Eu era pobre e feliz… e não sabia

O título da autobiografia de Simone Signoret, durante anos a grande dama do cinema francês, e, por um bom tempo, mulher de Yves Montand, é notável: La nostalgie n’est plus ce qu’elle était A nostalgia não é mais o que era — nem ela escapa das mudanças do nosso tempo…

Hoje amanheci me sentindo meio esquisito, com uma sensação no peito que, paradoxalmente, era de vazio e de opressão, como se, dentro dele, houvesse, ao mesmo tempo, muito pouco e demasiado… E senti saudade de um tempo em que a vida era simples e descomplicada, sem problemas, sem angústias, sem sofrimento (real sofrimento)… O tempo da infância. Aquele tempo em que, para usar as sábias palavras de Ataúlfo Alves (em “Vida de minha Vida”), a gente “era feliz e não sabia…” E senti nostalgia. Nostalgia da boa, não aquela que não é mais o que era.

Meu pai, nos idos dos anos 50, escreveu uma crônica chamada “Tempos que não voltam mais”, para um programa chamado “A Hora da Saudade”, da antiga Rádio Tupy (se bem me lembro). Na crônica, linda (vou ver se a acho para transcrevê-la aqui), ele invocava Casemiro de Abreu, em “Meus Oito Anos”. Ali o poeta dizia: “Ah que saudades eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras, à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais”… A principal lembrança de meu pai era o jogo de futebol na Praça da Matriz, em Patrocínio, usando uma bola de meia…

Bola de meia!!! Que pobreza! E, no entanto, que felicidade a dele!

Estava, aqui, “me, myself and I”, como diz o título da música de Billie Holiday, quando encontrei o artigo de Anna Veronica Mautner, na Folha de hoje (24/7/2008), “Onde foi parar o campinho?” (transcrito abaixo). E daí minha memória viajou livre, e minha nostalgia transpôs os limites, conectando todas as memórias mencionadas nos parágrafos anteriores.

Isso, porque eu também tive o meu campinho. Era meu, não porque ficasse em terreno de propriedade da família (a família não tinha quase nada), mas porque ficava em frente à minha casa, na Travessa Particular, 10, em Santo André, entre as ruas Senador Flaquer e Onze de Junho. Neste tempo de condomínios e edifícios de luxo, com nomes e endereços nobres, ninguém mais mora em “travessa”. Travessa é coisa de vila, e morar em travessa é coisa de pobre. E eu era pobre — embora, para parodiar o grande Ataúlfo — eu não sabia. Na verdade, não tinha a menor consciência do fato.

O ano era 1952, eu tinha oito anos (como no poema de Casemiro), e havíamos acabado de nos mudar para Santo André. Meu pai, Oscar Chaves, era pastor protestante (presbiteriano). Muitos dos pastores de hoje têm dinheiro. Não o meu pai. Ganhava uma miséria da igreja, o que tornava a vida apertada em casa. Apenas sei disso olhando em retrospectiva. Na época parecia que todo mundo era assim, e, portanto, não havia razão para nos considerar diferentes. Em casa tomávamos um leite em pó ruim, detestável, meio salgado, que os americanos doavam para os países pobres (acho que pela Aliança para o Progresso)… Sobremesa (goiabada de lata) só quando meu pai pagava a caderneta no armazém do português, uma vez por mês… Talvez seja por isso que, de vez em quando, fico meio desesperado por doce até hoje…

Mas deixo a pobreza temporariamente de lado para me concentrar na felicidade.

A felicidade era o campinho na frente de casa. Chamar aquilo de “campinho” pode dar a impressão errada, pode evocar nas pessoas de hoje a imagem de um espaço regular, gramado, com goleiras, quem sabe até marcado de cal… Não. O campinho da Travessa Particular era apenas um terreno baldio, cheio de mato, pedras, cacos de vidro, com apenas uma pequena clareira, onde a gente jogava bola. As goleiras eram marcadas por pedras e tijolos. Se a bola passava meio alta, era uma briga para decidir se havia sido gol ou se a bola havia passado por cima… (por cima de quê???). Nada disso, porém, impedia que a gente jogasse bola no campinho e, com o tempo, fosse aumentando a clareira, de tanto pisar no mato circundante.

Em 1952 a instituição da bola de meia já havia desaparecido. A gente jogava com bola de borracha ou, quando havia (que glória!), de couro (chamada de “bola de capotão”)… Logo depois do almoço a meninada começava a juntar para o joguinho que durava quase a tarde toda. O problema é que muitas vezes não havia bola… Era necessário esperar por algum felizardo que tivesse uma bola para a gente começar a jogar. O dono da bola, naturalmente, tinha privilégios: podia começar escolhendo quem iria jogar do seu lado (uma vantagem enorme, porque sempre havia um craque no grupo, que era disputado pelos dois lados). E, naturalmente, ele decidia quando o jogo terminava. Bastava a mãe gritar o nome do dono da bola naquele tom inconfundível de urgência numa das casas da redondeza, e o jogo estava terminado, como se um juiz houvesse dado o apito final. Quando isso acontecia, o resto da meninada se sentava no chão empoeirado e ficava conversando, ou, então, jogando bolinhas de vidro (então chamadas “fubecas” em Santo André), enquanto esperava uma nova bola, que raramente vinha.

