprema Corte não fique travada, com votações empatadas 4×4 e sem o voto de Minerva de um presidente. Para isso precisa indicar alguém que tenha o apoio dos Republicanos também. Isso provavelmente significa alguém que não tenha se pronunciado muito, nem julgado, casos controvertidos…

Para complicar as coisas, o Presidente, que é divorciado, tem uma namorada, jornalista, que já fez, sem que ninguém soubesse (além do Presidente e de seu melhor amigo, agora Chefe da Casa Civil, um negro), fez um aborto de um filho do Presidente, quando este era senador e ainda casado. Segredo quente, que certamente lhe causará problemas no futuro. (Li apenas umas 100 páginas até aqui).

A advogada pró-escolha (que foi assessora de uma importante juiza federal) está envolvida numa confusão envolvendo uma clínica de abortos em Los Angeles, à qual comparece uma menina de 15 anos, grávida já de mais de três meses, e que é filha do maior defensor da causa anti-aborto dos Estados Unidos: um professor universitário de direito, extremamente religioso e conservador.

A Lei de Proteção à Vida proíbe que as clínicas de aborto façam aborto em menores sem a autorização de pelo menos um dos pais. (Isso é admitido hoje nos Estados Unidos). Os pais a menina não vão dar a autorização. Já providenciaram tudo para que ela tenha a criança.

A menina, no entanto, quer abortar – porque a criança, além de tudo, é hidrocéfala. Para que possa abortar, sem a autorização dos pais, só se um juiz autorizar, em um processo específico.

Está montado o cenário.

A juiza para a qual a advogada trabalhou recomenda que ela não toque nesse caso nem de longe. Mas ela vai se envolver e abrir processo em nome da menina.

E a juiza é a pessoa para a qual o Presidente se inclina, não só para ocupar uma vaga na Suprema Corte, mas para presidi-la.

Hot stuff, não é verdade?

A gente aprende bastante sobre o governo e a legislação americana no processo. E a discussão é relevante para a discussão da questão do aborto no Brasil. 

Apesar de ter lido apenas cerca de cem páginas, recomendo o livro.

Em São Paulo, 31 de Maio de 2010.

Epistemologia da fé – 2

Na discussão do tema no Facebook, várias pessoas se manifestaram. Eis aqui um resumo.

MInha mulher, Paloma, se fez ouvir (ler) nos seguintes termos, citando o autor de Hebreus: “’Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem’ (Hebreus 11:1). Acho que a fé como uma defesa da não-necessidade de justificar a crença em determinados enunciados se aproxima mais da minha idéia de fé…”.

Meu irmão, Flávio, lembrou o pensador inglês G. K. Chesterton, que disse:

"Amar significa amar o que é difícil de ser amado, do contrário não seria virtude alguma; perdoar significa perdoar o imperdoável, do contrário não seria virtude alguma; fé significa crer no inacreditável, do contrário não seria virtude alguma. E esperar significa esperar quando já não há esperança, do contrário não seria virtude alguma."

Eu retruquei:

“Gosto muito do Chesterton — pensador inglês que era católico, não anglicano. Escreveu também vários romances policiais deliciosos. Tenho todos eles. Tendo a concordar com ele. Fé, mesmo, para ser realmente fé, tem de ser em algo inacreditável. À la Tertuliano, Kierkegaard, etc. Não é preciso ter fé, por exemplo, para admitir que Jesus realmente nasceu no século I na Palestina. Para admitir que ele nasceu de uma virgem, porém, é preciso fé. Não é preciso fé, por exemplo, para admitir que ele tenha morrido na cruz. Para admitir que sua morte expiou os pecados do mundo, ou que ele tenha ressuscitado dentre os mortos, é preciso fé”.

Meu sobrinho, Vitor, teólogo, nos lembrou de duas idéias interessantes, referindo-se a Paul Tillich e Miguel de Unamuno:

a) “A fé se aproxima mais de preocupação (‘concern’: "the state of being ultimately concerned", de Paul Tillich) do que de crença”.

b) [Referindo-se a Miguel de Unamuno] “Até que ponto a fé não é desejar, não algo que existe, mas, sim, algo que não existe?”

Eu lembrei as três virtudes paulinas – a fé, a esperança, e o amor – das quais a maior delas é o amor.

Comentei, diante da cutucada da Paloma para que eu me manifestasse, dizendo o que pensava. Comecei comentando algo dito por Ozimar Pereira, a saber: “A fé é justamente acreditar que não existe finitude. É saber que existe algo maior no qual se está inserido e do qual você é um ator ativo”. Retruquei:

“Eu estaria inclinado a dizer mais ou menos o contrário: que a fé é o reconhecimento da nossa finitude, reconhecimento esse acompanhado da crença (ou, se mais fraca, da esperança), de que há algo além, transcendente. Reconhecer a nossa finitude é reconhecer que somos finitos, que temos fim. O Judaísmo e o Cristianismo, por exemplo, diferentemente das religiões gregas, não acreditam na imortalidade da alma: acreditam na ressurreição do corpo. Isso quer dizer que o Judaísmo e o Cristianismo reconhecem, de forma radical, a finitude humana: a morte, o fim humano, é realmente um fim. Não é a morte só do corpo, ficando a alma viajando por aí, atormentando os outros, ou se reincarnando em outro corpo. É realmente o fim. Só um milagre poderá fazer com que, depois desse fim, sobrevenha um novo capítulo em que voltamos a participar. O Judaísmo e o Cristianismo acreditam no milagre da ressureição do corpo. Têm fé (esperança?) de que, um dia, o nosso ser, nosso eu, com corpo e tudo o mais, será reconstituído. Existe alguma base para se crer nisso (além do fato de que a Bíblia o diz)? Estou convicto de que não. Se quem crê (espera) está certo, ou não, só se saberá se a crença (esperança) for verdadeira. Se não for, o nosso fim é verdadeiramente o fim, o fim final, o fim sem follow-up, o fim sem capítulo subseqüente – e a nossa finitude é uma finitude sem transcendência. É bom crer que a nossa morte não é o fim de tudo – que haverá um follow-up eterno em que o bem, o certo, a justiça serão recompensados, em que os conflitos, as guerras, o sofrimento, o mal deixarão de existir, em que o lobo conviverá pacificamente com o cordeiro e nos olhos não haverá nenhuma lágrima. Talvez por ser tão bom crer nisso que eu tenho medo de realmente crer — e prefira ficar no nível da fé-esperança… Segundo Paulo, há três virtudes básicas: a fé, a esperança, e o amor. Será que 2/3 delas não bastam?”

