A vida (ou um protesto contra os deuses falsificados)

Fazia semanas que não escrevia nada aqui, até que algumas notícias sobre o Vice-Presidente José de Alencar me fizeram quebrar o silêncio.

O silêncio não era só decorrente de falta de inspiração. No último mês, às vezes até tive inspiração. Tenho uns dois posts na seção Drafts/Rascunhos para provar…

O que me aborrece é a encheção de saco depois que eu escrevo algo. Sinto-me como se vivesse no campus de uma universidade americana politicamente correta – PC de A a Z. Qualquer coisa que eu escrevo aborrece ou irrita a alguém, que se julga visado, atingido, provocado, ultrajado. Por isso, concordei em deixar os frutos de minhas inspiração na seção Drafts/Rascunhos, esperando por dias menos hostis…

Não que eu, no passado, tenha dado bola para reclamações e encheções de saco. Não. Nunca dei. O problema é que agora estou envolvido em um processo prolongado e irritante de separação e tudo que eu escrevo pode ser usado contra mim na Justiça… “Eis, Meritíssimo, como o autor (ou réu) é insensível, egoísta, …”.

Confesso: enche o saco. Quando não é a ex, são os filhos, tentando preservar a ex… Quando não é nem a ex nem os filhos, são os ex-colegas da UNICAMP (que Deus se  apiade deles – tenho certeza de que não sabem conjugar o verbo “apiedar-se”, por isso o uso aqui). 

A vida por vezes é complicada… Não queria ter ex-nada. Queria poder escrever quando me vem a inspiração…

Arre!!!

Mas achei algo que me interessa e que, acredito (posso estar errado), não vai ofender ninguém.

Acabei de ler na VEJA de 12 de Agosto (amanhã!), nas fls. 148-151, algo interessante sobre o acaso. É isso mesmo, sobre o acaso, a chance, o aleatório, o não determinado, o imprevisível.

Diz o artigo ali disponibilizado (termo horrível, mas vá lá) que a Apple, fabricante do invencível iPod, teve de fazer um ajuste no seu popular produto. Como todos sabem, o iPod, da mesma forma que qualquer outro tocador de músicas em formato mp3, dá ao usuário a opção de ouvir suas músicas em ordem (?) aleatória. Ordem aleatória, convenhamos, é desordem – é nenhuma ordem. É a seqüência, bem… a seqüência que vier…

Acontece que, quando você ouve suas músicas em (des)ordem aleatória, pode muito bem dar-se o caso de você, não importa quantas músicas tenha no seu aparelhinho, ouvir a mesma música duas vezes quase em seguida – ou até mesmo exatamente em seguida.

Ora, os usuários do iPod protestaram. Se eu ouço a mesma – notem bem: A MESMA – música duas vezes em seguida, ou quase em seguida, essa porcaria não pode estar tocando as músicas aleatoriamente… Afinal de contas, eu tenho quatro mil mp3s nessa porcaria, não é possível que eu ouça, no modo aleatório, a mesma música duas vezes em seguida, – ou quase.

(Confesso que minha tendência seria me referir ao iPod como essa b… – mas dessa vez seria a minha mulher a protestar contra o meu uso de profanidade (vale dizer, palavrão – no caso, palavrinho) – e, convenhamos, as considerações da mulher da gente têm muito peso…)

Enfim… Diante dos protestos, a Apple decidiu mudar o algoritmo, de modo a evitar que, num processo aleatório, a mesma música fosse tocada duas vezes em seguida, ou quase em seguida, antes que todas as outras fossem tocadas…

Como diz o artigo da VEJA: “A Apple … reprogramou os aparelhos [iPods] para evitar repetições”.

Que vergonha, Steve Jobs!!! Se você tivesse sempre sucumbido à pressão popular a gente não teria hoje Macs, iPods, iTouchs, iPhones.

Como você mesmo reconheceu, os iPods e iTouchs agora operam, no modo aleatório, de forma menos aleatória do que deveria ser o caso, apenas para que possam parecer mais aleatórios… Ou seja: você permitiu que seus brinquedos abandonassem a verdadeira aleatoridade apenas para que pudessem parecer (falsamente) mais aleatórios.

Ou seja: você abandonou a realidade pela aparência – e assim, no meu livro, se tornou um fake.

Contra isso, o meu protesto, ainda que solitário. E olhe que eu até gostava de você…

Convenhamos… A vida é muito menos aleatória do que imaginamos. Isso não quer dizer que há mais ordem nas coisas do que nós imaginamos. Quer dizer, isto sim, que há menos desordem (caos) nas coisas do que nós imaginamos.

Azar dos que propõem teorias da complexidade e do caos. A ordem é mais natural do que parece…

Mas a turba não se conforma com isso… Pressiona os deuses terrenos (a saber, os Steve Jobs da vida) para que tornem a vida menos aleatória do que o não terreno a fez… E os deuses terrenos, talvez por vaidade, sucumbem à pressão, e tentam se fazer mais deuses do que o próprio. E assim se mostram apenas deuses falsificados…

Em São Paulo, 11 de Agosto de 2009.

José de Alencar

O Vice-Presidente José Alencar parece que finalmente está chegando ao fim.

Admiro a forma em que o homem, tranqüila e serenamente, vem brigando com a morte nos últimos anos. Sem demonstrar ressentimento, sorrindo, mas sempre olhando a morte nos olhos, como inimiga que é de todos nós que queremos viver, e nunca deixando de fazer o possível e o impossível para ganhar uns dias a mais neste nosso mundinho, que às vezes parece tão indigno de gente tão fina.

Alencar parece ser um homem religioso, que acredita no que ele chama de vontade de Deus. Mas nem por isso a aceita passivamente. Faz alguns anos – e, creio, dezoito operações – que sua morte parece ser a vontade de Deus. Mas ele não nunca acredita que sua hora tenha chegado.