O que me deixa perplexo, hoje, é que tão poucos tivessem uma bola. Eu só vim ter a minha primeira bola de capotão (número 3) quando preenchi um álbum de figurinhas de futebol em 1954. Para completá-lo, precisei da ajuda de meu pai, que me deu uns trocados para eu comprar a dificílima figurinha da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), última do álbum, carimbada, que parecia nunca sair nas balas (as figurinhas naquela época vinham em balas, às vezes se sujavam quando as balas, do tipo “paulistinha”, melavam). Descobri um menino que tinha a bendita figurinha que me faltava, e implorei ao meu pai os trocados necessários para comprá-la. Ele me deu, eu a comprei, e ganhei minha bola. Pela primeira vez eu poderia ser o dono da bola…

Mas eu tinha um ciúme doido dela. Tinha medo de ela ficar arranhada e esfolada nas pedras — ou, pior, de ela furar ao bater num caco de vidro. E havia sempre o perigo de um chute forte e mal direcionado fazer com que a bola caísse na oficina do seu Isaque — daí seria o fim definitivo: ninguém tinha lembrança de o seu Isaque haver jamais devolvido uma bola… A minha bola logo se arranhou e esfolou toda, perdeu a cor alaranjada que tinha, quando nova… Mas, por um tempo, era a melhor bola do pedaço — o que me fazia o rei do campinho… O pessoal me implorava para ir jogar — e eu, morrendo de vontade, fazia doce… (a expressão não existia então, mas a coisa, sim).

Não sei que fim levou a minha primeira bola. Durou um bocado. Deve ter morrido de velha. Depois de um tempo ganhei no Natal uma número cinco. Naquela época não era costume ganhar presentes caros — e uma bola de capotão número 5 era um presente caro em minha casa então…

Eu era pobre… e feliz (e não sabia!).

Um dia desses eu fiz uma referência ao “meu tempo” e alguém disse que o meu tempo era hoje. Talvez seja. Mas aqueles tempos distantes, na proletária Santo André dos campinhos de rua, e que (como os jogos com bola de meia de meu pai na Praça da Matriz de Patrocínio) também não voltam mais, eram muito meus. E a nostalgia que me dá lembrar deles é “minha, bem minha, de ninguém a tomei”…

Da pobreza não sinto saudade. Não sou como aqueles intelectuais que enaltecem a pobreza. Mas da felicidade simples e descomplicada que a acompanhou na minha infância, sim, sinto falta dela.

Em Campinas, 24 de Julho de 2008

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Folha de S. Paulo
24 de Julho de 2008

Onde foi parar o campinho?

ANNA VERONICA MAUTNER


[…] CABE À SOCIEDADE PROPICIAR ESPAÇO PARA A EXPERIÊNCIA DOS PAPÉIS SOCIAIS QUE DEVERÃO SER ASSUMIDOS POR ADULTOS


O velho campinho foi o espaço livre onde se brincava na cidade grande. O medo acabou com ele. Vivendo e nos defendendo de forças que nos empurram -de um lado para a vala comum da estandardização e de outro para a premência de sermos únicos e diferentes de todos-, ficamos sem tempo e espaço para brincar e curtir.

Para nossos filhos, púberes ou pré-adolescentes que vivem em grandes cidades sem espaço lúdico, o impacto dessas forças acaba invadindo o cotidiano.

Não dá para eles realizarem tranqüilamente as escolhas que essa dicotomia coloca. É no lúdico que são feitas as escolhas descompromissadas, que funcionam como exercício de autonomia. Criança brinca; adolescente e adulto curtem o que lhes é agradável. No lúdico, pomos à prova o nosso potencial.

Por meio de acertos e erros, aprendemos a refletir sobre nossa relação com o mundo e com nós mesmos. Nessa encruzilhada entre “eu e nós”, é forjado nosso eu, que será tão mais claro quanto mais tivermos tido tempo de faz-de-conta.

Na falta de espaço para experiências emocionais, encontram-se as fontes dos sentimentos de vazio interior e da dificuldade de criar empatia. É aí que o pré-adolescente se sente mal-cuidado e tenta salvar sua integridade existencial forjando experiências que podem ir de violência a apatia.

A agressão pode se voltar contra o meio material (prédios, ruas, jardins) e também contra pessoas. Depredação, pixação e quebra-quebra podem ser vistas como o uso do meio como brinquedo. Essas ações são de grupos aos quais faltaram condições de estabelecerem um imaginário satisfatório.

A sociedade civil vem falhando no provimento do espaço urbano lúdico, onde meninos exercitem liderança, potência, dominação, submissão etc., de que vão precisar no futuro.

