Ética marxista

Há uma revista, que tem o título de Crítica Marxista (www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista/), publicada pelo Centro de Estudos Marxistas (www.unicamp.br/cemarx), que tem por objetivo a "difusão e discussão da produção intelectual marxista em sua diversidade, bem como de intervenção no debate e na luta teórica em curso".

Eis o endereço da revista, conforme fornecido no site dela (que é dentro do site da UNICAMP):

REVISTA CRÍTICA MARXISTA
Centro de Estudos Marxistas (cemarx)
Cidade Universitária Zeferino Vaz
Distrito de Barão Geraldo
Caixa Postal 6110
13083-970 – Campinas – SP
Brasil
Tel. (0xx19) 3788-1639
Email: cemarx@unicamp.br

Pelo jeito o centro e a revista usam espaço físico, eletricidade, água, telefone e e-mail da UNICAMP. Isto é: os impostos dos paulistas pagam pela operação do Centro que publica a revista. A sede do Centro de Estudos Marxistas é num edifício que pertence ao governo do Estado de São Paulo. O espaço vem com luz, água e esgoto. Provavelmente é pessoal de limpeza pago pela UNICAMP que cuida da limpeza do espaço do centro. Seu email é um email oficial da UNICAMP. Seu site está dentro do site da UNICAMP. O telefone do centro é um ramal do PABX da UNICAMP (acabei de confirmar, ligando para lá).

E depois há marxista que critica o uso de bens ou recursos públicos para fins privados, quanto este é feito por não-marxistas.

Mas isso é compreensível. Os marxistas têm um conjunto de princípios para julgar e criticar os outros, os não-marxistas. E um só princípio para si próprios: o princípio de que o fim de promover a revolução comunista justifica qualquer meio.

Sérgio Lessa, professor de Filosofia da Universidade Federal do Alagoes, e um dos membros do Comitê Editorial da revista "Crítica Marxista" do "Centro de Estudos Marxistas", tem um artigo, com o título "Marxismo, Ética e Política Revolucionária", também no site da UNICAMP (http://www.unicamp.br/cemarx/criticamarxista/D_SLessa.pdf), em que afirma:

"… No mundo burguês [i.e., no mundo em que vivemos no Brasil], a política revolucionária … não passa do exercício do poder do homem sobre o homem. … Neste sentido, pode ser tudo menos o exercício da ética. [Até chegar à "emancipação humana", objeto da "práxis revolucionária"] "a efetivação da ética como uma dimensão da vida cotidiana é uma impossibilidade … completa".

Está tudo explicado. Os marxistas defendem a tese de que a ética na política revolucionária, feita para derrubar "a sociedade burguesa", é uma "impossibilidade completa". A ética só voltaria a ter vigência depois de a práxis revolucionária ter transformado a sociedade burguesa na sociedade sem classes.

Os marxistas se justificam afirmando que a burguesia faz política sem ética — só para defender a propriedade privada. Logo, eles, marxistas, estão justificados em suspender a ética em sua luta revolucionário. Simples e fácil. Nessa luta deixam de respeitar não só a propriedade privada de pessoas físicas e jurídicas: desrespeitam, em seu próprio benefício, os bens públicos — como são aqueles da Universidade Estadual de Campinas — sustentados com os impostos de uma maioria que não é marxista e rejeita explicitamente o marxismo, como já ficou sobejamente demonstrado.

A revista Crítica Marxista tem o seguinte Comitê Editorial:

Andréia Galvão – Universidade Estadual de Campinas (agalvao@unicamp.br)
Armando Boito Jr. – Universidade Estadual de Campinas (boito@uol.com.br)
Caio Navarro de Toledo – Universidade Estadual de Campinas (cntoledo@terra.com.br)
Décio Saes – Universidade Metodista de São Paulo (mdsaes@uol.com.br)
Hector Benoit – Universidade Estadual de Campinas hbenoit@uol.com.br
Isabel Maria Loureiro – Univerisdade Estadual Paulista (mbdolive@usp.br)
Jorge Grespan – Universidade de São Paulo
João Quartim de Moraes – Universidade Estadual de Campinas (quatis@uol.com.br)
João Roberto Martins Filho – Universidade Federal de São Carlos (djrm@power.ufscar.br)
Luciano Cavini Martorano – Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro
Patrícia Vieira Trópia – Pontifícia Universidade Católica de Campinas (tropia@uol.com.br)
Sérgio Lessa – Universidade Federal de Alagoas (sl@fapeal.br)

O último listado é o autor do artigo citado acima.

O Conselho Editorial tem até vários mortos (Edgard Carone, Florestan Fernandes, Maurício Tragtenberg, Nelson Werneck Sodré) que continuam a participar do Conselho "in memoriam". Emir Sader, o morto vivo, que acha que vive num país que está do avesso, sem perceber que quem está do avesso é ele, faz parte do conselho também. Eis a lista completa do conselho:

Adalberto Paranhos – Universidade Federal de Uberlândia
Adriana Doyle Portugal – socióloga
Altamiro Borges – jornalista
Andréia Galvão – socióloga
Aldo Durán Gil – cientista político
Amarilio Ferreira Junior – UFScar
Arlete Moisés Rodrigues – Universidade Estadual de Campinas
Augusto Buonicore – historiador
Carlos César Almendra – Fundação Santo André
Carlos Zacarias Júnior – Universidade Estadual da Bahia
Ciro Flamarion Cardoso – Universidade Federal Fluminense
Claudinei Coletti – sociólogo
Clovis Moura – in memoriam
Duarte Pereira – jornalista
Edgard Carone – in memoriam
Edilson José Graciolli – Universidade Federal de Uberlândia
Emir Sader – Universidade de São Paulo
Elisiário Andrade – Universidade Católica de Salvador
Eurelino Coelho – Universidade Estadual de Feira de Santana
Ester Vaisman – Universidade Federal de Minas Gerais
Fernando Novais – Universidade Estadual de Campinas
Fernando Ponte de Sousa – Universidade Federal de Santa Catarina
Flávio de Castro – sociólogo
Florestan Fernandes – in memoriam
Francisco Foot Hardman – Universidade Estadual de Campinas
Francisco Farias – Universidade Federal do Piauí
Francisco José Teixeira – Universidade Estadual do Ceará
Franklin Oliveria – historiador
Genildo Ferreira da Silva – Universidade Federal da Bahia
Gildásio Santana Jr. – Universidade Estadual da Bahia, Vitória da Conquista
Guilherme Cavalheiro Dias Filho – Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Hector Saint-Pierre – Universidade Estadual Paulista
Hermenegildo Bastos – Universidade Nacional de Brasília (DF)
Iná Camargo – Universidade de São Paulo
Isaac Akcelrud – in memoriam
Ivo Tonet – Universidade Federal de Alagoas
Jacob Gorender – historiador
Jesus José Ranieri – Universidade Estadual de Campinas
João Francisco Tidei de Lima – Universidade Estadual Paulista
Jorge Grespan – Universidade de São Paulo
Jorge Miglioli – Universidade Estadual Paulista
Jorge Novoa – Universidade Federal da Bahia
José Carlos Ruy – jornalista
José Corrêa Leite – jornalista
José Francisco Xarão – professor de filosofia
José Luís Soares – sociólogo
José Roberto Zan – Universidade Estadual de Campinas
Leda Maria de Oliveira Rodrigues – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Lelita Oliveira Benoit – Universidade Metodista de São Paulo
Lígia Maria Osório – Universidade Estadual de Campinas
Luciano Martorano – sociólogo
Marcelo Ridenti – Universidade Estadual de Campinas
Marcos Del Roio – Universidade Estadual Paulista
Maria Elisa Cevasco – Universidade de São Paulo
Maria Orlanda Pinassi – Universidade Estadual Paulista
Mario José de Lima – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Marisa Lajolo – Universidade Estadual de Campinas
Marly Vianna – Universidade Federal de São Carlos
Maurício Chalfin Coutinho – Universidade Estadual de Campinas
Maurício Tragtenberg – in memoriam
Mauro C. B. de Moura – Universidade Federal da Bahia
Muniz Ferreira – Universidade Federal da Bahia
Nelson Prado Alves Pinto – Universidade Estadual de Campinas
Nelson Werneck Sodré – in memoriam
Noela Invernizzi – socióloga
Osvaldo Coggiola – Universidade de São Paulo
Paulo Denisar Vasconcelos Fraga – Universidade Regional do Nordeste do RS (Unijui)
Paulo Martinez – Universidade Estadual Paulista
Pedro Paulo Funari – Universidade Estadual de Campinas
Pedro Vicente da Costa Sobrinho – Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Raimundo Jorge Nascimento de Jesus – Universidade Federal do Pará
Regina Maneschy – socióloga
Renato Monseff Perissinotto – Universidade Federal do Paraná
Rosa Maria Marques – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Rosa Maria Vieira – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Sérgio Braga – Universidade Federal do Paraná
Sérgio Prieb – Universidade Federal de Santa Maria, RS
Sílvio Costa – Universidade Católica de Goiás
Sílvio Frank Alem – in memoriam
Tania Pellegrini – Universidade Federal de São Carlos
Valério Arcary – historiador
Virgínia Fontes – Universidade Federal Fluminense
Wolfgang Leo Maar – Universidade Federal de São Carlos
Zilda Márcia Gricoli Iokoi – Universidade de São Paulo

É isso, por enquanto.

Em Campinas, 31 de agosto de 2005

Pobreza e desigualdade

No dia 25/8/2005 foi divulgado o Relatório de 2005 das Nações Unidas sobre a Situação Social do Mundo (The United Nations Report on the World Social Situation 2005), com o título de A Condição de Desigualdade (The Inequality Predicament). Sua elaboração foi é de responsabilidade do Departamento de Questões Econômicas e Sociais (Department of Economic and Social Affairs), que é coordenado por José Antonio Ocampo, que porta a ilustre denominação funcional de Sub-Secretário Geral (Under-Secretary-General) da organização (assim com todos os hífens no original em Inglês). O relatório em Inglês pode ser baixado, em formato pdf, no site http://www.un.org/esa/socdev/rwss/media%2005/cd-docs/media.htm.

O lançamento do relatório mereceu cobertura dos jornais. A matéria da Folha, assinada por Luciana Coelho, tem como título “Reduzir pobreza é ilusão, diz pesquisador”, e como sub-título “Desigualdade é mais grave”. Segundo a Folha, o responsável pelo relatório é um brasileiro: Roberto Guimarães. Ele tem dois trabalhos citados na bibliografia – mas não recebe crédito como responsável pelo trabalho no relatório.

Em entrevista dada à Folha por telefone Roberto Guimarães afirma que “a desigualdade é um problema mais grave do que a pobreza". Segundo ele, a desigualdade deixou de ser privilégio de países pobres, estando presente em países ricos, como os Estados Unidos, o Canadá e os países nórdicos. [Ele não menciona o fato de que os Estados Unidos e o Canadá sempre foram países em que houve desigualdade. Dá a impressão de que passaram a ter desigualdade agora].

Ainda na entrevista Guimarães admite que “o índice de pobreza no mundo caiu” – mas afirma que essa queda, na realidade, é uma miragem, porque ela se explicaria por um único fator: a redução da pobreza na China.

Nesse contexto Roberto Guimarães solta uma pérola de raciocínio lógico:

“Porque um país reduziu a pobreza, o planeta reduziu o número de pobres que vivem com menos de US$ 1 por dia. Só que aumentou a pobreza entre os que têm menos de US$ 2 por dia. Ou seja, que pobreza é essa que diminuiu? Nenhuma”.

Apesar da aparência ao contrário, esse argumento é digno de consideração. O argumento é o seguinte:

a) A redução da pobreza na China fez com que o número de pobres que vive com menos de US$ 1 por dia fosse reduzido;

b) Os que viviam com menos de US$ 1 por dia agora vivem com menos de US$ 2 por dia;

c) Assim, ao ser reduzida a categoria dos pobres que viviam com menos de US$ 1 por dia foi aumentada em igual número a categoria dos pobres que vivem com menos de US$ 2 por dia;

d) Logo, não houve nenhuma redução da pobreza no mundo.

Fantástico o argumento, não? É inegável que a pobreza do mundo, considerada sem nenhum qualificativo, não desapareceu. Mas isso não quer dizer que, falando-se em médias (que é o de que se trata), o mundo não se tenha tornado menos pobre – a confiar nos números do relatório, pelo esforço de um só país, a China (se bem que um país que tem uma população correspondente a cerca de um quinto da população do mundo). Na média, a renda da população mais pobre sem dúvida aumentou. O referencial usado para determinar quem vive na miséria passou de pessoas que vivem com menos de US$ 1 por dia para pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia.

Aqui entre nós: se esse “menos de US$ 2 por dia” fosse mais perto de um dólar do que de dois, o autor teria ressaltado (dada sua tendência ideológica). Se não o mencionou, é porque o referencial usado para medir a miséria no mundo virtualmente dobrou – e dobrar quer dizer aumentar em 100%.

Para o entrevistado, contudo, não houve nenhuma redução da pobreza.

Na verdade, a China, apesar de sozinha ser responsável (segundo alega o Roberto Guimarães) pela redução da pobreza que as estatísticas mostram, recebe as críticas do entrevistado. Diz ele:

"O problema é que todo mundo acha que sem crescimento não se resolve pobreza. Só que a China, o campeão de crescimento na década de 90, já é um dos países mais desiguais do mundo".