A Paloma cutucou de novo:

“Não crer por medo? Medo por ser algo tão bom? Quantas coisas tão boas temos recebido ainda em vida? Por que não as receberíamos depois da morte? Quantos milagres temos "vivido em vida"? Por que não os poderíamos ‘viver depois da morte’”?

Retruquei:

“Sabe quando você tem medo de acreditar em algo porque "it is too good to be true"? Sei que, muitas vezes, mesmo sem a crença, "it is true". Tenho provas irrefutáveis disso (você sabe). Mas não aceito a validade de argumentos indutivos. O que já aconteceu muitas vezes no passado, pode não acontecer no futuro, exatamente em relação ao que, no esquema total das coisas, mais parece importar…”

O Vítor comentou:

“Bem lembrado sobre Paulo, tio. ‘Fé, esperança e amor’. Talvez sejam três virtudes básicas da humanidade, independente de cultura ou religião. Pra mim, até então, de forma breve, fé seria a preocupação mais decisiva e a decisão certa diante da preocupação; esperança, a paciência na vida e o trabalho constante para mudar; e amor, a aceitação do outro e de si mesmo. Parecem-me virtudes que somam qualidades positivas e nos fazem viver e conviver melhor. Se isto vai garantir uma vida após a morte? Talvez sim, talvez não… O medo da morte não pode ser o único motivo para viver estas virtudes básicas. Se de repente não houver nada após a morte, é melhor viver o paraíso aqui com a gravidade e a beleza destas virtudes (ou 2/3 delas) e esperar pela surpresa insondável da vida, do que antecipar um inferno aqui :-)”.

Retruquei:

“Obrigado por mais uma vez participar, Vitor. Concordo com você. Não sou mais, hoje, daqueles que acham que é ‘tudo ou nada’, ‘all or nothing at all’ (como cantava o incomparável ‘ol’ blue eyes’). Já fui. Hoje acho que 1/3 é melhor do que 0; 2/3 melhor do que 1/3; e que 3/3 talvez seja o ideal. Mas ainda sou suficientemente protestante/presbiteriano/calvinista para confessar que não acho que a fé seja simplesmente uma decisão da vontade: quero acreditar, vou acreditar, acredito. Na doutrina bíblica (na interpretação calvinista) a fé é dom, é graça, não é uma realização intelectual e conativa minha. Bela discussão para o nosso www.theologia.com.br…“

Ozimar Pereira voltou a participar:

“Talvez precise estudar um pouco mais, mas há linhas no Cristianismo que dizem que não há fim. A morte é apenas uma passagem e a vida apenas um de muitos estágios. Fé é acredi
tar nisso e não esperar um ressurgimento do pó no dia do Juízo Final… Enfim…”

Respondi:

“Pelo que sei, há tendências no Cristianismo que acreditam que, na nossa morte, apenas o corpo morre, e a alma (dos salvos, naturalmente) vai direto para os céus, ter com Deus (algo assim). Acredito que essa tendência tenha surgido em contextos influenciados pela doutrina da imortalidade da alma. Se a alma é imortal, apenas o corpo morre. E a alma, quando morre o seu corpo, tem de ficar em algum lugar. Como os cristãos majoritariamente rejeitam a doutrina da transmigração de almas (reincarnação), inferiu-se que a alma dos salvos vai direto para o céu e a dos condenados direto para o inferno. Não encontro base bíblica clara para essa doutrina. Há várias referências que dizem que os que morreram estão "dormindo", mas isso não me parece base suficiente. Por outro lado, há passagens no Velho e no Novo Testamento que sugerem que somos pó e (quando morrermos) voltaremos a ser pó (sem fazer salvaguarda alguma para a alma). Os Testemunhas de Jeová, se bem me lembro, batem firme nessa tecla.”

Enfim. Discussão interessante.

Em São Paulo, 31 de Maio de 2010

Epistemologia da fé – 1

Hoje, enquanto ia até Salto (105 km daqui), ouvi um debate longo na CBN sobre a fé. Foi no programa Caminhos Alternativos, e o título foi: “Os caminhos da fé: uma força que move a vida”.

(Vide http://cbn.globoradio.globo.com/programas/caminhos-alternativos/2010/05/29/OS-CAMINHOS-DA-FE-UMA-FORCA-QUE-MOVE-A-VIDA.htm).

Participaram do debate um budista, um professor de física da UNICAMP e um filósofo (Luís Felipe Pondé, da PUC-SP e colunista da Folha). Em gravação participou o Heródoto Barbeiro.

Muita besteira foi dita, inclusive pelo Heródoto – embora o Pondé e o físico da UNICAMP de vez em quando dissessem algo que valia a pena ouvir.

Dou o título “Epistemologia da fé” a este post porque esta é a questão que não foi realmente discutida pelos debatedores – e que, a meu ver, deveria ter sido.

O que é a fé?

Em particular:

É a fé um modo de descobrir ou desvelar insights que não somos capazes de descobrir pela experiência e pela razão (i.e., pela ciência e pela filosofia)? Uma espécie de intuição sobre assuntos transcendentes? A fé seria, neste caso, sinônimo de revelação? Ou seja, ela opera no chamado “contexto da descoberta”.

