Eu

de Florbela Espanca

Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

(Publicado em Charneca Em Flor)

Em São Paulo, 2 de Janeiro de 2010
(Para brindar o novo ano)
 

Venda de “Magalhães” nos Açores

Meu amigo Fernando Manuel Costa, de Lisboa, companheiro de minha grande amiga Luiza de Marilac, trouxe à minha atenção a matéria abaixo, publicada no Diário de Notícias de Portugal:

———-

http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1456912&seccao=Açores
Diário de Notícias
28 Dezembro 2009

S. Miguel

Crianças vendem ‘Magalhães’ a 5 euros nos Açores

Crianças açorianas estão a vender computadores Magalhães por cinco euros ou em troca de brinquedos. Segundo a Antena 1, crianças da Ilha de S. Miguel – muitas delas oriundas de bairros carenciados e que receberam o portátil nas suas escolas – fazem negócio trocando o computador por dinheiro ou por brinquedos.

Algumas delas declararam mesmo que a troca pode ser efectuada por uma bicicleta ou por um carro de esferas. Outras pedem entre os 5 e os 30 euros "para a mãe fazer a sua vida, para comer ou só mesmo para brincar". Questionada sobre a questão, a secretária regional da Educação, Maria Lina Mendes, disse à Antena 1/Açores "que, a partir do momento em que os pais pagam o computador, essa responsabilidade passa a ser deles e não da tutela". O Governo pagou cerca de 200 euros por cada Magalhães.

———-

Para quem não sabe, “Magalhães” é o nome dado, em Portugal, para os sub-notebooks da Intel que no Brasil são chamados de ClassMates. Convertido para o Inglês, Magalhães virou Magellan.

A notícia é que as crianças da Ilha de S. Miguel, no Arquipélago dos Açores, que receberam os Magalhães do governo português para uso na escola e em casa, as crianças carentes sem precisar pagar nada, estão a vender seus equipamentos por até 5 Euros cada (cerca de R$ 12.50 cada). Provavelmente as crianças acham que estão fazendo um “negocião”. Quem os compra, certamente o faz, não fosse ilegal a venda e a compra do equipamento.

Muitas pessoas suspeitam, e com razão, diante das evidências, que os pobres, quando recebem, do governo, de graça, presentes diversos (os Magalhães, no caso, ou glebas de terra no caso dos assentamentos brasileiros da reforma agrária), não apreciam o valor dos bens que estão a receber e os trocam por coisas de menor valor ou os vendem por preço irrisório. No caso português, o governo pagou 200 Euros por cada Magalhães. As crianças os vendem por 2,5% do preço de custo. As crianças não conseguem perceber o quanto mais poderiam ganhar, no médio e longo prazo, se usassem os Magalhães para aprender mais e/ou melhor.

Só a educação das próprias crianças e de seus pais poderia corrigir essa distorção. Mas, no caso, o que está sendo comercializado é a própria possibilidade de uma educação melhor.

Em Portugal o governo tem investido recursos consideráveis (dado o PIB do país) na educação, em especial na área do uso de tecnologia na educação. Consta que todas as crianças da Educação Básica pública receberam um Magalhães para uso em sua aprendizagem tanto na escola como em casa.

No Brasil, as dimensões de projeto semelhante são modestíssimas e estão ainda amarradas na burocracia governamental. E não parece que as crianças vão poder levar os computadores para casa. Assim sendo, o risco de que os comercializem são bem menores. Mas permanece a suspeita de que, se os levassem, fariam a mesma coisa que fizeram as crianças da Ilha de S. Miguel, no Arquipélago dos Açores.

Em Ubatuba, 31 de Dezembro de 2009

A Faculdade de Educação da UNICAMP e o Secretário da Educação

Três professores da Faculdade de Educação da UNICAMP (o diretor e duas coordenadoras do Curso de Pedagogia) protestaram, na Seção Tendências / Debates da Folha de S. Paulo de hoje, 30/12/2009, contra algumas observações do Secretário Estadual da Educação, Paulo Renato Souza, que os professores consideraram um “ataque” à Faculdade de Educação da UNICAMP (e à da USP).

Cerca de cinqüenta dias antes a própria Congregação da Faculdade de Educação da UNICAMP já havia protestado de forma bastante semelhante. Como a manifestação da Congregação recebeu considerável atenção na mídia (o Luís Nassif a publicou na íntegra – http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/11/12/a-unicamp-responde-a-paulo-renato/), o protesto do diretor e das duas coordenadoras da Faculdade de Educação, cerca de cinqüenta dias depois, tem claramente o sabor de comida requentada. Mas como a Folha lhe deu abrigo, sinto-me no direito (talvez até na obrigação) de comentar a discussão.

Protestam os professores da Faculdade de Educação da UNICAMP contra uma entrevista de Paulo Renato nas Páginas Amarelas da revista VEJA, publicada na edição Edição 2136, de 28 de outubro de 2009. O texto completo da entrevista está transcrito adiante.

Como se pode constatar, a entrevista tratou de muitos assuntos (seu título é “Contra o Corporativismo”). O Secretário da Educação mencionou a USP e a UNICAMP apenas de passagem. No entanto, quem lê apenas os protestos dos professores da Faculdade de Educação da UNICAMP fica com a impressão que Paulo Renato deu uma entrevista à VEJA única e exclusivamente para criticá-los. “Fomos neste ano alvo de injustas críticas por parte da cúpula que administra os destinos do ensino público paulista”, lastimam os professores que assinam a matéria publicada na Folha de hoje.

Veremos que, embora Paulo Renato tenha mencionado a USP e a UNICAMP en passant, sua crítica foi qualquer coisa menos injusta.

A passagem que especialmente irritou os professores da UNICAMP e que lhes deu o “gancho” para tentar (com sucesso) publicar seu pobre texto na Folha, foi em resposta à esta pergunta da VEJA:

“As avaliações sempre chamam atenção para o despreparo dos professores brasileiros. A que o senhor atribui isso?”

Eis o que diz o Secretário:

“Às universidades que pretendem formar  professores, mas passam ao largo da prática da sala de aula. No lugar de ensinarem didática, as faculdades de pedagogia optam por se dedicar a questões mais teóricas. Acabam se perdendo em debates sobre o sistema capitalista cujo ideário predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria. O que se discute hoje nessas faculdades está muito distante de qualquer ideia que seja cientificamente aceita, mesmo dentro da própria ideologia marxista. É uma situação difícil de mudar. A resistência vem de universidades como USP e UNICAMP, as maiores do país.”

Em outras palavras: Paulo Renato, que é, pela segunda vez, Secretário da Educação do Estado de São Paulo, que foi Ministro da Educação durante oito anos, e que fez sua carreira de professor universitário na própria UNICAMP, atribui o despreparo dos professores de Educação Básica às universidades que os formam.

Talvez por causa do seu vínculo com a UNICAMP e com a educação pública, Paulo Renato em nenhum momento disse que os Cursos de Pedagogia e Licenciatura da UNICAMP são ruins. Poderia ter dito isso, mas optou por não dizê-lo. Nem sequer disse que os cursos de formação de professores das demais universidades públicas são ruins. Poderia ter dito isso também, mas de igual forma escolheu não dizê-lo. Falou simplesmente, de forma genérica, acerca “das universidades que pretendem formar professores, mas passam ao largo da prática da sala de aula".

Se os professores da UNICAMP vestiram a carapuça, foi porque ela lhes serviu bem. Eis o que diz o texto aprovado pela Congregação da Faculdade de Educação da UNICAMP:

“O Sr. Secretário da Educação Paulo Renato Souza atribui grande responsabilidade pelos problemas da escola aos professores e à sua formação, apontando as Faculdades de Educação, e nominalmente a Unicamp e Usp, pelos males da Educação do Estado de São Paulo.”

A Congregação da Faculdade de Educação generaliza o que disse Paulo Renato e, numa mal disfarçada tentativa de obter a solidariedade dos professores de educação básica e de colocá-los contra o Secretário, atribui a ele a afirmação de que a “grande responsabilidade pelos problemas da escola” seria dos professores. Paulo Renato não criticou os professores de Educação Básica. Criticou as instituições que os formam (as Faculdades de Educação ou assemelhadas). E citou as Faculdades de Educação da USP e da UNICAMP como exemplos de resistência a mudanças – não como exemplo da má qualidade de seus cursos de formação de professores.

A pergunta da VEJA, que serviu de base para a observação de Paulo Renato, havia se referido ao “despreparo” dos professores de Educação Básica, constatado nas avaliações desse nível da educação. Ora, faz sentido dizer que, se os professores são despreparados, a responsabilidade é de quem os prepara.  Ou pretendem os professores da UNICAMP que as universidades que formam professores os preparam muito bem, mas, por razões não esclarecidas, eles acabam ficando misteriosamente despreparados?

O Secretário da Educação vai adiante, sempre dizendo coisas básicas e simples – e verdadeiras. Diz ele em seguida que, nas Universidades que formam professores, vale dizer, nas Faculdades de Eduçação, os professores de Educação Básica são mal preparados porque, em vez de aprenderem o seu ofício, ficam, por iniciativa de seus mestres, os professores universitários dessas faculdades, discutindo “questões mais teóricas”, com o resultado de que “acabam se perdendo em debates sobre o sistema capitalista cujo ideário predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria” . Touché. Verdade. Na realidade, o Secretário bota o dedo no centro da ferida. Só quem nunca colocou o pé numa Faculdade de Educação (em especial nas que o Secretário nomeia) ousaria duvidar da veracidade do que diz o Secretário.

O Secretário continua, dando um exemplo de como, nas Faculdades de Educação públicas “a ideologia pode sobrepor-se à razão”:

“Existe um terrível preconceito nas universidades públicas contra o setor privado. Ali, qualquer contato com as empresas é visto como um ato de ‘venda ao sistema’. Como se as instituições públicas fossem sustentadas por marcianos e não pelo dinheiro do governo, que vem justamente do sistema econômico. O resultado é que, distantes das empresas, as universidades se tornam menos produtivas e inovadoras.”

Mais uma vez o Secretário acerta na mosca. Fui membro da Congregação da Faculdade de Educação da UNICAMP por bem mais de uma década. Ali constatei a veracidade da afirmação do Secretário. Convênio ou contrato com instituição privada era sistematicamente rejeitado pela Congregação, a menos que se tratasse de instituição ligada a sindicatos ou a partidos políticos da preferência da esquerda mais retrógrada. Argumentava-se que aceitar apoio (até mesmo financeiro) de instituição privada para a educação pública era uma forma de desresponsabilizar o estado de sua obrigação com o sistema público de educação, abrindo as portas para a sua privatização… Eu sei, o argumento é ridículo, mas é usado.

O Secretário constata que essa é uma situação difícil de mudar – porque a resistência à mudança vem exatamente das Faculdades de Educação que se imaginam líderes do sistema de formação de professores brasileiro: a USP e a UNICAMP.

A propósito, o Secretário atribui ao espírito corporativista (que dá título à entrevista), encastelado nos sindicatos dos professores e dos demais profissionais da educação, a principal responsabilidade pela resistência às mudanças que são necessárias no sistema educacional, como, por exemplo, o pagamento diferenciado, por mérito – em vez do sistema atual que paga o mesmo salário para todo mundo, independentemente de seu desempenho (só diferenciando o salário um pouco por senioridade, através dos qüinqüênios):

“O movimento sindical politizou-se a um ponto tal que não se acham mais nele pessoas realmente interessadas em educação. Estas debandaram. Hoje, os sindicatos estão tomados por partidos radicais de esquerda sem nenhuma relevância para a sociedade. Para essas agremiações insignificantes, o sindicalismo serve apenas como um palanque, capaz de lhes dar uma visibilidade que jamais teriam de outra maneira. É aí que tais partidos aparecem e fazem circular seu ideário atrasado e contraproducente para o ensino. Repare que esses sindicalistas são poucos – e estão longe de expressar a opinião da maioria. Mas têm voz.”

A referência à USP e à UNICAMP não se deve ao seu tamanho ou ao número de professores que formam, mas ao fato de que são universidades líderes do sistema. Seus professores freqüentemente ocupam cargos no governo e, também, no movimento sindical não só dos professores e assemelhados, como de todo o serviço público.

Trabalhei na Faculdade de Educação da UNICAMP durante trinta e dois anos e meio – de Julho de 1974 a Dezembro de 2006. Ali fui Coordenador do Curso de Pedagogia (o primeiro), Coordenador da Pós-Graduação (o segundo), Diretor Associado e Diretor (tendo permanecido nessas duas funções de direção por oito anos, de 1976 a 1984). Depois trabalhei na Secretaria da Educação e na Secretaria de Ensino Superior do Estado de São Paulo. Conheço bem as universidades – em especial as duas que o Secretário nomeia, a USP e a UNICAMP. E o Secretário da Educação as conhece muito bem, também. Muito melhor do que os signatários dos protestos unicampeiros.

O curso de Pedagogia da UNICAMP já foi muito bom – numa época em que o curso e a faculdade eram dirigidos por pessoas que não tinham nenhum envolvimento no movimento sindical e se preocupavam apenas com a qualidade da educação. As demais Licenciaturas, admito, nunca foram muito boas. Agora, que o curso de Pedagogia, as Licenciaturas e a própria faculdade vêm sendo dirigidos por pessoas envolvidas no movimento sindical dos professores, ou o apóiam, eles estão longe dos melhores. Na verdade, nem mesmo podem ser considerados bons. O próprio Mestrado em Educação da Faculdade de Educação da UNICAMP, outrora um dos melhores do país, foi contagiado pela mediocridade que impera nos cursos de Graduação. Os professores da instituição tentam esconder essa mediocridade atrás de um discurso chocho sobre a necessidade de integrar a teoria e a prática, ou de formar professores, não técnicos…

Nunca ninguém propôs ou desejou uma formação puramente prática, sem teoria, para os professores. Mas isso não é justificativa para uma formação predominante, quando não exclusivamente teórica. E o Secretário identifica claramente o maior problema: não é a presença de teoria, mas a exclusividade da teoria – e, o que é o pior, de uma teoria totalmente retrógrada e ultrapassada, repetida como se fosse texto de catecismo nas Faculdades de Educação.

