Learning pathways: Caminhos para a aprendizagem

A educação é o processo pelo qual o ser humano se desenvolve, transformando-se, a partir de um bebê incompetente e, por causa disso, totalmente dependente, em um adulto competente e autônomo.

A aprendizagem é o único caminho para a educação, assim concebida.

No entanto, os caminhos para a aprendizagem são múltiplos. Dizer que são múltiplos e variados os caminhos que levam à aprendizagem não quer dizer, porém, que esses caminhos se igualem em eficácia e eficiência.

Como eu disse no artigo "Modelos de Aprendizagem", disponibilizado no meu site http://mathetics.net, que trata de assunto muito semelhante ao deste site, uma análise das várias teorias da aprendizagem nos permite agrupá-las, grosso modo, em três grandes grupos:

a) Teorias que vêem a aprendizagem como sendo em grande medida decorrente do ensino — isto é, decorrente da ação de pessoas que sabem algo, ou sabem fazer algo, e ensinam a outros aquilo que sabem, ou sabem fazer.

b) Teorias que vêem a aprendizagem como sendo em grande medida decorrente de atividades da própria pessoa que aprende, atividades essas que englobam a observação e a imitação, a investigação e a pesquisa, o estudo e a reflexão.

c) Teorias que vêem a aprendizagem como sendo em grande medida decorrente de interação entre as pessoas, interação essa que se manifesta através da troca de idéias, do diálogo, da discussão e da crítica.

O terceiro desses modelos não se reduz aos dois primeiros. Quando aprendemos de forma colaborativa, interagindo com outras pessoas, temos um modelo de aprendizagem próprio: nele, nem, de um lado, os outros nos estão nos ensinando, e tampouco nós a eles, nem, por outro lado, estamos aprendendo por nós mesmos.

Esses seriam os três grandes caminhos para a aprendizagem.

Pode haver, dentro deles, diferentes estilos de aprendizagem:

No primeiro e no terceiro modelo, o aprendente pode ser mais ativo ou mais passivo. No segundo, não há como ser passivo e ainda aprender.

Além dos estilos mais ativos ou mais passivos de aprendizagem, há outros estilos. Algumas pessoas aprendem mais facilmente manipulando idéias, conceitos, e enunciados apresentados de forma escrita — isto é, manipulando textos. Outras aprendem mais facilmente manipulando ideáis, conceitos e enunciados apresentados oralmente — isto é, em conversas, discussões, trocas de idéias realizadas face-a-face. Ainda outras aprendem mais facilmente lidando com imagens, gráficos, esquemas que representam idéias, conceitos e enunciados visualmente, não de forma explicitamente verbal. Os estilos ativos e passivos se misturam com esses outros. Há aprendentes ativos que, ao lidar com idéias, conceitos e enunciados, precisam esquematizá-los, elas mesmas, gráfica ou visualmente. Outras aprendem de maneira igualmente eficaz e eficiente inspecionando esquemas gráficos ou visuais elaborados por terceiros. Outras só aprendem se conseguirem repetir o que leram ou ouviram em suas próprias palavras. Outras aprendem bastante bem memorizando o essencial do que foi lido ou dito em palavras muito próximas das utilizadas originalmente.

Neste site vou procurar colocar artigos e outras contribuições que discutam essas questões.

Não deixem, porém, de visitar os sites http://learningpathways.net e  http://mathetics.net. E, desejando, visitem também o  meu portal: http://chaves.com.br.

Em Salto, 10 de maio de 2006

A "externalização" do trabalho: o trabalho "invisível"

No mais recente livro de Alvin Toffler (Revolutionary Wealth, publicado no mês passado), ele tem uma seção interessante sobre a “externalização do trabalho”. As empresas já faziam a terceirização do trabalho (que em Inglês se chama “outsourcing”). Externalização (que em Inglês é “externalization” mesmo) é algo diferente. Uma empresa terceiriza parte de seu trabalho para outra empresa. As duas empresas continuam na economia do dinheiro (vamos chamá-la assim: em Inglês é “money economy”). No caso da externalização, o trabalho não é feito por outra empresa: é feito pelos clientes — sem que, normalmente, eles sejam pagos por isso. Quando são pagos, são pagos na forma de menores preços. Isso faz com que uma quantidade enorme de trabalho simplesmente desapareça dos índices econômicos, porque ele não é pago, e, conseqüentemente, não é monetarizado.
A coisa começou lá atrás, mas só agora adquire proporções gigantescas.
Em 1916 foi inventado o supermercado. Antes de ele existir, nos armazéns e empórios as pessoas chegavam, falavam com o dono ou um seu funcionário, pediam o que queriam, o dono ou o funcionário pegava, pesava (se necessário), embrulhava e entregava ao freguês, que pagava e levava a mercadoria embora. Às vezes um menino do estabelecimento até mesmo levava a mercadoria até à casa do freguês. Com o supermercado, os fregueses (agora chamados de clientes) fazem a maior parte do trabalho. Eles procuram o que desejam, eles mesmos pegam da prateleira e colocam no carrinho de compra o que vão levar, quando os produtos precisam ser pesados (como frutas, verduras, vegetais), eles mesmos, clientes, os pegam, colocam em saquinhos plásticos, pesam e etiquetam, etc.
Na maior parte dos supermercados ainda há uma pessoa operando como caixa, que escaneia os produtos e recebe o pagamento. Os clientes em geral empacotam os produtos eles mesmos. Mas a pessoa operando como caixa já não existe em muitos locais nos EUA. Lá já há vários supermercados que têm alguns caixas sem gente… O cliente, ele próprio, escaneia o produto, passa o cartão de crédito no local indicado, autoriza o pagamento, recebe a Nota Fiscal, empacota, e vai embora, ele mesmo empurrando o carrinho, sem interagir com um ser humano. (Isso exige, naturalmente, um certo nível de confiança – alimentada por sistemas de fiscalização, em geral remotos, via câmeras). Em outras palavras: o cliente faz o serviço que, anteriormente, era feito por vários empregados. E não é pago por isso. É verdade que, com a economia em mão de obra, o supermercado pode oferecer preços menores — e é por isso que os clientes se prestam a fazer parte do seu serviço, sem outra remuneração além do preço menor, “externalizando” o trabalho do supermercado. Mas o preço menor indica menor faturamento (embora o supermercado possa aumentar o faturamento vendendo para mais pessoas ou vendendo mais para as mesmas pessoas). A economia de recursos financeiros some da economia formal, monetarizada.
Postos de abastecimento de combustível nos EUA eram como no Brasil: tinham antendentes, que colocavam combustível, limpavam o parabrisa, checavam a pressão dos pneus, etc. Depois começaram a oferecer algumas bombas de self-service — com preço mais barato… Ali o cliente para, abre o reservatório de combustível, aperta os botões indicados, libera combustível, enche o tanque, fecha o reservatório, passa o cartão de crédito no local indicado, pega o recibo e vai embora — sem interagir com um ser humano. O incentivo: preço mais barato do combustível naquelas bombas self-service. Hoje tudo é self-service: isso quer dizer que o trabalho foi totalmente “externalizado” para o cliente, que na realidade trabalha (sem remuneração) para o posto de abastecimento. Se você precisar de ajuda de um atendente, está mal: na maior parte dos postos americanos, não vai encontrar. E ninguém sabe se a economia feita na eliminação dos atendentes continua a se traduzir em menores preços, porque não há como comparar o preço das bombas self-service com o preço das bombas “full service”, que não existem mais…
E os bancos? Antes a gente era atendido por caixas-gente. Depois passamos a transacionar com o banco com caixas-gente através do telefone (Itau Bankline, por exemplo). Hoje interagimos com caixas eletrônicos, sem que haja gente do outro lado. Ou interagimos com o banco pela Internet — também sem que haja gente do outro lado. Os caixas-gente foram demitidos. O lucro do banco aumentou — mas o preço de nossas interações com o banco continua, para nós, o mesmo — ou maior. Os bancos hoje prestam muito mais serviços, com muito menos gente… Porque grande parte do trabalho foi “externalizado” para os clientes, que não são pagos para trabalhar para o banco…
Antes, quando a gente enviava um pacote pelo Federal Express, tinha de ligar pra eles, dar o número do protocolo para uma atendente, esta verificava no computador deles e nos dava uma previsão de entrega. Hoje não há mais a atendente: a gente mesmo entra na Internet, digita o número do protocolo, e verifica exatamente onde está o pacote… Mais “externalização” do trabalho para os clientes, trabalho que é feito sem remuneração.
Estive num restaurante estilo “fast food” em Chicago — especializado em sanduíches — em que a gente chega, interage com um terminal, escolhe o que quer, define os ingredientes do sanduíche, o tipo de pão, os molhos, se quer bebida, qual, de que tamanho, etc. — e recebe um protocolo. Cinco ou dez minutos depois é chamado: o sanduíche está pronto. Não há mais garçon. Há quem faz o sanduíche e quem recebe o pagamento — este podendo facilmente ser eliminado se o sistema exigir que você pré-pague o que comprou com um cartão de crédito. “Externalização”.
E assim vai.
Alvin Toffler estima que o PNB mundial seria dobrado se fossem contabilizados esses trabalhos externalizados, mais aqueles trabalhos que fazemos em casa, ao educar nossos filhos, ao cuidar da casa, ao cuidar dos doentes da família, ao ajudar os vizinhos, ao cuidar de nosso jardim, ao lavar e até mesmo consertar nosso carro, etc.
Voltarei ao tema.
Em Chicago, 7 de maio de 2006

Lost in Translation

Acho muito interessante o filme "Lost in Translation" de Sofia Coppola (ela dirigiu e escreveu o roteiro), com Bill Murray e Scarlett Johansson. Acho que o nome do filme em Português é "Encontros e Desencontros" — que não indica que o filme em gira em torno de problemas lingüísticos que, por sua vez, se traduzem em problemas culturais.

(Quem não assistiu ao filme pode ver um resumo em http://imdb.com e um trailler em http://mymovies.net)

O filme descreve com muita propriedade as dificuldades que ocidentais têm para entender orientais — especialmente para entender orientais em contextos envolvendo comunicação lingüística.

Nos últimos dois anos vim várias vezes à Asia: Taiwan, três vezes, Hong Kong, duas vezes, Macau, uma vez, Coréia do Sul, uma vez, Cingapura, uma vez — quase sempre passando por Tóquio, cidade cujo aeroporto (Narita) possui todo um setor da United — onde apenas ela controla cerca de 30 portões de embarque.