Ou:

É a fé um modo de validar epistemicamente crenças que a experiência e a razão (i.e., a ciência e a filosofia) não conseguem validar? Uma espécie de método transcientífico que justifica nossa crença em enunciados que a ciência e a filosofia não são capazes de validar? Ou seja, a fé opera no chamado “contexto da justificação ou validação”.

Ou, ainda:

É a fé uma defesa da não-necessidade de justificar a crença em determinados enunciados porque eles exigem de nós um “salto no escuro”, um “mergulho na irracionalidade”? Como dizia Tertualiano, um dos Pais da Igreja, “credo quia absurdum”, creio exatamente porque é absurdo (vale dizer, incrível). Em outras palavras: se aquilo em que se crê fosse justificado epistemicamente, a fé seria desnecessária. Ela só se torna justificável, enquanto fé, quanto seu objeto é absurdo (ou “loucura”, como preferiu Paulo, o apóstolo).

Ou, ainda:

É a fé um fazer de conta no plano da ação, não da tanto da crença, um viver “as if” (“como se”): a decisão de viver como se a vida tenha sentido, como se o bem e a justiça valham a pena, como se a honestidade compense (e o crime não), etc.

Ou, ainda:

É a fé confiança pessoal, um relacionamento pessoal baseado em confiança (trust) com outra pessoa? Algo equivalente ao fato de que eu confio em determinadas pessoas, me dou a elas, passo a depender delas, mesmo sem ter evidência suficiente de sua confiabilidade. (A gente se casa com quem mal conhece, toma aviões dirigidos por pessoas que desconhecemos, acreditamos que os mecânicos fizeram a manutenção correta nos aviões, acreditamos que as empresas vão nos entregar os produtos que compramos pela Internet, etc.).

Ou, por fim:

É a fé confiança em si próprio e aceitação de si mesmo (mais ou menos a tese do Heródoto)?

A maioria dos participantes pareceu-me não acreditar que a fé se esgote na crença de que um Deus (parecido com o Deus cristão descrito na Bíblia) existe. Todos eles (inclusive o budista) pareceram estar interessados em defender um tipo de fé que transcenda a questão religiosa e não se esgote na questão de Deus (ou até mesmo não a envolva). (A questão de Jesus e da redençaão nem chegou a ser discutida, talvez em respeito à presença do budista…)

No fim, todos pareceram ser a favor da fé, todos se declararam pessoas de fé (em algum sentido do termo). O físico da UNICAMP foi o único a sugerir, em alguns momentos, que a fé não é necessariamente uma coisa boa – nem mesmo quando entendida como confiança em si e aceitação de si. (Se eu sou um crápula ou um criminoso, a situação parece ficar pior se eu acreditar em mim mesmo e me aceitar como sou…) 

O debate só ficou interessante quando a apresentadora relatou algo dito por uma atriz, solicitando que os debatedores comentassem. O que a atriz disse foi algo mais ou menos assim: “Eu quero crer, rezo toda noite para crer, para que eu venha a ter, ou receba, fé, mas… “

Isso gerou uma discussão interessante sobre a seguinte questão: a fé é algo que cada um de nós decide ter ou não ter, voluntariamente? É um ato de decisão pessoal? Se é, por que tantas pessoas aparentemente querem crer, querem ter fé, e não conseguem? Se não é, porque tantos cristãos condenam tantas pessoas por não terem fé?

É doutrina da Reforma Protestante que a fé não é uma realização humana, mas, sim, um dom divino (uma graça). Nesse caso, os incréus não poderiam ser responsabilizados por sua descrença, nem os crentes pela sua fé. A estes Deus teria graciosamente dado a fé, àqueles ele a teria negado. Essa doutrina desemboca na predestinação.

Protestantes mais “soft” introduziram uma inovação: Deus daria a fé a alguns, mas não graciosamente: os recipientes precisariam primeiro crer que isso era possível e desejar que isso fosse feito. Essa inovação é complicada: além de sugerir que Deus dá a fé apenas a quem já de alguma forma crê, ela parece fazer da própria fé uma obra, negando a doutrina da justificação sola gratia.

Enfim, coisa complicada.

Em São Paulo, 29 de Maio de 2010

 

 

Bibliotecas Escolares

Foi aprovada recentemente pelo Congresso Nacional uma lei que me parece anacrônica já no nascimento. Ela obriga todas as escolas brasileiras a, dentro dos próximos dez anos, terem uma Biblioteca Escolar. Cada biblioteca deverá ter no mínimo um título diferente por aluno matriculado.

As Associações de Bibliotecárias já estão assanhadas (provavelmente a lei foi aprovada por pressão delas). Vão exigir (se é que a lei já não contempla) que cada uma dessas bibliotecas tenha uma bibliotecária formada. Já imaginou quanto emprego para bibliotecária? Já imaginou a demanda sobre os cursos de Biblioteconomia que, sob pressão dos meios digitais de informação e comunicação estavam à míngua?

Enfim, uma medida de interesse corporativista (i.e., da corporação das bibliotecárias) aprovada por um governo corporativista (i.e.,dos sindicalistas).

Se o governo eliminar os impostos das empresas que fornecem conexão à Internet em banda larga, as escolas terão acesso decente à Internet em pouquíssimo tempo e, com isso, terão acesso a livros eletrônicos. Sem esperar dez anos. Nesse caso, as bibliotecas serão desnecessárias.

Numa hora em que os livros estão todos se tornando (também) eletrônicos e o acesso à Internet universal, por que não comprar livros didáticos eletrônicos para as escolas (a um preço BEM mais barato), em vez de livros descartáveis em papel, e investir a economia em netbooks para os alunos?

Daqui a dez anos, se a lei for cumprida, todas as escolas brasileiras terão uma biblioteca física construída, livros materiais nas estantes da biblioteca, uma bibliotecária vigiando os livros – e todo mundo estará usando netbooks conecatados à Internet através de redes wireless.

