Debate entre Valdemar Setzer e Eduardo Chaves na TV Cultura (Opinião Nacional) em 28/5/99



Debate na TV Cultura, programa Opinião Nacional
28 de Maio de 1999
O Uso da Informática na Educação

Entrevistador: Heródoto Barbeiro
Comentarista: Carlos Alberto Sardenberg
Debatedores: Valdemar Setzer e Eduardo Chaves

Heródoto Barbeiro:

Afinal, o uso da Informática na escola ajuda ou atrapalha? Os computadores estão cada vez mais presentes na sala de aula. Os estudantes usam programas de edição de texto, produção gráfica, softwares educacionais nos seus trabalhos escolares. O professor Valdemar Seltzer da USP considera esse uso prejudicial. Está aqui conosco o professor Eduardo Chaves da UNICAMP que defende a informática na educação. Muito bem. Nós convidamos os dois para um debate aqui. Professor Valdemar, boa noite. Professor Eduardo, boa noite.

Professor Valdemar, esta questão da utilização do computador na escola não nos remete a uma questão anterior? Eu me lembro quando saíram as máquinas de calcular. Aí eu cheguei para um professor de matemática, Professor Orivaldo Pereira, que era meu colega na época, e disse:

– “Escute, como fica esse negócio da maquininha de calcular? Então não é mais preciso saber fazer raiz quadrada, é só apertar o botãozinho”?

Aí ele me disse:

-“Olha, é como andar de bicicleta. Você sabe andar de bicicleta”?

Eu disse: -“Sei”.

-“Você desaprendeu a andar porque anda de bicicletas”?

Eu disse: -“Não”.

-“Então vamos usar as maquininhas que são os antepassados dos computadores”.

Eu gostaria de saber se o senhor concorda ou não com este professor que estou citando aqui.

Valdemar Setzer:

É interessante, Heródoto, que eu publiquei um artigo no jornal “O Estado de São Paulo”, contra o uso de calculadoras eletrônicas na educação elementar, muito antes de se falar em computadores na educação. Acho que foi nos anos 70 e qualquer coisa. Eu acho que aquele artigo tinha sido motivado por uma frase que foi dita por um famoso cientista da computação nos Estados Unidos, Joe McCarthy, dizendo que era um absurdo as crianças aprenderem aritmética em 1000 horas, quando podiam aprender em 10 horas a usar uma maquininha de calcular. Ocorre que essa pessoa não percebe que o aprendizado da aritmética, o decorar da tabuada, representa um esforço mental, um esforço rítmico. O desenvolvimento que a criança faz decorando a tabuada é muito mais importante do que simplesmente sabe-la de cor. Se se entregar a uma criança uma máquina de calcular muito cedo, a criança vai deixar de passar por essa fase de aprender essa abstração que é a tabuada. Terá deixado de fazer um treino mental essencial para o raciocínio e para a capacidade de memorizar.

Carlos Alberto Sardenberg:

Mas a criança pode treinar em outras coisas não pode?

Valdemar Setzer:

Não, porque a tabuada é algo único, do ponto de vista de desenvolvimento mental. Isso me lembra toda aquela discussão com a Matemática Moderna, que felizmente já desapareceu, a menos das pobres crianças e adolescentes que continuam a calcular o “conjunto verdade” das equações – um conceito puramente lógico-formal, uma equação considerada como uma asserção da lógica – em lugar de procurarem as “raízes” das mesmas. Eu ainda tenho a esperança de que outras coisas ainda vão desaparecer do ensino, outros modismos vão desaparecer, como o uso exagerado de definições. Um exemplo é o absurdo de se ensinar ilha como “um pedaço de terra cercado de água por todos os lados”, o que, além de estar logicamente errado, é uma definição morta, como todas as definições. Essa ilha não tem plantas, praias, rochedos no mar, vento, etc. – é uma ilha morta, e isso mata de certa maneira a imaginação das crianças e força-as a uma atividade mental inapropriada para a idade (talvez 8 anos). O raciocínio matemático, como por exemplo o envolvido no aprendizado da tabuada, é um raciocínio muito especial, abstrato, e ele tem que ser dado com muito vagar. Não há necessidade de se ter pressa, pois, afinal, estamos moldando a mente da criança. Nós vimos aqui no bloco anterior um vídeo sobre uma escola. Interessante que é justamente a escola onde minha esposa é médica, e todos meus filhos nela se formaram, onde eu dei aula de matemática por dois anos. Essa escola pertence a um sistema pedagógico mundial, a Pedagogia Waldorf (há mais de 1.000 escolas Waldorf no mundo, 4 aqui em São Paulo, com o ensino fundamental e médio). Essa pedagogia, que tem muito sucesso, de todos os pontos de vista (desenvolvimento intelectual, artístico e social), é totalmente diferente do usual. Por exemplo, todas as crianças fazem tricô no primeiro ano. Isso serve como preparação para a aritmética, porque no tricô é preciso contar os pontos e, como em uma conta armada, não se pode pular nenhum passo, perder nenhum ponto.

Heródoto Barbeiro:

Como se fosse um ábaco?

Valdemar Setzer:

É, no ábaco também se desloca uma pecinha ao lado da outra, mas ele exige muito menos coordenação motora; além disso, usa um sistema quinário que não é adequado para crianças pequenas como as da primeira série. Por outro lado, o tricô é uma coisa muito mais real, produzindo algo de utilidade. No decorrer dos anos, o tricô vai se tornando mais complexo: chega uma série em que todos os alunos fazem uma meia sem costura, usando 5 agulhas, depois cada um faz uma malha para si, e no colegial chega-se à tecelagem.

Heródoto Barbeiro:

Professor Eduardo, é assim que o ensino do século XXI, estamos na beirada do século XXI, é tricotando que nós vamos desenvolver o ensino do século XXI?

Eduardo Chaves:

Poderia até ser, mas não será só com isso… Eu queria, de início, em vez de falar do século XXI, falar um pouquinho do século V a.C.. Naquela época, Sócrates, por exemplo, se opôs ao uso da tecnologia da escrita (isto é, ao uso de materiais escritos, livros) na educação, principalmente por duas razões. Primeiro, disse ele, porque quando a gente usa um material escrito a gente não precisa guardar o conteúdo na memória (pois está sempre ali, disponível) e, assim, esse tipo de material não exercita e fortalece a memória. Segundo, acrescentou ele, porque com o livro você não pode dialogar: se você tiver vontade de fazer uma pergunta para o livro, já sabe de antemão que ele não responde… Para Sócrates, a educação era alguma coisa que deveria ter lugar entre duas pessoas, face a face, uma dialogando com outra… Para ele, o livro, ou qualquer material escrito, iria atrapalhar a educação, pois interferiria com esse diálogo interpessoal face-a-face…

Carlos Alberto Sardenberg:

O que era uma bobagem…..(risos)

Eduardo Chaves:

É verdade: essa foi uma grande bobagem socrática – o que prova que até grandes homens dizem besteira. A história é análoga à da bicicleta que o Heródoto mencionou: quando a gente aprende a andar de bicicleta, a gente não precisa abandonar o andar a pé. Hoje a gente nem se dá conta de que o livro é tecnologia, de que a gente usa o livro, usa uma série de outras coisas que são tecnologia, usa tudo isso na educação, com a maior naturalidade – sem, necessariamente, abandonar o diálogo socrático, que continua importante. Na verdade, a tecnologia até aumenta, exponencialmente, as possibilidades que temos de dialogar socraticamente – interpessoalmente, mas não face-a-face. Tricô é tecnologia: você precisa ter agulhas, você precisa ter uma receita a ser seguida, etc… Então, o que eu não consigo entender em posturas como a do Setzer, é por que a criança, que hoje é acompanhada pela tecnologia desde antes de nascer (faz exames de ultrassom, nasce num centro cirúrgico sofisticado, vai para casa de carro, que é uma tecnologia, em casa tem eletricidade, quando não tem uma babá eletrônica para informar os pais que a criança está chorando, etc.), não pode – ou não deve – aprender com o auxílio da tecnologia. Pelo que sei, o Setzer não se opõe, como Sócrates, a que a criança aprenda usando o livro, usando materiais de toda sorte que são tecnologia ou sub-produtos da tecnologia. Ora, por que singularizar, por que pegar computador e a máquina de calcular como bodes expiatórios e dizer: na hora de aprender a criança não pode – ou não deve – usar essas coisas aqui. Parece-me que fazer isso é quase cometer uma violência contra a criança, é dizer: olhe, o seu aprender, a sua educação não têm nada que ver com sua vida fora da escola: lá fora você usa toda a tecnologia disponível, mas aqui dentro da sala de aula você só pode usar as tecnologias do livro, do gis, do quadro-negro — ou do tricô. Não é esquisito?