Ora, vamos colocar os pingos nos is.

a) Pobreza é uma coisa, desigualdade outra;

b) Houve significativa redução da pobreza na China em decorrência do seu crescimento econômico, tão significativa que o entrevistado afirma que a redução da pobreza que aconteceu lá foi capaz de elevar o referencial da miséria global de menos US$ 1 para menos US$ 2;

b) O fato de que, enquanto havia drástica redução da pobreza na China, também houve crescimento da desigualdade é de esperar: o país tinha um nível de renda baixíssimo para todos (exceto os burocratas do governo comunista); ao adotar, em parte, uma economia de mercado, cresceu significativamente a renda do país, reduziu-se significativamente a pobreza, e alguns foram capazes de ficar bastante ricos, aumentando, assim, a desigualdade social — fenômeno que sempre ocorre toda vez que se abre o mercado e se expande a liberdade de ação dos agentes econômicos.

Como venho dizendo há décadas, o fato que deve nos preocupar, em escala mundial e nacional, não é a existência de desigualdade, mas o fato de que ainda existe pobreza – ou, pior do que a pobreza, a miséria. Ao concentrar suas baterias na redução da desigualdade, e não no combate à pobreza, o relatório e o entrevistado da Folha admitem que o que desejam reduzir não é a pobreza dos pobres, mas, sim, a riqueza dos ricos. Não estão satisfeitos de que o crescimento econômico tenha tornado os pobres menos pobres. Gostariam de encontrar uma forma de fazer os pobres ficarem menos pobres enquanto os ricos ficam menos ricos. [Vide meu artigo "Justiça Social, Igualitarismo e Inveja", no meu site pessoal (Seção "Escritos", em http://chaves.com.br/TEXTSELF/PHILOS/Inveja-new.htm)]. 

Mas isso não existe – pelo menos num clima de respeito à liberdade.

Em próximos artigos vou comentar em mais detalhe o relatório da ONU.

Em Campinas, 29 de agosto de 2005.

Santa Lindu, bendito o fruto de vosso ventre, Lulla (ou: Sonho e realidade, esperança e medo)

Os jornais, nos últimos tempos, vêm trazendo inúmeras considerações de petistas arrependidos falando sobre a necessidade de preservar o sonho e não perder a esperança. O artigo do cada vez mais infantilizado Cristóvam Buarque na Folha de hoje (“Recompor os Sonhos”, FSP de 28 de agosto de 2005) é apenas mais um deles. Os porquinhos mais práticos falam em “refundar o partido”, na criação de um “neo-PT” que acolha aqueles que o “velho” PT excomungou. Os mais chegados ao marketing (i.e., à enganação) se ocupam de “resgatar” na população, em especial entre os mais humildes (leia-se: pobres), os sonhos e as esperanças que o PT frustrou.

Na verdade, Cristóvam Buarque, no que parece ser um pré-manifesto à sua saída do PT, vai além: o que precisa ser refundado não é o partido, é a esquerda. Diz ele: “A realidade social brasileira não pode esperar pelo PT. É preciso refundar a esquerda. Recompor os sonhos, aglutinar os sonhadores. Se sem o PT isso será difícil, por seu intermédio será impossível. O PT precisa assumir que não é mais o irmão mais velho da esquerda. É apenas parte dela, e está debilitado.” Em outras palavras: refundar a esquerda por intermédio do PT é impossível. Logo, será que o ex-Reitor da UnB vai continuar a queimar vela pra mau defunto? Porque o PT não está simplesmente “debilitado”: está com doença terminal.

Cristóvam Buarque conclui seu artigo de forma apoteótica: “Não será um partido que retomará o sonho, mas sim um movimento pelo reencantamento do Brasil, pela recomposição do sonho, que, apesar de parecer morto, continua tão necessário quanto antes.” Interessante: o sonho, segundo ele, parece morto – mas continua necessário… A lógica da frase nos leva a esperar que ele dissesse que o sonho, apesar de parecer morto, continua vivo… Mas não é isso que ele diz. Talvez duvide de que o sonho continue realmente vivo. O sonho continua, segundo ele, necessário. Necessário para quê? Seria bom que ele esclarecesse. Mas o artigo terminou antes de que o fizesse.

Mas toda essa conversa de sonhos, e toda aquela história da esperança que venceu o medo, me faz refletir um pouco sobre a história do socialismo, a história das esquerdas.

Antes de Marx e Engels certamente havia socialistas (Saint-Simon, Fourier, etc) – mas eles foram prontamente rotulados de “utópicos” pelos criadores do chamado “socialismo científico”. Os utópicos eram meros sonhadores que não se preocupavam com os meios concretos de transformar suas utopias – seus sonhos – em realidade.

O socialismo dito científico pretendia não ser utópico – não porque abrisse mão dos sonhos, mas porque instrumentava os sonhos com uma estratégia de tomada de poder, usando ferramentas conceituais como o determinismo histórico, a primazia da base material (a infraestrutura) sobre o mundo das idéias (a super-estrutura), a redução do complexo social a duas classes, a luta de classes, a luta revolucionária, a ditadura do proletariado, passagem para a sociedade sem classes e, por isso, sem estado, sem governo.

Existe algo mais utópico do que uma sociedade sem classes, sem estado, sem governo? O que diferencia os “realistas” do socialismo científico dos sonhadores do socialismo utópico é o instrumental estratégico que os primeiros fornecem para a tomada do poder e a transformação da sociedade pela força, pela guerra revolucionária, pelo poder ditadorial.

Em nome do objetivo último – supostamente resgatar os oprimidos da pobreza, reduzir as desigualdades sociais, promover a justiça (“social”) – tudo vale. A ética do socialismo marxista é uma ética em que esses fins justificam quaisquer meios – inclusive a violência, a ditadura, e, naturalmente, a mentira. Mais do que isso: esses fins justificavam até mesmo alianças com parceiros estratégicos que não comungam dos mesmos fins – mas que não relutam em adotar os mesmos meios (como ficou claro com o pacto de Stalin com Hitler em 1939). Alianças estratégicas de socialistas com parceiros que, à primeira vista, parecem estranhos não é algo que o socialismo tupiniquim do PT inventou.

A revolução comunista de 1917 na Rússia deu aos socialistas auto-intitulados científicos uma aparência de confirmação empírica das teses supostamente científicas de seus patronos. É verdade que muita coisa não se passou como Marx e Engels haviam predito, mas quem vai se preocupar com detalhes numa hora dessas?

Os socialistas em geral exaltavam. Bem, talvez nem todos. Quem sabe os socialistas utópicos tivessem se perguntado se o preço pago em violência e mortandade não estaria alto demais para os resultados obtidos. E é verdade que o “socialismo realista” (i.e., não utópico) implantado na Rússia por meios “científicos” acabou criando rivalidades que se cristalizaram em grupos de oposição – as famosas “facções” (que não só existem como proliferam ainda hoje). Mas, no geral, havia exultação entre as esquerdas com a “prova histórica e científica” de que a revolução socialista é possível – que “é realista sonhar” (se a gente sonha “com o poder na mão”).

É verdade, também, que o realismo do socialismo comunista implantado na Rússia – que se expandiu para a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – de vez em quando deixava meio revoltos alguns estômagos socialistas mais delicados – pertencentes aos antecedentes históricos do Senador Eduardo Suplicy. Seria preciso tanto expurgo, tanto desterro, tanta violência, tanto assassinato??? Mas, no fim, os fins justificavam os meios.

Daí veio 1939. Stalin fez um pacto de não agressão contra Hitler. De novo, alguns estômagos mais delicados se revolveram. Mas, no fim se aquietaram – sob as brilhantes justificativas de intelectuais comunistas de que, afinal de contas, os fins justificam os meios, e que o objetivo final de fazer do mundo um paraíso comunista justificava até alianças com monstros como Hitler.

Em 1939 não sabia a extensão em que Stalin era também um monstro – e o grau em que o totalitarismo do socialismo comunista (e internacionalista) era semelhante ao totalitarismo do socialismo nacionalista de Hitler. Ninguém parece ter prestado muita atenção ao fato de que a ideologia de Hitler se denominava “Socialismo Nacionalista” (Nationalsozialismus, ou, simplesmente, Nazi, para os íntimos, como agora eram os comunistas).

Mas em 1956 ninguém mais podia pretender desconhecimento. Morto Stalin em 1953, o próprio secretário-geral do Partido Comunista Soviético, Nikita Kruschev, denunciou os crimes de Stalin. Foram os comunistas mesmos (benditas facções!) que denunciaram seu ex-ídolo.

E naquele mesmo ano, em  4 de novembro de 1956, tropas da União Soviética invadiram Budapeste e aniquilaram os sonhos de liberdade do povo húngaro.

E em seguida veio a “Primavera de Praga”, em 1968 – que termina em pleno verão, 21 de agosto.

O padrão se repete: quando há sonhos, os socialistas ditos científicos, que encaram com realismo a política e o poder, os destróem.

Mas os intelectuais comunistas não se desiludem fácil. Continuam a apoiar o comunismo – e acham jeitos de defender a destruição dos sonhos de liberdade dos húngaros, dos checos-eslovacos…

E depois vem o bobo do Lulla dizer num discurso recente: “eles podem murchar uma rosa mas não podem impedir a primavera de nascer…”  Primeiro: eles quem? As forças ocultas? Segundo, eles, os socialistas realistas podem, sim, impedir a primavera de nascer. Vide Praga, 1968.

Mas em 1989 tudo estava podre e nem os socialistas mais ferventes conseguiram impedir a queda da Cortina de Ferro.

Na hora em que o socialismo comunista fracassa é que eu mais admiro os intelectuais socialistas (intelectuais comunistas não sobraram muitos, e os que sobraram se esconderam). Seu discurso, agora, é de que o socialismo da União Soviética e do Leste Europeu não era o verdadeiro socialismo: era apenas o “socialismo real”…

Ora, ora… A crítica que os comunistas – defensores do socialismo dito científico – faziam dos socialistas utópicos era de que esses não levavam a realidade a sério… Agora os socialistas viúvos do comunismo afirmam que este não era o verdadeiro socialismo, porque era real – realista demais. Durma-se com um barulho desses.

Enquanto isso, no Brasil, o socialismo tupiniquim viceja, conduzido por um torneiro mecânico e sindicalista. Com o apoio dos intelectuais marxistas – e daqueles intelectuais socialistas que se pretendem não marxistas. Os intelectuais esquerdistas têm orgasmos múltiplos ao verem a ascensão de Lulla e do partido que ele criou: dito dos trabalhadores — embora seja principalmente de intelectuais e pretendentes a uma certa intelectualidade.

O PT era o partido de intelectuais que deveriam estar desiludidos mas se recusavam a se desiludir, é verdade. Mas também de religiosos frustrados com a religião católica, com Frei Boff e Frei Beto, que encontraram na política esquerdizante a “Ersatzreligion” que a fé lhes negara.  

Em um artigo escrito logo depois da eleição de Lulla, chamado “Lula e o Reencantamento do Brasil” Frei Boff argumenta que “vale arriscar em Lula porque ele representa a chance de um outro Brasil e de uma forma de fazer política…” Quase que vale colocar mais três pontinhos depois dos três que Frei Boff pôs.  Que coisa mais linda, não? Comovo-me. [O artigo de Frei Boff pode ser lido em http://www.imediata.com/lancededados/lula/boff_reencantamento.html].

Frei Boff comenta o medo de Regina Duarte (em nome do PSDB). E cita Jean Delumean em resposta: "Eles [os poderosos] nos ensinaram o medo; eles vieram fazer nossas flores murchar para que só sua flor vivesse”. Quem sabe Lulla bebeu aqui a idéia da rosa que murcha?

Frei Boff continua: “Os poderosos não têm medo de um operário que trabalha. Eles têm medo de um operário que pensa. É o caso de Lula e de seus companheiros. Eles ousaram pensar. Mais. Começaram a sonhar um Brasil diferente. Mais ainda. Organizaram-se para que o sonho não ficasse mero sonho mas virasse movimento, partido, projeto político e alternativa de poder com o propósito de re-inventar um Brasil de outros quinhentos”.

O Brasil diferente sonhado por “Lula e seus companheiros” deu no que deu. Frei Boff parece ter se esquecido de que o sonho dos socialistas não utópicos têm de ser instrumentado pelo realismo prático da política, pela instrumentação dos meios necessários para transformar os sonhos em realidade… Que para a realização de cada sonho socialista é necessário um Stalin, um Fidel, um Dirceu – com todos os vermes que os acompanharam e acompanham.

E Lulla? Lulla, diz Frei Boff, “Lula trouxe as razões para um novo re-encantamento”.

Menos de três anos depois, somos forçados a concluir: Lulla: ingênuo simplório ou mentiroso conivente. Tertium non datur.

Mais lírico, Frei Beto, depois das eleições, escreveu uma carta a Dona Lindu, mãe de Lulla, morta em 1980. Foi Frei Beto que “fez o seu enterro” (palavras dele – será que ele foi o coveiro?). [O artigo de Frei Beto pode ser lido em http://www.faced.ufba.br/~menandro/por_email/carta_de_frei_beto.htm.]

Afirma Frei Beto, numa das passagens mais comoventes: “Seu filho venceu, Dona Lindu. Não porque tirou diploma, ficou rico e famoso. Mas porque construiu o mais combativo e ético partido político do Brasil. . . Lula ensinou à Nação que é possível fazer política com decência, vergonha na cara, tolerância nas relações pessoais e intransigência nos princípios”.