A maior parte do tempo, quando estou aqui, e quero sair, alguém me acompanha: ou alguém local, que fala a língua local (chinês [mandarin], chinês [cantonês], coreano), ou, então, um grupo de estrangeiros que, embora não falando a língua local, compartilham a ignorância da língua e, assim, socializam qualquer passo em falso…

Ontem, porém, Sábado, dia 6, saí sozinho aqui em Taipei. Não é uma experiência fácil. Estou no Grand Hotel, uma construção de estilo chinês, enorme e magnífica, que fica no alto de um morro, cercada por um bosque que, por sua vez, é cercado por pistas de alta velocidade. Sair do hotel andando, como eu normalmente gosto, é complicado. Logo, saí de taxi.

Problema número um: quase nenhum motorista de taxi aqui em Taiwan fala Inglês (ou qualquer outra língua além do chinês de pronúncia cantonesa]). Exigência número um, portanto: sair do hotel munido de descrições em chinês acerca dos locais aos quais você deseja ir, bem como com um cartão de visitas do hotel, que tenha, em chinês, o nome, o endereço e o telefone do hotel. Na saída do hotel os bell-boys lêem o seu papelzinho, falam com o motorista, anotam em um outro papel o número e a placa do taxi, bem como o nome do motorista e lhe dão. Perguntei a eles para que servia aquilo. Disseram, sorrindo como sempre: para sua segurança. Fiquei na mesma. Na mesma, bem, não: fiquei mais preocupado do que estava. Mas não deixei isso transparecer. Procurei demonstrar segurança. Ao chegar ao destino, o motorista apenas apontou para o taxímetro (na ida foi 125 Taiwan dollars, na volta 140, não sei exatamente por que, pois saí de volta exatamente do mesmo local a que cheguei, apesar de ter rodado pelo centro da cidade). Você paga e ele lha dá o troco. Como você não conhece as notas nem as moedas, coloca tudo no bolso, porque conferir levaria tempo demais. 

Problema número dois: muito poucos vendendores nas lojas falam Inglês — e aqueles que falam em geral falam o mínimo indispensável para vender alguma coisa, e, em geral, com uma pronúncia que é muito difícil entender. Eu fui a um local conhecido aqui em Taipei, onde há "trocentas" lojinhas pequenas de eletrônica no espaço de mais ou menos um quarteirão, dispostas quase como estandes de 3×3 ou 2×3 ou até 1×3 numa exposição (como uma feira de informática). Têm de tudo. Mas muitas estavam fechadas. Quando encontrava um vendedor que parecia falar melhor o Inglês, perguntava: "Why so many stores closed?" — Por que tantas lojas fechadas. Recebia em resposta um daqueles olhares indicativos de que a pessoa não entendeu absolutamente nada. Fiquei sem saber se era porque era sábado, se era porque era antes do meio-dia, ou se havia alguma outra razão.

Problema número três: a Joyce Weng, que é a diretora da empresa que organizou a logística do Congresso do qual vim participar, me disse: não pague o que eles lhe pedirem, barganhe. Eu lhe disse: barganhar como??? Ela me disse: quando você achar algo que lhe interessa, aponte para a coisa e pergunte o preço — dizendo "How much?" (isso eles entendem) ou raspando o polegar no indicador ou no pai-de-todos, para indicar dinheiro (que parece ser um gesto com significado universal). Eles vão lhe responder pegando uma calculadora grande e digitando nela o preço. Você pega a calculadora das mãos deles, calcula, digamos, 80% do preço, e mostra pra eles. E por aí vai. Fiquei preocupado. Em geral não sou bom negociador — e barganhar desse jeito parece estar além da minha capacidade. E se eu não me lembrasse de como se calcula porcentagens na calculadora??? 

Mas encurtemos a história.

Na primeira lojinha que encontrei, logo na entrada no complexo (que tem cerca de 15 enormes barracões, todos com ar condicionado, banheiro, caixas eletrônicos, etc., direitinho), encontrei algo que estava procurando: discos rígidos de 2,5 polegadas. Eles em geral são vendidos pelados, sem o estojo. Você tem de comprar o disco pelado, o estojo do disco, pedir para eles instalarem o disco no estojo, formatar o disco e lhe mostrar que o disco está funcionando e tem a capacidade anunciada. Além disso, se você é como eu, você vai querer comprar uma capinha de couro (ainda que seja couro "genérico") para guardar o seu minúsculo disco rígido (menor do que um Palm). Você tem de comprá-la em separado. (Sei disso por que anteriormente já comprei três desses, dois de 80 GB e um de 120 GB — mas comprei-os quando estava acompanhado de gente que falava a língua e barganhava por mim…).

Na lojinha em questão um jovem gordo e careca falava ao telefone exatamente no balcão onde estavam os discos. Tentei chamar a atenção de um outro vendedor, que estava sem fazer nada, mas ele fez sinal de não com a mão, apontando para o gorducho. Enquanto este terminava a ligação, olhei as caixinhas na vitrina. Havia caixinha de disco de 40 GB, de 60 GB e de 80 GB. Eu queria, naturalmente, o de 120 GB. Apontei para as  caixinhas e perguntei: One hundred and twenty gig? Ele me respondeu, Ya. Eu perguntei: How much? O desgraçado não seguiu o script. Ele pegou a calculadora, ligou, e a virou para mim, sem digitar nada. Olhei para ele assim com a minha melhor cara de perdidão. Não adiantou. Fiz um gesto de quem não havia entendido. Ele me respondeu: Make offer — faça uma oferta. Já disse que não sou bom em negociação. Mas quando alguém me dá um preço, em geral sou capaz de oferecer algo assim como cinco por cento abaixo. Mas eu começar dando preço à mercadoria do outro é algo que definitivamente não gosto de fazer. Fiz um sinal de esqueça e fui saindo… O gordão estava rindo, condescendentemente — e levemente sacuindo sua cabeça negativamente. Parecia estar dizendo que ocidentais não sabem negociar. É verdade. Orientais e árabes são muito melhor nisso do que a gente.

Fiquei umas quatro horas por lá. Desenvolvi uma dorzinha de cabeça chata. E não comprei quase nada. Razão: basicamente, insegurança — tanto para a compra parca como para a dorzinha de cabeça. Quando o preço era mais ou menos bom, eu perguntava: Brand? – Marca? E a marca era uma marca taiwanesa, totalmente desconhecida. Quando a marca era Sony, Fujitsu, Samsung, o preço me parecia alto demais — o que me obrigaria a barganhar bastante, coisa que, convenhamos, eu não estava muito disposto a fazer. O pior é você fazer uma pergunta simples e eles ficarem dois minutos conversando em chinês entre eles antes de lhe dar uma resposta — ou, ainda pior, cair na risada sem que você saiba por quê…

O filme de Sofia Coppola lida com essas realidades. Vivenciar meio-dia sozinho num mercado de tecnologia em Taiwan me ajudou a elevar mais a minha avaliação do filme. Não o percam, caso ainda não o tenham visto. Se não gostarem da história, os homens, pelo menos, vão adorar Scarlett Johansson: a menina de 20 anos, por aí, que todo cinqüentão, como Bill Murray, pediu a Deus — e o idiota do marido dela virtualmente a jogou nos braços dele. Mas já conto o final: exceto por um beijo, o caso incipiente dos dois não foi a lugar nenhum: terminou quando ele voltou de Tóquio para os Estados Unidos. Comme il faudrait, peut-être.

Em Taipei, 7 de maio de 2006

Gestão do conhecimento: o conceito

Vou me arriscar a discutir a questão da conceituação da gestão do conhecimento sem me referir à volumosa literatura que existe sobre esse tema. Vou me valer apenas, de um lado, de minha experiência como filósofo, por muitos anos envolvido com a epistemologia (teoria do conhecimento), e como educador, também por muitos anos envolvido com a questão de como é que as pessoas, que nascem ignorantes e incompetentes, conseguem vir a conhecer, isto é, a se designorantizar, e a se tornar competentes, isto é, a se desincompetentizar, e, de outro lado, de meu conhecimento da literatura filosófica sobre o conhecimento. Também fui, durante vários anos, professor de Gerenciamento de Sistemas de Informação. Colocando tudo isso num liqüidificador, vamos ver no que dá…

Há momentos em que me pergunto se a gestão do conhecimento é algo mais do que o antigo gerenciamento da informação – e se é, no que consiste esse mais?

A impressão que tenho é que a gestão do conhecimento é, sem dúvida, algo mais do que o gerenciamento da informação — e que o mais, no caso, é o gerenciamento de competências. Assim teríamos: gerenciamento da informação + gerenciamento de competências = gestão do conhecimento.

Obviamente haverá quem estranhe essa forma de colocar as coisas. Mas vou tentar justificá-la.

Certamente já houve quem tenha dito que a gestão do conhecimento abrange TANTO o conhecimento (que eu prefiro chamar de informação) que está registrado, digamos, no que Karl Popper chama de "Mundo 3", isto é, em mecanismos diversos de registro e armazenamento da informação, como livros, revistas, jornais, discos magnéticos e ópticos, fitas idem, etc. (o "etc" englobando até mesmo fotografias, quadros, reproduções de imagens, discos e fitas com música e vídeo, paredes de caverna, etc. — isto é, englobando até mesmo a informação audio-visual e não apenas textual), COMO o conhecimento que está armazenado na cabeça das pessoas (naquele que Karl Popper chama de "Mundo 2", o mundo mental; o que ele chama de Mundo 1 é o mundo que resta quando se atribuem a outros mundos as realidades mentais e as informações, e que inclui os mecanismos físicos em que armazenamos as informações).

Mas aqui surge o seguinte problema, que tem várias facetas.

O conhecimento que está armazenado na cabeça das pessoas engloba uma boa parte da informação que também está registrada fora. Digamos que vou escrever um artigo. Penso e decido o que vou dizer. Até que eu coloque o artigo em disco ou papel, ele está só na minha cabeça; depois passa a estar na minha cabeça e no papel ou no disco. Se um dia ou me esquecer totalmente do conteúdo do artigo que escrevi, ou, então, se eu morrer, o artigo continuará a existir em papel ou em disco.

Seria o conhecimento que está em nossa cabeça algo mais do que um conjunto de informações que podem ser, digamos, externalizadas e registradas em algum meio de armazenamento de informações? 

Tradicionalmente, na Epistemologia (Teoria do Conhecimento), se argumentou que conhecimento é informação — mas informação de certo tipo. Na versão mais famosa dessa teoria tradicional, as informações que merecem ser chamadas de conhecimento são aquelas que são verdadeiras, para as quais temos evidência, e nas quais acreditamos. Em suma: conhecimento seria crença verdadeira e evidenciada.

Não vou entrar aqui na discussão dessa proposta de conceituação de conhecimento, que é bastante falha. Basta dizer que pouca gente a aceita, hoje. Popper, talvez, tenha sido o seu coveiro.