Onde estão os quintais, as escadas e os corredores onde as meninas brincavam de casinha, de escolinha e de salão de beleza? Não se impede que as meninas também joguem bola, futebol, amarelinha, queimada.

O espaço livre é necessário para encontrarmos liberdade de entrar e de sair, de participar e de abandonar, de excluir e de ser excluído, fatos inevitáveis na vida de todo cidadão livre.

Fala-se mais em tornar a aprendizagem formal agradável do que em fornecer espaços lúdicos e prazerosos. O jovem que é impedido de fazer parte de várias galeras deixa de se exercitar para a vida adulta.

Sem pretender que isso seja tomado como receita, cito clubes, acampamentos de férias, parques, praias, bandas de música, grupos de teatro, a rua e a praça. Cabe à sociedade propiciar espaço para a livre experiência dos variados papéis sociais que deverão ser assumidos por adultos.

Os espaços livres fazem falta.

Neles se podia brincar longe de casa, sem supervisor. Mas isso era num tempo em que havia espaço e segurança. Vamos tentar reinventá-los?


ANNA VERONICA MAUTNER
Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (ed. Ágora)
amautner@uol.com.br

O crime, a polícia… — e os bandidos?

Excelente artigo do Carlos Heitor Cony na Folha de hoje, 24 de julho de 2008. Transcrevo-o abaixo.

Apesar de erros e excessos cometidos por policiais, não podemos viver sem a polícia. A função policial é, como parte da atribuição maior de manter a lei e a ordem, parte essencial da função do estado. Não vamos sobreviver como sociedade civilizada como uma sociedade em que a polícia é detestada e temida pela população não criminosa.

E o Cony ressalta bem o papel da mídia na criação dessa situação em que detestamos e tememos mais a polícia do que os criminosos que ela deve combater.

Em 24 de julho de 2008

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Folha de S. Paulo
24 de julho de 2008

Era de paz

CARLOS HEITOR CONY

RIO DE JANEIRO – Uma nova realidade somada a outras realidades: a instituição policial não apenas caiu no descrédito da população, mas passou a ser detestada. Há motivos para isso, alguns históricos, outros mais recentes, como a morte de inocentes durante as operações contra supostos criminosos.

A julgar pelo noticiário da mídia, não existem bandidos a não ser aqueles fardados que dispõem de armas fornecidas pelo Estado. São eles que, sozinhos, promovem aleatoriamente os tiroteios, matam cidadãos honestos e são responsáveis por todas as balas perdidas que fazem vítimas fatais.

É notório o despreparo de grande parte dos policiais. Cometem erros de interpretação, de truculência, de precipitação etc. Mas, a julgar pelas matérias veiculadas na mídia, a impressão resultante é que todos os dias sai dos quartéis um bando de assassinos que só retornam a seus alojamentos deixando cinco, seis ou mais corpos nas ruas.

Não fosse a polícia, viveríamos um estado de graça permanente, sem roubos, assaltos, seqüestros e chacinas. Os supostos bandidos, apesar de disporem de arsenal sofisticado, são pessoas de bem, aceitos por suas comunidades, alguns deles até são promovidos a heróis que defendem os oprimidos contra o arbítrio do poder constituído.

Pelo menos aqui no Rio, o governo estadual adotou oficialmente a política do confronto com o crime. Mas a realidade que se depreende do noticiário é que não mais existe crime, mas supostos criminosos que são assassinados implacavelmente por aqueles que são pagos para proteger a população.

Se houver um plebiscito para acabar com a polícia, não será surpresa se a maioria votar pela sua extinção, na esperança de viver em paz, sem supostos bandidos e sem balas perdidas.

Educação na tradição liberal

Na tradição liberal a educação deve se alicerçar nos seguintes princípios:

  • Foco no indivíduo (não na sociedade)
  • Ênfase no desenvolvimento humano (não na transmissão de legados culturais)
  • Orientação para o futuro (não para o passado)
  • Existência de ricas e reais alternativas (não "tamanho único")
  • Estrutura flexível (não rígida)
  • Liberdade de escolha (não roteiros pré-determinados)

Seu objetivo deve ser a construção de:

  • Competência (não erudição)
  • Autonomia (não dependência)
  • Responsabilidade (não obediência)

Sua metodologia deve ser:

  • Centrada na aprendizagem ativa
  • Construída sobre os interesses do aprendente
  • Voltada para a solução de problemas
  • Organizada em projetos

Em Campinas, 20 de Julho de 2008

Dercy

Quando eu estava quase a considerando imortal, Dercy Gonçalves se foi, no auge de seus 101 anos.

Dercy era um ícone nacional: o símbolo daquele humor escrachado, debochado, desbocado, freqüentemente improvisado, que caracteriza uma parte importante do teatro e da comédia nacional — e que fazia rir até os que contracenavam com ela.

