Oitenta anos da fundação do JMC

Hoje comemoramos o octagésimo aniversário da fundação do Instituto “José Manuel da Conceição” (JMC), que teve lugar no dia de ontem. O JMC foi criado no dia 8 de Fevereiro de 1928. A comemoração se deu com um culto solene na Catedral Evangélica da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, na Rua Nestor Pestana, depois do qual houve um almoço de confraternização. Mais sobre o culto e o almoço depois.

A Ata de Fundação do JMC começa assim:

“No dia 8 de fevereiro de 1928 reuniram-se no salão nobre do Acampamento do Mackenzie College, sito no kil. 32 da E.[strada de] F.[erro] Sorocabana, o Rev. Dr. W.[illiam] A.[lfred] Waddell, Rev. e Snra. C.[harles] R.[oy] Harper, Rev. R. F. Lenington e os Snrs. Erencio Victorino, Eduardo Pereira de Magalhães e Tuffy Elias, para a abertura das aulas do Curso Universitário ‘José Manuel da Conceição’.  Foi cantado o hymno nº 26, dos ‘Psalmos e Hymnos’, um dos hymnos predilectos do fallecido Rev. José Manuel da Conceição. O Dr.Waddell relembrou a ocasião em 7 de fevereiro de 1891, quando se reuniram na casa nº 1 da antiga rua S. José, hoje Líbero Badaró, o Rev. e Snra. G. W. Chamberlain, e, com 3 creanças, um menino branco, nº 1 da matrícula, depois o Rev. Álvaro Reis, uma menina branca e um menino preto, organisaram a Escola Americana de São Paulo. Também a ocasião, no dia 8 de março de 1891, quando na sala do Rev. G. W. Chamberlain, na Rua Consolação em São Paulo, elle, Dr. Waddell, organisou o Mackenzie College, com três matriculados.” [Continua. Foi mantida a ortografia da época.]

Dr. Waddell também havia criado, em 1906, o Instituto Ponte Nova, no local em que hoje se situa a cidade de Wagner, na Bahia. Foi um semeador de escolas.

Registre-se que Erencio Victorino, Eduardo Pereira de Magalhães e Tuffy Elias, presentes no momento da criação do JMC, foram seus três primeiros alunos, tendo os números de matrícula 1, 2 e 3, respectivamente.

Estiveram presentes na comemoração de hoje, e dirigiram a palavra aos presentes, o Rev. Richard L. Waddell, neto do Dr. Waddell e bisneto do Rev. Chamberlain, e o Rev. Charles Roy Harper (Junior), filho do Rev. Harper e de Dona Evelyna Harper. O primeiro está radicado nos Estados Unidos e o segundo na França.

O culto foi longo: começou às 10h30 e só terminou perto das 13h. Muita música – com um coral improvisado, que ensaiou durante uma hora, das 9h30 às 10h30, sob a batuta sempre firme do Rev. Maestro João Wilson Faustini – meu antigo professor de música e regente de vários corais dos quais tive o privilégio de participar (de quem me tornei amigo pessoal nos últimos quinze anos). A liturgia foi celebrada pelos Revs. Gerson Correia de Lacerda e Elizeu Rodrigues Cremm (esse meu contemporâneo no JMC – estava um ano na minha frente). Não conheci o Dr. Waddell e o Rev. Harper (os que criaram o JMC), mas meu pai os conheceu bem (foi aluno do JMC de 1934 a 1938) e os admirava muito – bem como à Dona Evelyna. O Rev. Waddell de hoje eu não conhecia. O Rev. Harper de hoje (o Royzinho) eu fiquei conhecendo há cerca de vinte anos em Genebra, através de nosso amigo comum Rev. Aharon Sapsezian.

Pregou no culto de hoje o Rev. João Dias de Araújo, ex-manuelino, que nos idos dos anos 50 e 60 era considerado um teólogo revolucionário, professor que era no Seminário Presbiteriano do Norte, em Recife. Depois do Golpe de 1964, foi perseguido. Hoje falou sobre “O Mutirão de Deus”. Não entro no mérito do conteúdo – mas na forma foi um bom sermão: o Rev. João Dias é um experiente orador. Não o conhecia pessoalmente – embora tivesse lido vários de seus artigos quando eu era aluno do Seminário Presbiteriano de Campinas (1964-1966).

O culto, apesar de longo demais, foi lindo – falando do ponto de vista estético. Os hinos foram bonitos – eu me comovi, no final, quando todos cantamos a chamada Bênção Aarônica e, para encerrar, num majestoso “Grand Finale”, o Aleluia de Haendel – números que cantei tantas vezes enquanto era aluno do JMC.

Depois do culto, um almoço e um momento social. Saí de lá, com minha mulher, por volta das 15h30 – e a sala ainda estava bem cheia. Encontrei inúmeros colegas de classe, contemporâneos e amigos que estudaram lá em outras épocas.

Dos formandos de 1963, minha turma, estavam lá, do Clássico, apenas o Assir Pereira e eu, e do Ginásio, o João Rhonaldo de Andrade, atual presidente da Associação dos Ex-Alunos, a Sueli Barbosa Cavalcanti Jardim, secretária perpétua da Associação, e o Paulo Cosiuc. Fazendo um parêntese, a turma de 1963 foi a última turma a se formar antes da Ditadura Militar, em cuja vigência a escola foi fechada. Neste ano de 2008, vamos comemorar, em Novembro, 45 anos de nossa memorável viagem pelo Sul do Brasil: Curitiba, Florianópolis, e Porto Alegre, passando por Tubarão, Joinville, Blumenau, Lajes e pela nascente comunidade de Camboriú — quase só havia a praia, já linda, então. Quem sabe consigamos montar uma celebração. Fim do parêntese.

Durante o culto eu fiquei pensando sobre o JMC. Embora comemorássemos o octagésimo aniversário da fundação do Instituto, ele só esteve em existência durante 41 desses oitenta anos. Foi fechado, inexplicavelmente, em 1969, pela Igreja Presbiteriana do Brasil, que nunca explicou sua extinção – no auge da Ditadura. Mais inexplicável ainda foi o uso de parte do campus para instalação de uma fábrica, hoje abandonada, que, segundo consta, era de armamentos. O assunto é tabu dos bravos – todo mundo que deveria saber alguma coisa, e que está ainda vivo, desconversa quando se aborda o assunto. Já abordei, em outras ocasiões, muita gente (Olson Pemberton, ex-diretor do JMC, e Oswaldo Henrique Hack, ex-aluno e ex-Chanceler do Mackenzie, ambos presentes no culto), mas sem sucesso. 

Mas, como dizia, fiquei pensando sobre o JMC. Em um artigo anterior, escrito em 1997, mais de dez anos atrás, e publicado aqui neste site, na seção “Vinhetas”, eu defendi a tese (que era o título do artigo) de que “O JMC nos deu Educação”. Não tenho dúvida disso. Não consigo encontrar outra explicação para o fato de que, quase quarenta anos depois de sua extinção, essa escola seja capaz de reunir várias centenas de ex-alunos em uma associação, criada em 1992, e consegue, pelo menos uma vez por ano, mobilizar quase uma centena de ex-alunos, todos aí na casa dos cinqüenta anos para cima, para um encontro anual.

Alguns participantes desses encontros trazem seus filhos, e os filhos de seus filhos, para tentar fazer com que eles entendam o que o JMC significou em suas vidas. Isso tudo fica ainda mais surpreendente quando se constata que, durante os seus 41 anos de funcionamento, o JMC teve apenas 2.604 alunos.

Estiveram presentes hoje no encontro alguns ex-alunos bem avançados nos seus oitenta anos. Sono Yuasa Tanaami, matrícula 186, entrou no JMC em Janeiro de 1937, com 17 anos. Tem, hoje, portanto, 88 anos. O número anterior de matrícula, 185, é do Rev. Gerson Azevedo Meyer, também com 88 anos, que não esteve presente, mas que me ligou ontem para justificar sua ausência, que se deveu ao estado de saúde não muito bom de sua mulher, Dona Romélia. Ambos moram aqui em Campinas. A matrícula 181 foi de Martha Faustini (hoje Martha Faustini Egg), cuja idade deve estar por aí — e cujo dueto de “Jesus, o Bom Pastor”, com Carlos René Egg, seu marido, é absolutamente inesquecível (meu pai tinha o disco de 78 rotações, mas ele misteriosamente sumiu). Por falar em meu pai, que hoje teria 95 anos, se estivesse vivo, sua matrícula no JMC tinha o número 98. Minha matrícula foi 1514. A última aluna a se matricular no JMC foi Wanda Emir Simões: teve o número 2604. O Rev. João Dias, pregador de hoje, teve matrícula 629; o Rev. Faustini, 611.

Como disse, não tenho dúvida de que o JMC nos deu educação. O que me intriga é como foi que isso aconteceu. As instalações da escola, embora próprias e, de certo ângulo, até pitorescas, eram bastante precárias – ainda quando eu estudei lá, de 1961 a 1963. Imagino o que não foram antes. A comida, às vezes feita pelos próprios alunos, era horrível: havia um ovo cozido servido num ensopado de espinafre com o qual até hoje tenho pesadelos. Os quartos em que morávamos (a maioria dos alunos morava na escola em regime de internato) eram um desastre: poucos erram forrados, alguns tinham enormes goteiras. Os chuveiros dos banheiros coletivos eram de água fria, ainda em 1963. Nem menciono como eram as instalações sanitárias. A biblioteca era fraquíssima – e não havia bibliotecário especializado. Tecnologia? Bom, havia uma máquina de escrever na secretária, e, presumo, uma máquina de calcular na tesouraria. Os professores não tinham pós-graduação, muito menos formação no exterior (exceção feita, neste caso, aos estrangeiros – quase todos missionários e seus cônjuges). Olhando em retrospectiva, as aulas eram tradicionais – alguns professores pareciam simplesmente “declamar” o livro texto…

E, no entanto, o JMC nos deu educação… Como?

Da minha vida profissional, quase 33 anos foram passados na Faculdade de Educação da UNICAMP, onde me ocupei, entre outras, da cadeira de Filosofia da Educação. Sempre me preocupei em tentar definir o que é que caracteriza uma educação e uma escola de qualidade. Nos últimos anos tenho assessorado a Microsoft num programa que ela instituiu e implementa chamado “Escolas Inovadoras”. Em todas essas atividades, tem me parecido evidente que uma escola de qualidade é uma escola inovadora – e que uma escola inovadora se caracteriza por um projeto pedagógico ousado, um currículo orientado para o futuro (não para o passado), uma metodologia ativa, centrada no estudante… e uso criativo e inovador da tecnologia.

O meu problema é que, julgado por esses critérios, o JMC não se sai bem… E, no entanto, eu não tenho nenhuma dúvida de que o JMC era uma excelente escola.

Como explicar?

Durante o culto me surgiram algumas idéias, que passo a compartilhar. O Rev. João Dias que me desculpe os vôos de pensamento durante o seu sermão.

