Dois fatos importantes sobre o ser humano

Os antigos já sabiam duas coisas importantes sobre o ser humano. A primeira é que somos mortais (Eis o silogismo clássico: “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”; a segunda, que somos falíveis (“errare humanum est”).

Esses dois fatos estão correlacionados…

Já escrevi aqui defendendo a tese de que é a morte – isto é, o fato de que somos mortais, e, portanto, teremos um fim – que dá sentido à vida. Se fôssemos imortais, nossas escolhas não seriam tão importantes. Por quê? Porque, quando errássemos, o que fatalmente aconteceria se somos também falíveis, teríamos toda a eternidade para voltar atrás, nos corrigir, e até errar de novo… Ou seja: nossa falibilidade não seria tão importante, se não fôssemos mortais…

Talvez porque sejamos mortais, e possamos, por conseguinte, até morrer em decorrência de um erro nosso (no volante, por exemplo), a nossa falibilidade se tornou um problema sério. Como não temos jeito de nos tornar infalíveis, procuramos encontrar infalibilidades em outros lugares: em Deus, nas Escrituras, nos pronunciamentos papais…

Mas há um problema sério aí. Quem decide que o Papa é infalível quando faz pronunciamentos ex cathedra sobre fé e prática? Somos nós, seres humanos, falíveis… Quem decide que a Bíblia é a palavra inerrante de Deus? Somos nós, seres humanos, falíveis… Quem decide que Deus existe e é infalível? Somos nós, seres humanos, falíveis. Ou seja: as decisões sobre quem ou o que é infalível não são infalíveis… Os protestantes acham que aqueles que decidiram que os pronunciamentos papais são infalíveis estavam simplesmente errados… Os católicos, por sua vez, acham que os protestantes, que acreditam que a Bíblia deve ser entendida literalmente como a Palavra de Deus, negligenciando o “sensus plenior” e a necessidade de interpretação do texto, e que a Bíblia, na interpretação literal, é inerrante, estão simplesmente errados… E assim vai…

Como é que seres humanos, reconhecidamente falíveis, podem ter tanta certeza de que encontraram a infalibilidade ou a inerrância em algum lugar? Como é que não admitem que, por serem admitidamente falíveis, podem estar errados na crença de que encontraram a infalibidade ou a inerrância em alguma pessoa ou em algum texto?

Por sermos mortais, desejamos a imortalidade; por sermos falíveis, desejamos a infalibilidade… Mas sendo falíveis, como é que podemos ter certeza de que somos imortais e identificamos corretamente fontes infalíveis de verdades?

Em São Paulo, 17 de Fevereiro de 2009

Que bom é viver frugalmente — quando isso se dá por escolha e não por necessidade…

Começo de noite, numa sexta-feira treze. São 20h30 — faltam três horas e meia para o fim oficial do dia. Espero que não haja mais tempo suficiente para acontecer uma daquelas desgraças em que os supersticiosos acreditam.

Estou sentado na varanda do meu apartamento, com os pés em cima de uma mesinha, admirando a vista da Chácara Klabin e, além da Ricardo Jafé, do Alto do Ipiranga. Perto dali está o Museu do Ipiranga –que fica no lugar em que foi proclamada a Independência do Brasil, no dia do meu nascimento, mas 121 anos antes. O riacho do Ipiranga, que passa lá, passa também quase do lado do nosso prédio. 

A temperatura caiu, faz um friozinho, e eu tomo vinho… Vamos jantar daqui a pouco: arroz parboilizado, carne moída, farofa… Um de meus pratos favoritos. Depois da meia noite vamos ao Extra, aqui pertinho, que fica aberto 24 horas por dia, para fazer a compra do mês. Afinal de contas, amanhã meus irmãos vêm jantar aqui amanhã. Embora pretendamos encomendar umas pizzas, é preciso ter pequenas coisas para mastigar e líqüidos gostosos para beber…

O vento fresco é gostoso… Acho lindo ver a cidade ir se acendendo aos poucos… As ruas, as janelas dos prédios. De vez em quando se ouve um carro ou uma moto que acelera, e, vez ou outra, ouvem-se foguetes. O lugar é residencial, silencioso. Os vizinhos, ciosos de sua privacidade. Moro aqui há mais de quatro meses, e não conheço os vizinhos — nem mesmo os três vizinhos de andar. Isso não me faz falta. Só fiquei sabendo que o porteiro é pastor evangélico de uma pequena comunidade da Assembléia de Deus em São Caetano do Sul. No prédio em frente ao meu mora uma conhecida, a Mila, que trabalha no CENPEC. Estivemos juntos em Brasília em Outubro último, num congresso da Interdidática. Por falar nisso, haverá um congresso da Interdidática aqui em São Paulo, em Abril, e daremos uma outra palestra (para quem não sabe, meus plurais não são majestáticos).

Sinto-me bem, feliz, em paz. Tenho muitos problemas a resolver em diversos departamentos da minha vida, tanto pessoais quanto profissionais. Mas estou bem, feliz e em paz comigo mesmo. O que mais pode alguém pedir?

Estou curtindo a noite, as luzes, o vento, o friozinho gostoso… Na cozinha, a carne descongela. Uma vez descongelada, em menos de meia hora faremos o jantar. Comeremos com calma, tranqüilos. Há três computadores abertos ao nosso redor — e mais dois desligados… Felizmente, não há ninguém para dizer que os fechemos, e que só pensamos em trabalho…

Em São Paulo, 13 de Fevereiro de 2009 – Sexta-feira treze

“A consciência por vezes é uma merda”

A frase que dá título a este artiguete me foi dita pelo Rubem Alves, em correspondência pessoal. Espero que ele me perdoe por citá-la, entre aspas, em público.

A consciência é, por vezes, isso aí que ele disse, porque ela não é racional, e, portanto, não reflete aquilo que racionalmente consideramos certo e errado: ela é, em grande medida, formada pela opinião dos outros, que procuram nos moldar e formar, assim condicionando e influenciando o que pensamos, o que valoramos, o que consideramos certo e errado… A consciência por vezes é uma merda porque uma vez gravado algum ditame em nossa consciência, não é fácil removê-lo de lá… Se alguém escreveu em nossa consciência, em algum momento, que, por exemplo, dizer palavrões é algo errado, que devemos a todo custo evitar dizê-los, que não devemos nem sequer chamar de bunda a parte de nosso corpo com que nos sentamos, vamos sempre sentir uma dorzinha na consciência ao dizer um palavrão – ainda que não seja realmente um palavrão, mas apenas, digamos, um palavrinho…

Certamente não basta que, com nosso pensamento racional, deixemos de acreditar que é errado aquilo de que nossa consciência nos acusa… Racionalmente, dizemo-nos que há horas em que apenas um enorme palavrão é a reação correta a algo de ruim ou absurdo que nos está acontecendo… Mas mesmo nessas circunstâncias a nossa consciência vai continuar, merdosamente, a nos acusar… Acho até que o Rubem Alves usou um palavrão (palavrinho?) na frase dele para desafiar a consciência de bom menino protestante que, mesmo em época que antecedia de muito a era do politicamente correto, aprendeu que o “certo” seria dizer “a consciência por vezes é um cocô…”. (Com toda a franqueza, acho esta última frase quase pornográfica de tão horrível…).