Comovente. Lulla construiu o partido político mais ético do Brasil. Lula nos ensinou que é possível “fazer política com decência, vergonha na cara, tolerância nas relações pessoais e intransigência nos princípios”. Nenhuma dessas coisas é verdade. Não houve decência, não houve vergonha na cara, não houve tolerância com os que pensavam diferente, não houve intransigência nos princípios – a menos de que seja no princípio de que tudo vale quando o fim é chegar ao poder para redimir a nação.

Tipicamente, o site em que encontrei o artigo de Frei Beto é de uma Faculdade de Educação – a da Universidade Federal da Bahia… Bendita Bahia, cuja capital é Salvador. Será que algum esquerdista aprendeu alguma coisa com o artigo de Frei Beto?

O lirismo de Frei Beto chega a seu ponto máximo nas palavras finais do artigo:

“O Brasil merece um futuro melhor. O Brasil merece este fruto de seu ventre”.

Em outras palavras: Santa Lindu, bendito o fruto de vosso ventre, Lulla.

Anísio Silvia fez sucesso com a canção “Tudo foi Ilusão” Arcelino Tavares e Laert Santos, que afirma: "…Minha vida é uma noite sem lua e sem estrelas e os meus sonhos foram somente sonhos e nada mais…"

Oxalá fosse esse o maior problema: o de que os sonhos dos simpatizantes do socialismo petista tivessem sido somente sonhos e nada mais. O grande risco que nós, brasileiros, corremos é que esse sonho quase se tornou realidade – através do maior esquema de corrupção de que já se teve conhecimento na história do Brasil.

Arrisco-me a uma hipótese. Nossa sorte, como povo brasileiro, é que, no fundo, os socialistas utópicos e os socialistas realistas não se topam, se detestam, não conseguem conviver. Nossa sorte é que as facções que não se toleram parece ser o destino do socialismo. Vocês já imaginaram a máquina realista montada pelo estalinista Zé Dirceu  (o “aparelho) sendo colocados a serviço dos sonhos desvairados da esquerda mais radical? Bem que o Zé e seu padrinho Fidel queriam… Mas felizmente o “momento histórico” não havia chegado…

Talvez nossa grande sorte tenha sido a incomparável despreparo e incompetência de Lulla para o exercício do cargo que lhe caiu nas mãos (modo de dizer: que foi conquistado por enganação, empulhação e roubalheira, como hoje sabemos). Para se eleger, convenceu-se, teria de fazer alianças. Eleito, escolheu para ministro condutor da economia o menos incompetente em economia de seu círculo mais próximo que fosse capaz de conduzir uma política econômica que não ameaçasse a estabilidade do país (e o ajudasse a realizar seu sonho de se tornar o grande Messias do socialismo mundial). Palocci, um médico interiorano, resolveu que a melhor alternativa seria não inovar, ou seja, jogar seguro e continuar uma política econômica que estava dando certo (apesa da gritaria do Zé Dirceu e da esquerda radical). (O Zé teve de conviver, a contragosto, com o sucesso do Palocci. Até que tentou uns truques velhos contra ele, mas não deram certo).

[O mago Emir Sader, num artigo que tem o título de “O Mundo pelo Avesso” (o coitado não percebe que quem está pelo avesso é ele…) lança um manifesto pela reunificação das esquerdas no Brasil. O artigo foi publicado na revista Carta Maior – que um estudante genial do Mato Grosso renomeu Bilhetinho Chinfrim (vide http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?id=1438&coluna=boletim). Será que o mago um dia estudou a história da faccionalização da esquerda?]

Essa, enfim, a nossa grande sorte: o desperaro e a incompetência do filho de Dona Lindu… O fruto do ventre de Dona Lindu aparentemente não foi tão bendito quanto o desejou o coveiro dela. (Frei Beto não quis ser o último rato a saltar do Titanic do Lulla: assim que as coisas começaram a feder, pulou fora).

Mas o despreparo e a incompetência de Lulla não foram a única sorte. Nossa outra grande sorte foi a prisão de um ladrãozinho de décimo escalão que embolsou três mil reais nos Correios. Ele, na gravação, denunciou o Roberto Jefferson. O governo tentou fazer de Jefferson o bode expiatório. E deu no que deu – E deu no que deu – pra sorte nossa e pro azar do socialismo petista. (Como é que será o nome da mãe de Jefferson?).

Se tivermos um terceiro golpe de sorte, esses socialistas realistas vão todos pra cadeia e ficaremos, mais uma vez, com os socialistas utópicos, que sonham, gritam, esperneiam – mas, no fundo, não causam tanto mal. Quem sabe presididos por São Eduardo “Renda Mínima” Suplicy. Deles, não precisamos ter tanto medo.

Agora, dos socialistas realistas eu tenho medo… Deles, até o Roberto Jefferson tem. Esses nós sabemos os males que podem causar. Cerca de cem milhões de pessoas morreram por causa deles, na União Soviética, na China, no Cambódia, e outros lugares em que o povo teve a infelicidade de vê-los triunfar e impor os seus sonhos de poder. Porque os sonhos deles são só de poder. E nada mais.

Em Campinas, 28 de agosto de 2005.

Relativismo moral e cultural

[Mensagem colocada em minha lista Quatro Pilares na data de hoje. As pessoas mencionadas são membros da lista. Roberto é Roberto Bastos Guimarães, da Universidade Federal da Bahia. Darlana — assina sem sobrenome é da Universidade de Brasília. E Axel é Axel de Ferran — meu velho amigo, hoje no Mato Grosso. O endereço da lista é http://br.groups.yahoo.com/group/4pilares/. Qualquer pessoa, mesmo sem ser membro, pode ler as mensagens. Para enviar mensagens, é necessário que a pessoa se torne membro da lista antes. ]

 

Minha mensagem é longa e, por vezes pode parecer pedante e condescendente. Como dizia Groucho Marx, não se enganem: ela É isso… Quem ler daqui em diante saiba disso. Se se irritar, lembre-se de que foi advertido antes.

A mensagem discutirá três grandes questões: a questão do relativismo vs absolutismo na discussão de culturas, a questão da natureza e da forma da discussão racional, e a questão da natureza da cultura e o problema dos valores. E terminará com duas conclusões.

Vamos, portanto, por partes.


I) A Questão do Relativismo vs Absolutismo na Discussão de Culturas


Acho gozado…

O Roberto parece ser contra o que se poderia chamar de absolutismo — pelo menos é o que se depreende de sua referência, em tom pejorativo, aos "absolutistas de plantão" na discussão da prática cultural que deu início à discussão, a saber, o espancamento de mulheres, que, segundo matéria jornalística transcrita, é a norma na África.

No entanto, se eu sou absolutista, o Roberto também o é, e com maior razão, como procurarei argumentar nesta seção.

Vejamos.

Eu afirmo (e o Axel endossa) o seguinte enunciado: "Há culturas que são superiores a outras".

Esse enunciado não é universal: ele é claramente particular (e afirmativo). Analisado logicamente ele é do tipo "Algum x é y" e quer dizer, simplesmente, aquilo que de fato diz, que "há culturas que são superiores a outras".

Pode ser que essa afirmação seja absolutista. Eu não acho que seja e estou disposto a mostrá-lo, eventualmente, em outra mensagem, mas não vou fazê-lo aqui, para não complicar desnecessariamente uma discussão em si já complicada. 

Advirto neste ponto que há em lógica algo chamado de "quadrado das contradições", que vou pressupor nos parágrafos que seguem.

A negação lógica (por contrariedade) do enunciado particular afirmativo expresso por mim e pelo Axel ("Há culturas que são superiores a outras") é feita por um enunciado particular negativo do tipo "Algum x não é y": "Há culturas que não são superiores a outras". A negação (por contrariedade) daquilo que eu afirmei se contém, portanto, na afirmação de que há culturas que são iguais a outras — afirmação a meu ver incontroversa e, de resto, totalmente chocha. Estou convicto de que, como o meu enunciado original, esse enunciado particular negativo que o nega (por contrariedade) também não é absolutista, mas não vou brigar por isso agora.

Uma coisa porém é evidente. Para contestar o que eu afirmei, não basta ao Roberto negar (por contrariedade) o que eu disse: ele precisa contradizer o que eu afirmei.

A contradição lógica de um enunciado do tipo "Algum x é y", particular afirmativo, como o que eu fiz, se expressa em um enunciado universal negativo, do tipo "Nenhum x é y".

Há uma diferença ENORME entre a condição de negação (por contrariedade) e a condição de contraditoriedade. Por exemplo: Os enunciados dos tipos "Algum x é y" e "Algum x não é y" podem ser ambos verdadeiros com uma substituição coerente de x e y. No entanto, os enunciados dos tipos "Algum x é y" e "Nenhum x é y" são podem ser ambos verdadeiros com uma substituição coerente de x e y: se um é verdadeiro, o outro é necessariamente falso (e vice-versa).

É por isso que, para me contradizer, o Roberto é forçado a fazer uma afirmação claramente universal e negativa: "Nenhuma cultura é superior a outra".

Eu afirmo: "Há culturas que são superiores a outras". O Roberto afirma: "Nenhuma cultura é superior a outra". Qual desses dois enunciados, pergunto, é absolutista? Não há a menor dúvida de que é o segundo.

Ainda que se conceda, "ad argumentandum", que o meu enunciado, particular e afirmativo, também seja absolutista, o do Roberto, universal e negativo, é claramente mais absolutista (por abranger todas as culturas). (Pessoalmente, e em coerência com minha tese, não defendida aqui, de que o primeiro desses dois enunciados não é absolutista, acredito que o "absolutismo" seja parecido com a gravidez: ou se está grávida ou não se está grávida, não há gradações — embora, no dia-a-dia, digamos que fulana está mais grávida do que sicrana se estiver grávida há mais tempo, ou se sua barriga estiver maior, coisas assim.)

E aqui está o que acho gozado nessa discussão: a afirmação que o Roberto se vê obrigado a fazer, nessa disputa, é universal e absoluta, enquanto a afirmação que me é suficiente não precisa sê-lo, bastando ser particular. (Como disse, se o Roberto pretender sustentar que minha afirmação original é absolutista, concedo, apenas "ad argumentandum", mas daí sou forçado a recorrer à tese de que há gradações no absolutismo, e que a afirmação do Roberto é mais absolutista do que a minha. Em suma: neste caso, estaríamos os dois brigando como se fôssemos irmãos, apenas para determinar quem é mais absolutista do que o outro! O Axel certamente conhece a brincadeira do "qui pisse le plus loin"). 

Não estou entre os que sustentam a tese de que na Bahia tudo é possível. Logo, não acredito que a Universidade Federal da Bahia tenha abolido a lógica sem que eu houvesse ficado sabendo. Se isso é verdade, no entanto, o Roberto é absolutista, "malgré soi". 


II) A Questão da Natureza e da Forma da Discussão Racional


Passo a discutir uma outra questão, relacionada a esta que venho discutindo, e relevante para ela.

O Axel é meio implicado contra o Popper, mas a grande contribuição de Popper é que ele deixou claro que o método de discussão racional é hipotético-dedutivo. Esse método inclui, como um caso particular, o chamado método científico.

Os enunciados gerais da ciência (teorias e leis) são tipicamente universais, do tipo "Todo x é y" e "Nenhum x é y". Esses dois tipos de enunciados implicam, lógica e necessariamente, estes dois tipos de enunciados, respectivamente: "Algum x é y" e "Algum x não é y".

(Parêntese. Saiamos da abstração e caiamos na concretude. O enunciado universal afirmativo "Todo brasileiro é cordial" implica o enunciado particular afirmativo "Algum brasileiro é cordial". Se o primeiro é verdadeiro, o segundo necessariamente também é — embora a recíproca claramente não se aplique — e se o segundo é falso, o primeiro necessariamente também é — embora a recíproca claramente também não se aplique aqui. O enunciado universal negativo "Nenhum brasileiro é cordial" implica o enunciado particular negativo, "Algum brasileiro não é cordial". Novamente, se o primeiro é verdadeiro, o segundo necessariamente também é — embora a recíproca claramente não se aplique — e se o segundo é falso, o primeiro necessariamente também é — embora a recíproca claramente também não se aplique aqui. Fim de parêntese.)

Um enunciado universal afirmativo, no entanto, é contraditado por um enunciado particular negativo, e um enunciado universal negativo é contraditado por um enunciado particular afirmativo. Neste caso, se um é verdadeiro o outro é falso e se um é falso o outro é verdadeiro — e vice-versa.

(Outro parêntese. O enunciado universal afirmativo "Todo brasileiro é cordial" é contraditado pelo enunciado particular negativo "Algum [pelo menos um] brasileiro não é cordial". Isto é: se eu encontrar um brasileiro só que não seja cordial, eu refuto a afirmação de que todos são. Por seu lado, o enunciado universal negativo "Nenhum brasileiro é cordial" é contraditado pelo enunciado particular afirmativo "Algum [pelo menos um] brasileiro é cordial". Isto é: se eu encontrar um brasileiro só que seja cordial, eu refuto a afirmação de que nenhum é. E vice-versa. Fim do parêntese.)

Voltando a Popper, a forma de argumentar que sustenta a discussão racional, inclusive (mas não exclusivamente) na ciência, nos leva a buscar enunciados particulares (afirmativos ou negativos) que refutem enunciados universais (negativos e positivos).

A tese que os chamados relativistas culturais defendem, curiosamente (como vimos), é uma tese universal negativa — que, como tal, tem caráter absolutista: "Nenhuma cultura é superior à outra".