Muitas outras propostas têm surgido para substituir essa visão tradicional, preservando a idéia de que conhecimento é informação, mas procurando mostrar que apenas um certo tipo de informação faz jus ao rótulo de conhecimento: por exemplo, conhecimento seria a informação integrada, contextualizada e interpretada, por exemplo. E assim vai.

Numa linha diferente, têm havido aqueles que, sob inspiração de Piaget, têm afirmado que conhecimento não é informação (nem mesmo de um tipo especial), mas que é o nome que damos aos nossos modelos e esquemas ("schemata") mentais, que, em última instância, são aquilo que nos permite lidar com grandes quantidades de informação e fazer sentido delas.

Embora atraente, há algumas dificuldades nessa proposta.

Em primeiro lugar, boa parte de nossos modelos e esquemas mentais normalmente não são conscientes. Se fizermos um esforço de foco e auto-análise, poderemos até adquirir consciência de alguns deles, se bem que dificilmente em toda a sua complexidade. Em segundo lugar, se isso é verdade, seria possível descrever, em parte, esses modelos e esquemas, mas seria muito difícil transmiti-los ou transferi-los a terceiros: cada um, em última instância, teria de desenvolver os seus. Em terceiro lugar, se isso é verdade, é difícil imaginar o que seria a gestão, por terceiros, desse conhecimento que está na cabeça dos outros. Na verdade, é difícil até mesmo imaginar o que seria a gestão dos modelos e esquemas mentais que estão na nossa própria cabeça, em parte porque a tomada de consciência deles, ainda que parcial, exige competências de auto-percepção (auto-conhecimento?), análise e descrição de sistemas complexos que a maior parte dos mortais não desenvolve.

Quaisquer que sejam os modelos e esquemas que desenvolvamos para lidar com a informação e fazer sentido dela, parece inegável que esses modelos e esquemas, mais as informações que possuímos em nossa cabeça, se traduzem nas competências e habilidades que desenvolvemos. Sem, necessariamente, nos comprometer com uma visão behaviorística da mente, mas reconhecemento que num contexto instituticional é o comportamento que mais importa, poderíamos, então, concluir que a chamada gestão do conhecimento é o gerenciamento da informação registrada em diversos meios de armazenamento dentro de uma instituição mais o gerenciamento das competências daqueles que ali militam. Assim evitaríamos as complicações envolvidas em falar no conhecimento que está "dentro da cabeça das pessoas".

Quod erat demonstrandum.

Uma última dificuldade, para concluir.

Quando se trata de instituições educacionais, cuja missão, portanto, mais do que transmitir informações, é ajudar os outros a aprender, e reconhecendo, apud Senge, que aprender é se tornar capaz de fazer o que antes não conseguíamos fazer, ou seja, aprender é desenvolver competências, o gerenciamento das competências talvez seja, nessas instituições, bem mais importante do que o gerenciamento da informação.

Em Taipei (Taiwan), 7 de maio de 2006

A liberação do desejo e a busca da riqueza

Em geral pensamos em riqueza com sendo a posse de bens materiais. Alguns têm um conceito até mesmo mais estreito, associando a riqueza à posse de bens financeiros, em última instância, dinheiro.
  
Alvin Toffler, em seu mais recente livro, publicado nos últimos dias, Revolutionary Wealth (Riqueza Revolucionária), procura mostrar que devemos entender riqueza de forma mais ampla. No que segue, vou tecer algumas considerações inspirado pela leitura desse livro. Mas a maior parte do que vou dizer é elaboração minha. (Na realidade, uma boa parte do que vou dizer aqui está contido, numa versão embriônica, em meu artigo “Justiça Social, Igualitarismo e Inveja: A Propósito do Livro de Gonzalo Fernandez de la Mora”, originalmente publicado em 1991, e disponível no meu site pessoal na versão original e na versão revista e ampliada).
  
Riqueza, diz Toffler (p.19), no seu sentido mais amplo, é qualquer coisa que satisfaz nossas necessidades ou quereres (needs or wants). Um sistema de riqueza, por sua vez, é a forma pela qual a riqueza é criada – seja ela financeira ou não, material (tangível) ou não.
  
Aqueles que, como eu, vêm defendendo a idéia de que o desenvolvimento que importa alcançar não deve ser definido em termos puramente econômicos, mas deve abranger aspectos políticos e sociais, sendo um desenvolvimento propriamente humano (noção originalmente proposta pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq, então diretor do PNUD das Nações Unidas, em seu livro Reflections on Human Development (Reflexões sobre o Desenvolvimento Humano), e trabalhada posteriormente pelo economista indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia em 1998, em seu livro “Development as Freedom” (“Desenvolvimento como Liberdade”), darão boas vindas a essa noção de riqueza – porque ela traz consigo uma nova concepção de pobreza – e de como combatê-la.
 
Segundo a noção de riqueza proposta por Toffler, a pessoa que tem saúde, que tem educação, que tem o respeito daqueles que ela respeita, que tem uma família que a ama, a ajuda e lhe dá apoio (ou que tem outros bens intangíveis de que ela precisa ou que quer) – essa pessoa tem considerável riqueza, mesmo que ela seja desprovida de bens materiais e financeiros.
 
A esquerda provavelmente vai dizer que Toffler está relativizando a riqueza, tentando mostrar que o pobre na verdade não é tão pobre se tem esse tipo de riqueza. E isso em parte é verdade. Não é relativização da riqueza: é uma ampliação do conceito. Mas essa noção ampliada de riqueza não é totalmente estranha. Muitos pobres (no sentido de desprovidos de bens materiais e financeiros) de vez em quando respondem, quando se lhes pergunta como vão, que felizmente estão bem, ricos de saúde. O que Toffler está argumentando é que na Sociedade do Conhecimento, em que o conhecimento – não mais a terra, não mais o dinheiro, não mais os bens materiais – é a principal fonte de geração de riquezas, o próprio conceito de riqueza precisa ser revisitado. E, conseqüentemente, o conceito de pobreza.
 
O desejo, afirma Toffler, é, em última instância, a fonte primeira da riqueza – porque é o desejo que define aquilo de que precisamos ou que queremos. O desejo é a mãe da necessidade e do querer. Se riqueza é qualquer coisa que satisfaz nossas necessidades ou quereres, há uma relação estreita entre desejo e riqueza.
Aqui entra uma vertente interessante, porque o desejo é, como gostam de dizer os socializantes, em grande parte, construído socialmente. E sempre há, em qualquer momento da história, e em qualquer tipo de sociedade, os que se propõem gerenciar o desejo dos outros.
 
Aqui entra a famosa tese de Max Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. O que o Protestantismo promoveu, quando surgiu no cenário no século XVI, foi, de certo modo, a liberação do desejo.
O Catolicismo sempre foi crítico da riqueza e defensor da pobreza (material, financeira). Os padres, frades, monges fazem voto de pobreza. O Catolicismo sempre levou muito a sério a tese de que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. O Catolicismo colocou a usura entre os pecados capitais. E o Catolicismo procurou defender esse seu ideal de pobreza tentando gerenciar o desejo: promovendo o asceticismo, o anti-desejo. Para o Catolicismo, não é bom que tenhamos um número elevado de desejos – porque vamos tentar satisfazê-los e, assim, ficar ricos… Para o Catolicismo, o certo é suprimir o desejo. O homem ideal para o Católico é o que, no plano material, necessita de pouco, quer quase nada: o asceta, o monge que vive da esmola alheia… Pobreza franciscana — o conceito ainda está conosco.
 
Uma religião desse tipo é um desincentivo à geração de riqueza, porque inibe o desejo. A riqueza, nesse contexto, é mal vista, é considerada um empecilho à santidade, porque ela é fruto da liberação do desejo. 
 
A propósito, o Catolicismo procurou gerenciar o desejo não só por bens materiais e por dinheiro, mas também pelo sexo. O mesmo padre, frade, monge que faz voto de pobreza, faz voto de castidade, se compromete a suprimir (ou sublimar) o seu desejo sexual. O padre e a madre, o frade e a freira, o monge e a monja, devem procurar se tornar assexuados – suprimir ao máximo, tanto quanto é possível, o desejo sexual. O Catolicismo reconhece que esse asceticismo sexual não é para muitos. Assim, não condena totalmente o sexo: apenas o confina aos limites estreitos do matrimônio, transformando em dogma o dito paulino (aparentemente um asceta sexual convicto depois de sua conversão) de que é melhor casar do que “abrasar-se”, isto é, consumir-se em desejo. No lindo filme “A Noviça Rebelde”, quando Fräulein se descobre totalmente apaixonada pelo Capitão von Trapp, a primeira reação é fugir, não é lutar pelo seu amor contra a insípida baronesa, sua rival. Maria, a noviça rebelde, volta ao convento. A madre superiora, digna sucessora de São Paulo, diz a ela que a vida assexuada não é para qualquer um, e que ela pode servir a Deus mesmo se casando com o Capitão… Gerenciamento do desejo. Se alguém não consegue suprimir ou reprimir o desejo, que o libere, mas confinando-o, disciplinadamente, aos limites do casamento. E, no casamento, o sexo não é para ser desfrutado como fonte de prazer: o sexo é apenas o cumprimento de um suposto dever conjugal, com vistas à execução do mandado divino de crescer, multiplicar, e popular a terra…
 
O asceticismo católico foi além. Como a Igreja era a detentora do saber, e se arvorava na única intérprete confiável das Escrituras e, por conseguinte, da vontade divina, o Catolicismo promoveu, por muito tempo, durante a Idade Média especialmente (mas até hoje, em muitos lugares), um asceticismo cultural, uma apologia da ignorância. Ninguém precisa saber ler, porque, primeiro, não vai entender nada, pois os escritos estão todos numa língua (o Latim) que não é a do povo, e, segundo, porque a Igreja está aí exatamente para dar a religião já “mastigada” para os fiéis, verdadeiros bebês intelectuais. O Catolicismo da Idade Média e da Renascença nunca se preocupou em traduzir a Bíblia para a língua do povo, em colocar material de leitura nas mãos do povo – porque o conhecimento, nesse caso, revelaria a fraude que era o sistema de relíquias, de indulgências, de contribuições dadas à Igreja, em dinheiro ou espécie, para remover almas do Purgatório, para livrar antepassados, mesmo remotos, do fogo do Inferno…  Foi só depois da Reforma Protestante que, com sua Contra-Reforma, o Catolicismo começou a enfatizar a educação – mas ainda assim, uma educação que começava pela catequese – e, não raro, parava aí.
 
O Protestantismo liberou o desejo. E a liberação do desejo se deu no plano conceitual. Não é pecado desejar ter bens materiais. Não é pecado desejar conhecimento, querer saber e entender cada vez mais, mesmo daquelas coisas que o Catolicismo considerava mistérios. Não é pecado ter desejos sexuais. Tudo isso é legítimo, e, portanto, permitido, se praticado dentro dos princípios da moral cristã.
 
