Desigualdade educacional

Venho, há muito tempo, batendo na tecla de que é preciso melhorar a qualidade da educação ministrada em nossas escolas — públicas E privadas. Embora a educação básica oferecida pelas nossas melhores escolas privadas seja, em regra, bem melhor do que a educação oferecida pelas nossas escolas públicas, ela ainda carece de melhoria, porque tende a ser boa dentro de um modelo ou paradigma educacional já há muito ultrapassado (que também é usado pelas nossas escolas públicas). Em outras palavras: todas as nossas escolas, públicas E privadas, usam o mesmo modelo ou paradigma educacional — e, dentro desse modelo ou paradigma, as escolas privadas são, em geral, muito melhores.

Há, portanto, desigualdade educacional entre escolas públicas e privadas, dentro de um mesmo modelo ou paradigma educacional. Mas esse modelo ou paradigma está totalmente desacreditado. Logo, há um sentido em que há igualdade entre os dois tipos de escolas: ambas adotam um modelo ou paradigma educacional há muito ultrapassado.

Muitos educadores (como Dermeval Saviani) pleiteiam a melhoria da escola pública, para que diminua a desigualdade entre elas e as escolas privadas, mas dentro do modelo ou paradigma educacional. Esforço vão. Enquanto as escolas públicas andam um passo, as escolas privadas andam dez — mesmo mantido o modelo ou paradigma.

No hotel em que estou achei um exemplar da revista Viva São Paulo — destinado aos habitantes de Alphaville, Tamboré, Aldeia da Serra e Granja Viana (Ano 5, Edição 52, Outubro de 2005). A revista está recheada de anúncios de escolas básicas particulares. Outubro é o mês em que se tomam decisões acerca de matrícula para o ano seguinte. Uma propaganda, de 4 páginas, é da Escola Internacional de Alphaville. Ela oferece Hotelzinho / Maternal, Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Eis algumas características que ela oferece:

* A educação é bilíngüe, em Português e Inglês, a partir da Educação Infantil;

* Inglês é ensinado para alunos desde os 10 meses de idade;

* O ensino médio prepara para ingresso em universidades tanto brasileiras como estrangeiras;

* No ensino médio os alunos ficam na escola, opcionalmente, das 7h10 até às 16h.

As escolas particulares elevam a aposta quando as escolas públicas tentam eliminar a distância que as separa das escolas particulares.

A alternativa para a escola pública é mudar o seu modelo ou paradigma primeiro…

Em Armação de Búzios, 5 de janeiro de 2006

Brasil pobre

O problema, já disse várias vezes, não é que o Brasil é um país desigual, como alardeia já no título a matéria abaixo publicada na Folha de hoje. O problema é que o Brasil é um país pobre. O problema é que os 10% mais ricos brasileiros são pobres.

Ou vejamos.

Eis um dos pontos focais da matéria abaixo:

Em 1995, 89% da renda dos 10% mais pobres do Brasil vinha do trabalho (e 11% de atividades não relacionadas ao trabalho). Em 2004, essa porcentagem caiu para 48%, ou seja, mais da metade (52%) da renda do trabalhador mais pobre no Brasil não vinha do trabalho. O principal componente da renda que não vem do trabalho entre os mais pobres foram os programas de transferência de renda

Diz a economista Lena Levinas, em passagem citada na própria matéria:

"O mais grave é verificar que a renda dos mais pobres caiu mesmo com a participação dos programas de governo. Se esses dados forem consistentes, eles mostram que não estamos complementando a renda para os mais pobres viverem melhor, mas gerando uma renda para viverem quase que exclusivamente dela. Estão deixando de ser trabalhadores para se tornarem assistidos. Isso é dramático".

É realmente dramático.

Continua Lena Levinas:

"O pior desenho de política de combate à pobreza que a gente pode ter é justamente esse que condiciona o benefício a um nível de rendimento extremamente baixo. O beneficiado não pode ter mobilidade social porque, se aumentar sua renda, terá que abrir mão da bolsa. Como abrir mão de algo que é permanente para trocá-lo por algo instável?"

É isso.

Quanto mais você dá dinheiro nas mãos do pobre, através de programas que o incentivam a se manter fora do mercado de trabalho, menos inclinado ele se sente a trabalhar.

Em todo lugar do mundo é assim. Nos Estados Unidos, quando o governo resolveu premiar as mães solteiras com uma substancial mesada por filho, elas não pararam mais de ter filhos e começaram a tê-los cada vez mais cedo. E nunca mais trabalharam. Nem se casaram, porque ao casar-se, perderiam o benefício. Seu trabalho passou a ser (desculpem a crudeza) deitar e abrir as pernas.

Se aumentarmos as esmolas governamentais, nesse modelo, em pouco tempo 0% da renda dos mais pobres virá do trabalho. Daí os pobres estarão dependendo 100% do governo — que é o que o governo quer!

O resultado (que, surpreendentemente, ninguém tira) será que o candidato que prometer não só continuar mas aumentar as mesadas, ganhará os votos dos mais pobres.

Se isso não é compra de votos, não o sei o que possa ser. Tenta-se punir o candidato que oferece transporte ao eleitor no dia da eleição. Mas o governante, candidato à reeleição, que dá dinheiro de mão beijada ao pobre, esperando o seu voto no dia da eleição, esse é elogiado.