Para contraditar, e, conseqüentemente, refutar, essa tese, basta achar uma cultura que seja superior a outra. Uminha só. Ainda que seja num só aspecto ou em relação a um só traço — "et ceteris paribus", isto é, outras coisas sendo iguais.


III) A Questão da Natureza da Cultura e o Problema dos Valores


Em sua mensagem o Roberto afirma algo que gostaria de contestar em parte. Diz ele:

"Pegar traços isolados de uma cultura e querer [comparar] com outra é falacioso". (A palavra em colchetes faltou na mensagem dele, mas acho que se pode presumi-la).

Concordaria plenamento com o Roberto se a afirmação dele fosse que é falacioso pegar um traço isolado e, a partir dele, generalizar. Mas essa afirmação (que não é a que ele fez), embora verdadeira, não é relevante aqui.

Não usei o relato de espancamento de mulheres na África para, a partir dele, generalizar, afirmando (por exemplo) que todas as culturas africanas aceitam o espancamento de mulheres como norma.

Quando transcrevi o relato de que na África o espancamento de mulheres é norma, e acrescentei meu comentário de que, apesar disso, "os relativistas de plantão continuam a afirmar que nenhuma cultura é superior — ou inferior — às outras", estava afirmando, implicitamente, apenas o seguinte:

* Há culturas em que o espancamento de mulheres (por motivos até triviais, como o fato de que a comida ficou salgada demais) é considerado normal;

* Há culturas em que o espancamento de mulheres (por qualquer motivo, até mesmo a traição conjugal) é considerado inadmissível;

* Uma cultura do primeiro tipo é claramente diferente de uma cultura do segundo tipo, ainda que em todos os demais aspectos sejam idênticas;

* Uma cultura do primeiro tipo é não só diferente: é inferior a uma cultura do segundo tipo, em relação a esse aspecto específico (ainda que sejam idênticas em todos os demais aspectos, ou ainda que haja outros aspectos, não focados na discussão, em que a cultura do primeiro tipo de cultura seja superior);

* Logo, há culturas que não só são diferentes mas que são superiores ou inferiores a outras (em relação a determinados aspectos);

* Logo, a tese universal negativa do relativismo cultural, de que nenhuma cultura é superior a outra, está refutada, pois encontramos pelo menos um exemplo de uma cultura que é superior a outra — evidentemente, no aspecto em discussão.

A Darlana respondeu à minha mensagem original afirmando que eu estava considerando como inferior apenas o que era diferente. Em minha resposta a ela, procurei mostrar que, mesmo segundo os valores DELA, uma cultura que não aprova e considera normal o espancamento de mulheres é não só diferente, mas superior a uma que aprova e considera normal esse tipo de prática.

Há três questões importantes que merecem ser mencionadas para que esta mensagem seja encerrada — permitindo que a discussão continui.

Primeiro, a complexidade dos traços que incluímos no termo "cultura" é enorme. Tudo o que é feito pelo homem, e, portanto, não é natural, é parte da cultura, no sentido mais amplo do termo. Logo, a quantidade de traços envolvidos ao se falar em uma determinada cultura é inacreditavelmente grande. Ao se comparar uma cultura com outra, é literalmente impossível comparar todos os traços de uma com todos os traços da outra.

Na verdade, se tentarmos falar de uma cultura específica, não em termos de traços essenciais e característicos, mas em termos da totalidade dos traços que definiriam uma cultura, nos perderemos. Se pensarmos na totalidade dos traços, não existe uma cultura ocidental ou européia ou mesmo uma cultura brasileira, pois há traços em que a cultura francesa claramente difere da alemã e da inglesa como há traços em que a cultura gaúcha difere da cultura do sertanejo nordestino no Brasil.

Por isso, quando falamos em cultura, qualificando o termo com um adjetivo que se refere a uma região geográfica, estamos em geral pensando em algumas de suas características que nos parecem essenciais — não na totalidade dos traços que definiriam aquela cultura.

Segundo, quando falamos de relativismo cultural não queremos, portanto, focar traços como, por exemplo, o fato de que no Japão se escreve da direita para a esquerda enquanto nós escrevemos da esquerda para a direita. O que queremos focar, ao discutir essas questões, são valores — valores morais, em especial, questões relativas a condutas que consideramos moralmente certas, e, portanto, louváveis, e condutas que consideramos moralmente erradas, e, portanto, condenáveis ou censuráveis. São essas questões que são importantes.

Terceiro, mesmo em relação aos valores morais, cada cultura apresenta uma variedade tão surpreendente que torna impossível abranger, num determinado momento, todos os seus valores morais (aqui entendidos como traços culturais). Assim sendo, comparamos duas ou mais culturas em relação a determinados valores ou conjuntos de valores — como, por exemplo, sua relação para com as mulheres, ou para com as crianças, ou para com os velhos, etc. Ao concluir que uma cultura é superior ou inferior a outra, em relação a determinado valor ou conjunto de valores, não se está fazendo uma avaliação geral de todos os traços culturais das respectivas culturas, nem mesmo de todos os valores morais.

Assim sendo, o fato, se é fato, de que a cultura dos índios brasileiros não aprova o espancamento de crianças, trazido à baila pelo Roberto, curiosamente só mostra que a cultura indígena, nesse aspecto, é superior a outras culturas que aprovam esse espancamento — tese que é contrária àquela que ele pretende estar defendendo. Não tem nada que ver com a questão que estava sendo discutida, que era o de que as culturas africanas que consideram normal o espancamento de mulheres estão erradas, do ponto de vista moral, e, por isso, merecem censura e condenação, e que esse fato as torna, nesse aspecto, inferior a culturas que não consideram essa prática normal. Idem sobre a clitoridectomia (remoção do clitóris) e a infibulação (costura da vagina). (Quem tem dúvida sobre o sentido desses dois termos, procure no Google "clitoridectomy" e "infibulation" e veja as descrições, os gráficos e as fotos. É preciso ter estômago).  


IV) Conclusão


Em nenhum momento afirmei que a cultura européia ou ocidental no seu todo, isto é, na totalidade dos seus traços, fosse superior à totalidade dos traços de outras culturas. Afirmar algo assim seria temerário e irresponsável. O que chamamos de cultura européia ou ocidental é tão abrangente e complexo que nem sequer conseguimos conhecer e descrever todos esses traços. Além disso, em relação aos poucos traços que conhecemos melhor, há muita divergência, de modo a permitir que falemos de várias culturas que compartilham alguns traços essenciais. O fato de a cultura européia ou ocidental ter traços que são comprovadamente superiores a traços de outras culturas não exclui o fato de que ela também tenha traços em que é comprovadamente inferior a outras culturas. Isso é tão óbvio que fico até constrangido de dizer. Conseqüentemente, o livro sugerido pelo Roberto é irrelevante — embora possa ser de leitura muito instrutiva.

Uma observação final. Nós temos, como seres humanos, não só o direito como o dever de julgar, avaliar, comparar, decidir, e escolher. O relativismo moral e cultural que pretende nos impedir de fazer julgamentos morais e culturais é uma tentativa de nos eximir não só de um direito, mas de uma responsabilidade que é inerente à condição humana.

As mulheres africanas, vítimas de espancamento, esperam que tenhamos sensibilidade moral e exerçamos nosso dever de condenar moralmente essa prática. Adotar o relativismo moral pode ser uma atitude cômoda ("isso é problema da cultura deles") mas é irresponsável.

Bertrand Russell, por muitos considerados o maior filósofo europeu ou ocidental do século XX, sucumbiu à tentação relativista. Quando fazia 90 anos, afirmou algo mais ou menos assim (cito de memória): O que me leva a condenar Hitler por ter levado ao holocausto mais de seis milhões de judeus não é o fato de que eu considere moralmente errado o que ele fez, mas, sim, simplesmente o fato de que eu não gosto desse tipo de ação e, no lugar dele, não o faria.

Eu, que admiro o pensamento de Russell em outros aspectos, prefiro imaginar simplesmente que o velho estava caduco a crer que fosse tão irresponsável moralmente.

Em Campinas, 25 de agosto de 2005

A salvação da universidade pública (e da privada!)

Talvez o melhor conjunto de medidas que poderia ser adotado pelo desgoverno petista para melhorar a qualidade do ensino superior privado, tão criticado pela esquerda estatista, seria definir, de forma clara e irrecorrível (de preferência através de uma Emenda Constitucional que acrescente essas medidas como cláusulas pétreas em nossa lei maior) que o acesso ao ensino superior público no Brasil será condicionado a estas prioridades (pela ordem):

a) Quanto mais pobre o candidato, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “pobreza” (até o maximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública se engajasse no combate à pobreza (contribuindo também para modificar a imagem elitista que a universidade pública possui aos olhos do público externo a ela).  

b) Quanto mais escura a pele do candidato, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “cor” (até o maximo de 100).  Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade contribuisse com a sociedade no combate ao racismo ou ao “colorismo” (preconceito contra as pessoas de cor). (Preservo a grafia “colorismo”, em ver de usar o termo “corismo” que alguns preferem, em primeiro lugar porque existe, em Português, o verbo “colorir”, com um só ele, que significa dar cor, pintar, e, em segundo lugar, porque o termo “corismo” poderia ser entendido como tendo relação com “coro” e não com “cor”).

NOTA: deixo em aberto se o critério "a" deve ter precedência sobre o critério "b", ou se “b” deve prevalecer sobre “a”. Esclareço que se o critério "a" prevalecer, alguém muito pobre, mas bastante branco (como aqueles branquelos descendentes de alemães, polacos e italianos do sul do Brasil), ficaria classificado na frente de alguém meio escuro, mas não muito pobre, como, por exemplo, o filho do Ronaldo Nazário, o Fenômeno (que, apesar de ter dito que é branco, e, portanto, não colorido, teve sua negação violentadamente criticada pelo establishment cultural brasileiro, que determinou que, independentemente de sua aparência, o filho de Ronaldo é de cor, vale dizer, negro); se o critério "b" prevalecer, um escurinho rico, como o Edinho, filho do Pelé, fica classificado na frente de branco pobre – se, naturalmente, for libertado da prisão em tempo para concorrer a uma vaga no ensino superior público. [A UNICAMP já demonstrou interesse em pleitear para si a vaga que será ocupada por Edinho na eventualidade de que ele possa e deseje concorrer a ela].

c) Quanto mais distante da Europa for o local de nascimento dos ascendentes mais próximos do candidato, até a quinta geração, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “etnismo” (até o máximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse com a sociedade no combate ao nefasto preconceito do eurocentrismo – preconceito que afirma que as culturas antigamente chamadas de primitivas não são inferiores à cultura que teve sua origem na Europa. Por culturas primitivas entenda-se, por exemplo, algumas culturas africanas em que os maridos têm reconhecido o seu direito de espancar suas mulheres (sic) porque (inter alia) a comida ficou salgada demais, e em que o clitóris das adolescentes é removido e sua vagina costurada, para que não fiquem tentadas a arriscar sua virgindade antes de serem compradas por um marido, que, na noite de núpcias, para comprovar sua virilidade, arrebenta com a vagina ainda costurada da noiva, para que esta não sofra tentação de usá-la com nenhum outro que não ele).

d) Quanto mais orientado para o mesmo sexo for o candidato em sua preferência sexual, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “sexismo” (até o máximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse no combate a diversos preconceitos relacionados ao que antigamente se chamava de sexo mas hoje se chama de gênero: sexismo, chauvinismo heterossexual, homofobismo, etc.. Registre-se aqui que, embora hoje seja de bom alvitre referir-se ao gênero e não ao sexo da pessoa, porque este não seria biologamente determinado, mas, sim, socialmente construído, na referência ao preconceito conhecido como “sexismo” o termo “sexo” é ainda admitido. Esclareço ainda que, para fins de classificação, o exclusivamente homossexual é mais orientado para o mesmo sexo do que o bissexual e este é mais orientado para o mesmo sexo do que o exclusivamente heterossexual. Dispenso-me de apresentar a justificativa. Para aplicar o critério com mais rigor pode-se ainda preferir, no acesso à universidade pública, quem é exclusivamente homossexual hoje e nunca – jamais — manteve relações sexuais com o sexo oposto a quem é exclusivamente homossexual hoje, mas, no passado, já teve momentos de fraqueza e lapso em que manteve relações sexuais com alguém que pertence ao outro sexo. Sou forçado a admitir que o uso do termo “gênero” aqui parece não cair muito bem, e confesso omitir intencionamente as categorias “transsexual”, “metrossexual”, “überssexual”, etc. por, sinto dizê-lo, não entendê-las suficientemente bem. Sugiro, no caso específico da UNICAMP, universidade na qual milito, que a Marta Suplicy seja consultada sobre essas categorias antes da implantação da proposta na universidade.

e) Quanto mais "necessidades especiais" (antigas deficiências, termo hoje politicamente incorreto) tiver o candidato, maior o número de pontos que ele recebe na categoria “capacitismo” [tradução de “ableism”] (até o máximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse com o combate aos portadores de habilidades diferenciadas, posto que hoje “ser diferente é normal”. Para as instituições demasiadamente preocupadas com uma possível injustiça, nesta categoria, contra candidatos não-desafiados por necessidades especiais (os antigamente chamados, inapropriadamente, de normais, visto que todo mundo é diferente), caso seja atribuído o máximo de 100 pontos para cada necessidade especial, o número de pontos atribuídos no caso de múltiplas necessidades pode ser o resultado da divisão de 100 pelo número de necessidades especiais do candidato.

f) Quanto mais velho for o candidato, maior o número de pontos atribuído a ele (até o maximo de 100) na categoria “idadismo” ou “jovismo” [neologismos que traduzem os termos em Inglês "ageism" e "youngism"]. Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse no combate ao preconceito contra aqueles de experiência mais longa.  

g) Quanto mais feio for o candidato, maior o número de pontos atribuído a ele (até o máximo de 100) na categoria “aparencismo” ou “belezismo” (neologismos que procuram traduzir os termos em Inglês "lookism" e "prettyism/handsomism". Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse no combate ao preconceito contra aqueles que são inapropriadamente chamados de feios, visto que a beleza é relativa e, de qualquer forma, está no olho de quem olha, não na pessoa olhada em si.  