A consciência é nosso “super-ego”… Ela é formada pelos pais, pela comunidade, pela igreja, pela escola, pela mídia… Felizmente, essas diversas influências, muitas vezes, não agem na mesma direção. É terrível quando o fazem. Quando eu era criança, meus pais, a comunidade em que eu vivia, minha igreja, minha escola e a mídia pareciam estar todos de acordo que não era certo dizer palavrões. Bem… a comunidade de pares (os meninos que jogavam bola juntos no campinho) e o ambiente não-formal da escola, nem tanto… Nesses ambientes eu ouvia uma boa série de palavrões… Colegas de escola uma vez me chamaram (por causa de meu segundo nome) de Oscar Alho… Até de amigos da igreja com quem eu jogava bola eu ouvia palavrões… O Israel, crente que freqüentava a mesma igreja, um dia, quando jogávamos bola, e ele ia bater uma falta, me mandou ficar no cu da área… Minha consciência já era bem formada: eu ouvia esses palavrões e me sentia culpado – culpado de os haver ouvido, não de os haver dito, notem bem…

Quando criança, em regra eu me sentia culpado de ler um palavrão muito feio (que até hoje minha consciência não me permite escrever aqui) que estava pichado na parede de uma fábrica que ficava entre minha escola e minha casa… Eu tomava a firme resolução, ao sair de casa ou da escola, de que, ao passar pela fabrica, não iria olhar o palavrão… Mas meus olhos eram como que magneticamente atraídos por ele… Mesmo quando eu conseguia não olhar para ele, eu me lembrava de que ele estava lá e a palavra vinha à minha mente (a coisa eu nem tinha bem como imaginar ainda…). E eu, como acreditava então, pecava – e tinha de orar pedindo perdão a Deus por ter visto o palavrão – ou pensado nele, mesmo sem vê-lo… (Um dia, fui orar, enquanto andava, ao passar pelo palavrão na parede, de olhos fechados, como sempre, para que assim não o visse, e entrei com tudo num poste: Deus podia ter me protegido, em consideração ao esforço que eu estava fazendo para não ver o palavrão…). Por que é que, até hoje, mais de cinqüenta e cinco anos depois, eu consigo até dizer o palavrão, em determinados contextos, mas apenas no diminutivo, como se essa forma diminuísse o seu conteúdo pecaminoso, no qual eu não mais acredito? Por que eu consegui escrever cu, no parágrafo anterior, mas não consigo aqui dizer qual é o palavrão da parede da fábrica – mesmo que, racionalmente, eu há muito tempo tenha deixado de acreditar no fetiche das palavras, e, portanto, não mais acredite que seja moralmente errado dizer qualquer palavra (ainda que seja deselegante, e, portanto, desaconselhável dizer algumas delas em determinados contextos)??? A Adélia Prado, poetisa mineira que o Rubem Alves cita adiante, em texto que transcrevo, me ajudou a me livrar desse fetiche, quando escreveu um poema em que dizia “cu é lindo” – poema esse que foi usado numa escola católica, segundo consta, ligeiramente modificado: lá se dizia “céu é lindo”…).

Estou, porém, como dizia meu pai, rodeando o toco e levando um tempo enorme a preambular para chegar aonde eu quero… O assunto que eu quero discutir é casamento, separação, divórcio, adultério – e o papel que a religião tem na formação de nossa consciência sobre esses assuntos (que no fundo são apenas um) – consciência que, merdosamente, por vezes dá umas pontadas em relação a esses assuntos, mesmo quando a gente está racionalmente convencida de que não fez nada errado.

Começo citando um exemplo que me vem prontamente à mente. Na igreja que eu freqüentava quando criança, da qual o meu pai era pastor, havia um senhor nordestino, já prá lá da meia idade, que era um dos membros mais assíduos e dedicados. Como se isso não bastasse, ele era, do ponto de vista doutrinário defendido por meu pai, o pastor, inatacável. Meu pai não conseguia encontrar nele desvio doutrinário algum (coisa extremamente rara, pois ele via desvios doutrinários com grande facilidade, a torto e a direito: vivia escrevendo artigos contra os católicos romanos, os pentecostais, os glórias, os adventistas, os testemunhas de Jeová, os mórmons, até contra os batistas, os carismáticos e os avivados…). Apesar de pessoa simples (era pedreiro), esse senhor fazia umas das mais belas orações que me foi dado ouvir na minha infância e adolescência – belas no conteúdo e na forma. Não me esqueço delas até hoje. Mas ele tinha, na visão do meu pai, um problema sério… Havia sido casado, no Nordeste, antes de vir para São Paulo. Ninguém nunca soube o que exatamente se passou com esse casamento. O que se sabia é que, já separado, ou ainda não, ele veio tentar a vida em São Paulo. Veio e ficou. Um dia, lá atrás, uns vinte anos antes, encontrou uma outra mulher, apaixonou-se e passou a viver com ela (algo de resto bastante comum). Tiveram filhos: muitos. Eles viviam uma vida normal de casados – só que eram apenas “amasiados”, como se dizia então, naqueles tempos anteriores ao divórcio (linguagem que ainda prevalece em textos jurídicos de baixa qualidade hoje em dia). Ambos freqüentavam a igreja regularmente, na Escola Dominical, no culto do domingo à noite, nos estudos bíblicos de quarta-feira… As crianças eram criadas na fé e na moral cristã (o filho mais velho é pastor presbiteriano hoje…). No entanto, a consciência de meu pai não lhe permitia que ele deixasse aquele senhor já de meia-idade, crente fiel e zeloso, sob todos os aspectos temente a Deus, participar da Santa Ceia… Por quê? Óbvio: porque ele estava vivendo, na visão do meu pai, em adultério, e, portanto, em pecado… Na realidade, ninguém sabia se a primeira mulher do nosso amigo ainda existia ou se já havia morrido… Se ela já houvesse morrido, o nosso amigo seria viúvo e, portanto, poderia se casar de novo… Mas quem iria garantir que isso havia acontecido? Assim, em caso de dúvida, meu pai julgava contra o réu, não a favor dele… E o impedia de participar daquela que é chamada “A Ceia do Senhor”. Nos primeiros domingos do mês, no culto da noite, se celebrava a Santa Ceia. Nessa ocasião, o nosso amigo, crente assíduo e fiel, não vinha à igreja para não passar pelo constrangimento público de ver negada a sua participação na “Mesa do Senhor”… Desumano? Evidente. Não tenho dúvida acerca disso. Desumano e errado. Não sei como nosso amigo suportou a humilhação até a morte. Eu teria procurado outra igreja e outro pastor – ou teria abandonado a igreja de vez… Ele, não. Continuou na igreja – só fugia do constrangimento humilhante… Admirável a sua conduta, em especial quando vista em contraste com a do meu pai. Mas tenho certeza que sua consciência doía muito nos primeiros domingos do mês à noite, porque ela havia sido em grande parte moldada por aquele que na verdade era o seu algoz, o Rev. Oscar…

Meu pai era um presbiteriano fundamentalista. Quando jovem, havia sido católico romano fervoroso, participado da congregação mariana (hoje quase ninguém parece mais saber o que significava ser mariano, para um homem, ou filha de Maria, para uma mulher…). Mas ele era daqueles “ou tudo, ou nada”… Quando se desconverteu do catolicismo romano, e se converteu ao protestantismo presbiteriano, rejeitou tudo – ou assim ele pensava – que a Igreja Católica representava e passou a combatê-la com o fervor de um neófito zeloso, cujas atitudes beiravam o fanatismo… E passou a aceitar in totum a doutrina protestante-presbiteriana, na sua versão fundamentalista, como ele a entendia, então amplamente difundida e compartilhada. Dentro dessa visão, se alguém está vivendo com uma pessoa com quem não se casou, direitinho, segundo as leis da terra, no cartório, de papel passado, com uma penca de testemunhas, esse alguém está vivendo em pecado. Ou seja: nessa visão, o não cumprimento de uma lei humana implicava uma ofensa moral e espiritual (um pecado)… e cabia à igreja punir essa ofensa, ou, pelo menos, deixar claro que ela a tomava seriamente!

O Rubem Alves, num artigo que publicou há algum tempo, intitulado “A Praga”, escrito quando o Papa (acredito) ainda era outro, comentou:

“É bom atentar para o que o Papa diz. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O Papa vai direto ao que é essencial: ‘O segundo casamento é uma praga!’

Está certo. O casamento não pertence à ordem abençoada do Paraíso. No Paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação alguma de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembléia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: ‘E eu, Jeová, vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar…’

Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-Paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo.

Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: ‘O que vos une não é o amor. O que vos une é um contrato.’ Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres contratuais. Até as relações sexuais são obrigações que devem ser cumpridas.

Agora imaginem um homem e uma mulher que muito se amam: são ternos, amigos, fazem amor, geram filhos. Mas, segundo a Igreja, estão em estado de pecado: falta ao seu relacionamento o selo eclesiástico legitimador. Ele, separado da antiga esposa, não pode se casar de novo porque a Igreja proíbe a praga do segundo casamento. Aí os dois, já no fim da vida, são obrigados a se separar para poder participar da eucaristia: cada um para um lado, adeus aos gestos de ternura… Agora está tudo nos conformes. Porque o Deus da igreja não enxerga o amor. Ele só vê o selo eclesial.

O Papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga, por não ser da ordem paradisíaca mas da ordem da maldição. O símbolo dessa maldição está na palavra ‘conjugal’: do Latim, ‘com’= junto e ‘jugus’= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. O vínculo conjugal significa que, mesmo quando um dos cônjuges não quer mais estar junto do outro, a canga vai obrigá-lo, sob pena do ferrão divino…”

O artigo continua, e mais adiante citarei o que falta.

O Rubem Alves é, porque sempre foi, um protestante presbiteriano – mas nunca foi, que eu saiba, um protestante presbiteriano fundamentalista. Para ele, a instituição do casamento (ou do matrimônio, como preferem alguns) pertence não à “Cidade de Deus”, mas, sim, à “Cidade dos Homens” – aquela cidade que, segundo Agostinho, o inventor dessas expressões, é governada por “um bando de ladrões” – era assim que Agostinho via o governo (presciente o homem!). Como ressalta o Rubem Alves, não consta que Deus tenha celebrado o casamento de Adão e Eva no Paraíso… Deus simplesmente criou os dois e… bom, eles se encarregaram do resto. Em outras partes da Bíblia, no Novo Testamento, se esclarece que, no Céu, não haverá casamentos… Tudo isso parece corroborar a tese de que o casamento, como hoje o temos, é uma instituição humana, criada, como tantas outras, para arranjar e facilitar a nossa vida em sociedade – pelo menos em uma sociedade em que há propriedade privada, que deve ser transmitida por herança, etc.

A Igreja Católica Romana, porém, não acredita nisso. Continuo a citar o artigo do Rubem Alves.

“Por que o segundo casamento é uma praga para a Igreja Católica? Porque, para havê-lo, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Mas, se a Igreja admitir a anulação do primeiro casamento ela terá de admitir também que o sacramento que ela realizou não é aquilo que ela afirma ser: um ato realizado pelo próprio Deus. Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a Igreja é uma balela… Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. A Igreja não admite o divórcio não é por amor à família. É para manter-se veículo privilegiado das bênçãos divinas…

A Igreja, sábia, tratou de livrar seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem. Livres da maldição do casamento, os sacerdotes têm a suprema felicidade de noites de solidão, sem conversas, sem abraços e nem beijos. Estão livres da praga…”

O artigo termina aí.

Há uma coisa, porém, que o Rubem Alves omite na sua interessante análise, a saber: o fato de que os diversos fundamentalismos protestantes, em geral extremamente críticos da Igreja Católica Romana, adotaram essa visão católica, sacramental, do casamento…

Para os protestantes não fundamentalistas, o casamento é uma instituição humana: pertence à “Cidade dos Homens”. A decisão de se casar é uma decisão inteiramente humana, tomada por um homem e uma mulher. Não é um ato no qual Deus tenha necessariamente participação. A igreja pode apenas, caso os nubentes assim o desejem, pedir a bênção divina sobre a união que se celebra (como, mal comparando, se pede a bênção divina sobre uma casa nova que se constrói ou um navio novo que se lança ao mar). Dentro desse entendimento, não é a igreja (ou Deus) que faz o casamento: a regulamentação da união é toda feita pelas leis da terra. A igreja apenas invoca a bênção de Deus sobre o casal. (Mesmo hoje, quando se faz um casamento religioso com efeito civil, o casamento é celebrado pelo pastor ou padre apenas porque as leis da terra facultaram à autoridade competente a delegação ao pastor ou ao padre do direito de celebrar casamentos).

Para os protestantes fundamentalistas, entretanto, o casamento é “divinizado”: ele deixa de ser apenas uma relação “biunívoca” entre um homem e uma mulher e passa a ser uma relação “triangular” entre um homem, uma mulher, na base, e, no vértice do triângulo, Deus. Quando o casamento se desfaz, rompe-se o triângulo e, assim, se desmancha não apenas a relação entre o marido e a mulher mas, para aquele considerado responsável pelo rompimento, também sua relação com Deus. Dentro dessa visão, o cônjuge responsável (“culpado”) pelo rompimento do elo matrimonial ofende não apenas o outro cônjuge, mas também a Deus – porque o casamento é, de fato, sacramentalizado.

As igrejas protestantes, mesmo as fundamentalistas, em geral se recusam a aceitar a tese católica romana de que o casamento é um sacramento, como o batismo e a eucaristia. Na prática, porém, as igrejas protestantes fundamentalistas endossam essa tese. Se esse cônjuge responsável pelo desfazimento de um casamento vier a se relacionar com outra pessoa, passa a ser considerado adúltero – embora tenha decidido encerrar o casamento antes de conviver maritalmente com a outra pessoa e até mesmo comunicado o fato ao cônjuge anterior. É por isso que ao nosso amigo, na igreja do meu pai, era negado o direito de participar da Santa Ceia, um sacramento oficialmente aceito pela Igreja Presbiteriana: porque ele havia violado o sacramento – oficialmente não aceito, mas na prática endossado por meu pai – do matrimônio… (Foi por isso que disse anteriormente que meu pai rejeitou tudo – ou assim ele pensava – que a Igreja Católica representava… Ele continuou aceitando a doutrina católica do casamento como sacramento). Dentro dessa visão, o cônjuge não considerado culpado pelo rompimento do vínculo matrimonial pode continuar a ter assento à “Mesa do Senhor” – ainda que seja mentiroso, ladrão, ou pior… (et qu’il y en a, il y en a…). Mas o considerado culpado, ainda que tenha uma vida impoluta, não pode… Essa a teologia do Rev. Oscar Chaves – que Deus lha perdoe.

Para os católicos romanos e os protestantes fundamentalistas, não basta que o amor seja infinito enquanto dure… eles querem torná-lo obrigatoriamente eterno. Mas como os amores em geral acabam, ou, pelo menos, são substituídos por outros maiores ou mais interessantes, surge o dilema: o que fazer? Os católicos romanos e os protestantes fundamentalistas em geral argumentam que o que deve ser feito é tentar “salvar o casamento” a qualquer custo. Isto implica, muitas vezes, tentar fazer, por uma série de mecanismos, e até mesmo artimanhas, com que um amor moribundo reviva, ou tentar convencer alguém a matar ou sublimar um grande amor em favor de um amor menor… O resultado é sofrimento… Sofrimento por causa da culpa – ou, pior, por causa da consciência de uma culpa que não deveria existir… É aí que se aplica como uma luva o dito alvesiano: a consciência por vezes é uma merda… Ela é, entre outras coisas, recipiente de um entulho religioso que deveria estar de muito ultrapassado.

Poderia parecer aos desavisados que aqueles que consideram o casamento como um contrato o vêem como uma instituição humana – afinal de contas, contratos podem ser rescindidos, e as leis terrenas da maioria dos países, inclusive do nosso, admitem hoje que o contrato matrimonial seja rescindido – até mesmo de comum acordo, consensual e amigavelmente, sem que seja necessariamente atribuída culpa a um dos cônjuges – e que um novo contrato seja estabelecido. Mas, como se pode perceber na frase do padre, citada por Rubem Alves, o contrato que católicos romanos e protestantes fundamentalistas vêem no casamento não é bilateral: é trilateral: Deus faz parte dele. Isso o torna irrompível.

Na verdade, os fundamentalistas protestantes às vezes são mais realistas do que o rei… Reconhecendo que, na prática, contratos são rompíveis, eles preferem falar, em relação ao casamento, não de contrato, mas de aliança (que é o símbolo material do casamento, quando, no Brasil, usada no dedo anelar esquerdo). Assim, para eles, mesmo que o contrato possa ser rompido, segundo as leis da terra, a aliança, celebrada pelo casal com Deus, é irrompível… O rompimento entre os cônjuges é sempre um rompimento também da aliança supostamente feita por ambos com Deus… Se esse rompimento se dá unilateralmente, por iniciativa de um dos cônjuges, este é visto como pecador… Se ele se separa oficiosamente e entra numa nova união (forçosamente também oficiosa) é adúltero… Se legal e oficialmente obtém o divórcio, e se casa de novo, tudo direitinho, segundo as leis da terra, ainda assim será visto como adúltero pela igreja (enquanto o cônjuge anterior ainda viver)…

Dentro visão católica romana e protestante fundamentalista, o contrato não é apenas um contrato terreno: é uma aliança sobrenatural, eterna. Mesmo que o amor acabe, o contrato-aliança tem de ser mantido, custe o que custar… Mesmo depois de o amor se ter ido, o contrato matrimonial permanece, tem de ser preservado a qualquer custo, mesmo na cláusula que exige dos cônjuges que se relacionem sexualmente um com o outro. (Não conheço outra defesa tão obscena do sexo sem amor como essa…)

É curioso que os protestantes fundamentalistas, que acusam os católicos romanos de toda sorte de erro, se unam a eles nessa visão do casamento, da separação, do divórcio, deixando de lado a visão mais sadia dos protestantes não fundamentalistas.