1. Primeira idéia

No JMC, virtualmente todos os alunos tinham um projeto de vida bem definido, sabiam que a educação era importante para esse projeto, e, portanto, não tinham nenhuma dúvida sobre por que estavam no JMC. O Instituto foi criado como um curso preparatório para o Curso de Teologia, ministrado pelos Seminários Evangélicos. A escola era até chamada de “Seminário Menor” (houve quem tenha conseguido contar. Sua função era preparar candidatos ao ministério (pastorado) para que pudessem fazer com sucesso, ou com melhor aproveitamento, o Curso de Teologia. Quem chegava ao JMC, especialmente nos tempos mais antigos, era por que queria ser pastor evangélico. Não importava a denominação. Embora mantido pela Igreja Presbiteriana e pela sua co-irmã brasileira a Igreja Presbiteriana Independente (criada em 1903, através de uma cisão), o JMC aceitava candidatos de outras denominações: metodistas, batistas, episcopais, congregacionais. Era, na verdade, uma instituição ecumênica, antes de o ecumenismo se tornar moda.

Tendo um projeto de vida bem definido, e sabendo que a educação era essencial para ele, os alunos chegavam ao JMC em geral vinham dispostos a estudar. Quem não tinha essa disposição, não agüentava um mês da escola: ia de volta para casa, porque compreendia que no JMC o estudo era coisa séria. É verdade que uns vinham mais bem preparados do que os outros, outros tinham mais facilidade para aprender do que os outros, mas nenhum tinha dúvida de que estava ali para estudar e para aprender – de que forma fosse, custasse o que custasse. Os melhores alunos ajudavam os que tinham mais dificuldades, havia aulas de reforço pelos professores, e muitos alunos passavam a noite “queimando as pestanas” em cima dos livros e das anotações de aula. Mas aprendiam.

Hoje, ao se ler livros sobre pedagogia, pouco ou nada se encontra sobre a importância de um projeto de vida para a educação. No entanto, quem trabalha na área sabe que, muitas vezes, um aluno se arrasta por um curso, repetindo séries, ou ficando em dependência em matérias – até que define um projeto de vida. Alguém decide ser médico ou dentista – e, de repente, aquelas aulas chatas de biologia se tornam interessantes, porque passaram a ser condições necessárias para a realização do projeto de vida. Outro decide ser engenheiro – e, de repente, aquelas aulas insuportáveis de matemática se tornam interessantes… (ou, pelo menos, o fato de serem chatas não se torna mais um empecilho para a aprendizagem). Quem quer ser pastor (ou professor, ou advogado) sabe que tem de conhecer bem a língua materna, falá-la bem, inclusive em público, escrevê-la bem… Sabe que terá de aprender a usar bem a retórica e a oratória… Sabe que deve conhecer bem a literatura e a história, a filosofia, bem como uma ou duas línguas estrangeiras vivas… No caso do pastor, se quiser ser “bom de púlpito”, terá de saber fazer exegese dos textos bíblicos, interpretar criativamente passagens obscuras; se quiser ser “bom no pastoreio das almas”, terá de conhecer bem a psicologia, talvez um pouco de sociologia… A razão para estudar está dada – e, conseqüentemente, o problema da motivação está resolvido.

(O fato de que alguns dos alunos, e todas as alunas, não pretenderem ingressar no pastorado – até porque ele era, e continua sendo, vedado para mulheres na maioria das denominações protestantes – não refuta a minha tese: esses alunos e alunas em geral tinham um projeto de vida relacionado à igreja: trabalho missionário, o ministério da música, etc. No mínimo, muitas das alunas aspiravam a se tornar “mulher de pastor”…)

2. Segunda idéia

O JMC era um ambiente propício ao estudo e à aprendizagem. Todo mundo ali estudava e aprendia: aluno e professor. Ninguém tinha vergonha de confessar sua ignorância e de ser apanhado estudando.

Como ambiente de aprendizagem, o JMC tinha um currículo. Diferentemente de outras escolas, porém, os professores não tinham dificuldade de convencer os alunos de que o currículo que a escola oferecia era essencial para a realização do projeto de vida que tinham. A finalidade do JMC era oferecer aos seus alunos o Curso Secundário, como então definido, em dois ciclos: o Ginásio e o Clássico. Futuros pastores, se acreditava (corretamente, acrescento eu), não precisavam estudar nem muita matemática nem muita ciência. De matemática ainda precisavam conhecer os aspectos mais relevantes à gestão das atividades do dia-a-dia. Mas de ciência, quase nada. Coerentemente, o JMC oferecia o Clássico, não o Científico, e dava ênfase às línguas vivas e mortas (Português, Francês, Inglês, Latim, Grego), à Literatura e à História (repositórios excelentes de histórias edificantes), à Filosofia, à Lógica, à Psicologia… E esse era um currículo bastante ajustado às necessidades do futuro pastor. O encaixe era perfeito. Assim, nenhum aluno perdia tempo perguntando por que ele tinha de estudar tanto Português, ou Filosofia, ou História… porque a resposta era evidente.

A segunda característica interessante do ambiente de aprendizagem que era o JMC era o fato de que alunos e professores viviam na escola em tempo integral. Os alunos, nos quartos do internato. Os professores, nas casas de professores que havia dentro do campus. Para uns e outros, estudar e aprender, ou estudar e ajudar os outros a aprender, eram tarefas de tempo integral. (Havia exceções: uns poucos alunos externos e um ou outro professor que era pastor fora do campus. Mas a regra era clara: o JMC era uma escola de tempo integral e dedicação exclusiva). Os professores estavam disponíveis não só durante as aulas. Era possível visitá-los em suas casas, ou abordá-los fora do horário das aulas. Eles nos convidavam para suas casas com freqüência. O “English Club” se reunia à noite – não raro na casa da professora de Inglês.

É verdade que tínhamos várias ocupações “não acadêmicas” durante nosso tempo de permanência na escola. Tínhamos de lavar nossa roupa, limpar nossos quartos, cuidar da limpeza dos pátios e banheiros – não havia serventes. Vários alunos, para ganhar um dinheirinho, ou até mesmo para conseguir pagar a escola, trabalhavam na secretaria, na cozinha, no refeitório, ou em outros locais. O “enfermeiro” da escola em geral era um aluno que já tinha trabalhado em farmácia e, por isso, sabia aplicar injeções e fazer curativos… Quem cuidava da biblioteca em geral era um aluno. Quem supervisionava o estudo dos alunos mais novos em geral era um aluno. E assim vai.

Mas essas atividades, longe de roubar o tempo de nossa educação, eram incorporadas nela. A educação, entendíamos (corretamente, acrescento eu hoje) que educação é preparação para a vida – e as distinções entre educação formal e não-formal, entre aprendizagem e trabalho, entre aprendizagem e esporte, entre aprendizagem e lazer, são artificiosas. Tudo pode contribuir para nossa educação, se nosso objetivo maior e constante é aprender, e aprender sempre.

Na verdade, muitas das atividades extra-classe foram extremamente importantes na nossa educação.

A música, em primeiro lugar: a participação nos corais, nos conjuntos, nos octetos, nos quartetos, o estudo de harmônio e piano… Lembro-me bem de quando chegou ao JMC o Manuel Vieira de Castro Neto – magro, tímido, oriundo de meio pobre… Mas extremamente interessado em música e muito talentoso. Em pouco tempo tocava harmônio, logo evoluiu para o órgão elétrico. Ele tocou no culto de hoje. Deu um show. Estudar harmônio, órgão ou piano não era obrigatório para todos. Estudar regência também não. Participar do coral, também não. Criar um quarteto ou octeto próprio, menos ainda. Participar nos festivais de música, nos concertos (até no Municipal, em São Paulo), também não. Mas nunca se viu uma fábrica tão competente de cantores de coral, de solistas, de organistas e pianistas, de regentes corais, de compositores, de professores de música, como o JMC. A música sacra no Brasil se divide em antes e depois do JMC.

O esporte, em segundo lugar. Jogávamos futebol de campo, futebol de salão, vôlei e basquete. E éramos bons. Esportes de equipe são excelentes instrumentos para ajudar os que deles participam a “aprender a conviver”: a trabalhar em equipe, a cooperar e colaborar, a liderar… Ninguém era obrigado a participar dos diversos esportes – eles não contavam como aulas de “Educação Física”. Mas eram mais do que isso: eram instrumentos de educação para a vida em sociedade e instrumentos para que pudéssemos aprender a conviver com nossas limitações, em especial diante de gente de excepcional habilidade — Dorival de Oliveira nos “futebóis”, por exemplo…

Havia também o Clube Literário – o Castro Alves. Ali aprendíamos a debater, a redigir, a usar a voz, a falar em público, a declamar poesias… A participação nele também não era obrigatória.

Havia ainda o Clube Miguel Torres, dedicado a questões de natureza mais filosófica e teológica. Também de participação voluntária.

Em resumo: o ambiente de aprendizagem propiciado pelo JMC era excelente, especialmente por abranger a educação formal e a não-formal, o ensino em sala de aula e a aprendizagem na solidão do quarto ou na convivialidade dos grupos, a aprendizagem pela música, pelo esporte, pelo lazer e pelo trabalho.

Quando um ambiente de aprendizagem desse tipo é oferecido a quem tem um projeto de vida definido, que exige que estudem e aprendam, ninguém consegue ficar sem aprender. Se não quiser aprender, reconhece que aquele não é o ambiente adequado e vai embora rápido. Mas se quiser, as possibilidades e oportunidades estão aí para todo mundo ver. Uns avançaram mais do que outros – mas todos avançaram bem mais do que inicialmente julgavam possível.

3. Terceira idéia

Apesar de o JMC ser um magnífico ambiente de aprendizagem, a responsabilidade de aprender era claramente definida e entendida como sendo de cada aluno.

Desculpas como as seguintes não eram admitidas para desempenho fraco: “Ah, a aula do professor é maçante”; “Ah, o livro didático é fraco”; “Ah, esse mês eu tive que supervisionar os estudos dos mais jovens”; “Ah, pedi aos colegas das séries mais altas que me ajudassem, mas eles não o fizeram”; “Ah, minha namorada me deu o fora e eu fiquei muito deprimido”…

E a responsabilidade de cada um ia adiante: muitos professores nos davam a prova e saíam da classe, ou nos davam a prova e diziam que podíamos fazê-la no quarto e depois entregá-la – e que tínhamos duas horas para concluí-la. Ficávamos sozinhos na sala, e não conversávamos ou colávamos. Ou, no quarto, sozinhos, não olhávamos o livro ou os cadernos – e encerrávamos a prova quando terminava o tempo, ainda que tivéssemos mais a dizer, e ninguém estivesse olhando. O ambiente da escola criava um clima em que era inadmissível não cumprir as regras, não corresponder às expectativas que eram depositadas em nós. Uma ou outra vez um aluno, pressionado para mostrar um nível aceitável de desempenho (sete era a nota mínima para aprovação) não resistia – mas sua consciência doía tanto que ele mesmo se encarregava de confessar o erro, e aceitava qualquer veredicto que o mestre houvesse por bem lhe dar.

Enfim: aí estão algumas idéias.

O JMC tinha defeitos? Claro que tinha. Mas eram poucos e menores. Não tínhamos liberdade para fumar, beber ou dançar, por exemplo. Embora o JMC abrigasse homens e mulheres, era proibido namorar – ou, pelo menos, exibir as manifestações exteriores do namoro (pegar inocentemente na mão da namorada, por exemplo).

Seria viável recriar o JMC hoje? Acho difícil. Os tempos são outros. Mas é possível difundir a sua filosofia e a sua prática. Só isso já traria uma grande contribuição para a educação brasileira.