Ninguém quer um professor puramente técnico, que é programado a fazer uma coisa que não entende. Mas isso não é justificativa para uma formação ideologizada, marxistizada. Quando a formação dos professores das séries iniciais do processo de escolarização era feita nos Cursos Normais, havia discussão de questões teóricas, mas os professores, sem se tornar técnicos burros e automatizados, sabiam alfabetizar, sabiam ajudar as crianças a desenvolver as competências básicas que deveriam dominar para alcançar autonomia na vida. Hoje, isso não acontece nas Faculdades de Educação. Todo mundo sai da Faculdade sabendo quem é Lakan, Vygotsky, Emília Ferreiro, etc. Mas sem saber gerenciar uma sala de aula, manter disciplina (i.e., não deixar que uns, tentando exercer sua liberdade, impeçam os demais de exercer a sua – algo que os sindicalistas fariam bem em aprender), e, portanto, sem condições de ajudar os alunos a aprender o que é preciso que aprendam…

Não sou o maior fã do Secretário da Educação do Estado de São Paulo. Mas sua entrevista é impecável. Dou-lhe os parabéns. Aos professores da Faculdade de Educação da UNICAMP cabe, naturalmente, o jus sperniandi. Melhor fizeram os da USP, que ficaram quietos…

Abaixo, os três textos mencionados:

———-

http://veja.abril.com.br/281009/contra-corporativismo-p-019.shtml

VEJA
Edição 2136
/ 28 de outubro de 2009

Entrevista Paulo Renato Souza

Contra o corporativismo

O secretário da Educação de São Paulo diz que sem meritocracia não haverá avanços na sala de aula – e que os sindicatos são um entrave para o bom ensino

Monica Weinberg

"É preciso premiar o esforço e o talento para tornar a carreira de professor atraente. O bom ensino depende disso"

Criar um sistema capaz de atrair os melhores alunos para a carreira de professor é imperativo para um ensino de alto nível. Daí a relevância da aprovação, na semana passada, de um projeto concebido pelo economista Paulo Renato Souza, 64 anos, secretário estadual da Educação em São Paulo. Trata-se de um plano de carreira para os professores inteiramente baseado na meritocracia, conceito ainda raro nas escolas brasileiras e repudiado pelos sindicatos, seus principais adversários. "Os sindicalistas são um freio de mão para o bom ensino", resume o ex-ministro da Educação no governo Fernando Henrique, que reconhece avanços na implantação dos rankings no Brasil e da cobrança de resultados com base neles, mas adverte: "É preciso discutir a educação com mais objetividade e menos ideologia".

VEJA: Um relatório recente da OCDE mostra que o Brasil foi o país que mais aumentou o investimento na educação em proporção ao total dos gastos públicos – mas muitos se queixam de falta de dinheiro nas escolas. Estão certos?

PAULO RENATO: O maior problema no Brasil não é a falta de dinheiro, mas como esses recursos são empregados – em geral, de maneira bastante ineficaz. Daria para obter resultados infinitamente superiores apenas fazendo melhor uso das verbas já existentes. Prova disso é que, com orçamento idêntico, algumas escolas públicas oferecem ensino de ótima qualidade e outras, de péssimo nível.

VEJA: O que explica isso?

PAULO RENATO: As boas são comandadas por diretores com uma visão moderna de gestão, coisa raríssima no país. Não existe no Brasil nada como um bom curso voltado para treinar esses profissionais a liderar equipes ou cobrar resultados, o básico para qualquer um que se pretenda gestor. Quem se sai bem na função de diretor, em geral, é porque tem algo cogmo um dom inato para a chefia. A coisa funciona no improviso.

VEJA: As avaliações sempre chamam atenção para o despreparo dos professores brasileiros. A que o senhor atribui isso?

PAULO RENATO: Às universidades que pretendem formar professores, mas passam ao largo da prática da sala de aula. No lugar de ensinarem didática, as faculdades de pedagogia optam por se dedicar a questões mais teóricas. Acabam se perdendo em debates sobre o sistema capitalista cujo ideário predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria. O que se discute hoje nessas faculdades está muito distante de qualquer ideia que seja cientificamente aceita, mesmo dentro da própria ideologia marxista. É uma situação difícil de mudar. A resistência vem de universidades como USP e Unicamp, as maiores do país.

—–

"Uma ideia bastante difundida no Brasil é que o professor deve ter liberdade total para construir o conhecimento junto com seus alunos. Essa apologia da ausência de método só atrapalha"

clip_image001[1]—–

VEJA: Como isso se reflete nas escolas?

PAULO RENATO: Muitos professores propagam em sala de aula uma visão pouco objetiva e ideológica do mundo. Alguns não dominam sequer o básico das matérias e outros, ainda que saibam o necessário, ignoram as técnicas para passar o conhecimento adiante. Vê-se nas escolas, inclusive, certa apologia da ausência de métodos de ensino. Uma ideia bastante difundida no Brasil é que o professor deve ter liberdade total para construir o conhecimento junto com seus alunos. É improdutivo e irracional. Qualquer ciência pressupõe um método. No ensino superior, há também inúmeras mostras de como a ideologia pode sobrepor-se à razão.

VEJA: O senhor daria um exemplo?

PAULO RENATO: Existe um terrível preconceito nas universidades públicas contra o setor privado. Ali, qualquer contato com as empresas é visto como um ato de "venda ao sistema". Como se as instituições públicas fossem sustentadas por marcianos e não pelo dinheiro do governo, que vem justamente do sistema econômico. O resultado é que, distantes das empresas, as universidades se tornam menos produtivas e inovadoras.

VEJA: Em muitos países, as universidades públicas cobram mensalidade dos estudantes que têm condições de pagar. Seria bom também para o Brasil?

PAULO RENATO: Sem dúvida. Só que esse é um tabu antigo no país. Se você defende essa bandeira, logo o identificam como alguém que quer privatizar o sistema. Preservar a universidade gratuita virou uma questão de honra nacional. Bobagem. É preciso, de uma vez por todas, começar a enxergar as questões da educação no Brasil com mais pragmatismo e menos ideologia.

VEJA: Na semana passada, foi aprovado em São Paulo um novo plano de carreira para professores e diretores. Esse tipo de medida tem potencial para revolucionar o ensino nas redes públicas?

PAULO RENATO: Planos de carreira são essenciais para tornar essas profissões novamente atraentes, de modo que os melhores alunos saídos das universidades optem por elas. Sem isso, é difícil pensar em bom ensino. O plano de São Paulo não apenas eleva os salários, o que é um chamariz por si só, mas faz isso reconhecendo, por meio de avaliações, o mérito dos melhores profissionais. Ou seja: esforço e talento serão premiados, um estímulo que a carreira não tinha. A meritocracia consta de qualquer cartilha de gestão moderna, mas é algo ainda bem novo nas escolas brasileiras.

VEJA: Os principais adversários do projeto foram os sindicatos desses profissionais. Que lógica há nisso?

PAULO RENATO: É uma manifestação de puro corporativismo. Pela nova lei, só poderão pleitear aumento de salário aqueles professores assíduos ao trabalho – um pré-requisito mais do que razoável. É o mínimo esperar que, para alguém almejar ascender na carreira, ao menos compareça ao serviço. Apenas o sindicato não vê desse jeito. Ele encara as "faltas justificadas" como um direito adquirido. E ponto. Não quer perdê-lo. Mas repare que eu não estou dizendo que os professores ficarão sem esse direito. Só estou tentando fornecer um estímulo adicional para que eles deem suas aulas. O último levantamento que fizemos mostra que a média de ausências na rede estadual de São Paulo é altíssima: foram trinta faltas por docente apenas em 2008. Ao resistir a uma medida que premia a presença na escola, o sindicato dá mais uma mostra de como o espírito corporativista pode sobrepor-se a qualquer preocupação com o ensino propriamente dito.

—–

"No lugar de ensinarem didática, as faculdades de pedagogia optam por perder tempo com discussões teóricas que, não raro, se baseiam em conceitos sem nenhuma comprovação científica"

—–

VEJA: O movimento sindical passa ao largo da preocupação com o bom ensino?

PAULO RENATO: É exatamente isso. Está claro que os sindicatos estão focados cada vez mais no próprio umbigo e menos nas questões relativas à educação. Entendo, evidentemente, que lutem pelos interesses da categoria, propósito de qualquer organização do gênero. Mas a qualidade do ensino, que é de responsabilidade social deles, deveria vir em primeiro lugar. Em 1984, quando fui secretário da Educação em São Paulo pela primeira vez, já se via essa forte tendência nos sindicatos. Em reuniões com os professores, palavras como aluno ou ensino jamais eram mencionadas por eles. Apenas se discutiam ali os interesses da categoria. E esse problema só piora.

VEJA: O que causa a piora?

PAULO RENATO: O movimento sindical politizou-se a um ponto tal que não se acham mais nele pessoas realmente interessadas em educação. Estas debandaram. Hoje, os sindicatos estão tomados por partidos radicais de esquerda sem nenhuma relevância para a sociedade. Para essas agremiações insignificantes, o sindicalismo serve apenas como um palanque, capaz de lhes dar uma visibilidade que jamais teriam de outra maneira. É aí que tais partidos aparecem e fazem circular seu ideário atrasado e contraproducente para o ensino. Repare que esses sindicalistas são poucos – e estão longe de expressar a opinião da maioria. Mas têm voz.

VEJA: Com a nova lei fica determinado que, para pular de nível na carreira, o professor seja submetido a uma prova. Por que os sindicatos rejeitaram a ideia?

PAULO RENATO: É lamentável que um grupo de professores critique a existência de uma prova. Veja o absurdo. Eles alegam que um exame os obrigaria a estudar mais e que não têm tempo para isso. A crítica expressa também uma resistência à avaliação, que até hoje se vê arraigada em certos setores da sociedade brasileira.

VEJA: Nisso o Brasil destoa de outros países?

PAULO RENATO: Em culturas mais individualistas e competitivas, como a anglo-saxã, as aferições do nível dos professores e do próprio ensino não são apenas bem-aceitas como têm ajudado a melhorar as escolas, na medida em que fornecem um diagnóstico dos problemas. Os professores brasileiros que agora resistem a passar pela avaliação certamente não estão atentos a isso. Sua maior preocupação é lutar por direitos iguais para todos – velha bandeira que ignora qualquer noção de meritocracia. Por isso, eles se posicionaram contra uma regra do projeto que limita o número de promoções por ano: não mais do que 20% dos profissionais poderão subir de nível. É um teto razoá-vel: evita um rombo no orçamento e, ao mesmo tempo, promove uma bem-vinda competição. Demandará mais empenho e estudo dos professores – o que não lhes fará mal.

VEJA: No campo salarial, premiar o mérito significa romper com o conceito da isonomia de ganhos para todos os funcionários. Esse não é um valor que deveria ser preservado?

PAULO RENATO: Não. Já é consenso entre especialistas do mundo todo que aumentos concedidos a uma categoria inteira, desprezando as diferenças de desempenho entre os profissionais, não têm impacto relevante no ensino. O que faz diferença, isso sim, é conseguir premiar os que se saem melhor em sala de aula. A isonomia é uma bandeira velha.

VEJA: Há experiências no Brasil com a concessão de bônus aos melhores professores. Isso funciona?

PAULO RENATO: Sem dúvida. Quando há um sistema feito para reconhecer e premiar os talentos individuais, a eficácia das políticas públicas para a educação aumenta. Coisa de quinze anos atrás, o Brasil estava a anos-luz disso. Não havia informação sobre nada – nem mesmo se sabia o número de escolas no país. O dado variava entre 190 000 e 230 000 colégios, dependendo da fonte. Hoje, já dá até para comparar o ensino de Capão Redondo, na periferia de São Paulo, com o das escolas da Finlândia. Desse modo, é possível traçar metas bem concretas para a educação e cobrar por elas – alicerces para uma boa gestão em qualquer setor.

VEJA: Já se formou um consenso no Brasil de que esse é o caminho acertado?

PAULO RENATO: Acho que sim. Nos primeiros anos de governo Lula, os petistas chegaram a pôr em xeque a ideia de que a qualidade do ensino precisa ser aferida com base em dados objetivos. Foi um retrocesso. Mas hoje o MEC norteia suas políticas com base em avaliações, metas e cobrança de resultados. Diria que eles chegam até a exagerar na dose, divulgando rankings que, como ministro, eu mesmo preferia não trazer a público. É o caso do Enem.

VEJA: O Enem não é um bom indicador da qualidade do ensino em escolas públicas e particulares?

PAULO RENATO: O problema é que, como só faz o exame quem quer, ele não necessariamente traduz a qualidade de ensino na escola como um todo. E se apenas os bons alunos de determinado colégio se submeterem à prova? O retrato sairá distorcido. Grosso modo, o Enem até espelha bem a realidade. Mas, como a amostra de alunos de cada escola é aleatória, há espaço para que se cometam injustiças. Em tese, qualquer colégio particular que se sentisse prejudicado pelo ranking poderia processar o MEC. De modo geral, porém, sou absolutamente favorável a que se lance luz sobre os resultados. O monitoramento deve ser constante.

VEJA: No começo do ano, flagraram-se em material que seria distribuído às escolas pela Secretaria Estadual da Educação erros crassos, tais como a inclusão de dois Paraguais num mapa da América do Sul. Faltou fiscalização por parte do governo?

PAULO RENATO: Sem dúvida. Ainda que o material não seja produzido pela secretaria, é de responsabilidade dela que não passem erros. Não há o que argumentar aí. Depois do episódio, os cuidados foram redobrados. Cada livro é revisado de três a quatro vezes. Apostila com erro é um desserviço à educação – e desperdício de dinheiro público.

———-

Texto da manifestação da Congregação da Faculdade de Educação, publicado, em 12 de Novembro de 2009, no site do jornalista Luís Nassif (http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/11/12/a-unicamp-responde-a-paulo-renato/)

Ao tentar defender a política meritocrática repaginada pela Secretaria de Estado de Educação de São Paulo, o Sr. Secretário da Educação Paulo Renato Souza atribui grande responsabilidade pelos problemas da escola aos professores e à sua formação, apontando as Faculdades de Educação, e nominalmente a Unicamp e Usp, pelos males da Educação do Estado de São Paulo.