Heródoto Barbeiro:

Professor Valdemar.

Valdemar Setzer:

Existe um ponto…

Carlos Alberto Sardenberg:

Pela teoria do professor, deveriam ser usados video games não tricô, não é?

Valdemar Setzer:

Exatamente. Acontece que a situação é bastante complexa. Existem vários pontos de vista. Veja como Sócrates ou Platão tinham toda razão. Antes da escrita era necessário fazer um esforço de memória, aliás, a memória era fantástica. Por exemplo, acredita-se que inicialmente a Ilíada e a Odisséia foram transmitidas de memória. Imagina-se que muito depois de Homero é que elas foram escritas; a humanidade estava perdendo essa capacidade de memória e por isso é que se precisou inventar a escrita e se precisou colocar a história em livro. Mas isso correspondeu a uma perda, claro (a propósito, uma perda necessária para se desenvolver a capacidade de abstração). Eu não sou contra o livro; eles são fantásticos e sua leitura é essencial para o desenvolvimento intelectual e emotivo dos jovens. Só que há idade certa para se começar a ler um livro; com pouco mais de 1 ano de idade pode-se começar a mostrar figuras infantis bonitas, artísticas – raridade nos livros infantis de hoje. Como nesse tipo de escola que vocês mostraram no vídeo no bloco anterior, eu não recomendo que as crianças aprendam a ler antes de 6,5 ou 7 anos, para não forçar uma abstração mental precocemente (as letras latinas são símbolos sem vida ou estética, hoje em dia). Esse aprendizado tem que ser muito lento, como o Herodóto conhece muito bem, porque os filhos deles freqüentaram uma escola que usa método pedagógico. É importante entender-se qual é a influência da tecnologia, dos aparelhos, sobre as crianças, e aí perguntar-se: existe idade adequada para começar a usá-los? Vou dar um exemplo por analogia – com isso termino, para o Eduardo também ter alguma chance. Alguém diria que uma criança de 7 ou até 10 anos devesse guiar automóvel? Certamente, não nesta cidade de São Paulo. O Eduardo Chaves tem a sorte de morar em Campinas, isso é como um sítio para nós, pois aqui nós estamos num caos total no trânsito. Bem, certamente ninguém iria dizer que uma criança de 7 ou 10 anos deveria aprender a guiar um automóvel, não tem coordenação motora, não tem responsabilidade, vai brincar no volante, etc. Por que não se faz um estudo, como eu fiz, de qual é a idade adequada para se usar um computador? Porque o desastre…

Heródoto Barbeiro:

Qual é a idade professor por favor?

Valdemar Setzer:

… o desastre que o computador produz não é físico como o automóvel. Esse é um desastre mental, é um desastre psicológico.

Heródoto Barbeiro:

E qual é a idade então, adequada?

Valdemar Setzer:

Bem, a idade que eu cheguei à conclusão nos meus estudos é que deveria ser depois da puberdade, idealmente aos 17 anos. O computador exige uma tremenda auto-disciplina, um enorme auto controle e grande maturidade. Imagine essas crianças todas tendo acesso à Internet sem nenhum controle, sem poder julgar o que é bom e o que é mal.

Heródoto Barbeiro:

Mas veja, o senhor não está comparando o computador com a televisão, mas aí nós vamos chegar no lugar da televisão…

Valdemar Setzer:

Eu gostaria que vocês me convidassem uma vez e vamos falar só contra a televisão (risos).

Heródoto Barbeiro:

Falaremos em outra oportunidade. O senhor também acha que o computador só deveria ser usado após a puberdade, professor Eduardo?

Eduardo Chaves:

Não. Eu sei que o Setzer tem um referencial teórico muito elaborado por trás das posições dele, ao qual ele fez menção: a Pedagogia Waldorf. Mas estou certo de que esse referencial, elaborado há muito tempo, não leva em conta o fato de que a criança de hoje é muito diferente da criança de 100 anos atrás, quando esse referencial foi desenvolvido. Acho que hoje a criança está preparada para a alfabetização muito antes dos 7 anos tradicionais e isso porque, dada a estimulação do meio, repleto de tecnologia, tem uma sofisticação cognitiva que lhe permite lidar com razoável tranqüilidade e naturalidade até com máquinas sofisticadas e abstratas, como é o caso do computador e de aparelhos de vídeo-game – sem que isso lhe cause qualquer efeito nocivo, no curto, no médio e no longo prazo, muito pelo contrário. Um jogo de vídeo-game estimula o sistema sensorial-perceptivo, o sistema psico-motor, o sistema cognitivo (o raciocínio) – muito mais do que o tricozinho do Setzer, ainda que feito com cinco agulhas (contra o qual não tenho nada, repito, desde que ele encontre uma criança que prefira aprender fazendo tricô a aprender jogando um vídeo-game, ou interagindo com um computador, ou, melhor ainda, interagindo com seus colegas através do computador).

Heródoto Barbeiro:

Olha, tenho duas manifestações aqui já, uma do Sr José Roberto Rosa que é gerente de tecnologias e diz o seguinte: “Segundo algumas projeções de evolução do processamento de inteligência artificial, no ano 2019 o micro de U$1000 terá a capacidade de um cérebro humano. Imagino como será a sociedade e que educação precisará ter hoje.” O senhor Alexandre Ramalho, que é professor universitário, diz: “Sou radicalmente contra a utilização do computador no ensino fundamental. As crianças não devem primeiro aprender a usar o cérebro? Posteriormente poderão aprender a utilizar os magníficos recursos dessa informática.”

Valdemar Setzer:

Exatamente.

Eduardo Chaves:

Uma coisa não exclui a outra, professor Ramalho: a criança pode muito bem aprender a usar seu cérebro usando a melhor tecnologia disponível hoje. Ficar ouvindo um professor que usa, como tecnologia, apenas a voz, o giz e o quadro negro (como o faz a maioria dos professores universitários) não me parece ser uma forma muito eficaz de aprender a usar o cérebro – a não ser, talvez, como repositório de informação, muitas vezes inútil, não raro doutrinária. Uma das formas mais eficazes de aprender a usar a nossa capacidade cognitiva é interagindo com o nosso ambiente natural, humano e tecnológico (i.e., artificial), tentando resolver os problemas que esse ambiente apresenta… e esse meio ambiente hoje é repleto da mais variada e poderosa tecnologia. Nós encontramos tecnologia sofisticada hoje em todo e qualquer lugar. Tentar fazer com que a educação escolar abstraia desse universo tecnológico em que a criança vive, para que apenas depois, lá pelos 17 anos, ela subitamente comece a interagir com esse ambiente todo, me parece, no mundo em que nós vivemos hoje, mais do que irrealista: é um grande desperdício de oportunidades educacionais.

Valdemar Setzer:

Isso depende dos pais e da escola. Felizmente nós estamos num país onde se pode ter e fazer dentro do lar aquilo que se quiser, desde que não se maltratem as crianças. Pode-se organizar o próprio lar da maneira como a gente escolher, não há imposição quanto a isso. Então é muito simples, e eu apelo para os pais pensem, estudem, reflitam: não há a mínima necessidade de uma criança usar o computador…

Heródoto Barbeiro:

Isso é um modismo, na opinião do senhor?

Valdemar Setzer:

Não é só um modismo, é um tremendo mercado, por que atende os interesses dos fabricantes e não da sociedade – se bem a sociedade está sendo induzida a consumir computadores, isto é, está com seus interesses bem deturpados.