Em Campinas, 9 de Fevereiro de 2008

Ayn Rand, romancista e filósofa

Se viva, Ayn Rand teria comemorado hoje, 2 de Fevereiro, 103 anos. Nasceu em 1905 — e faleceu em 1982, com 77 anos.

Nascida Alyssa Rosenbaum, em São Petersburgo, então Rússia, hoje de novo Rússia, mas por boa parte do século XX parte da União Soviética, com o nome de Leningrado, Ayn Rand emigrou para os Estados Unidos com 21 anos, em 1926.

Tornou-se uma romancista respeitada com seu livro The Fountainhead (A Nascente, El Manancial, La Source Vive), publicado em 1943 (ano em que nasci) e que se transformou em filme  em 1949, com Gary Cooper e Patricia Neal nos papais principais de Howard Roark e Dominique Francon.

Seu sucesso foi confirmado e cresceu exponencialmente com a publicação, em 1957, de Atlas Shrugged (Quem é John Galt? La Rebellión de Atlas).

Considero esses dois romances duas das maiores obras literárias do século XX. São romances filosóficos, escritos para defender um conjunto importante de idéias, que veio a ser denominado Objetivismo — a Filosofia de Ayn Rand.

Depois de Atlas Shrugged Ayn Rand não publicou mais obras de ficção: dedicou-se a explicitar e sistematizar sua filosofia, o que fez em vários livros: Philosophy: Who Needs It?, An Introduction to Objectivist Epistemology, The Virtue of Selfishness, Capitalism: The Unknown Ideal, The Romantic Manifesto e outros.

Considero-a, além de excepcional romancista, um das maiores estrelas da filosofia do século XX — se não a maior.

A filosofia de Ayn Rand é daquelas que as pessoas ou amam ou odeiam. E o que faz com que amem ou odeiem as suas idéias é um sentido geral da vida que ela descreve em seus livros — ou na forma de teoria filosófica ou na forma de enredo de ficção. Quando li Ayn Rand pela primeira vez — Atlas Shrugged, em 1973, em Claremont, CA, por sugestão de Charles King, meu colega de departamento no Pomona College — reconheci no livro uma série de idéias com as quais me identifiquei imediatamente, embora nunca as houvesse formulado em minha mente nem as encontrado em outros livros. Reconheci como meu o sentido geral da vida que Ayn Rand tão bem apresentava e defendia.

Deixo este depoimento em celebração de mais um aniversário de seu nascimento.

Em Salto, 2 de Fevereiro de 2008

O trem no Brasil: webliografia

Para os interessados, sugiro esses artigos encontrados na Web – a maioria na WikiPedia:

Ferrovias extinhas no Brasil
http://pt.wikipedia.org/wiki/Categoria:Ferrovias_extintas_do_Brasil

Estrada de Ferro Sorocabana
http://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Sorocabana 

Companhia Paulista de Estradas de Ferro
http://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Paulista_de_Estradas_de_Ferro

Estrada de Ferro Santos-Jundiaí
http://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Santos_a_Jundiaí

Estrada de Ferro Noroeste do Brasil
http://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Noroeste_do_Brasil

Estrada de Ferro Araraquarense (no texto dito só Araraquara)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Araraquara

Companhia Mogiana de Estradas de Ferro
http://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Mogiana_de_Estradas_de_Ferro

Companhia Ytuana (sic) de Estradas de Ferro
http://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Ytuana_de_Estradas_de_Ferro

Estação da Luz
http://pt.wikipedia.org/wiki/Estação_da_Luz

Estação Sorocabana (Júlio Prestes)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Estação_Júlio_Prestes

Fora da WikiPedia (que ainda tem muitos outros verbetes, veja-se:

Cronologia História das Estradas de Ferro em São Paulo, de 1867 até os dias atuais
http://www.estacoesferroviarias.com.br/cronologia/index.htm

Integração Ferroviária Santos – São Paulo
http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0102p.htm 

Estações Ferroviárias do Brasil
http://www.estacoesferroviarias.com.br/

Estação da Luz – São Paulo
http://www.estacoesferroviarias.com.br/l/luz.htm 

Estação Sorocabana (Júlio Prestes) – São Paulo
http://www.piratininga.org/Sorocabana/sorocabana.htm

Estação Ferroviária de Campinas
http://estacoesferroviarias.com.br/c/campinas.htm

Por enquanto, é isso…

Em São Paulo, 30 de Janeiro de 2008

Ainda sobre o trem no Brasil

Recebi, a propósito de um artigo sobre "O Trem no Brasil", aqui neste Space (que transcrevo abaixo, mas que pode ser encontrada no URL http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1137.entry) uma mensagem de um leitor chamado Serginho, de São Paulo, que tem 43 anos e que fez, quando criança, viagens de trem entre São Paulo e Maringá. Ele tem algumas dúvidas, que gostaria de esclarecer, para poder contar aos filhos sobre a experiência gostosa que era viajar de trem por longas distâncias aqui no Brasil de alguns anos atrás. 

Especificamente, ele pergunta:

1) Qual o tipo de trem que fazia esta viagem (São Paulo – Maringá)? (Por exemplo, modelo, cores dos vagões, máquina, etc.)

2) Qual o caminho percorrido? (Por exemplo, cidades onde passava e parava — sei que passava em Ourinhos)

3) Com relação ao modelo do trem pergunto porque viajei muito para o interior de São Paulo (Oswaldo Cruz) e os trens eram da Companhia Paulista/Fepasa e eram nas cores azul e creme, as máquinas eram na maioria das vezes vermelhas ou na cor azul. Partimos sempre da estação da Luz, acho que por volta das 23:00 horas.

Dei uma resposta individual a ele, mas já descobri que está incompleta. Aqui transcrevo a resposta, com os acréscimos de que me lembrei depois de enviá-la.

Caro Sérgio:

O de que realmente me lembro, no tocante à viagem de São Paulo para o Paraná, é o que disse na mensagem a que você se refere:

"As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo — verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, como meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas… "

O trem e a linha, neste caso, eram da Estrada de Ferro Sorocabana, não da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Os vagões do trem eram de ferro (ou algo que se lhe assemelhasse), não de madeira, e tinham a cor verda escura, que explica o nome nome do trem: "Expresso Ouro Verde". O trajeto do Expresso Ouro Verde era entre São Paulo (Estação Sorocabana, nome oficial Júlio Prestes) e Ourinhos. Ele saía da Sorocabana seguindo o trajeto da linha da Sorocabana, que era o mesmo trajeto da linha de trem metropolitano que, hoje, saindo da Júlio Prestes, passa por Barra Funda, Lapa, Domingos de Moraes, Presidente Altino, etc. Osasco, Carapicuíba, Barueri, Jandira, Itapevi, etc. (não me lembro se a ordem das estações é bem essa). Depois de Itapevi passava por várias estações, como Sorocaba, e acabava em Ourinhos. A linha da Sorocabana seguia mais ou menos o trajeto da Rodovia Raposo Tavares.

Tanto quanto eu saiba, o Expresso Ouro Verde terminava seu trajeto em Ourinhos. A linha da Sorocabana, e outros trens da Sorocabana, iam até Presidente Prudente — creio que até Presidente Epitácio, na divisa com Mato Grosso. Já fui nesse trem até a divisa, no início nos anos 60. Na divisa havia um ramal que ia para o Norte, ligando com outras cidades. Não sei se chegava a Dracena, encontrando a linha da Paulista. 

De Ourinhos para frente — quando eu era criança, na década de 40, o trem só ia até Apucarana, se bem me lembro: quando eu fazia esse trajeto Maringá era uma cidadezinha minúscula, morei lá de 1947 até 1951) –a gente baldeava para um trem bem mais vagabundo da Rede de Viação Paraná – Santa Catarina, que também tinha linha de Ourinhos para Curitiba e, acredito, dado o nome, para Florianópolis.

O trem que ia de São Paulo até Oswaldo Cruz, passando por Bauru, Marília, etc. era o da Paulista, que saía da Estação da Luz. Fiz algumas vezes esse trajeto, quando era criança (na verdade, nenê), porque nasci em Lucélia, do lado de Oswaldo Cruz.

Na verdade, o trajeto entre São Paulo e Oswaldo Cruz (indo, se não me engano, até Dracena) era feito, entre São Paulo e Jundiaí, pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, que tinha locomotivas vermelhas (elétricas ou a diesel). A partir de Jundiaí começava a linha da Paulista, que ia, como disse, até Dracena (acredito). As locomotivas da Paulista, também elétricas ou a diesel, eram azuis. Por isso sua lembrança quanto à cor das locomotivas está absolutamente correta. O comboio trocava de locomotiva em Jundiaí — onde parava por cerca de 15 minutos.

Creio que, a partir da linha da Paulista em Bauru, saía uma nova linha, chamada Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ia, se bem me lembro, até Panorama (ou Pindorama, não me lembro bem).

A partir da linha da Paulista em Rio Claro, se não me engano, também saía a linha da Estrada de Ferro Araraquarense, que ia seguindo mais ou menos o trajeto da Rodovia Washington Luiz de hoje, passando por Araraquara, São José do Rio Preto, Fernandópolis, e indo não sei até onde.

Acho difícil que se fosse de São Paulo para Maringá de trem pela Paulista, via Bauru — a menos que se desse uma volta grande (porque acredito que deveria haver um ramal qualquer que ligasse Bauru a Ourinhos, no sentido Norte-Sul).

De Campinas saía uma linha, chamada Estrada de Ferro Mogiana, que ia para Jaguariuna, Mogi-Mirim, Mogi Guaçu, passava por Água da Prata e ia pra Minas, via Poços de Caldas, Borda da Mata, etc. Andei muito nesse trem, também, indo tanto para Poços como para Borda da Mata. Em parte dessa linha, entre Campinas e Jaguariuna, circula até hoje um trem turístico, adorado pelas crianças, puxado por uma Maria Fumaça. Meus netos menores (Gabriela, Marcelo e Felipe, junto com a Maria Luiza, neta postiça) fizeram a viagem há pouco tempo e adoraram.

Também de Campinas, ou de Sorocaba, talvez, saía uma outra linha, chamada Ituana, que ia para Indaiatuba, Elias Fausto, Salto e Itu, etc. (se o ponto de origem fosse Sorocaba, como é mais provável, a ordem das estações se inverte). Conheço bem as estações ferroviárias dessas cidades porque tenho um sítio em Salto e circulo bastante por essas quatro cidades. Ainda há pouco passei por Cardeal, um bairro "rururbano" de Elias Fausto (fica entre Indaiatuba e Elias Fausto) e vi a estação ferroviária do lugarejo. 

Aqui está a mensagem "O Trem no Brasil", escrita em Salto, em 2 de agosto de 2006" (com pequenas correções e acréscimos):

"Fazia tempo que vinha procurando sites sobre a história do trem no Brasil. O trem foi muito importante na minha vida. Com um mês e doze dias fiz minha primeira viagem de trem. Nasci em 7/9/1943, em Lucélia, na chamada Alta Paulista. Meu pai escreveu um pequeno relato de meus primeiros dois anos. Eis o que ele diz sobre essa primeira viagem de trem, nos dias 19-20/10/1943:

"No dia 19 de outubro tomamos a jardineira até Tupã. O dia estava quente, mas o Oscarzinho dormiu quase o tempo todo. Só chorava quando a jardineira parava. Às 2 hs. da tarde chegamos a Tupã e às 3,45 tomamos o trem. A viagem não foi muito boa, pois o trem estava muito cheio! Metade da viagem foi feita no carro de 2ª classe, pois não pudemos arranjar lugar na 1ª classe, devido ao grande número de pessoas. Passamos a noite com o Nenê nos braços. Ele não deu trabalho, pois dormiu mais ou menos bem. Às 6 hs. da manhã chegamos a Campinas."