Acredito que tenha descoberto a razão…

Católicos romanos e protestantes fundamentalistas estão à busca de certezas… Quem se atrai a eles em geral está em busca de certezas… Não é à toa que os católicos tenham investido certos pronunciamentos do papa (sobre fé e prática, feitos ex cathedra) do atributo de infalibilidade… E também não é à toa que os protestantes fundamentalistas tenham atribuído característica semelhante (inerrância), não a pronunciamentos, mas à Bíblia Sagrada (devidamente expurgada de alguns livros que os católicos romanos aceitam e em geral interpretada de forma literal)… Ambos estão à busca de certezas, de coisas verdadeiras de forma absoluta, de sentimentos e relacionamentos eternos… No tocante ao casamento, esquecem-se de que sua base deve ser o amor, não a certeza, a infalibilidade, a inerrância – e que o amor, sendo sentimento, pode acabar… Ele não é imortal, posto que é chama – mas deve ser infinito enquanto dure (Vinicius de Moraes – o soneto é transcrito na íntegra adiante). [Vide adiante, também, em outro post, uma nova crônica, "Dois fatos importantes sobre o ser humano", publicada posteriormente].

Transcrevo parte de uma outra crônica do Rubem Alves, que me é muito cara, porque se refere a pássaros e gaiolas – e tenho, em meu coração, um lugar especial para seu livrinho A Menina e o Pássaro Encantado (que, por sinal, traduzi para o Inglês como The Little Girl and the Enchanted Bird):

“Escrevo hoje para os que casam, por medo de que, fascinados por um rito, se esqueçam do outro… . . .

O primeiro rito, sobre que todos sabem, e para o qual se fazem convites, é feito com pedras, ferro e cimento.

Mas há um outro rito, secreto, que se faz com o vôo das aves, com água, brisa, espuma e bolhas de sabão.

O primeiro rito nasceu de uma mistura de alegria e tristeza. Viram o vôo do pássaro, ficaram alegres. Mas logo o pássaro se foi e ficaram tristes. Não lhes bastava que a alegria fosse infinita enquanto durasse. Queriam que ela fosse eterna. E disseram: ‘Queremos o vôo do pássaro, eternamente.’ E que coisa melhor existe para conter o vôo do pássaro que uma gaiola? E assim fizeram. Engaiolaram o pássaro e chamaram os mágicos, ordenando-lhes que dissessem as palavras do bruxedo: ‘Para sempre, até que a morte os separe.’

A definição mais precisa desse rito, eu a ouvi da boca de um sacerdote. ‘Não é o amor que faz um casamento’, ele afirmou. ‘É o contrato’. Contratos são feitos de promessas.

Assustei-me. Sabia que assim era, no civil, casamento-contrato, rito frio da sociedade, para definir os deveres (sobre os prazeres se faz silêncio) e a partilha dos bens e dos males. Sociedade é coisa sólida. Precisa de pedra, ferro e cimento. Garantias. Testemunhas. Documentos. O futuro há de ser da forma como o presente o desenhou. Para isso, os contratos. E a substância do contrato são as promessas. Sim. Ele estava certo. ‘Não é o amor que faz o casamento. É o contrato’. São as promessas.

Promessas são as palavras que engaiolam o futuro. Por isso elas se fazem acompanhar sempre de testemunhas. Se o pássaro engaiolado, em algum momento do futuro, mudar de sentimento e de idéia e resolver voar, as testemunhas estão lá para reafirmar as promessas feitas no passado. O dito e contratado não pode ser mudado.

Muitas são as promessas que os noivos podem fazer: prometo dividir os meus bens, prometo não maltratá-la, prometo não humilhá-lo, prometo protegê-la, prometo cuidar de você na doença. Atos exteriores podem ser prometidos.

Assim se fazem os casamentos, com pedra, ferro, cimento – e, espera-se, amor.

Mas as coisas do amor não podem ser prometidas. Não posso prometer que, pelo resto da minha vida, sorrirei de alegria ao ouvir seu nome… Não posso prometer que, pelo resto de minha vida, sentirei saudades na sua ausência…

Sentimentos não podem ser prometidos. Não podem ser prometidos porque não dependem da nossa vontade. Sua existência é efêmera. Só existem… enquanto existem! Como o vôo dos pássaros, o sopro do vento, as cores do crepúsculo.

O casamento contratual é um rito de adultos, porque somente os adultos desejam que o futuro seja igual ao presente. A sua gravidade, a sua seriedade, os passos cadenciados, processionais, as suas roupas, as suas máscaras, as palavras sagradas, definitivas, para sempre, o que Deus ajunta os homens não podem separar, a exaltação dos deveres: tudo dá testemunho de que esse é um ritual adulto.

O outro ritual, entretanto, se faz com o vôo das aves, com água, espuma e bolhas de sabão. É secreto, para ele não há convites. Secreto foi o casamento de Abelardo e Heloísa, o mais belo amor jamais vivido – o mais belo, mas proibido… Para esse tipo de amor não há convites, nem lugar certo, nem hora marcada: ele simplesmente acontece.

‘Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse…’ (Drummond). Esse tipo de amor não precisa de altares: sempre que ele acontece o arco-íris aparece: a promessa de Deus, porque Deus é amor. Pode ser a sombra de uma árvore, um carro, uma cozinha, um banco de jardim, um vagão de trem, um aeroporto, uma mesa de bar, uma caminhada ao luar…

Não há promessas para amarrar o futuro. Há confissões de amor para celebrar o presente. ‘Como és formosa, querida minha, como és formosa! Há mel debaixo da tua língua!’, ‘O teu rosto, meu amado, é um canteiro de bálsamo e os teus lábios são lírios…’ (Bíblia Sagrada); ‘Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar, em cada despedida eu vou te amar, desesperadamente eu sei que vou te amar…’ (Vinícius); ‘Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo tua matéria, fauna e flora… Te amo com uma memória imperecível’ (Adélia Prado).

E os convidados, muito poucos, vestem-se como crianças: pés descalços, balões coloridos nas mãos: eles sabem que o amor fica somente se permanecermos crianças, eternamente…

‘Ego conjugo vobis in matrimonium’, diz um velho com rosto de criança.

Para vós invoco os prazeres que voam nos ventos e as alegrias que moram nas cores: beleza, harmonia, encantamento, magia, mistério, poesia: que essas potências divinas lhes façam companhia.

Que o sorriso de um seja, para o outro, festa, fartura, mel, peixe assado no fogo, coco maduro na praia, onda salgada do mar…

Que as palavras do outro sejam tecido branco, vestido transparente de alegria, a ser despido por sutil encantamento.

E que no final das contas e no começo dos contos, em nome do nome não-dito, bem-dito, em nome de todos os nomes ausentes e nostalgias presentes, de ágape e filia, amizade e amor, em nome do nome sagrado, do pão partido e do vinho bebido, sejam felizes os dois, hoje, amanhã e depois…”

Que coisa mais linda… mais protestantemente linda. Mas os católicos romanos a refugam. Infelizmente, os protestantes fundamentalistas ficaram, nesse aspecto, do lado dos católicos e tentaram até mesmo ir adiante, com sua doutrina da aliança matrimonial. Para eles, casamento é contrato, aliança. Trouxeram Deus para o casamento na forma de gaiola – não na forma do canto e da beleza do pássaro. Trouxeram Deus para o casamento para tentar eternizar e engaiolar o amor – esquecendo-se de que o amor só sobrevive em liberdade, e deixando de lado o fato de que, no Novo Testamento, Deus é um Deus de amor, não um Deus de contratos, pactos e alianças, como era o Deus do Antigo Testamento…

“Ama”, disse Agostinho, o mais protestante dos pais da igreja, que antecedeu o protestantismo em mais de mil anos, “e faze o que quiseres”.