Registrei aqui quando o Golias morreu. A Dercy e o Golias tinham muito em comum. O humor deles nada tinha de fino e sofisticado — não raro descambava para a baixaria. Mas eram autênticos, fiéis a si próprios e ao gênero com que escolheram fazer o Brasil rir. A pseudo-intelectualidade besta não gostava deles: esnobava-os e tentava ridicularizá-los (sem perceber quão ridículos eram eles próprios ao fazer isso). Mas o povo brasileiro os admirava — mais do que isso: amava-os.

Sem Dercy — como, já antes, sem Golias — o Brasil fica menos engraçado e menos capaz de rir de si mesmo.

Na Porta do Céu o Golias devia estar esperando a Dercy para lhe dar um abraço apertado de boas vindas.

Em São Roque, 20 de Julho de 2008

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Transcrevo, a seguir, a crônica do Rubem Alves sobre a Dercy, publicada na Folha de S. Paulo de 22/07/2008:

A aldeia nunca mais será a mesma

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Algo de anormal aconteceu, interrompendo a rotinado cosmos: a Dercy Gonçalves ficou encantada

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ENTRE CERTOS POVOS ditos primitivos, cujos costumes eram rigorosamente regulados por leis que os séculos haviam acumulado, o aparecimento de algum fenômeno incomum nos céus era sinal de que transgressões desses costumes eram permitidas na terra.

É lei dos jornais que só se publicam notícias novas. Isso vale para os tempos normais. Mas algo de anormal aconteceu, interrompendo a rotina do cosmos: a Dercy Gonçalves ficou encantada. Considero esse fato como um sinal nos céus que me permite transgredir a lei dos jornais: vou contar uma história que já publiquei muitas vezes.

É um conto do Gabriel García Marquez, que, na minha opinião, é o conto mais fantástico jamais escrito.

Era uma aldeia de pescadores perdida num fim de mundo, onde a monotonia e o tédio haviam se apossado dos corpos dos homens e das mulheres, de sorte que, dos seus olhos, fugira toda a luz, e ninguém esperava receber das palavras de alguém fosse beleza, fosse sorriso, fosse amor… Era a eterna repetição do mesmo enfado e do mesmo tédio…

Foi então que um menino que olhava para o mar viu uma forma flutuando ao longe, diferente de tudo o que ele já havia visto. Ele gritou -e todos vieram correndo, na esperança, talvez, de uma novidade que lhes desse assunto sobre o que falar.

E lá ficaram, parados na praia, esperando, até que finalmente o mar, sem pressa, depositou a coisa estranha na areia… Era um morto desconhecido, tendo por roupa só as algas, os liquens e as coisas verdes do mar.

Desconhecido, sem passado e sem nome… Mas tinham de fazer o que deviam: os cadáveres têm de ser enterrados. E era costume naquela aldeia que os mortos fossem preparados pelas mulheres para o sepultamento. Assim, o levaram para uma casa e o colocaram eucaristicamente sobre uma mesa, as mulheres de dentro, os homens de fora, e grande era o silêncio -até que uma delas, com voz trêmula, observou: "Tivesse ele morado em nossa aldeia, teria de ter abaixado a cabeça sempre para entrar em nossas casas, pois é alto demais"… E todos assentiram com um imperceptível gesto de cabeça.

Mas logo uma outra falou -e perguntou como teria sido a voz daquele homem, se teria tido em sua boca as palavras que fazem com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo… E todas sorriram, algumas delas chegando a passar as mãos pelo cabelo, com saudades…

E grande foi o silêncio, até que aquela que limpava as mãos inertes do morto perguntou sobre o que elas teriam feito, se teriam construído casas, travado batalhas, navegado mares e se teriam sabido acariciar o corpo de uma mulher…

Ouviu-se, então, um discreto bater de asas, pássaros de fogo entrando pelas janelas e penetrando nas carnes.

E os homens, espantados, tiveram ciúme do morto -que era capaz de fazer amor com suas mulheres de um jeito que eles mesmos não sabiam. E pensaram que eram pequenos demais, tímidos demais, feios demais, e choraram os gestos que não haviam feito, os poemas que não haviam escrito, as mulheres que não haviam amado.

Termina a história dizendo que eles, finalmente, enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma.

A Dercy Gonçalves morreu. Nossa aldeia nunca mais será a mesma…

A liberdade de aprender

Duas teses importantes de Wilhelm von Humboldt:

"O princípio maior, e fio condutor, do argumento desenvolvido nestas páginas é a absoluta e essencial importância do desenvolvimento humano em sua mais rica diversidade" (p.xvii).

"Ao tratar os cidadãos de forma paternalista, o Estado lhes nega e os priva de uma característica essencial de sua humanidade: a liberdade de escolher e a oportunidade de espontaneamente desenvolver as suas potencialidades através da aprendizagem" (p.li).

Até depois.