Como se vê, em Outubro de 1943 a linha da Paulista parece que chegava apenas até Tupã — não indo até Oswaldo Cruz, Lucélia, Adamantina, Dracena.

Esta foi a primeira de muitas viagens de trem do local de residência dos meus pais até Campinas, onde moravam minha avó materna e minha tia, irmã de minha mãe (que faleceu faz um mês, aos 85 anos — minha mãe faz 82 agora segunda-feira). Meus pais se mudaram de Lucélia para Irati, no Sul do Paraná, depois para Marialva, no Norte do Paraná, depois ainda para Maringá, também no Norte do Paraná, e, finalmente, para Santo André, em São Paulo, onde minha mãe e meus irmãos ainda residem (meu pai faleceu em 1991). Viajávamos sempre de trem.

As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo — verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, com meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas…

Quando mudamos para Santo André, o trajeto mudou. Pegávamos o trem subúrbio até São Paulo e lá pegávamos o trem da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí para o interior. Em Jundiaí a locomotiva (vermelho meio escuro) era removida e uma locomotiva da Companhia Paulista de Estradas de Ferro assumia — linda, linda, azul… — e o trem passava a ser conduzida por empregados da Paulista. Em Jundiaí o trem parava uns 15 minutos e a plataforma da estação ficava cheia de vendedores ambulantes vendendo, entre outras coisas, "pipóóóóóóóóóóóca". Vendiam uva e figo também: Jundiaí é terra de uva e figo.

Campinas era um importante entrocamento ferroviário. Além dos trilhos da Companhia Paulista passarem pela cidade, começava ali também a linha da Companhia Mogiana, e havia um ramal, o da Companhia Ituana, que ligava Campinas diretamente à Estrada de Ferro Sorocabana, em Sorocaba, passando por Itu. Salto, onde estou agora, ainda tem sua estação — devidamente abandonada. Elias Fausto, aqui juntinho, também. Estive lá na semana passada e vi fotos da estação. A estação de Itu está bem mais conservada, mas tornou-se um Centrl Cultural, se não me engano.

De Santo André também íamos a Santos de trem. A cidade principal no trajeto de São Paulo para Santos era Paranapiacaba, pequena cidade, que nunca vi sem neblina, na beirada da serra, onde o trem começava a ser literalmente puxado para subir a serra. Emocionante.

Alguém cometeu um crime contra o Brasil, deixando todo o nosso enorme sistema ferroviário ser sucateado. Precisavam ser identificados e punidos os criminosos, post mortem, se necessário.

Por indicação do jornalista José Carlos Daltozo, de Martinópolis, SP, que tem escrito sobre Lucélia (vide artigo recente  "Lucélia – Terra Natal", neste space), encontrei o site http://www.estacoesferroviarias.com.br. Lá você pode encontrar fotos da estação ferroviária de sua cidade, se ela teve uma. E lá encontrei referência ao site http://www.trem.org.br, que, por sua vez, tem vários links relacionados. Uma mina de informação. Ao escrever essas referências me lembrei de que o meu caro amigo, Tonhão (Antonio Morales), de Bauru, um dia fez referências a sites sobre ferrovias. O pai dele foi ferroviário.

Vamos ajudar a preservar a memória do trem…"

Em São Paulo, 29 de Janeiro de 2008

Coréia – Miscelânea

Prometi, quando escrevi, há dias, uma pequena mensagem dizendo que estava indo para a Coréia, que nos dias seguintes comentaria alguns aspectos da vida lá. Acabei não fazendo isso. Tento fazê-lo agora, que já estou no aeroporto O’Hare, em Chicago, a caminho de casa.

o O o

Estava pensando, no avião que me levou de Seoul até Tokyo, depois de ter usufruído daquela maravilha que é o aeroporto de Incheon, em Seoul, que somos muito apressados ao desejar resultados de algumas ações — com a intervenção dos Estados Unidos no Irak (ou mesmo a intervenção americana no Vietnam).

No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a União Soviética haviam ocupado a Coréia – ocupação necessária para derrotar o Japão, que a havia ocupado anteriormente. O Paralelo 38 ficou sendo a linha divisória entre a ocupação americana e a soviética.

Em 1949 a área que veio a se tornar a Coréia do Sul promoveu eleições – e o presidente eleito, Singman Rhee, entabulou negociações com a área que veio a se tornar a Coréia do Norte com vistas à unificação do país (que era unificado desde o século VII). Evidentemente a intenção de Rhee era unificar o país em um regime democrático, ou pelo menos amigo dos Estados Unidos.

Em meados de 1949, porém, o líder norte-coreano Kim-II Sung (Secretário Geral do Partido Comunista) pressionou Stalin para ajudá-lo a unificar o país debaixo do regime comunista. Nos meses seguintes, a Coréia do Norte transformou suas forças armadas numa forte máquina de guerra.

Os ânimos foram se exaltando de um lado e de outro e em Abril de 1950 Stalin autorizou a Coréia do Norte a atacar a do Sul.

As tropas da Coréia do Norte tiveram grande sucesso inicialmente – até que os Estados Unidos, com a aprovação da ONU, intervieram na guerra civil. Aos poucos o controle da guerra passou para as mãos dos americanos, que não só rechaçaram os norte-coreanos que haviam invadido a Coréia do Sul para trás do Paralelo 38 como invadiram o território da Coréia do Norte.

Com a invasão da Coréia do Norte, a China entrou na guerra, do lado dos coreanos do norte. Com a intervenção da China, as forças americanas recuaram até o Paralelo 38.

O fim negociado da guerra deixou as duas Coréias divididas — mas salvou a do Sul de se tornar comunista, como fatalmente aconteceria se a intervenção americana na guerra não houvesse acontecido.

Na época, houve muita crítica da ação americana — como sempre há, sempre que os Estados Unidos agem militarmente. Mais de 50 anos depois, porém, ao se comparar as duas Coréias, não há como não concluir que a ação americana foi extremamente benéfica para a Coréia do Sul — que se desenvolveu econômica, social e culturalmente, sendo, hoje, um país do primeiro mundo. A Coréia do Norte, em contrapartida, atrasadíssima do ponto de vista econômico, social e cultural, é, com Cuba, o último bastião do Comunismo. É verdade que tem a bomba atômica, porque os comunistas irresponsavelmente lhe passaram a tecnologia. Mas é só.

o O o

Fiquei hospedado em um dos hotéis Intercontinentais de Soul — o COEX (os dois ficam pertinhos um do outro). Fiquei abismado com o preço das coisas. No primeiro dia fui tomar um café no lobby e o preço do café — café preto, numa xícara média — foi de W 14.000: o equivalente a 15 dólares americanos (1 dólar = W 900). No frigobar do quarto, uma cerveja de lata Budweiser ou Hanneken custava W 9.500 — no Seven Eleven que ficava no Mall debaixo do hotel a mesma cerveja podia ser comprada por W 2.000. Provavelmente, fora do Mall era ainda mais barata. Uma coca em lata custava a W 7500 no frigobar, W 1.500 no Seven Eleven. Uma caixinha pequena de batatinhas fritas Pringle, W 5000 no hotel, W 1.200 no Seven Eleven.

Um café da manhã completo, no hotel, ficava em W 45.000 — ou seja, nada menos do que 50 dólares americanos. Acho inacreditável que os hotéis cobrem esses preços e os hóspedes pagam — quando com um esforço de nada podem ir ao Mall e comprar as coisas por cerca de um quinto do preço do hotel.

Apesar de ter minhas despesas custeadas pelos organizadores, recuso-me a tomar café da manhã no hotel ou a usar o frigobar. Saio, ando um pouco, e tomo café na rua ou compro o que quero consumir num Seven Eleven qualquer. Pago com o meu dinheiro, mas não contribuo para a manutenção de uma estrutura de preços absurda.

o O o

Andei bastante de metrô pela cidade. O sistema tem mais de quinze linhas, e cada linha tem umas 40 estações em média. Há linhas do metrô que vão até o aeroporto Incheon, que fica a 70 km do centro da cidade.

Andei em geral entre 9h e 16h — os trens sempre cheios. As estações não são tão bonitas, mas são bem cuidadas. O mesmo pode ser dito dos trens. A sinalização é perfeita. Consegui, olhando o mapa do metrô, decidir que linha deveria tomar, onde deveria fazer baldeação, etc. Cada linha tem um número e uma cor e as estações de cada linha têm nome mas também têm número, o que facilita muito as coisas, especialmente para o turista. Em cada estação está pintado, em letras grandes, o número da estação e, com letras menores, o número da estação seguinte, com uma flecha na direção que toma o trem que passa ali na plataforma. O hotel ficava na Linha 2, Verde, na estação 219 (Sumseong). Para ir ao TechnoMart era fácil: o Shopping Eletrônico fica na mesma linha, na estação 214. Parece pertinho. Da janela do meu quarto conseguia ver o prédio. Um dia em que o sol estava bonito resolvi ir a pé. Foi a maior fria. Levei uma hora e vinte minutos debaixo de um frio de gelar. Os problemas que dificultam a gente andar a pé (só havia eu andando a pé) são dois. Primeiro, o rio, enorme. Eu tinha de cruzá-lo, e tive de fazê-lo numa passagem para pedestre numa ponte longérrima e de acesso quase impossível para pedestres. Foi com muito custo que descobri como chegar ao acesso para a ponte, de dentro de um parque que fica na beira do rio. Segundo, as vias expressas que cortam a cidade, e há inúmeras, são bloqueadas com cercas e, por conseguinte, impossíveis de transpor por pedestres. Você tem de achar lugares em que pode passar por baixo delas, mas para isso tem de dar voltas imprevisíveis. Enfim, vivendo e aprendendo.

o O o

Nas lojas mais do centro sempre se encontra alguém que fala Inglês com alguma fluência — embora seja bem mais difícil na Coréia do que em Taiwan. Cingapura fala Inglês e Hong Kong falava Inglês até 1997. O governo coreano está enfatizando de todas as formas o aprendizado do Inglês. Estive numa mega-livraria e fiquei impressionado com a quantidade de livros de referência sobre o Inglês (Dicionários, Gramáticas, etc.) e de livros que testam o conhecimento de Inglês (TOEFL e outros). Há prateleiras e prateleiras de histórias infantis em Inglês, de material voltado para o Ensino Fundamental (livros texto) em Inglês, material de multimídia, etc.

Se o país continuar nesse ritmo, logo vencerá esses desafio, porque, como dizia, no centro ainda se encontra gente que fala Inglês (em geral mal, mas com alguma fluência), mas fora do centro… Na sexta-feira fui até um outro local que é o paraíso da eletrônica: Yongsam, chamada de o Supermercado da Eletrônica. Precis
ei pegar três linhas do metrô para chegar lá. De metrô, levei uma hora e 15 para chegar lá. Lá, porém, me vi perdido. Ninguém falava Inglês. Há muitas coisas interessantes, mas é impossível conversar com eles. Se você faz o sinal de preço eles escrevem o preço na máquina de calcular — mas o diálogo acaba aí.