O fato de não ter previsto um criterio específico para os gordinhos (vitimas do preconceito de "fofismo") e para os HIV-positivos (vitimas do preconceito conhecido na America Latina, fora do Brasil, como "sidismo", e, no Brasil, como "soropositivismo" – variedade pós-comtiana de positivismo), não quer, de forma alguma, indicar que eu, pessoalmente, seja culpado dos preconceitos acima indicados. O problema é que não sei direito onde inserir esses dois critérios.

O fato de não ter previsto outros critérios, que impeçam outras formas de discriminação, decorre, não de preconceito de minha parte, mas, e exclusivamente, de minha ilimitada ignorância das múltiplas, variegadas e sutis formas que o preconceito assume em nosso meio.

Sugiro ainda que os mesmos criterios se apliquem à escolha de professores para o ensino superior público.

Quotas nao resolvem os problemas por cuja solucao se bateram os representantes brasileiros em reunião recente na África do Sul. Esta minha solução os resolve definitivamente.

Garanto que com as prioridades acima indicadas nenhuma pessoa rica, branca, de ascendência européia, heterossexual ("straight"), sem necessidades especiais ("deficiências"), jovem e bonita jamais conseguiria se valer do dinheiro publico para conseguir manter seu status de classe dominante. E a universidade pública estaria salva dos que hoje a manipulam para suas finalidades inconfessáveis.

De quebra, tenho certeza de que a qualidade do ensino superior privado melhoraria rapidamente, solucionando (num sub-produto bastante positivo) um dos grandes problemas do cenário educacional brasileiro e colocando o ensino superior privado em linha com o ensino básico privado, já reconhecido como de qualidade superior.

Espero que as mulheres apreciem o fato de que não atribuí pontos diferenciados às mulheres, recusando-me a consider o "hominismo" (condição de ser simplesmente o homem da espécie) um preconceito muito sério. Certamente não o tipo de preconceito a ser considerado crime inafiançável – nem o tipo de preconceito do qual se possa livrar sem delicada cirurgia.

Em Campinas, 24 de agosto de 2005

Administração do Tempo – Entrevista para o Site do Padre Marcelo Rossi (2005)

1. A que se deve o surgimento (ou mesmo o crescimento) da necessidade de se controlar o tempo das atividades? Será que o relógio dominou o homem?

Importante que esta seja a primeira pergunta, porque ela me permite combater, desde o início, o maior mito que já se disseminou sobre a administração do tempo: a idéia de que administrar o tempo é “controlar o tempo das atividades”, ficar escravo do relógio.

Administrar o tempo não é equivalente a cronometrar nossas atividades, para ver se conseguimos reduzir o tempo dedicado a cada uma delas (assim fazendo mais ao final do dia — do mês, do ano, da vida).  Administrar o tempo envolve, acima de tudo, analisar séria e cuidadosamente nossas atividades, para determinar sua importância e urgência, ou seja, sua prioridade — e, depois, agir de conformidade com essa prioridade.

As atividades que desenvolvemos ao longo do dia, do mês, do ano, da vida, podem ser classificadas em quatro grandes categorias:

  • Atividades importantes e urgentes
  • Atividades importantes mas não  tão urgentes
  • Atividades urgentes mas não (tão) importantes
  • Atividades nem importantes nem urgentes

A simples elaboração dessa lista já nos faz pensar.

A primeira categoria (coisas importantes e urgentes) certamente deve incluir nossas atividades prioritárias: aquelas a que devemos dedicar a maior parte do nosso tempo e do nosso esforço.

A quarta categoria (coisas nem importantes nem urgentes) é tão pouco prioritária que podemos simplesmente ignorar as atividades que porventura se incluam nelas. Se algo não é nem importante nem urgente, por que fazer?

O problema é definir a prioridade relativa entre as atividades da segunda e da terceira categorias: coisas importantes mas não tão urgentes e coisas urgentes mas não (tão) importantes.

O resultado mais significativo desse exercício, entretanto, não é uma lista priorizada de atividades às quais você se compromete dedicar o seu tempo e a sua energia — embora isso seja o que você está buscando. O resultado mais significativo é que você começa administrar a própria vida — afinal, tempo é vida, não é mesmo? Quando acaba o nosso tempo, acaba a nossa vida. Administrar o tempo, portanto, é administrar a própria vida. Esse o título de um artiguete que escrevi há vários anos.

Administrar a própria vida é se perguntar o que é realmente importante para a gente — e, se a gente não está fazendo o que realmente é importante, investigar por quê.

Como se vê, administrar o tempo não é ficar, cronômetro na mão, controlando o tempo que levamos para fazer o que de fato fazemos: é determinar se o que de fato fazemos vale a pena, se não existe algo mais importante a que deveríamos estar dedicando nosso tempo.

Se estou ouvindo uma música de que gosto muito, ou se estou assistindo a um de meus filmes favoritos, ou se estou brincando com meu filho ou neto pequeno — o importante não é tentar fazer essas coisas no menor tempo possível: o importante é prolongar o gozo de estar envolvido nelas, desfrutá-las, degustá-las, como se degusta a um bom vinho (i.e., devagar…).  Se consigo fazer isso, estou administrando bem o meu tempo.

Se, por outro lado, passo o meu dia correndo atrás de coisas que não são importantes, e, às vezes, nem tão urgentes, ou, pior, se fico perdido, sem saber o que fazer, seja porque tenho coisas demais que parecem requerer minha atenção, seja porque tenho tão poucos interesses que nada parece valer a pena fazer, então estou administrando mal o meu tempo (i.e., a minha vida).

2. As pessoas estão correndo demais e olhando de menos para as coisas que fazem, isto é, há um desperdício do tempo utilizado?

Certamente a vida de hoje numa grande cidade brasileira é muito mais agitada do que costumava ser — e é muito mais agitada do que a vida numa pequena e pacata cidade do interior (Lucélia, por exemplo, onde nasci).  Até crianças pequenas têm agendas, hoje, que indicam que a maior parte do seu tempo está planejado e programado para elas: têm horas marcadas para se levantarem, ir à escola, almoçar, ir ao curso de Inglês, ir à escolinha de futebol (ou ao balé), tomar banho, jantar, fazer deveres escolares, quem sabe assistir a um pouco de TV e ir dormir.

Numa situação assim, que aflige a maior parte das pessoas e famílias das grandes cidades hoje em dia, o problema não é que o tempo das pessoas esteja sendo desperdiçado, que elas estejam gastando mais tempo para fazer as coisas do que é necessário. O problema é que as pessoas não estão refletindo o suficiente sobre o que estão fazendo, não estão se perguntando se essa agitação toda é necessária, se não há coisas mais importantes, no longo prazo, ou que trazem mais satisfação, no curto prazo, que poderiam estar fazendo.

A agitação da vida moderna não é um fatalismo que temos de aceitar. Se, ao refletirmos sobre tudo que fazemos, e que torna a nossa vida agitada (às vezes nos levando à morte por uma dessas doenças relacionadas ao estilo de vida, morte essa que decreta o fim do nosso tempo), concluímos que é isso que de fato queremos da vida, então o nosso estilo de vida passa a ser fruto de uma decisão consciente e não teremos por que reclamar, nem mesmo quando estivermos na UTI de um hospital em decorrência de estresse decorrente de nosso estilo de vida. Mas se, no processo de refletir, concluímos que essa agitação toda, além de tudo, não nos permite fazer o que realmente é importante para nós, como passar tempo com quem amamos, curtir as coisas boas e em geral simples da vida, então é hora de mudar — e teremos sorte se conseguirmos mudar enquanto é (há) tempo.

Tempo desperdiçado não é aquele em que ficamos sem fazer nada: é aquele em que fazemos aquilo que não nos é importante. Ficar sem fazer nada (do ponto de vista exterior) talvez seja, de vez em quando, a coisa mais importante que podemos fazer.

3. As pessoas têm acumulado coisas a mais que sua capacidade para fazer, daí estaria a causa do problema?

Essa é certamente uma parte do problema. É interessante se perguntar por que estamos assumindo tantas coisas — mais do que conseguimos fazer sem prejudicar nossa saúde física ou mental, ou sem ter de deixar de lado outras coisas que nos são realmente importantes (como passar mais tempo com a família — tempo de qualidade, “reservado”, não tempo “sobrado”).

Se temos coisas demais para fazer, é hora de nos perguntar se não podemos delegar algumas delas a terceiros, ou se não estamos, por causa, às vezes, de um perfeccionismo abstrato, gastando tempo demais com coisas que não merecem tanto tempo, por não serem tão importantes e prioritárias.

A causa principal do problema, parece-me, está no fato de que, entre essas coisas todas cuja realização assumimos, há inúmeras que não são realmente importantes para nós — importantes em termos de nossos próprios valores, não dos valores de terceiros! É aí que devemos atacar a questão do chamado desperdício de tempo.

4. Qual a importância de administrar seu tempo na realização de tarefas?

Resumindo o que já disse anteriormente, administrar o tempo não é tanto uma questão “de varejo”: é administrar estrategicamente a própria vida, definindo prioridades — e, em seguida, concentrar nosso tempo e energia no que é prioritário (importante ou urgente), deixando de lado aquilo que não é importante e gerenciando o melhor possível aquilo que é urgente sem ser importante.

Aqui talvez seja o melhor lugar de lidar com uma questão central na vida da maior parte de nós.

Muitos de nós trabalhamos como empregados em uma empresa, ou em uma organização não-governamental, ou em um órgão do governo. Quem trabalha como empregado está, na realidade, vendendo ao empregador parte de seu tempo (e do uso de sua inteligência, de suas competências, de seu esforço) em troca de um salário (dinheiro). Isso quer dizer que o uso de nosso tempo durante o horário de trabalho é, em parte, determinado pelo nosso empregador, não por nós mesmos. Isso, naturalmente, não quer dizer que não possamos, até certo ponto, administrar nosso tempo no trabalho (vamos discutir essa questão na resposta à pergunta seguinte) — mas quer dizer que a nossa flexibilidade na administração do nosso tempo enquanto no trabalho é mais limitada.

Se olharmos a questão do trabalho assalariado (venda de nosso tempo e do uso de outras qualidades nossas) numa perspectiva mais abrangente, vamos constatar que da mesma forma que vendemos nosso tempo, nós também compramos tempo dos outros ao contratarmos o trabalho alheio — ou o fruto desse trabalho. Se contratamos uma empregada doméstica, estamos comprando o tempo dela (e, naturalmente, o uso de algumas de suas qualidades) — ela vai fazer para nós coisas que, se nós fôssemos fazer, gastariam parte de nosso tempo. Como preferimos fazer algumas outras coisas com o nosso tempo (como vendê-lo ao nosso empregador em troca de um salário melhor do que o que pagamos à nossa empregada) compramos o tempo dela (em troca de um salário menor do que o nosso).

Na verdade, eu conheço mulheres que trabalham fora (i.e., vendem o seu tempo a um empregador) em troca de um salário que não é muito maior do que o que pagam à empregada doméstica que precisam contratar para cuidar de sua casa enquanto trabalham fora. Por que fazem isso? Porque preferem trabalhar fora (isto lhes traz mais satisfação ou realização pessoal) do que ficar trabalhando em casa fazendo um trabalho que acham chato e sem encontrar pessoas interessantes — uma questão de prioridade.

Eu, por exemplo, poderia fazer o jardim da minha casa. Mas como há um bom jardineiro que faz isso a cada quinze dias para mim por um preço relativamente barato, prefiro pagar-lhe esse preço para cuidar de meu jardim enquanto eu fico lendo ou escrevendo (e vendo o jardineiro trabalhar no jardim lá fora). Novamente, questão de prioridade.

Se não somos ricos por herança, e temos de trabalhar para sobreviver, o nosso trabalho se torna algo não só urgente mas (pelo menos indiretamente) importante — importante pelo menos por aquilo que ele nos permite realizar com o salário que recebemos: nos manter a nós mesmos e à nossa família. O horário dedicado ao trabalho, assim, assume importância e deve ter prioridade — mesmo que aquilo que fazemos dentro desse horário não nos pareça importante ou sequer urgente.

Se temos de trabalhar como assalariados, e a maioria de nós tem, não resta a menor dúvida de que a melhor opção, se é que temos escolha, é por um trabalho que é, em si, interessante (“gratificante” é o termo da moda) — não por um trabalho chato e maçante.  O problema é que a maioria de nós não tem muita escolha — e, por isso, muitas vezes somos levados a trabalhar com algo que não traz satisfação e realização pessoal. Mesmo quando isso acontece, porém, é preciso encarar o trabalho da perspectiva daquilo que o seu fruto (o salário) nos permite realizar — e isso em geral nos obriga  a colocar o trabalho entre as coisas que são importantes (além de, sem dúvida, urgentes).