O outro ponto focal da matéria abaixo é o seguinte:

De 1995 a 2004 houve queda na renda média também dos 10% mais ricos, que caiu de R$ 4.230 para R$ 3.305.

Impressionante. Os 10% mais ricos do Brasil têm renda média de 3.305,00 — menos de 10 salários mínimos. Esse dado me preocupa tanto quanto o outro. O Brasil nunca vai ser um país sustentavelmente desenvolvido com esse tipo de renda média dos mais ricos. É ridículo.

Em Salto, 25 de dezembro de 2005

—–

Folha de S. Paulo

25 de dezembro de 2005

BRASIL DESIGUAL

Estudo do Cebrap mostra maior dependência de programas sociais

Pobres se distanciam de ricos e dependem mais do governo

ANTÔNIO GOIS

DA SUCURSAL DO RIO

O processo de exclusão do mercado de trabalho da população extremamente pobre no Brasil se intensificou de 1995 a 2004. Nesse período, o rendimento médio dos trabalhadores que se encontram entre os 10% mais pobres caiu 39,6% ao mesmo tempo em que aumentou a dependência dos programas sociais do governo.

Em 1995, 89% da renda dessa população vinha do trabalho. Em 2004, essa porcentagem caiu para 48%, ou seja, mais da metade da renda do trabalhador mais pobre no Brasil não vinha de sua atividade no mercado de trabalho.

Essas são conclusões de um estudo do sociólogo Álvaro Comin, do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), a partir da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE. O trabalho mostra que no extremo oposto, o dos 10% mais ricos, a queda no percentual de renda do trabalho não foi tão intensa: passou de 83% para 77%.

O estudo mostra também que, analisada a partir de seus extremos de riqueza e pobreza, a economia brasileira não parou de produzir desigualdade e a distância entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres aumentou.

De 1995 a 2004 houve queda na renda tanto dos 10% mais ricos quanto na dos 10% mais pobres. No extremo da riqueza, o rendimento médio total dos trabalhadores caiu 21,9%, de R$ 4.230 para R$ 3.305. No outro extremo, a queda foi ainda maior: de R$ 96 para R$ 58, variação de -39,6%.

Por causa da queda maior entre os mais pobres, a distância entre os dois segmentos aumentou. Em 1995, era necessário somar a renda de 44 brasileiros entre os mais pobres para igualar a renda de um mais rico. Em 2004, essa proporção aumentou para 57.

Essa análise da desigualdade nos extremos contrasta com a divulgada no mês passado pelo IBGE, que mostrou que o índice de Gini (que mede a concentração de renda) vêm caindo desde 1993.

Não se trata, porém, de erro de uma ou outra pesquisa. A explicação é que o Gini trabalha com uma média de rendimentos onde há um peso grande no seu cálculo dos estratos intermediários, ou seja, aqueles que não estão nos extremos mais pobres ou mais ricos da população. Foram esses extremos o foco da leitura do Cebrap.

Para Comin, o principal componente da renda que não vem do trabalho entre os mais pobres foram os programas de transferência de renda. Ele afirma que eles desempenharam um papel importante de não deixar que a renda dos mais pobres caísse ainda mais. No entanto, foram insuficientes para alterar de forma estrutural a dinâmica de produção de desigualdade da economia.


Dramático

A economista Lena Lavinas, da UFRJ, ressalvando que não teve acesso ao estudo, afirma que o que os dados do Cebrap revelam de "dramático" é o fato de a inserção mais plena dos mais pobres no mercado de trabalho estar praticamente desaparecendo.

"O mais grave é verificar que a renda dos mais pobres caiu mesmo com a participação dos programas de governo. Se esses dados forem consistentes, eles mostram que não estamos complementando a renda para os mais pobres viverem melhor, mas gerando uma renda para viverem quase que exclusivamente dela. Estão deixando de ser trabalhadores para se tornarem assistidos. Isso é dramático", diz.

A economista defende que, diante desse quadro, é necessário repensar a estrutura do Bolsa-Família: "O pior desenho de política de combate à pobreza que a gente pode ter é justamente essa que condiciona o benefício a um nível de rendimento extremamente baixo. O beneficiado não pode ter mobilidade social porque, se aumentar sua renda, terá que abrir mão da bolsa. Como abrir mão de algo que é permanente para trocá-lo por algo instável?".

O economista Marcio Pochmann, da Unicamp, vê nos dados do Cebrap a confirmação de que a economia passa por um quadro que ele chama de "polarização social", ou seja, de distanciamento da renda dos mais ricos em relação aos mais pobres. "Os programas de transferência de renda são o que é possível fazer numa economia que não cresce de forma sustentada e são compatíveis com os programas de ajuste fiscal. Gasta-se relativamente pouco do PIB com o Bolsa Família, mas faltam recursos para investir em escolas, hospitais e outros serviços públicos que ajudariam de forma mais eficiente essa população a vencer a pobreza e ingressar no mercado de trabalho", diz Pochmann.

Para a economista Sonia Rocha, a tendência de redução de desigualdade (medida pelo IBGE pelo índice de Gini) ainda não é robusta. "Essa redução depende do tipo de crescimento econômico e da oferta e demanda por mão-de-obra qualificada. Com crescimento rápido e insuficiência de oferta de mão-de-obra qualificada, a desigualdade de rendimentos de trabalho tende a aumentar."