Na hora de voltar, passei apertado. Nas minhas outras andanças pelo metrô, sempre tomei o trem ou baldeei em estações com no máximo duas linhas. Yongsam, porém, é um entroncamento ferroviário. Por ali passam trens normais, trens de subúrbio, e as linhas do metrô. Por causa da viariedade de opções, há mais de doze plataformas — que não estão pintadas com as cores das linhas do metrô, porque muitas delas nem são do metrô… Minha salvação foi uma mocinha que, falando muito mal, que me disse que deveria ir para a plataforma quatro — eu estava na um. Fui até lá. Não era na quatro, era na cinco — mas a cinco era simplesmente do outro lado. Quando vi o nome da linhado metrô e a identificação da direção em que o trem iria, fiquei aliviado. Já estava me preparando para sair da estação e pegar um taxi. Neste caso, carrego sempre um cartão de visitas do hotel, em Inglês e na lingua local. Mostro o cartão e aponto para o nome do hotel. Funciona.

Em Chicago, 26 de Janeiro de 2008.

David Hume, Filósofo

Escrevi minha tese de doutoramento, nos idos dos anos 1970-72 (já lá vão mais de 35 anos que a defendi, na University of Pittsburgh), sobre David Hume, filósofo escocês do século XVIII (1711-1776).

Quando a concluí, em 1972, eu tinha a mesma idade dele quando publicou A Treatise of Human Nature, sua primeira obra — e seu opus magnum.

Um dia desses um colega indagou, cético, se Hume poderia entender algo de natureza humana nessa idade. Não tenho dúvida alguma de que a resposta é claramente afirmativa. Basta ler esse monumental trabalho para verificar isso. O Tratado veio a ser considerado por muitos críticos a maior obra de filosofia jamais escrita em língua inglesa. Grande em conteúdo e grande em forma.

Não é comum ver filósofos precoces — mas Hume era um gênio.

No entanto, o sucesso do Tratado demorou por vir. A qualidade de uma obra é uma coisa, o seu reconhecimento pelo público é outra. O próprio Hume admitiu, em seus anos mais maduros, que o Tratado foi, inicialmente, um fracasso de público — “nasceu morto”, disse ele. Para tentar melhorar a recepção do livro, o jovem autor escreveu anonimamente uma resenha, mas não adiantou nada. Hume entrou em depressão — e ficou doente durante mais de dois anos.

Convenceu-se, depois dessa crise, que o problema com o livro era de forma, não de conteúdo, e que o culpado era ele mesmo, por ter publicado o livro prematuramente. Decidiu, então, re-escrevê-lo em estilo mais popular. O resultado foi An Inquiry Concerning Human Understanding, publicado em, com o acréscimo de dois ensaios: um sobre milagres e o outro sobre a imortalidade da alma. Esse livro foi um sucesso de público, e levou Hume a publicar um segundo, An Inquiry Concerning the Principles of Morals (em 1752), e, depois, um terceiro, Political Essays. Mais tarde ainda publicou Of the Standard of Taste and Other Essays. Nesses quatro livros Hume encontrou seu estilo vivo, witty, que lhe trouxe enorme sucesso não só como filósofo mas como pensador e ensaísta, e, depois, como historiador (seu History of England, em seis volumes, foi usado como texto padrão de História da Inglaterra durante bem mais de um século e meio). Entrementes escreveu ainda os geniais Dialogues Concerning Natural Religion and A Natural History of Religion – publicando este em 1751 e deixando Dialogues para ser publicado apenas postumamente, dada a sua “explosividade”. O livro foi publicado por seu sobrinho em 1779.

Hume, que nasceu em 1711, morreu em 1776, ano da independência americana — e da publicação de The Wealth of the Nations por seu melhor amigo, o também escocês Adam Smith.

Hume era folgazão, amigo da boa mesa, grande jogador de gamão. Depois de escrever uma de suas passagens mais céticas, em que afirmava não nos ser possível saber se existe um mundo real fora de nossa mente, admitiu, francamente, ao voltar à mesa de trabalho depois de um belo jantar e de algumas rodadas de gamão, que, ao reler o que havia escrito, achava um absurdo que alguém pudesse fazer uma afirmação daquelas — mas que havia revisto as premissas e os argumentos, e não tinha encontrado nenhuma falha… Agradecia antecipadamente aos leitores, entretanto, se algum deles pudesse lhe mostrar onde havia errado, se é que erro havia ali…

Solteirão inveterado, Hume, ao descobrir que seu irmão pretendia se casar, lhe enviou uma carta, tentando dissuadi-lo. A carta é uma obra prima de wit humeano. Casar é fria, advertiu ele, “because women are the only heavenly bodies whose behaviour Newton’s science was unable to predict“… (cito de memória — as palavras exatas podem não ser exatamente essas, mas a ideia é).

Não sou um cético, como era Hume (ele, um “cético mitigado”, para usar suas próprias palavras). Discordo, portanto, e enfaticamente, do “só sei que nada sei” de Sócrates. Acho que sabemos um monte de coisas (como o próprio Hume, em seus momentos não filosóficos sabia). Felizmente. Mas o ceticismo à la Hume sempre foi um freio aos dogmatismos.

Hume tem duas outras frases que considero memoráveis.

A primeira é que devemos reconhecer que, antes de sermos filósofos, devemos procurar ser homens, ser gente.

A segunda é que nunca devemos, no combate ao dogmatismo e ao fanatismo, incorrer nesses mesmos pecados.

Mais uma vez, cito de memória. Mas citados com exatidão ou não, estes são sobering thoughts, dos quais procurei nunca me esquecer.

Em Seoul, 25 de Janeiro de 2008

É possível justificar filosoficamente o ateísmo?

Não tenho dúvida de que a resposta à questão do título é afirmativa – e que a defesa pode ser feita em diversos níveis.

Vou abordar a questão apenas do ângulo da veracidade da pedra angular do teísmo – a existência de deus. Essa forma de abordagem, basicamente epistêmica, vai ao cerne da questão e indaga sobre as evidências e os argumentos de que deus – um deus – exista. Que há argumentos apresentados para tentar provar que deus existe não há dúvida. Que haja evidência da existência de um deus compatível com o que se atribui a ele e dele se espera já é bem mais questionável, mas os crentes em deus têm alegado que sim.

A adoção dessa abordagem tipicamente epistêmica significa que não vou abordar a questão a partir das conseqüências nefastas e indesejáveis, no plano histórico e social, que a crença em deus – ou o cristianismo ou o islamismo, como versões especialmente bem sucedidas da crença em deus – tem produzido ao longo da história: convicção de que se é um povo escolhido e eleito, intolerância, perseguição dos que adotam outras crenças religiosas ou que são ateus ou agnósticos, guerras de religião (inclusive cruzadas para libertar lugares supostamente sagrados sob posse de defensores de outras religiões e jihads de vários tipos), fatwas (éditos de morte contra herejes), fogueiras inquisicionais, caças às bruxas de vários tipos, etc.

Essa abordagem (que freqüentemente se intitula científica e não filosófica, embora faça uso da filosofia) tem recebido munição de nomes conhecidos. Basta ler os seguintes livros, todos eles recentes: The God Delusion, de Richard Dawkins, God is not Great: How Religion Poisons Everything, de Christopher Hitchens, God: The Failed Hypothesis. How Science Shows That God Does Not Exist, de Victor J. Stenger, etc. Também tem recebido críticas severas, como, por exemplo, a Dinesh D’Souza, o liberal-conservador ex-assessor de Ronald Reagan, em What’s so Great about Christianity?

O leitor que desejar se enfronhar sobre esse interessante debate, leia esses livros (e outros que a Amazon Books imediatamente sugere quando se procura um desses).

O foco de atenção meu, aqui, estará numa abordagem que é muito mais típica do século XVIII do que do século XXI. A questão da existência de deus – das evidências e dos argumentos que supostamente justificam essa crença – foi uma questão “quente” entre os filósofos do Iluminismo. Continua a ser “quente”, porque, apesar de basicamente decidida a favor dos ateus (na minha opinião), os “teus” continuam a fazer de conta que não foi.

o O o

A defesa filosófica mais simples do ateísmo começa com a distinção entre a existência do conceito de deus e a existência (ou realidade) do referente desse conceito.

Começo com a questão do conceito de deus. Evidentemente o conceito de deus existe – na realidade, existem vários conceitos de deus.

Povos primitivos entendem que deus é o sol, ou a lua, ou o trovão. Evidentemente esses conceitos de deus são primitivos (como os povos que os defendem), mas não há como negar a existência dos referentes desses conceitos de deus (o sol, a lua, e o trovão inegavelmente existem, fazem parte da realidade).

Na linguagem comum de povos nem tão primitivos, como é o nosso caso hoje, freqüentemente se diz que, para alguém, deus é o dinheiro. Talvez aqui se faça uso metafórico do conceito de deus, mas não resta dúvida de que o referente desse conceito de deus existe na realidade. Nenhum problema quanto a isso.

A responsabilidade por definir o conceito de deus está em cima dos ombros de quem opta por fazer uso desse conceito.

Os cristãos (entre outros) têm proposto vários conceitos de deus.

O conceito que me parece mais difundido é de que deus é uma pessoa (a idéia de que deus é um ser pessoal e não um ser impessoal como o sol, a lua e o trovão parece ser importante para os cristãos), embora, diferentemente das pessoas que conhecemos, que têm princípio e fim (nascem e morrem), deus seja eterno: não tem princípio nem fim, sendo eterno (o que parece dizer que transcende até mesmo o tempo). Além disso, deus, para os cristãos, apesar de ser pessoal, é puramente espiritual, e por conseguinte, imaterial, incorpóreo e invisível (o que parece dizer que transcende não só o tempo, mas também o espaço). Além disso, os cristãos atribuem a deus a responsabilidade pela criação do mundo, ou seja, de tudo o que existe (além dele próprio, naturalmente, que, sendo eterno, não foi criado), incluindo a nós, seres humanos. Na verdade, os cristãos acreditam que deus não só criou o mundo mas o sustenta pela sua providência, algo que aparentemente quer dizer que, se deus retirar sua sustentação do mundo, este simplesmente desaparece, deixa de existir. Entre os diversos atributos de deus estão, segundo os cristãos, a onisciência (ele tudo sabe – na verdade, por transcender o tempo, tudo se passa, para ele, como se fosse no presente), a onipotência (ele tudo pode – na verdade, segundo os cristãos, nem um cabelo cai da cabeça de um ser humano sem que ele permita, ou até mesmo o queira) e onibenevolência (ele deseja o bem supremo daqueles que ele criou – qualquer coisa em contrário pareceria indicar que ele seria algo sadista). Virtualmente todo esse conceito de deus os cristãos tomaram emprestado dos judeus. Deixarei de fora, aqui, a contribuição tipicamente cristã de deus: a idéia de que deus é trino, três pessoas em uma só, incorporando não só o deus dos judeus, agora redefinido como o deus-pai, mas incluindo também Jesus, o deus-filho, devidamente espiritualizado e desmaterializado, e o espírito santo.

Está aí o conceito. Talvez ajustes possam ser feitos aqui ou ali no conceito, mas tenho pouca dúvida de que o conceito de deus do cristianismo tradicional é esse.