Como prometi…

Soneto de Fidelidade

Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág 96.)

Em São Paulo, 13 de Fevereiro de 2009 – Sexta-Feira 13.

Uma nova Escola Lumiar

Foi inaugurada ontem, 2 de Fevereiro de 2009, no bairro “rururbano” do Lageado, em Santo Antonio do Pinhal, SP, a terceira Escola Lumiar. Com uma novidade: esta é uma Escola Bilíngüe: Português-Inglês.

A Escola Lumiar Internacional do Lageado começa pequena – mas tem tudo para crescer (dentro dos parâmetros da região). É uma escola particular, mas não lucrativa. Será uma grande contribuição para a região do Vale do Paraíba e um grande desafio para o Instituto Lumiar, que tenho o privilégio de presidir, que é responsável pela orientação pedagógica da escola.

A Escola surge de uma parceria entre Ricardo e Fernanda Semler, da Fundação Ralston Semler, e Flávio e Gláucia Zuffellato, moradores da região há muito tempo. A Coordenação Pedagógica geral é de Paloma Machado, do Instituto Lumiar. Érika Júlio é a Diretora da Escola, e Bruna Ortiz é a principal educadora bilíngüe.

As instalações da escola estão em duas casas que foram totalmente renovadas e unidas, e que ficam num terreno amplo, no centrinho do Lageado, com um laguinho, uma piscina e um playground, além de um amplo espaço coberto e descoberto. A escola fica ao lado do Posto de Saúde do Lageado e da igreja local, e do outro lado da Escola Lumiar Municipal do Lageado, que é mantida em convênio com a Prefeitura de Santo Antonio do Pinhal. As duas escolas são separadas pelo campo de futebol municipal que existe no bairro, que, por acordo com a Prefeitura, será usado para atividades recreativas e de educação física.

Eis algumas fotos da escola e do dia da inauguração.

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No Lageado, em Santo Antonio do Pinhal, 2 de Fevereiro de 2009

Pittsburgh Steelers: hexacampeões nacionais de futebol (americano) [como, aqui, o glorioso SPFC (em futebol de verdade)]

Notícia da Folha de S. Paulo de hoje. Agora tenho o privilégio de ser bi-hexa… 🙂 Será que é meu karma que meus times sejam hexa-campeões nacionais???

02/02/2009 – 01h10

Steelers vencem Super Bowl das viradas e se tornam "os maiores"

Do UOL Esporte
Em São Paulo

Numa das mais emocionantes e imprevisíveis decisões dos últimos tempos, o Pittsburgh Steelers se consagrou como a equipe mais vencedora da história da NFL (sigla em inglês para liga de futebol americano). O time do lançador Ben Roethlisberger e do técnico Mike Tomlin derrotou o Arizona Cardinals neste domingo por 27 a 23 em Tampa e se isolou como o grande nome do Super Bowl. O título só veio no último quarto, depois de duas viradas no placar.

JOGADA HERÓICA NO 2º QUARTO

Gene J. Puskar/AP

Harrison atravessa o campo após interceptar passe de Warner e marca o touch down

John Bazemore/AP

Em seguida, defensor dos Steelers recorre ao oxigênio para recuperar suas forças

Com o título na edição 43 da final da NFL, os Steelers superam Dallas Cowboys e San Francisco 49ers e chegam ao sexto título no Super Bowl. Derrotados em sua primeira aparição na final, o Arizona por sua vez continuam sem os famosos anéis de campeões do futebol americano.

Foi o triunfo de uma equipe mais eficiente na defesa, com um quarterback consistente e que explora basicamente os lançamentos em curta distância, sobre o segundo melhor ataque da NFL, com um lançador que arrisca demais e prioriza os passes de longa distância. No caso, Kurt Warner, campeão com o Saint Louis Rams em 2001.

Mais cauteloso e 11 anos mais jovem que Warner (37), "Big Ben" Roethlisberger faturou seu segundo título (havia triunfado com o Pittsburgh em 2006, como mais jovem quarterback campeão) apoiado em seu jogo de avanços precisos de curta e média distância.

O Pittsburgh foi o time que menos cedeu jardas aos adversários através de passes com uma média de 156,9 jardas durante a temporada regular. Para se ter uma ideia, o segundo foi o Baltimore Ravens com 179,7. Nas corridas, os Steelers chegaram à decisão com a segunda melhor defesa, cedendo apenas 80,2 jardas em média aos rivais. Com isso, o time foi o que menos sofreu pontos na primeira fase e teve um trabalho vital do setor para eliminar San Diego Chargers e Baltimore Ravens nos playoffs, antes do Super Bowl de Tampa.

Em tempos de Barack Obama na presidência dos Estados Unidos, o técnico Mike Tomlin também cravou neste domingo seu nome na história do esporte mais popular do país, ao se tornar o segundo treinador negro campeão da NFL.

O título dos Steelers veio mesmo com a atuação espantosa do wide receiver Larry Fitzgerald, responsável por dois touch downs a favor dos Cardinals. Fitzgerald é o recordista na história de anotações em playoffs.

Em campo no primeiro quarto, o Pittsburgh chegou à end zone dos Cardinals logo na primeira incursão ao ataque, graças a um avanço do lançador Ben Roethlisberger. No entanto, a arbitragem decidiu anular o touch down, depois de rever a jogada pela TV, alegando que o camisa 7 dos Steelers tocou o joelho no solo antes de cruzar a linha final.

Mesmo assim, o time de Pittsburgh conseguiu inaugurar o placar no mesmo ataque, com um field goal de 18 jardas de Jeff Reed.
Os Steelers chegaram à vantagem de 10 a 0 logo no começo do segundo quarto. Perto da end zone, Roethlisberger optou pelo trabalho com o running back Gary Russel, que assegurou mais seis pontos aos Steelers. Em seguida, o chute do ponto extra consolidou os dois dígitos no placar.

Os Cardinals esboçaram uma reação logo depois, com o desabrochar de Warner. Primeiro, o lançador achou Anquan Boldin, que efetuou avanço de 45 jardas. Em seguida, Ben Patrick entrou na end zone e conferiu equilíbrio ao Super Bowl. Somado ao ponto extra, o Arizona diminuiu a diferença para 10 a 7.

A primeira jogada crucial para a definição do jogo aconteceu nos segundos finais do segundo quarto. O defensor dos Steelers James Harrison interceptou um passe de Warner na end zone contrária e correu o campo todo, de ponta a ponta para fazer touch down e aumentar a vantagem para seu time. Após o esforço, Harrison desabou no chão e, instantes depois, teve que recorrer ao balão de oxigênio para recobrar as forças.

John Mabanglo/EFE

Santonio Holmes foi o herói do último quarto, ao efetuar o touch down decisivo

Após o intervalo, os Steelers continuaram soberanos na defesa e conseguiram ampliar a vantagem com mais um field goal. Mas o instante de suspense veio no fim, quando Larry Fitzgerald, wide receiver estrela dos playoffs, pegou passe de Warner para dar mais um touch down ao Arizona.

A reação dos Cardinals ganhou força nos minutos finais, quando a arbitragem detectou uma infração em uma ação de ataque do Pittsburgh dentro da end zone. Ou seja, o Arizona ganhou dois pontos e mais uma posse de bola.

Em seguida, Warner conectou passe com o cabeludo Fitzgerald, que se desvencilhou da marcação dos Steelers e chegou à end zone inimiga em uma progressão de 64 jardas.

Mas quando tudo apontava para o título inédito dos Cardinals, Roethlisberger conseguiu empurrar o Pittsburgh para uma improvável virada. Quase saindo de suas características, o lançador arriscou e, no passe final, achou Santonio Holmes na end zone para selar o dramático 6º título dos Steelers. A jogada acabou dando a Holmes o título de MVP (sigla para jogador mais valioso) da final.