Felizmente, ele tem dinheiro (ganho merecidamente) para empreender a luta pela vida. Outros pobres mortais já teriam, a essas alturas, sido honrados com missas de sete, trinta e 365 dias.

Que a morte, Alencar, quando chegar, não lhe seja doída. E que você possa sucumbir a ela com o mesmo sorriso confiante que exibiu nos embates de que saiu vencedor. Sendo industrial e político, você tem lidado com a morte de forma estóica e socrática.

Em São Paulo, 11 de Agosto de 2009 – 13:30h.

Protestantismo, pobreza e ascensão social

Transcrevo abaixo artigo publicado na Folha de S. Paulo de 12/07/2009 (indicado por cortesia de Wilson Azevedo).

———-

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1207200908.htm

São Paulo, domingo, 12 de julho de 2009

Anticalvinismo brasileiro

Desfrute mundano da riqueza pregado pela "teologia da prosperidade" sintetiza o ideário de todo o país desde os anos 90

DIANA LIMA
Especial para a Folha 

Em 1994, o controle inflacionário e as promessas que a nova moeda fez, a vários setores de uma população brasileira ainda um tanto receosa, suscitaram variadas notícias.

Quinze anos mais tarde, o fenômeno do consumo volta a merecer a atenção da mídia. Endossando o vocabulário classificatório dos institutos de pesquisa de mercado, nos últimos tempos os jornais têm trazido a informação de que emerge no Brasil uma "nova classe média".

Como ler esse fenômeno?

Um olhar mais abrangente para a vida social brasileira permite verificar que, a partir da década de 1990, não é apenas a estratificação econômica que muda no Brasil.

Dados dos Censos Demográficos produzidos pelo IBGE até 2000 mostram que a paisagem religiosa do país também está em transformação: em 1970, havia 91,1% de católicos e 5,8% de evangélicos. A partir de 1980, essa proporção se alterou de forma significativa: nesse ano, havia 89,2% de católicos e 6,6% de evangélicos; em 1991, 83,3% de católicos e 9,0% de evangélicos; em 2000, 73,8% e 15,4%, respectivamente.

No mesmo momento em que se estabelece a chamada "classe C", uma parcela significativa da população converte-se às religiões evangélicas. A coincidência dessas duas dinâmicas sugere o rendimento analítico da clássica premissa weberiana segundo a qual há uma relação entre ética religiosa e ethos econômico.

Vejamos por quê.

Dentro do variado horizonte evangélico-pentecostal, a Igreja Universal do Reino de Deus, professora da teologia da prosperidade, destaca-se em função de sua rápida expansão. A igreja foi fundada no Rio de Janeiro em 1977. Em 1990, reunia 269 mil pessoas; em 2000, o número havia crescido para 2,1 milhões. Estima-se que hoje a Igreja Universal tenha cerca de 8 milhões de fiéis no país.

Essa denominação pentecostal foi, e eventualmente ainda é, alvo de duras críticas por parte da mídia e da população em geral. Os megaeventos de cura contra o Diabo, organizados no espaço público, bem como seus projetos políticos, impressionam diferentes instâncias da sociedade desde o fim dos anos 1980.

Grosso modo, essa igreja é continuamente acusada de utilizar uma linguagem proveniente do mercado e de servir-se da força persuasiva da televisão para manipular uma massa de fiéis não raro aludidos como ingênuos e ignorantes, e vistos como vítimas de uma mensagem teológica vazia.

O que dizem os fiéis?

Contudo, embora a Igreja Universal tenha motivado muitas análises, pouca ênfase tem sido devotada à compreensão de seus fiéis. Para numerosos pesquisadores, normalmente atentos aos templos situados nas grandes avenidas das cidades brasileiras, essas pessoas buscariam ali uma resposta imediata para suas aflições cotidianas e seus anseios de ascensão social.

Mas como explicam sua experiência de fé aqueles que frequentam os templos menores, próximos a seu cotidiano nas franjas da vida urbana? Por que grande parte dos pobres deste país tem procurado especificamente na teologia da prosperidade, sobretudo desde os anos 1990, soluções para os males que os atingem?

Inspirada no "Faith Movement" norte-americano, essa teologia iniciou sua penetração em muitas igrejas brasileiras no fim dos anos 1970. No sistema cosmológico da Igreja Universal, assim como na Igreja Renascer, na Nova Vida e em outras, a plenitude é um valor central. O desfrute mundano da fortuna é coisa sagrada.

Essa teologia prega que, por meio da força performativa das palavras, o fiel pode neutralizar o Demônio, responsável pelos males que se impõem à vida, e ter acesso a tudo de bom que a existência terrena pode oferecer: saúde perfeita, harmonia conjugal e riqueza material.

A relação entre o cristão e Deus é contratual: para receber a graça do Senhor, o cristão deve viver de acordo com a fé, ir regularmente à igreja, entregar com assiduidade o dízimo previsto na Bíblia, fazer as ofertas e "tomar uma atitude". A teologia da prosperidade revê a antinomia entre cristianismo e desfrute mundano da fortuna. Sua mensagem moral liberta os fiéis das exigências ascéticas determinadas pelo calvinismo e pelas denominações pentecostais tradicionais.

Seus crentes estão destinados a viver em harmonia familiar e a serem saudáveis e vitoriosos em todos os empreendimentos terrenos se demonstrarem confiança incondicional em Deus. O fiel dessa teologia entende que Deus deseja uma vida de plenitude a quem trabalha com afinco e vive de acordo com os preceitos da fé.

O bom cristão pode -e deve- determinar seu acesso a tudo de bom que a vida oferece.

Assim, por um lado há uma continuidade entre o protestantismo histórico e a teologia da prosperidade no que se refere ao rigor diante da obediência religiosa e do trabalho.