Feliz Natal

Não tenho religião. Há cerca de 35 anos que me reconheço ateu. Se não acredito em Deus, não posso crer que Jesus seja seu filho – nem reconheço o suposto milagre de ter ele nascido de uma virgem. Logo, segundo alguns, eu não teria razão para comemorar o Natal. Mas o comemoro — exatamente pela razão que os pios defensores do cristianismo o criticam.

Ainda ontem ouvia a CBN entrevistar um teólogo — de sobrenome germânico e sotaque típico de padres católicos — acerca do significado do Natal. Foi a mesma ladainha de sempre: crítica ao "comercialismo" que cerca a festa, crítica ao "presentismo", crítica às ceias elaboradas. Para o teólogo, se se vai dar presentes, deve-se dar um presentinho simples, barato, simbólico — simbólico do fato de que o presente que Deus nos teria dado no Natal foi dado de graça… (mas será que, mesmo dentro da simbologia cristã, não teria custado nada?). Para o teólogo, se vamos cear (e todos nós temos de comer), devemos optar por uma refeição singela, pouco calórica — também simbólica da pobreza em que Jesus teria nascido, numa mangedoura…

Todo Natal ouço / leio analistas repetindo essas bobagens.

Quanto a mim, o que acho bonito nessa época é o esforço que as pessoas fazem para se reunir com aqueles a quem amam, o esforço para, pelo menos uma vez no ano, sentarem-se todos ao redor de uma mesa farta, o esforço para presentar aqueles de quem gostam. O Natal é o Dia de Ação de Graças brasileiro — já que, diferentemente dos irmãos do Norte, não celebramos a quarta quinta-feira de Novembro.

Algum astuto pode perguntar: mas se você é ateu, a quem dar graças?

"Dar graças", na minha sintaxe pessoal, é uma expressão que não precisa ter um destinatário específico — dispensa, portanto, um objeto transitivo indireto. A expressão representa o nosso reconhecimento de que boa parte do quinhão que nos cabe nessa vida é derivado da sorte. A gente poderia ter nascido no Iraque. Nascemos aqui. Tivemos sorte. A gente poderia ter sido filho de Saddam Hussein. Não fomos. Tivemos sorte. A gente vai atravessar a rua e é quase tolhido por um caminhão em velocidade: mais um passo nosso e estaríamos mortos, mas não demos esse passo. Tivemos sorte. Quem acredita em Deus prefere acreditar, nesse último caso, num pequeno milagre. Eu digo que tivemos sorte.

Muita gente morre num primeiro infarto. Eu tive sorte. Muita gente tem filhos que são vabagundos, drogados, salafrários. Eu tive sorte. Muita gente tem, como Sócrates, uma mulher que o faz preferir tomar cicuta. Eu tive sorte. Muita gente não tem por que, ou com quem, ou com que comemorar o final de mais um ano bem sucedido. Eu tive sorte.

Portanto, tenho muito pelo que dar graças.

Os impertinentes vão dizer que, ao reconhecer o papel da sorte, eu contradigo meu ponto de vista já conhecido de que nosso sucesso na vida depende em grande medida de nosso talento e de nosso esforço. Não creio que me contradiga. Quando afirmo isso, que é algo em que sinceramente acredito, sempre reconheço que há, no sucesso ou no fracasso de nossos projetos de vida, ao lado do talento, ou da falta dele, e do esforço, ou da falta dele, sempre um elemento de sorte — alguns chamam esse fator de "serendipity", que meu dicionário Inglês – Espanhol traduz como "hallazgo casual beneficioso, hallazgo afortunado, hallazgo no esperado; buena racha". Buena racha é bom…

Passo meu Natal aqui com a família no meu recanto em Salto. Os dias aqui têm sido lindos — mas terrivelmente quentes. Bons para serem curtidos dentro da piscina, protegidos por um bom filtro solar.

Eu tenho sorte de que posso celebrar a festa de Natal junto aos filhos, aos netos, e, naturalmente, à mulher, companheira de mais de 31 anos. Apenas minha filha e minhas netas que moram nos Estados Unidos não estarão aqui.

Mas elas chegam em aproximadamente três semanas.

Um abraço a todos. Que os presentes lhes agradem e que a comida seja farta e gostosa — e que o ambiente seja propício à confraternização.

Em Salto, 25 de dezembro de 2005

A moralidade

Entende-se a categoria de nossos julgamentos morais de várias maneiras.

Certamente fazemos julgamentos sobre o que é certo e errado de várias perspectivas. Uma é a perspectiva do costume (é errado namorar três pessoas diferentes ao mesmo tempo); outra é a da lei (é errado dirigir do lado esquerdo numa estrada brasileira de duas mãos); outra é a da etiqueta (é errado falar com a boca cheia); outra é a da moda (é errado ir a uma festa chic usando terno, gravata e tênis).

Mas é um fato quase universal que há certos julgamentos sobre o que é certo e errado que se colocam num plano diferente de todos esses: os julgamentos morais: é errado matar os outros (por exemplo).

Há certos julgamentos sobre o que é certo e errado acerca dos quais temos dúvida sobre que categoria ocupam.