Em São Paulo, 29 de Maio de 2010

Chácara Klabin

Considero a Chácara Klabin o melhor bairro da Vila Mariana. E não é apenas porque moro ali. Há razões objetivas para a minha preferência.

O local em que hoje está a Chácara Klabin já foi a maior favela da cidade: a Favela do Vergueiro. Essa favela abrigava, no início dos anos 70, 1.171 barracos e cerca de 5 mil pessoas, segundo contagem da época. Foi o Maluf quem removeu a favela e devolveu o terreno aos Klabin, que lotearam a “chácara”. Mais uma razão para eu ser grato ao Maluf: não fosse ele, não haveria esse lindo bairro e eu não moraria aqui…

Vejam a história em um dos sites do bairro, onde é possível ver também fotos do bairro – mais antigas e atuais: http://www.chacaraklabin.com.br 

No dia do aniversário da Paloma (15/5) tomamos café da manhã mais ou menos ao meio dia na Klabin Empório dos Pães, aqui pertinho de casa (já era perto – depois que mudamos, ficou a dois  quarteirões pequenos de casa). Padaria fina é outra coisa. Já colocavam o bufê do almoço. Fiz questão de contar: 45 pratos frios salgados, 15 pratos quentes (inclusive feijoada), e dez pratos de sobremesa. Excelente wine store do lado do restaurante (e boa adega para quem quiser almoçar tomando vinho). Música ao vivo: um magnífico saxofone. Estacionamento com manobristas. Banca de revistas na porta para quem preferir almoçar sozinho, lendo o jornal…

Vejam o site da padaria, isto é, do empório… http://www.klabin.emporiodospaes.com.br

Café da manhã no Empório — algo que seria inimaginável quando eu era criança. Então se compravam apenas enlatados e feijão, arroz e farinha a granel no empório. Hoje se compram não sei quantas variedades de pão, e vinhos, e queijos, e salgadinhos…

Mas a Chácara Klabin não se destaca apenas pelo Klabin Empório dos Pães. É um bairro que tem várias coisas finas… No tocante a padarias, também há a excelente Padaria Iracema, na Avenida Prefeito Fábio Prado, a via mais importante do bairro (mais perto do apartamento antigo). Ou coffee shops, como a Nice Cup (ou, para quem gosta, o Franz Café). Ou wine stores como La Ville du Vin. Ou casas de chocolate como a Kopenhagen. Ou pizzarias como A Villa da Pizza. Ou restaurantes que servem comidas típicas de vários países ou regiões (como o Nordeste): o Mascarino. Ali se serve carne seca desfiada com aipim, ambos aquecidos na pedra, ao som de MPB ao vivo… No bairro há várias Escolas de Educação Infantil, Escolas de Natação, Academias de Ginástica… Há também vários cabeleireiros e manicures (como a Dondoca – mas há outras, menos cor-de-rosa). Ou lavanderias como Cinq à Sec. Também há três farmácias, várias imobiliárias (inclusive a Klabin Residence, através da qual descobrimos o nosso apartamento), lojas de móveis, lojas de decoração, floristas, um posto de gasolina bem no meio do bairro (na Fábio Prado), video locadoras, bancas de jornais (pelo menos três muito boas)… E bancos: naturalmente: o Itaú e o Bradesco. Temos também um Extra, um Pão de Açúcar e um Leroy Merlin e uma churrascaria a menos de cinco minutos (a pé) de casa. A concessionária Citroën onde a Paloma comprou a Picasso dela também fica a cinco minutos. E há, também, para quem precisa, vários motéis na Ricardo Jafet. Num raio de cerca de 4 km, mais um hipermercado (Eldorado) e dois shoppings: o Plaza Sul e o Santa Cruz.

E o bairro é servido por duas estações de metrô da prestigiada Linha Verde (que nos liga à Paulista e à Vila Madalena): a Chácara Klabin e a Santos / Imigrantes.

Em São Paulo, 29 de Maio de 2010

A Linha Amarela do metrô paulistano

Trabalho com tecnologia há 30 anos, desde 1980. Há coisas que a gente sabe com a cabeça – mas não sabe com o coração e o resto do corpo…

Uma delas é que um trem pode andar sozinho, controlado por computadores, sem condutores a bordo. E ir direitinho ao seu destino, parando nas estações no lugar certo, diminuindo a velocidade em curvas, e recebendo comunicação dos sensores que o fazem andar tão bem quanto se estivessem sendo conduzidos por um ser humano.

Quando morei ao lado de San Francisco, na California, em 1972-1973, foi inaugurado o Bay Area Rapid Transit System – BART, que já naquela época era para andar sem condutores. Um acidente na fase de testes – o trem parou depois da estação – fez com que um condutor fosse sempre colocado em cada trem, para prevenir emergências e impedir desastres. Agora, quase quarenta anos depois, a novidade chega a São Paulo, na Linha Amarela do metrô paulistano (que, com o pequeno trecho de 3 km inaugurado na semana passada passa a ter mais de 60 km – longe dos 400 e tantos km do metrô de Londres, mas já uma grande realização para o Brasil.

Hoje tive de ir à United, na Av Paulista 777, e resolvi, depois, ir conhecer a Linha Amarela do metrô, que está funcionando, em caráter de teste, entre as estações Paulistas e Faria Lima, num trecho de 3 km e um pouquinho. (Quando pronta, a Linha Amarela terá as seguintes estações: Luz, República, Higienópolis / Mackenzie, Paulista, Oscar Freire, Fradique Coutinho, Faria Lima, Pinheiros, Butantã, São Paulo / Morumbi,(a casa do SPFC) e Vila Sônia).