Por outro, enquanto a ética calvinista da predestinação impunha aos crentes uma atitude ascética, a teologia da prosperidade sacraliza o usufruto imediato das possibilidades aquisitivas conquistadas pelo fiel. Por que, precisamente na década de 1990, parcelas crescentes das camadas populares urbanas deixaram de buscar na religião apenas orientação sobre como sofrer ou como lidar com a impotência em face da agonia familiar?

Por que os pobres brasileiros não mais se sentem satisfeitos e recompensados pela ideia de que Deus todo amoroso lhes atribuiu uma tarefa, como diria Weber, ou, por que, contrariando Pascal, sua aposta na existência de Deus não pode mais prescindir de provas factuais?

Tenho argumentado contra a visão de que, para os pobres, largamente expostos ao desemprego ou ao subemprego, a atratividade da teologia da prosperidade de um modo geral, e da Igreja Universal, em particular, reside na promessa de prosperidade promovida por meio de uma vigorosa estratégia proselitista.

Essa hipótese não explica por que essa teologia professada desde a fundação da igreja em 1977 se torna atraente, a ponto de ampliar seu número de fiéis em 25% a cada ano, justo na década de 1990.

Recuso a associação imediata
entre pobreza e participação religiosa por dois motivos:

1) É mais do que sabido que, embora maciça, a adesão religiosa não é a única via nas camadas populares;

2) Nos casos de conversão, as possibilidades presentes no mundo contemporâneo são diversas entre si. Basta vencer a superfície para se verificar que essa diversidade é interna inclusive ao pentecostalismo, muitas vezes tratado como algo uniforme.

Ressonâncias

Penso que o crescimento da teologia da prosperidade acontece nesse momento porque é quando os símbolos articulados em sua mensagem pastoral -e mesmo a própria mensagem- encontram ressonância no sistema simbólico que atravessa a experiência social brasileira de maneira mais ampla.

No contexto social em que essas igrejas vicejam, a pobreza sempre foi uma fonte de dificuldades. Não obstante, até a década de 1990, os baixos números sobre sua penetração indicam que o conceito de compensação neste mundo (central na teologia da prosperidade) não havia alcançado a mesma legitimidade religiosa e, portanto, o mesmo apelo entre os pobres, que vem a ter então.

Desde os anos 1990, quando a política econômica e social brasileira acata os postulados do capitalismo pós-social, princípios e termos tomados de empréstimo do campo semântico do empreendedorismo neoliberal ganham exposição insistente na mídia audiovisual e impressa, fornecendo sentido a grande parcela das relações no Brasil.

Na segunda metade da década, os meios de comunicação, de maneira hegemônica, passaram a tratar o sucesso econômico e, consequentemente, o acesso ao mundo do consumo como resultado do empenho empreendedor individual. A Igreja Universal prega que a salvação acontecerá no mundo para todo aquele que aceitar a palavra sagrada e se empenhar no trabalho.

Mais do que em outras denominações pentecostais, essa igreja imprime um tom pedagógico a seus cultos à prosperidade. Durante as reuniões, os fiéis pedem a vitória, cantam por ela, pagam o dízimo por ela e aprendem sobre como alcançá-la com o clero, que lê e comenta casos simples de sucesso em marketing quase toda semana.

A pesquisa antropológica não é capaz de verificar se a fatia da população que tem sido considerada a nova classe média é a mesma que está presente nas igrejas professoras da teologia da prosperidade.

Mas a etnografia tem demonstrado que os fiéis dessas igrejas falam com entusiasmo sobre o alcance de uma vida melhor a partir da conversão e que essa vida melhor envolve, entre outros fatores, um acesso alargado a bens de consumo.

DIANA LIMA é professora do departamento de sociologia do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro).

———-

Transcrito em Garden Grove / Anaheim, CA, 13 de Julho de 2009

Michael Jackson

Haverá gente que não gostará do fato de que eu estou escrevendo sobre uma terceira morte em seqüência… E haverá quem critique o fato de que eu fale de Pinotti, Maraschin e Jackson assim, como direi, no mesmo fôlego (in the same breath). Mas vá lá…

Transcrevi no meu Facebook uma frase que me pareceu um justo epitáfio para Michael Jackson, que eu encontrei na primeira página de The Seattle Times de 26 de Junho de 2009:

"Michael Jackson, 1958-2009. Um ícone pop eletrizante, uma alma perturbada. Seu trabalho foi freqüentemente brilhante, desde sua fase de garoto prodígio com The Jackson 5 até o seu reinado como Rei do Pop. Mas sua vida teve um lado escuro. Para as legiões de seus fãs, ele foi o Peter Pan da música pop: o menino que se recusou a crescer. Mas, agora, ele se foi”.

Hoje cedo escrevi no  meu Facebook:

“Ontem [06/07/2009], entre outras coisas, visitamos a Calçada da Fama, em Hollywood Blvd, em frente ao Teatro Chinês, e a estrela do Michael Jackson tinha até policiais para controlar o tráfego, sem falar de uma enormidade de flores e presentes de todo tipo (inúmero CDs e DVDs: fiquei imaginando o que conteriam…). Mais tarde passamos em frente à casa em que ele morava quando morreu, em Beverly Hills. Mais do mesmo…”

Surpreende-me que pessoas se dêem ao trabalho de fazer vigílias ao redor da estrela na Calçada da Fama ou em frente à casa de alguém que morreu – e que, provavelmente, elas nunca encontraram em pessoa.

Surpreende-me ainda mais que deixem flores ali – tantas que fiquem amontoadas, mesmo com a ajuda de voluntários que tentam arranjá-las.