Carlos Alberto Sardenberg:

Há estatísticas a respeitos disso, por exemplo, avaliar o desempenho de alunos de escolas que usam o computador e não usam o computador? Há modos de medir isso?

Valdemar Setzer:

Sim, eu gostaria de citar dois estudos, aliás os dois da mesma universidade de Carnegie Mellon, uma das melhores universidades americanas. Um deles é um estudo que foi publicado há alguns meses, em que se demonstrou que o uso da Internet produz aumento de depressão e antisociabilidade. Foi uma surpresa porque inclusive esse estudo foi financiado por Bill Gattes & Cia., que queriam resultados exatamente contrários. Um outro estudo foi muito interessante e diz respeito direto à nossa questão aqui. Eu li uma referência a esse estudo em uma tese que acabei de receber há pouco tempo pela Internet (risos) de Lowel Monkey, professor secundário nos Estados Unidos, que fez doutorado numa universidade americana. Ele cita uma pesquisa, naquela mesma universidade, em que se examinou o resultado de testes de matemática de crianças que tiveram aulas de uso do computador, em comparação com outro grupo de crianças que não teve aulas de uso do computador, mas estudou música, estudou piano. O resultado daqueles que estudaram piano foi muito melhor nos testes de matemática dos que tiveram computador. Na sua tese, Monkey cita que ele era membro de um conselho de tecnologia das escolas secundárias lá da sua cidade, Des Moines, capital do estado de Iowa, nos EUA. Ele escreveu um relatório dizendo que, baseado, naquele estudo, não se deveria embarcar na campanha do presidente Bill Clinton de instalar um computador em cada sala de aula; o correto, do ponto de vista educacional, seria instalar um piano em cada sala de aula, pois o resultado seria muito melhor. Eu gostaria de acrescentar o seguinte. Todas as experiências de uso de arte em qualquer ambiente escolar, prisão, FEBEM (que é o caso do magnífico projeto Guri, de ensino de música e formação de orquestras juvenis), dá resultados extraordinários, como pode ser verificado nas escolas Waldorf, onde há um intenso ensino artístico. O computador não dá resultados extraordinários, pelo contrário, em minha conceituação ele é extremamente prejudicial à formação intelectual, sentimental e volitiva das crianças e jovens. Isso está sendo comprovado cada vez mais por pesquisas estatísticas.

Eduardo Chaves:

Ninguém está defendendo que se use apenas a tecnologia na escola, em detrimento de tudo o mais, que a escola abra mão do uso da pintura, da música, da arte em geral. Algumas dessas pesquisas mostram que se o indivíduo ficar fixado no computador 10 ou 12 horas por dia, ele pode sofrer efeitos nocivos para a sua personalidade, da mesma forma que se ele ficar trancado numa biblioteca, lendo 12 horas por dia, se ele não tiver uma vida social, se não se movimentar, brincar, correr, se não fizer outras coisas além de ler, isso também pode prejudicá-lo…

Carlos Alberto Sardenberg:

E se ele ficar a tarde inteira decorando tabuada?

Eduardo Chaves:

… É a mesma coisa. Falou-se no início sobre o suposto mérito da memorização. Eu não vejo mérito algum na memorização como tal, em decorar tabuada ou coisas desse tipo. O importante é saber o que fazer com as informações que estão disponíveis para nós. Se eu compreendo a natureza das operações aritméticas, sei quais são as operações que precisam ser feitas para resolver um problema, e faço essas operações usando a máquina de calcular ou o computador (e não de memória – ou usando papel e lápis, que, convenhamos, são tecnologias…), eu não preciso ter presente na memória o tempo todo o algoritmo que me permite multiplicar ou dividir dois números, extrair raiz quadrada, etc. Eu sei quais são as operações, vou ali na maquininha e as faço – pronto, problema resolvido. Então o suposto mérito de memorizar a tabuada, ou os algoritmos necessários para extrair a raiz quadrada, ou as declinações e conjugações latinas, como se fazia antigamente, é uma coisa, na melhor das hipóteses, sobre-valorizada – na pior das hipóteses, uma perda de tempo terrível. Certamente nossa capacidade de memorizar foi reduzida com as várias tecnologias que surgiram, com o aparecimento do livro, com o surgimento da máquina de calcular, com a presença ubíqua do computador entre nós… Mas nós certamente ganhamos em nossa capacidade de armazenar informações fora da memória e em nossa capacidade de processar a enorme quantidade de informações armazenadas em meios externos e disponíveis a qualquer momento. Ganhamos na forma de processar essa informação, de analisá-la, de raciocinar em cima dela, de colocá-la a bom uso. Pode parecer um truísmo, mas podemos fazer, utilizando a tecnologia (com o seu auxílio ou apoio), boa parte das coisas que também podemos fazer sem ela. E podemos fazer, com a tecnologia, coisas que é muito difícil (ou mesmo impossível) fazer sem ela. E, assim, ainda teremos até mais tempo para fazer as outras coisas, aquelas que não podemos fazer com a tecnologia, do jeito que devem ser feitas: a pintura, o teatro, ou o tricô do Setzer…

Valdemar Setzer:

Eu gostaria de citar mais um fato. Não sei se o Eduardo Chaves sabe disso:existem várias universidades americanas que estão com aconselhamento psicológico para estudantes que são viciados na Internet, porque ela está prejudicando seus estudos de uma maneira extraordinária. Eu pergunto aos senhores o seguinte: alguém já ouviu falar de “rato” de biblioteca que fosse mal nos estudos?

Eduardo Chaves:

O problema, Setzer, não é a Internet: é o vício. Ser viciado em qualquer coisa é sempre ruim – ainda que o objeto do vício seja, fora do contexto do vício, alguma coisa boa.

Valdemar Setzer:

Um aluno viciado em biblioteca não irá mal nos estudos.

Eduardo Chaves:

Isso me faz lembrar a história do indivíduo que era alcoólatra. Um dia quiseram mostrar para ele o mal que o álcool fazia ao organismo e jogaram um ovo fresco dentro de um copo com pinga: o ovo imediatamente ficou cozido. O alcoólatra olhou e falou: puxa vida, de hoje em dia não como mais ovo… (risos….). O problema é o vício, não é a Internet. Qualquer coisa em excesso, até uma coisa boa, é prejudicial. Um aluno que se trancafie na biblioteca 12 horas por dia, lendo o tempo todo, e não fazendo outra coisa, pode até não ir mal nos estudos, mas irá terrivelmente mal na vida.

Valdemar Setzer:

Repito, nenhum aluno viciado em biblioteca foi mal nos estudos. Isso mostra que o computador e a Internet têm uma influência maléfica especial. Mas estou de acordo quanto aos prejuízos sociais, se isso prejudicar o convívio social, mas isso aplica-se a qualquer vício. A segunda coisa que você falou foi o latim. Aqui eu gostaria de citar uma historinha que se conta de um dos fundadores do ensino da matemática superior na antiga Faculdade de Filosofia da USP, um daqueles famosos matemáticos europeus, franceses e italianos, talvez Fantapié, Dieudonné ou Alabanesi, que estiveram aqui, acho que evitando o nazismo. Perguntou-se a ele o que se deveria ensinar no colegial ou na escola para que ele recebesse posteriormente bons alunos de matemática no ensino superior. Sabem o que ele respondeu? “Por favor, não ensinem matemática, ensinem latim”. Vejam a sabedoria, a intuição que havia naquela época. Porque quando se estuda o latim faz-se um intenso desenvolvimento de raciocínio lógico, em cima de uma linguagem natural. Hoje em dia essa língua está morta, mas existiu. É uma linguagem natural, não é uma linguagem simbólica, formal como a matemática…

Eduardo Chaves:

… Mas dá para estudar lógica em cima de uma linguagem viva…

Valdemar Setzer:

…mas o latim tem uma estrutura lógica que hoje em dia é difícil de encontar em outras linguagens. Por exemplo, nele a ordem das palavras não interessa, as declinações dão o sentido de um sujeito, de um objeto direto ou indireto, etc. A capacidade de raciocinar que o Eduardo Chaves mencionou pode ser desenvolvida com o latim. Na estou advocando que se volte a ensinar latim, como era obrigatório no Brasil inteiro, por 4 anos, quando eu estava o antigo ginásio (atuais 5ª a 8ª séries). Ele mencionou uma outra palavra antes: chamou o computador de máquina abstrata. De fato, o computador é uma máquina puramente matemática, isso pouca gente sabe. Ele é uma máquina abstrata porque nós podemos descrever todas as funções que ela exerce por meios matemáticos, estritamente formais. A linguagem que se usa com o computador, pode ser digitando algum comando, control + C por exemplo, ou então selecionando um ícone, é estritamente formal, ela não tem ambigüidades como as linguagens naturais…

Eduardo Chaves:

Eu como usuário posso muito bem usar o computador sem fazer uso dessas linguagens formais que são necessárias para programá-lo.