Em Campinas, 17 de Julho de 2008

O Estado Malfeitor e o Estado (supostamente) Benevolente

Estou me preparando para uma oficina promovida pelo Liberty Fund que terá lugar, começando hoje à noite, até domingo de manhã, em São Roque, perto de Sorocaba — terra de vinho razoável.

O objeto de estudo durante a oficina será Wilhelm von Humboldt — educador e estadista alemão que viveu de 1767 a 1835, e que, como Ministro da Educação, fundou a Universidade de Berlin. Sua obra mais conhecida é Os Limites da Ação do Estado, escrito em 1791-1792, quando ele tinha meros 24 anos.

Uma das coisas mais interessantes que achei nesse livro – cheio de pérolas de sabedoria para a área educacional, que eu oportunamente comentarei – foi a afirmação de que nós (o povo em geral, incluindo os que se inclinam para a esquerda e os que pendem mais para a direita) em geral tememos o Estado Malevolente: o Estado autoritário, que pode facilmente se tornar o Estado totalitário. Contudo, afirma ele, mais perigoso, porque mais dissimulado, é o Estado que se pretende Benevolente e Benfeitor, o Estado que afirma colocar como seu objetivo o bem-estar de seus cidadãos: o Welfare State, o Estado do Bem-Estar Social, o Estado da "Rede-de-Segurança" ("Safety Net"), o Estado Previdenciário.

Esse tipo de Estado é mais perigoso porque, sob a pretensa realização do bem, ele acaba causando o mal mais mau – e se tornando o Estado Liberticida.

Escrito mais de 200 anos atrás, esse aviso é tão pertinente hoje quanto era na época em que foi escrito — talvez muito mais, haja vista as inúmeras bolsas inventadas pelo governo federal. Quando temos um Estado supostamente Benfeitor, que, alegando fazer o bem (mas com fins claramente eleitoreiros e de perpetuação no poder), mete a mão no nosso bolso para financiar uma série de "Programas Sociais" que nada mais fazem do que criar seres humanos dependentes do Estado, verdadeiros parasitas incapazes de cuidar de si próprios, seres que continuam, enquanto adultos, como nasceram: incompetentes, inautônomos, irresponsáveis — quando isso acontece (como está acontecendo) a real liberdade dos indivíduos de decidir sobre como usar seus recursos já acabou há muito tempo. Trabalhamos cinco de doze meses para custear esses programas que, do ponto de vista pedagógico, fazem qualquer coisa menos contribuir para o desenvolvimento do ser humano.

O Estado (supostamente) Benevolente é mais maléfico do que o Estado (claramente) Malfeitor: porque faz o mal sob o disfarce de fazer o bem… Hoje o Estado, sob a pretensão de nos fazer o bem, se mete em tudo em nossa vida. Diz-nos o que podemos (i.e., devemos) comer e o que podemos beber, nos prende mesmo quando não estamos causando mal a ninguém, bisbilhota a nossa vida alegando que está defendendo a moralidade pública…

É isso.

Nesse tom, ressuscito-me, depois de uma ausência de mais de um mês.

Em Campinas, 17 de Julho de 2008

Um mês sem artigos

Hoje faz um mês que não coloco nenhum artigo aqui neste meu space. Poucas vezes isso aconteceu no passado. Também tenho participado pouco das inúmeras listas de discussão de que faço parte (em alguns casos como coordenador).

Não é que não tenha coisas a dizer: de fato, tenho, e muitas. Mas não tenho me sentido muito inclinado a dizê-las – em público, pelo menos. Estou, digamos, procurando um momento de privacidade, em que prefiro guardar as coisas para mim mesmo – ou, então compartilhá-las de forma um pouco mais restrita e reservada.

Talvez a coerência exigisse que não publicasse nem mesmo isso, mas faço-o em consideração aos visitantes regulares.

Qualquer hora volto — espero que logo. Não desista.

Em Campinas, 13 de Julho de 2008

Carlos Brito e a Inbev

Estou em Seattle e leio o Wall Street Journal de hoje — que dedica uma atenção desproporcional à tentativa de "hostile takeover" da Anheuser-Busch (fabricante da Budweiser, entre outras cervejas) pela InBev (que incorporou a Ambev e, conseqüentemente, a Brahma e a Antarctica, entre outras cervejas).

Há perfis tanto da Inbev como de Carlos Brito, brasileiro, que é seu principal executivo.

No perfil da companhia, destaca-se que, quando a Ambev foi incorporada pela Interbrew, da Bélgica, em 2004, formando assim a InBev (começo de Interbrew e fim de Ambev), os brasileiros ficaram desolados, porque parecia que a sua maior fabricante de cervejas tinha sido engolida pela empresa belga. O CEO da nova companhia era, no início, belga. Mas, segundo o WSJ, em dois anos os brasileiros deram a volta por cima e agora ocupam os principais cargos estratégicos da nova empresa, que é descrita como tendo gestão sendo predominantemente brasileira.