Foi emocionante. As viagens são gratuitas, no momento. O trem estava cheio de curiosos. O que mais chamava a atenção de todos era o fato de os trens correrem sem condutor. O primeiro vagão, com duas janelas laterais nos locais onde normalmente estaria o condutor, permite uma visão privilegiada do túnel. É uma experiência emocionante ficar ali. Na ida para a Faria Lima não me dei conta de que era possível ver o trem andando, sozinho, pelo subterrâneo da cidade. Mas na volta, me ajeitei, feito criança, para ficar bem no local mais privilegiado de todos. Incrível a experiência. O trem sai, acelera, reduz a velocidade quando passa nas obras das estações intermediárias e nas curvas mais fechadas, e, ao chegar na estação final, destino, reduz a velocidade e para absolutamente certo no local esperado. Abre as portas de dentro, depois as de fora, e pronto: estamos lá. Numa estação com ar condicionado.

Na ida, ouvia uma senhora, pobre e desdentada (só tinha um dente na boca) falar para um senhor: “Não deveriam gastar dinheiro com esse luxo. Imagine só quantas casas para os pobres que não têm casa eles poderiam construir com esse dinheiro”. Uma outra senhora, também com cara de pobre, imediatamente retrucou. “Não diga bobagem. Isso aqui também é para pobre. Sem isso, eu só conseguia vir para essa parte da cidade andando espremida feito sardinha em lata numa lotação. O Serra está aplicando muito bem o nosso dinheiro, fazendo essas coisas. Olhe só que beleza é andar num trem assim…”. Aparentemente ela convenceu a (mais) velha. Pois esta disse: “Então vamos andar pelo trem, porque neste dá para passar de um vagão para o outro por dentro do trem”. E lá foram as duas, alegres, serelepes… E eu, observando e pensando que iria escrever sobre isso.

A Estação Paulista da Linha Amarela fica, na realidade, na Rua da Consolação – e a Estação Consolação da Linha Verde fica na Av. Paulista… Para ligar as duas estações há um túnel com três esteiras rolantes e um caminho para quem não quer usar as esteiras. Tudo muito bonito, claro, limpo. A Estação Faria Lima fica no cruzamento da Avenida Brigadeiro Faria Lima com a Rua Cardeal Arcoverde e a Rua Theodoro Sampaio, ali cerca de 1 km do comecinho da Faria Lima, ao lado do Largo da Batata (que está sendo totalmente renovado). Para ir do meu apartamento (pego a Linha Verde na Estação Santos / Imigrantes) até à Fundação Telefónica (que fica na Avenida Faria Lima, 1.188), agora é um pulinho… Para a Paloma participar de reuniões no CENPEC, ou para eu ir visitar o Instituto Ayrton Senna ou a Criax, ficou fácil também – mais ainda quando abrir a Estação Fradique Coutinho. E ficou fácil ir até à Fnac da Pedroso de Morais (858) – o antigo Shopping Cultural Ática. (A Ática está hoje absorvida pela Abril Cultural, onde minha amiga Ana Teresa Ralston é Diretora de Tecnologia Educacional e Formação de Professores).

Na Estação Faria Lima há uma bela exposição fotográfica das realizações do Brigadeiro Faria Lima, que foi Secretário de Obras do Jânio e do Carvalho Pinto, Presidente do BNDE na gestão de Jânio na Presidência e, segundo consta, foi informado em 1969 de que seria o candidato do Governo Militar à Presidência da República (no lugar que veio a ser ocupado pelo Médici) quando teve um enfarte e morreu – no mesmo dia em que recebeu a notícia. 

É isso. Parabéns ao governo Serra por ter levado adiante a construção do metrô, em especial nas linhas Verde e Amarela, que me interessam mais de perto – e que são o símbolo desse nosso país carente de gente competente e honesta.

Em São Paulo, 28 de Maio de 2010

A mídia brasileira e a história do Chapeuzinho

Em geral não acho graça em histórias distribuídas pela Internet, mas esta é muito interessante, porque quem a escreveu realmente captou a essência dos diversos jornais e programas de televisão brasileiros.

O texto tem sido distribuído pela Internet (e-mail) sem indicação do autor. Se alguém souber onde isso se originou, por favor, me comunique (edu@chaves.im).

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AS VÁRIAS FORMAS DE SE DAR UMA NOTÍCIA!

Se história da Chapeuzinho Vermelho fosse verdade, como ela seria contada na imprensa no Brasil?

Veja as diferentes maneiras de contar a mesma história.

Jornal Nacional:
(William Bonner): ‘Boa noite.  Uma menina chegou a ser devorada por lobo na noite de ontem….’
(Fátima Bernardes): ‘…mas a atuação de um lenhador evitou a tragédia.’

Programa da Hebe
‘…que gracinha, gente! Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?’

Cidade Alerta
(Datena): ‘…onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia pra casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva… um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não!

Superpop
(Luciana Gimenez): ‘Geeente! Eu tô aqui com a ex-mulher do lenhador e ela diz que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão aos filhos há mais de um ano. Abafa o caso!’

Globo Repórter
(Chamada do programa): ‘Tara? Fetiche? Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente? O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do Lobo, em busca da resposta. E uma revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo. Hoje, no Globo Repórter.’

Discovery Channel
Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.

Revista Veja
Lula sabia das intenções do Lobo.

Revista Cláudia
Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho.

Revista Nova
Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama!

Revista Isto É
Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

Revista Playboy
(Ensaio fotográfico do mês seguinte): ‘ Veja o que só o lobo viu’.

Revista Vip
As 100 mais sexies – desvendamos a adolescente mais gostosa do Brasil!

Revista G Magazine
(Ensaio com o lenhador) ‘O lenhador mostra o machado’.

Revista Caras
(Ensaio fotográfico com a Chapeuzinho na semana seguinte): Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: ‘Até ser devorada, eu não dava valor pra muitas coisas na vida. Hoje, sou outra pessoa.’

Revista Superinteressante
Lobo Mau: mito ou verdade?