Valdemar Setzer:

Não, é impossível. Eu não estou falando de linguagens de programação, que obviamente são formais, mas nos comandos que é necessário dar no uso de qualquer software. Na hora que você aciona um ícone sempre a mesma função matemática de manipulação de símbolos vai ser executada pelo computador. As pessoas não percebem isso, mas no fundo quando se usa o computador com qualquer programa, por exemplo com um editor de textos (não precisa ser na confecção de um programa, onde o formalismo lógico-matemático é óbvio), também se está usando uma linguagem formal. Qual é a conseqüência disso?

Heródoto Barbeiro:

O resultado é sempre o mesmo?

Valdemar Setzer:

Sim o computador é uma máquina totalmente determinista. É isso que faz o computador ser uma máquina tão potente: sempre que ele está em certo estado, por exemplo apresentando alguma coisa na tela, apertando-se uma tecla – tanto faz qual é a pessoa que aperte aquela mesma tecla –, ele vai sempre fazer a mesma ação; trata-se de um processo matemático. Agora, qual é a conseqüência disso? Que o computador força, induz, um pensamento lógico-simbólico. Por exemplo, os ícones são símbolos, os caracteres são símbolos, constituindo uma linguagem lógico-simbólica. Portanto e ele força um tipo de raciocínio, um tipo de pensamento, lógico-simbólico, e aí é que vem o problema. Na minha concepção não é correto que se force crianças a pensar dessa maneira: vai ser prejudicial posteriormente.

Heródoto Barbeiro:

Professor Eduardo, gostaria de ouvir o comentário do senhor, porque o nosso tempo está esgotando.

Eduardo Chaves:

Certamente o computador é uma máquina abstrata, lógica, determinista. Mas é possível usá-la de forma concreta, não determinista, até ilógica. Vou usar uma comparação para ilustrar o que estou dizendo. A linguagem que usamos – a linguagem escrita mais do que a falada – é uma tecnologia abstrata, lógica, determinista. É abstrata porque usamos símbolos para representar entidades (reais ou fictícias), características e atributos (empíricos ou abstratos), conceitos de vários tipos. É lógica porque esses símbolos precisam ser usados de acordo com certas regras. E é determinista: exceto em situações muito especiais, não temos liberdade de inovar à vontade no uso desses símbolos e nas regras que os governam. E, no entanto, a despeito de tudo isso, somos capazes de usar a linguagem não só em contextos matemáticos e científicos, admitidamente rigorosos, mas para registrar eventos, para narrar histórias (reais ou inventadas), para criar contos fantásticos, surrealistas ou pós-modernos, para compor poemas que inspiram e nos fazem sentir que a vida vale a pena. O mesmo vale para o computador. Ele é, lá dentro dele, uma máquina abstrata, lógica, determinista. Mas nós o usamos – o mundo inteiro o usa – para conversar com os entes queridos pela Internet, para trocar e visualizar fotos, para compartilhar e ouvir músicas, para distribuir nossos ensaios literários e nossos poemas, para registrar nossas viagens em textos e imagens… Tudo isso é concreto e nada tem de lógico ou determinista. Toda a estrutura abstrata, lógica, determinista do computador está lá, mas ela não é visível para mim, ela é transparente, eu não a enxergo – e posso usar o computador para fazer coisas que não são condicionadas por essa infra-estrutura tecnológica. Concentrar a atenção, como se fosse, nos intestinos do computador, da forma que o faz o Setzer (algo até compreensível para quem é um cientista da computação, mas que implica um reducionismo terrível), é deixar de lado o fato de que com o computador nós podemos fazer uma multidão de coisas extremamente úteis e importantes – como, por exemplo, interagir e dialogar com nossos semelhantes, aceder às informações de que precisamos para fazer aquilo que desejamos, etc. Interação humana, acesso a informações, manipulação de informações, etc. são atividades essenciais para o mister de aprender, de educar, de viver.

Heródoto Barbeiro:

Eu quero agradecer a presença dos dois, professor Valdemar e Professor Eduardo. Quero dizer que vocês acabaram de responder o senhor Romildo Neto, de São Paulo, e o comentário do senhor Cláudio Teles, Salvador na Bahia: “Devemos olhar os mais nobres valores de conduta, noção de vida, sociedade e respeito ao próximo. Felizmente, o computador não tem condição de transformar indivíduos e seres humanos”.

Valdemar Setzer:

Na minha concepção, transforma, sim, pois atua no nível mental. No caso de crianças, para muito pior. Por favor, sobre isso, leiam os artigos em meu site. Insisto em que o computador impõe certo tipo de pensamento, que é inadequado para crianças e adolescentes. Há várias pesquisas mostrando que, quanto mais um aluno usa o computador, pior o seu rendimento escolar. Uma das razões que se dá é o tempo que a criança ou adolescente perde com o computador, prejudicando suas outras atividades, inclusive o estudo. Isso é óbvio. Mas eu vou muito mais a fundo: preocupa-me a influência no tipo de pensamento e na linguagem lógico-simbólicos. Isso obviamente não ocorre quando uma criança está digitando um e-mail, mas na hora de enviar o e-mail, ela usará um comando que, no fundo, é matemático, pois dispara funções matemáticas dentro do computador. Como exemplo de prejuízo, tenho certeza que algum dia uma pesquisa mostrará que o computador prejudica a imaginação (o que ocorre com também qualquer aparelho que use tela), e portanto a criatividade, bem como induz indisciplina mental. Gostaria ainda de salientar o que já disse: não há necessidade de se começar a usar o computador e a Internet muito cedo. Quase todos os que têm mais de 40 anos hoje não os usaram quando crianças, e não tiveram dificuldade de aprender a usá-los quando adultos.

Eduardo Chaves:

Só uma observaçãozinha final, curtinha… Um dos grandes males da escola é tentar impingir sobre as crianças um modelo de aprendizagem, fazendo de conta que é o único. As crianças, tradicionalmente, acreditavam que ouvir o professor falar, ler o que ele escrevia no quadro-negro, e fazer anotações no caderno era o único jeito de aprender. Hoje, quando têm acesso a uma tecnologia sofisticada que lhes permite aprender de várias outras formas – pesquisando, discutindo, criando modelos, fazendo simulações, resolvendo problemas que consideram importantes – é natural que se dêem conta de que o modelo de aprendizagem que a escola tenta lhes impor deixa muito a desejar e, por isso, que percam ainda mais o pouco interesse numa escola que mantém esse paradigma hoje ainda, infelizmente, vigente – e que seu rendimento escolar caia.

Heródoto Barbeiro:

O debate segue na Internet, via computador. Os dois participantes têm nas suas páginas artigos sobre o assunto. O endereço do professor Valdemar é http://www.ime.usp.br/~vwsetzer. A home page do Projeto Edutecnet do professor Eduardo é: http://edutec.net [hoje, 15/6/2015: https://liberal.space/ e http://facebook.com/eduardo.chaves) O debate vai seguir lá com certeza, mais animado depois da participação dos dois aqui. Muito obrigado aos dois.