No perfil de Carlos Brito, impressionaram-me as seguintes afirmações, atribuídas a ele:

"Na nossa companhia, justiça com as pessoas se expressa tratando pessoas que fazem a diferença de forma diferenciada. Dos 85 mil empregados da InBev, apenas 200 a 250 realmente fazem a diferença. Por isso, não temos de pedir desculpas a ninguém por tratarmos os que fazem a diferença de forma especial".

É isso.

No Brasil o governo trata de forma especial os que não fazem a diferença. Isso explica porque a InBev está tentando comprar a maior cervejaria americana e o Brasil compete com a Argentina.

Em Seattle, 13 de Junho de 2008

Multa de 250 dólares por fumar no quarto

Estou no Hyatt Regency Hotel em Bellevue, WA, perto da Microsoft. Pedi, naturalmente, um quarto de não-fumante. Dentro do quarto, uma placa: "Enjoy your non-smoking room. A $250 cleaning fee will be charged to your account for smoking in this room" ("Aprecie o seu quarto de não fumante. Uma taxa de 250 dólares será debitada em sua conta se você fumar neste quarto").

Feito por uma instituição privada, como é o caso de um hotel, acho isso perfeitamente legítimo. A empresa proprietária do hotel reservou quartos para não-fumantes. (Na verdade, hoje, ela reserva alguns quartos para fumantes). Se você fumar num quarto destinado a não-fumantes, ela terá de limpar o quarto e lhe cobrará uma taxa de 250 dólares. Nada mais justo. Há restaurantes que cobram de clientes que bebem demais e vomitam no chão uma taxa especial de limpeza. Novamente, muito justo.

O de que não gosto é o governo se metendo em questão que não é de sua conta, com o objetivo, por exemplo, de proibir ou regulamentar o direito de fumar (em ônibus, aviões, e outros espaços fechados, não pode; em espaço aberto, pode; em restaurantes, trens e aeroportos deve haver um espaço dedicado a fumantes; etc.). Que o governo queira proibir que se fume dentro de suas próprias repartições, ok — está no seu direito. Que, entretanto, interfira com a liberdade e com o direito de propriedade de donos ou locatários de imóveis de determinar se é permitido fumar em dependências pelas quais são responsáveis, acho um total absurdo.

O proprietário ou o gerente de, por exemplo, um hotel ou um restaurante dos dias de hoje sabe muito bem que vai perder clientes se admitir fumantes em todas as dependências de seu estabelecimento. No seu próprio interesse, portanto, vai proibir o fumo ou regulamentar os espaços onde se pode fumar, dentro do seu estabelecimento. É direito dele. O governo é que não tem direito de interferir. O mercado resolve plenamente esse problema.

Como liberal praticante, acredito que cada um tem o direito de prejudicar a própria saúde — ou até mesmo de se matar. O governo não tem, entre suas responsabilidades, a de proteger o cidadão das conseqüências de suas ações, mesmo que essas conseqüências sejam inequivocamente deletérias para o agente.

Os defensores da proibição ou da regulamentação, pelo governo, do direito de fumar, levantam, aqui, dois argumentos:

a) A sua liberdade de fumar é incompatível com minha liberdade de respirar ar limpo — e, no conflito entre essas duas liberdades, o governo tem não só o direito, como o dever, de interferir, garantindo a liberdade mais básica ou menos nociva (no caso, a minha liberdade de respirar ar limpo);

b) A sua liberdade de fumar pode lhe causar doenças que, posteriormente, serão tratadas em estabelecimentos de saúde do governo (clínicas, hospitais, laboratórios), fazendo não só com que o governo tenha gastos adicionais, que não teria se você não fumasse, mas também fazendo com que eu, longo prazo, seja prejudicado, porque terei de pagar mais impostos para manter o sistema de saúde do governo.

Começo analisando o segundo desses dois argumentos.

Começo a análise com um ad absurdum. Se o fato de eu fumar pode causar danos à minha saúde e esse fato justifica a intervenção governamental, então, de igual forma, eu deveria ser proibido de ingerir bebidas alcoólicas, de praticar esportes arriscados (corridas de automóvel, de motocicleta e até mesmo de bicicleta), de trafegar com veículos automotores em nossas ruas e estradas, de ingerir carne vermelha e gordurosa, de comer doces e de colocar açúcar em minhas bebidas, de praticar hábitos sedentários, etc. É um absurdo que o governo intervenha em todas essas áreas hoje deixadas ao alvedrio de cada pessoa. Se o fizer, em dois tempos se tornará um governo totalitário (algo que, de resto, acredito que esteja pouco a pouco acontecendo).

É por essa, e por outras razões, que estou convencido de que o governo não deveria se meter em questões de saúde. Cada um deveria pagar seu plano de saúde privado. E os planos de saúde privados poderiam, naturalmente, cobrar mais de quem fuma — do mesmo jeito que as seguradoras de carro cobram mais dos jovens (porque se envolvem mais em acidentes, estatisticamente falando) ou de quem mora em grandes centros (onde a possibilidade de acidente ou roubo é muito maior).