Liberando o desejo, o Protestantismo liberou a riqueza – não só no seu aspecto financeiro, material, mas também nos outros aspectos destacados por Toffler. O que o Protestantismo estava dizendo – e essa mensagem era verdadeiramente revolucionária no século XVI – é que a chave para a uma vida bem sucedida e feliz não é suprimir o desejo, mas satisfazê-lo – dentro, naturalmente, de um referencial moral adequado. Ao liberar o desejo, e, assim, a riqueza, o Protestantismo também lançou a raiz de uma nova moralidade. O importante, aqui, é perceber que o Protestantismo introduziu um novo sistema de gerenciamento do desejo.
Mas vamos por partes.
 
Primeiro, o Protestantismo condenou o asceticismo material, despecaminou a usúria, e, assim, liberou o desejo por bens financeiros e materiais. Dessa forma, engendrou as condições culturais que pariram o Capitalismo. Na verdade, em sua versão Calvinista, o Protestantismo colocou o sucesso material como um dos indicadores da eleição divina. O rico, na verdade, é abençoado por Deus com posses materiais e financeiras – e deve sempre procurar aumentar sua riqueza, desde que, naturalmente, ajude a promover a o Protestantismo. As missões surgiram daí: do investimento de gente rica interessada em apoiar a disseminação do Evangelho – em parte na esperança de que, fazendo isso, viria a ser mais abençoada materialmente ainda. O sucesso no plano material é indicativo de que Deus está do lado daquele indivíduo. Para o Protestantismo, a riqueza não é ruim, nem precisa ser vista como “neutra”. A riqueza é uma coisa boa, com a qual Deus recompensa aqueles que trabalham bastante e não são dados ao luxo ostentatório, que, na realidade, é um desperdício daquilo que Deus deu. Trabalho e vida frugal são a chave para o entendimento do Capitalismo.
 
(É interessante notar que o Protestantismo, ao condenar o luxo ostentatório, estava colocando um certo freio ao desejo… Não é pecado desejar dinheiro – mas é condenável transformar esse dinheiro em luxo ostentatório que, de certo modo, humilha a quem não o tem. O dinheiro ganho deve ser aplicado, reinvestido… Está aí a gênese do Capitalismo. É verdade que, ao tentar suprimir o desejo por bens materiais, o Protestantismo estava, de certo modo, dando um tiro no pé: o que alimenta a produção é o consumo, e, por conseguimente, é preciso fomentar o consumo. Aí está a gênese do marketing, da propaganda, da promoção do que se produz… Mas isso veio depois.)
 
Segundo, o Protestantismo condenou o asceticismo cultural. É essencial, já dizia Lutero, que o povo seja capaz de examinar as Escrituras por si próprio. Para isso, duas coisas são indispensáveis: primeiro, que haja escolas onde as crianças aprendam a ler e escrever em sua própria língua (para Lutero era o Alemão), e, segundo, que as Escrituras estejam traduzidas para a língua do povo. Lutero se ocupou de ambas as tarefas. A escola moderna é fruto do Protestantismo. E Lutero foi o primeiro a traduzir a Bíblia para a língua do povo. Sua tradução da Bíblia para o Alemão é ainda hoje uma referência. Para o Protestantismo, o conhecimento não é ruim, é bom. O desejo do conhecimento, do saber, do entendimento, é um desejo legítimo, que não deve ser suprimido ou reprimido: deve se promovido e realizado. E não apenas para um grupo restrito de iluminados, mas para todo mundo. E cada um, por mais simples e humilde, deve ser capaz de ler e interpretar as Escrituras por si só – “sob a inspiração do Espírito Santo”. Esse ato de desintermediação afastou, de pronto, a tese da Igreja Católica de que ela era a única mediadora do conhecimento para as massas. Para o Protestantismo, o leigo tem o direito de saber, de conhecer, de examinar e investigar por si próprio – para ver se aquilo que o padre, o frade, o monge, o pastor estão dizendo é verdade. Lutero tirou a controvérsia de dentro dos mosteiros e das faculdades de teologia e a colocou na rua: suas teses foram pregadas na porta da catedral – simbolicamente, do lado de fora, não de dentro.
 
Terceiro, o Protestantismo condenou o asceticismo sexual. O pastor pode e deve se casar. E, dentro do matrimônio, o sexo é liberado, não apenas para a procriação, mas pelo prazer e pela satisfação pessoal que ele traz. O Protestantismo, naturalmente, não liberou o sexo de forma geral, fora do casamento. Seria esperar demais. Mas o simples fato de ele afirmar, com todas as letras, que o sexo não é ruim, é bom, e que é algo para ser desfrutado sem vergonha, dentro do casamento, e não praticado escondido debaixo dos lençóis e no escuro, com o sentimento de quem está cumprindo um dever, e isso até por um ministro de Deus, esse simples fato já representou uma liberação significativa do desejo sexual – que, mais recentemente, foi grandemente expandida. 
 
(Lembro-me aqui de um padre meio heterodoxo que havia em Campinas, o padre Milton Santana, da paróquia do Taquaral. Um dia fui assistir a um casamento na igreja dele – casamento de minha cunhada, pelo primeiro casamento, Teresinha. [A gente se separa da mulher, mas não da cunhada]. O Padre Milton, ao ler o texto bíblico da criação, que diz que “Deus viu que não era bom que o homem estivesse só”, fez um comentário lateral: “Notem que a Bíblia não diz que não é bom que o homem esteja só, exceto se ele for padre…”. Infelizmente, o padre Milton era minoria na Igreja Católica – continua sendo).
 
Enfim: o Protestantismo introduziu um novo sistema de gerenciamento do desejo – e, por conseguinte, um novo sistema de geração de riquezas, que culminou no Capitalismo. Não é de estranhar que, com poucas exceções, os países que enriqueceram mais rapidamente foram os países protestantes: Inglaterra, Estados Unidos, Suiça, Alemanha… Hoje outros países, católicos ou de religiões não cristãs, estão aprendendo a lição o que o Protestantismo ensinou ao mundo. Mas originalmente, a riqueza acompanhou os países de tradição protestante.
 
Diz Toffler (p.15):
 
“Obviamente, apenas a liberação e a promoção do desejo . . . não se traduzem, por si próprias, e automaticamente, em riqueza. Culturas que promovem o desejo e perseguem a riqueza não se tornam necessariamente ricas. Mas, por outro lado, culturas que pregam as virtudes da pobreza geralmente conseguem nada mais do que aquilo que exaltam”.
 
Pode parecer que tenhamos deixado de lado o conceito ampliado de riqueza sugerido por Toffler e nos limitado, como sempre, a um conceito de riqueza centrado nos bens financeiros e materiais. Mas isso não é verdade. A busca desimpedida do conhecimento e o desfrute de uma sexualidade saudável, não contaminada por complexos e repressões, são riquezas consideráveis, porque permitem que o desejo, expresso como necessidade ou como querer, alcance satisfação. O Protestantismo em geral tem recebido o devido crédito na área econômica, como o pai cultural do Capitalismo, mas tem não tem recebido o devido crédito na área da promoção do conhecimento e da sexualidade. Na verdade, em grande parte por causa do movimento puritano, surgido na Inglaterra e disseminado nas colônias inglesas na América, o Protestantismo tem sido considerado como um movimento retrógrado na esfera da sexualidade. É preciso resgatar a dimensão liberadora da sexualidade presente nas teses e, em parte, no comportamento dos reformadores, de que o sexo é bom, foi instituído por Deus, e que tem, entre as suas finalidades, o prazer.
 
Segundo Toffler, retomando os temas de seus livros anteriores – “Future Shock” (“Choque do Futuro”), de 1970, “The Third Wave” (“A Terceira Onda”), de 1980, e “Powershift” (“Mudança de Poder”), de 1990 – a humanidade conheceu, até recentemente, apenas dois grandes sistemas de criação de riqueza (correspondentes às suas duas primeiras ondas): o agrário e o industrial. Estamos vivendo hoje os primórdios do terceiro – e mais complexo – desses sistemas: aquele alicerçado no conhecimento – em que a riqueza deixa de ser exclusivamente financeira, material, e tangível, e passa a consistir, cada vez mais, de bens intangíveis: tempo, lazer, conhecimento, realização pessoal.
 
Nos próximos dias continuarei a explorar temas sugeridos pela leitura do livro do Toffler.
 
Ainda no vôo United 881, a 12 km de altura, em cima do Pacífico, já em 3 de maio de 2006.
(Em poucas horas meu neto Felipe completa dois dias de vida)

United flight 881 – May 2, 2006

Se Alvin Toffler estava certo ao afirmar que riqueza é tudo aquilo que satisfaz uma necessidade ou um querer do ser humano, sou uma pessoa muito rica, no momento — apesar de pequenos dramas pessoais e de frustrações profissionais.

Escrevo esta crônica a bordo de um Boeing 747, que se dirige para o Polo Norte, numa viagem de Chicago a Tóquio (voo United 881, do dia 2 de maio de 2006). O vôo saiu de Chicago ao meio-dia, hora local, e deve chegar em Tóquio às 15 horas do dia seguinte — também hora local. A duração do vôo é de treze horas. (Se algúem duvida, estude os fusos horários). De Tóquio saio às 17h30 com destino a Taipei, Taiwan, onde chego às 20h15 de amanhã — para dar uma palestra às 10h30 de depois de amanhã, abrindo um congresso sobre Jogos na Educação, do qual a Microsoft é co-patrocinadora.