Revista Tititi
Lenhador e Chapeuzinho flagrados em clima romântico em jantar no Rio.

Folha de São Paulo
Legenda da foto: ‘Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador’. Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.

O Estado de São Paulo
Lobo que devorou menina seria filiado ao PT.

O Globo
Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT, que matou um lobo para salvar menor de idade carente.

O Dia
Lenhador desempregado tem dia de herói

Extra
Promoção do mês: junte 20 selos mais 19,90 e troque por uma capa vermelha igual a da Chapeuzinho!

Meia hora
Lenhador passou o rodo e mandou lobo pedófilo pro saco!

Agora
Sangue e tragédia na casa da vovó.

Correio da Bahia e TV Bahia
Menina usando um chapeuzinho vermelho é atacada por um lobo e fica na mão – não consegue atendimento em nenhum hospital do Estado. Governador não se manifesta.

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Em São Paulo, 27 de Maio de 2010

Infidelidade na Internet

Assunto interessante e bem tratado. Já discuti essa questão aqui neste Space.

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Folha de S. Paulo
25 de Maio de 2010

Seção “Coisas Loucas”

Marion Minerbo

Infidelidade na internet


Relações virtuais são desconcertantes porque dissolvem as fronteiras entre fantasia e realidade


OS SITES DE RELACIONAMENTO, por serem um espaço de sociabilidade híbrido, ao mesmo tempo real e virtual, podem deixar as pessoas desconcertadas com relação a quem são, onde estão e fazendo o quê. O sexo virtual exemplifica bem essa ambiguidade. Enquanto a mulher dorme, o marido passa a noite em um programa de chat com câmera na internet.

Na tela, uma mulher tira a roupa e lhe diz coisas sensuais. Ela vive em outro país. Ambos se masturbam enquanto olham para seus computadores. O homem traiu sua mulher? Cada um terá uma opinião, dependendo de seus valores e de como avalia a situação.

A mulher pode sentir que foi traída, porque o marido desejou outra e gozou com essa outra. E pode sentir que não o foi, porque a relação é virtual e eles nunca se encontraram.

Pode entender que a imagem da tela foi usada, como revista masculina, para inspirar fantasias eróticas. Por outro lado, não pode negar que essa imagem interagiu, contribuindo para tornar a fantasia mais real.

Ou seja, apesar de virtual, a mulher na tela é bem real. Ao mesmo tempo, a mulher sabe que a rival virtual é fruto da imaginação do marido; se ele a conhecesse na realidade, dificilmente ela corresponderia por muito tempo à figura idealizada criada pelo homem.

As relações virtuais podem ser desconcertantes porque embaralham e dissolvem as fronteiras -que imaginávamos perfeitamente nítidas- entre fantasia e realidade. Se a mulher acusar o marido de tê-la traído, terá razão. E, se ele lhe responder que aquela mulher não existe, também terá razão. A realidade psíquica tem mais força de convicção do que a realidade material.

Em geral, temos mais medo dos fantasmas que criamos do que de perigos reais. As relações virtuais denunciam, por levar ao extremo, quanto de fantasia permeia aquilo que pensávamos ser pura realidade. Principalmente o sexo.

Um homem pode não desejar a mulher maravilhosa com quem está se não puder criá-la, em alguma medida, a partir de sua fantasia.

E pode desejar ardentemente a mulher virtual na qual jamais tocará justamente porque não pode tê-la na realidade. Em casos extremos, a paixão virtual pode se prolongar por anos e não haverá mulher real capaz de competir com sua fantasia.

Marion Minerbo
marion.minerbo@terra.com.br

Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Neurose e Não-Neurose" (ed. Casa do Psicólogo)

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Em São Paulo, 25 de Maio de 2010

Ensino Superior

Todo mundo precisa fazer Curso Superior?

Evidentemente, não.

É possível ser bem sucedido e realizado na vida sem ter um diploma de Curso Superior.

Todo mundo pode fazer Curso Superior?

Possivelmente, também não.

Muita gente não tem a inteligência, a determinação, a paciência para estudar e ser aprovado em um Curso Superior.

Todo mundo deve fazer Curso Superior?

Claramente, não. Os que não podem fazer Curso Superior, claramente não devem fazê-lo. Se tentarem, ou irão fracassar, ou o curso terá de ter padrões muito baixos para não reprovar ninguém.

Em países com sistemas educacionais sérios e bem conceituados, como é o caso da Alemanha, muita gente que até poderia fazer um Curso Superior, não o faz, porque não tem inclinação para continuar estudando ou porque prefere exercer uma profissão de nível técnico.

 

Os Estados Unidos e a Coréia do Sul em que uma considerável parcela da população tem diploma de Curso Superior conseguiram essa façanha porque, no caso dos Estados Unidos, inventaram Community Colleges ou Junior que oferecem cursos e graus em Cosmetologia, Arranjos Florais, A Arte de Andar, etc. No caso da Coréia do Sul, o avanço se deu através de cursos superiores de curta duração – em geral na área técnica (mais ou menos equivalente aos nossos Cursos Tecnológicos ou Cursos Superiores de Tecnologia).

O artigo transcrito adiante mostram que, muitas vezes há mais aprendizado, sem faculdade. Não ir à universidade ou faculdade pode ser uma decisão inteligente. Aprender no local de trabalho pode trazer vantagens.

Vale a pena ler o artigo. O assunto deveria ser levado mais a sério pelas autoridades educacionais do nosso país, pelas escolas, e pela mídia, numa tentativa de mudar a cultura diplomística e bacharelesca brasileira.

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The New York Times

Traduzido pela Folha de S. Paulo
24 de Maio de 2010

Mais aprendizado, sem faculdade

Nem todo o mundo vai à universidade, e isso pode ser uma decisão inteligente

Aprender no local de trabalho pode trazer vantagens

Um crescente número de educadores e economistas defende que haja alternativas profissionais para alunos que dificilmente terão sucesso na obtenção de um diploma de nível superior

Por JACQUES STEINBERG

Qual é a chave do sucesso?