Questão um pouco mais complicada é a da saúde pública — e vou ilustrar com o problema do mosquitinho da dengue. Um dia desses, a Vigilância Sanitária da Prefeitura de Campinas entrou na minha casa (a empregada deixou) e cortou algumas bromélias do jardim — porque retêm água e, portanto, podem servir de criadouro ("berçário") do maldito mosquito. Fiquei indignado.

Também fico indignado quando o governo municipal me proíbe de cortar uma árvore que fica na frente de minha casa quando fui eu que a plantei lá.

Os dois problemas podem parecer, no fundo, o mesmo. A bromélia está na minha casa, mas o mosquitinho que pode nascer na água retida na bromélia pode picar o vizinho — essa a razão para a intervenção do governo municipal. A árvore está na frente de minha casa, e fui eu que a plantei lá, mas sua remoção poderá contribuir para piorar a qualidade do ar que todos respiram — assim caminha o argumento.

Acho que há uma diferença, porém, entre os dois casos. Que o mosquitinho pode nascer na água da bromélia e, depois, picar o meu vizinho, é um fato comprovado. Que a derrubada da minha árvore vai piorar o ar que todos respiram, entretanto, é, a meu ver, apenas uma hipótese duvidosa — mas estou disposto a ouvir argumentos.

De qualquer maneira, o item "b" acabou, de qualquer forma, se tornando no item "a" mencionado atrás…

Como bom liberal, defendo a tese de que a única situação em que o governo pode interferir com minha liberdade, obrigando-me a fazer algo que não quero fazer ou impedindo-me de fazer algo que quero fazer, é quando a minha ação ou o omissão causa danos reais a terceiros.

O simples fato de que minha ação pode causar danos a terceiros não é motivo suficiente para me proibir de agir. Dirigir no trânsito de São Paulo pode causar danos a terceiros — isso não justifica proibir alguém de dirigir, simplesmente porque há a possibilidade de danos a terceiros.

Não tenho dúvida, hoje, de que fumar causa dano a quem fuma. Mas, neste caso, o governo está interditado de proibir porque não está autorizado a proibir as pessoas de causarem dano a si próprios. Mas tenho sérias dúvidas de que fumar ocasionalmene perto de outras pessoas lhes causa dano que justifique proibir o fumante — até porque isso acontece por pouco tempo (num restaurante, por exemplo) ou em lugares em que as pessoas podem mudar de lugar. De qualquer maneira, se as pessoas realmente se incomodarem, a questão pode ser resolvida no âmbito da iniciativa privada.

Em suma… Não vejo razão para que o governo se meta nessa área.

Em Redmond, 10 de Junho de 2008.

David Hume, Novamente

No dia 25 de Janeiro deste ano, quando estava em Seoul, coloquei aqui neste blog um artigo sobre David Hume, o filósofo escocês sobre o qual escrevi minha tese de doutoramento em 1971-1972 (defendida junto ao Department of Philosophy of the College of Arts and Sciences of the University of Pittsburgh em 8 de Agosto de 1972). Volto à carga.

Hume nasceu em 26 de Abril de 1711 e morreu em 25 de Agosto de 1776, com sessenta e cinco anos e quatro meses, pouco depois da proclamação da independência das até então colônias inglesas na América.

Estou lendo, no avião que me leva de Chicago para Seattle, uma breve Autobiografia que Hume escreveu pouco antes de morrer (e que foi publicada em Março de 1777, com o título The Life of David Hume, Esq. Written by Himself. Nela ele diz:

“In the spring 1775, I was struck with a disorder in my bowels, which at first gave me no alarm, but has since, as I apprehend it, become mortal and incurable. I now reckon upon a speedy dissolution. I have suffered very little pain from my disorder; and what is more strange, have, notwithstanding the great decline of my person, never suffered a moment’s abatement of my spirits; insomuch, that were I to name the period of my life, which I should most choose to pass over again, I might be tempted to point to this later period. I possess the same ardour as ever in study, and the same gaiety in company. I consider, besides, that a man of sixty-five, by dying, cuts off only a few years of infirmities; and though I see many symptoms of my literary reputation’s breaking out at last with additional lustre, I knew that I could have but few years to enjoy it. It is difficult to be more detached from life than I am at present.”

Traduzo para o Português para os que têm dificuldade com o Inglês — em especial o Inglês britânico do século XVIII:

“Na primavera de 1775 sofri uma desordem nos meus intestinos que, inicialmente, não me deixou alarmado, mas que, desde então, fiquei sabendo que é mortal e incurável. Estou contando com um rápido desenlace. Tenho sofrido muito pouco com a doença; e, o que é mais estranho, visto que meu corpo tem entrado num processo de rápido declínio, nunca fiquei abatido em meu espírito, nem por um só momento. Tanto isso é verdade que, se tivesse de escolher um período de minha vida para viver de novo, ficaria tentado a escolher este período atual. Continuo a ter, em relação aos meus estudos, a mesma dedicação de sempre, e, em relação aos meus amigos, a mesma alegria de conviver com eles. Considero, além disso, que um homem que morre aos sessenta e cinco anos de idade perde apenas uns poucos anos de enfermidades. E apesar de eu notar que, recentemente, minha reputação literária tenha melhorado bastante, sei que teria apenas uns poucos anos para goza-la. É difícil ser mais desligado da vida do que sou atualmente”.