É errado mentir, por exemplo. Certamente é parte do costume da maior parte das culturas considerar a mentira como algo errado, censurável. Mas é moralmente errado? Mentir, durante a Segunda Guerra, para salvar a vida de uma família de judeus que se escondia da Gestapo — seria algo moralmente errado (ou, pelo contrário, algo eminentemente certo do ponto de vista moral?). A lei brasileira não pune a mentira — exceto em situações em que a lei exige ou espera que você fale a verdade (você sendo culpado de "falsidade ideológica" se não disser a verdade naquelas situações…).

É errado trair o cônjuge, seria um outro exemplo. Isso é parte do costume apenas ou é uma proibição moral? A lei brasileira não pune mais o adultério como crime.

E assim vai.

Mas interessante do que esses casos de enquadramento difícil é a base de nossos julgamentos morais. Com base em quê julgamos algumas formas de conduta moralmente certas e outras moralmente erradas?

Tradicionalmente, a religião (a Bíblia no caso dos cristãos, ou, em última instância, Deus) era considerada a regra de conduta moral. Se a Bíblia sancionava uma conduta, ela era moralmente certa; se a condenava, era moralmente errada; se não dizia nem sim nem não, a conduta não tinha importe moral (era parte do que se chamava, em grego, adiaphora: o tanto faz como tanto fez). Mas hoje em dia a religião não tem mais tanta importância na vida das pessoas para ocupar essa posição importante. E há religiões diferentes. E há ateus (convictos, como eu, e práticos).

Ainda tradicionalmente, muitos autores têm defendido o ponto de vista de que a sociedade é quem decide o que é certo e o que é errado do ponto de vista moral. Esse ponto de vista, porém, faz com que se perca a distinção entre a moralidade e os costumes. Os relativistas, porém, gostam de adotar esse ponto de vista — para poder argumentar que o certo e o errado do ponto de vista moral depende das circunstâncias (do tempo e do espaço). Foi essa questão (no artigo da Danuza Leão) que nos trouxe à discussão desse tópico.

Outros autores, como Kant, acham que temos um faculdade, a razão, que nos permite decidir, para qualquer ação contemplada, se é moralmente certa ou moralmente errada. Kant sugeriu um princípio — a universalização — para nos ajudar a decidir (princípio esse parecido com a Lei Áurea — da qual é derivado): uma ação é moralmente certa se, ao executá-la, podemos sinceramente desejar que qualquer pessoa, confrontada com aquelas circunstâncias, fizesse o mesmo.

Ainda outros autores acham que temos um "sentido moral", um tipo de intuição moral, que nos diz o que é moralmente certo e o que é moralmente errado sem que tenhamos de usar nossa razão.

E assim vai.

Eu adoto uma postura chamada de naturalista — que poucos autores adotam hoje. Para mim a moralidade não é algo imposto por Deus ou pela sociedade. É algo que é derivado de nossa própria condição e natureza humana. Nós, humanos, somos seres não só mortais mas facilmente perecíveis. Porque podemos perdê-la tão facilmente, e porque ela é condição de possibilidade para tudo o mais que queiramos ser ou fazer, nossa vida é o nosso bem maior. Mas a vida nos é um bem não só enquanto sobrevida (sobrevivência à morte) — mas pelas possibilidades de realização pessoal que ela nos oferece. Podemos escolher o que vamos ser, o que vamos fazer de nossa vida. Temos liberdade de escolha — e o que vamos ser, o que vamos fazer de nossa vida, depende dessa liberdade.

Parece-me evidente que certas condutas humanas contribuem para a preservação de nossa vida e para a realização de nosso projeto de vida — e que outras condutas humanas levam para a destruição de nossa vida e para a impossibilitação da realização de nosso projeto de vida. Para mim, a primeira categoria de conduta compreende o que é moralmente certo; a segunda, o que é moralmente errado. O moralmente certo envolve um imperativo categórico de realização pessoal: meu primeiro dever moral é a busca de minha realização, com base em meus valores — ou, em outras palavras, a minha felicidade.

Sem uma moralidade desse tipo perecemos (em cujo caso tudo se acaba) ou nos tornamos parasitas (que têm de ser cuidados, ou mantidos vivos, por terceiros. Em nenhuma dessas duas hipóteses temos uma realização pessoal com base num projeto de vida construído em cima de nossos valores.

Em Campinas, 5 de dezembro de 2005

Três conceitos de igualdade

Existem, a meu ver, pelo menos três tipos de igualdade a que se pode aspirar – e que parece possível alcançar. 

Com a ressalva “e que parece possível alcançar” excluo, aqui, a igualdade absoluta em todos os aspectos: a igualdade de gêmeos monozigóticos (univitelinos) ou de clones nascidos e criados em condições ambientais, inclusive culturais, absolutamente idênticas. Nessa hipótese todos seríamos absolutamente iguais, tanto geneticamente como nas características desenvolvidas.

Mesmo assim, só se pode imaginar que todos seríamos absolutamente iguais nessa hipótese, até mesmo em termos de resultados (daquilo que cada um fizer com sua vida), se for excluída a possibilidade do livre arbítrio. Se o livre arbítrio for inserido na equação, é possível imaginar até mesmo que indivíduos geneticamente idênticos nascidos e criados em condições idênticas tomem decisões diferentes, e, portanto, alcancem resultados diferentes em suas vidas…

Mas essa hipótese considero inalcançável, pelo menos em condições sócio-políticas que fiquem aquém de absoluto totalitarismo, em que um super-ditador alcançasse poderes de promover engenharia genética. Digo isso a despeito das hipóteses levantadas nas chamadas utopias negativas (ou distopias) Brave New World, de Aldous Huxley (vide http://www.huxley.net/) e Walden Two, de Burrhus Fredric Skinner (vide http://en.wikipedia.org/wiki/Walden_Two).  