[A transcrição deste debate foi feita, a partir de fita gravada, por Lourdes Matos, do grupo de discussão EduTec, que eu criei e coordenei de 1998 a 2001. Ela foi revista pelos entrevistados em abril de 2008; eles tentaram conservar os argumentos e conhecimentos da época. EC ]

Debate gravado em São Paulo, na TV Cultura, em 28/5/1999; transcrito em uma versão anterior do meu blog em 14/4/2008; e, posteriormente, transferido para WordPress; revisto em 15/6/2015


Ha Long Bay

São 5h50 do sábado, dia 12 de abril de 2008. Escrevo de dentro da minha cabine no barco-cruzeiro Bhaya (vinte cabines), em plena Ha Long Bay — uma das coisas mais lindas que a natureza já aprontou. Lá fora (vejo pela janela da cabine) parece que será mais um dia brumoso, como quase todos os que passei aqui no Vietnam. Mas as formações rochosas ficam ainda mais impressionantes com as brumas: assumem um ar que, além de “misty” (brumoso), é também “mystic” (místico). Da minha janela vejo o Emeraude, outro barco cruzeiro — este mais parecido com os famosos barcos do Mississipi: branco, com aquela roda que era usada para fazer o barco andar mas que hoje é apenas decorativa. O meu barco, o Bhaya, é de madeira escura e tem um design mais adequado ao ambiente. Tem quatro andares (decks): dois com cabines (dez cabines em cada deck), um em que fica a sala de refeições, e a upper deck, para tomar sol (quando há) e simplesmente contemplar a natureza.

Boa parte dos que participam desta viagem devem estar, agora, fazendo aqueles exercícios “taichi”. Eu prefiro ficar aqui. O café será às sete. Depois subirei para dar uma olhada no taichi.

Vim para cá com Les Foltos, meu amigo da área de Seattle, criador e implantador mundial de Peer Coaching. Saímos do hotel Sheraton em Hanoi ontem às 8h da manhã, num taxi, e viemos para cá — uma viagem de quase quatro horas. Chegando a Ha Long, pegamos o Bhaya, tomamos um drink de boas-vindas, almoçamos, e ficamos observando a baía. Vejam as fotos nos sites indicados abaixo.

À tardinha paramos para visitar uma fantástica caverna — cujo nome não consegui registrar (mas há uma foto abaixo). Mas registrei o cenário em centenas de fotos (que aos poucos irei compartilhando). Depois da caverna visitamos ainda uma vila de pescadores que moram em casas-barco, em cima da água o tempo todo. Depois tomamos uma taça de vinho, vim tomar banho (tudo funciona — a cabine é excelente: estou na 108 e o Les na 107, em frente), subi, tomamos mais uma taça de vinho, e jantamos (comida de primeira) — acompanhados de uma garrafa de vinho chileno.

Depois passaram o filme Indochine, com a Catherine Deneuve, que eu já comentei aqui, mas não agüentei ver até o fim — foi muito vinho antes do filme… Vim deitar. Hoje me levantei às 5h, tomei banho, arrumei minhas fotos… e estou aqui.

Em suma, um passeio absolutamente fantástico.

Ha Long Bay é candidata a uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo (não confundir com o concurso anterior das Sete Maravilhas Artificiais do Mundo). Deveria ganhar. A impressão visual que o conjunto fornece é incomparável.

Eis aqui algumas referências e fotos:

http://en.wikipedia.org/wiki/Halong_Bay

http://www.halongbay-vietnam.net/photos/index.htm

http://www.halongbay-vietnam.net/halong_bay_overviews.htm

http://whc.unesco.org/en/list/672

http://www.voteforvietnam.com/

Em Ha Long Bay, 12 de Abril de 2008

Flashes matutinos

Estava descendo para tomar café da manhã, agora há pouco, e entraram no elevador quatro distintas senhoras, de cabelos branquinhos, todas elas claramente acima de 75 anos. Gentis, sorriram, me cumprimentaram… Eu puxei prosa:

"Where are you all from?"

"New Zealand", responderam — e perguntaram: "What about you?"

"Brazil", disse eu.

"Ah", continuou uma delas, com aquela franqueza que só crianças e, pelo jeito, pessoas bem idosas têm: "Sorry to hear about that!"

Fui pego de surpresa e não tive a presença de espírito de perguntar por quê… Poderia ter aprendido alguma coisa útil.

Ao sair do elevador, uma comoção: estavam instalando um enorme, e grosso, tapete vermelho, da saída do elevador até a calçada onde se tomam os carros. Evidentemente, para o presidente da Bielo-Rússia.

Político é bicho vaidoso em qualquer lugar. Vaidoso aqui é eufemismo, naturalmente. Xô…

Em Hanoi, 7 de Abril de 2008

Bielo-Rússia (ou Bielorrússia)

Ontem, ao voltarmos do restaurante, à noite (por volta de 22h30), encontramos um circo de segurança montado na entrada do hotel. Detectores de metais, aparelhos de Raios X para bolsas e pacotes, policiais por todos os lados…

Explicação: o presidente da Bielo-Rússia estava hospedado no hotel… Se você tem alguma dúvida sobre onde fica a Bielo-Rússia, veja na Wikipedia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bielorrúsia 

Diz o artigo:

"Nos anos 1980, a Bielorrússia é reduto da resistência comunista às reformas democratizantes do presidente soviético Mikhail Gorbachev. Em agosto de 1991, a independência da Bielorrússia é proclamada, e o país integra a Comunidade dos Estados Independentes (CEI)."

Por aí se vê que o país foi contra o fim do Comunismo… Gente finíssima. Não é à toa que precisam de segurança desse jeito, mesmo num país comunista.

Em Hanoi, 7 de Abril de 2008

O trânsito de Hanoi

Ontem, domingo à noite, saí para jantar com alguns amigos — fui ao Bobby Chinn Restaurant, sobre o qual coloquei uma notinha aqui. Fomos de taxi, eu sentado na frente, junto ao motorista (estávamos em quatro). O trânsito estava animado mas não muito intenso. Mas a bagunça é inacreditável. Nunca vi coisa igual – nem mesmo em Istambul.

Exceto em raríssimos locais, não há farol. Não há sinal de PARE. Não há faixas de rolamento pintadas no chão. O que seriam as faixas de rolamento na direção contrária são aproveitadas para dirigir na contramão, empurrando quem vem na mão certa para a faixa mais da direita ou para cima da calçada. Enfim, todo mundo dirige por todo lugar… Parece uma largada de Fórmula 1, como foi a do Bahrain ontem: carro passando por tudo quanto é lado. Carros brigando com outros carros, todos brigando com as motos. Brigando é modo de dizer. Eles buzinam e dão sinal de luz, mas ninguém parece se importar com isso.

Nas motos, jovens, velhos, senhores, senhoras, senhoritas, casais… Em toda a bagunça, duas senhoras andando de moto lado a lado — e conversando uma com a outra, enquanto dirigiam. Meu amigo Vincent Quah me contou que já viu dois motoqueiros dirigindo tranqüilos no trânsito caótico, carregando uma viga de madeira de mais ou menos oito metros — no ombro de cada um, uma moto na frente, a outra atrás, a viga ligando as duas…

Os cruzamentos em que não há farol — a maioria — são um exercício em aventura. Todo mundo vai entrando. Parece que vão bater mas se desviam um do outro. Gente que está na esquerda querendo virar para a direita, e vice-versa. Houve um cruzamento em que deveria haver um balão: havia pelo menos umas seis ruas chegando no mesmo lugar, mas não havia balão nenhum. Uns queriam passar direto, outros queriam mudar de direção, nunca se  sabia exatamente quem ia fazer o quê. Compreendi porque buzinam e dão sinal de luz. Pelo jeito ninguém usa espelhos retrovisores. Eles vão enfiando o carro ou a moto, ou vão deixando o carro ou a moto "escorregar" para onde querem ir, e se ninguém buzina, eles continuam; se buzina, eles param momentaneamente de enfiar ou carro ou a moto e tentam de novo — na expectativa de que o outro vai deixar que passem ou entrem. Uma loucura.

Não é difícil, também, encontrar um carro parado do lado esquerdo de uma rua movimentada de uma mão só. Às vezes estacionado lá — com duas rodas em cima da calçada. Motos estacionadas em lugares em que obviamente deveria ser proibido estacionar também é comum.