Hume de fato morreu logo depois, com sessenta e cinco anos — a idade que vou completar em três meses menos dois dias. Espero que, quando chegar a minha hora, tenha a mesma calma e o mesmo senso de finalidade que ele demonstrou. Adam Smith, seu melhor amigo, o autor de A Riqueza das Nações, escreveu em 9 de Novembro de 1776, uma carta para o editor de Hume, William Strahan, em que narrou os dias finais do filósofo e concluiu com a seguinte avaliação da pessoa:

“Thus died our most excellent, and never to be forgotten friend; concerning whose philosophical opinions men will, no doubt, judge variously, every one approving, or condemning them, according as they happen to coincide or disagree with his own; but concerning whose character and conduct there can scarce be a difference of opinion. His temper, indeed, seemed to be more happily balanced, if I may be allowed such an expression, than that perhaps of any other man I have ever known. Even in  the lowest state of his fortune, his great and necessary frugality never hindered him from exercising, upon proper occasions, acts both of charity and generosity. It was a frugality founded, not upon avarice, but upon the love of independency. The extreme gentleness of his nature never weakened either the firmness of his mind, or the steadiness of his resolutions. His constant pleasantry was the genuine effusion of good-nature and good-humour, tempered with delicacy and modesty, and without even the slightest tincture of malignity, so frequently the disagreeable source of what is called wit in other men. It never was the meaning of his raillery to mortify; and therefore, far from offending, it seldom failed to please and delight, even those who were the objects of it. To his friends, who were frequently the objects of it, there was not perhaps any one of all his great and amiable qualities, which contributed more to endear his conversation. And that gaiety of temper, so agreeable in society, but which is so often accompanied with frivolous and superficial qualities, was in him certainly attended with the most severe application, the most extensive learning, the greatest depth of thought, and a capacity in every respect the most comprehensive. Upon the whole, I have always considered him, both in his lifetime and since his death, as approaching as nearly to the idea of a perfectly wise and virtuous man, as perhaps the nature of human frailty will permit.” Novamente, traduzo: “Assim morreu nosso amigo, de todos o mais excelente. Nunca será esquecido. Acerca de seus pontos de vista filosóficos os homens vão, sem dúvida, fazer julgamentos diversos, conforme concordem com eles ou deles discordem. Mas sobre o seu caráter e sua conduta dificilmente haverá divergência de opinião. Seu temperamento, na verdade, apresentava um equilíbrio mais perfeito, se é que posso usar essa expressão, do que o de qualquer outro homem que eu conheci. Mesmo quando ele atravessava períodos da pior sorte [financeira], sua grande e necessária frugalidade nunca o impediu, quando a ocasião aparecia, de atos de caridade e generosidade. A sua era uma frugalidade que se baseava não na avareza, mas no amor à sua independência. Sua natureza extremamente gentil nunca permitiu que enfraquecesse seja a força de sua mente, seja a firmeza de suas resoluções. Sua alegria constante era a mais genuína efusão de boa disposição e bom humor, sempre temperados com delicadeza e modéstia, nunca jamais demonstrando sequer uma leve tintura de maldade — maldade que, em geral, em outros homens, é a fonte desagradável daquilo que se chama humor e ironia. Suas brincadeiras nunca tiveram a intenção de mortificar; e, portanto, longe de ofender, raramente deixavam de agradar e divertir, mesmo aqueles que eram objeto delas. Para com seus amigos, que freqüentemente eram o foco dessas brincadeiras, elas eram, talvez, de todas as suas grandes e valiosas qualidades, aquela que mais contribuía para o clima agradável da conversação. E aquele temperamento alegre, tão agradável quando se está em companhia, mas que frequentemente é acompanhado de qualidades frívolas e superficiais, no seu caso era acompanhado de uma aplicação severa, de uma cultura extensa, da maior profundidade de ideias, e de uma capacidade de lidar com as questões mais abrangentes. No todo, sempre o considerei, durante sua vida e, agora, depois de sua morte, o exemplo mais próximo de um homem perfeitamente sábio e virtuoso que, talvez, a natureza humana nos permita alcançar”.

Hume era ateu e não acreditava numa vida futura. E ainda assim, sabendo que o fim era o fim mesmo, não se deixou abater, tornando-se um exemplo para todos os que tentam encarar a vida com uma certa dignidade filosófica.

Entre Chicago e Seattle, 9 de Junho de 2008.