(Vou deixar de lado o deus dos teólogos que são ateus em relação a esse deus dos cristãos tradicionais. Paul Tillich, por exemplo, que ganhou a vida como teólogo no Union Theological Seminary de New York, era um ateu de marca maior, em relação a esse deus dos cristãos tradicionais. Para ele deus era “the ground of being”. Vou ignorar, aqui, a Tillich e ao seu deus).

o O o

Definido o conceito, a questão seguinte é: existe um ser que corresponda ao conceito de deus, assim definido?

Novamente, como no caso do conceito, no caso da existência do referente do conceito o onus probandi cabe a quem afirma.

É sabido e notório que é impossível sustentar a tese negativa em relação à existência de seres definidos conceitualmente. Se eu crio o conceito de um cavalo alado (digamos, pégaso), e, em seguida, afirmo que Pégaso existe, cabe a mim provar que meu conceito tem um referente na realidade. É totalmente descabido eu retrucar que cabe ao meu interlocutor provar que pégasos não existem. No caso das chamadas “existential assertions” (afirmações de que algo existe, de que um determinado conceito tem referente na realidade), o onus probandi é de quem faz a afirmação.

Os cristãos têm, ao longo da história, usado duas estratégias para provar, ou pelo menos tentar defender, a crença na existência de seu deus. Uma invoca a f
; a outra, a razão.

o O o

Uma estratégia é dizer, kierkegaardianamente, que se trata de uma questão de fé, não de razão, e que a fé não seria fé se pudesse ser justificada racionalmente – sendo, literalmente, um salto no escuro. Lutero, muito antes de Kierkegaard, chamou a razão de puta sem-vergonha, e, mais de um milênio antes dele, Tertuliano disse que ele cria em deus e no que ele considerava o mistério da morte expiatória de Jesus na cruz exatamente porque isso tudo era absurdo (credo quia absurdum). Sou de opinião pessoal de que não valha a pena perder tempo com essa posição fideísta (que Hume parece ter adotado em alguns momentos, para se livrar da fogueira da inquisição protestante na Grã-Bretanha).

o O o

Outra estratégia é pretender que não se trata de questão meramente de fé, mas, sim de questão que pode se demonstrada racionalmente.

Essa estratégia se divide um duas.

Primeiro, os cristãos tentaram argumentar que a existência de deus era revelada nas escrituras sagradas do cristianismo, e que a veracidade dessas escrituras era atestada pelo fato de que os seus autores foram capazes de realizar milagres diversos que para sempre calaram a boca dos que ousavam negar a veracidade do que diziam. O próprio John Locke, admirável em sua epistemologia e em sua filosofia política, parece ter acreditado nisso (vide The Reasonableness of Christianity).

Essa posição é fácil rebater, porque os milagres que supostamente comprovariam a veracidade das escrituras cristãs estão relatados nelas próprias, não se tratando, portanto, de comprovação externa e independente. (Como ironicamente disse Hume um dia, e quase pegou fogueira por isso, “ninguém nega que nossa mui santa religião cristã não só foi acompanhada de inúmeros milagres quando de seu surgimento mas que, até hoje, é impossível acreditar nela sem um outro…”.)

Segundo, tentou-se argumentar que a existência de deus era provada por argumentos que independiam totalmente da revelação. Aqui estão incluídos os diversos argumentos da existência de Deus: o ontológico, primeiro proposto por Anselmo, depois por Descartes; o cosmológico; e, o mais famoso, o do desígnio. (Tomás de Aquino transformou esses três em cinco, as Quinque Viae, mediante desdobramentos, em a Summa Contra Gentiles).

Poucos são, hoje em dia, mesmo entre os cristãos, os que aceitam que esses argumentos. Não cabe aqui analisá-los todos. Basta dizer que o ateu nega, depois de analisá-los e mostrar-lhes as falhas lógicas e factuais, que esses argumentos provem que exista um referente na realidade para o conceito de deus dos cristãos.

Ao ateu basta dizer: “Não provado”. Se o cristão não conseguir provar que existe um referente para o seu conceito de deus, o ateu encerra o seu caso (“rests his case”), porque o onus probandi não era dele. (A situação é semelhante, e não por acaso, à de um tribunal: se a promotoria não provou que o acusado cometeu o crime, a defesa não tem de provar que ele não cometeu).

o O o

Alguns têm questionado se o argumento, até aqui, justifica o ateísmo ou apenas o agnosticismo. Minha tese é de que o argumento justifica o ateísmo, e não o agnosticismo. E essa tese se sustenta num princípio que alguns (Antony Flew, por exemplo) chamam de “a presunção do ateísmo”.

Eis no que consiste a referida presunção. Se alguém, para explicar alguma característica de nosso universo ou de nosso planeta particular (digamos, o fato de que, em regiões distantes do Equador o clima se divide em estações), invocar a existência de um ser qualquer que criou esse sistema e o controla, porque (por exemplo) acha bonito o verão seguir-se do outono, época em que as folhas se colorem antes de cair, e este seguir-se do inverno, quando tudo se cobre de neve, para, em seguida, na primavera, tudo começar de novo… – se, repito, isso acontecer, e, depois de examinar a alegação durante anos, não encontrarmos evidência alguma da existência desse ser nem argumentação que se justifique a favor de sua existência, temos todo direito (filosófica ou epistemicamente falando) de afirmar que esse ser não existe. Pretender que devamos ser agnósticos sobre sua existência, nesse caso, é uma postulação gratuita, injustificada.

O caso, segundo o ateu, é totalmente análogo ao da existência de deus. Não havendo evidência e argumentação que a justifique, presume-se o ateísmo (como se presume a inocência no tribunal).

o O o

No caso do deus dos cristãos, porém, os ateus têm mais armas e munições à sua disposição.

Hume, em Dialogues Concerning Natural Religion, usando, em sua maioria, argumentos dos antigos, mas agregando a eles os seus próprios, demonstrou que é impossível provar que existe um referente ao conceito cristão de deus porque esse conceito é contraditório para qualquer pessoa que admite que existe, no mundo que deus supostamente criou, sofrimento que é causado por causas naturais (e não por causas humanas, que os cristãos poderiam tentar rebater apelando ao “livre arbítrio”).

Considero o argumento de Hume irrespondível – a menos que os cristãos estejam abertos à possibilidade de admitir um deus que não seja onisciente, ou onipotente, ou onibenevolente. Mas daí estaremos lidando com outro conceito de deus, não o do cristianismo tradicional.

o O o

A tarefa do filósofo que não crê em deus é sempre dependente de um conceito de deus específico. Se os cristãos se dispuserem a crer num deus limitado em conhecimentos, ou não tão poderoso assim, ou meio sadista (que gosta de ver os outros sofrer), pode ser mais difícil refutar a existência dele – mas nem nessa hipótese cabe ao ateu refutá-la: cabe, em primeiro lugar, a ele, cristão, defendê-la. Isso feito, o ateu irá criticar e, se puder, destruir os argumentos apresentados.

o O o

Examino, rapidamente, para concluir, um argumento (?) invocado por muitos defensores da crença em deus: o do “consensus gentium”, o fato de que em quase qualquer lugar do mundo as pessoas acreditam em deus, ou em um deus, ou até mesmo em muitos deuses.

Tomo a liberdade de mais uma vez invocar Hume. Em um livrinho muito interessante, mas pouco lido, The Natural History of Religion, Hume se propôs explicar por que é que, se as evidências e os argumentos a favor da existência de deus são tão pobres, tanta gente continua a acreditar que ele exista. Hume vai mostrar que não é preciso invocar a existência de deus para explicar esse “consensus gentium”.

O argumento de Hume aqui apela para a experiência exatamente contrária daqueles que vêm ordem no universo. Ele invoca o mundo vivido da experiência das pessoas. Para a maior parte das pessoas, diz ele, o mundo parece ser um ambiente extremamente arbitrário. Chove na plantação do vizinho, na minha não – ou vice-versa. Cai um raio na minha casa, e não na do vizinho. Uns morrem cedo, vítimas de doenças inexplicáveis, outros chegam a celebrar um centenário de vida com relativa saúde. Uns enriquecem, outros permanecem pobres. A explicação mais fácil para essas arbitrariedade
s é que existem deuses, que nos abençoam a ajudam, e outros, que abençoam e ajudam outras pessoas. Os deuses a quem servimos procuram, ao tentar nos ajudar, prejudicar os outros. Se os outros estão se saindo melhor do que nós, talvez seja porque não estamos servindo nossos deuses o suficiente, não lhes estamos fazendo sacrifícios ou oferendas bastantes, ou não estamos nos comportando tão bem quanto eles o desejariam…

A crença em deus – inicialmente, em deuses – se origina, segundo Hume, dos nossos medos (especialmente sobre o nosso futuro) e de nossas esperanças, de nosso desejo de as coisas melhorem para nós (e, quem sabe, piorem para os vizinhos de que não gostamos…).

Basta ler o Velho Testamento das escrituras cristãs para ver que, histórica e antropologicamente, Hume provavelmente estava em terreno seguro em sua “explicação natural” da crença em deus.

o O o

Contrário ao que imaginam alguns, o pai do ateísmo moderno não é Kant, mas, sim, Hume. Não é à toa que Kant admitiu que foi a leitura de Hume que o despertou de sua sonolência dogmática. Oxalá outros lhe seguissem o exemplo e se despertassem também.

o O o

Estão os ateus, ao se recusar a acreditar em deus, se sujeitando “ao deus razão”, como pretendem alguns, ou demonstrando a “soberba” de sua razão?

Minha resposta é um retumbante “não”.

Nossa razão é tudo o de que dispomos para imprimir um certo sentido ao mundo e à nossa vida. Nós a usamos em todas as áreas – por que deixar de usá-la quando se trata da existência de deus ou de outras doutrinas religiosas?

É interessante que Hume, o pai do ateísmo moderno, era cético acerca do poder da nossa razão. Apesar de, por vezes, invocar a natureza ou a sociedade como um guia mais confiável (o “instinto”, o “habito”, o “costume”), e de dizer coisas muito negativas sobre a razão (ficando longe, porém, de chamá-la de puta sem-vergonha, como Lutero), Hume era uma pessoa extremamente racional – ou “razoável”, como ele preferia. Usava sua razão sempre com certa dose de ceticismo moderado (ou “mitigado”, como ele preferia). Uma pessoa racional, ou razoável, ou sábia, segundo ele, “proporciona suas crenças à evidência disponível para elas”.

Não há soberba, aí… nem tentativa de hipostasiar a razão e erigi-la em ser supremo. (“Hipostasiar” é termo técnico: consiste em presumir que um conceito ou uma faculdade se constitui em substância e, com base nisso, atribuir a ela identidade real).

[Meu primeiro artigo publicado no Brasil foi sobre "Hume: O Crítico da Religião". Apareceu, mais de trinta anos atrás, no Suplemento Cultural de O Estado de S. Paulo de 17 de Outubro de 1976. Vou transcrevê-lo aqui em seguida.]

Em Seoul, 25 de Janeiro de 2008 (revisto em 26 de Janeiro)

Os indicados para o Oscar 2008

Desejo e Reparação (Atonement) foi indicado para sete Oscars:

Melhor filme
Melhor atriz coadjuvante (Saoirse Ronan)
Roteiro adaptado (Christopher Hampton)
Fotografia / Cinematograhy, em Inglês (
Direção de Arte (Sarah Greenwood e Katie Spencer)
Figurino (Jacqueline Durran)
Trilha sonora original (Dario Marianelli)

Senti que Keira Knightley e Vanessa Redgrave não tenham sido indicadas para Melhor atriz e Melhor atriz coadjuvante, respectivamente, também. Mereciam. A participação de Vanessa Redgrave, embora pequena, foi magistral. Mas a menina adolescente representa bem o filme como atriz coadjuvante, embora seja um personagem antipático. 