Afirma o Sr. Secretário que a formação nesses cursos é muito teórica e ideológica, em que se defende a ausência de método e não se provê o professor de técnicas adequadas de ensino.

Não ingenuamente, o Sr. Secretário de Educação faz parecer que universidades públicas e privadas funcionam a partir dos mesmos princípios e condições, com os mesmos propósitos e a mesma qualidade, o que nem de longe corresponde à realidade.

Induz também a pensarmos que são as instituições públicas que formam a maioria dos professores do Estado, o que também não corresponde à realidade. No Estado de São Paulo, infelizmente, as universidades públicas paulistas são responsáveis por apenas 25% das vagas universitárias, contra 75% das privadas.

Vale dizer que essa discrepância não parte de uma opção das universidades públicas, mas foi produzida, nos últimos 15 anos, pela própria política de encolhimento do setor público e ampliação do setor privado que ele, então Ministro da Educação, ajudou a implementar.

Soa estranho, então, que a responsabilização pela suposta má formação dos professores recaia exatamente no setor minoritário, em termos numéricos, quanto à formação de professores.

Pior fica perceber que o ex-Ministro e atual Secretário de Educação do Estado desconhece os projetos e currículos dos cursos de pedagogia da Unicamp e Usp, pelos quais o Estado é responsável.

No caso do curso de Pedagogia da Unicamp, há mais de uma década temos defendido e trabalhado, como princípios norteadores de nosso currículo, a formação teórica sólida (da qual certamente não abrimos mão, já que formamos educadores e não técnicos), a pesquisa como eixo de formação, a unidade teoria-prática, sendo o nosso compromisso, como universidade pública, com a educação pública de qualidade para todos. Em nossa última reforma curricular, foi exatamente nas atividades de pesquisa e prática, e no estágio supervisionado, que logramos ampliar nossa carga horária e nossas experiências de formação.

Nada na nossa organização curricular e nos nossos planos de ensino aponta para a defesa do espontaneísmo e ausência de pesquisa sobre a prática, como afirma nosso secretário. Equivoca-se o Sr. Secretário ao confundir autonomia do professor, como intelectual que reflete sobre a própria prática e toma decisões, com ausência de método. Nossa ênfase na formação continuada a partir dos projetos pedagógicos das escolas, como trabalho coletivo, reforçam essa diferença.

Se pensar criticamente a realidade, conhecer os problemas do nosso país, dos nossos alunos concretos, dos nossos professores concretos, é visto pelo Sr. Secretário como “viés ideológico”, o que dizer da assunção de uma meritocracia cruel e desumana, que se assenta de forma alienada sobre as profundas desigualdades que marcam o nosso Estado e o nosso país, escamoteando e ocultando suas verdadeiras causas por meio do discurso falacioso da meritocracia? Não haverá também aí viés ideológico, e a questão não estaria na opção que fazermos, de nossa parte, por defender uma educação de qualidade para todos, e da parte do Governo do Estado, em manter a desigualdade entre a educação para o povo e a educação para as elites? Ou pretende o Sr. Secretário zombar da inteligência do leitor, querendo fazer crer que a política por ele desenvolvida é neutra, imparcial, desprovida de ideologia?

Apenas para ilustrar nosso compromisso e vínculo com a realidade e o cotidiano escolar, e a relevância do trabalho que realizamos, segundo dados fornecidos pela Assessoria de Imprensa da Unicamp, a pesquisa realizada nesta Universidade mais consultada neste ano de 2009 é da Faculdade de Educação e, talvez para surpresa do Sr. Secretário, trata de uma questão pungente da sala de aula: o ensino de matemática. Esse é apenas um exemplo dos estudos que realizamos e nossa produção aponta a intensidade do vínculo que estabelecemos com a escola pública, nas nossas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Além disso, o Sr. Secretário desconhece que o curso de Pedagogia da Unicamp foi reconhecido, durante os últimos anos, como um dos melhores do país.

Quanto à forma como encaramos a relação público-privado, vale salientar que, em muitos países em que dizemos nos espelhar, a educação pública de qualidade é um direito da população, as condições de trabalho e salário docente são garantidas sem a necessidade do apelo à alegoria do discurso meritocrático, e a maioria das vagas universitárias são públicas (como nos Estados Unidos e na nossa vizinha Argentina). E, para informação do Sr. Secretário, a verba pública não é do governo nem do setor econômico; provém dos muitos impostos que nós, trabalhadores paulistas, brasileiros, pagamos, com o suor de nosso trabalho. A educação de qualidade, portanto, é nosso direito e obrigação do Estado.

Congregação dos professores da Faculdade de Educação da UNICAMP

———-

Folha de S. Paulo
30 de Dezembro de 2009

TENDÊNCIAS/DEBATES
Em defesa do curso de pedagogia da Unicamp

ÂNGELA FÁTIMA SOLIGO, MARIA MÁRCIA SIGRIST MALAVASI e SÉRGIO ANTONIO DA SILVA LEITE

Fomos neste ano alvo de injustas críticas por parte da cúpula que administra os destinos do ensino público paulista

OS CURSOS de pedagogia das faculdades de educação da Unicamp e da USP foram neste ano alvos de injustas críticas por parte da cúpula que administra os destinos do ensino público paulista.

O sr. secretário da Educação, economista Paulo Renato Souza, ao defender a política meritocrática proposta pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, tem atribuído grande responsabilidade pelo despreparo dos professores à sua formação na graduação, apontando nominalmente as duas faculdades citadas.

Afirma o sr. secretário: "No lugar de ensinarem didática, as faculdades de educação optam por se dedicar a questões mais teóricas. Acabam se perdendo em debates (…) cujo ideário predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria… A resistência vem de universidades como USP e Unicamp, as maiores do país".

Estranhamente, o sr. secretário da Educação faz parecer que universidades públicas e privadas funcionam a partir dos mesmos princípios e condições, com os mesmos propósitos e a mesma qualidade, o que não corresponde à realidade. Induz também a pensarmos que são as instituições públicas que formam a maioria dos professores do Estado, o que também não corresponde à realidade.

No Estado de São Paulo, infelizmente, as universidades públicas paulistas são responsáveis por apenas 25% das vagas universitárias, contra 75% das privadas. Vale dizer que essa discrepância não parte de uma opção das universidades públicas, mas foi produzida, nos últimos anos, pela própria política de encolhimento do setor público e ampliação do setor privado que ele, quando ministro da Educação, ajudou a implementar.

Também fica óbvio que o atual secretário da Educação desconhece os projetos e currículos dos cursos de pedagogia da Unicamp e da USP. No caso da Unicamp, temos desenvolvido e aprimorado um projeto pedagógico que tem, como princípios, uma sólida formação teórica (já que formamos educadores, e não técnicos), a pesquisa como eixo de formação e a unidade teoria-prática, e o nosso compromisso é com a educação de qualidade para todos. Em nossa última reforma curricular, foi exatamente nas atividades de pesquisa e nos estágios supervisionados que logramos ampliar a carga horária.

Igualmente, equivoca-se o sr. secretário ao confundir autonomia do professor, como intelectual que reflete sobre a própria prática, com ausência de método. Nossa ênfase na formação continuada, a partir dos projetos pedagógicos desenvolvidos nas escolas com foco no trabalho coletivo, reforça essa diferença.

Se pensar criticamente a realidade, conhecer os problemas do país, dos nossos alunos e dos nossos professores como sujeitos concretos é visto pelo sr. secretário como "ideário de um marxismo de segunda ou terceira categoria", o que dizer da assunção de uma proposta que se assenta sobre as profundas desigualdades que marcam o nosso Estado e o nosso país, escamoteando e ocultando suas verdadeiras causas, por meio do discurso falacioso da meritocracia? Não haverá também aí viés ideológico? Ou pretende o sr. secretário fazer crer que a política por ele desenvolvida é neutra, imparcial, desprovida de ideologia? Apenas para ilustrar a relevância do trabalho que realizamos, segundo dados fornecidos pela assessoria de imprensa da Unicamp, a pesquisa dessa universidade mais consultada, em 2009, é da Faculdade de Educação e, para surpresa do sr. secretário, trata de uma questão pungente da sala de aula: o ensino de matemática.

A análise de nossa produção aponta a intensidade do vínculo que estabelecemos com a escola pública -aliás, marca do trabalho de toda a Faculdade de Educação da Unicamp, por meio das atividades de ensino, pesquisa e extensão. Além disso, o sr. secretário desconhece que o curso de pedagogia da Unicamp tem sido reconhecido, nos últimos anos, como um dos melhores do país. Quanto à forma como encaramos a relação público-privado, salientamos que temos defendido que a educação pública de qualidade é um direito da população, que as condições de trabalho devem ser garantidos a todos os profissionais da área e que as universidades públicas devem ter todas as condições necessárias para a ampliação dos cursos de pedagogia visando à formação de professores. Vale relembrar que a verba pública provém dos muitos impostos que nós, trabalhadores brasileiros, pagamos, com o suor de nosso trabalho.

A educação de qualidade, portanto, é nosso direito e obrigação do Estado.

———-

Em Ubatuba, 30 de Dezembro de 2009

O Ano Novo

Magnífico insight de Carlos Drummond de Andrade que encontrei no FaceBook. Não sei citar a referência, isto é, onde é que Drummond escreveu isso. Mas que é genial, isto é…

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dá para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente".

Mais uma “fatia do tempo” está chegando ao fim. Os projetos não concluídos neste ano ficam para o ano que vem. as esperanças se renovam… Este novo ano que chega vai ser melhor, neste ano vou conseguir fazer aquilo que não foi possível realizar no ano que finda… Quem sabe chega a sorte grande: milhões gordos na Sena de fim de ano…

Como o Natal, o Ano Novo é tempo de recomeçar, de passar as coisas a limpo, de sonhar novos sonhos ou, quem sabe, ressonhar os sonhos velhos, ainda não realizados.

Mas o período é também de contabilizar os sucessos e os insucessos, contar as bênçãos, fazer uma nota mental das bênçãos não vindas e das orações não atendidas… Mesmo num ano ruim há muita coisa por que ser grato.

Para mim foi um ano muito bom (“When I was 66, it was a very good year”…). No ano inteiro aconteceram coisas muito boas. Mas o fim do ano trouxe várias coisas boas pelas quais eu, em determinados momentos, nem ousava esperar mais. Estou muito feliz.

Mas espero que 2010 seja ainda melhor… 🙂

Em Ubatuba, 29 de Dezembro de 2009.

O primeiro Natal de que eu (mais ou menos) me lembro

[Comentário colocado em 09/02/2011, no início da noite, por volta de meia-noite e meia… Este post prova a tese de que nossa memória, se entendida como a capacidade de lembramo-nos das coisas “wie sie eigentlich gewesen sind”, como elas realmente aconteceram, é muito falha. Minha lembrança do meu primeiro Natal é cheia de lacunas. Mas as lacunas foram, com o tempo, sendo preenchidas com lembranças de coisas que, provavelmente, aconteceram em outros momentos, que não exatamente o Dia de Natal – mas que, na memória construída ao longo do tempo, se tornaram lembranças natalinas. Mark Twain uma vez disse que, à medida que ele ficava velho, a memória dele melhorava, e ele passava a se lembrar até de coisas que nunca aconteceram. Parece um chiste, e é um chiste. Mas, por trás da piada, está o fato de que, com o tempo, a gente se convence de que determinadas coisas aconteceram (que podem não ter acontecido), ou que aconteceram desta e não daquela maneira (que pode não ser a maneira em que realmente aconteceram), mas, para nós, é esse memória construída que condiciona nossos sentimentos, muitas vezes os mais ternos. O relato abaixo é uma construção memorística. Admito em vários lugares que não me lembro direito, ou que a data que vêm à minha memória não pode ser a data real… Mas é essa memória construída que acalenta as lembranças gostosas de minha mais tenra infância auto-consciente.]

Não sei se o primeiro Natal de que eu me lembro foi realmente no dia de Natal… Não me lembro muito bem dos detalhes. Mas algumas coisas ficaram bem gravadas em minha memória.

Em primeiro lugar: onde foi?

Disso não tenho dúvida. A lembrança é clara. Foi no casarão de madeira, com sótão, em que morávamos, na zona rural de Marialva, PR. Essa casa tem posição privilegiada em minha memória. Há várias fotos dela espalhadas pelas relíquias da família. Parece aquela casa de Psicose, filme de Alfred Hitchcock, com Anthony Perkins e Janet Leigh (mulher do Tony Curtis e mãe da Jamie Leigh Curtis). Era numa chácara e ficava bem distantezinha do centro de Marialva. Era cercada com arame farpado ou balaústres, não me lembro direito – acho que com balaústres. Ali havia cachorros, cavalos e, naturalmente, galináceos à vontade. Um dos nossos cavalos, o preferido de meu pai, um cavalo entre branco e baio, era o Galaor (nome que ele deu ao cavalo em homenagem ao cavalo do jovem Pardaillan em Les Pardaillans, de Michel Zévaco). E me lembro bem dos pés de mamona. Havia muitos. A gente usava o caroço da mamona seca como munição no estilingue – mas este não era usado para matar passarinhos, só para testar a pontaria nas árvores e nos mourões.

Não tenho a menor idéia de por que os meus pais resolveram morar ali naquele fim de mundo, Não havia nenhum vizinho próximo. Nem mesmo olhando da janela do sótão a gente via sequer uma casa pelas redondezas. Só mato. Meu pai viajava muito (em geral a cavalo) para ir pregar nas igrejas do “campo missionário” dele (que abrangia de Mandaguari até Paranavaí e Campo Mourão). E minha mãe ficava ali sozinha no casarão, apenas com uma mocinha que ajudava. E eu, naturalmente. Mas, no caso de perigo, eu mais atrapalhava do que ajudava. Imagino que ela deve ter sentido muito medo… Embora acreditasse que “o anjo do Senhor acampa ao redor dos que O temem e os livra”.

Pois a lembrança que tenho de meu primeiro Natal é a de um Natal que se passou ali, naquele casarão da chácara de Marialva.

Em segundo lugar: quando foi?

De algumas coisas não tenho dúvida, mas elas não se encaixam direito. Lembro-me, como se fosse hoje, que meu irmão, o Flávio, era pequenininho, de colo. Na verdade, recém-nascido. De colo mas não do jeito que um guri de oito meses é de colo: de colo do jeito que um nenê de um mês é de colo.