Vamos, portanto, aos três tipos de igualdade que me parecem alcançáveis em condições não exatamente totalitárias – mas que podem chegar perto.

1) Um tipo de igualdade é a chamada igualdade formal, diante da lei. Esse tipo de igualdade pressupõe que a lei (e, conseqüentemente, o governo) deve tratar todos de forma igual, sem qualquer discriminação, simplesmente em função de fato de serem humanos – mesmo que sejam totalmente desiguais em quase todos os aspectos particulares de sua vida, sejam eles naturais (biológicos e psicológicos) ou desenvolvidos na vida em sociedade (devidos ao ambiente).

Para um liberal radical como eu, esta é a única igualdade que é possível alcançar sem nenhuma violência à liberdade dos indivíduos que compõem a raça humana.  Esse tipo de igualdade é perfeitamente compatível com a liberdade.

2) Outro tipo de igualdade é a chamada igualdade de resultados. Aqui não se espera simplesmente que a lei (e, conseqüentemente o governo) trate todos de forma igual, mas que todos, a despeito de suas diferenças (genéticas ou desenvolvidas na vida em sociedade), alcancem resultados iguais, do ponto de vista social e econômico, com o que resolverem fazer com sua vida.

Segundo esse ponto de vista, desigualdade sociais e econômicas são inaceitáveis – representam “injustiças sociais” e “iniqüidades” – e devem, portanto, ser removidas pelo governo. Assim, se uma pessoa resolve dedicar sua vida aos estudos, ficando na escola durante mais de vinte anos, para se tornar um professor universitário, e sendo obrigada a continuar estudando para alcançar o seu objetivo de vida, e outra pessoa resolve não estudar nada e viver sem trabalhar, as duas pessoas deveriam não só ter uma renda idêntica, paga pelo governo, como receber, da sociedade, o mesmo reconhecimento (status, prestígio, etc.). Da mesma forma, se alguém é extremamente talentoso na prática do futebol, e se dedica a treinar com afinco, e outro é um perneta, que não faz esforço nenhum para melhorar nesse aspecto, mas os dois querem jogar, digamos, no Milan da Itália, o governo deveria obrigar o Milan a aceitar os dois e a pagar-lhes o mesmo salário, não discriminando contra o perneta. Na verdade, não poderia haver nem mesmo desigualdades entre os times. O Luceliense Futebol Clube de minha terra natal teria de receber da sociedade o mesmo reconhecimento (status, prestígio, etc.) que o Milan e, por causa disso, ser capaz de pagar aos seus jogadores os mesmos salários (através, digamos, de subsídios governamentais).

Para que o governo pudesse tornar possível rendas idênticas para pessoas com qualificações tão diferentes, ou subsidiar times tão diferentes em qualidade, teria de ter recursos inesgotáveis. E para ter recursos inesgotáveis, teria de extrair esses recursos de quem conseguisse obtê-los, por seus próprios meios, através de seu diferencial no mercado. Uns, os mais capazes (por características naturais ou desenvolvidas), estariam, assim, financiando a igualdade dos menos capazes e dos incapazes.

Isso não se consegue sem violar drasticamente a liberdade e os direitos individuais dos mais capazes. E, com raras exceções, as pessoas, ao perceberem que estavam trabalhando em grande medida para sustentar os outros, que pouco ou nada fazem para melhorar sua situação, parariam de trabalhar tanto – levando a economia da sociedade a um colapso (como, de resto, aconteceu em sociedades comunistas).

Por isso, nem mesmo a esquerda mais radical tem defendido, hoje em dia, total igualdade social econômica como um objetivo a ser buscado. Fala apenas em reduzir desigualdades, promover “justiça social”, etc. – sem deixar muito claro o que se pretende com isso.

3) Nesse contexto, há vários que defendem a chamada “igualdade de oportunidades”. A igualdade de oportunidades seria um meio termo: iria além da igualdade formal, diante da lei, mas não chegaria ao extremo de uma igualdade total de resultados. O que se espera é que as pessoas tenham todas oportunidades iguais na vida – o que fazem dessas oportunidades, através de suas escolhas e decisões, seria problema delas. O que é preciso, afirma-se, é que “as condições iniciais” da “corrida pela vida” sejam idênticas. O que cada um faz na corrida é problema seu. Que ganhe o melhor. (Acabo de ver e ouvir na CNN Ásia um empregado da Unilever que viveu durante 35 anos na África do Sul dizer que é preciso “level the field”, nivelar o campo de jogo, ou igualizar as condições iniciais, para que haja “verdadeira competição”.

Parece bonito, quando dito assim.