Dois filmes receberam mais indicações (oito) do que Desejo e Reparação (Atonement): Onde os Fracos não Têm Vez (No Country for Old Men) e Sangue Negro (There will be no Blood).

O filme brasileiro indicado (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) ficou de fora.

Abaixo a lista completa dos indicados, em Português e em Inglês. Vejamos no que dá.

http://cinema.uol.com.br/ultnot/2008/01/22/ult4332u621.jhtm

Filme

"Desejo e Reparação"
"Juno"
"Conduta de Risco"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
"Sangue Negro"

Diretor

Julian Schnabel, "O Escafandro e a Borboleta"
Jason Reitman, "Juno"
Tony Gilroy, "Conduta de Risco"
Joel e Ethan Coen, "Onde os Fracos Não Têm Vez",
Paul Thomas Anderson, "Sangue Negro"

Ator

George Clooney, "Conduta de Risco"
Daniel Day Lewis, "Sangue Negro"
Johnny Depp, "Sweeney Todd"
Tommy Lee Jones, "No Vale das Sombras"
Viggo Mortensen, "Senhores do Crime"

Atriz

Cate Blanchett, "Elizabeth: A Era de Ouro"
Julie Christie, "Longe Dela"
Marion Cotillard, "Piaf – Um Hino ao Amor"
Laura Linney, "The Savages"
Ellen Page, "Juno"

Ator coadjuvante

Casey Affleck, "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford"
Javier Bardem, "Onde os Fracos Não Têm Vez"
Phillip Seymour Hoffman, "Jogos do Poder"
Hal Halbrook, "Na Natureza Selvagem"
Tom Wilkinson, "Conduta de Risco"

Atriz coadjuvante

Cate Blanchett, "Não Estou Lá"
Ruby Dee, "O Gângster"
Saoirse Ronan, "Desejo e Reparação"
Amy Ryan, "Medo da Verdade"
Tilda Swinton, "Conduta de Risco"

Filme estrangeiro

"Beaufort" (Israel)
"The Counterfeiters" (Áustria)
"Katyn" (Polônia)
"Mongol" (Cazaquistão)
"12" (Rússia)

Filme de animação

"Persépolis"
"Ratatouille"
"Surf’s up"

Roteiro original

Diablo Cody, "Juno"
Nancy Oliver, "Lars and the Real Girl"
Tony Gilroy, "Mudança de Risco"
Brad Bird, "Ratatouille"
Tamara Jenkins, "The Savages"

Roteiro adaptado

Christopher Hampton, "Desejo e Reparação"
Sarah Polley, "Longe Dela"
Ronald Harwood, "O Escafandro e a Borboleta"
Joel e Ethan Coen, "Onde os Fracos Não Têm Vez"
Paul Thomas Anderson, "Sangue Negro"

Fotografia

"O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford"
"Desejo e Reparação"
"O Escafandro e a Borboleta"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
"Sangue Negro"

Montagem

"O Ultimato Bourne"
"O Escafandro e a Borboleta"
"Na Natureza Selvagem"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
"Sangue Negro"

Direção de arte

"O Gângster"
"Desejo e Reparação"
"A Bússola de Ouro"
"Sweeney Todd"
"Sangue Negro"

Figurino

"Across the Universe"
"Desejo e Reparação"
"Elizabeth: A Era de Ouro"
"Piaf – Um Hino ao Amor"
"Sweeney Todd"

Maquiagem

"Piaf – Um Hino ao Amor"
"Norbit"
"Piratas do Caribe: No Fim do Mundo"

Edição de som

"O Ultimato Bourne"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
"Ratatouille"
"Sangue Negro"
"Transformers"

Efeitos sonoros

"O Ultimato Bourne"
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
"Ratatouille"
"Os Indomáveis"
"Transformers"

Efeitos visuais

"A Bússola de Ouro"
"Piratas do Caribe: No Fim do Mundo"
"Transformers"

Documentário

"No End in Sight"
"Operation Homecoming: Writing the Wartime Experience"
"SOS Saúde"
"Taxi to the Dark Side
"War/Dance"

Documentário de curta-metragem

"Freeheld"
"La Corona (The Crown)"
"Salim Baba"
"Sari’s Mother"

Trilha sonora original

"Desejo e Reparação"
"Ratatouille"
"Os Indomáveis"
"O Caçador de Pipas"
"Conduta de Risco"

Canção original

"Falling Slowly" ("Once")
"Happy Working Song" ("Encantada")
"August Rush"
"So Close" ("Encantada")
"That’s How You Know" ("Encantada")

Curta-metragem

"At Night"
"Il Suplente" (The Substitute)
"Le Mozart des Pickpockets" (The Mozart of Pickpockets)
"Tanghi Argentini"
"The Tonto Woman"

Curta-metragem de animação

"I Met the Walrus"
"Madame Tutli-Putli"
"Même les Pigeons vont au Paradis" (Even the Pigeons Go to Heaven)
"My Love" (Moya Lyubov)
"Peter & The Wolf"


80th Academy Awards Announced Categories

http://a.oscar.abc.com/media/2008/html/printer.html

Performance by an actor in a leading role
—————————————————————————
George Clooney in "Michael Clayton" (Warner Bros.)
Daniel Day-Lewis in "There Will Be Blood" (Paramount Vantage and Miramax)
Johnny Depp in "Sweeney Todd The Demon Barber of Fleet Street" (DreamWorks and Warner Bros., Distributed by DreamWorks/Paramount)
Tommy Lee Jones in "In the Valley of Elah" (Warner Independent)
Viggo Mortensen in "Eastern Promises" (Focus Features)

Performance by an actor in a supporting role
—————————————————————————
Casey Affleck in "The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford" (Warner Bros.)
Javier Bardem in "No Country for Old Men" (Miramax and Paramount Vantage)
Philip Seymour Hoffman in "Charlie Wilson’s War" (Universal)
Hal Holbrook in "Into the Wild" (Paramount Vantage and River Road Entertainment)
Tom Wilkinson in "Michael Clayton" (Warner Bros.)

Performance by an actress in a leading role
—————————————————————————
Cate Blanchett in "Elizabeth: The Golden Age" (Universal)
Julie Christie in "Away from Her" (Lionsgate)
Marion Cotillard in "La Vie en Rose" (Picturehouse)
Laura Linney in "The Savages" (Fox Searchlight)
Ellen Page in "Juno" (Fox Searchlight)

Performance by an actress in a supporting role
—————————————————————————
Cate Blanchett in "I’m Not There" (The Weinstein Company)
Ruby Dee in "American Gangster" (Universal)
Saoirse Ronan in "Atonement" (Focus Features)
Amy Ryan in "Gone Baby Gone" (Miramax)
Tilda Swinton in "Michael Clayton" (Warner Bros.)

Best animated feature film of the year
—————————————————————————
"Persepolis" (Sony Pictures Classics): Marjane Satrapi and Vincent Paronnaud
"Ratatouille" (Walt Disney): Brad Bird
"Surf’s Up" (Sony Pictures Releasing): Ash Brannon and Chris Buck

Achievement in art direction
—————————————————————————
"American Gangster" (Universal): Art Direction: Arthur Max; Set Decoration: Beth A. Rubino
"Atonement" (Focus Features): Art Direction: Sarah Greenwood; Set Decoration: Katie Spencer
"The Golden Compass" (New Line in association with Ingenious Film Partners): Art Direction: Dennis Gassner; Set Decoration: Anna Pinnock
"Sweeney Todd The Demon Barber of Fleet Street" (DreamWorks and Warner Bros., Distributed by DreamWorks/Paramount): Art Direction: Dante Ferretti; Set Decoration: Francesca Lo Schiavo
"There Will Be Blood" (Paramount Vantage and Miramax): Art Direction: Jack Fisk; Set Decoration: Jim Erickson

Achievement in cinematography
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"The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford" (Warner Bros.): Roger Deakins
"Atonement" (Focus Features): Seamus McGarvey
"The Diving Bell and the Butterfly" (Miramax/Pathé Renn): Janusz Kaminski
"No Country for Old Men" (Miramax and Paramount Vantage): Roger Deakins
"There Will Be Blood" (Paramount Vantage and Miramax): Robert Elswit

Achievement in costume design
—————————————————————————
"Across the Universe" (Sony Pictures Releasing) Albert Wolsky
"Atonement" (Focus Features) Jacqueline Durran
"Elizabeth: The Golden Age" (Universal) Alexandra Byrne
"La Vie en Rose" (Picturehouse) Marit Allen
"Sweeney Todd The Demon Barber of Fleet Street" (DreamWorks and Warner Bros., Distributed by DreamWorks/Paramount) Colleen Atwood

Achievement in directing
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"The Diving Bell and the Butterfly" (Miramax/Pathé Renn), Julian Schnabel
"Juno" (Fox Searchlight), Jason Reitman
"Michael Clayton" (Warner Bros.), Tony Gilroy
"No Country for Old Men" (Miramax and Paramount Vantage), Joel Coen and Ethan Coen
"There Will Be Blood" (Paramount Vantage and Miramax), Paul Thomas Anderson

Best documentary feature
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"No End in Sight" (Magnolia Pictures) A Representational Pictures Production: Charles Ferguson and Audrey Marrs
"Operation Homecoming: Writing the Wartime Experience" (The Documentary Group) A Documentary Group Production: Richard E. Robbins
"Sicko" (Lionsgate and The Weinstein Company) A Dog Eat Dog Films Production: Michael Moore and Meghan O’Hara
"Taxi to the Dark Side" (THINKFilm) An X-Ray Production: Alex Gibney and Eva Orner
"War/Dance" (THINKFilm) A Shine Global and Fine Films Production: Andrea Nix Fine and Sean Fine

Best documentary short subject
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"Freeheld" A Lieutenant Films Production: Cynthia Wade and Vanessa Roth
"La Corona (The Crown)" A Runaway Films and Vega Films Production: Amanda Micheli and Isabel Vega
"Salim Baba" A Ropa Vieja Films and Paradox Smoke Production: Tim Sternberg and Francisco Bello
"Sari’s Mother" (Cinema Guild) A Daylight Factory Production: James Longley

Achievement in film editing
—————————————————————————
"The Bourne Ultimatum" (Universal): Christopher Rouse
"The Diving Bell and the Butterfly" (Miramax/Pathé Renn): Juliette Welfling
"Into the Wild" (Paramount Vantage and River Road Entertainment): Jay Cassidy
"No Country for Old Men" (Miramax and Paramount Vantage) Roderick Jaynes
"There Will Be Blood" (Paramount Vantage and Miramax): Dylan Tichenor

Best foreign language film of the year
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"Beaufort" Israel
"The Counterfeiters" Austria
"Katyn" Poland
"Mongol" Kazakhstan
"12" Russia

Achievement in makeup
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"La Vie en Rose" (Picturehouse) Didier Lavergne and Jan Archibald
"Norbit" (DreamWorks, Distributed by Paramount): Rick Baker and Kazuhiro Tsuji
"Pirates of the Caribbean: At World’s End" (Walt Disney): Ve Neill and Martin Samuel