É aqui que as coisas não se encaixam direito. Meu irmão nasceu cinco dias antes do Natal – em 20 de Dezembro de 1946. Mas nasceu em Campinas, não em Marialva. Minha mãe foi para Campinas, “quando chegaram os dias em que deveria dar à luz” (como diz o Novo Testamento), algo que pretendera fazer no meu caso, também, mas eu fui mais apressado e nasci no interiorzão, mesmo, em Lucélia, SP. O Flávio nasceu na Rua José Paulino, 254, entre o Centro e a Ponte Preta, em Campinas, no casarão do Seu Chico (cheio de duendes no jardim). No dia 20 de Dezembro. Então é literalmente impossível que o primeiro Natal de que me lembro tenha sido exatamente em Marialva, no Dia de Natal de 1946… A gente claramente não estava lá nesse dia. Por isso disse, lá em cima, que não sei se o primeiro Natal de que eu me lembro foi realmente no dia de Natal…

Em terceiro lugar: quem estava junto?

Estavam comigo naquele Natal, minha mãe, meu pai, o Flávio (baby Fla), e, surpreendentemente, o meu avô e a minha avó maternos, Juca e Gina (José e Angelina) – lá em Marialva!!! Disso também não tenho dúvida. Lembro-me claramente da cena deles chegando (ele, como sempre, de terno e gravata), depois abrindo as malas, tirando os presentes. Para mim havia uma bola e uma piorra, daquelas com listras coloridas que fazem um zunido gostoso quando a gente roda.

Como se vê, as imagens não se encaixam direito. O dia de Natal de 1946, propriamente dito, em que eu tinha três anos, três meses e dezoito dias, a gente claramente deve ter passado em Campinas. Mas não me lembro absolutamente nada desse dia – embora me lembre relativamente bem do caos de cinco dias antes, quando o meu irmão nasceu (em casa – casa de minha avó)… Na pressa e na bagunça, esqueceram de mim – e eu assisti ao nascimento do Flávio de camarote, em posição privilegiada, de pezinho, olhando pelo vão horizontal do pé da cama…

Imagino que o seguinte tenha acontecido.

O Flávio nasceu no dia 20/12/46. Algumas semanas depois (não devem ter sido muitas) meus pais voltaram para Marialva, levando-nos com eles. Alguns dias depois meu avô e minha avó chegaram para ajudar minha mãe (então com 22 anos) – e trouxeram os presentes de que me lembro tão bem.

Acredito, portanto, que o primeiro Natal de que me lembro não tenha sido em 25/12/1946, mas algum dia no início de 1947… Mas a data exata não é tão importante quanto o fato de que aquilo de que me lembro era Natal. Natal pelos presentes. Duplamente Natal, por causa da chegada do meu irmão (então bem zinho). Triplamente Natal por causa da visita dos avós queridos.

Naquela ocasião eu, como um petiz de três anos, bem menor do que o meu neto Marcelinho é hoje, não sabia grande coisa acerca do nascimento de Jesus e do sentido que o Natal tem para os cristãos. Para mim, desde então, o Natal ficou sendo um dia em que a gente ganhava presentes e os avós chegavam… Presentes eram raros e escassos naquela época. E a convivência com os avós, mais rara e escassa ainda, e, por isso, extremamente preciosa.

Meus avós Juca e Gina morreram em 1967 e 1968, respectivamente. Hoje o avô sou eu. E o Marcelinho, meu neto de quatro anos e oito meses, vem (com a mãe dele) almoçar comigo e com a Paloma hoje. Compramos, a Paloma e eu, uns presentinhos para ele – escolhidos por ele mesmo no dia 20/12 (dia do aniversário do Flávio!!!) na RiHappy do Shopping Villa Lobos em São Paulo. Ele vem com a Patrícia, minha filha, e o Matheus, namorado dela.

Quando a gente tem três ou quatro anos em geral é feliz – sem o saber (como dizia Ataulfo Alves na música Tempo de Criança: “eu era feliz e não sabia”). Quando a gente fica mais velho, e se torna avô, fica consciente da felicidade – da felicidade regular e constante que consiste em estar com quem se ama, em estar relativamente bem de saúde, em estar relativamente bem de finanças, em estar de bem com a vida. E dos momentos especialmente felizes que emolduram e realçam essa felicidade regular e constante.

Nos últimos quarenta dias tive três desses momentos especialmente felizes que realçaram e emolduraram a felicidade do meu cotidiano.

O primeiro foi proporcionado pela decisão da Patrícia, minha filha mais nova, de, com o Marcelinho e o Matheus, vir passar o aniversário dela, aqui no sítio, de 20 a 22 de Novembro, comigo e com a Paloma. Foi a primeira vez que estivemos juntos nós cinco aqui no sítio – com a companhia também da Bianca, da Priscilla, do Flávio e do Flavinho (que enriqueceram sobremaneira esse momento feliz).

O segundo foi proporcionado pela decisão da Patrícia de, novamente com o Marcelinho e o Matheus, ir passar um fim de semana conosco (comigo e com a Paloma) em São Paulo, nos dias 19 e 20 de Dezembro. No dia 19, sábado à noite, fomos à casa do Flávio, meu irmão, celebrar com ele e com minhas irmãs, mais um aniversário dele (que, como já dito, nasceu no dia 20). A Inês, mulher do Flávio, o Flavinho e o César, filhos dele, este acompanhado da Juliana, sua mulher, e do Gabriel, seu filho e, portanto, neto do Flávio, estavam lá também, bem como a Eliane, minha irmã mais nova, o João, marido dela, e o Vítor, filho dela; a Priscila (com um “l” só), minha outra irmã, já havia estado durante o dia e não foi à noite). No domingo, dia 20, nós — a Patrícia, o Marcelinho, o Matheus, a Paloma, a Bianca, a Priscilla e eu – fomos à Chácara Santa Cecília almoçar (na verdade, um brunch). De lá fomos ao Shopping Villa Lobos, onde compramos os presentinhos de Natal do Marcelinho, da Priscilla e da Bianca.

O terceiro será proporcionado hoje, daqui a pouco, se Deus quiser, com a chegada novamente da Patrícia, do Marcelinho e do Matheus, bem como do Flávio, da Inês, do Flavinho, e da Priscila, minha irmã, para almoçar conosco neste Dia de Natal de 2009.

Como se vê, há constantes.

Há a Paloma, meu amor, minha companheira, minha amiga, minha parceira de trabalho, e o fio condutor responsável pela constância da minha felicidade nos últimos tempos, que não só faz parte de minha felicidade regular e constante do dia-a-dia mas esteve ao meu lado nesses três momentos especiais. Há a Patricia e o Marcelinho de novo do meu lado, agora sem que eu precise estar sozinho para estar com eles – com a companhia sempre alegre e divertida do Matheus. E há o Flávio e o Flavinho, dupla de pai e filho como eu nunca vi igual, irmão e sobrinho do mais alto calibre. Todos nós, sete no total, estivemos juntos em todos esses três momentos especialmente felizes que emolduraram e adornaram a minha felicidade regular e constante nos últimos quarenta dias.

Além disso, o Flávio estava presente também naquele primeiro Natal de que me lembro, nos idos de 1947, sessenta e três anos e pouco atrás, lá em Marialva. Era novinho, novinho, mas estava lá. Dos que estavam juntos naquele Natal só restamos nós dois, ele e eu. (Meu pai morreu em 1991 e minha mãe no ano passado).

Obrigado a vocês todos por estarem aqui comigo, do meu lado, neste Natal de 2009. Obrigado também àqueles que não estiveram comigo fisicamente em todos esses momentos especiais, mas que, eu sei, estiveram comigo em espírito e no coração, como a Eliane, o João, o Vítor, o Diogo, a Priscilla, o Rodrigo, meu filho, o Gabriel, meu neto, a Andrea, minha outra filha, o Rick, marido dela, e a Olivia e a Madeline, filhas deles.

Em “O Canto da Coruja”, em Salto, 25 de Dezembro de 2009 (com pequenos acréscimos e correções em 27 de Dezembro de 2009 e em 9 de Fevereiro de 2011).

Justiça dá (em liminar) presente de Natal aos consumidores em relação ao Kindle

A se confirmar no julgamento do mérito o prenúncio da liminar concedida pela Justiça Federal em São Paulo, o Kindle pode se popularizar no Brasil – principalmente quando a nova versão, maior, começar a ser vendida internacionalmente.

Hoje o Kindle custa, no Brasil, através de importação direta da Amazon, cerca de US$ 545.00 (cerca de 260 pelo equipamento, cerca de 265 de Imposto de Importação — 100% — e cerca de 20 dólares de frete).

O Juiz Federal declarou que o Kindle deve ser considerado livro, em cujo caso está isento de Imposto de Importação – não um equipamento eletrônico (que na realidade é).

Vamos esperar que a decisão se confirme quando do julgamento do mérito e que ninguém conteste a liminar. Para a Amazon, evidentemente, é melhor que não seja cobrado imposto – ela venderá muito mais Kindles dessa forma.

Quem teria interesse em contestar a decisão judicial provisória?

Abaixo, a notícia transcrita a partir da Folha de S. Paulo de hoje.

———-

Folha de S. Paulo
19 de Dezembro de 2009

Kindle deve ter isenção de livro, diz Justiça

Liminar concedida pela Justiça Federal em São Paulo diz que leitor digital não deve pagar imposto de eletrônicos

Brasileiro é o que mais paga tributos para importar aparelho fabricado pela Amazon, ultrapassando a Índia, o segundo lugar

ÁLVARO FAGUNDES
DA REDAÇÃO

Uma decisão da Justiça em São Paulo criou uma discussão sobre como o Kindle, o leitor digital da Amazon, deve ser tributado: como aparelho eletrônico ou como livro.

Uma liminar concedida nesta semana pela Justiça Federal em São Paulo afirma que o Kindle deve ser enquadrado na mesma categoria de livros e jornais, que não pagam impostos, segundo determinação da Constituição Federal.

Na prática, o brasileiro estaria isento dos US$ 266,32 que a Amazon cobra de taxa de importação -mais que o preço do próprio aparelho.

A decisão da juíza Marcelle Ragazoni Carvalho, da 22ª Vara Cível, só vale para o autor da ação, mas o advogado Nelson Lacerda, do Lacerda & Lacerda Advogados, diz que é grande a chance de outras pessoas conseguirem a mesma isenção.

Lacerda afirma que leitores eletrônicos, como o Kindle e o Daily Edition, da Sony, e-books e outros produtos que surgirem com o mesmo propósito devem passar por um processo semelhante ao que ocorreu com enciclopédias e dicionários em formato de CD, que são considerados livros e, portanto, não sofrem cobrança de impostos.

"Eles [aparelhos] só estão modernizando a forma de transmitir a informação e a cultura para o povo, que é garantida pela Constituição. Qualquer aparelho que venha a ajudar nesse processo vai estar caracterizado nessa mesma imunidade", diz o advogado.

"Se outros já têm essa isonomia, esse equipamento, que melhora a utilização, merece gozar a mesma isonomia."

Ele lembra ainda que esses aparelhos têm um papel ambiental importante, já que reduzem a fabricação de papel.

Levantamento feito pela Folha mostra que o brasileiro é o que mais paga impostos para importar o Kindle em uma lista formada por 28 países -os únicos que o site da Amazon permite comparar.

São US$ 266,32 de taxa de importação, valor superior até mesmo ao preço do aparelho, US$ 259. E ainda há mais US$ 20,98 de transporte.

O site da Amazon diz que esse valor é uma estimativa do tributo a ser cobrado e que, se ela exceder o valor real, essa parte será devolvida.

No Brasil, cerca de metade do valor de importação do aparelho estaria sendo devolvida aos consumidores.

Ainda assim, o país supera em muito o segundo colocado, a Índia, onde a taxa de importação é de US$ 98,59.

A lista segue com países nórdicos (Noruega, Suécia e Finlândia), conhecidos pela forte tributação. Em Hong Kong e na Austrália, a taxa não é cobrada. No México, o único país latino-americano em que possível fazer a comparação, a taxa é de US$ 42 -similar à do Reino Unido e à de Luxemburgo.

Como o produto tem o mesmo valor e é distribuído pela própria fabricante para o resto do mundo, a comparação entre diversos países permite uma noção da carga tributária de cada um deles.

O Kindle, na sua versão mais simples, começou a ser comercializado no Brasil e em mais de cem países a partir de outubro -até então o produto só estava disponível para os consumidores dos Estados Unidos.

A Amazon planeja vender no próximo ano uma versão internacional do modelo Kindle DX, mais avançado, que foi lançado nos Estados Unidos no primeiro semestre.

———-

Em São Paulo, 19 de Dezembro de 2009

Fotos digitais

Comprei um novo disco rígido externo, de 2.5”, conexão USB, com 500 GB (0.5 TB) de capacidade, para guardar minhas fotos digitais – pelo menos para tentar guardá-las – todas em um disco só… Já tentei fazer isso no passado, sem muito sucesso. As fotos se multiplicam feito praga…

Mas descobri coisas interessantes…

Minha primeira câmera digital foi uma Sony Mavica, que usava disquete de 3.5” como meio de armazenamento, A resolução máxima da câmera era 640×480 pixels. Cabiam mais ou menos vinte fotos por disquete. Custou-me mil dólares.

As primeiras fotos tirei em 4 de Julho de 1999 – há cerca de dez anos e meio. Tirei nada menos do que 323 disquetes cheios de fotos – mais de seis mil fotos. (Para ser preciso, 6.470 fotos).

As primeiras fotos (tiradas em 4/7/1999, como disse) foram de minha filha mais velha, Andrea, e de meu genro Rick. Eles moram nos Estados Unidos, mas as fotos foram tiradas aqui no Brasil – no Belvedere da Estrada de Campos de Jordão, chegando em Campos, com aquele magnífico vale lá embaixo, onde hoje estão duas escolas Lumiar… O Belvedere e o vale foram extremamente importantes em minha vida nove anos depois. São ainda. Nunca vou me esquecer, nem do Belvedere, nem do magnífico vale ao qual o Belvedere se abre, e onde fica o Lageado – bairro rururbano de Santo Antonio do Pinhal, cidadezinha simpática que fica incrustada na Serra da Mantiqueira.