Mas como é que se consegue igualizar as condições iniciais de quem nasce no Morumbi, em São Paulo, e quem nasce no sertão do Piauí? Ou de quem nasce em uma família de milionários na Suíça e quem nasce de uma mãe solteira e aidética numa tribo do deserto do Sahara? De quem tem um QI de 200 e quem tem um QI de 70? Ou de quem nasce com o talento para o futebol que tem o Ronaldinho Gaúcho e quem não consegue chutar uma bola? Ou de quem tem consegue representar como o Anthony Hopkins ou a Fernanda Montenegro e alguém que não consegue declamar uma poesia numa festinha de aniversário? Ou de quem consegue estudar competentemente os grandes mistérios da vida, da mente, ou do universo, como Darwin, Freud e Einstein, e, digamos, alguém que não consegue sequer aprender a ler, escrever e contar na escola, depois de anos de tentativa?

A meu ver, não se consegue – e é vão tentar. Isso não quer dizer que não se deve tentar melhorar a situação de quem enfrenta piores condições iniciais. Mas deve se fazer isso através da iniciativa privada e com realismo. Confiscar recursos, através de taxação, dos que nasceram em condições iniciais melhores para aplicá-los na tentativa de igualizar as condições iniciais, envolve não só interferir indevidamente com a liberdade e os direitos individuais dessas pessoas, mas, pior, fazer isso em nome de um objetivo (igualdade de oportunidades) inalcançável – totalmente utópico.

E não adianta ficar falando que é preciso não abandonar as utopias. Há utopias que são alcançáveis – e temos todo direito de tentar promove-las, com nossos próprios recursos. Mas tentar promover utopias irrealizáveis e, pior, com o dinheiro dos outros, é totalmente injustificável.

É parte da condição humana que não escolhemos o local e a data em que vamos nascer nem as condições sociais, culturais e econômicas do casal que nos gerou. E também não vamos escolher a combinação de genes que vamos herdar de nossos pais.

Só podemos escolher o que vamos fazer com a carga genética que herdamos e com as condições sociais, culturais e econômicas em que nascemos.

A natureza é imparcial no sentido de que não atribui uma carga genética excepcionalmente favorável apenas a pessoas que nascem em condições sociais, culturais e econômicas favoráveis. Nascem gênios entre os pobres e ignorantes e verdadeiras toupeiras entre os ricos e cultos.

É possível, portanto, e totalmente justificável, ajudar cada um a desenvolver ao máximo os seus talentos naturais, dentro das circunstâncias em que nasceu, com o objetivo de possa transcender essas circunstâncias e, assim, permitir que os seus filhos nasçam em condições sociais, culturais e econômicas melhores.

O que não é admissível é tentar manipular a carga genética das pessoas, para igualizá-las, nem violar as liberdades e os direitos individuais de alguns para dar aos demais condições iniciais iguais – a chamada igualdade de oportunidades.

Em Seul, 7 de novembro de 2005

A Coréia do Sul e o Brasil

Estou no momento em Seul, na Coréia do Sul. 

Não tenho nenhuma dúvida de que o único jeito de o Brasil crescer economicamente e se desenvolver, não apenas econômica mas também social e politicamente – assim vindo a reduzir permanentemente a pobreza — é estando aberto a, e se abrindo para, relações comerciais com o resto do mundo. 

Sou um liberal impenitente. Mas a questão aqui não é apenas de compromisso com o liberalismo econômico. É uma questão empírica que pode ser facilmente verificada.

Tenho visitado recentemente Cingapura, Taiwan (Formosa), Hong Kong, e, agora, Coréia do Sul — países que havia visitado há 21 anos, em 1984 (Cingapura em 1992). É inacreditável a mudança que aconteceu desde minha última visita a esses lugares. Especialmente aqui na Coréia. 

É inacreditável o que vem acontecendo nesses países. Nenhum deles (considerando Hong Kong um país) deve ser denominado “em desenvolvimento”. Eles são países que se desenvolveram nas últimas décadas. 

A Coréia do Sul, em especial, é um país desenvolvido hoje. A mudança é visível nos prédios, nas ruas, nos carros, na cara e na casa das pessoas. A Coréia do Sul passou para o Primeiro Mundo — e o fez abrindo-se para o comércio mundial e investindo em educação. 

Peguemos a indústria automobilística. Aqui não é proibido importar um automóvel (embora haja um imposto de importação — pequeníssimo, comparado com o brasileiro). Mas você olha nas ruas e há quase só Hyundai (que agora é dona da Kia), Daewoo, Ssangyong… Por quê? 

Ouso citar três razões. 

Primeiro, porque, sendo feitos aqui, são um pouco mais baratos (em razão do fato de que não pagam imposto de importação, não tem grande custo de frete, etc.). 

Segundo, porque sabem que o crescimento da indústria nacional (i.e., coreana) ajuda a manter os empregos e o nível de vida deles. 

Mas não é só isso. 

Mas há um terceiro fator importante: orgulho do país. Aqui as pessoas preferem comprar um produto feito aqui a comprar um produto importado. E o fazem, em grande medida, porque têm orgulho do fato de que o país conseguiu se desenvolver e produzir carros (e outros produtos) de qualidade comparável à de outros países já estabelecidos no Primeiro Mundo há tempos.