Enquanto lia e ouvia música no meu iPod Nano na sala de espera do Portão C-18, no Terminal 1 do aeroporto O’Hare de Chicago, ouvi um ruído estranho no background. Era um senhor engravatado que, ao lado de alguém vestido como piloto, dizia alguma coisa amplificada pelo sistema de som. Tirei os meus fones de ouvido e prestei atenção. O engravatado dizia que aquele vôo (o vôo em que eu iria embarcar) seria o último vôo daquele comandante — que, completando 60 anos dois dias depois, era obrigado a se aposentar, pelas regras americanas para esse tipo de trabalhador. O engravatado fez um breve discurso, dizendo que o comandante estava com a United há 32 anos — desde 1974. (Imediatamente me lembrei de que 1974 foi o ano em que comecei a trabalhar na UNICAMP, depois de ter passado sete anos nos Estados Unidos, estudando e trabalhando, sem voltar uma vez sequer para o Brasil nesse período). E que agora, em decorrência da legislação americana, era obrigado a se aposentar. (Eu também me aposento este ano da UNICAMP, depois de 32 anos de trabalho, embora não pela compulsória). E aquele era seu último vôo. “The Final Flight”. Todos aplaudimos o discurso e, naturalmente, o fiel comandante — que recebeu seu broche de ouro (um “pin“) de aposentado como prêmio por tantos anos de dedicação. (Que eu saiba, a UNICAMP — i.e., seu corpo diretivo — nem está tomando conhecimento de que eu vou me aposentar ao final do segundo semestre. Nem, muito menos, está planejando me dar um pin para comemorar a ocasião. E tem gente, pobre de espírito, que acha que empresas privadas, que visam ao lucro, são entidades opressoras, desumanizadoras, e que a solução está em entidades estatais como a UNICAMP…)

O vôo estava surpreendentemente vazio. Minha poltrona era a de número 12A, na parte de cima da classe executiva de um Boeing 747, sem ninguém no assento B, ao lado, e com pouca gente nos outros assentos (dos 30 lugares, só 13 estavam ocupados). Com duas comissárias de bordo e um estagiário, fui muito bem atendido — e o clima estava tão descontraído que tive a oportunidade de conversar um pouco com a tripulação. A comissária de bordo chefe, me chamando pelo nome (Mr. Chaves), veio perguntar o que eu queria comer. Havia escolha entre filé mignon, frango e massa. Preferi o filé mignon. Perguntei a ela por que o vôo estava tão vazio. Voos para Tóquio em geral são lotados. Ela não sabia. Falou que em mais de 20 anos voando entre Chicago e Tóquio, nunca esteve em um vôo tão vazio. Sorte minha. Sorte dela também, creio — tem menos trabalho. Quanto a mim, ganhei mais espaço, mais sossego, e uma interlocutora…

Quando a Comissária veio me trazer bebidas (pedi Vodka Absolut, “on the rocks“, acompanhada de castanhas de caju torradas e bem salgadas), solicitei-lhe que me escrevesse numa folha de papel o nome do comandante — o piloto que estava fazendo sua viagem final. Disse a ela que pretendia escrever uma crônica sobre o episódio e queria o nome dele. Disse-lhe que achei bonito a United reconhecer — e fazê-lo publicamente — seus fiéis empregados, que chegaram ao final de sua carreira na empresa. 

Vi que os olhos azuis dela brilharam quando lhe pedi o nome do piloto… “Claro”, disse ela, assentando-se meio de lado no assento vazio. “Terei enorme prazer. Sabe que ele e eu ficamos noivos há seis meses e que vamos nos casar em Dezembro?” Fui pego de surpresa. Dei-lhe os parabéns. Ousei perguntar-lhe como o conheceu. Disse-me que foi num desses mesmos vôos entre Chicago e Tóquio. Não especulei mais. Tive enorme vontade de perguntar se os dois eram solteiros, quando se conheceram, ou se eram casados e… Mas até a indiscrição, e mesmo a curiosidade, tem seus limites. Não sou repórter de coluna social.

Para resumir: escreveu o nome do comandante, o e-mail dele (no Yahoo! — sorry, Microsoft), e, naturalmente, o nome e o e-mail dela (mulher é um bicho difícil de entender). Ele é o comandante Wayne Walczak. Ela, a Comissária de Bordo Nani Lovell. Os e-mails são informação privilegiada, que não revelo, nem em juizo…

Depois veio o primeiro prato. Salada de folhas verdes da estação, com molho de queijo parmesão, seguido de um “boursin” recheado com núcleo de alcachofras, acompanhado de salmão defumado e camarões gigantes. O prato principal, filé mignon, com pimentas vermelhas “chipotie“, e molho “demiglacé” de mostarda. Tudo “comme il faut” (já que o menu usa vários termos estrangeiros, entro na corrente…). O vinho, para acompanhar, Château Haut-Brisey 2001 Médoc. Havia outras escolhas, mas preferi esse.

[Lamento informar que entre o primeiro prato e prato principal tive de ir ao banheiro fazer xixi… A natureza parece não conhecer as normas de bom-tom e não respeitar o clima romântico desta crônica. Eu, cronista fiel à realidade, não posso deixar de registrar o fato].

De sobremesa, “Eli’s Caramel Apple Cobbler“, acompanhado de Sandeman Founders’ Reserve Porto. “Apple Cobbler” é nome sofisticado para a nossa torta de maçã – que no sul do Brasil se chama “Apfel Strudel“. O vinho do Porto é coisa que só aos deuses deveria ser permitido. No entanto, cá estou eu, sorvendo-o…

Enfim… O que mais se pode desejar? Querem mais riqueza do que isso? Estou viajando lendo um livro interessantíssimo (Revolutionary Wealth, de Alvin Toffler), com comida de primeira, e tendo o privilégio de conviver com histórias pessoais tão interessantes… E, para culminar, tendo acesso ao meu computador Dell (Latitude X1) que me permite registrar tudo isso enquanto as coisas acontecem, sem precisar esperar até chegar ao meu destino, a querida Taipei.

Desejo ao comandante Wayne Walczak e à Comissária-Chefe de Bordo Nani Lovell uma vida feliz e longa. Eles certamente a merecem. Trabalharam na United num período difícil, em que a empresa passou de líder do mercado a concordatária — só se recuperando recentemente (quando saiu da concordata). Devem ganhar menos hoje do que ganhavam há 10 anos, em termos relativos.

Apesar de tudo, só lamento que a UNICAMP não seja a United — embora ambas as instituições tenham um nome que comece com “Uni” — e não reconheça aqueles que deram boa parte de sua vida a ela. Quando me aposentar da UNICAMP, terei de abrir mão do e-mail chaves@unicamp.br, e, se quiser colaborar com a Universidade, sem ganhar um tostão a mais, terei de me sujeitar a todo um ridículo processo de avaliação, extremamente burocrático, que ignora o fato de que já trabalhei ali por 32 anos e meio. Se servi durante 32 anos e meio, por que não iria servir agora, principalmente levando-se em conta que iria trabalhar de graça??? Não vou querer colaborar. Quanto ao e-mail, registrei o domínio unicamp.net nos Estados Unidos. Se quisesse, poderia usar o e-mail chaves@unicamp.net enquanto vivesse. Não faço questão. Prefiro continuar usando o meu eduardo@chaves.com.br. Só registrei o domínio unicamp.net para encher o saco (se bem que não saiba bem de quem). [Nota de 25.9.2022, em revisão: há algum tempo a UNICAMP alterou suas normas e eu recuperei o uso do meu e-mail chaves@unicamp.br. Uso-o normalmente agora, sempre que me convém, em especial para mostrar vínculo como uma instituição acadêmica. Por outro lado, aposentei o e-mail eduardo@chaves.com.br, porque ele recebe uma quantidade enorme de spam e de puro lixo. Uso agora os e-mails eduardo@chaves.pro, eduardo@chaves.im, e eduardo@chaves.one, dependendo da natureza da pessoa ou da instituição com que estou me comunicando. Fim da Nota.]

Se a gente estiver atento, há histórias, mesmo comédias, dramas e até algumas tragédias, ocorrendo ao nosso lado o tempo todo. Eu posso nem saber agora — mas este Boeing 747 pode cair antes de aterrissar em Tóquio daqui umas dez horas. Ele já tem idade para se aposentar. E, em decorrência, haverá várias tragédias pessois acontecendo. Haverá quem chore por mim — acredito que sim, mas até nessa questão crucial reconheço que posso estar errado.

Mais ou menos em cima do Polo Norte, em 2 de maio de 2006. [Revisado em Salto, SP, no dia 25 de Setembro de 2022.]

(PS: Meu neto Felipe completa hoje um dia inteiro de vida fora do Éden uterino). [Nota de 25.9.2002: por eu ter me separado da avó dele, a neticidade do Felipe, que é filho de meu (ex-)enteado Rodrigo, me foi confiscada. Ossos da vida. A gente come os filés mas de vez em quando depara com alguns ossos — sem nenhum tutano. Fim da Nota.]

As demonstrações dos imigrantes ilegais nos EUA

Os Estados Unidos não celebram o Dia do Trabalho com o resto do mundo. Aqui, Labor Day é a primeira segunda-feira de Setembro. Ontem (1/5/2006).
 
Ontem, porém, houve passeatas em quase todas as cidades grandes do país. Eu estava aqui em Chicago e testemunhei. Muita gente. Cerca de 400 mil pessoas. Imigrantes ilegais e, digamos, simpatizantes. Gente que está pressionando para que os Estados Unidos liberalizem sua política imigratória — e, acima de tudo, legalize a situação dos atuais imigrantes ilegais, estimados em cerca de 12 milhões!
 
Em Março também houve passeatas. Mas o tiro, então, saiu pela culatra. Naquela ocasião os demonstrantes eram predominantemente mexicanos, carregavam bandeiras do México, e falavam em espanhol. "Sí, se puede" era o seu refrão. A população "mainstream" reagiu. A questão controvertida, afirmaram os defensores de uma legislação mais forte ainda e de uma vigilância maior na fronteira com o México, não é de imigrantes ilegais: é, predominantemente, de imigrantes mexicanos ilegais, ou, então, de imigrantes ilegais de outros países latinoamericanos que entram nos EUA através da fronteira com o México. E os mexicanos, apontavam os defensores de medidas mais duras contra a imigração ilegal via fronteira com o México, não estão interessados em se integrar na sociedade americana. Continuam a ser leais ao México — como provam as bandeiras que carregavam e o fato de que, em um jogo de futebol recente dos EUA com o México, em Los Angeles, a torcida era 90% para o México. Essa gente, continuavam, não quer aprender Inglês: continuam a falar o Espanhol em casa, e muitos nunca aprendem o Inglês.
 
As forças a favor da legalização dos imigrantes ilegais tiveram de pensar rápido e mudar sua estratégia e seu marketing. E trabalharam bem.
 
Nas passeatas de ontem, a bandeira predominante era a americana. De longe. Havia bandeiras de virtualmente todos países latinoamericanos (Brasil inclusive), mas também havia da China, da Coréia, do Vietnam, etc. Isso significa que os mexicanos conseguiram globalizar a demonstração, convidando imigrantes (ilegais e legais) de inúmeros países, até mesmo fora da América Latina. E o Inglês era a língua predominante. Quando se começava ouvir "Sí, se puede", ele era logo abafado por um "Yes, we can" mais forte. Tentou-se não dar a impressão de que o movimento era coisa de chicano.
 
E cantaram o Hino Nacional americano — em Inglês, direitinho, sabendo a letra de cor. Esqueceram a controvérsia de que o hino deveria poder ser cantado também em Espanhol — porque isso de novo latinizaria a demonstração. Saudaram a bandeira americana com respeito — até exagerado: houve gente que se ajoelhou, com um joelho no chão, como se estivesse diante de um altar. E os depoimentos, todos eles em Inglês, ressaltaram que estavam orgulhosos de viver neste país, a verdadeira terra da liberdade e da oportunidade, que se orgulhavam do fato de que seus filhos falavam Inglês sem sotaque… Só não queriam viver sob ameaça constante de deportação para o país de origem — com a conseqüentente separação dos filhos nascidos aqui, que, segundo eles, ficariam aqui na hipótese de deportação.
 