Surpreende-me ainda mais que deixem presentes ali: coisas como ursinhos de pelúcia, isto é, presentes destinados a crianças, talvez sugerindo com eles, na linha do que disse The Seattle Times, que ele tentou ser uma eterna criança…

Mas surpreende-me ainda mais de tudo que deixem, fotos, papeizinhos escritos a mão, CDs e DVDs. O que será que disseram para ele? As palavras, seriam elas de apoio, consolo, encorajamento – ou seriam pedidos? Estaria Michael Jackson, como Elvis Presley antes dele, virando uma espécie de santo pop?

Acho fascinante a necessidade de heróis dos seres humanos. Só lastimo que, no plano pessoal, o herói Michael Jackson tenha legado aos seus jovens fãs tão pouco para ser emulado. Espero que emulem apenas sua competência artística.

Em Garden Grove / Anaheim, 7 de Julho de 2009

Jaci Maraschin, amigo por tabela

Jaci Maraschin se foi… No mesmo dia em que também o Pinotti morreu – ou um dia antes. Não conheci o Jaci pessoalmente: só conheci o trabalho dele e os reflexos da pessoa dele em pessoas como o Rubem Alves e o Aharon Sapsezian. Meu sobrinho, Vítor Chaves, já teólogo e futuro professor de teologia, também gostava dele.

Recebi hoje, do Takashi Shimizu, nosso amigo, uma carta que o Aharon escreveu para o Jaci, após a morte deste. Uma peça linda, como só o Aharon sabe escrever. Não pedi ao Aharon autorização para colocar a carta aqui – mas tenho certeza de que ele, quando a encontrar aqui, dará sua autorização ex post facto. Obrigado, Aharon, por uma carta tocante.

—————

Jaci querido. Você sabia que, pela idade e pela condição de saúde, eu estava na frente, Mas você furou a fila, me passou a perna e entrou primeiro pelos umbrais do além. Me senti só e chorei. Você era mais que um colega, mais que um amigo do peito, mais que companheiro festivo de caminhada. Você compartilhava com a Lelê um pedaço enorme do coração meu e da Zabel. Como sentimos sua ausência na festa que fizemos no Clube Armênio para comemorar nossas bodas de ouro! Só depois soubemos que você tinha sido hospitalizado naquele mesmo dia. Queria tanto prosear com você, sobre qualquer coisa, menos sobre teologia, porque ambos já estávamos fartos disso. Prosear só para prosear. Prosa gratuita, sobre tudo e sobre nada. Só pelo prazer de estar juntos, pela gostosura de existirmos, pela beleza da beleza.. Você me escreveu dizendo que tinha lido as minhas memórias, e que gostara, e que se animara a escrever as suas também. Na idade em que estávamos, eu dois passos à frente, vivíamos mais de memórias que de projetos. Olhando pelo retrovisor, acho que nós dois vivemos a vida como ela se apresentou a nós, como dom, como graça, como mistério luminoso, vida só para ser vivida ao sabor do vento que sopra onde quer. Aceitando o mal e o bem de cada dia, viessem como viessem. O curioso é que o fizemos cantando com Frank Sinatra "I did it my way". Será que o seu Tillich, ou o meu Niebuhr, entenderiam isso? Duvido. Mas deixemo-los em paz. Éramos mais que adultos e já tinhamos aprendido que a vida não era para ser interpretada com malabarismo intelectual, muito menos teológico, mas para ser vivida, na sua espontaneidade, na sua simplicidade, no seu encanto inefável, com intensidade e paixão. E passamos a saboreá-la avidamente como uma suculenta manga madura. Não éramos tolos. Sabíamos que o fim nos espreitava, de tocaia. Não nos metia medo, mas fazía-nos pensar que um dia a cortina cairia e a festa terminaria. Só que você não respeitou a ordem estabelecida. Transgressor inveterado que você era de toda e qualquer convenção, você me deixou pra tráz e partiu antes do que eu. E deixou um enorme vazio. Não há de ser nada. Não tardo, e vou alcançá-lo. Até logo, meu bom Jaci.   

Aharon Sapsezian
Commugny, Suíça

—————

Em Garden Grove / Anaheim, 7 de Julho de 2009

José Aristodemo Pinotti, colega e amigo

Faleceu ontem (1/7/2009) em São Paulo o Deputado Federal (Democratas) José Aristodemo Pinotti. Ele tinha 74 anos (faria 75 no dia 20/12 deste ano), e era médico ginecologista, professor aposentado da UNICAMP e da USP, ex-Reitor da UNICAMP, ex-Secretário da Educação do Estado de São Paulo, ex-Secretário da Saúde do Estado de São Paulo, ex-Secretário Municipal da Educação da Cidade de São Paulo, ex-Secretário do Ensino Superior do Estado de São Paulo. Orgulhava-se também de ser poeta e membro da Academia Campinense de Letras.

Tive o privilégio de trabalhar com ele quando ele foi Reitor da UNICAMP (fui Pro-Reitor para Assuntos Administrativos) e todas as vezes (menos uma) em que foi Secretário de alguma coisa. (Não pude trabalhar com ele, embora tenha sido convidado, quando foi Secretário Municipal da Educação da Cidade de São Paulo, porque estava com muitos compromissos com o Instituto Ayrton Senna e a Microsoft).

Fomos colegas na UNICAMP durante vários anos. Em 1981 concorremos à Reitoria da UNICAMP, com mais onze colegas, na primeira experiência de escolha democrática de Reitor de uma universidade brasileira. Não deu certo. Na consulta à comunidade fiquei bem na frente dele. Mas ele tinha mais força política. O governo do Estado (Maluf) interveio, me demitiu (e a sete outros candidatos), e a consulta à comunidade não valeu para nada. O Conselho Universitário elaborou uma lista sêxtupla numa reunião sinistra e colocou o Pinotti na cabeça da lista. No dia seguinte saía a publicação no Diário Oficial do Estado nomeando-o Reitor.