Rubem Alves nos diz, em vários de seus livros, que a educação é o processo pelo qual criamos e equipamos duas caixinhas: uma caixinha de ferramentas e uma caixinha de brinquedos. A primeira contém aquelas competências e habilidades que são necessárias para nos manter vivos; a segunda contém aquelas competências e habilidades que nos fazem querer continuar vivos, isto é, que dão razão e sentido à nossa vida. O ideal sem dúvida é que consigamos nos manter vivos fazendo coisas que nos dão prazer e satisfação, que nos fazem felizes. Se isso não é possível, porém, devemos encarar o nosso trabalho da perspectiva daquilo que ele nos permite fazer, fora do horário de trabalho, com nossa caixinha de brinquedos.

5. Administrar o tempo reduz gastos nas empresas? Por quê?

As empresas, como as pessoas, acabam por desenvolver rotinas, que se incorporam em sua cultura organizacional, que são ineficientes.

Uma atividade é ineficiente quando a sua execução não otimiza — vale dizer, desperdiça — recursos, isto é, consome mais recursos para promover um determinado fim do que é necessário — ou do que uma atividade alternativa consome para chegar aos mesmos resultados. Os recursos em pauta podem ser financeiros, materiais ou humanos (o tempo das pessoas, por exemplo). Certamente a administração do tempo pode levar as empresas a descobrir quais atividades dentro dela estão sendo ineficientes pelo menos no uso do recurso tempo — e a tomar as medidas necessárias para corrigir a ineficiência (tornando as rotinas de trabalho mais eficientes no uso desse recurso ou até mesmo substituindo-as por outras mais eficientes).

Mas as empresas, muitas vezes, desenvolvem atividades que são ineficazes.

Uma atividade é ineficaz quando ela é não produz os resultados desejados (dado um determinado contexto), nem mesmo ineficientemente. Ser eficaz, portanto, é fazer a coisa certa (aquilo que deve ser feito para produzir os resultados que desejamos) — ainda que essa coisa seja feita do jeito errado (isto é, de forma ineficiente).

O ideal é ser eficiente e eficaz: fazer certo a coisa certa.

O problema de muitas empresas é que elas fazem um número enorme de coisas ineficazes, isto é, que realmente não produzem os resultados desejados. Essas atividades devem ser abandonadas, porque, ainda que realizadas eficientemente (sem que haja desperdício de recursos na sua realização) elas são, em si, um desperdício de recursos, pois não produzem os resultados desejados (ainda que sejam realizadas com a maior eficiência). Em outras palavras: não vale a pena fazer bem o que não deve ser feito: o que não deve ser feito simplesmente não deve ser feito.

Esse conjunto de considerações tem levado muitas empresas a analisar com cuidado suas “competências básicas” (o seu “core business”) e, em alguns casos, a adotar a chamada “terceirização”.

Uma empresa de alta tecnologia como a Microsoft tem suas “competências básicas” (seu “core business”) na área de desenvolvimento de software. Ela não é especializada, digamos, na realização de serviços de limpeza e de fornecimento de refeições. No entanto, em suas enormes instalações em Redmond, WA, nos Estados Unidos, atividades como a limpeza dos prédios e o fornecimento de refeições aos empregados têm de ser realizadas. Qualquer ação que as realizar é, assim, eficaz — produz resultados que são desejados. A Microsoft tem alternativas sobre a melhor maneira de produzir esses resultados. Ela pode contratar empregados que façam essas coisas ou pode terceirizar esses serviços para empresas especializadas — que, provavelmente, por serem especializadas, vão conseguir prestar esses serviços para a Microsoft com melhor qualidade e com menor custo (i.e., maior eficiência) do que se a Microsoft, ela mesma, contratasse as pessoas para realizar os serviços. Dentro das prioridades da Microsoft, ela prefere focar o tempo de seus empregados e a sua energia organizacional na realização daquilo que lhe é, acima de tudo, importante. Isso lhe permite ser eficaz (conseguindo que algo que precisa ser feito seja feito) e mais eficiente (reduzindo os custos e melhorando a qualidade dos serviços que estão fora de suas competências básicas).

Num desenvolvimento interessante, algumas empresas, como a Nike, acabaram definindo seu “core business” de forma que lhes permite terceirizar a maior parte de suas atividades. A Nike, como se sabe, só cria os seus produtos e cuida do marketing necessário para vendê-los. A manufatura, em si, de toda a sua linha de produtos é terceirizada.

6. Saber administrar o tempo é uma saída para se destacar dentro da empresa, ou seja, a pausa para o café é mal vista pelo chefe?

A maior parte das grandes empresas, que, em geral, são mais bem administradas, não enfoca a questão desse ângulo  de “micro-gestão”: de ficar fiscalizando se seus empregados estão gastando muito tempo na pausa para o café, ou se estão conversando demais durante o expediente, ou mesmo se estão usando a Internet para realizar atividades pessoais (pagar contas, por exemplo), não relacionadas ao trabalho.

A maior parte das grandes empresas hoje em dia encara a administração do tempo em termos dos resultados obtidos. Em geral elas dão razoável flexibilidade aos empregados sobre a forma de alcançar esses resultados. Se posso citar novamente a Microsoft, os empregados, lá, têm a possibilidade de adotar um horário de trabalho relativamente flexível (flextime). Ou podem sair, durante o expediente, para relaxar (nadar, fazer exercícios, receber uma massagem). Ou podem até mesmo, querendo, cochilar um tempo em seu escritório. O importante é que não percam de foco suas metas, como empregados da empresa, colocando em risco os resultados que a empresa está determinada a alcançar. Se uns empregados gastam mais tempo no café ou no almoço, ou chegam mais tarde, ou saem mais cedo, isso, em si, não é problema — desde que as coisas importantes e urgentes estejam sendo feitas dentro dos prazos combinados e no nível de qualidade desejado.

7. Que tipo de dica o senhor poderia dar para as pessoas prestarem mais a atenção durante seu trabalho e regularem melhor o tempo com suas obrigações?

A melhor sugestão de certo modo já foi dada meio que en passant. As pessoas em geral têm um desempenho muito melhor no trabalho quando o seu trabalho lhes permite unir o útil ao agradável: ganhar a vida e fruí-la, ou gozá-la, ao mesmo tempo, fazer convergir os objetivos organizacionais e os objetivos pessoais, tornar o urgente importante, fazer da caixinha de ferramentas ao mesmo tempo uma caixinha de brinquedos. Para a pessoa que gosta de fazer aquilo que o seu trabalho exige que ela faça o trabalho não vai ser penoso e, por isso, não vai parecer trabalho: vai parecer mais como um lazer escolhido para dar prazer — e, por isso, ela não terá problemas em lhe dar a devida importância e prioridade. Os melhores profissionais são aqueles que têm prazer no que fazem — que estariam fazendo aquilo com gosto mesmo que não fossem pagos para fazê-lo.

Isso nem sempre é possível. Mas nossa educação deveria nos preparar para isso. O ideal é não separar trabalho e lazer / prazer — e trabalhar, meio que contra a vontade, apenas porque o trabalho torna possível fazer o que dá prazer quando a gente está fora do trabalho, ou no fim de semana, ou em férias, ou aposentado. O ideal é definir com clareza aquilo que nos dá prazer, aquilo que gostamos de fazer — e, daí, encontrar uma forma de ganhar dinheiro fazendo aquilo… Se conseguirmos, não teremos problema algum em administrar o nosso tempo no trabalho.

Em Campinas, 24 de agosto de 2005

Administrar o Tempo é Planejar a Vida, v.1 (2005)

Geralmente quem escreve sobre administração do tempo não o faz porque seja especialista na questão, mas, sim, porque quer aprender mais sobre o assunto. Pelo menos foi esse o meu caso. Vou relatar aqui algumas de minhas descobertas, como roteiro para a leitura do quarto texto.

1) Administrar o tempo não é uma questão de ficar contando os minutos dedicados a cada atividade: é uma questão de saber definir prioridades. Provavelmente (numa sociedade complexa como a nossa), NUNCA vamos ter tempo para fazer tudo o que precisamos e desejamos fazer. Saber administrar o tempo é ter clareza cristalina sobre o que, para nós, é mais prioritário, dentre as várias coisas que precisamos e desejamos fazer – e tomar providências para que essas coisas mais prioritárias sejam feitas, sabendo que as outras provavelmente nunca vão ser feitas (mas tudo bem: elas não são prioritárias).

2) Dentre as coisas que vamos listar como prioritárias, algumas estarão ali porque nos são importantes, outras porque são urgentes. Imagino que algo que não é NEM importante NEM urgente não estará na lista de ninguém. E também sei que na lista de todo mundo haverá coisas que são IMPORTANTES E URGENTES. Não resta a menor dúvida de que estas coisas devem ser feitas imediatamente, ou, pelo menos, na primeira oportunidade. Poucas pessoas questionarão isso. O problema surge com coisas que consideramos importantes, mas não urgentes, e com coisas que são urgentes, mas às quais não damos muita importância.

3) Digamos que você considere importante ficar mais tempo com sua família. Por outro lado, você tem que trabalhar x horas por dia. Se o seu trabalho é mais importante do que ficar com a sua família, o problema está resolvido: você trabalha, mesmo que isso prejudique a convivência familiar. Mas e se o trabalho não é mais importante para você do que a convivência familiar? Neste caso, provavelmente o trabalho é urgente, no sentido de que tem que ser feito, pois doutra forma você vai ser despedido (ou perder clientes, se for autônomo ou empresário) e vai ter dificuldades para manter sua família (embora, sem trabalho, provavelmente vai poder passar mais tempo com ela…). Aqui o conflito é entre o importante e o urgente – e é aí que a maior parte de nós se perde, e por uma razão muito simples: algumas das tarefas que temos que realizar não são selecionadas por nós, mas nos são impostas. Isto é: não somos donos de todo o nosso tempo. Não temos, em relação ao nosso tempo, toda a autonomia que gostaríamos de ter. Quando aceitamos um emprego, estamos, na realidade, nos comprometendo a ceder a outrem o nosso tempo (e, também, o nosso esforço, a nossa capacidade, o nosso conhecimento, etc.). Este é um problema real e de solução difícil: não somos donos de boa parte de nosso tempo.

4) Acontece, porém, que geralmente usamos mal o tempo que dedicamos ao trabalho (e, por isso, temos que fazer hora extra ou trazemos trabalho para casa), ou mesmo o tempo que passamos em casa. Usar mal QUER DIZER que muitas vezes usamos o nosso tempo para fazer o que não é nem importante nem urgente, mas apenas algo que sempre fizemos, pela força do hábito. Alguém me disse, quando eu era criança, que a gente nunca deveria abandonar a leitura de um livro, por pior que ele fosse. Que bobagem! Mas quanto tempo desperdicei terminando de ler coisa que de nada me serviu por causa desse conselho! Uma vez me peguei dizendo à minha família que não poderia fazer algo (não me lembro o quê) domingo de manhã porque precisava ler os jornais. Eu lia, religiosamente, a Folha e o Estado aos domingos de manhã (sinto muito, folks: há tempo que não freqüento escola dominical). Lia por hábito. Achava que um professor tem que se manter informado. Mas quando disse que “precisava” ler os jornais me dei conta de que realmente não precisava lê-los. O que é de pior que poderia me acontecer se eu não lesse os jornais, me perguntei. NADA, foi a resposta que tive honestamente que dar. Se houver algo importante nos jornais provavelmente fico sabendo no noticiário da TV, ou na VEJA. Mas daí me perguntei: e preciso ler a VEJA todas as semanas? Resposta: não. Existe algo que eu prefiro ler/fazer naquelas manhãs de domingo que ganhei? Claro, muitas coisas – PARA AS QUAIS EU ANTES NÃO TINHA TEMPO. Ganhei as horas dos jornais, ganhei as horas da VEJA, fui ganhando uma horinha aqui outra ali, para as coisas que eu realmente queria fazer há muito tempo e não achava tempo…

5) Administrar o tempo é ganhar autonomia sobre a sua vida, não é ficar escravo do relógio. É uma batalha constante, que tem que ser ganha todo dia. Se você quer ter a autonomia de decidir passar mais tempo com a família, ou sem fazer nada, você tem que ganhar esse tempo deixando de fazer outras coisas que são menos importantes para você. Em última instância pode ser que você até tenha que, eventualmente, arrumar um outro emprego ou uma outra ocupação.

6) O tempo é distribuído entre as pessoas de forma bem mais democrática que muitos dos outros recursos de que nós dependemos (como, por exemplo, a inteligência). Todos os dias cada um de nós recebe exatamente 24 horas (a menos que seja o último dia de nossas vidas): nem mais, nem menos. Rico não recebe mais do que pobre, professor universitário não recebe mais do que analfabeto, executivo não recebe mais do que operário. Entretanto, apesar desse igualitarismo, uns conseguem realizar uma grande quantidade de coisas num dia – outros, ao final do dia, têm o sentimento de que o dia acabou e não fizeram nada. A diferença é que os primeiros percebem que o tempo, apesar de democraticamente distribuído, é um recurso altamente perecível. Um dia perdido hoje (perdido no sentido de que não realizei nele o que precisaria ou desejaria realizar) não é recuperado depois: é perdido para sempre.

7) Há os que afirmam, hoje, que o recurso mais escasso na nossa sociedade não é dinheiro, não são matérias primas, não é energia, não é nem mesmo inteligência: é tempo. Mas tempo se ganha, ou se faz, deixando de fazer coisas que não são nem importantes nem urgentes e sabendo priorizar aquelas que são importantes e/ou urgentes.