Boa parte das empresas ontem funcionou "a meio pau", porque os imigrantes ilegais (e mesmo alguns legais) nao apareceram para trabalhar. Algumas empresas até resolveram dar apoio moral e declararam feriado por conta.
 
E os demonstrantes foram criativos nas faixas… Uma dizia: "What if the Indians had closed the borders?" — "O que teria acontecido se os Índios tivessem fechado as fronteiras?"
 
A coisa se complica.
 
Os defensores de medidas mais radicais contra a imigração ilegal ficaram quietos ontem — esperavam que os demonstrantes dessem algum passo em falso que pudesse gerar novo backlash. Mas, pelo jeito, não deram. Corrigiram os erros das demonstrações de Março e deram uma demonstração de força e união — e, o que é mais importante, de lealdade ao país que adotaram e em que escolheram viver (ainda que por meios ilegais).
 
Eu acho que os EUA, como nação e sociedade, deveriam se orgulhar do que aconteceu ontem: milhões de pessoas lutando nas ruas para conquistar o direito de morar aqui legalmente. Enquanto países como o nosso vêem milhares de pessoas se matando para sair daqui, no vizinho do norte o problema é o oposto — prova da pujança da sociedade americana, que é capaz de dar oportunidades aos que para cá vêm e que alenta os sonhos de tantos outros que gostariam de estar aqui mas não têm a coragem de tentar.
 
Em Chicago, 2 de maio de 2006

Da amizade e do amor (e, quem sabe, do sexo)

Uma das coisas mais comuns por esse Brasil afora, quando chega o fim do ano, é a tradicional festa de formatura. Até Jardim da Infância hoje tem sua festa de formatura. Em muitas dessas festas, quando vai chegando o fim, toca-se a canção (Canção da América, letra de Fernando Brant) que Milton Nascimento celebrizou, e que começa dizendo "Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração". Enquanto a música toca e todo mundo cantarola junto, os formandos se abraçam, balançam os corpos em sincronia com o ritmo da música. Alguns formandos choram. (Suas mães também).
 
A amizade é uma coisa bonita. Diferente do que acontece no caso do amor, admite-se, sem problema, que tenhamos vários amigos — todos eles verdadeiros. Não deixamos de ser honestos por termos mais de um amigo verdadeiro. Não traímos um amigo ao arrumar outro amigo: mantemos os dois, sem problemas. Talvez "melhor amigo", se o tivermos, só tenhamos um: mas isso é imposição da lógica ou, quem sabe, da semântica. Podemos ter vários amigos verdadeiros, sem hierarquias, sem que um seja o "amigo matriz", ficando para os outros a categoria de "amigo filial", quem sabe de "amigo franquia"…
 
Pode ser que, no fundo, de vez em quando haja uma pequena ponta de ciúme entre alguns dos nossos amigos, uns querendo ser mais amigos nossos do que os outros, mas, no fundo, nenhum amigo pretende ter exclusividade na amizade de seus amigos. Pelo contrário. Quando temos dois amigos que não se conhecem, em geral fazemos questão de apresentar um ao outro, para que se conheçam e se tornem, também, amigos entre si. Quando fazemos uma "reunião de amigos" o objetivo em geral é que nossos amigos que não se conhecem uns aos outros fiquem se conhecendo e se tornem, também, amigos entre si.
 
Ou seja, apesar do que diz a música, em regra não guardamos nossos amigos debaixo de sete chaves — dentro do nosso coração apenas. Pelo contrário. Queremos sempre expandir nosso círculo de amigos e uma maneira de fazer isso é nos tornando amigos dos amigos de nossos amigos, e tornando possível aos nossos amigos, e seus amigos, que se tornem amigos de nossos amigos. Em suma: queremos que nossos amigos também sejam guardados no coração uns dos outros…
 
Outra coisa interessante é que a amizade raramente fenece e morre devido à ausência física, à distância no espaço, ao tempo passado. Tenho bons amigos que raramente vejo, por força das circunstâncias (distância, falta de tempo, um pouco de relaxo). Quando me encontro com eles, porém, parece que não houve um intervalo muito grande de ausência física: tudo se retoma no ponto em que estava. A amizade é a mesma. Não é preciso dar explicações complicadas. Não é preciso inventar desculpas. A canção de Fernando Brant registra isso quando diz: "Amigo é coisa para se guardar, no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não…"
 
Como muitos aqui sabem, estudei no Instituto José Manuel da Conceição, como aluno interno, de 1961 a 1963. Temos anualmente um ou dois encontros dos ex-alunos daquela instituição (fechada em 1970). Nesses encontros muitas vezes nos encontramos com amigos que não víamos desde os "bancos escolares", há mais de 40 anos. É evidente que, freqüentemente, é difícil reconhecer quem não se vê há muitos anos. Alguns amigos homens engordaram, outros ficaram carecas, outros ostentam barbas e bigodes que inexistiam então… As amigas mulheres raramente continuam as beldades que faziam balançar nosso coração juvenil. Mas quando a identidade se revela, a amizade é retomada como se estivéssemos ainda sentados no alto do morro, ao logo do portão da escola, observando os trens da Sorocabana e as meninas que atravessavam o riozinho para ir para a Casa das Moças. Quarenta anos de ausência não faz diferença na amizade.
Descobrimos até mesmo que alguns ocuparam funções pelas quais não temos muito respeito — um grande amigo meu foi chefe da Censura Federal em São Paulo, outro foi Delegado da Polícia Federal, em ambos os casos em períodos difíceis — mas a amizade, em geral, releva isso, passa por cima dessas coisas, da mesma forma que transcende o tempo. Imaginamos que devem ter tido boas razões para se enveredar por essas profissões meio — como direi? — lúgubres…
 
É verdade que o termo "amigo" tem se desgastado.
 
Chamamos de amigo a quem é mero colega ou simples conhecido. Na rua, às vezes, até mesmo os desconhecidos nos chamam de amigos: "O amigo poderia me dizer onde fica a Rua Eduardo Chaves aqui na Ponte Pequena?", "Amigo, me ajude aqui: estou precisando comprar uma passagem para voltar para o Nordeste…" O Orestes (não o Barbosa: o Quércia) começa suas aparições na TV dizendo "Meus amigos e minhas amigas"… (Você é amigo/a do Quércia?).
 
Mas apesar desses maus usos, o termo "amigo" continua a ter uma conotação nobre. Eu tenho vários colegas e inúmeros conhecidos: mas poucos amigos — dá pra contar nos dedos da mão. Sou muito seletivo em relação às minhas amizades. E não tenho nenhum amigo com quem me abra sem reservas, que seja confidente daquilo que se passa no mais íntimo do meu ser. Essas coisas em geral guardo comigo — "debaixo de sete chaves" — no coração.
 
Um parêntese.
 
Há tempos me intriga a questão se a amizade entre homens é essencialmente diferente da amizade entre mulheres. Muitas mulheres têm me dito que acham as mulheres mais falsas em seus relacionamentos de amizades, mais inclinadas em trair as amigas se a ocasião aparecer. Não sei. Cabe às mulheres dizerem se isso é verdade. Não sou eu que estou dizendo: apenas relato o que já ouvi — de mulheres.
 
Outra diferença curiosa é que homens raramente exaltam, diante dos amigos, as virtudes (de qualquer natureza) das mulheres a quem amam. Podem elogiar (em geral de forma exagerada) as virtudes (se é esse o nome) de uma mulher com quem saíram ou com quem dormiram uma vez — sem maiores compromissos. Mas a respeito das mulheres a quem amam, em geral calam-se: não fazem propaganda delas… As mulheres, por outro lado, quando amam, parecem achar impossível não elogiar seus homens diante das amigas. Parece que, fazendo assim, assumem uma certa superioridade: consegui apanhar um homem melhor do que o seu… (Quando uma amiga se convence do fato e dá em cima do elogiado, a coisa pode ficar feia. Acho incrível o número de casos em que se relata que uma mulher foi traída por sua melhor amiga!
 
Mas aqui já começo misturar os meus dois tópicos: amizades e amores… Fecho o parêntese.
 
Também o termo "amor" tem várias conotações. Os gregos já falavam em agápe, filía e, naturalmente, eros. O amor que Deus teria para com suas criaturas e estas deveriam ter para com ele seria agápe — o amor espiritual, mais puro e nobre. Filía seria algo próximo do amor entre membros de uma família: Filadélfia seria amor fraterno — filia entre adelfoi, irmãos. E eros é o amor com componentes sexuais, "eróticos" ou "erotizados". É deste que pretendo falar um pouco.
 
Sei — sabemos todos — que há casais que admitem o chamado "amor livre". O amor, entre eles, não é exclusivista.
 
Entre eles, há aqueles para quem o amor livre significa, tão somente, sexo livre. O fato de se amarem, nesse caso, não impede de fazerem sexo com terceiros — até mesmo sexo ocasional e, no extremo, anônimo. Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir se amavam desse jeito. Já li as respectivas autobiografias, já li as cartas entre eles (uma quantidade enorme — vários volumes em Francês), e não tenho dúvida de que os dois se amaram a vida inteira. Mas tanto um como o outro transavam sem maiores problemas com outros — e conversavam, entre si, sobre essas transas. Simone, mesmo quando mais madura, sabedora de que Jean-Paul gostava de "carne jovem", agenciava amantes para o seu já envelhecido (mas sempre charmoso) amado. Quando estiveram no Brasil, creio que na Bahia, Jean-Paul teve um aventura sexual até meio escandalosa, diante dos olhos de Simone — que aparentemente não se importava, porque também tinha as suas…
 
Mas há, entre os defensores do amor livre, aqueles que defendem não só sexo não-exclusivo, mas amores não-exclusivos. A própria Simone de Beauvoir, numa de suas visitas aos Estados Unidos, se apaixonou perdidamente pelo escritor americano (O Homem do Braço de Ouro) Nelson Algren. Tenho o livro das cartas apaixonadíssimas que ela escreveu a ele. Simone de Beauvoir, a filósofa que recebe o crédito de ter inventado o feminismo, com seu livro O Segundo Sexo, escrevia a Nelson que deixaria tudo só pelo prazer de cozinhar para ele, de passar as suas roupas, de arrumar a sua casa…
 
Ah, mas ela não deixou de amar Jean-Paul enquanto estava apaixonada por Nelson!!! Pelo contrário: fez questão de levar Nelson até Jean-Paul, para que este o aprovasse… O seu amor por Nelson não seria completo se Jean-Paul, o arqui-amor, não o aprovasse e, de certo modo, compartilhasse o seu amor. Para o restante dos mortais a situação dos três, em Paris, vivendo, parte do tempo, sob o mesmo teto, seria absolutamente constrangedora — totalmente inaceitável, na verdade. Mas para os três, que pareciam capazes de, nietszcheanamente, viver acima do bem e do mal, havia pelo menos uma aparência de naturalidade… Segundo eles, era assim que deveríamos saber lidar com o sexo, era assim que deveríamos saber lidar com o amor.
 