Por causa da intervenção do governo do Estado, entrei na Justiça e ganhei liminar dois meses antes da reunião do Conselho Universitário – o que me permitiu participar dela. Depois de nomeado Reitor, mas antes da posse, o Pinotti me convidou para uma conversa em sua casa e ali acertamos a solução da crise. Eu ainda tinha mandato de Diretor da Faculdade de Educação por dois anos, e queria terminá-lo (agora era questão de honra), mas ele me convidou para participar da gestão dele – se não quisesse de imediato, assim que eu terminasse o mandato frente à Faculdade de Educação. Escolhi esta alternativa e me tornei Pro-Reitor (na época ainda sem a devida institucionalização) para Assuntos Administrativos. O caso dos demais diretores demitidos também foi resolvido a contento de todos.

Éramos inimigos políticos dentro da universidade, tornamo-nos amigos ao longo desse dolorido processo de cicatrização de feridas. Aprendi muito com ele – especialmente a arte política de formar alianças até com desafetos, diante da necessidade de realizar um trabalho importante. O Pinotti tinha muitos desafetos na UNICAMP antes de assumir como Reitor. Ao final do mandato, era uma unanimidade: não havia oposição (exceto uma minoria radical que é sempre contra tudo, até o que é bom – e, muitas vezes, especialmente contra o que é bom). A última vez que trabalhamos juntos foi na Secretaria de Ensino Superior do Estado de São Paulo – ele como Secretário, eu como Secretário Adjunto. Foi uma experiência frustrada e frustrante – no segundo caso, por causa do tanto que precisa ser feito em relação ao Ensino Superior público do estado…

Na Secretaria da Educação do Estado fui seu assessor e dirigi o Centros de Informações Educacionais (CIE). Na Secretaria da Saúde do Estado fui seu assessor, seu ghost writer, e dirigi o Centro de Informações da Saúde (CIS).

Perdi um importante colega e amigo – o Brasil perde um bom deputado, um grande médico, um excelente homem público.

Em Washington, DC, 2 de Julho de 2009

A av Paulista e a região ao redor

É incrível como momentos importantes de nossa vida se associam a locais específicos… e, como, em alguns casos, esses momentos parecem se consolidar ao redor de alguns lugares específicos…

A av Paulista e a região ao seu redor são meus lugares favoritos em São Paulo. Certamente não são os locais mais bonitos e pitorescos. Mas são os locais que marcaram momentos importantes de minha vida.

De 1987 a 1990 trabalhei na Secretaria da Saúde, na av Dr Arnaldo. Eu ia, virtualmente todo dia, ao Conjunto Nacional e cercanias. Visitava quase diariamente a Livraria Cultura, comia nas redondezas. Poucas vezes ia para o outro lado (invariavelmente para almoçar no La Buca Romana, na Rua Cardeal Arcoverde, por exemplo).

Dezessete anos depois do término de meu trabalho na Secretaria da Saúde, voltei para a região da Paulista…

Em Junho de 2007 tornei-me presidente do Instituto Lumiar, cuja sede era na Rua Bela Cintra 561 – pertinho da Paulista. A partir de 2008 passei a ir ao Instituto Lumiar toda semana, em geral na segunda e na terça, ficando hospedado, em regra, no Hotel Ibis, no finzinho da Avenida Paulista, quase esquina com a Bela Cintra.

Quanto estava no Instituto Lumiar, muitas vezes ia almoçar no San Siro Ristorante, num flat da Bela Cintra, perto do Instituto Lumiar. O bufê era excelente e não saía muito caro (cerca de 40 reais para duas pessoas). Outras vezes almocei no Restaurante Tordesilhas, também na Bela Cintra – um pouco mais sofisticado e bem mais caro. Outras vezes almocei no restaurante do Caesar Business, na Paulista, onde a comida era muito boa, ou no Viena Delicatessen, no Conjunto Nacional. Um dia almocei no La Buca Romana, no Shopping Top Center. Uma vez comi no Starbuck’s Coffee no Shopping Center 3, em frente do Conjunto Nacional. Muitas vezes almocei (especialmente sopas) na Padaria Bella Paulista, na Haddock Lobo, a uma quadra da Paulista.

Mas os lugares favoritos, fora os restaurantes, eram a Livraria Cultura (que tem um coffee shop), a Fnac, e a Kalunga – todas na Paulista.

De vez em quando a necessidade me obrigava a ir a agências do Itaú e do Santander, ali perto do Conjunto Nacional, para resolver alguns problemas que exigiam a presença física no banco.

Agora, moro não muito longe da Paulista. Do meu apartamento até o começo da Paulista, no Paraíso, levo cerca de cinco minutos de carro, se o trânsito estiver bom – ou uns dez minutos de metrô, na linha Verde. Tenho visitado bastante o Shopping Pátio Paulista, no início da Paulista. O shopping foi renovado, está com uma fachada linda e, dentro, está cada vez melhor (com destaque para uma linda Livraria Saraiva).

Enfim, a Paulista – a própria avenida e a região que a cerca – passou a ocupar, do ano passado para este, um papel importante em minha vida… Que continue a fazê-lo. E que eu continue a não ir sozinho a todos esses locais.

Em São Paulo, 21 de Junho de 2009 (início do Inverno no Hemisfério Sul)

Orações infantis

[Encontrei o material abaixo que foi retirado, pelo que consta, de uma revistinha Coquetel, de Palavras Cruzadas]

Uma revista italiana ouviu o que as criancas pedem a Jesus quando oram. Confira aqui.

“Querido Jesus: Em vez de você fazer as pessoas morrerem e aí criar novas pessoas, por que não fica com as que já tem?”

“Querido Jesus: A girafa você queria assim mesmo ou foi um acidente?”

“Querido Jesus: Todos os meus colegas da escola escrevem para Papai Noel, mas eu não confio nele: prefiro você”.