As últimas fotos foram tiradas quase quatro anos depois, em 22/4/2003, no dia exato do casamento de minha filha mais nova, a Patrícia, com o Rubens – de quem ela se separou no ano passado. Nelas estou com aquela fantasia de pai de noiva, terno, colete, aquele colarinho altinho… e muito, mas muito magro mesmo – fazia um pouco mais de um ano apenas que eu havia sofrido meu enfarte. Com o enfarte eu perdi uns 15 quilos em cerca de dois meses.

Minha primeira foto depois do enfarte foi tirada nos Estados Unidos, na casa da Andrea, no dia 15/05/2002, exatamente dois meses e meio depois do acontecimento (que se deu em 01/03/2002). Eu estou segurando a Olivia, filha mais velha da Andrea, que nasceu no dia 11/03/2002, dia em que saí do hospital. Dois meses depois eu estava nos Estados Unidos para visitá-la.

Tudo isso, e muito mais, foi registrado com a minha velha Mavica – hoje, literalmente, uma peça de museu.

Minha segunda câmera digital foi uma Sony CyberShot P72. Comprei-a no início de Maio de 2003, nos Estados Unidos, por ocasião de uma segunda visita à Olivia, agora já com mais de um ano. A câmera já usava um Memory Stick como meio de armazenamento e tinha uma resolução bem melhor: 3.2 Megapixels. A primeira foto tirada com ela foi, naturalmente, da Olivia, no dia 08/05/2003 (o dia 8/5 era o dia do aniversário de minha avó Angelina, mãe da minha mãe). Ela (a Olivia) está linda, linda, com seus olhos azulíssimos…

Imediatamente depois dessa viagem, que se deu nos primeiros dez dias de Maio de 2003, voltei aos Estados Unidos, para o Global Leaders Forum, em meados do mesmo mês. No dia 17/5 fiz um pequeno discurso, como parte do keynote speech da Vice-Presidente Corporativa da Microsoft, Maggie Wilderotter, que fez o lançamento mundial do Programa "Partners in Learning" ("Parceiros na Aprendizagem", em Português), para cujo International Advisory Board havia sido convidado por Greg Butler. Ao final de minha fala apresentei um vídeo de uns cinco minutos do então Ministro da Educação Cristóvam Buarque.

A última foto tirada com a Sony CybersShot P72 foi tirada no dia 24/03/2004, em San José, Costa Rica, onde eu estava para uma reunião da Caribbean and Central American (CCA) Division da Microsoft, da qual eu era consultor para a implementação do programa "Partners in Learning" ("Allianza por la Educación", em Espanhol). A câmera não durou muito tempo comigo. Começou a dar problemas – e eu a abandonei… Mas essa última foto tem o número 3262. Isso quer dizer que, com a minha primeira e a minha segunda câmera digital, juntas, tirei quase dez mil fotos. (No dia 23/4 ganhei da Microsoft Puerto Rico um tablet computer, marca Compaq. Ainda brinco com ele de vez em quando). Lá, no dia 25/3, fiz um dueto de "Silencio" com minha amiga Yolanda Ramos, então gerente de educação da Microsoft para toda a região. Não conseguimos ultrapassar Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo, mas saiu bem… (Para ver e ouvir Ferrer e Portuondo [vale a pena], vá até o YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=6VzsT5OswHk&feature=related).

Há uma lacuna neste ponto nos meus arquivos. De 24/03/2004 minhas fotos pulam para 06/06/2004, dois meses e meio depois… Não sei se eu não tirei nenhuma foto de 24/03/2004 até 06/06/2004 (hoje parece impossível que não o tenha feito), ou se eu tirei fotos e de alguma forma as perdi em algum dos meus cerca de vinte e cinco discos rígidos externos… De qualquer forma, quando as fotos reaparecem, eu já estou na minha terceira câmera digital…

Desta vez foi uma Canon PowerShot A200, também de 3.2 Megapixels. Ganhei-a da própria Canon, através da University of Virginia, em Charlottesville, VA, um dia antes de eu tirar a primeira foto (06/06/2004). Meu amigo Glen Bull, diretor do Center for Technology & Teacher Education da Universidade, foi quem conseguiu que a Canon doasse uma câmera dessas para cada um dos trinta participantes da Digital Storytelling Workshop. Eu era um deles. Foi uma experiência fabulosa, que produziu o meu filminho "Gabriel e eu" (vide http://contaoutra.net). Participei da workshop como parte de meus deveres de consultor do Programa "Partners in Learning" no Caribe e na América Central.

A primeira foto que tirei com a Canon PowerShot A200 foi do próprio Glen Bull — gente finíssima (sinto fazer tanto tempo que o vi pela última vez). A última foto tirada (antes de eu dar a câmera para o meu neto mais velho, o Gabriel) foi tirada no dia 29/05/2005, um ano e pouco depois. É do Marcelinho, meu neto, com o Rubens, pai dele. Foi tirada no meu sítio, em Salto. O Marcelinho, que nasceu em 06/04/2005, tinha menos de dois meses. É a foto de número de 6.662 com essa câmera.

Com o Canon PowerShot A200 tirei fotos em Campinas (onde morava), Salto (onde tenho o sítio), Jundiaí (onde o Rodrigo, meu filho, morava), Santo André (onde minha mãe morava e meus irmãos ainda moram), Rio das Ostras, João Pessoa, Charlottesville, Monticello (onde morou Thomas Jefferson, um dos meus heróis), Panama City, Mexico City, Caracas, Quito, Lima, Santiago, Valparaíso, Viña del Mar, Tokyo, Taipei, Victoria (BC, Canada, uma das cidades mais lindas que já me foi dado conhecer), Orlando, New Orleans, Phoenix, Seattle, Bellevue, Redmond, Chicago, Cleveland, Cortland (onde a Andrea mora)… Viajei bastante em menos de um ano: de 06/06/2004 a 29/05/2005. Talvez tenha sido o período de doze meses em que mais tenha viajado na vida… Quase não parei no Brasil.

Minha quarta câmera digital foi novamente uma Sony. Desta vez uma Sony CyberShot P200, de 7.2 Megapixels, preta, lindinha. Ainda a temos e usamos hoje. A Paloma é quem a usa mais, desde que eu comprei minha quinta câmera digital, sobre a qual falarei mais adiante…

Comprei a Sony CyberShot P200 nos Estados Unidos. A primeira foto foi tirada em 11/07/2005, e os fotografados foram a Patrícia, minha filha mais nova, segurando o Marcelinho, filho dela e meu neto, então com três meses (nasceu, como já disse, em 06/04/2005).

A última foto tirada com a câmera antes de eu mudar para a nova câmera (a quinta) foi tirada no dia do trigésimo quarto aniversário da Paloma, 15/05/2009. Os fotografados fomos a Paloma e eu. A foto tem o número 31040. A festa foi no Salão de Festas do edifício onde moramos na Chácara Klabin.

Ao todo, portanto, foram 31.040 fotos em um pouco menos de quatro anos, com essa câmera.

A câmera sofreu um acidente quando viajávamos, a Paloma e eu, pela Europa, em Janeiro deste ano. Estávamos em Zürich, a temperatura estava uns sete graus abaixo de zero, e eu estava com luvas de couro. Fui tirar a câmera do bolso do casaco para fotografar uma linda torre de igreja, e a derrubei no calçamento de paralelepípedos. Ela ficou virtualmente desmontada. Com muito cuidado, eu a fui remontando, e não é que a dita cuja voltou a funcionar normalmente? Bem: normalmente, não. No estágio seguinte da viagem, em London, a câmera começou a inserir uma mancha quase no meio das fotos. Fiquei encasquetado. Mas um dia dei um tapa nela e a mancha sumiu. Acho que era uma sujeirinha que havia se acomodado nos mecanismos de "visão" da câmera. Com o tapa, a sujeirinha deve ter mudado de lugar. Do tombo só sobraram uns arranhõezinhos na parte externa.

A minha quinta câmera digital eu comprei nos Estados Unidos (na Grande Washington, DC), dias antes de eu, a Paloma, a Bianca e a Priscilla sairmos em férias nos Estados Unidos, no último mês de Junho. É uma Canon EOS Rebel XSI D-SLR – uma belezinha que sempre cobicei. Comprei-a com uma lente de alcance normal (18-55 mm) e uma telefoto (55-250 mm). Ela tira fotos com até 12 Megapixels. Custou os mesmos mil dólares que a Sony Mavica havia me custado dez anos antes (quase no dia).

A primeira foto com a nova câmera foi tirada no dia 30/06/2009, quase exatamente dez anos depois da primeira foto com a Sony Mavica (que foi tirada em 04/07/1999). O fotografado foi abajur do nosso quarto no Sheraton, em Reston, VA. (Estava testando a câmera…) A última foto, a de número 4.782, foi tirada no dia 21/11/2009, véspera do aniversário da Patrícia, e os fotografados foram a Patrícia, o Marcelinho, o Matheus, a Priscilla e a Raphaella jogando (algum tipo de jogo)no chão da sala no sítio, em Salto. Não sei por que não tirei nenhuma foto com ela no dia seguinte, 22/11/2009, dia do trigésimo quarto aniversário da Patrícia – e um dia em que fiquei muito feliz por ela ter decidido passar comigo e com a Paloma no sítio. O meu irmão, Flávio, e o seu filho, meu sobrinho Flavinho, também estiveram lá. A Bianca e a Priscilla, e sua amiga Raphaella, também estavam no sítio na ocasião.

Resumindo, do dia 04/07/1999 até  o dia 21/11/2009 foram tiradas, com câmeras minhas, 52.216 fotos digitais, assim distribuídas:

06470 – Sony Mavica
03262 – Sony CyberShot P72
06662 – Canon PowerShot A200
31040 – Sony CyberShot P200
04782 – Canon EOS Rebel XSI D-SLR
52216 – Total

Fora essas fotos, foram tiradas inúmeras fotos digitais com telefones (Motorola, Nokia, Samsung, meus e da Paloma). E a Paloma continuou a tirar fotos com a Sony CyberShot P200, que não contabilizei aqui, por se sobreporem, no tempo, à era da Rebel. E provavelmente tenho umas 40.000 fotos (estimativa com base no número de arquivos) copiadas de câmeras de terceiros (especialmente parentes e amigos, mas também de fotógrafos a serviço da Microsoft).

É uma coisa incrível: uma média de cinco mil fotos por ano – bem mais de dez por dia, na média. Com a Rebel, tirei quase cinco mil fotos em cinco meses… Uma média de mil por mês, mais de trinta por dia!!! Por aí.

Onde vamos parar com isso? Depois de tirar tanta foto, sobrará tempo para apreciá-las, para lembrar os bons momentos, para curtir a vida vivida?

Em São Paulo, 17 de Novembro de 2009

Pouca vergonha !!! (Parte 2)

Confesso que, dias atrás, no início do mês, à noitinha, ao ver o vídeo da oração de ação de graças de um deputado brasiliense, evangélico e recebedor de propina, junto de um colega, também deputado, também evangélico e também recebedor de propina, diante do pagador-mor das propinas no Distrito Federal, Secretário do Governo de José Roberto Arruda (DEM), do Distrito Federal, fiquei menos chocado do que quando descobri, dias antes, evidências incontestáveis de que o Corinthians (jogadores, técnico, comissão técnica, etc.) entregou o jogo ao Flamengo em Campinas, na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro, abrindo as portas para o Flamengo ser campeão (e fechando as portas para o tetra-campeonato consecutivo do rival São Paulo Futebol Clube). 

Na verdade, não fiquei chocado com o comportamento e a oração de graças do deputado evangélico, que por sinal é Corregedor da Câmara dos Deputados de Brasília… O outro deputado, que participou da oração, é o Presidente da Câmara – aquele mesmo que foi pego com dinheiro nos bolsos, nas meias e Deus sabe mais onde…

Não fiquei chocado com o comportamento e a oração dos deputados evangélicos. Fiquei apenas triste… Triste porque meu pai foi pastor evangélico (presbiteriano) durante quase cinqüenta anos. De 1941, quando iniciou seu ministério, em Paracatu, MG, até 1991, quando morreu, em Santo André, meu pai foi pastor evangélico – e isso numa época em que ser pastor evangélico era sinônimo de ser uma pessoa eminentemente honrada, honesta e boa  (e que vivia com uma miséria). Na verdade, nessa época ser evangélico, em si, ainda que leigo, era sinônimo de ser pessoa honrada, honesta e boa. Naquele tempo os evangélicos tinham pastores, presbíteros, diáconos, anciãos, mas não apóstolos, bispos e bispas — muito menos bispo casado com bispa, apóstolo casado com bispa… (Será que vamos ter logo uma apóstola? Filho de um apóstolo com uma apóstola já nasce bispo?)

A oração de ação de graças do deputado evangélico recebedor de propina foi feita enquanto ele abraçava o outro deputado, também recebedor de propina, e o propinador-mór, o principal executivo do sistema de propinas do Governador José Roberto Arruda. O nome do propinador-mór, que agora denuncia o sistema em troca de uma pena mais branda, se e quando condenado, é Durval Barbosa, ex-secretário do Governo do Distrito Federal. A oração foi feita pelo deputado distrital de Brasília, Júnior Brunelli (PSC), que, como disse, é Corregedor da Câmara. Leonardo Prudente (DEM), que o acompanhava, é Presidente da Câmara Legislativa – foi ele que escondeu o dinheiro nas meias. Segundo o Correio Braziliense de Brasília, Leonardo Prudente é figura cativa em encontros de igrejas evangélicas, sendo muito ligado ao bispo Robson Rodovalho, deputado federal pelo Democratas e fundador da comunidade evangélica Sara Nossa Terra, cujo templo o presidente da Câmara Legislativa freqüenta em Brasília. Júnior Brunelli (PSC) é, segundo a mesma fonte, filho do fundador da Casa da Bênção e não raro adentra o plenário da Câmara Legislativa com uma Bíblia debaixo do braço.