As companhias coreanas que fabricam automóveis hoje têm sócios estrangeiros, mas têm grande participação coreana. Mas as marcas são coreanas — e o mundo inteiro sabe disso. Essas empresas foram capazes de conquistar o mercado interno e competir no mercado mundial, porque, apesar de haver uma preferência pelo produto nacional, por orgulho e porque o crescimento da indústria nacional ajuda a manter os empregos deles, não há xenofobismo do tipo expresso na última Cúpula das Américas. Aqui na Coréia não há aquele sentimento de inferioridade de que o resto do mundo conspira para perseguir o país.

Peguemos a indústria de eletrônica de consumo… Hoje passei umas seis horas num shopping de eletrônica, chamado Techno-Mart. Tem dez enormes andares, cada andar dedicado a um tipo de produto. Dos dez, dois são dedicados a produtos estrangeiros — mais caros um pouco, por causa de frete e porque impostos de importação não foram (ainda) totalmente eliminados. Dos dez andares, seis são dedicados a produtos coreanos (dois são de restaurantes, loterias, etc.). Têm de tudo, desde produtos da Samsung (líder mundial em chips, notebooks, monitores, inclusive LCD, câmeras, etc.) até televisores, aparelhos de som, geladeiras, freezers, máquinas de lavar e secar — tudo com marcas coreanas.

Por que a Coréia do Sul foi tão bem sucedida em algo que nós, brasileiros, não  conseguimos fazer — apesar de termos um país muito maior, muito mais cheio de recursos? 

Em termos de território, a Coréia é um paisico. Economicamente, está pertinho do gigante Japão, a segunda economia do mundo. Politicamente, está grudada na China, um monstro de país, e é um país dividido, com metade do país ainda sob regime comunista. Culturalmente, fala uma língua que o resto do mundo dificilmente consegue aprender: os coreanos não têm nenhuma dúvida de que são eles que têm de aprender outras línguas, em especial o Inglês.

 (No Techno-Mart fiquei bobo de ver a quantidade de dicionários eletrônicos: os dicionários são um produto que vende adoidado aqui. E não só os eletrônicos: numa livraria que visitei, a seção de livros destinados ao aprendizado de línguas [dicionários, gramáticas, etc.]).

E há as diferenças culturais: a idéia de que cada um é responsável pela sua sorte, que ninguém deve ficar esperando o governo resolver seu problema, que o que cabe a cada um depende do mérito da pessoa e não na sua capacidade de subornar, que as dificuldades que o país ainda tem de enfrentar não são causadas por conspirações do resto do mundo contra a Coréia do Sul e os coreanos… Isso tudo faz uma diferença enorme!

Poderia resumir dizendo que a Coréia do Sul é um país sério. O Brasil, como de Gaulle claramente viu, "n’est pas un pays sérieux". Aí está a diferença.

Há desigualdade social aqui? Claro que há — como há em qualquer país que se desenvolve e enriquece. (A desigualdade acontece porque alguns se tornam ricos, não porque alguns se tornam pobres). Há gente que prefere sair e tentar a sorte em outros países, inclusive no Brasil? Claro que há — isso acontece em qualquer país. Mas, em geral, há confiança no país — e mais do que isso: orgulho do que o país foi capaz de realizar em tão pouco tempo.

A divisa entre a Coréia do Sul e a do Norte impede os do norte de vir para o sul: os do sul não querem ir para o norte… A Coréia do Norte é a Cuba da Ásia. O símbolo do atraso e da pobreza. Mas têm armas nucleares — que os cubanos também teriam se o Kennedy não tivesse sido macho (uma única vez, a despeito da fama construída) em 1960.

A esquerda que domina a política e a cultura de boa parte da América Latina é a grande  que responsável por manter esse continente no atraso. Espero que o presidente Vicente Fox do México e os demais países (fora os do Mercosul e a Venezuela) façam acordos independentemente ou em grupo, com os Estados Unidos e a Nafta. Chávez, e os bobocas do Mercusul precisam de uma lição. O Chile, para mim, é o exemplo de um país com a cabeça no lugar na América do Sul.

Quanto ao Lulla?

Tendo a achar — ou pelo menos a esperar — que a sua eleição terá, no médio e longo prazo, sido boa pro Brasil. Se nos vacinar contra a demagogia do PT e da esquerda, terá sido ótimo. Teremos avançado um pouco, ainda que por linhas tortas.

Em Seul, 6 de novembro de 2005

Os Estados Unidos e Cuba

Comento o artigo abaixo sobre o suposto bloqueio dos Estados Unidos a Cuba.

Acho o máximo esse tipo de história que a esquerda consegue inventar…

1) Os Estados Unidos não estão nem nunca estiveram bloqueando Cuba (exceto durante o breve episódio da crise dos mísseis, em 1960, em que Kennedy enfrentou Kruschev). Se o que hoje existe fosse algum tipo de bloqueio, todo mundo veria navios e aviões americanos patrulhando a costa e o céu de Cuba para impedir que navios e aviões de outros países chegassem lá com qualquer mercadoria. Isso absolutamente não existe.  A esquerda pretende caracterizar como bloqueio o que de fato é bloqueio – e pretende fazer isso pelo cansaço, pela simples repetição catecísmica ca mesma besteira.

2) O que os Estados Unidos vêm fazendo com Cuba é um embargo. Sobre quem recai o embargo? Exclusivamente sobre as empresas americanas, que estão proibidas, pelo governo americano, de comercializar com Cuba — vender e/ou comprar – e sobre os cidadãos americanos, que têm sua liberdade de viajar para Cuba restringida (não podendo viajar diretamente dos Estados Unidos para Cuba: quem quer ir lá (e muitos vão) tem de passar por um outro país e conseguir uma autorização de entrada em Cuba.