8) Quem tem tempo não é quem não faz nada: é quem consegue administrar o tempo que tem de modo a poder fazer aquilo que quer.

9) Por outro lado, ser produtivo não é equivalente a estar ocupado. Há muitas pessoas que estão o tempo todo ocupadas exatamente porque são improdutivas – não sabem onde concentrar seus esforços e, por isso, ciscam aqui, ciscam ali, mas nunca produzem nada. Ser produtivo é, em primeiro lugar, saber administrar o tempo, ter sentido de direção, saber aonde se vai.

10) Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a nossa vida. Para isso, precisamos, em primeiro lugar, saber aonde queremos chegar (definição de objetivos). Onde quero estar, o que quero ser, daqui a 5, 10, 25, 50 anos? O segundo passo é começar a estrategiar: transformar objetivos em metas (com prazos e quantificações) e decidir, em linhas gerais, como as metas serão alcançadas. O terceiro passo é criar planos táticos: explorar as alternativas específicas disponíveis para se chegar aonde queremos chegar, escolher fontes de financiamento (emprego, em geral, é fonte de financiamento), etc. Em quarto lugar, fazer o que tem que ser feito. Durante todo o processo, precisamos estar constantemente avaliando os meios que estamos usando, para verificar se estão nos levando mais perto de onde queremos vamos querer estar ao final do processo. Se não, troquemos de meios (procuremos outro emprego, por exemplo).

11) Mas tudo começa com uma verdade tão simples que parece uma platitude: se você não sabe aonde quer chegar, provavelmente nunca vai chegar lá – por mais tempo que tenha.

12) Quando o nosso tempo termina, acaba a nossa vida. Não há maneira de obter mais. Por isso, tempo é vida. Quem administra o tempo ganha vida, mesmo vivendo o mesmo tempo. Prolongar a duração de nossa vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Aumentar a nossa vida ganhando tempo dentro da duração que ela tem é algo, porém, que está ao alcance de todos. Basta um pouco de esforço e determinação.

NOTA: Este artigo é resumo, escrito e divulgado em 1998, de um livreto, Administração do Tempo, que escrevi em 1992. Esta versão, que aqui chamo de v.1, considera a versão original, de 1998, v.0.

Em Campinas, 24 de agosto de 2005

Impostos e taxas (e mais: contribuições, empréstimos compulsórios, etc.)

(Para o conceito de tributos na Constituição Federal, envolvendo impostos, taxas, contribuições e empréstimos compulsórios, vide os artigos 145-149A da Constituição [https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao.htm]).


A Folha de S. Paulo de hoje (22/8/2005) revela que planos e estudos para permitir a cobrança de pedágio pelo trânsito nas vias urbanas estão em fase de conclusão no governo federal e em pelo menos as duas maiores metrópoles do país, São Paulo e Rio de Janeiro.

Parece que uma das razões que vem retardando o lançamento e a implantação da medida é a atual notória falta de apoio popular aos políticos. Se é isso, temos mais essa dívida de gratidão para com Roberto Jefferson: a crise deflagrada a partir de suas denúncias pode nos salvar (pelo menos por enquanto) de mais um assalto ao nosso bolso por parte de políticos, com o devido apoio de técnicos investidos de poder na burocracia estatal – os tecnoburocratas.

Um desses tecnoburocratas chega ao extremo de afirmar que o transporte automobilístico no Brasil é altamente subsidiado. E o subsídio (tirante um pequeno subsídio aos carros populares, que nem sei se existe mais) seria a permissão para estacionar gratuitamente nas vias públicas urbanas.

Há uma série de equívocos nessa afirmação.

Primeiro, nas vias públicas urbanas do centro da cidade de nossas grandes metrópoles praticamente inexiste o estacionamento gratuito. O estacionamento nas vias públicas do centro da maioria de nossas cidades maiores já é cobrado pelos respectivos governos municipais. Será que o tecnoburocrata está cogitando de que eu tenha de pagar para estacionar na frente de minha casa, que fica longe do centro em Campinas (sede de uma região metropolitana) e num local em que não há problemas de estacionamento (exceto nos dias em que há missa na igreja católica que fica em frente, felizmente em reforma há mais de um ano)?

Segundo, a justificativa oferecida pelo tecnoburocrata é para a cobrança por estacionamento nas vias públicas do centro das grandes cidades – mas a medida que se cogita é de cobrar pelo trânsito em vias públicas nesse local. Uma coisa é estacionar, outra é transitar. O que pode justificar um pode não justificar o outro.

Terceiro, o tecnoburocrata, tentanto fazer uma reductio ad absurdum da pretensão dos cidadãos de não precisar pagar para transitar com automóvel nas vias públicas urbanas, procura ridicularizar o uso feito, por alguns cidadãos, do direito de ir e vir para justificar esse trânsito, perguntando, retoricamente: será que essas pessoas acham que o automóvel é um pedaço do corpo delas? Ora, as leis que garantem o direito de ir e vir – a nossa Constituição, por exemplo, ou a lei natural, como diria John Locke – não restringem o direito de ir e vir a ir e vir a pé… Nos termos da atual Constituição, o direito de ir e vir não passa a ser ilegítimo se se usa cavalo, carruagem, bicicleta, ou automóvel para ir e vir. A pergunta do tecnoburocrata é idiota.

Mas aqui entra uma complicação que o tecnoburocrata não contempla, talvez por ignorância, talvez porque não seja no seu interesse.

A lei natural lockeana e a Constituição brasileira atual contemplam o direito de ir e vir. Mas não afirmam, nem faria sentido fazê-lo, que compete ao governo fornecer ao cidadão – muito menos gratuitamente – os meios de ir e vir. Entre esses meios estão não só estradas e ruas (vias) como os próprios veículos. O cidadão pode ir e vir livremente. Mas se quiser fazê-lo a cavalo, tem de comprar o animal ele mesmo. Se quiser fazê-lo de automóvel, tem de comprar o veículo. E é evidente que há uma diferença significativa entre esses dois meios de transporte: o primeiro – o cavalo – dispensa estradas e ruas; o segundo – o automóvel – as requer. (Também as carruagens puxadas a cavalo as requeriam, é bom lembrar).

Vem então a pergunta: a quem cabe prover as estradas e ruas nas quais vão transitar os hoje onipresentes automóveis? Ao governo ou à iniciativa privada.

Se analisarmos a questão do ângulo histórico, a maior parte dos governos, no afã de expandir suas funções e, por conseguinte, seus poderes, chamou a si a tarefa de construir estradas fora do perímetro urbano e ruas no perímetro urbano. Esses espaços são públicos, argumentavam os governos, e, portanto, cabe ao governo viabilizar seu uso adequado. Para que os governos pudesse fazer isso, foram cobrados ou aumentados impostos.

Logo, historicamente as vias (estradas e ruas) em que transitavam os diferentes veículos que as requeriam (primeiro carruagens, depois automóveis) se tornaram públicas e sua construção e manutenção eram custeadas com dinheiro arrecadado pelos governos (federal, estadual ou municipal) na forma de impostos. As únicas vias que permaneceram privadas foram aquelas que permitiam o trânsito dentro de uma propriedade particular grande, como uma fazenda, por exemplo.

Ultimamente, porém, com o aumento considerável dos gastos dos governos, decorrentes do fato de que eles assumem cada vez mais funções e, portanto, maiores poderes, começa a faltar dinheiro para que construam e mantenham vias públicas adequadas a uma demanda cada vez maior por essas vias resultante do aumento no uso de veículos automotivos. Resultado: começaram a inventar novas formas de arrecadar dinheiro dos proprietários de aumóveis e outros veículos motorizados. Aqui no Brasil, todos nos lembramos da famosa TRU – Taxa Rodoviária Única. Que fosse chamada de única era um insulto, porque logo lhe foram acrescentadas uma Taxa de Licenciamento de Veículos e o IPVA – Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores. A TRU foi eventualmente extinta – mas as rodovias públicas começaram a cobrar pedágio… sem que fossem extintos a taxa de Licenciamento de Veículos e o IPVA. Oportunamente a gestão das estradas foi, em grande parte, privatizada – mas privatizou-se apenas o direito de explorar, por tempo limitado, não a propriedade das estradas. Agora se cogita de cobrar pedágio também nas vias urbanas – ainda que seja preciso de alguma forma privatizar a sua gestão.

Em resumo: a população paga pelas estradas e ruas por meio de impostos regulares, de imposto específico (IPVA), de taxa de licenciamento e de pedágio.

Voltando agora para o foco expresso no título deste artigo, impostos e taxas, devo esclarecer o que penso, do ponto de vista liberal:

a) Como já disse, o direito de ir e vir é um direito não só natural mas (para quem não aceita o direito natural) garantido na Constituição Brasileira;

b) O direito de ir e vir não inclui ou embute um direito aos meios que facilitam o ir e vir ou ampliam o seu alcance (veículos e vias), e, portanto, ninguém deve esperar que pessoa privada ou governo lhe forneça esses meios gratuitamente;

c) Assim, da mesma forma que a aquisição de um veículo é paga, o uso de estradas e ruas (ou seja, de vias interurbanas e urbanas) que a pessoa mesma não construiu em sua propriedade deve ser pago de alguma forma;

d) Em países como o Brasil, em que o direito já reconhece as estradas interurbanas e as ruas urbanas como públicas, o pagamento deve acontecer de uma ou outra de duas formas: impostos ou taxas;

e) Impostos, em princípio, são cobrados de todos os cidadãos para custear a manutenção geral do governo, no pressuposto de que todos se beneficiam com a existência de um governo que mantém a ordem; taxas são cobradas dos usuários de serviços específicos prestados pelo governo que atendem às necessidades de apenas alguns usuários, e devem cobrir o custo básico da prestação desses serviços; 

[Para uma discussão pedante – como sói ser a discussão jurídica – do conceito de impostos e taxas vide, em especial: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=5592 e  http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7146. Eu não endosso tudo o que o texto afirma – mas é útil].

f) Dessas duas formas de cobrança, é evidente que as taxas são as mais adequadas para o caso. Se vou usar um automóvel, o certo é que pague para transitar nas vias em que de fato transitar – e a parte proporcional necessária para amortizar a sua construção e mantê-la. Esse pagamento é uma taxa – que comumente se chama de pedágio.

g) O pagamento de taxas na forma de pedágio é feito, no Brasil, em acréscimo a outroos impostos, com os quais o pensamento liberal de modo algum concorda, porque oneram a atividade produtiva e o comércio, que incidem sobre as operações de fabricação e comercialização de veículos (IPI, INSS, IOF, ICMF, etc), impostos esses que são pagos, em última instância, pelo proprietário e usuário, e à taxa de licenciamento do veículo, cobrada anualmente (uma taxa única cobrada quando o veículo é originalmente licenciado seria um abuso fiscal mais suportável do que a uma taxa anual, que incide com mais freqüência ainda quando a posse do veículo é transferida ou mesmo quando o domícilio de seu proprietário é modificado);

h) Duas outras coisas são injustificáveis para o pensamento liberal neste contexto: (a) o uso de impostos (que são tributos cobrados de todos os cidadãos e são destinados a manter a operação geral do governo) para construir e manter vias públicas, porque muitos cidadãos não possuem veículos motorizados que trafegam por essas vias (b) criar impostos que incidem exclusivamente sobre os proprietários de veículos motorizados, como o IPVA, porque esses proprietários, ou aqueles a quem eles autorizarem o uso do veículo, já estarão pagando as taxas correspondentes ao uso das vias públicas (pedágios), que é tudo o que deveriam estar pagando (embora, no Brasil, como vimos, paguem ainda os impostos sobre a fabricação e comercialização dos veículos e o seu licenciamento);

i) A argumentação contida nos parágrafos anteriores mostra que a cobrança de pedágios urbanos, num contexto como o brasileiro, em que as ruas (vias urbanas) foram construídas pelo governo municipal, é legítima – desde que, entretanto, os impostos que são cobrados pela fabricação e comercialização de veículos, o IPVA e a as taxas anuais de licenciamento sejam abolidas, por implicarem muito mais do que bitributação;

j) Se a cobrança de pedágios em vias urbanas vai ser feita mediante a privatização das ruas, é algo que não precisa ser discutido aqui: se a cobrança, em si, é justa, e se a proporção cobrada também o é, faz pouca diferença se o dinheiro fica nos cofres públicos ou vai para a iniciativa privada;

Mesmo sem propor maiores mudanças no modelo socializante que é adotado no Brasil, em que o governo se atribui uma série de funções que deveriam estar na iniciativa privada, se nosso modelo fosse liberal, a forma de custear os serviços governamentais, como educação, saúde, etc. deveria ser através de taxas cobradas dos usuários e não de impostos cobrados de toda a população. A população que não usa esses serviços (que usa a escola privada e tem planos de saúde privados) não deveria estar pagando pelos serviços usados pelos demais, pois assim paga duas vezes pelo mesmo serviço (bitributação clara).

No que diz respeito aos impostos, a sua distribuição pela população deveria obedecer o princípio da eqüidade. Um valor igual imposto a cada habitante seria a forma mais justa. Depois dessa, um imposto percentual único aplicado sobre todas as transações financeiras realizadas através do sistema bancário (no máximo 1% seria suficiente). Depois dessa, um imposto percentual fixo e único sobre a renda. O sistema tributário que temos no Brasil, progressivo quando aplicado sobre a renda, e acrescido de vários outros impostos, taxas, contribuições e até mesmo empréstimos compulsórios (nunca devolvidos, é bom que se diga) é de longe o mais injusto.