Eis parte da oração, transcrita do site do Correio Braziliense:

(http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2009/12/01/cidades,i=158106/VIDEOS+TEM+ATE+ORACAO+DA+PROPINA.shtml)

“Pai, eu quero te agradecer por estarmos aqui. Sabemos que nós somos falhos, somos imperfeitos. Somos gratos pela vida do Durval por ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade, porque o Senhor contempla a questão no seu coração. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham armas para nos ajudar nesta guerra. Todas as armas podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas as nossas atividades, mas o Senhor nunca falha. O Senhor tem pessoas para condicionar e levar o coração para onde o Senhor quer. A sentença é o Senhor quem determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer. Nós precisamos de livramento na vida do Durval, dos seus filhos, familiares.”

Pois é…

Houve época – na minha infância – em que a escola pública era boa.

Houve época – também na minha infância – em que ser evangélico era sinônimo de ser pessoa honrada, honesta e boa.

Isso não é mais verdade em nenhum desses casos. E sei disso há bom tempo. Foi por isso que, no caso da oração do deputado com o colega e o principal executivo da quadrilha, ora informante da Polícia Federal, não fiquei chocado.

Eu sei… O que estou dizendo demonstra que, ainda que não seja ingênuo em relação aos evangélicos, sou bastante ingênuo no tocante ao futebol. Ingênuo, por acreditar ainda hoje, como eu acreditava quando era criança, que time de futebol, pelo menos os grandes, honrava a camisa e respeitava os torcedores.

Mas felizmente, não sou ingênuo em tudo. Pelo menos no tocante aos evangélicos, perdi a ingenuidade há um bocado de tempo – e venho perdendo um pouco mais a cada dia, como se fosse possível.

Mas isso me deixa mais triste do que feliz…

Não foi só a voracidade por dinheiro dos evangélicos que me tirou a ingenuidade em relação a eles. É verdade que ajudou. Há o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, instruindo os seus assessores a pressionar os fiéis a dar dinheiro, em vídeo antigo que a TV Globo divulgou há tempo. Há as denúncias atuais contra ele e os principais executivos de sua igreja-empresa. Há a prisão nos Estados Unidos do apóstolo Estêvão e da bispa Sônia, sua mulher, ambos fundadores da Igreja Renascer em Cristo (e mentores espirituais do Kaká, que é membro da igreja deles, em São Paulo, onde se casou), entrando no país com dólares não-declarados na mala. Há o pastor Silas Malafaia prometendo bênçãos materiais e riquezas incalculáveis para quem dá dinheiro para ele. (Vide http://brasilmetodista.ning.com/profiles/blogs/carta-ao-pr-silas-malafaia).

Além dessa voracidade por dinheiro, há uma série de outras coisas horríveis que líderes evangélicos perpetram contra seus seguidores, e que estão bem documentadas no livro Feridos em Nome de Deus, da jornalista evangélica, e membro da Igreja Batista da Água Branca em São Paulo, Marília de Camargo César (Vide http
://www.mundocristao.com.br/produtosdet.asp?cod_produto=10660
).

E há as coisas que os membros comuns (“rank and file”) das igrejas evangélicas perpetram e das quais eu sou testemunha… Coisas absurdas que gente que se considera crente de cepa e que certamente ora todo dia, como o fazem os deputados de Brasília; gente que também anda com a Bíblia debaixo do braço e na ponta da língua; gente que faz jejum, que ministra cursos, que canta no coral; gente que, como o pessoal de Brasília, certamente pede que Deus a ajude em seus maus desígnios – e que dá graças quando acha que Deus a atendeu… Mas que faz barbaridades, no seio de sua própria família, mostrando quão longe a religiosidade se afasta de simples sentimentos de humanidade (para não dizer de fraternidade). 

Não se fazem mais evangélicos como os de antigamente. Sei disso há tempo. Mas mesmo não ficando chocado, não deixo de achar que, como no caso do Corinthians, também aqui se trata de um bocado de pouca vergonha.

Há exceções, também sei. Honrosas. As exceções ficaram chocadas com o que viram no filme dos deputados. Ficam chocadas quando confrontadas com evidências da falta de honradez humana, da desonestidade e da maldade que existem em muitos corações evangélicos. Mas, ao final, se convencem de que o termo evangélico não é mais sinônimo de gente honrada, honesta e boa.

É uma pena. E o pior é que, neste caso, nem é possível orar dizendo “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Eles sabem muito bem o que fazem.

Em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009

Isto É: Eles deram a virada

Ontem publiquei um post aqui sobre recomeços. O título foi “Natal e Ano Novo”.

Curiosamente, hoje fui comer um sanduíche na Padaria Ipanema, na Chácara Klabin, e vi, na Banca de Revistas ao lado, a Revista Isto É desta semana – cuja matéria de capa é exatamente recomeços, viradas…

A matéria complementa, com casos específicos e riquezas de detalhes, a importância dos recomeços, das viradas.

Transcrevo-a aqui para facilitar o acesso – embora o acesso seja livre no site da revista.

———-

http://www.istoe.com.br/reportagens/27870_ELES+DERAM+A+VIRADA?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

Isto É, Edição: 2092, 1.Dez

Eles deram a virada

Histórias inspiradoras de homens e mulheres que tiveram a coragem de mudar o curso de suas vidas, seja na esfera pessoal, seja na profissional. Como e quando dar essa guinada e qual o perfil de quem conseguiu

Carina Rabelo e Francisco Alves Filho

Mudar de vida, realizar um sonho, executar projetos engavetados há tempos, tudo isso parece mais próximo de se tornar real quando um novo ano se aproxima. Nessa época, muitos prometem reinventar o próprio cotidiano, seja no campo pessoal, seja no profissional. “O ano-novo é o arquétipo do recomeço, uma outra chance para a esperança”, diz o teólogo Leonardo Boff. O problema é que várias pessoas não avançam além da promessa. “Muitas vezes, racionalmente reconhecemos que mudar seria o melhor, mas emocionalmente podemos não estar prontos”, afirma a psicóloga carioca Aline Sardinha.

Esse descompasso, entretanto, não consegue barrar a obstinação daqueles que estão decididos a dar uma virada na própria história. Essas pessoas encaram os dissabores e perseguem a felicidade, a qualidade de vida, o ideal. De onde tirar essa coragem? Como vencer a acomodação? Quando se dá o “estalo”? Essas respostas podem representar a diferença entre a realização pessoal e a insatisfação duradoura. Não há receita pronta, mas especialistas em comportamento indicam que idade ou classe social não são determinantes. As circunstâncias é que têm um peso significativo nessa decisão.

Existem viradas para superar momentos difíceis, como a demissão, o divórcio ou a doença, e aquelas opcionais, em que, mesmo estando bem, a pessoa sente necessidade de mudar. Este segundo tipo é o ideal, como identifica o consultor de negócios César Souza, autor do livro “O Momento da Sua Virada” (Ediouro). “Assim, há tempo para traçar o próximo patamar da vida e mais chance de a mudança dar certo”, diz ele. Um dos mais importantes requisitos para o êxito nessa empreitada é o temperamento, já que mudar radicalmente exige uma boa dose de coragem. “Quem tem medo só pensa no que pode dar errado e precisa de alguém que o empurre.

O corajoso sempre vê o futuro melhor do que o presente”, explica a psicóloga Rebeca Fischer, instrutora da Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística. Não é que o medo seja eliminado, já que mesmo aqueles que ousam sentem um “friozinho na barriga” ao dar um passo à frente.

O pulo do gato é manter os demônios sob controle.

O teólogo Boff acredita que todos têm potencial para vencer a inércia e seguir novos rumos. “O ser humano sempre quer a felicidade e o caminho para isso não é fazer emendas, mas buscar um novo começo.” ISTOÉ colheu histórias de pessoas que deram a virada em suas vidas. Elas contam de onde tiraram inspiração para enfrentar os novos desafios e mostram que, nessa hora, um dos melhores truques é acreditar naquele lema que afirma: o melhor está por vir. Feliz 2010!

Outras pistas

 

Virada_boesel.jpg

chamada.jpg

A semente da virada do ex-piloto Raul Boesel, 52 anos, foi plantada ainda na adolescência, em Londres, num memorável show da banda Pink Floyd, na década de 80.

Mas ficou engavetada durante décadas, tempo em que ele construiu uma sólida carreira de piloto. Boesel começou a correr no kart aos 16 anos e ficou no automobilismo até os 48, mas sempre se interessou pela tecnologia na música. “Só nunca imaginei que ela poderia ser a minha profissão.” Desgastado no automobilismo, aos 45 anos, já pensava mais em música do que nos carros. “Foi quando decidi que era hora de mudar.” Aos 49, um ano após deixar a carreira de piloto, se empenhou com toda a energia para se tornar DJ. Contratou um professor e passou a treinar três vezes por semana, quatro horas por dia. Até sentir-se seguro para  primeira performance, acumulou duas mil horas. “No início, havia muito preconceito. As pessoas diziam que seria apenas um hobby, que eu fazia aquilo para me manter na mídia e que eu era muito velho para estrear como DJ.”

Desde 2003, ele frequenta todos os anos os festivais de Ibiza, a meca da música eletrônica. Neste ano, se apresentou pela primeira vez na cidade espanhola. E os novos desafios continuam. “Agora, quero me dedicar à produção musical.” Realizado, diz que não se arrepende da escolha. “O automobilismo ficou para trás. Assisto a todas as corridas e dou apoio aos meus sobrinhos que estão praticando, mas correr não me faz falta.” Boesel diz perceber algumas semelhanças entre o automobilismo e a música. Como o ritmo intenso de viagens, por exemplo. Mas, na lista das vantagens, o trabalho como DJ tem uma recompensa maior.
“Ao contrário das pistas de kart, nas de dança, o contato com o púbico é direto.”

Adeus, mesmice

 

virada01.jpg

O administrador de empresas carioca Luciano Monteiro de Miranda, 34 anos, tinha um ótimo emprego, uma boa condição financeira, um namoro prazeroso, uma filha de 15 anos. Uma vida de novela, tendo como pano de fundo a Cidade Maravilhosa. Mas não estava feliz. Para reverter a situação, fez as malas e se mudou há três semanas para Vancouver, no Canadá, deixando para trás uma bem-sucedida carreira na área de vendas da IBM. Com o visto de imigrante em mãos, ele pretende adotar um estilo de vida totalmente diferente. “Decidi sair do meu País porque senti que precisava olhar para dentro de mim e ir em busca de novas aventuras”, conta Miranda. “Não queria levar aquela vida para sempre”, revela. O administrador, no entanto, reconhece ter sido difícil deixar a filha de 15 anos, a namorada e os pais, que têm mais de 70 anos. “Sempre que penso no quão significativa é essa mudança, bate uma ponta de desespero.

Para evitar isso, procuro não pensar naquilo de que estou abrindo mão. Só assim, terei forças para seguir em frente”, diz. Mas arrependimento não faz parte do seu repertório de emoções. Afinal, ele planejou a mudança durante dois anos e meio. Em Vancouver, não tem pressa de arranjar um emprego. “Quero me estabilizar, achar um apartamento e concluir o curso de inglês”, planeja Miranda, que admite ter ouvido muitas críticas da família e de amigos. “Eles não entendem por que saí de lá, se eu tinha tudo. Mas o fato é que eu não aguentava mais o rame-rame da vida que levava no Rio de Janeiro”, admite. Enquanto aproveita os novos ares, Miranda procura fazer todas as atividades de lazer que não fazia no Brasil, principalmente as ligadas a esportes. “Quando nos sentimos corajosos, temos forças para continuar lutando.”

Ela perdeu 20 quilos

 

Virada-04A_IE-2092.jpg

Virada-04-IE.jpg

Desde pequena, a psicóloga mineira Renata Gonzaga, 31 anos, brigava com a balança. Seu biotipo,de gordinha não era problema na infância, mas tornou-se uma preocupação na adolescência. “Tinha mais dificuldades para conseguir namorados, era motivo de brincadeiras”, recorda. Ela, porém, nunca tomava uma atitude séria para perder peso. “Fazia dieta um tempo, mas o objetivo era sempre ficar em forma para a próxima festa”, diz. Logo voltava a comer descontroladamente. O estalo veio de repente, de frente ao guarda-roupa. “Quando notei que para sair eu tinha apenas uma peça do meu tamanho, vi que era o momento de buscar uma solução definitiva.” A decisão de procurar o grupo Vigilantes do Peso coincidiu com o fim do curso de psicologia.

Em um ano, ela emagreceu mais de 20 quilos graças à reeducação alimentar. “Sou outra pessoa”, diz ela, que há dois anos mantém-se nos 61 quilos. Típico caso de gordinha com baixa autoestima e sinais de depressão, Renata aprendeu a importância da perseverança. “Para emagrecer é preciso mudar nossa cabeça e os nossos hábitos”, prega ela, que agora tem um incentivador a mais para manter o peso: o noivo, com quem vai se casar em breve.

O médico que dá as cartas

 

Virada-06-IE.jpg

Aos 17 anos, o carioca Leonardo Bello, 33, decidiu que queria ser médico, pois “gostava de ajudar as pessoas”. Após seis anos de faculdade, quatro de residência em imunologia pediátrica e dois anos de especialização na Alemanha, começou a questionar a sua escolha. “Ficava até dois dias e meio sem dormir”, lembra. Num desses plantões, conheceu uma pessoa que foi decisiva para sua virada – um médico de 60 anos, muito talentoso, mas pouco reconhecido no meio e com patrimônio modesto. “O grande problema da medicina é que, se você não tem talento para os negócios, vai dar plantão a vida toda. Não queria me matar de trabalhar e não ir além.” Durante a especialização na Alemanha, Bello se distraia com o pôquer online.

De volta ao Brasil, teve a ideia de organizar um torneio entre amigos. O pequeno hobby se tornou um evento para 100 pessoas. Assustado com a magnitude da sua ideia despretensiosa, descobriu um novo traço da sua personalidade: o empreendedorismo.

“O pôquer me abriu várias oportunidades”, diz o médico, que, junto com dois sócios, criou a empresa Nutz, exclusiva para as competições de pôquer. O negócio cresceu, deu retorno financeiro e, em 2006, eles lançaram o torneio nacional. Há um ano e meio, o carioca trocou a medicina pelo jogo em definitivo. “Ganho dez vezes mais do que ganhava quando era médico”, diz Bello, que pretende utilizar parte dos ganhos para construir um centro de apoio às crianças portadoras de HIV. “Como médico, jamais teria dinheiro para concretizar este sonho.”