Pouco mais de 72 mil pessoas acompanharam a partida no Raymond James Stadium e viram, além da vitória do Pittsburgh, o show do intervalo com o veterano cantor Bruce Springsteen. As imagens do Super Bowl 43 foram levadas para mais de 230 países ao redor do mundo.

PONTOS DO SUPER BOWL 43

PRIMEIRO QUARTO

STEELERS 3 a 0 – Kicker Jeff Reed converte field goal de 18 jardas e coloca o Pittsburgh logo de cara em vantagem.

SEGUNDO QUARTO

STEELERS 10 a 0 – O running back Gary Russel, recebe perto da end zone e faz o 1º touch down do jogo. O ponto extra consolida dois dígitos de vantagem dos Steelers.


CARDINALS reagem.. 10 a 7 –
Ben Patrick foi acionado por Kurt Warner e ingressa na end zone para marcar seis pontos. O ponto extra ainda ajuda a colocar o Arizona no jogo.

STEELERS 17 a 7 – O defensor James Harrison intercepta passe de Warner e corre o campo todo para fazer incrível touch down.

TERCEIRO QUARTO

STEELERS 20 a 7 – Jeff Reed converte mais um field goal e aumenta a vantagem do Pittsburgh

ÚLTIMO QUARTO

CARDINALS diminuem 20 a 14- Mesmo marcado em cima, Larry Fitzgerald pega passe diagonal de Warner para dar mais um touch down ao Arizona.

CARDINALS equilibram.. 20 a 16- Arbitragem detecta infração de ataque na end zone dos Steelers e concede

CARDINALS viram.. 23 a 20- Warner conecta passe com Fitzgerald, que se livra da marcação na corrida para fazer mais um touch down

STEELERS retomam o placar 27 a 23 – Roethlisberger arrisca e acha Santonio Holmes no limite lateral da end zone. É a jogada do título, com direito ao último extra point da temporada

Transcrito no Lageado, em Santo Antonio do Pinhal, 2 de Fevereiro de 2009

Ricos meninos pobres

Transcrevo, a seguir, com a autorização do autor, o artigo do Juca Kfouri na Folha de hoje.

Folha de S. Paulo
1 de fevereiro de 2009

JUCA KFOURI

Ricos meninos pobres

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Dos milhões que são gastos na aquisição de craques, uma parte deveria ser investida na cabeça deles

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ROBINHO, ADRIANO , Ronaldos.

Tantos.

Indiscutivelmente talentosos com a bola nos pés, mas desastrados longe dela.

Ricos nas contas bancárias, mas pobres de espírito.

Suas vidas se resumem ao futebol e às baladas, às baladas e ao futebol.

Estrelas populares cujos brilhos diminuem à medida que o tempo passa e cujo desgaste afasta da atividade principal, mãe de todas as outras, o jogar futebol bem, maravilhosamente bem. Mas que importa?

O futuro sem preocupações materiais já está garantido!

Mal sabem, ou alguns até já sabem, que, de repente, bate uma nostalgia, uma vontade louca de voltar a ser, de olhar para as arquibancadas lotadas em uníssono saudando o nome do ídolo.

Ídolo, que ídolo?

Ex-ídolo.

Ex-ídolo do Santos, do Real Madrid, do Flamengo, da Inter, do Barcelona, do Milan.

De tantos.

E com saudade de estufar a rede, de correr para o abraço, de eventualmente correr para o alambrado e comemorar com os pobres, mas ricos em emoção.

Emoção que vicia e que eles vão buscar na noite e em suas atrações.

Sejam as que alucinam, sejam as que excitam, sejam quais forem, mas incompatíveis com o correr 90 minutos, com o bater forte, com o apanhar doído, com o jogar de cabeça erguida.

Cabeça, que cabeça?

Sim, as cabeças precisam ser tratadas até para conviver com tanta facilidade -Diego Maradona e Walter Casagrande Júnior que o digam. E quem gasta tanto para tê-las, por que não gastar uma ínfima parcela para tratá-las?

Futebol, sexo, drogas e rock and roll. Bela mistura. Doutor Sócrates não vai gostar, Xico Sá vai ridicularizar, mas o fato é que a vida exige opções. Ou bem se faz uma coisa ou bem se fazem outras.

Algumas, ao mesmo tempo, são simplesmente incompatíveis.

Salvo raras exceções, rigorosamente extraordinárias como Romário, baladas diárias e futebol duas vezes por semana não ornam, não casam, repelem-se.

E é o que mais temos visto por aí, a ponto de até Pelé reclamar, ele que sempre cuidou do físico para poder reinar mais tempo, sem nunca ter sido santo, ao contrário.

"Quero fulano para jogar no meu time, não para casar com a minha filha", eis aí, de novo, a frase emblemática que até fazia sentido para os tempos românticos. Mas não faz mais, quando talento e saúde são exigidos quase em igual proporção.

E não se trata de moralismo, conservadorismo, reacionarismo, nada disso. São meras constatações, basta olhar para o momento vivido, hoje, pelos acima citados.

Não é preciso ser bom moço carola feito Kaká, mas também não precisa exagerar.

Porque o exagero torna até a curtição mais curta.

E a exposição desnecessária deles e o mole que dão beiram tanto as raias do absurdo que se confundem até com burrice, embora, de fato, sejam, apenas (?!), frutos de má, de péssima orientação.

É preciso cuidar deles.

blogdojuca@uol.com.br

Transcrito no Lageado, em Santo Antonio do Pinhal, em 1 de Fevereiro de 2009

Será que terminou o dilúvio na Serra da Mantiqueira?

Faz uma semana que estamos aqui no Lageado, bairro “rururbano” de Santo Antonio do Pinhal, perto de Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira. E, até anteontem, choveu todo dia. Quase o dia inteiro. E à noite. Também, inteira. Parecia que um novo dilúvio estava em curso. Sem arca, porém, e sem animais; talvez porque não houvesse nem sequer um Noé por aqui… Ontem o sol reapareceu e hoje se sustentou – embora tenha caído um chuvisco há pouco.

O lugar é paradisíaco. Faz lembrar o Éden – mas invocar o Éden, nas circunstâncias, acabará me levando a confundir os personagens da história bíblica: Adão e Noé. O primeiro, segundo reza a tradição, chegado a uma maçã; o outro, ao vinho da uva… (Bebeu tanto que deixou que os seus filhos o vissem nu).

[Nota (não solicitada, porém autorizada) da Paloma: Embora a tradição reze que a fruta oferecida pela serpente a Eva, e posteriormente oferecida por Eva a Adão, seja a maçã, não existe nenhuma evidência bíblica que confirme essa informação. Na verdade a passagem bíblica apenas faz referência ao fruto de uma árvore que ficava no centro do jardim. É mencionado, ainda, que a árvore era boa para se comer e agradável aos olhos, mas não é feita nenhuma referência a que tipo de fruto se tratava. No contexto deste artigo essa informação não tem a menor relevância, mas não gostaria que os leitores mais atentos deste Blog pensassem que o autor desconhece esse fato…]

Voltando ao presente, estamos hospedados numa casa do passado, chamada Casa Centenária – porque foi construída em 1906.

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É uma casa de pau a pique – mas os paus e o barro estão hoje escondidos por trás de uma camada de reboco (exceto num pequeno espaço perto da mesa de jantar em que o reboco foi removido e se vê a construção original, protegida por um vidro, como se fosse um quadro na parede…). Assim:

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O assoalho é velho – parece original. Mas o resto foi modernizado. Há luz elétrica, TV por parabólica, aquecedor de água a gás… E há uma lareira, pequena mas acolhedora, na sala. (O bom da região é que mesmo no verão, à noite, faz frio o suficiente para acender a lareira…)

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O local em que a casa se encontra é lindo. É o vale que se vê lá de cima, do Mirante, quando se está chegando a Campos do Jordão.

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Quem ainda não olhou esse vale lá de cima não sabe que está deixando de ver uma das maravilhas do mundo: o local em que estamos… Ao redor da casa há um laguinho, com um chafariz permanentemente ligado, que faz um barulho de chuva à noite (como se precisasse, nos últimos tempos…). Na cozinha há tudo o que se pode esperar em uma “pousada de uma família só” – inclusive um fogão de lenha…

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Embora não seja literalmente uma pousada (só uma família pode alugar a casa de cada vez), há arrumadeira, que limpa a casa todo dia, etc.