Achievement in music written for motion pictures (Original score)
—————————————————————————
"Atonement" (Focus Features) Dario Marianelli
"The Kite Runner" (DreamWorks, Sidney Kimmel Entertainment and Participant Productions, Distributed by Paramount Classics): Alberto Iglesias
"Michael Clayton" (Warner Bros.) James Newton Howard
"Ratatouille" (Walt Disney) Michael Giacchino
"3:10 to Yuma" (Lionsgate) Marco Beltrami

Achievement in music written for motion pictures (Original song)
—————————————————————————
"Falling Slowly" from "Once" (Fox Searchlight) Music and Lyric by Glen Hansard and: Marketa Irglova
"Happy Working Song" from "Enchanted" (Walt Disney): Music by Alan Menken; Lyric by Stephen Schwartz
"Raise It Up" from "August Rush" (Warner Bros.): Nominees to be determined
"So Close" from "Enchanted" (Walt Disney): Music by Alan Menken; Lyric by Stephen Schwartz
"That’s How You Know" from "Enchanted" (Walt Disney): Music by Alan Menken; Lyric by Stephen Schwartz

Best motion picture of the year
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"Atonement" (Focus Features) A Working Title Production: Tim Bevan, Eric Fellner and Paul Webster, Producers
"Juno" (Fox Searchlight) A Dancing Elk Pictures, LLC Production: Lianne Halfon, Mason Novick and Russell Smith, Producers
"Michael Clayton" (Warner Bros.) A Clayton Productions, LLC Production: Sydney Pollack, Jennifer Fox and Kerry Orent, Producers
"No Country for Old Men" (Miramax and Paramount Vantage) A Scott Rudin/Mike Zoss Production: Scott Rudin, Ethan Coen and Joel Coen, Producers
"There Will Be Blood" (Paramount Vantage and Miramax) A JoAnne Sellar/Ghoulardi Film Company Production: JoAnne Sellar, Paul Thomas Anderson and Daniel Lupi, Producers

Best animated short film
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"I Met the Walrus" A Kids & Explosions Production: Josh Raskin
"Madame Tutli-Putli" (National Film Board of Canada) A National Film Board of Canada Production Chris Lavis and Maciek Szczerbowski "Même Les Pigeons Vont au Paradis (Even Pigeons Go to Heaven)" (Premium Films) A BUF Compagnie Production Samuel Tourneux and Simon Vanesse
"My Love (Moya Lyubov)" (Channel One Russia) A Dago-Film Studio, Channel One Russia and Dentsu Tec Production Alexander Petrov
"Peter & the Wolf" (BreakThru Films) A BreakThru Films/Se-ma-for Studios Production Suzie Templeton and Hugh Welchman

Best live action short film
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"At Night" A Zentropa Entertainments 10 Production: Christian E. Christiansen and Louise Vesth
"Il Supplente (The Substitute)" (Sky Cinema Italia) A Frame by Frame Italia Production: Andrea Jublin
"Le Mozart des Pickpockets (The Mozart of Pickpockets)" (Premium Films) A Karé Production: Philippe Pollet-Villard
"Tanghi Argentini" (Premium Films) An Another Dimension of an Idea Production: Guido Thys and Anja Daelemans
"The Tonto Woman" A Knucklehead, Little Mo and Rose Hackney Barber Production: Daniel Barber and Matthew Brown

Achievement in sound editing
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"The Bourne Ultimatum" (Universal): Karen Baker Landers and Per Hallberg
"No Country for Old Men" (Miramax and Paramount Vantage): Skip Lievsay
"Ratatouille" (Walt Disney): Randy Thom and Michael Silvers
"There Will Be Blood" (Paramount Vantage and Miramax): Matthew Wood
"Transformers" (DreamWorks and Paramount in association with Hasbro): Ethan Van der Ryn and Mike Hopkins

Achievement in sound mixing
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"The Bourne Ultimatum" (Universal) Scott Millan, David Parker and Kirk Francis
"No Country for Old Men" (Miramax and Paramount Vantage): Skip Lievsay, Craig Berkey, Greg Orloff and Peter Kurland
"Ratatouille" (Walt Disney): Randy Thom, Michael Semanick and Doc Kane
"3:10 to Yuma" (Lionsgate): Paul Massey, David Giammarco and Jim Stuebe
"Transformers" (DreamWorks and Paramount in association with Hasbro): Kevin O’Connell, Greg P. Russell and Peter J. Devlin

Achievement in visual effects
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"The Golden Compass" (New Line in association with Ingenious Film Partners): Michael Fink, Bill Westenhofer, Ben Morris and Trevor Wood
"Pirates of the Caribbean: At World’s End" (Walt Disney): John Knoll, Hal Hickel, Charles Gibson and John Frazier
"Transformers" (DreamWorks and Paramount in association with Hasbro): Scott Farrar, Scott Benza, Russell Earl and John Frazier

Adapted screenplay
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"Atonement" (Focus Features), Screenplay by Christopher Hampton
"Away from Her" (Lionsgate), Written by Sarah Polley
"The Diving Bell and the Butterfly" (Miramax/Pathé Renn), Screenplay by Ronald Harwood
"No Country for Old Men" (Miramax and Paramount Vantage), Written for the screen by Joel Coen & Ethan Coen
"There Will Be Blood" (Paramount Vantage and Miramax), Written for the screen by Paul Thomas Anderson

Original screenplay
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"Juno" (Fox Searchlight), Written by Diablo Cody
"Lars and the Real Girl" (MGM), Written by Nancy Oliver
"Michael Clayton" (Warner Bros.), Written by Tony Gilroy
"Ratatouille" (Walt Disney), Screenplay by Brad Bird; Story by Jan Pinkava, Jim Capobianco, Brad Bird
"The Savages" (Fox Searchlight), Written by Tamara Jenkins

Em Seoul, 23 de Janeiro de 2008

A chave da qualidade na área da educação

Como já sabem, se acompanham este space, estou em Seul, Coréia — linda, toda coberta de neve.

Ontem tive o privilégio de compartilhar o palco com Michael Fullan, a maior autoridade hoje em dia na área de mudanças na educação (vide http://www.michaelfullan.ca). O Michael é canadense, tendo se aposentado da Faculdade de Educação da Universidade de Toronto há pouco tempo. Lá foi deão da Faculdade de Educação. Eu me aposentei recentemente da UNCIAMP, onde fui diretor da Faculdade de Educação por quatro anos, depois de ter sido diretor associado também por quatro anos. Nós dois somos membros do International Advisory Board de Parceiros na Aprendizagem desde 2003. Nosso mandato de cinco anos deve terminar no final deste semestre.

Ontem nós dois demos os keynotes de abertura do 21st Century Schools Forum 2008 aqui em Seul. Ele falou sobre "Large Scale Change" e eu sobre "Education, Change and Technology: An Inquiry into the Future of Schooling".

Na apresentação de "cases", houve palestras de Cingapura e de Taiwan (Chen Kee Ng, Assistant Director do Ministério da Educação de Cingapura, e Carrie Chen, minha amiga querida, Academic Program Manager na área da educação da Microsoft Taiwan. Cingapura é um país tão pequeno que o Ministério da Eduçacão de lá cuida de tudo na educação: não há Ministério, Secretaria Estadual, Secretaria Municipal…).

Em Out-Nov de 2007 estive na Finlândia (Helsinki e Oulu). A Finlândia e a Coréia são dois países que se destacam na área da educação nos testes de PISA — exatamente com Cingapura, Taiwan e o Canada (com exceção da Finlândia, todos representados aqui).

Gostei muito da fala de Chen Kee Ng, da Cingapura. O que ela mostrou, que me impressionou, foi a consciência de que Cingapura alcançou um nível de qualidade bastante alto na área da educação, mas a educação na qual eles se tornaram bons não está lhes servindo mais, porque o mundo mudou na frente dos olhos deles… "Sabemos fazer alunos tirar notas boas em testes, até mesmo internacionais", disse ela, "mas isto, apesar de nos trazer alguma visibilidade, tem valor apenas relativo para nós". O ponto dela é que o século 21 exige "picos de excelência", não tanto médias altas "across the board" em matérias acadêmicas que, em termos de importância, estão rapidamente cedendo lugar para conjuntos bem definidos de competências.

Fui anotando algumas coisas que ouvi acerca das características dos países que têm se dado bem nas avaliações internacionais (aqueles mencionados acima mais uns poucos, como Canada, Holanda, Australia, Nova Zelândia, Japão, etc. — notem que, com exceção do Japão, nenhum "powerhouse" como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Itália, etc. está entre eles).

Eis algumas dessas características:

* Esses países estão conseguindo que as pessoas certas venham para a área da educação, porque a área da educação é valorizada socialmente (traz status ser professor), paga bem e claramente contribui para o crescimento pessoal dos seus profissionais. Isso tem permitido que esses países SELECIONEM (sic) para a área da educação, dentre os melhores alunos que saem das universidades, aqueles que demonstram possuir características pessoais que os tornam especialmente adequados para o trabalho educacional (como, por exemplo, facilidade para trabalhar com pessoas, interesse em ajudá-las a aprender, capacidade de ouvir, etc.);

* Conseguiram criar uma "infraestrutura de apoio pedagógico" que permite que os profissionais da área se capacitem e desenvolvam o tempo todo, em especial no próprio local de trabalho, e tenham à sua disposição duas coisas: (a) apoio permanente e constante de profissionais experientes em comunidades de prática e de aprendizagem colaborativa focadas na qualidade da prática pedagógica escolar (e que o mais das vezes funcionam virtualmente); e (b) recursos materiais (sugestões curriculares, materiais de apoio à aprendizagem como livros, fotos, filmes, clips de audio, acesso de qualidade à Internet, etc.), que possam ser usados conforme as necessidades de aprendizagem dos alunos;

* Conseguiram montar sistemas e mecanismos de avaliação institutucional das escolas que lhes permite identificar áreas problemáticas cedo e intervir nelas, para que não causem maior dano aos seus alunos e não "contagiem" as demais.

Interessante, não?

Quão longe estamos dessas características no Brasil de hoje.

Em Seoul, 21 de Janeiro de 2008

Coréia

Estou indo para a Coréia mais uma vez (a terceira). Acho Seoul uma cidade muito bonita, principalmente ao lado do rio, mas gosto do interior do país, também. Já andei de trem e de ônibus por algumas cidades distantes até três horas de Seoul.

E Seoul é o paraíso das TVs de tela líqüida, sendo a cidade sede de duas das maiores empresas do setor: LG e Samsung. No tocante a tecnologia, o melhor lugar de comprar, em Seoul, é o TechMart: oito andares (ou mais, não me lembro) só de tecnologia. Há um andar (enorme) só de câmeras, de todos os tipos. É de deixar o visitante zonzo.

Estou saindo daqui de São Paulo hoje à noite para Chicago. De lá pego um vôo para Seoul, via Tokyo. United all the way through. Chego lá no domingo à noite (21h40, no aeroporto). É viagem pra ninguém botar defeito — em termos de duração.

Participo de um encontro lá, onde darei duas palestras. Michael Fullan estará no mesmo evento, com uma palestra e uma oficina.

Irei escrevendo pequenos artigos sobre coisas que achar interessante na viagem. 

Em São Paulo (usando meu modem Claro), 17 de Janeiro de 2008