Largou o marido e abraçou o piano

 

Virada-07-ie-2092.jpg

Beth Ripoli, 57 anos, passou a infância atormentada pelo pai, que insistia para que ela estudasse piano. Obediente, fez aulas dos 6 aos 16 anos. Mas detestava, confessa. Aos 20, ela se casou e deixou Piracicaba (SP), para morar na capital. Livrou-se do instrumento para se tornar uma devotada dona-de-casa. Aos 30 anos, ficou doente – foi diagnosticada com artrite reumatoide. Procurou vários médicos, mas nenhum tratamento funcionava. “Eu não podia esticar a perna, levantar da cadeira e usar salto alto”, lembra. “Até que me aconselharam a praticar piano para exercitar a musculatura das mãos e dos braços.” Beth, então, entrou para a escola do Zimbo Trio. Após dois anos de aulas, foi convidada para tocar na noite. “Mas meu marido disse que não permitiria”, conta. Beth não teve dúvidas: pediu a separação. Sofreu perdas materiais e ficou impedida de ver o filho, então com 13 anos, por um ano. Em compensação, a dor da artrite sumiu. “E me diverti muito trabalhando nos bares nas turnês.” Aos 45 anos, gravou o primeiro CD, com composições próprias. Para completar a guinada, também encontrou um novo companheiro. Está casada há 21 anos com uma pessoa que respeita suas escolhas, gosta de frisar.

O chamado da saúde

 

Pic_Virada02.jpg

Algumas vezes, dar a virada é questão de saúde. Foi o caso do empresário paranaense Marcos Vilas Boas, 40 anos.

Em 2003, ele abriu uma empresa em São Paulo para ampliar seus negócios – uma rede de oito hotéis. “Trabalhava todos os dias, das 8h à 0h. Ao chegar em casa, não conseguia dormir e assistia à televisão durante a madrugada”, lembra Vilas Boas, que visitava a mulher e a filha em Curitiba apenas uma vez por mês. O sono só vinha induzido por remédios. As crises de enxaqueca eram frequentes e, pelo menos uma vez por mês, as dores insuportáveis o levavam ao hospital. Até que a rotina massacrante atingiu o limite das forças físicas. “Um dia, acordei e disse ‘chega!’”, afirma o executivo, que, para completar, fumava um maço de cigarros por dia. “Joguei o cigarro fora, procurei um médico e contratei um preparador físico.” Hoje, é um triatleta que nem lembra quando teve a última crise de enxaqueca. “Quanto mais a gente faz atividade física, mais tem disposição para trabalhar. Hoje, levo menos tempo para fazer as mesmas coisas. Tudo é possível com disciplina.” A televisão? Virou objeto de decoração em casa. “Assistir à tevê é a prova da falta do que fazer. Com este tempo, a gente faz esporte.”

Da farda ao consultório

 

Virada-10_IE-2092.jpg

Pic_Virada04.jpg

Como soldado do Exército, ele integrava a escolta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Nas Forças Armadas desde os 19 anos, fazia parte de um pelotão de investigação criminal que prestava serviços às autoridades que vinham a São Paulo. Tudo caminhava para que o paulista Cleber Soares se consolidasse na carreira militar, até que conheceu a futura esposa, que o influenciou a cursar odontologia para trabalhar com ela numa clínica própria. Como os dois projetos eram incompatíveis, ele largou o Exército aos 27 anos para começar o novo curso. “As Forças Armadas ajudam muito na formação moral do ser humano, mas a rotina cansa”, diz Soares, atualmente com 33 anos. Ele também ficava preocupado com o futuro. “Na vida militar, além do expediente normal de trabalho, que inclui os finais de semana, existem os serviços extras. Queria ter mais tempo, construir uma família e ter mais dinheiro no futuro”, explica. Depois de formado dentista, Soares decidiu dar outra guinada e preferiu se dedicar à clínica que montou com a mulher. “Há poucos profissionais na área que têm perfil empreendedor”, afirma. O casal montou a Sorridents, uma rede de clínicas odontológicas. “Não havia nenhuma certeza de que a mudança que fiz fosse dar certo, mas arrisquei e funcionou”, diz o próspero empresário.

A mulher de diplomata que virou mãe de santo

 

Virada-11_IE-2092.jpg

A atribulada vida de mulher de diplomata trouxe Gisele Binon ao Brasil em 1959. Além dos salões acarpetados, a francesa doutora em letras pela Sorbonne foi visitar um terreiro de candomblé na Baixada Fluminense. Após oito anos viajando pela África, queria ver os rituais brasileiros de inspiração afro. A visita redefiniu a vida de Gisele. Ao som dos atabaques e diante da dança ancestral, ela entrou em transe. “Senti um frio na espinha e fui ao chão”, recorda. Intrigada, por muito tempo viveu um misto de temor e atração. Ao fim, rendeu-se e iniciou-se no candomblé. Nos anos seguintes, voltou para a França, separou-se do marido, deixou seus pais cuidando dos dois filhos e decidiu retornar ao Brasil. Em 1972, abriu um terreiro em Duque de Caxias (RJ), onde vive até hoje, aos 86 anos. “Decidi ser dona da minha vida”, diz. “Não queria mais a rotina triste e sem graça da França.” Não foi uma decisão fácil. Trocar Paris pelo Rio, a carreira de doutora em letras pela de mãe de santo, a rotina sofisticada de embaixadas pelo subúrbio carioca, nada disso foi feito sem medo. “Não há um caminho único. É preciso levar em conta as circunstâncias de cada um”, afirma ela. Com a separação, resolveu fazer o que seu coração mandava. “Não é fácil uma virada assim, principalmente para as mulheres, que ainda se dedicam ao lar, aos filhos e ao marido.”

Duas guinadas para dar certo

 

Virada-12-IE.jpg

Virada-13-IE.jpg

Cansado de sua função de metalúrgico na empresa Cosigua, Rodolfo Lima resolveu realizar o sonho de abrir o próprio negócio em 1989. Pediu demissão, juntou as economias e comprou um bar. “Foi a pior coisa. Desenvolvi alcoolismo, acabei com o negócio e com meu casamento”, recorda. O que poderia ter sido a grande virada terminou em decepção. Certa vez, alcoolizado, torceu o joelho e procurou ajuda na acupuntura. Deu tão certo – curou-se até do vício – que ele decidiu fazer um curso de terapias corporais, que engloba acupuntura, do-in e outras técnicas. Gostou, fez empréstimos bancários e deu uma nova chance ao seu lado empreendedor. “Primeiro, comecei a atender pacientes. Depois, a formar terapeutas”, conta. Hoje, é dono do Centro de Estudos do Corpo e Terapias Holísticas, que forma 80 alunos por ano, tem convênio com 13 empresas e dispõe de uma agenda de 2.500 clientes. Dessa trajetória, ele tirou uma lição importante: “Antes de fazer grandes mudanças, é preciso conhecer o novo terreno”, diz. Na primeira tentativa, a ansiedade de querer ser dono do próprio nariz o fez passar por cima de precauções básicas. Da segunda vez, estudou bastante para ter certeza de que era seu projeto de vida.

“Se tivesse desistido no primeiro fracasso, não teria chegado até aqui.”

Herói, que nada

 

Virada-15-IE.jpg

Virada-14-IE.jpg

A vida de Marcelo Vieira parecia um filme de aventura. Aos 26 anos, o paulista, oficial do Exército desde os 19, se tornou comandante e instrutor do pelotão que integrou as forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti. Suas funções iam desde o treinamento teórico até as instruções dos armamentos militares e explosivos. Naquela mesma época, ele concluiu a faculdade de design. Bateu a indecisão: o jovem não sabia qual rumo dar à sua vida. Foi então que Vieira decidiu utilizar como critério aquilo que realmente o fazia feliz – a possibilidade de desenvolver atividades diversificadas. No Exército, isso não era possível, segundo ele. “Aquela rotina seria a minha vida para sempre”, afirma. O ex-militar, hoje com 28 anos, conta ter ouvido muitas críticas. “As pessoas achavam que eu não deveria abandonar a estabilidade do Exército por um mercado incerto, que oscila com as crises.” Mas, como todas as pessoas que têm coragem para dar a virada, ele não deu ouvidos. “Não tenho nenhum arrependimento em relação à minha escolha. Claro que sinto saudades, mas o que eu queria mesmo era inovar.” Vieira percebeu que as apresentações em power point para grandes empresas eram um nicho de mercado na época.

“O conhecimento da formulação de estratégias militares me ajudou a desenvolver os projetos na área de tecnologia”, diz ele, dono da empresa Meu Estúdio, especializada em apresentações corporativas.

Tudo por um amor suíço

 

Pic_Virada03.jpg

Há dois anos, a catarinense Denise Prado, 46 anos, deixou um casamento de 17 anos e três filhos – uma menina de 17, outra de 15 e um menino de 10. “Estávamos no limite, já dormíamos em quartos separados”, conta. Denise era dona de uma escola de dança de salão em Florianópolis e, em uma das aulas, conheceu Bernardo, um suíço. Os dois engataram um romance, até que ele teve que voltar para casa. Mas o novo casal continuou se comunicando freneticamente pela internet. Ao perceber que Denise estava envolvida com outro homem, o marido sentenciou: “Vá embora com ele, eu cuido das crianças.” A catarinense não sentiu culpa, e sim alívio, mas a decisão não ocorreu sem conflitos. “Fui muito julgada.

A minha sogra ficou indignada. O meu irmão não me perdoa até hoje. O que me deu forças foi a certeza de que, se eu não fosse para a Suíça, me arrependeria para o resto da vida”, afirma.

A filha do meio foi a que mais sofreu. Ela chorava muito, pedia para que eu voltasse. Retornei para ficar um mês com ela.”, lembra. Denise conta que planeja levar os filhos para estudar na Suíça. Quanto às críticas, diz ter a consciência tranquila.

“Se meus filhos tiverem algum problema com isso, que procurem um psicólogo”, sentencia, ao lado de seu suíço.

Conheça outras histórias inspiradoras

Francisco Alves Filho

O empresário que virou mochileiro

Depois de passar décadas dirigindo empresas, ele aproveitou um momento de crise para largar tudo. E hoje passa os dias rodando o mundo e curtindo a natureza.

Mesmo quando passava boa parte de seus dias em intermináveis reuniões de negócios para administrar suas duas empresas, a Companhia Mercantil Itaipava e a Rede Bandeirantes de Postos, além de outros pequenos negócios, o carioca Richardson Valle não deixava de pensar nas questões espirituais e ambientais. Nos raros momentos de folga, viajou para a China, Índia e outros cantos do planeta, onde pôde captar o que chama de energias positivas. “Sempre me interessei pelos mistérios da alma, mas não tinha tempo para me dedicar a eles como gostaria”, diz ele.

A oportunidade surgiu em 2006, quando suas empresas entraram numa grave crise que culminou no fechamento de todo o grupo. Valle enxergou, no meio dos dissabores, uma oportunidade positiva: poderia finalmente mergulhar nos estudos dos temas que mais o interessavam. Ele conta que resistiu às boas propostas para trabalhar como executivo de outras empresas e ter direito a benesses que dão segurança e conforto. “Fui empresário por quase cinco décadas. Percebi que havia chegado a hora de fazer aquilo de que realmente gostava”, diz Valle, hoje com 65 anos.

Depois de certificar-se que os dois filhos do ex-casamento estavam amparados, tornou-se um mochileiro internacional e há três anos viaja o planeta aprimorando o espírito e a relação com o meio ambiente. “Aprendi que os dois assuntos estão intimamente ligados”, diz.

 

DD-6817-1.jpg

Há poucos dias, o ex-empresário chegou de uma viagem pelos Andes peruanos e já está novamente na estrada, dessa vez rumo à Floresta Amazônica. “Não tenho mais um endereço fixo, cada dia posso estar num lugar diferente”, afirma. “Meu carro é o metrô, o ônibus ou meu tênis”. O momento crucial de sua mudança aconteceu no intervalo entre a derrocada de seus negócios e os convites para voltar a trabalhar nas empresas de amigos. Segundo ele, até hoje, as propostas são freqüentes. “Alguns amigos não entendem que estou melhor assim”, diverte-se ele. “Acho que todos devem correr atrás de sua felicidade e é isso que estou fazendo.”

Do Sena para o Leblon

A história do jovem economista francês que largou o trabalho em Paris para ter uma vida mais tranquila perto do mar, no Rio.

Na praia do Leblon, no Rio de Janeiro, ele é conhecido como Mateus. Quem o vê de short e sem camisa batendo papo com os amigos na areia pode imaginar que é um típico carioca. Seu verdadeiro nome, no entanto, é Matthieu Stanic, um jovem de 26 anos nascido em Paris, que há um ano trabalhava de terno e gravata como operador do mercado financeiro numa importante seguradora francesa. “Trabalhei 3 anos lá com um objetivo em mente: juntar dinheiro para viajar ao Brasil e viver perto do mar”, conta ele, que é formado em Economia. Conseguiu o bastante para viajar, mas para se manter aqui tem sido criativo e diversificado. Dá aulas de francês na praia, onde junta o útil ao agradável, já trabalhou como gandula nas redes de vôlei e como ajudante de pescadores. “Sou inquieto e tenho a necessidade de mudar constantemente”, explica. “A única coisa que não muda é meu fascínio pelo mar”.  E pelo Rio de Janeiro.

Por conta dessa inquietude, Matthieu já planeja novas mudanças. “Pode ser que volte a trabalhar na antiga função para juntar dinheiro e comprar um veleiro”, diz o jovem, sem precisar datas. O certo é que ele não hesita um minuto quando acha necessário renovar sua rotina. Mas prefere não dar conselhos. “Eu sou solteiro, sem dependentes. É difícil dizer a alguém que tem família e outras responsabilidades que mude tudo na vida”, pondera. Mas quando fala de si mesmo, diz que em momento algum conseguirá parar e viver um cotidiano que não o satisfaça. E admite que, algumas vezes, isso causa contratempos. “Não é fácil dizer a uma namorada que seu coração está pedindo uma mudança, que precisa viajar, sair por aí. Isso já aconteceu comigo”, conta. “Mas é preciso ser sincero consigo mesmo e com as pessoas que se ama”. Difícil discordar dos argumentos desse franco-carioca.