Fora há forno de lenha para pizza, churrasqueira, piscina, cadeiras gostosas para a gente sentar – e ver a chuva… 😦 

E, para nos proteger, há a Branca, uma cachorra linda e amiga. Quando saímos para andar (como o fizemos no sábado cedo, indo para a Sorveteria Eisland, a 3 km daqui, para tomar um sorvete, ela nos acompanha…

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Da casa até Santo Antonio do Pinhal é um puilinho: 8 km – mas as estradas são de terra e a chuva as tem deixado em estado lamentável. É possível encurtar a parte de terra do percurso, mas dando uma volta enorme pela rodovia SP-50, que vai de Campos do Jordão para São Bento do Sapucaí e o Sul de Minas. Para ir de Santo Antonio do Pinhal até Campos do Jordão há dois caminhos: a própria SP-50 ou a SP-46, que liga a cidade à SP-123, que começa onde termina a Rodovia Carvalho Pinto e vai até Campos do Jordão.  Leva menos de meia hora. Em outro post vou falar de Santo Antonio do Pinhal – uma delícia de cidade, com apenas seis mil habitantes.

O que fazemos por aqui? Damos formação para os professores das duas escolas Lumiar do local: uma mais antiga, municipal, conveniada com o Instituto Lumiarl a outra, uma escola bilíngüe, que começa a funcionar agora (amanhã, na verdade).

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Devemos ficar aqui até quarta-feira que vem, dia 4/2.

No Lageado, em Santo Antonio do Pinhal, 1 de Fevereiro de 2009

O time de Pittsburgh, os Steelers, tenta ser hoje hexa em futebol americano nos Estados Unidos

Notícia da Folha de hoje (1/2/2009):

“O Pittsburgh Steelers pode, às 21h (ESPN), ser o maior campeão do Super Bowl caso bata o Arizona Cardinals, que busca título inédito. Dallas Cowboys e San Francisco 49ers também têm cinco taças hoje.”

Por que noticio isso? Porque os Steelers são o time de futebol americano pelo qual torço. Se eles ganharem, o time será, como o SPFC, time de futebol pelo qual torço no Brasil, o único hexacampeão na modalidade em seu país… Coincidência, não?

Sou torcedor dos Steelers porque morei em Pittsburgh, Cidade do Aço (Steel), durante cinco anos, de 1967 a 1972 – época em que o time era uma porcaria e nunca havia ganho nada. Mesmo assim, torcia para ele (bem como para os Pirates, em baseball, e para os Penguins, em hockey sobre o gelo) porque o time era de Pittsburgh, cidade de que gosto muito e que considero minha “cidade natal” nos Estados Unidos.

Estarei torcendo – apesar de não poder assistir ao jogo na ESPN, porque aqui em Santo Antonio do Pinhal, onde estou, não tenho acesso à ESPN.

ET: Há uma questão de linguagem envolvida. A Folha se refere a “o Pittsburgh Steelers”, alheia ao fato de que “Steelers” (“acieiros”, literalmente) é um termo no plural. Talvez, se acuada, diria que estava se referindo a “o [time de] Pittsburgh [os] Steelers”. Eu preferiria dizer “os Pittsburgh Steelers” – mas sei que “há controvérsias”…

No Lageado, em Santo Antonio do Pinhal, 1 de Fevereiro de 2009

Retorno – e a Polícia de São Paulo

Faz quase vinte e cinco dias que não escrevo aqui. A última vez foi no dia 26/12/2008. Já estamos no novo ano. A razão pela qual não escrevi aqui é que estava escrevendo em outro blog, sobre a viagem que fiz à Europa de 29/12/2008 a 17/01/2009. Esse blog, entretanto, é, no momento, de acesso restrito, por razões pessoais. Quem sabe no futuro eu libere o acesso a ele. A viagem à Europa foi para participar, em Londres, de uma série de cinco eventos patrocinados pela Microsoft. Mas aproveitei para dar uma esticada e passei por Lisboa, Paris, Zurich, Winterthur, novamente Lisboa, e Londres.

Cheguei num dia e, no dia seguinte, 18/1, Domingo, perdi vários documentos (RG, CPF, Carteira de Habilitação, Registro e Licenciamento do Carro, Cartão de Seguro do Carro, Cartão de Plano de Saúde), quatro cartões de crédito e um cartão de débito. Voltei para casa correndo, cancelei todos os cartões de crédito e débito no próprio Domingo, e, na Segunda, pedi segunda via dos documentos.

Hoje cedo minha filha Patrícia me ligou para dizer que a companhia que faz os seguros dos meus carros havia ligado para minha ex-casa em Campinas para informar que meus documentos haviam sido recuperados durante uma blitz em que havia sido preso um menor que estava de posse de meus documentos. Disseram-me para contatar o Terceiro DP, na Rua Aurora, quase esquina da Avenida Rio Branco.

Hoje à tarde fui lá – e fui surpreendido com um atendimento impecável: atencioso, cortês, indo além daquilo que manda o dever. Na recepção foram muito atenciosos, me encaminharam ao Cartório, que fica no terceiro andar, onde fui atendido por um escrivão chamado Danilo, que procurou em várias pilhas de ocorrência até achar a que fazia referência aos meus documentos. Eles foram encontrados não com um menor, mas com uma menor, de 17 anos, chamada Greice Kelly Trindade de Campos, que a Guarda Civil Metropolitana suspeitou de estar traficando drogas no Vale do Anhangabaú (foi presa na Rua Formosa, em frente do número 999). Com ela acharam cocaína, crack e maconha em quantidade que só traficante possuiria – e todos os meus documentos, sem faltar um sequer. A prisão se deu ontem à tarde. A menor foi encaminhada para a antiga FEBEM – hoje Fundação C.A.S.A.

Deixo aqui o meu reconhecimento pela eficiência e honestidade da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo e dos policiais do Terceiro DP. Muitas vezes a gente fala mal da Polícia – mas é preciso falar bem, também, quando ela age de maneira proba.

Em São Paulo, 20 de Janeiro de 2009

Mensagem a Garcia

Transcrevo, abaixo, como mensagem de fim de ano, um texto, com o título acima, atribuído a Elbert Hubbard e datado de 22/2/1899. O texto tem quase cento e dez anos, portanto. A transcrição é feita, com pequenos ajustes de tradução, de uma publicação do SESI/SENAI, que eu digitalizei sem anotar o nome e a data, lastimavelmente perdendo o original.

Acho o texto fantástico. Topei com ele quando, há uns 12 anos, tentava ser empresário. Cheguei a ter mais de trinta funcionários na ocasião. Desisti, depois, por causa das dificuldades apontadas por Hubbard. Dispensei todos os funcionários, vendi uma casa que tinha para pagar os acertos, e escolhi trabalhar sozinho dali para frente. Não me arrependi.

Eis o texto:

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Em todo este caso cubano, um homem se destaca no horizonte de minha memória como o planeta Marte no seu periélio. Quando irrompeu a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava a estes era comunicar-se rapidamente com o chefe dos insurretos, Garcia, que se sabia encontrar-se em alguma fortaleza no interior do sertão cubano, mas sem que se pudesse precisar exatamente onde. Era impossível comunicar-se com ele pelo correio ou pelo telégrafo. No entanto, o Presidente [MacKinley] tinha de assegurar-se da sua colaboração, e isto o quanto antes. Que fazer?

Alguém lembrou ao presidente: "Há um homem chamado Rowan; e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan".

Rowan foi trazido à presença do Presidente, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entregá-la a Garcia. De como este homem, Rowan, tomou a carta, meteu-a num invólucro impermeável, amarrou-a sobre o peito, e, após quatro dias saltou, de um barco sem coberta, alta noite, nas costas de Cuba; de como se embrenhou no sertão, para, depois de três semanas, surgir do outro lado da ilha, tendo atravessado a pé um país hostil e entregado a carta a Garcia, são coisas que não vêm ao caso narrar aqui pormenorizadamente. O ponto que desejo frisar é este: MacKinley deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia; Rowan pegou a carta e nem sequer perguntou: "Onde é que ele está?"