Ayn Rand, para mim a maior filósofa que já viveu, escreveu um livro, que, para mim, é o maior romance jamais escrito, que se chama Atlas Shrugged (Quem é John Galt? em Português). O livro, publicado originalmente em 1957, já vendeu quase 50 milhões de cópias. Nele, há uma heroína maior, Dagny Taggart, e três heróis maiores — Francisco d’Anconia, Hank Rearden e, o maior de todos, John Galt. Ao longo da história Dagny se torna amante dos três — um de cada vez, naturalmente: Francisco, primeiro, depois Hank e, por fim, naturalmente, John. Em nenhum momento ela é amante (no sentido de fazer sexo, fazer amor) com mais de um deles ao mesmo tempo, e, uma vez que comece a fazer amor com um, o caso anterior é devidamente encerrado, lacrado e arquivado (no aspecto sexual). Mas ela continua amando os três até o final do romance — e Galt convive bem com o conhecimento de que ela foi amante dos dois, seus grandes amigos, antes de ser amante dele, e que nunca deixou de amá-los — mesmo que tenha deixado de "fazer amor" com eles.
 
Fora da ficção, na vida real Ayn tentou algo semelhante — e o resultado foi desastroso. Ela se casou, na década de 20, com Frank O’Connor — com quem ficou casada até o fim da vida. Nos anos 50 meio que adotou um casal de filósofos, Nathaniel e Barbara Branden (que não eram casados, mas namoravam, quando, adolescentes, ficaram conhecendo Ayn, então já com quase 50 anos). No início da década de 60 Ayn e Nathaniel se convenceram de que estavam apaixonados. Antes de fazer amor, convocaram os cônjuges e comunicaram a eles que estavam apaixonados e que queriam a anuência deles para começarem a fazer amor… Eles, relutantemente, deram. As coisas continuarem aparentemente bem na superfície, até que tudo explodiu — quanto Ayn descobriu que Nathaniel, além de seu amante e marido de Barbara, estava apaixonado por uma terceira mulher, com quem já tinha transado (sem dizer nada às outras duas): Patrecia (pronuncie-se Patricia)…
 
Enfim: por que conto essas histórias, parte ficção, parte vida real? Para indagar o seguinte: Por que é que gerenciamos relativamente bem nossas amizades, e temos grandes amizades de forma não-exclusiva, e, no entanto, complicamos terrivelmente a nossa vida amorosa, ao exigir total exclusividade? Há cônjuges que virtualmente obrigam o outro a não só não fazer sexo e não ter outro amor fora do casamento, mas até mesmo a abandonar os seus amigos de antes do casamento… ou a abandonar amigos de quem elas não gostem… ou a abandonar amigos de cujas mulheres elas não gostem… 
 
Qual será o componente que torna a nossa vida amorosa complicada: o sexo ou o amor, em si? Ou algum outro componente aqui não declinado, como, por exemplo, o ciúme, o sentimento de posse, na verdade, de posse exclusiva, não compartilhada? Por que é que alguns humanos conseguem aparentemente transcender os problemas que a maior parte dos outros humanos consideram "intranscendíveis", e convive, aparentemente bem, com sexo livre e amor livre, sem ciúmes?
 
Discutimos aqui na lista a questão da educação da sensibilidade, da educação das emoções… Falávamos da educação das emoções DOS OUTROS. Mas E AS NOSSAS??? Será que é possível educar nossas emoções a tal ponto que venhamos a lidar com o amor e com o sexo (com nossas PAIXÕES) com a mesma racionalidade que (em geral) domina nossas relações de amizade?
 
Fica a questão.
 
Em Salto, 6 de abril de 2006 (dia do primeiro aniversário do meu neto Marcelo)

AIDS, o Grande Inquisidor e as certezas da classe médica

[Este artigo foi escrito em 1989. Até hoje não vi resposta convincente às questões que ele levanta]

É como leigo no assunto que venho tornar pública minha surpresa diante da absoluta certeza demonstrada por uma parte da classe médica de que o vírus HIV é de fato o causador da AIDS. Essa certeza parece ter se acentuado a partir do momento em que um professor alemão, radicado na Califórnia, resolveu questionar a ortodoxia dominante. “O HIV causa AIDS, sim!”, é, por exemplo, o título de um dogmatizante artigo do médico Drauzio Varella, publicado em O Estado de São Paulo de 27/04/89.

A reação à entrevista dada ao Fantástico pelo professor Peter Duesberg não se dignou sequer a levar a sério as idéias por ele externadas: partiu diretamente para argumentos “ad hominem”. Um dos médicos brasileiros que “repercutiu” (se me permitem o jargão jornalístico) a entrevista chegou quase a taxar o professor californiano de um mero “Zé Ninguém” em busca de notoriedade.

O Dr. Varella ataca somente o homem, deixando incólume a tese que este defendeu. Afirma, por exemplo, que o professor Peter Duesberg não é médico, nunca colocou mão em doente, nunca estudou o HIV em laboratório, nunca publicou no campo da AIDS. Além do mais “é nitidamente fascinado pelas câmeras”.

O Dr. Varella é forçado a reconhecer que o professor Duesberg é um Ph.D. e que andou fazendo umas pesquisas importantes na área dos retro vírus (ao qual pertence o chamado vírus da AIDS), mas sua descoberta mais importante é descrita como nada mais do que o desvendamento de “certos mistérios que envolvem a malignização de células da galinha”. C’est tout. Fini.

Contra o professor Duesberg o Dr. Varella afirma, ainda, que suas teses são desmobilizadoras, pois poderão levar muitas pessoas a não tomar tantos cuidados em relação à AIDS, e que poderão dar a impressão de que “nem os próprios cientistas sabem se a AIDS é transmitida por vírus ou não”. Contra essa impressão ele decreta: “Não existe polêmica no mundo científico: é o HIV que provoca AIDS, e ponto final”. O professor Duesberg acaba de ser colocado fora do mundo científico.

Eu, como leigo no assunto, mas razoavelmente interessado em encontrar sentido naquilo que os especialistas, reais ou auto-proclamados, afirmam, permito-me algumas considerações semi-epistêmicas sobre o assunto.

1) Parece-me um absurdo, em primeiro lugar, a utilização descarada da argumentação “ad hominem”. Tudo bem, o professor Duesberg não é médico. Mas e daí? Vamos analisar o que ele disse, não quem ele é. Afinal de contas, de vez em quando um não-médico também diz alguma coisa que faz sentido e que pode até ser verdadeira. Não me consta que os médicos detenham o monopólio do saber, nem mesmo na área restrita da medicina. Muito menos em áreas envolvendo pesquisas de ponta da biologia. O fato de não ter colocado as mãos em doentes de AIDS não desqualifica o professor Duesberg, a priori, para fazer afirmações sobre vírus, em geral, e o dito da AIDS em particular. E se o fato de supostamente “ser fascinado pelas câmeras” tornasse suas afirmações automaticamente inverídicas, não sei bem o que restaria de verdade dentro da comunidade médica, pois alguns dos defensores da ortodoxia vigente na área da AIDS no Brasil me parecem vítimas pelo menos igualmente graves da mesma fascinação, para não mencionar o encanto pelas páginas dos jornais.

2) Parece-me, porém, ainda mais absurdo criticar o professor Duesberg com base na alegação de que sua tese desmobiliza todo o esforço hoje sendo feito no sentido de reduzir a infecção pelo HIV. Ora, é isso, porventura, argumento que se apresente? Ainda que o Dr. Duesberg estivesse redondamente errado, a forma de combatê-lo seria mostrar que sua tese é falsa, não apelar para o seu potencial desmobilizador. Afinal de contas, o próprio professor Duesberg deixou claro, no Fantástico, para quem quis ouvir, que, mesmo que ele esteja certo em relação ao HIV, a mobilização é importante, porque a síndrome que se chama de AIDS está estreitamente relacionada a hábitos ou estilos comportamentais.

Mas vou além: ainda que o professor Duesberg estivesse propondo a tese de que a forma de contrair AIDS não tem nada que ver com o HIV nem com hábitos ou estilos comportamentais, e que, portanto, toda a mobilização atual é desnecessária, ainda assim, repito, a afirmação de que sua tese é desmobilizadora em nada a invalida.

3) O Dr. Varella afirma que não teria havido “nada de mais” se o professor Duesberg tivesse restringido suas opiniões ao círculo “de sofisticada discussão acadêmica” e tivesse se limitado à “elegância do estilo científico”. O problema foi que ele levou suas idéias “aos meios de comunicação de massa”.

Essa técnica de argumentação me faz lembrar “O Grande Inquisidor”, do romance Os Irmãos Karamazov, de Dostoiewsky. Por detrás do dito, o não-dito correria mais ou menos assim: “Nós, pesquisadores e médicos, sabemos, aqui entre nós, que o professor pode ter razão. Mas não é bom divulgar isso, porque vai fazer com que os costumes do povão voltem a se deteriorar. Toda a ‘indústria da AIDS’ pode ser desmontada se o povão acreditar no que diz o professor. As empresas farmacêuticas não vão fabricar mais tantas camisinhas, nem tantos ‘kits’ de testes anti-HIV, Elisa, Western Blot, etc. E nós, os protetores dos enfermos aidéticos, vamos perder nosso acesso à tribuna da imprensa, para não falar nas consultorias e nas verbas para pesquisa, etc.”. “O Grande Inquisidor” defendia postura idêntica: é importante fazer o povão acreditar em “mentiras pias”, que nos permitem controlá-lo melhor e tê-lo à nossa mercê.

Foi com base em posturas desse tipo que muito incrédulo mandou herejes para as fogueiras na Inquisição — não porque os hereges dissessem algo de que discordassem, mas porque os hereges o diziam abertamente, em praça pública (diante das câmeras de televisão, dir-se-ia hoje).

4) Em resumo, o que é que disse o professor Duesberg? Ele disse, fundamentalmente, o seguinte:

A) Não se tem conhecimento de nenhum caso de infecção virótica que se manifeste sete ou oito anos depois de a pessoa haver contraído o vírus e após ter desenvolvido os anti-corpos a esse vírus. As infecções viróticas geralmente se manifestam logo após o vírus ter sido contraído.