Do tédio a uma nova experiência

Paulo deixou o trabalho num cartório para fazer um curso de garçom na Espanha. Deu tudo errado. Mas ele está feliz.

Durante 10 anos, o paulista Paulo Rodolfo Simeão trabalhou num cartório, fazendo serviços burocráticos. Desde 2007, mora na Espanha e se diz muito mais feliz do que era quando vivia no Brasil. Por aqui, Paulo teve problemas com o chefe e conta que não suportava mais a sobrecarga de trabalho e a remuneração incompatível com o estresse que enfrentava. No entanto, a decisão pela mudança veio acompanhada de uma grande decepção. Ele fez um teste em São Paulo para trabalhar como garçom na Espanha. Foi selecionado, mas teria de pagar R$ 4 mil para assumir o cargo na cidade de Palma de Maiorca. “Quando cheguei lá, não tinha empresa, não havia nada. Era uma fraude”. Desiludido, ficou desempregado durante um mês e meio, até que soube de uma empresa que contratava pessoas para serviços domiciliares.

“Fui contratado para cuidar de um casal de idosos”, conta. “Ganho menos do que no Brasil, mas sou mais feliz. Não preciso lidar com documentos, burocracia, conviver com juízes e auditores e ficar preso no escritório. Gosto de conviver com o ser humano e lidar com questões emocionais”. Com o casal de idosos – ele tem 75 anos, e ela 72 – Paulo aprendeu a importância de aproveitar a vida, cuidar da alimentação e fazer atividades físicas para viver bem por muitos anos. “Um dia, pretendo voltar ao Brasil e trabalhar com saúde ou estudar medicina.”

———-

Transcrito em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009

Entre Peter Pan e Dom Fulgêncio

Peter Pan, como todos sabemos, era o menino que não queria se tornar adulto.

Quando eu era criança havia um quadrinho na imprensa chamado “Dom Fulgêncio, o homem que não teve infância”.

O normal, eu diria, é ter infância na infância e ser adulto na idade adulta.

Mas isso aparentemente é mais difícil do que parece.

As crianças de hoje estão mais para Dom Fulgêncios do que para Peter Pans. Sua infância termina muito cedo. Neil Postman já nos havia advertido disso no seu interessante livro The End of Childhood (O Fim da Infância). A infância virtualmente acabou.

O artigo de Ruy Castro na Folha de hoje toca muito bem no assunto, a partir do caso particular de Suri, a filha de três anos de Katie Holmes e Tom Cruise – menina que, segundo consta, já usa salto alto, toma vinho e tem cartão de crédito próprio.

 

Suri Cruise

 

Suri Cruise

[As duas fotos retiradas do site da Caras, http://www.caras.com.br/imagens/105591/em/noticias/16861/suri-cruise]

Antigamente, e ainda hoje, as crianças pobres não tinham infância porque tinham de começar a trabalhar muito cedo. As crianças da classe média e alta tinham uma infância prolongada e deliciosa – e parecia que essa infância tendia a se estender cada vez mais.

Hoje em dia, entretanto, as crianças da classe média e alta estão encerrando sua infância muito cedo. Ruy Castro aponta para o desejo natural das crianças de serem como os pais, de parecerem adultas antes do tempo. Isso se dá especialmente com as meninas, que começam a querer andar de salto alto em casa, que colocam as roupas da mãe, que passam batom vermelho nos lábios, que colorem o rosto com blush, que pintam os olhos, que usam um sutiã alheio recheado de roupa ou papel para fazer de conta que têm seios… Essas atitudes, quando se restringem a brincadeiras ou curtições infantis, são inofensivas. O problema é quando deixam de ser apenas brincadeiras ou curtições, como parece ser o caso com Suri e seus pais.

Mas me preocupa mais uma outra dimensão do problema: o desejo dos pais de que os filhos sejam precoces – cada vez mais precoces… Talvez mais do que isso: que sejam gênios ou super-homens / mulheres maravilhas. (A TV e o cinema estão cheios de “crianças prodígio” para servir de exemplo para os filhos de pais que desejam que seus filhos se adultizem cedo). Com essa ambição, os pais pressionam os filhos para que, além da escola regular, façam cursos de Inglês ou Espanhol, ou estudem Informática ou no Kumon, que freqüentem escolinhas que os ensinam a jogar tênis ou futebol, ou academias em que aprendem a lutar judô ou taekwendô, que façam balé ou street dancing, que aprendam a tocar guitarra ou bateria, que participem de cursos de RPG… As pobres crianças têm agendas tão completas quanto as de executivos famosos.

Mas, a o problema é ainda mais sério… Ignorando que crianças são crianças, e devem ser tratadas como tais, e que pais são pais e devem ser respeitados como tais, os pais democratizaram o lar, eliminaram as diferenças, igualizaram os papéis, tentaram se tornar amiguinhos dos filhos, começaram a tratá-los muito cedo (certamente antes do tempo) como se fossem adultos (só que pequeninhos no tamanho), envolvendo-os em discussões familiares sérias ou introduzindo-os a discussões de sexo, pornografia, prostituição, homossexualidade que eles não têm maturidade suficiente para entender e digerir (embora gostem de fazer de conta que sim). Parece, hoje, que os pais não conseguem tomar nenhuma decisão importante – da compra de um carro novo ao local em que devem passar as férias – sem submetê-la a um suposto Conselho de Família em que (como antigamente se fazia com jogos de salão) deixam os pequenos se sentir importantes curvando-se às preferências deles (mesmo quando elas claramente não são razoáveis). E olhem que não estou nem falando do fato de que os pais abdicaram totalmente do direito de decidir que comidas os filhos vão comer, que roupas vão usar, a que programas de televisão vão assistir, que sites da Internet vão visitar, e até mesmo que escolas vão freqüentar…

Na televisão, as crianças assistem a séries em que a característica mais notável dos personagens mirins ou adolescentes é a completa falta de educação uns para com os outros e de respeito para com os mais velhos. Respeito pelos pais é algo desconhecido nesses programas – só vale a voz alta, a linguagem abusiva, as interrupções, as falas ao mesmo tempo, o dedo no nariz, como que dizendo “Não ouse!!!”

O desejo de que os filhos se tornem adultos o mais cedo possível, ou de que se mostrem, o mais cedo possível, os gênios (ou os super-homens e mulheres-maravilhas) que os pais acreditam que são (afinal de contas, são filhos deles!!!), está fazendo das crianças pequenos tiranos, ou até mesmo pequenos monstrinhos. Enfim, seres difíceis de tratar ou até mesmo suportar, que não têm a menor noção do que significa ser uma criança (ou uma pessoa adulta) educada e respeitosa dos direitos dos outros, em especial dos mais velhos e dos que deveriam ter algum tipo de autoridade e ascendência sobre elas.

O comportamento abusivo não se restringe ao lar e ao seio da família. Não é raro que as escolas chamem os pais para que dêem um jeito em filhos que nem chegaram à puberdade ainda mas se comportam na escola como adolescentes e jovens indomáveis, pretendendo saber mais do que os professores em algumas áreas (o que, admitamos, acontece com freqüência, em especial quando se trata de tecnologia), faltando-lhes com o devido respeito, falando-lhes aos gritos, desobedecendo a eles.

Já imaginaram o que vai ser a Suri da Katie Holmes e do Tom Cruise quando tiver dez anos? Deus tenha pena de seus professores e de tantos mais que vão precisar interagir pessoal ou socialmente com ela.

Temos aqui um grande desafio para os que acreditam que a educação começa em casa. O que temos visto é que, ultimamente, em casa começa uma deseducação tal que a escola dificilmente vai ter condições de corrigir. A única esperança é que os professores, que toleram os mesmos comportamentos de seus próprios filhos, se neguem a se comportar em relação a seus alunos como se fossem pais…

Em artigo que publiquem em 1991, há quase vinte anos, sobre o igualatarismo, inseri alguns parágrafos sobre o “igualitarismo na família”…  (Vide uma versão revista em http://chaves.com.br/TEXTSELF/PHILOS/Inveja-new.htm).

“Fenômeno mais complexo ainda é o desaparecimento de diferenças nos papéis de pais e filhos, o igualitarismo levado para dentro da família.  No início de 1981, Neil Postman, em um artigo intitulado "The Day our Children Disappear: Predictions of a Media Ecologist" [Phi Delta Kappan, Janeiro de 1981, pp.382-386 – vide o livro mencionado também], predizia o desaparecimento das crianças (enquanto categoria). A televisão, segundo ele, tende a fazer, de todos, adultos. Não há mais assuntos e problemas próprios de adultos. Tudo que era tabu para crianças foi desmistificado e é apresentado em nossa sala de visitas, em horário nobre e em cores: violência, morte, corrupção, sexo (não só o geralmente tido como normal, mas incluindo promiscuidade, adultério, homossexualismo, sado-masoquismo, incesto, etc.).“

No artigo questionei parcialmente Postman por ver apenas uma tendência, a adultização dos filhos, negligenciando o outro lado da moeda, a infantilização dos pais… Ao mesmo tempo em que os fihos procuram se comportar como adultos, muitas vezes sob a pressão dos pais, estes se infantilizam, se tornam crianças, comportam-se como se o ideal, para os pais, fosse se tornar igual àquilo que os filhos estão deixando de ser, ou se recusando a ser… “Se não vos fizerdes como um desses pequeninos, não entrareis no Reino dos Céus”… Resultado: filhos adultos, pais crianças… Filhos Dom Fulgêncio, pais Peter Pan.

Eis mais um trecho do que eu disse no artigo mencionado:

“… embora corretamente identificando a tendência igualitarista da sociedade atual, [Postman] parece ter errado ao defini-la [apenas] como a ‘maturação’ das crianças: o que está havendo parece mais ser a "infantilização" dos adultos.

O semanário francês L’Express, em edição recente, publica, em artigo de capa, o resultado de uma sondagem, com o título "Tout ce que pensent vos enfants … sans jamais oser vous en parler" [Edição internacional nº 2036, de 20 de julho de 1990, pp.24-31]. Eis uma das principais reclamações dos filhos aos seus pais, expressa nas palavras de dois adolescentes. O primeiro: ‘Vocês se tomam por jovens: vestem-se como nós, falam como nós. Isso é meio ridículo, não é verdade?‘. O segundo: ‘A gente freqüentemente escuta: ‘Fulano se toma por seu pai’. A verdade, em geral, é o inverso: é o pai que brinca de ser filho’. Jovens perceptivos, esses. O artigo termina com um apelo aos pais: ‘Coragem, envelheçam!’ "

Na matéria de L’Express se cita o psicanalista Tony Anatrella comentando a reação dos jovens [op.cit, loc.cit.]:

“. . . A geração dos anos 60 não interiorizou a paternidade e a maternidade. . . . Os pais não desempenham seu papel: são pessoas que cresceram e se fecharam dentro do mito da eterna juventude. A sociedade adulta se tornou incapaz de propor pontos de referência aos jovens. Sem esses pontos de referência os adolescentes têm dificuldades para construir sua própria identidade. . . . Os adultos continuam a viver sua adolescência através de seus filhos – recusam-se a declará-la terminada. Para isso, construíram o mito da igualdade: somos amigos, não pais e filhos. Como é que os jovens podem definir sua identidade nessas condições? Há trinta anos, as imagens do pai e da mãe eram fortes – e contestadas. Hoje, são fluidas. Nos anos 60, os filhos se revoltavam contra os pais. Hoje eles os procuram: Onde estão? Quem são eles? " 

É isso…

O desafio me parece ser o seguinte:

Como pais e professores podem vivenciar, no lar e na escola, uma educação democrática, não diretiva, que conduz à autonomia de seus filhos e alunos,

(a) sem, de um lado, perder, ou o que é pior, se desfazer da autoridade, e sem levar filhos e alunos a perder (até porque eles próprios, pais e professores, não se tornam) os necessários pontos de referência;

e,

(b) sem, de outro lado, se tornar autoritários e ditadores, perder o carinho e a ternura, atitude que faz com que os filhos ou nunca desenvolvam a autonomia ou se tornem rebeldes?

A geração anterior à minha talvez tenha sido culpada de “b”. A minha, e, talvez, ainda mais a que lhe segue, está sendo culpada de “a”,

A seguir, o artigo de Ruy Castro. Desfrutem-no.

———-

A Folha de S. Paulo
14 de Dezembro de 2009

RUY CASTRO
Síndrome de Suri

RIO DE JANEIRO – Temo estar perdendo maravilhas, mas nunca vi um filme com Katie Holmes. Sei que é mulher de um ator chamado Tom Cruise, de quem também só assisti a "De Olhos Bem Fechados", por causa do diretor Stanley Kubrick, e que o casal tem uma filha de 3 anos, Suri, que vive saindo na mídia por usar sapatos de salto alto, tomar vinho tinto e ter seu próprio cartão de crédito.

Holmes e Cruise devem ter suas razões -despreparo, carreirismo ou deslumbramento- para permitir tal precocidade na biografia da filha. Nas reportagens sobre Suri, os ortopedistas alertam para o fato de que saltos altos são incompatíveis com uma estrutura óssea cuja formação, segundo eles, só se completará aos 12 ou 13 anos. Além de serem uma garantia de dores, calos e joanetes para Suri e, na vida adulta, de pernas curtas e dificuldade para caminhar. Esses alertas, pelo visto, caem no vazio.

O problema não se limita a Hollywood ou a filhos de pais famosos. No Brasil, talvez mais que em outros países, há meninas entre 3 e 10 anos com hora marcada no salão para depilar a sobrancelha, aplicar "luzes" no cabelo ou fazer tratamento contra celulite. Toda garota quer se parecer com a mãe, é normal. O problema é quando os fabricantes de cosméticos, sutiãs etc. assumem o controle dessa estética infantil e passam a impô-la às crianças com a conivência das mães.

O humanista americano Neil Postman (1931-2003) alertou para esse problema num grande livro de 1982, "O Desaparecimento da Infância" (há versão brasileira, pela editora Graphia). Todas as previsões de Postman se confirmaram: sem saber, estamos gerando crianças-adultos, que dificilmente chegarão à maturidade.

Sem saber, mesmo -talvez porque nós próprios, filhos da segunda metade do século 20, já sejamos adultos-crianças.

———-

Em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009