Para nos deixar do lado do restaurante, a fim de que não tivéssemos de cruzar a rua, o motorista do taxi foi entrando no lado oposto da pista, na contra mão, devagarinho, buzinando, dando sinal de luz, desviando dos carros e motos que vinham em direção contrária, até que encostou na calçada do lado do restaurante — mas virado para a direção errada do fluxo de trânsito. Como ele, motorista, ficou do lado da calçada, fez sinal para que eu não saísse. Deu a volta, estendeu o braço assim na horizontal,  meio que, simbolicamente, empurrando o tráfego para longe, para criar um espaço protetor no qual eu pudesse sair do carro pelo lado do trânsito sem ser atropleado e dar a volta para entrar no restaurante… Fui direto pro bar e pedi uma vodka Finlandia… 

Fico pensando no Seymour Papert, atropelado aqui por uma moto, e que nunca mais recobrou sua saúde. A gente fala do trânsito de São Paulo, com os motoqueiros dirigindo entre os carros, mas o trânsito de São Paulo é um modelo de ordem, comparado com o daqui.

Em Hanoi, 7 de Abril de 2008

Bobby Chinn Restaurant

Ontem estive nesse restaurante. Vide http://www.bobbychin.com/. Simplesmente fantástico — e não tão caro, para padrões internacionais.

O ambiente é sofisticado, chique, agradável. Bobby Chinn aparece com freqüência, conversa com clientes, explica e sugere pratos… Há uma biografia dele no site.

O restaurante fica no coração da Hanoi velha, numa esquina. O bar é distinto e tem ampla seleção de bebidas.

Ninguém que venha a Hanoi deve perder.

Em Hanoi, 7 de Abril de 2008

L'amant

Eis a sinopse do filme com esse nome que fornece a International Movie Data Base (IMDB – http://www.imdb.com): "It is French Colonial Vietnam in 1929. A young French girl from a family that is having some monetary difficulties is returning to boarding school. She is alone on public transportation when she catches the eye of a wealthy Chinese businessman. He offers her a ride into town in the back of his chauffeured sedan, and sparks fly. Can the torrid affair that ensues between them overcome the class restrictions and social mores of that time? Based on the semi-autobiographical novel by Marguerite Duras".

Uma outra sinopse, essa em Português (de Portugal), afirma: "Baseado no romance homónimo de Marguerite Duras, que vendeu mais de um milhão de cópias em mais de 43 línguas, esta sofisticada adaptação das suas ‘memórias de juventude’ transborda de paixão. Com uma interpretação primorosa e uma fotografia admirável, ‘O amante’ capta de forma brilhante a essência do despertar sexual e do desejo proibido, como nenhum filme o fez até hoje. Jane March é fascinante no papel de uma pobre adolescente francesa que na década de 1920 conhece um importante e abastado diplomata chinês (Tony Leung) durante uma travesia do rio Mekong. Fascinada pela riqueza e elegância dele, a jovem deixa-se levar pela vertigem do amor e os dois envolvem-se numa relação clandestina e tórrida. Mas se os amantes conseguem ultrapassar as diferenças de idade, raça e classe, a sociedade colonial francesa da Indochina jamais permitirá que se ultrapassem as diferenças culturais." (Vide http://www.dvdpt.com/o/o_amante.php).

Mais um filme sobre a Indochina — i.e., Vietnam. Não havia me esquecido dele. Na verdade, quando escrevi sobre Indochine, lembrei-me dele — mas não tinha certeza de que a história era passada na Indochina. Foi. Tinha a impressão de que a menina estava indo para Shanghai. Não sei de onde saiu isso…

L’amant não tem a classe de Catherine Deneuve, mas tem a incrível beleza e total sensualidade de Jane March — fazendo o papel de uma adolescente — quando ela msmo, como pessoa e atriz, não era muito mais do que isso. Há quem jure que as cenas de sexo que ela faz com Tony Leung no filme foram reais — certamente parecem. E o filme, baseado no livro de Marguerite Duras, se não é totalmente autobiográfico, contém inúmeros elementos autobiográficos — o que o torna mais interessante ainda. Na verdade, se é mesmo autobiografia, e se a gente pode confiar em autobiografias, o enredo da história é a vida da autora.

Dois anos depois desse filme, Jane March, talvez alicerçada na reputação de sensualidade que L’amant lhe deu, fez outro papel "quente", desta vez ao lado de Bruce Willis, em Color of night (1994).

Em Hanoi, 5 de Abril de 2008

A face ainda feia do Comunismo

A despeito de todas as tentativas de mostrar uma face humana e competente para o mundo, o novo Comunismo chinês, que deu uma guinada capitalista na economia, continua com sua face feia no plano político. A questão do Tibet é a maior prova disso — mas está longe de ser a única. Um dissidente acaba de ser punido com pena de três anos e meio na prisão porque escreveu ensaios que foram considerados subversivos.

Liberdade econômica não consegue sobreviver por muito tempo sem liberdade política. Em algum momento, ou aparece a liberdade política, ou a liberdade econômica acaba desaparecendo.

Vamos ver o que acontece com a China.

A despeito disso, Raúl Castro parece acreditar que o caminho para o Comunismo cubano é imitar a China. Está permitindo que os cubanos usem o que resta ao final do mês de seu pobre salário (menos de 20 dólares por mês — isto é, cerca de 60 centavos de dólar por dia — por quanto é que se alardeia que os miseráveis da África vivem? Um dólar por dia!!!) por panelas elétricas, telefones celulares, etc…

Os três artigos abaixo, todos eles retirados do site do International Herald Tribune, todos eles comentam esses tópicos. Recomendo a leitura. E recomendo o site.

Em Hanoi, 5 de Abril de 2008

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International Herald Tribune, 3 April 2008
http://www.iht.com/articles/2008/04/03/asia/letter.php

LETTER FROM CHINA

China again cues up its propaganda machine

Letter from China

By Howard W. French

Published: April 3, 2008

SHANGHAI: Mao Zedong announced the tune himself, in 1927, when he wrote: "A revolution is not a dinner party, or writing an essay or painting a picture or doing embroidery; it cannot be so refined, so leisurely and gentle, so temperate, kind, courteous, restrained and magnanimous. A revolution is an insurrection, an act of violence by which one class overthrows another."

For the next half-century, China was one of the most violent places on earth, and not just because of the vicious foreign invasion and civil war that swept the country, or the ceaseless purges of supposed traitors and class enemies. There was also the matter of language, which in China has been both an underrated means of violence and a vehicle for it.

Mao’s state created a propaganda system built on a crude triage: a world of heroes who were unalterably and impossibly good, and an even larger one of villains who were irredeemably, cartoonishly bad. Over-the-top became the routine in official rhetoric. Enemies were called "monsters" and "cow ghosts," "snake spirits" and "running dogs." And in one campaign after another the public was called upon to "resolutely crush" or "relentlessly denounce" them.

This was a universe of variable geometry, where people were not to reason things out on their own, but to fall in line. Today’s hero could be tomorrow’s villain, with no clear evidence or explanation. The sole moral compass point was the immoral leader himself, Mao, who to this day remains a sacred cow whose likeness peers out from every bank note.

In recent years, it had seemed as if this movie had been retired, but last month the production was cued up once again. The bad guy this time has been the Dalai Lama, the exiled Tibetan spiritual leader, and the fact that outside China this villain is one of the world’s most admired people has only caused the propagandists to ramp up the volume.

For the purpose of the cause he has been turned into a canine and called a "wolf in monk’s robes," "a wolf with a human face and heart of a beast" and the "scum of Buddhism." In case anyone missed the message, the government has also called the struggle against the Dalai Lama "a life-and-death battle."

The Chinese public should by now recognize all the signs of an old-fashioned political campaign and, given the state’s history of manipulation, immediately mark a long, skeptical pause.

It’s not clear, though, if that’s how it worked this time. The propaganda means of the Chinese state remain overwhelming, as is its inclination not just to shape opinion, but to corral it, playing on what the documentary filmmaker Tang Danhong called the "great Han chauvinism," referring to the dominant ethnic group, a chauvinism that has been evident throughout the Tibetan crisis.