“Querido Jesus: Obrigado pelo irmãozinho, mas eu queria mesmo era um cachorrinho”.

“Querido Jesus: “Por que você não inventou nenhum animal novo ultimamente? A gente tem de ver sempre os mesmos”.

“Querido Jesus: Mande-me um cachorrinho. Eu nunca pedi nada antes, pode conferir”.

“Querido Jesus:  Talvez Cain e Abel não se matassem tanto se cada um tivesse um quarto só deles. Quando meu irmão ganhou seu próprio quarto nós quase paramos de brigar”.

“Querido Jesus, no Carnaval eu estou pretendendo me fantasiar de diabo. Você tem alguma coisa contra?”

“Querido Jesus, Você é invisível mesmo ou é só um truque?”

“Querido Jesus: Nós estudamos na escola que foi Thomas Edison que inventou a luz, mas a Bíblia diz que foi você. Para mim ele roubou a sua idéia.”

Transcrito em Ubatuba, em 13 de Junho de 2009

Professor da USP critica os alunos radicais

Tomo a liberdade de transcrever dois artigos do professor da USP João Vergílio acerca dos vandalismos ocorridos naquela universidade. Os artigos são de uma lucidez difícil de encontrar em nossos professores universitários.

O primeiro é o Comentário # 670373, feito em 5 de Junho de 2009, às 15h42, no Blog do Luís Nassif.

Eis o Comentário:

———-

Sou professor da Universidade de São Paulo. Darei a minha opinião, que certamente não é a opinião de muitos colegas, principalmente daqueles ligados à Adusp. Está longe, porém, de ser uma opinião isolada. Uma parcela expressiva dos professores pensa mais ou menos como eu, embora não saia pelas ruas proclamando isso em cima de carros de som.

A polícia foi chamada à Universidade basicamente para garantir o direito daqueles funcionários que queriam trabalhar e eram impedidos de fazê-lo pelos piquetes. A opinião das pessoas quanto à presença da polícia irá variar conforme a avaliação que se fizer desses piquetes. Na minha opinião, constituem uma violência inaceitável, completamente incompatível com o convívio dentro de uma instituição que deveria se pautar pela força dos argumentos, e não dos braços. Aí, previsivelmente, há um contra-argumento construído mais ou menos sobre os mesmos princípios. A presença da polícia na universidade seria inaceitável, pois essa não seria a melhor maneira de resolver nossos conflitos. Na minha opinião, um argumento tosco. Se não é a melhor maneira de resolver nossos conflitos, por que então recorrem a ela em primeiro lugar? Mais ainda. A violência policial, quando ocorre, é institucionalizada, é legal, e está (ou deve estar) submetida a limitações claras. A violência dos piquetes corre à margem das instituições. Sobrevive graças à complacência das pessoas, e do medo de que, ao enfrentá-la, o outro lado fique ainda mais fortalecido, reduzido ao papel de vítima.

Piquetes são inaceitáveis em qualquer ambiente. Na universidade, são o fim da picada. Os professores ligados à Adusp dizem que são contra, mas na prática se recusam a apoiar qualquer atitude institucional que vise combatê-los. Claro. Estão do lado de lá. Se fossem vítimas, não teriam a menor dúvida a respeito de seu caráter violento, e desejariam receber algum tipo de apoio das instituições na hora de enfrentá-los. A reitoria chamou a polícia. Queriam que chamassem quem? Um pai-de-santo? Que reação deveriam ter as pessoas que querem trabalhar, e estavam sendo impedidas por um piquete de alunos ou de funcionários, sob o olhar sorridente dos colegas em greve? Juntar uma turminha e partir para o pau? Ou o que se quer é simplesmente que um dos lados seja sempre obrigado pelas artes e manhas desse jogo-da-velha argumentativo a pôr o rabinho entre as pernas e voltar para casa resmungando?

Nâo estou em greve e, a menos que algo muito, mas muito grave mesmo aconteça algum dia na universidade não entrarei em greve jamais. Greve de funcionários públicos é, na minha opinião, um expediente imoral. Nâo há patrão do outro lado. Há somente uma reitora, em contato permanente com um secretário da educação, que por sua vez está em contato com um governador preocupado com seus índices de popularidade. O que faz a greve? Produz manchetes de jornais incômodas, à custa da interrupção do fornecimento de um serviço público pelo qual todos pagam. A população é instrumentalizada para pressionar o poder público a atender a uma reivindicação setorial. É certo fazer isso? É certo usar pessoas que nada têm a ver com suas reivindicações para conseguir um pequeno aumento no final do mês? Se você acha certo, respeito sua opinião. Vá, e faça greve, ou apoie a greve dos que a estão fazendo. Garanto que ninguém irá fazer “piquetes” para impedi-los de entrar em suas assembléias. O contrário infelizmente não é verdade. Não sei se a reitora teve uma atitude taticamente sensata ao chamar a polícia. Do ponto de vista institucional, fez exatamente aquilo que deveria ser feito. Garantiu que meu direito não fosse violado, e só posso apladi-la por isso.

Vamos acabar com essa lorota de que há “insensatez de ambas as partes”. Uma ova. Há uma esquerda antiga, reacionária, violenta, autoritária e tosca PROVOCANDO uma situação de violência, e que depois vem com carinha de SANTA reclamar que a reitora chamou a polícia. Podem me confundir com a direito igualmente tosca que fica vociferando nos programas matutinos que bandido bom é bandido morto, e que a polícia tem mais é que baixar o sarrafo, mesmo. Aqui, neste espaço, infelizmente não poderão fazer isso. Nâo cheguei ontem, e todos que acompanham o blog sabem perfeitamente bem que em mim essa pecha não cola. Se nós, da esquerda, não fizermos a autocrítica impiedosa de nossos erros, quem irá fazer? A turminha da revista Veja? Eles que fiquem jogando par ou ímpar com a turminha da Adusp por toda a eternidade. Quem gosta de empate é o Zagalo. Quem gosta de pêndulos incuráveis é autista. Deus me livre e guarde desses dois lados da mesma moeda de mil-réis que já não tem corrência nem valor! Eu quero o futuro.