Se não for virar astro de reality show, a resposta é rotineira e, dizem alguns, bastante inconsciente: se formar na faculdade.

A ideia de que quatro anos de ensino superior irão se traduzir em emprego melhor, salário mais alto e uma vida mais feliz tem sido martelada na cabeça de alunos, pais e educadores no mundo todo. Mas há outro lado nessa sabedoria convencional. Dos alunos que entraram na graduação de quatro anos nos EUA no segundo semestre de 2006, talvez menos da metade se forme no prazo de seis anos, segundo as últimas projeções do Departamento de Educação do país.

Para os alunos de ensino superior que estiveram na pior quarta parte das suas classes no ensino médio, os números são ainda mais duros: 80% provavelmente jamais vão conseguir o diploma de bacharel, e nem mesmo a graduação básica de dois anos.

Ou seja: muita mensalidade, sem um diploma para mostrar ao final.

Um pequeno e influente grupo de economistas e educadores está propondo outro caminho: para alguns alunos, nada de faculdade. É hora, dizem eles, de desenvolver alternativas críveis para alunos que dificilmente terão sucesso na obtenção de uma graduação, ou que podem não estar preparados para isso.
Entre os que defendem tal alternativa estão os economistas Richard Vedder, da Universidade de Ohio, Robert Lerman, da Universidade Americana, e James Rosenbaum, professor de educação da Universidade Northwestern, de Illinois. Eles gostariam de direcionar alguns alunos para um ensino técnico profissionalizante intensivo, curto, por meio de programas ampliados no ensino médio e de vagas para aprendizes em empresas.

Embora nenhum país tenha um modelo perfeito para esses programas, Lerman citou um estudo sobre a Alemanha, feito no ano passado por uma estagiária daquele país. Ela concluiu que 40% dos aprovados no Abitur, vestibular que permite a alguns alemães frequentar a faculdade quase sem custos, preferiam virar aprendizes nas áreas de comércio, contabilidade, gestão de vendas e informática.

"Algumas pessoas que saem dessas aprendizagens têm mais oferta [de emprego] do que os graduados em faculdades", disse ele, "porque elas realmente já cuidaram das coisas no local de trabalho".

Grande parte do treinamento para certos empregos, como o de auxiliar de enfermagem, é viável fora do ambiente universitário, disse Vedder. "É verdade que precisamos de mais nanocirurgiões do que 15 anos atrás. Mas os números ainda são relativamente pequenos em comparação ao número de auxiliares de enfermagem que iremos precisar. Precisaremos de centenas de milhares deles na próxima década."

Das 30 profissões que mais devem crescer ao longo da próxima década nos Estados Unidos, apenas 7 costumam exigir bacharelado, de acordo com o Departamento de Estatísticas do Trabalho.

Entre as 10 categorias que mais crescem, 2 exigem diploma de graduação: contabilidade (um bacharelado) e magistério superior (um doutorado). Mas esse crescimento deve ser ofuscado pela necessidade de assistentes domésticos de saúde, representantes de serviços para o cliente e balconistas de loja. Nenhum desses empregos exige diploma de graduação.

Vedder gosta de perguntar por que 15% dos carteiros têm bacharelado. "Alguns poderiam ter comprado uma casa com o que gastaram na sua educação", afirmou.
Lerman, o economista da Universidade Americana, em Washington, disse que alguns recém-formados do ensino médio estariam mais bem servidos se aprendessem como se comportar e se comunicar no local de trabalho.

Tais habilidades estão entre as mais desejadas -antes mesmo da escolaridade- em muitas pesquisas com empregadores.

Em uma delas, em 2008, com mais de 2.000 empresas no Estado de Washington, as principais deficiências apontadas nos recém-contratados eram em "resolver problemas e tomar decisões", "resolver conflitos e negociar", "cooperar" e "ouvir ativamente".

Apesar dessa necessidade, os cursos técnicos têm sido uma vítima na busca por padrões nacionais de educação nos EUA, que focam a preparação dos alunos para a faculdade.

Enquanto alguns educadores propõem uma renovação radical no sistema de faculdades comunitárias, para que elas ensinem a preparação para o trabalho, Lerman defende um significativo investimento por parte de governo e empregadores para o treinamento de aprendizes no local de trabalho.

Ele falou com admiração, por exemplo, de um programa da rede de drogarias CVS, em que aspirantes a assistentes de farmácia trabalham como aprendizes em centenas de lojas. De lá muitos vão à faculdade e se tornam farmacêuticos propriamente ditos.

"O campo da saúde é obviamente um caso em que a situação da mão de obra é aquém da ideal", disse ele. "Eu tentaria trabalhar com alguns grandes empregadores para desenvolver esse tipo de programa, para oferecer um domínio sobre empregos que de fato exigem alto conhecimento."

Mas, ao aconselhar alguns estudantes a serem direcionados para fora das faculdades de quatro anos, acadêmicos como Lerman podem ser acusados de rebaixar as expectativas desses alunos.

Alguns críticos vão além, sugerindo que a abordagem equivale a uma discriminação educacional, já que muitos dos alunos que abandonam a faculdade são negros ou hispânicos não brancos.

Peggy Williams, orientadora numa escola de um subúrbio de Nova York cujos alunos são majoritariamente negros e hispânicos, entende o argumento em prol de estimular a ida à faculdade.

"Se estamos dizendo à garotada: ‘Vocês nunca vão chegar lá, vocês nem deveriam ir para a faculdade ou a universidade’, então nós estamos privando-os de experimentar um ambiente em que poderiam crescer."

O economista Morton Schapiro, reitor da Universidade Northwestern, chamou a atenção para os benefícios intangíveis da experiência da faculdade mesmo para aqueles que não venham a aplicar o que aprenderam diretamente no trabalho que escolherem.