After watching the first week of heavily propagandized television coverage here over dinner recently – reporting that focused almost exclusively on images of lawless Tibetan rioters smashing shops in Lhasa, along with the images of ethnic Han victims of the violence, typically recovering in the hospital – a senior Chinese newspaper editor eagerly questioned me about what was "really happening in Tibet."

The question was scarcely out of his mouth when he added: "When people see the kind of one-sided propaganda that’s been in the media here, nobody trusts it anymore."

This might be reassuring, were it true, but the next few days provided many causes for doubt. A young Chinese acquaintance who is a journalist sounded a troubled note in an e-mail message to me: "I read some news reports recently and am confused why the Western media reports on Tibet are inconsistent with the facts? Like they only report on the Chinese police but not the thugs attack the innocent people and the police? And even worse, why are they reporting lot of false and prejudiced news?"

The irony here, of course, is that Western coverage, whatever its faults, generally detailed the street violence in Lhasa, despite being barred access to Tibet by a country that made a big to-do last year over having supposedly lifted restrictions on the movements of international journalists in China.

Unlike the heavily controlled domestic press, the Western media also reported on the largely peaceful sympathy protests that unfolded over a broad stretch of the Tibetan plateau. They generally sought to give at least two sides to the story and questioned Beijing’s assertions about Tibetan protesters and about their spiritual leader, the Dalai Lama, in the textbook way an independent press should.

Beyond the headlines, though, this crisis tells us a lot about China, and although the government may still have the means to control opinion, the more strenuously it has pressed its case, the less the picture of the country concurs with the image that China so eagerly wishes to promote of itself to the world.

China has invested hugely in its hosting of the Olympic Games in August with the idea of introducing itself as an overwhelming success story: increasingly prosperous, harmonious and forward-looking. The first statement is certainly true, but one needn’t be an enemy of Chin
a, as the propagandists would have it, to question the other two.

This may yet turn out to be China’s century, but it seems clearer than ever there’s a lot of work to do, reforming an awfully rickety system, rethinking policies built on bald fictions, such as the "autonomous regions" in China’s west, and learning to deal with criticism without turning it into a matter of ethnic pride or betrayal.

The official slogan of the Games may be "one world, one dream," but that’s not the feeling one gets listening to the state’s organs. It is an ugly, wound-nursing nationalism one hears. "So strong," said the filmmaker Tang, "that there’s almost no introspection, not even among Han intellectuals."

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International Herald Tribune
http://www.iht.com/articles/2008/04/03/asia/china.php

Chinese dissident gets 3½ years for essays

By Jim Yardley

Published: April 3, 2008

BEIJING: A Chinese court Thursday sentenced an outspoken human rights advocate to three and a half years in prison after ruling that his critical essays and comments about Communist Party rule amounted to inciting subversion, his lawyer said.

The conviction of Hu Jia, 34, quickly brought outside criticism of China at a time when the government is already facing international concern over its handling of the Tibetan crisis. Hu’s case has been followed closely, especially in Europe, and critics say his conviction is part of a government crackdown to silence dissidents before Beijing plays host to the Olympics in August.

Diane Sovereign, a spokeswoman for the U.S. Embassy in Beijing, described the U.S. government’s reaction to the verdict as "dismayed."

"Mr. Hu has consistently worked within China’s legal system to protect the rights of his fellow citizens," Sovereign said. "These types of activities support China’s efforts to institute the rule of law and should be applauded, not suppressed or punished."

Hu’s wife, Zeng Jinyan, herself a well-known blogger and rights advocate, was distraught in a telephone interview Thursday.

"I feel hopeless and helpless," said Zeng, who is under house arrest with the couple’s infant daughter in their suburban Beijing apartment, though she was allowed to visit her husband Thursday.

Asked why Hu was arrested and convicted, Zeng said: "The fundamental reason is to silence him. He had been speaking up and all he said was plain truth. It makes them unhappy. But they can do this to him because they’re unhappy?"

Li Fangping, the defense lawyer, said the court had showed leniency by sentencing him to less than the maximum five-year term. Li said the sentence also forbade Hu from making any public political statements for one year following his release from prison.

"Three and a half years is still unacceptable to us," Li said outside the courthouse. "There is a major disagreement between prosecutors and the defense over punishing someone for making peaceful speech. We still believe the charge does not stand."

Prosecutors in China rarely discuss cases after a verdict. But Xinhua, the government press agency, reported that Hu had confessed to the charges.

"Hu spread malicious rumors and committed libel in an attempt to subvert the state’s political power and socialist system," the court verdict stated, according to Xinhua.

Hu is one of the most prominent human rights advocates in China and has volunteered to help AIDS patients and plant trees to fight desertification. In recent years, he has maintained regular contacts with dissidents and other advocates on issues including environmental protection and legal reform.

He was detained Dec. 27 and later charged with "incitement to subvert state power," a charge based on six essays and interviews in which he criticized the Communist Party. Hu wrote a long, blistering essay detailing how the police had tortured two people who had protested about having their homes illegally seized in Beijing.

Last year, Hu also co-wrote an article that criticized the Communist Party for failing to fulfill its promises to improve human rights before the Beijing Games, though that article apparently was not included as evidence.

Li said that Hu continued to maintain his innocence, though he has acknowledged outside the courtroom that some of his comments were "excessive" in the context of existing law. All of the articles used as evidence have been censored on China’s Internet.

Hu has 10 days to decide whether to appeal the verdict. His health is also an issue; he has Hepatitis B and also takes medication for a deteriorating liver condition. Li said Hu has the option of applying for medical parole if he chooses not to appeal.

Howard W. French contributed reporting from Shanghai. Zhang Jing contributed research from Beijing.

Torch relay disrupted

The police detained at least six Uighur Muslims on Thursday at an anti-China protest during the Olympic torch relay near one of Turkey’s most famous tourist sites, The Associated Press reported from Istanbul.

The demonstrators were detained after they broke away from a larger group of protesters and shouted slogans just feet away from Tugba Karademir, a Turkish figure skater who had just started to run with the torch.

About 200 Uighur Muslims had converged ahead of the ceremony near the Blue Mosque and the Hagia Sofia church. Some members of the Uighur expatriate community in Turkey have called for independence for Xinjiang in China, or what they refer to as East Turkestan.

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International Herald Tribune, 3 April 2008
http://www.iht.com/articles/2008/04/03/america/cuba.php

Raúl Castro employing a bit of capitalism to freshen up Cuban Communism

The Associated Press

Published: April 3, 2008

HAVANA: It’s not the stuff of Marx or Lenin, or even of Fidel Castro, but it’s hardly free-market capitalism, either. In fact, a series of new steps to encourage a Cuban spending spree may help the Communist system and its new president survive.

In rapid-fire decrees over the past week, President Raúl Castro’s government has done away with some long-despised restrictions, lifting bans on electric appliances, microwaves and computers, inviting average citizens to enter long-forbidden resorts and declarin
g they can even legally have their own cellphones.

More changes could be on the way. Rumors are widespread that the government could ease travel restrictions and tolerate free enterprise, letting more people start their own small businesses. And hopes that it also might tweak the dual-currency system – which puts foreign products out of reach for most Cubans – have sparked a run on the peso.

"We’re going to get out and buy more and more," said Roberto Avila, a retiree. "That’s the future in Cuba, and it is a strong future."

Cuba is still far from a shopper’s paradise. Nearly everyone holds government jobs, earning an average of $19.50 a month, although many get U.S. dollars from tourism jobs or relatives abroad. It would take the average Cuban five months to earn enough to buy a low-end DVD player that an American could buy with about two days’ work at the federal minimum wage.

By doing away with rules that ordinary Cubans hate, Raúl Castro may defuse a clamor for deeper economic and political change in the single-party Communist system.

On the other hand, even these small changes could just whet Cubans’ appetites for more.

"These measures to allow Cubans to buy DVDs and everything else are just to entertain the people," said Maite Moll, a 45-year-old state engineer. "It’s not really important because it resolves nothing."

Some Cubans worry that even the small measures already taken will create class tensions and increase resentment between those earning state salaries and those with access to dollars, given the new opportunities for conspicuous consumption. Raúl Castro is clearly hoping that greater buying power will distract from any friction.