———-

Eis agora o artigo, publicado em 11 de Junho de 2009, em:
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/06/11/usp-greves-e-piquetes

———-

USP, greves e piquetes

Por João Vergílio

Agora que o pior já passou, é hora de nos sentarmos todos – professores, alunos e funcionários da Universidade de São Paulo – para fazermos uma reflexão a respeito dos gravíssimos incidentes ocorridos no campus durante a semana. O lugar por excelência da palavra foi invadido pela força bruta. Há algo de profundamente errado nisso tudo, e precisamos deixar de lado por um momento as paixões políticas e os partidarismos para buscarmos um solo comum onde todos possam se reconhecer.

Sei que é facílimo, num momento como este, refugiar-se na crítica à reitora. Sua situação não poderia ser mais frágil. Comprou briga com a "direita" quando não chamou a polícia, e agora comprou briga com a "esquerda", ao chamá-la. Foi inábil? Talvez tenha sido, não sei. Um juízo depende, neste caso, do acompanhamento miúdo das negociações, e da consideração cuidadosa das opções disponíveis. Evitarei, por isso, este discurso fácil.

Na raiz de todos esses problemas que enfrentamos, não está uma reitora, mas o uso de certos instrumentos políticos que me parecem completamente incompatíveis com os ideais de universidade que, agora, todos parecem dispostos a invocar quando fazem a condenação das ações da polícia. Eu me refiro aos piquetes e às invasões de prédios públicos. Alunos e funcionários usam e abusam desses dois instrumentos de luta ano após ano, sob os olhares complacentes (quando não coniventes) de muitos professores. Chegou a hora de dizermos com toda a clareza que tais métodos são violentos e, nessa medida, absolutamente incompatíveis com a vida acadêmica – tão incompatíveis, ou mais, do que a presença da polícia dentro do campus.

A dificuldade de mobilizar a comunidade acadêmica para empunhar suas bandeiras leva lideranças radicais e insensatas a lançar mão desses instrumentos. As greves na USP são, em grande medida, dependentes dos piquetes e das invasões. Os piquetes garantem o esvaziamento das salas de aula e das repartições, enquanto as invasões dão à imprensa a dose de escândalo necessária às manchetes e às fotos de primeira página. O primeiro grande problema é que, ao fazer isso, os grevistas colocam-se fora dos marcos institucionais. Sou perfeitamente capaz de aceitar quebras da legalidade em situações extremas, que a justifiquem. Mas, exatamente para poder argumentar com alguma razão nesses casos extremos, não posso admitir a banalização da ilegalidade.

Piquetes são proibidos por lei. Invasões de prédios públicos também. Em ambos os casos, a lei faculta, sim, o recurso à força policial. Foi o que fez a reitora. Se foi prudente, ou não, é outra história. O fato é que alunos, professores e funcionários que insistem em recorrer a expedientes ilegais não têm nenhuma razão para reclamar quando a universidade dá a eles a resposta institucional prevista nas leis do país.

Mas não gostaria de falar aqui apenas na força da lei. Há um segundo grande problema que devemos enfrentar. O recurso aos piquetes e às invasões de prédios públicos fere também os marcos mais elementares da convivência acadêmica. Se um aluno, um funcionário ou um professor não quer entrar em greve, ele tem todo o direito de fazê-lo, e esse direito deve ser assegurado.

Assembléias são instrumentos legítimos de decisão, mas devem inserir-se numa sociabilidade previamente dada. Devem satisfações a uma ordem que elas não podem pretender refundar. Como é possível invocar ideais de convivência acadêmica para condenar a violência policial, quando esses ideais foram solenemente ignorados durante todo o processo que antecedeu a chegada da polícia?

Greves são instrumentos normais de pressão. Ninguém deve ser perseguido ou estigmatizado pelo fato de estar defendendo ou simplesmente aderindo a um movimento grevista. Greves são normais.

Piquetes não são normais, nem aceitáveis. Piquetes são intervenções físicas, violentas, que visam a impedir o exercício de um direito garantido pelas leis e sancionado pelas regras mínimas da civilidade. Se os grevistas querem adensar o movimento, devem argumentar, e não interpor corpos ou barricadas à entrada daqueles que, por quaisquer motivos, discordam deles.

Quem invade um espaço público, por outro lado, demonstra o mais completo desapreço por aquilo que deveria pautar as ações de pessoas que lutam por uma presença forte e decisiva do Estado no interior do sistema capitalista, corrigindo-lhe as distorções – o sentido do bem comunitário, que não é meu, nem seu, e do qual eu não posso dispor a meu bel prazer. Temos que renunciar firmemente a isso dentro da universidade. A comunidade acadêmica não age com os braços, nem com as botinas. Age com a palavra. As portas da reitoria arrebentadas a socos e chutes são um monumento à violência, são o oposto do diálogo, e nos expõem ao ridículo diante de toda a sociedade que paga os nossos salários.

A violência dentro da universidade tem que ser contida, meu caro Nassif. A qualquer custo. Está se criando o palco para enfrentamentos muitíssimo mais graves do que esses que as televisões mostraram, com seu habitual gosto pelo escândalo irrefletido. Não me refiro a uma volta da polícia, embora esta não esteja descartada. Estou me referindo a enfrentamentos entre estudantes. Rogo a meus colegas que examinem o material disponível na Internet. Há uma revolta imensa crescendo dentro de outras unidades da USP contra esses métodos toscos de "fabricar greves" a qualquer custo. Como podemos articular um discurso minimamente crível contra a violência, se nós mesmos a coonestamos? Quando caminhões de som do sindicato dos funcionários vão à Poli inviabilizar no berro as aulas nas unidades, o que podemos esperar como resposta? E, acima de tudo, que tipo de resposta estaremos em condições de dar, quando for preciso?