Hosanas! Eis aí um homem cujo busto merecia se fundido em bronze perene e sua estátua colocada em cada escola do país. Não é de sabedoria livresca que a juventude precisa, nem de instrução sobre isto ou aquilo. Precisa, sim, de um endurecimento das vértebras, para poder mostrar-se altiva no exercício de um cargo; para atuar com diligência, para dar conta do recado; para, em suma, levar uma mensagem a Garcia.

O general Garcia já não é deste mundo, mas há outros Garcias. A nenhum homem que se tenha empenhado em levar avante um empresa, em que a ajuda de muitos se torne precisa, têm sido poupados momentos de verdadeiro desespero ante a imbecilidade de grande número de homens, ante a inabilidade ou falta de disposição de concentrar a mente numa determinada coisa e fazê-la.

Assistência irregular, desatenção tola, indiferença irritante e trabalho mal-feito parecem ser a regra geral. Nenhum homem pode ser verdadeiramente bem-sucedido, salvo se lançar mão de todos os meios ao seu alcance, quer da força, quer do suborno, para obrigar outros homens a ajudá-lo, a não ser que Deus onipotente, na sua grande misericórdia, faça um milagre enviando-lhe como auxiliar um anjo de luz.

Leitor amigo, tu mesmo podes tirar a prova. Estás sentado no teu escritório, rodeado de meia dúzia de empregados. Pois bem, chame um deles e peça-lhe: "Queira ter a bondade de consultar a enciclopédia e de me fazer uma descrição sucinta da vida de Corregio."

Dar-se-á, porventura, o caso de o empregado dizer calmamente: "Sim, senhor" e executar o que lhe pediu?

Nada disso! Olhar-te-á perplexo e de soslaio para fazer uma ou mais das seguintes perguntas:

  • Quem é ele?
  • Que enciclopédia?
  • Onde é que está a enciclopédia?
  • Fui eu acaso contratado para fazer isso?
  • Não quer dizer Bismarck?
  • E se Carlos o fizesse?
  • Já morreu?
  • Precisa disso com urgência?
  • Não será melhor que eu traga o livro para que o senhor mesmo procure o que quer?
  • Para que quer saber disso?

E aposto dez contra um que, depois de haveres respondido a tais perguntas, e explicado a maneira de procurar os dados pedidos e a razão por que deles precisas, teu empregado irá pedir a um companheiro que o ajude a encontrar Garcia, e depois voltará para te dizer que o tal homem não existe. Evidentemente, pode ser que eu perca a aposta; mas, segundo a lei das médias, jogo na certa.

Ora, se fores prudente não te darás ao trabalho de explicar ao teu "ajudante" que Corregio se escreve com "C" e não com "K" , mas limitarás a dizer-lhe meigamente, esboçando o melhor sorriso: "Não faz mal; não se incomode", e, dito isto, te levantarás e procurarás tu mesmo.

E esta incapacidade de atuar independentemente, esta inépcia moral, esta invalidez da vontade, esta atrofia de disposição de solicitamente se pôr em campo e agir – são as causas que transferem para um futuro inalcançável o advento do socialismo. Se os homens não tomam iniciativa de agir em seu próprio proveito, que farão quando o resultado do seu esforço for necessário para redundar em benefício de todos?

Por enquanto parece que os homens ainda precisam de ser feitorados. O que mantém muito empregado no seu posto e o faz trabalhar é o medo de, se não fizer, ser despedido no fim do mês. Anuncie precisar de um taquígrafo, e nove entre dez candidatos à vaga não saberão ortografar nem pontuar – e, o que é pior, pensam que não é necessário sabê-lo.

Poderá uma pessoa destas entregar uma carta a Garcia?

"Vê aquele guarda-livros", dizia-me o chefe de uma grande fábrica.

"Sim, que tem?"

"É um excelente guarda-livros. Contudo, se eu o mandasse transmitir um recado, talvez se desobrigasse da incumbência a contento, mas também podia muito bem ser que no caminho entrasse em duas ou três casas de bebidas, e que, quando chegasse ao seu destino, já não se recordasse da incumbência que lhe fora dada. "

Será possível confiar a um tal homem uma carta para entregá-la a Garcia?

Ultimamente temos ouvido muitas expressões sentimentais, externando simpatia para com os pobres entes que mourejam de sol a sol, para com os infelizes desempregados à cata de trabalho honesto, e tudo isto, quase sempre entremeado de muita palavra dura para com os homens que estão no poder.

Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, num baldado esforço para induzir eternos desgostosos e descontentes a trabalhar conscienciosamente; nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoal, que, no entanto, muitas vezes nada mais faz do que "matar o tempo", logo que ele volta as costas. Não há empresa que não esteja despedindo pessoal que se mostra incapaz de zelar pelos seus interesses, a fim de substituí-lo por outro mais apto. Este processo de seleção por eliminação está se operando incessantemente, em tempos adversos, com a única diferença que, quando os tempos são maus e o trabalho escasseia, a seleção se faz mais escrupulosamente, pondo-se fora, para sempre, os incompetentes e os inaproveitáveis. É a lei da sobrevivência do mais apto. Cada patrão, no seu próprio interesse, trata somente de guardar os melhores – aqueles que podem levar uma mensagem a Garcia.

Conheço um homem de aptidões realmente brilhantes, mas sem a fibra precisa para gerir um negócio próprio e que, ademais, se torna completamente inútil para qualquer outra pessoa, devido à suspeita insana que constantemente abriga de que seu patrão o esteja oprimindo ou tencione oprimi-lo. Sem poder mandar, não tolera que alguém o mande. Se lhe fosse confiada uma mensagem a Garcia, retrucaria provavelmente: "Leve-a você mesmo".

Hoje este homem perambula errante pelas ruas em busca de trabalho, em quase petição de miséria. No entanto, ninguém que o conheça se aventura a dar-lhe trabalho porque é a personificação do descontentamento e do espírito de réplica. Refratário a qualquer conselho ou admoestação, a única coisa capaz de nele produzir algum efeito seria um bom pontapé dado com a ponta de uma bota número 42, sola grossa e bico largo.

Sei, não resta dúvida, que um indivíduo moralmente aleijado como este não é menos digno de compaixão que um fisicamente aleijado. Entretanto, nesta demonstração de compaixão, vertamos também uma lágrima pelos homens que se esforçam por levar avante uma grande empresa, cuja horas de trabalho não estão limitadas pelo som do apito e cujos cabelos ficam prematuramente encanecidos na incessante luta em que estão empenhando contra a indiferença desdenhosa, contra a imbecilidade crassa e a ingratidão atroz justamente daqueles que, sem o seu espírito empreendedor, andariam famintos e sem lar.

Dar-se-á o caso de eu ter pintado a situação em cores demasiado carregadas? Pode ser que sim; mas, quando todo mundo se apraz em divagações, quero lançar uma palavra de simpatia ao homem que imprime êxito a um empreendimento, ao homem que, a despeito de uma porção de empecilhos, sabe dirigir e coordenar os esforços de outros, e, que, após o triunfo, talvez verifique que nada ganhou; nada, salvo a sua mera subsistência.

Também eu carreguei marmitas e trabalhei como jornaleiro, como também tenho sido patrão. Sei, portanto, que alguma coisa se pode dizer de ambos os lados.

Não há excelência na pobreza de per si; farrapos não servem de recomendação. Nem todos os patrões são gananciosos e tiranos, da mesma forma que nem todos os pobres são virtuosos.

Todas as minhas simpatias pertencem ao homem que trabalha conscienciosamente, quer o patrão esteja, quer não. E o homem que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, tranqüilamente toma a missiva, sem fazer perguntas idiotas, e sem a intenção oculta de jogá-la na primeira sarjeta que encontrar, ou praticar qualquer outro feito que não seja entregá-la ao destinatário, este homem nunca fica "encostado", nem tem que se declarar em greve para forçar um aumento de ordenado.

A civilização busca ansiosa, insistentemente, homens nestas condições. Tudo que um tal homem pedir, se lhe há de conceder. Precisa-se dele em cada cidade, em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisso: Precisa-se, e precisa-se com urgência, de um homem capaz de levar uma mensagem a Garcia.

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Feliz Ano Novo

Em São Paulo, 26 de Dezembro de 2008