Por enquanto, é isso.

Em Campinas, 22 de agosto de 2005

O estado patriarcalista socializante

Robert Filmer, contra cujo livro Patriarcha John Locke escreveu seu Primeiro Tratado sobre Governo (1689-1690), defendia a seguinte tese:

“Se compararmos os deveres naturais de um Pai com aqueles de um Rei, veremos que esses deveres são idênticos, não tendo nenhuma diferença – a não ser em sua abrangência, na extensão que cobrem. Como um Pai para com sua família, o Rei, como pai de muitas famílias, tem o dever de preservar, alimentar, vestir, instruir e defender toda a comunidade do reino. . . . Assim, os deveres de um Rei se resumem no cuidado paterno e universal do seu povo”  (apud Tarcov, Locke’s Education for Liberty, p. 11 – ênfase acrescentada).

Em outro artigo neste blog (“John Locke, o pai do Liberalismo”) comentei a posição de Locke. Mesmo com o risco de me repetir em relação a algumas questões, vou retomar a questão colocada por Filmer, bem como a alternativa de Locke, pois me parece que ambas são extremamente relevantes no contexto atual. Mas dispenso-me de discutir em detalhe a posição lockeana, por já tê-lo feito no artigo anterior.

A posição de Filmer é de que o governo “tem o dever de preservar, alimentar, vestir, instruir e defender” todos os cidadãos. A de Locke, naturalmente, é de que o governo tem o dever apenas de garantir, defender e proteger a segurança dos cidadãos – segurança essa expressa nos três direitos individuais básicos: à vida (e, naturalmente, à integridade pessoal), à liberdade (de expressar suas idéias, associar-se, ir e vir, e buscar a realização pessoal como ache melhor) e à propriedade (entendida em sentido lato, que inclui não apenas a terra e os bens materiais).

A posição de Filmer, embora expressa em conceitos patriarcalistas que hoje caíram em certo desuso, é, no essencial, a doutrina do “estado previdenciário” ou do “estado do bem-estar social”, que tem como dever prover o cidadão com saúde, educação, seguridade social, e, quando não com moradia, transporte, alimento, vestimenta e sabe-se lá mais o que (a lista dos chamados “direitos sociais”  cresce a cada dia).

Como ressaltei no artigo anterior, a doutrina do estado previdenciário ou do estado do bem-estar social é profunda e inerentemente patriarcalista ou paternalista: considera os cidadãos como crianças incapazes que não têm condições de prover para si próprias aquilo que é indispensável para a vida. A visão liberal, por outro lado, os encara como seres adultos, capazes de cuidar de seus próprios interesses e necessidades.

A tese patriarcalista-socializante é ainda bastante atual em nossos dias: está presente, com outras roupagens, no ideário socializante do Comunismo,  dos vários Socialismos e das várias Social-Democracias. Na verdade, está mais do que apenas presente: está extremamente bem difundida. Diria que até mesmo passou a integrar o “inconsciente coletivo” das pessoas.

(Na realidade, apesar de os esquerdizantes dizerem que o Liberalismo é hoje o pensamento hegemônico, chamado de “pensamento único”, a realidade mostra que é a tese patriarcalista do estado previdenciário ou do bem-estar social, pendente para o Socialismo, que está muito mais próxima de ser hegemônica hoje do que a tese liberal lockeana.)

Disse no artigo anterior que as duas vertentes combatidas por Locke como ameaças à liberdade eram, na realidade, mais do que meras ameaças: eram incompatíveis com a liberdade. Essas duas teses eram a do poder estatal absoluto e a do poder estatal paternalista. Tanto que, para Filmer, o estado paternalista deveria ter poderes absolutos sobre os seus súditos, como o pai teria sobre os seus filhos.

É essa a questão que quero explorar um pouco mais aqui.

A tese do poder patriarcalista ou paternalista do estado gera, como vimos, reivindicações crescentes de “direitos sociais” adicionais que, se atendidos, fatalmente levam o estado a assumir poderes absolutos sobre os cidadãos, transformando-os em súditos, totalmente dependentes do estado para tudo.

Friedrich von Hayek viu isso com clareza no século XX, registrando sua tese no clássico livro O Caminho da Servidão (1944): o Socialismo pode até começar com boas intenções, mas, independentemente das intenções, seu resultado inevitável é o totalitarismo estatal, com a inevitável perda da liberdade dos cidadãos, transformados em súditos dependentes do estado para tudo. E a Social-Democracia não passa de um Socialismo (mal) disfarçado de democrático, que confisca o nosso dinheiro, através de taxação, para com ele implantar um “Socialismo sem Revolução”, que se pretende com uma face humana – face essa que, hoje estamos claramente vendo no Brasil, é realmente humana apenas para os distribuidores da riqueza alheia encastelados no governo e seus amigos e aliados.

Para convencer os cidadãos a abandonar o ideário liberal e abrir o caminho para o ideário socializante, em geral se inicia com o seguinte argumento:

a) Primeiro, afirma-se, como premissa básica, que a educação é, numa democracia, extremamente importante, pois sem ela os cidadãos não saberão como eleger os melhores governantes;

b) Segundo, argumenta-se que, dada a importância da educação para formação de uma cidadania democrática esclarecida, é preciso tomar as medidas necessárias para que todos se eduquem – raiz da exigência da obrigatoriedade da freqüência à escola;

c) Terceiro, argumenta-se que, sendo a educação escolar obrigatória, ela precisa ser gratuita, porque não seria cabível tornar obrigatória uma escolaridade paga;

d) Quarto, argumenta-se que a gratuidade da educação escolar não é viável através de instituições privadas filantrópicas, porque essas, sendo em geral confessionais e de escopo limitado, não teriam as características de universalidade e laicidade que a educação necessária para a cidadania exige; 

e) Quinto, afirma-se que, não havendo interesse da iniciativa privada voltada para o lucro em oferecer ao mercado uma escola secular gratuita, esta deve ser oferecida e administrada pelo governo, com as características de obrigatoriedade, gratuidade, universalidade e laicidade;

f) Sexto, complementa-se o círculo afirmando que uma educação escolar gratuita é um direito do cidadão e um dever do estado – pelo menos nos níveis em que ela é obrigatória.

Que não haja nenhuma dúvida na mente de ninguém de que os proponentes desse argumento gostariam que a educação escolar fosse monopólio do estado, em todos os níveis. Toda vez que, no século XX, houve uma Assembléia Constituinte no Brasil os socializantes defensores da escola pública tentaram fazer da educação escolar um monopólio do estado. Foi só com muito esforço e muita luta que os liberais – com o apoio decisivo dos defensores da educação confessional – conseguiram impedir a monopolização da educação escolar pelo estado, fazendo com que as diversas Constituições deixassem a educação escolar aberta à iniciativa escolar, embora se mantivesse a referência ao “direito do cidadão, dever do estado”. Mesmo depois de ficar acertado que a educação escolar seria aberta à iniciativa privada, os socializantes ainda tentaram, e continuam tentando, interpretar a escola privada como uma “concessão do estado”, à semelhança das concessões que existem para emissoras de rádio e televisão.

Assim, para os socializantes a escola deve ser obrigatória, gratuita, pública, laica (coisas que já é no Brasil) e, acima de tudo,  única – isto é, um monopólio do estado!

Não nos enganemos: a educação é a principal arena em que se trava a batalha, hoje, entre liberais e socializantes – e, no momento, os socializantes estão ganhando com uma vantagem enorme. Se os liberais não fizerem algo, a escola pública, no Brasil, apesar de sua reconhecidamente péssima qualidade, vai ser a única escola.

O argumento socializante em favor da escola pública (exceto no caso de sua unicidade) tem atrativos para aqueles que acham a educação importante e especialmente para aqueles que, achando-a importante, se opõem a uma educação confessional doutrinária. Mas o preço a pagar pelos seus atrativos é muito alto (sem falar na unicidade monopolista). Os pioneiros da Escola Nova se deixaram seduzir por esse argumento (e estamos pagando o preço até hoje) e mesmo um liberal da estirpe de Charles Murray se mostra, nos Estados Unidos, atraído por ele.

A principal motivação daqueles que propuseram e ainda propõem o argumento é introduzir uma cunha no ideário liberal – abrir uma brecha pela qual vão passar, posteriormente, outros argumentos.

Em geral, depois de haver argumentado que a educação deve ser pública, aparece o argumento de que a saúde também deve sê-lo. De que adianta uma população educada mas doente, que morre cedo e, assim, desperdiça os investimentos estatais feitos em sua educação?

Educação e saúde: direitos dos cidadãos e deveres do estado. A Social-Democracia inicialmente se contentava com essas duas “conquistas”, com esses dois “direitos sociais” adquiridos na luta contra o Liberalismo.

Em 1945 a Carta da ONU consagrou esses dois “direitos sociais” – e alguns mais. Na trilha deles vieram o direito à moradia, ao saneamento, ao transporte, ao alimento, à vestimenta, etc. Mais recentemente se tem acrescentado o direito ao trabalho, à seguridade social e até mesmo o direito a uma renda mínima (independente do trabalho).

Os socializantes têm insistido na tese de que todos esses “direitos sociais” são universais – isto é, devem ser garantidos para todos os cidadãos, não apenas para os que mais necessitariam dele (tese que é chamada de “focalização”). A se aceitar essa tese, até mesmo Antonio Ermírio de Moraes receberia uma renda mínima.

E a lista dos “direitos sociais”, acrescidos dos chamados direitos econômicos e dos alegados direitos de quarta geração (direito a um ambiente não poluído, por exemplo), cresce a passos rápidos. Antes de chegar ao fim já estaremos no estado totalitário em que os governantes têm poder absoluto.

Em 21 de agosto de 2005

A traição de Ferreira Gullar

O artigo de Ferreira Gullar na Folha de hoje [21/8/2005] é fabuloso. Concordo com ele inteiramente — exceto pela última frase…

O artigo mostra, de maneira lúcida e insofismável, através de fatos e argumentos, que Lulla é indiscutivelmente o grande responsável pelos crimes que o PT perpetrou nos últimos anos.

O argumento de Ferreira Gullar (em minhas palavras, e com alguns acréscimos e embelezamentos meus) é o seguinte:

Depois de ter sido derrotado em três campanhas presidenciais, Lulla tomou a decisão de só concorrer pela quarta vez para ganhar. Ao tomar essa decisão, decretou que os fins são mais importantes do que os meios (tese de resto pacificamente aceita pelos comunistas). O PT, ao aceitar essa decisão de Lulla, reconheceu e assumiu a necessidade de escolher, na campanha, quaisquer meios que levassem ao fim de eleger Lulla (ainda que imorais, como as alianças com picaretas, e criminosos, como os subornos, o Caixa 2, etc. – Ferreira Gullar lista boa parte deles).

Ferreira Gullar não diz, mas eu acrescento, que, eleito Lulla, o PT levou adiante o objetivo de, agora, consolidar o projeto de poder do presidente e de seus companheiros mais próximos. Qualquer meio, agora, é válido para o fim de consolidar o aparelhamento do Estado e manter o PT indefinidamente no poder (e, de sobra, enriquecer os companheiros).

O artigo é uma obra prima de clareza na exposição dos fatos e na argumentação.

Cito o último parágrafo, que contém um resumo dos fatos e a conclusão de Ferreira Gullar:

"Não resta dúvida, portanto, que, nas opções feitas por Lula, residem as causas dos endividamentos, dos empréstimos, do ‘mensalão’, do uso do caixa dois. Não pretendo com isto inocentar a Delúbio, Silvinho, Genoino e Zé Dirceu, obviamente responsáveis pelas trapaças que arquitetaram, praticaram ou consentiram. Mas o fizeram para viabilizar a eleição e o governo de seu chefe. Por isso mesmo, no ambíguo discurso em que pediu desculpas à nação, Lula, ao dizer-se traído, evitou citar-lhes os nomes. Sabe muito bem que não pode fazê-lo. Sua responsabilidade em tudo o que ocorreu é indiscutível. Nem por isso defenderia a tese do seu impedimento."

Note-se o resumo que Ferreira Gullar, esquerdista comunista assumido, faz de suas impecáveis considerações:

"A responsabilidade [de Lulla] em TUDO o que ocorreu [endividamentos, empréstimos, mensalão, uso do caixa dois] é INDISCUTÍVEL."

Conclusão: logo, Lulla deve ser impedido, não é?

NÃO!!! A conclusão de Ferreira Gullar é: logo, Lulla NÃO deve ser impedido!

Por quê essa conclusão falaciosa? Well, well: a única explicação só pode ser que Lulla é um companheiro (e) camarada.

A incoerência lógica da esquerda é inacreditável — só se compara à sua disposição de proteger um companheiro (e) camarada não importa o que ele tenha feito ou autorizado, vale dizer, mesmo quando ela não tem dúvida de que ele é indiscutivelmente responsável pelo maior golpe que já se perpetrou sobre este país – golpe em mais de um sentido, de enganação e tomada ilegítima do poder – porque, dada a enganação e os crimes cometidos no processo de viabilizá-la, a eleição de 2002 foi uma empulhação. Este sim, um verdadeiro golpe: negro e sujo. Perto dele o alegado golpe branco e limpo dos que querem remover Lulla por impedimento é um exemplo de probidade e responsabilidade.

Como Lulla, Ferreira Gullar trai o país quando conclui que Lulla não deve ser impedido. Mas dele, Ferreira Gullar, eu não esperava outra coisa.

Em Campinas, 21 de agosto de 2005