B) As pessoas que contraem o HIV, segundo a evidência disponível, desenvolvem anti-corpos (na verdade os testes verificam a presença não do vírus em si, mas de anti-corpos a ele), e ficam sem manifestação alguma da doença por vários anos — sete a oito, em média. Pode até dar-se o caso de algumas pessoas terem contraído o vírus e nunca virem a ter manifestação alguma da doença.

C) Esse fato, em si, é indicativo de que a causa da doença não é a presença do vírus no organismo. Este já foi tornado ineficaz, como demonstra a presença dos anti-corpos. Daqui a vinte anos, afirmou o professor Duesberg, a comunidade científica vai rir de quem um dia afirmou que um vírus contraído oito anos antes, e cuja ação já foi tornada ineficaz, pudesse ainda causar uma doença e, finalmente, a morte de uma pessoa.

D) O professor Duesberg afirmou que o que é hoje chamado de AIDS é uma síndrome de doenças, que possuem manifestações diferenciadas e provavelmente etiologias diferentes, dependendo dos grupos de comportamento de risco das pessoas que as contraem: homossexuais, viciados em drogas, etc. Mais perigoso para a saúde (inclusive imunológica) da pessoa é sua promiscuidade sexual, o conteúdo de suas seringas, do que ser homossexual ou usar agulha contaminada.

E) Afirmou, por fim, o professor Duesberg que remédios, como o AZT, que estão sendo utilizados contra a AIDS, em função da visão dominante quanto à sua etiologia, estão causando mais mal do que bem e que na verdade podem estar realmente matando os pacientes.

5) São essas afirmações que eu, como leigo neste assunto, gostaria de ver discutidas pela classe médica. E gostaria de ver argumentos reais, e não meros “argumentos” de autoridade. Para mim, dizer que fulano de tal, prêmio Nobel, ou diretor de um famoso hospital, não concorda com o professor Duesberg, não significa nada: quero ver alguém refutando as afirmações do professor. Seria pedir demais à classe médica?

E não adianta simplesmente reiterar a verdade recebida, dizendo, “O HIV causa AIDS, sim!”, por mais pontos de exclamação que possam ser colocados após o “sim”, nem dizer, como disse um outro entrevistado do Fantástico, que é um pesquisador contra 50.000. O problema não é de aritmética nem se resolve no voto.

Alguém se habilita a realmente responder ao professor de Berkeley?

Em Salto, 29 de março de 2006 (artigo escrito em 1989)

Educação, felicidade e riqueza

Em 1976, no meu terceiro ano como Professor de Filosofia da Educação na UNICAMP, quando muitos nesta lista não haviam nem nascido, conheci Morris Weinberger, um professor da Bowling Green State University, em Bowling Green, Ohio (onde posteriormente estive como professor visitante), e peguei dele um interessante questionário sobre os objetivos da escola. O questionário listava vinte possíveis objetivos para a educação escolar (não para a educação em geral, mas, sim, para a educação que se proporciona na escola).

O questionário tinha itens como “Ajudar os alunos a dominar bem os conteúdos constantes das matérias do currículo”, “Ajudar os alunos a apreciar e valorizar as diferenças culturais”, “Ajudar os alunos a se envolver na luta por uma sociedade melhor e mais justa”, “Ajudar os alunos a adquirir hábitos constantes de aprendizagem”, “Ajudar os alunos a se preparar para o exercício de uma profissão”, etc. No total, vinte possíveis objetivos para a escola.

A tarefa dada aos alunos seria discutir, em pequenos grupos, aqueles objetivos e, depois, cada um por si, hierarquiza-los em ordem de preferência. O objetivo colocado em primeiro lugar seria aquele considerado pela pessoa como o mais importante para escola – e assim por diante. Os objetivos colocados nos últimos lugares seriam aqueles que a pessoa nem achava que devessem ser objetivos da escola. (Embora pudesse considera-los objetivos dignos da educação que tem lugar no lar, na comunidade, no trabalho, etc.).

(A segunda fase do exercício era pedir aos alunos para preencher mais uma vez o questionário agora hierarquizando os objetivos segundo, na opinião deles, as preferências dos seus professores… Depois, na terceira, pedir aos professores que preenchessem o questionário, segundo suas próprias preferências. Finalmente, na quarta, pedir aos professores que preenchessem o questionário segundo, na opinião deles, as preferências dos alunos. Depois se comparava tudo. Dava uma discussão interessante. Mas não é bem isso que eu quero focar aqui). 

Durante quase trinta anos apliquei esse questionário aos meus alunos. Consistentemente os objetivos que ficaram nos dois primeiros lugares na preferência dos alunos foram “Ajudar os alunos a adquirir hábitos constantes de aprendizagem” e “Ajudar os alunos a se envolver na luta por uma sociedade melhor e mais justa”. Esses dois sempre se alternaram nos dois primeiros lugares ao longo dos anos.

Nenhuma surpresa aí.

O que me causou surpresa foram os dois objetivos que consistentemente ficaram nos dois últimos lugares na preferência dos alunos: “Ajudar os alunos a melhorar sua condição sócio-econômica e, se possível, alcançar sucesso financeiro” e “Ajudar os alunos a alcançar felicidade pessoal”. Novamente aqui, esses dois objetivos se alternaram nos dois últimos lugares, ao longo dos anos.

Isso, para mim, sempre foi fonte de grande perplexidade.

Explico por quê.

1) A educação deve promover o desenvolvimento humano. Se não nos desenvolvemos (a partir dos seres incompetentes e dependentes que somos ao nascer), morremos (a menos que alguém constantemente tome conta de nós, em cujo caso nos tornamos piores do que incompetentes e dependentes temporários: nos tornamos parasitas permanentes).

2) Isso significa que a educação deve nos preparar para a vida. A vida do ser humano, entretanto, diferentemente da vida de uma tartaruga marinha, é relativamente aberta: podemos escolher, dentro de amplos limites, o que vamos ser na vida. Em geral, essa escolha é ditada por nossos valores (aquelas coisas que nos dispomos a lutar para alcançar ou, tendo alcançado, preservar). Outra forma de dizer isso é afirmando que o que fazemos de nossa vida é ditado por nossos sonhos (nossos projetos de vida). Dinheiro (como já dizia Aristóteles) é meio: não tem valor em si, seu valor decorrendo daquilo que ele nos permite fazer (e que, sem dinheiro, não conseguiríamos). Embora se afirme que dinheiro não traz felicidade, isso só é verdadeiro no sentido de que a posse do dinheiro, em e por si só, não faz ninguém feliz. Mas é inegável que o dinheiro torna possível viabilizar muitos de nossos sonhos e torna possível, de muitas maneiras, a transformação de nossos sonhos (projetos de vida) em realidade.

3) A felicidade, a meu ver, tem muito que ver com tudo isso. Feliz, ou realizada, é a pessoa que é capaz de transformar seus sonhos (projetos de vida) em realidade. Embora isso muitas vezes seja um horizonte distante, em geral somos felizes quando conseguimos fazer progresso nessa direção, quando vemos que nossos esforços para transformar nossos sonhos (projetos de vida) em realidade estão surtindo resultados e estamos caminhando na direção daquilo que vai nos tornar felizes, ou realizados.

4) Se essa linha de raciocínio faz sentido, ajudar as pessoas a alcançar sucesso financeiro e ajudar as pessoas a alcançar felicidade pessoal deveriam ser os objetivos centrais da educação. Por que meus alunos relegaram esses dois objetivos para os últimos lugares, removendo-os do escopo da escola, é, para mim, difícil de entender.

5) Nas discussões que mantinha com eles ficava claro que a principal razão que eles tinham para remover esses objetivos educacionais do âmbito da escola era que eles imaginavam que a escola deveria se limitar a tratar de questões cognitivas ou intelectuais, deixando questões como sucesso financeiro e felicidade pessoal para o âmbito da educação que tem lugar no lar e na comunidade. Assim, defendiam-se dizendo que os objetivos poderiam até ser importantes para a educação, mas não deveriam ser incluídos no âmbito da escola: esta deveria só tratar do desenvolvimento de competências cognitivas.

6) Se, entretanto, levamos a noção dos 4 Pilares a sério, como definindo, em linhas gerais, um programa não só para a educação, mas para a escola, então teremos de virar o currículo verdadeiramente de cabeça para baixo. Não se trata simplesmente de a escola deixar de ser uma transmissora de informações e conhecimentos. Ela deve passar a se preocupar com o desenvolvimento de competências, por parte dos alunos – e não só de competências ditas cognitivas [aprender a conhecer, aprender a aprender], mas também de competências no plano dos relacionamentos, até mesmo no âmbito do casamento ou das uniões estáveis [aprender a conviver], de competências no plano dos empreendimentos [aprender a fazer, onde está a competência de alcançar sucesso financeiro], e, finalmente, de competências no plano pessoal, que inclui a imaginação, as emoções, a sensibilidade [aprender a ser].

7) Falando do aprender a ser, o que seria de nós sem a imaginação da leitura (Rebecca, Helena e Gabriela são mulheres mais reais para muitos de nós do que muitas de carne e osso), as emoções da música (Una Furtiva Lacrima, com Nana Mouskouri), as sensações geradas pela contemplação do belo (um pôr-do-sol, um beija-flor beijando a flor, ou então as belezas criadas pelo homem, a Mona Lisa no Louvre, o pensador de Rodin, mais ao lado, no Museu Rodin, a Catedral de Sacré-Coeur um pouco mais acima, em Montmartre…]. Nossa vida seria muito mais pobre se não desenvolvêssemos competências nessas áreas. [Mudem os exemplos para outros que cada um acha importante].

8) Edgar Morin disse, num tom poético, que a educação (inclusive a escolar) deve nos preparar para falar em prosa e em poesia… O falar em prosa trata dos meios, daquilo que nos permite continuar vivos, mas o falar em poesia trata dos fins, daquilo que nos permite querer continuar vivos. O primeiro, nos permite viver, mas o segundo nos dá a razão para querer viver…

9) Rubem Alves também falou, em várias de suas crônicas, que a educação (inclusive a escolar) deve nos permitir criar uma caixinha de ferramentas (tool box) e uma caixinha de brinquedos (toy box). Semelhantemente à propositura de Morin, a primeira nos permite continuar vivos (e, em grande media, nos traz dinheiro), mas é a segunda que nos dá prazer (embora muita gente aprenda a ganhar dinheiro com as coisas que lhe dão prazer).

10) Deve a escola deixar ao desabrigo o desenvolvimento dessas competências-brinquedo e se concentrar em desenvolver nossas competências-ferramenta? Deve a escola nos ajudar a aprender a falar apenas em prosa, não em poesia?

É isso – por enquanto. Se eu fosse preencher hoje o questionário que costumava dar para meus alunos (minhas alunas), colocaria nos dois primeiros lugares exatamente os dois objetivos que eles consistentemente colocaram em último…

Em Washington, 14 de março de 2006