Certainly, the 76-year-old president has bolstered his popularity, addressing for now the doubts that Cuba’s government can survive without his charismatic brother, Fidel, who stepped aside and appointed Raúl in February.

"If low-income groups have access to essential goods like food, clothing and construction materials, and can sell and buy homes and use them as collateral, it doesn’t matter if you have a significant income gap. People are better," said Carmelo Mesa-Lago, a Cuba economics expert at the University of Pittsburgh. "That’s what happened in China and Vietnam."

Raúl Castro is said to be an admirer of free-market reforms that allowed those countries to revolutionize their economies while maintaining Communist Party control, although top officials have said Cuba is not about to follow a Chinese or Vietnamese path.

The food part of the equation could be profoundly affected by another initiative promoted this week. The government is lending uncultivated, state-controlled land to private farmers and cooperatives to plant cash crops like coffee and tobacco. It also will pay producers more for basics including milk, meat and potatoes.

Over time, this could reduce chronic food shortages and change the face of Cuban farming.

It is not new for the government to let private farmers take a crack at putting state land to good use. But this time the government is letting farmers more easily buy equipment and supplies at government stores, removing a key impediment to their success.

The changes, implemented barely a month into Raúl Castro’s presidency, are measures that Fidel had opposed for decades, declaring that even small initiatives to increase economic and social freedoms could create a "new rich" and destroy the island’s hard-fought social and economic equality.

And while people are excited to walk around stores and hotel lobbies, they will soon become frustrated that they cannot afford to do more than look, said Juan Antonio Blanco, a Cuban scholar based in Canada.

"This government is totally myopic and shortsighted if it doesn’t understand that it’s sitting on dynamite," he said. "They have to do more than the things that will play in the international media."

A moeda vietnamita: o "dong"

Fiquei até com uma certa pontinha de orgulho, com ares de superioridade, quando me dei conta de que são necessários nada menos do que 9.421 (nove mil, quatrocentos e vinte e um) dongs — moeda vietnamita — para fazer um mísero real… (16.110 para fazer um dólar). Fizemos progresso na área econômica no Brasil, desde o Plano Real — que o FHC reivindica como realização dele, mas o presidente na época era o Itamar Franco. Foi o Itamar que precisou ter coragem para autorizar o plano. Mas para quem se deixou fotografar com a Lílian Ramos sem calcinha, ressuscitou o Fusca, e arrumou uma namorada oficial, com a qual queria se casar, tudo, em retrospectiva, parece ser possível. Nunca ouvi uma palavra de gratidão do FHC ao Itamar por tê-lo dado a chance de introduzir o Real (precedido da UVC).

Quem quiser conhecer um site interessante sobre Currency Conversions deve visitar http://www.xe.com/. O site é excepcional — e envia uma cotação diária da moeda que você escolher: dólar, euro, real…

Em Hanoi, 5 de abril de 2008.

Hanoi: o Sheraton

É gozado como alguns gabaritos habitam na mente da gente — colocados lá por livros, por filmes, por fotos… Lembro-me de que, quando estive em Macau, na parte velha (a parte nova é uma imitação de Las Vegas), fiquei com a impressão de que andava por uma cidadezinha pequena em Portugal. Casas no estilo português, pintadas de marrom e amarelo, rosa e verde… Quando entrei na Vila Militar, que hoje é um clube privado que tem um restaurante aberto ao público, pensei que estava entrando num daqueles Clubes Militares da Índia, quando esta ainda era colonia inglesa. Pé direito alto, janelas enormes, mas com as vidraças fechadas, ventiladores no teto, tudo muito próprio… Parecia que a Greta Scacchi iria aparecer a qualquer momento, louríssima e linda como em White Mischief (1987), onde representou Lady Diana Broughton… A comida, porém, deliciosa, e o vinho, eram portugueses…

Digo isso porque o Sheraton aqui de Hanoi, às margens de um lado brumoso, que dá a impressão de um alagado, me faz lembrar o decadente passado colonial francês — e me faz lembrar de Catherine Deneuve em Indochine (1992), onde ela fez o papel de Elaine. Ganhou o Oscar de Best Foreign Language Film, que o Brasil tanto persegue — e Miss Deneuve foi indicada para Best Actress in a Leading Role… Não sei quem ganhou. Mas eu teria dado o prêmio para Catherine. Pelo filme e pelo conjunto da obra — e por ela ter nascido no mesmo ano em que eu nasci (1943), e por ser irmã de Françoise Dorléac, e por sido vivivo (e tido uma filha) aquele babaca do Marcelo Mastroianni, cujo Catolicismo não o impedia de ser adúltero, mas o impedia de se divorciar… Mesmo sem fechar os olhos eu consigo rever cenas de Indochine na minha mente.

Enfim, voltemos ao Sheraton Hanoi. Fiquei quase uma hora, hoje cedo, sentado no lobby, depois de ter tomado café da manhã, lendo o International Herald Tribune (Asia Editiion) e observando o cenário. Tudo distinto, como il faut a um Sheraton. Tudo bem cuidado. Mas a aparência geral era claramente "decadent French colonial"…

O quarto tem móveis de madeira escura, uma cortina pesada, também escura, estampada, cheia de flores. A colcha da cama é vermelha, quase vinho. Os quadros na parede são meio impressionistas — é preciso chegar perto para verificar que são vasos de flores. O tapete é marrom meio claro, mesclado de bege. Já viu dias melhores. A televisão destoa: é prateada, tela plana, Samsung — creio que 29 polegadas apenas (hoje em dia 42 polegadas LCD em bons hotéis asiáticos é de rigueur. No banheiro, as torneiras (o que os americanos chamam de "fixtures") são estilo "Belle Époque"… Tudo muito distinto. O hotel fornece shampoo, conditioner, bath gel, moisturizer, bath salts (para a bela banheira clássica), shower cap — além de mouth wash, shaving kit, tooth brush, comb, cotton swabs, makeup removal kit, nail file, mending kit, sanitary napkins… E, naturalmente, chinelos e roupões. O frigobar tem o necessário, but no more. Há uma cafeteira e um aquecedor de água e material para fazer café e chá. A cama é king size (o que no Brasil, que tudo distorce, se chama de "super king", porque a queen size é chamada de king…). Por volta das 20h vem a camareira, arruma a cama para dormir, deixa dois chocolatinhos… Simpatiquinha, ela. Pouco inglês, porém.

O serviço de atendimento telefônico é competente. Você chama a recepção ou Guest Services e eles atendem chamando-o pelo nome. Aqui me chamam de Professor Chaves — acho que porque a Microsoft, quando fez a reserva, forneceu o título — não mais adequado, agora que estou aposentadíssimo da carreira docente. Pedi uma Salada Cesar hoje à tarde e mal havia terminado de comer eles ligaram para saber se a comida havia sido o que eu esperava e se o atendimento havia sido bom… A gente não encontra toda essa atenção nem mesmo em hotéis mais sofisticados, como The Four Seasons, de  Tóquio.

Os canais da televisão a cabo são bons — quase todos internacionais (os mesmos que vemos na Net no Brasil), com mais opções de canais de esporte. Espero que mostrem a corrida de Formula 1 amanhã. É demais esperar que algum canal mostre o jogo do SPFC com o Juventus… 🙂 Espero que o "moleque travesso" não apronte contra o meu tricolor.

Amanhã vou considerar meu período de adaptação terminado e sair um pouco. Vou me aventurar pelo dia brumoso e procurar conviver com as motocicletas ao atravessar as ruas. Aqui perto do hotel há um prédio enorme, que se anuncia como um Shopping Center (com esse exato nome), mas que tem uma faixa enorme, que vejo do meu quarto, dizendo "Opening Soon"… Quem diria que o comunista vietnam teria placas de "Opening Soon" para um "Shopping Center"… Ironias desses dias em que o Comunismo virou mais uma categoria que se aplica mais a regimes políticos, como a China e aqui o Vietnam, do que a sistemas econômicos, que viraram todos capitalistas, mais ou menos… 

Em Hanoi, 5 de Abril de 2008