"Não se trata só de retorno econômico", disse. "Ir à faculdade, concluindo ou não, contribui com a apreciação estética, a melhor saúde e o melhor comportamento eleitoral."

Mesmo quem passa poucos anos na faculdade ganha mais, em média, e tem menos risco de desemprego do que aqueles que apenas concluíram o ensino médio, disse Schapiro. "Você tem algum retorno mesmo se não apanhar o canudo."

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Em São Paulo, 24 de Maio de 2010
(Primeiro post escrito no apartamentop novo)

Está certo: Elas são o sexo forte

Está certo o Drauzio Varella. Elas são o sexo forte. Começam a falar mais cedo, constróem sentenças gramaticalmente mais cedo, (falam mais, poderia acrescentar), ficam gente grande mais cedo, casam-se mais cedo, e, ao final, morrem mais tarde. Ou seja, tem vários anos em que ficam sozinhas para contar a versão delas da história. Conta melhor a história quem a conta por último.

Adiante, o artigo do Drauzio.

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Folha de S. Paulo
22 de Maio de 2010

DRAUZIO VARELLA

O sexo frágil

Aos dois anos, as meninas já constroem sentenças com sujeito, verbo e predicado

FICO ADMIRADO com a onipotência masculina.

Quando pequenos nos ensinaram que homem não chora, que Deus nos criou corajosos com a finalidade de protegermos as mulheres, coitadas, seres frágeis prestes a esvair-se em lágrimas à menor comoção. Como sobreviveriam elas não fosse a nossa existência?

Por acreditar cegamente nesses ensinamentos, assumimos o papel de legítimos representantes do sexo forte, mesmo que as evidências nos desmintam desde a mais tenra infância.

Não é exagero, leitor. As meninas começam a falar muito antes. Aos dois anos já constroem sentenças com sujeito, verbo e predicado, enquanto nessa idade mal conseguimos balbuciar meia dúzia de palavras que só a mamãe compreende.

Você dirá que somos mais ágeis e mais orientados espacialmente. E daí? Qual a vantagem de virar cambalhota e plantar bananeira?

O desenvolvimento intelectual delas é tão mais precoce que alguns neuropediatras consideram injusto colocar meninos e meninas de sete anos na mesma sala de aula: deveríamos ficar um ano para trás.

Na puberdade, elas viram mocinhas de formas e gestos graciosos. Nós nos transformamos em quimeras desengonçadas, metade criança, metade homem com penugem no bigode, espinhas em vez de barba, voz em falsete e loucura por futebol.

Não é a toa que as adolescentes suspiram pelos rapazes mais velhos e nem se dignam a olhar para nossa cara quando nos derretemos diante delas.

No casamento, somos feitos de gato e sapato. Podemos estar cobertos de razão, gritar, espernear e esbravejar – no fim a vontade delas prevalecerá. É guerra perdida. São donas de uma arma irresistível: a tenacidade para repetir cem vezes a mesma ladainha. Com o passar dos anos, aprendemos a fazer logo o que elas querem; sai mais em conta. Nós nos cansamos e desistimos de reivindicar um direito, elas jamais.

Faça um teste. Combine com um amigo um jantar com as mulheres sem falar com elas. A chance de dar certo é zero. Agora inverta, as duas mulheres marcam uma noite para o tal jantar sem avisá-los. Você chega em casa louco para vestir o bermudão e ver seu time na TV. Qual a probabilidade de a televisão passar a noite desligada?

Você dirá que pelo menos somos mais saudáveis, enquanto elas vivem cheias de achaques. De fato, nas mulheres a cabeça dói, o útero incomoda e o intestino não funciona, mas as desvantagens acabam aí.

Durante o desenvolvimento embrionário, para construirmos ossos mais robustos e músculos mais potentes, desviamos parte da energia que seria utilizada para fortalecer o sistema imunológico. Por essa razão, em todas as sociedades o homem está mais sujeito a processos infecciosos graves.

No Brasil, arcamos com mais de 60% da mortalidade geral. A cada três pessoas que perdem a vida, duas são do sexo masculino.

Os ataques cardíacos vêm em primeiro lugar. Começamos a correr risco a partir dos 45 anos; as mulheres, só ao atingir a menopausa. Depois vêm os derrames cerebrais, seguidos pelos homicídios. Essa distribuição se repete em todas as regiões do país.

Fumamos e bebemos muito mais. Perto de 90% dos óbitos por acidentes de trânsito, quedas e afogamentos causados pelo abuso de álcool ocorrem entre nós.

Somos mais sedentários e desleixados com a saúde. Tratamos o corpo a pontapé e fugimos dos exames preventivos como o diabo da cruz. Ir ao médico? Só quando chegarmos às últimas ou se for para ficarmos livres da insistência das mulheres que nos cercam.

Em condições sociais comparáveis, mulheres vivem mais do que homens em todos os países do mundo. No Brasil, nossas vidas duram, em média, 7,6 anos menos. A longevidade feminina é visível: compare o número de viúvas com o de viúvos que você conhece.

Ao perder a companheira, o homem de idade fica desamparado. Se não casar imediatamente, ou não tiver filhas ou irmãs por perto, estará perdido, é incapaz de pregar um botão ou de fritar um ovo. Na situação contrária, a mulher poderá sofrer, sentir falta, mas cuidará da rotina doméstica sem dificuldade.

Morreremos mais cedo e deixaremos nossas economias. Livres da repressão machista e do trabalho que lhes dávamos, elas terão 7,6 anos para fazer excursões turísticas e lotar vans para ir a shoppings e teatros, animadas e conversadeiras. Para muitas, não será fácil esconder o ar de felicidade plena.

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Transcrito em São Paulo, 22 de Maio de  2010
(Último dia em nosso apartamento atual: terminamos de mudar hoje à tarde)