Temos que iniciar um grande movimento na universidade pelo fim dos métodos violentos de luta. Quem quiser participar de nossa comunidade tem que aceitar as regras do convívio democrático. Piquetes são ações violentas, e nenhuma assembléia de alunos, professores ou funcionários possui legitimidade para autorizar a sua prática.

Invasões são ações criminosas. Quem as pratica merece ser processado nos termos da lei, e não tem condições de se inserir na vida universitária. É só rejeitando a violência que temos praticado de forma tão habitual e tranqüila que expulsaremos a polícia do campus. Se não queremos a violência policial, devemos cuidar de não sermos, nós mesmos, violentos. De uma comunidade que deseja ser reconhecida pelo primado da racionalidade, o mínimo que se pode esperar, afinal de contas, é um pouco de coerência.

———-

Transcritos em Ubatuba, 13 de Junho de 2009

Dalmo Dallari condena os estudantes radicais da USP

Até Dalmo de Abreu Dallari, ícone da esquerda da USP, condena os estudantes da USP que depredaram a Reitoria e fazem piquetes violentos – e defende a presença da Polícia Militar no campus.

Admiro muito o Dalmo. Em 1981, quando fui arbitrariamente exonerado do cargo de Diretor da Faculdade de Educação da UNICAMP, ele me ajudou no processo que abri contra a UNICAMP – e ganhei. Depois conheci um filho dele, o Bruno, que trabalhou comigo na People Computação, enquanto fazia doutorado em Lingüística na UNICAMP. Mais recentemente fiquei conhecendo a filha dele que está casada com o Eduardo Suplicy.

Eis a entrevista do Dalmo, retirada de: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1206200911.htm 

A posição dele é sensata e correta.

———-

Para o professor Dalmo Dallari, é um radicalismo fora de moda

Professor emérito da Faculdade de Direito da USP, Dalmo de Abreu Dallari, 77, é nome sempre associado às causas de esquerda na universidade

LAURA CAPRIGLIONE

DA REPORTAGEM LOCAL

Em 1981, foi candidato a reitor em nome da Associação dos Docentes da USP, da Associação dos Servidores e do Diretório Central dos Estudantes. Ganhou no voto direto, perdeu quando a eleição passou pelas instâncias formais da universidade. Hoje, está divorciado das entidades que o apoiaram.

Critica a "violência" dos protestos de agora, apoia a entrada da PM no campus e a reitora.

FOLHA – O que deu errado na terça?

DALMO DALLARI – Há um conjunto de erros. Em primeiro lugar, a maneira como estão sendo postas as reivindicações. Há um excesso de temas -tem a reivindicação salarial, a questão do ensino a distância, a readmissão de um funcionário demitido. São coisas completamente diferentes e cuja decisão depende de órgãos diferentes.

É preciso reduzir essa pauta a um temário coerente. Além disso, não posso admitir a prática de violência física contra a universidade, um patrimônio público. Fiquei indignado quando vi as fotografias de funcionários e alunos arrebentando a universidade. Essas pessoas não gostam da USP.

FOLHA – Elas dizem que é a reitora que não gosta.

DALLARI – Essas pessoas têm um radicalismo fora de moda.

Querem impor a adesão ao movimento por intermédio dos piquetes. É natural que quem reivindica procure obter adesão. Mas isso deve ser feito pelo convencimento. E não cerceando os direitos dos professores, funcionários e alunos que querem atividades normais. Não posso reivindicar o meu direito agredindo o dos outros.

FOLHA – É chamando a polícia que se resolve isso?

DALLARI – É claro que a presença da polícia no campus não é desejável. Mas isso é muito diferente da polícia que invadiu o campus na ditadura militar.

A polícia naquela época impedia o exercício do direito de expressão, de reunião, de reivindicação. Era uma polícia arbitrária e violenta por natureza. Mas agora o que aconteceu é que a PM compareceu para fazer cumprir uma determinação judicial, visando à proteção do patrimônio público. E acho que a reitora agiu corretamente quando solicitou essa proteção.

FOLHA – Mas a polícia acabou jogando bomba em estudante contra a greve. Está certo isso?

DALLARI – A história está cheia de exemplos em que a polícia acaba se excedendo. Mas houve situações de um grupo de manifestantes cercando a polícia. É fácil de imaginar o temor dos policiais de serem agredidos, humilhados. Isso acabou precipitando ações violentas da polícia, também condenáveis.

FOLHA – As entidades alegam que a reitora fugiu do diálogo…

DALLARI – Eu, se fosse reitor, também não compareceria a uma reunião com esse tipo de radicalismo, até com risco de agressões físicas.

FOLHA – E agora, o que fazer?

DALLARI – É preciso definir uma pauta coerente de reivindicações. A reitora poderia designar uma comissão de membros do Conselho Universitário, com representantes de professores, estudantes e funcionários, que de maneira civilizada e coerente discutiria sem radicalismos.

FOLHA – E quanto à PM no campus?

DALLARI – Do jeito que as coisas estão, acho que pura e simplesmente retirar a polícia é temerário. É preciso manter a polícia e abrir a negociação.

FOLHA – As três entidades exigem a demissão da reitora…

DALLARI – Isso é um absurdo. Seria desmoralizante para a própria USP. A reitora foi legalmente escolhida. Está no exercício das suas funções. Nunca foi alvo de acusações de corrupção. É preciso respeitá-la.

Transcrito em Ubatuba, 13 de Junho de 2009