3) Os Estados Unidos não tentam, e se tentassem não conseguiriam, impedir nem mesmo seus aliados mais chegados de comercializar com Cuba. Todos os países do mundo comercializam com Cuba, menos os Estados Unidos. E não tentam, e se tentassem não conseguiriam, proibir cidadãos de outros países de visitar Cuba: eu mesmo já estive lá. Na verdade, os Estados Unidos não conseguem nem mesmo proibir americanos de visitar Cuba: vira e mexe tem americano lá em Cuba. Se é famoso e de oposição ao atual governo, tem grande cobertura da imprensa.

4) Embargos são atos unilaterais, sim. No momento vários países embargaram a compra de carne bovina brasileira – e o fizeram unilateralmente, sem consultar se o Brasil estava de acordo com o embargo. No caso do embargo dos Estados Unidos contra Cuba, o embargo também é unilateral: foi decretado pelos Estados Unidos, sem consultar se Cuba estava de acordo (pelo jeito não está…), e incide sobre empresas dos Estados Unidos e cidadãos americanos.

5) A propósito, Fidel Castro tem um embarguinho dele também: proíbe os cubanos de sair de Cuba para os Estados Unidos (porque ele sabe que, se saírem, ficarão por lá).

6) Não há a menor dúvida de que o embargo foi decidido pelos Estados Unidos para trazer prejuízos econômicos para Cuba, sim… Cuba está vendo, no processo, o quanto é ruim não poder vender nada pros Estados Unidos nem comprar nada dos Estados Unidos. E é bom que veja.

7) O exercício, por Cuba, do chamado jocosamente de jus sperneandi é prova inequívoca de uma coisa: Cuba quer poder comercializar com os Estados Unidos (porque com o resto dos países do mundo já comercializa, o embargo americano não os afetando).

8) Cuba, entretanto, não tem direito de comercializar com os Estados Unidos – comercializa apenas se os Estados Unidos quiserem. O Brasil quer vender um número enorme de coisas para a Argentina (por exemplo), que a Argentina não quer comprar do Brasil. Há, nesse caso, um embargo parcial. Comércio é assim mesmo, é algo que exige dois parceiros: se um não quer comercializar, o outro não pode pretender que um direito seu foi lesado. Ponto final.

9) É o cúmulo da idiotice e da imbecilidade tentar quantificar o prejuízo que Cuba vem tendo com o embargo americano… Seria ótimo ver a memória e a metodologia dos cálculos que levaram aos "54 mil millones de dólares".

10) Esse negócio de denunciar os Estados Unidos à ONU ou de afirmar que os Estados Unidos estão fazendo terrorismo, ato de guerra, genocídio, etc. contra Cuba é um papo furado que não convence ninguém. Só é repetido por cacoete de quem reza pelo catecismo comunista diariamente.  

Por fim, pessoalmente acho que os Estados Unidos deveriam levantar o embargo. Acho, porém que só vão levantá-lo quando o Fidel Castro morrer. Não vão querer dar o gostinho ao ditador caribenho de dizer que sua luta foi finalmente bem sucedida.

Em Chicago, 4 de novembro de 2005

 —–Original Message—–

From:Antonio Morales
Sent: Thursday, 03 November, 2005 22:27
To: discutindo@livremente.net
Subject: [LivreMente] La ONU y el bloqueo a Cuba

La ONU y el bloqueo a Cuba

Rodrigo Santillán Peralbo (*)

El daño económico causado al pueblo cubano por la aplicación del bloqueo impuesto, unilateralmente, por Estados Unidos desde hace 45 años, asciende a unos 82 mil millones de dólares. A esa monstruosa cifra debe agregársela 54 mil millones de dólares por daños directos a objetivos económicos y sociales por efecto del terrorismo organizado, financiado y ejecutado por Estados Unidos a través de la CIA

Lucha por la independencia y la unidad de América latina

Ese bloqueo económico, comercial y financiero practicado por Estados Unidos, es el más prolongado y cruel que haya conocido la historia de la humanidad y forma parte esencial de su política de hostilidad y agresiones contra el pueblo cubano.

Su objetivo, definido el 6 de abril de 1960, ha sido la destrucción de la Revolución Cubana "a través del desencanto y el desaliento basados en la insatisfacción y las dificultades económicas," negarle dinero y suministros a Cuba, para disminuir los salarios reales y monetarios a fin de causar hambre, desesperación y el derrocamiento del gobierno, según consta en el informe secreto del funcionario del Departamento de Estado, I. D. Mallory, desclasificado en 1991.

El bloqueo contra Cuba, con sobra de razones, ha sido calificado como genocida conforme con la Convención de Ginebra de 9 de diciembre de 1948, por cuanto son "actos perpetrados con la intención de destruir total o parcialmente a un grupo nacional." Estados Unidos ha pretendido, inútilmente, destruir al pueblo cubano y su Revolución, ya sea con el bloqueo o con otros actos de guerra violatorios de los principios y normativas del Derecho Internacional.

La Asamblea General de la Organización de Naciones Unidas, resolvió en trece ocasiones, que Estados Unidos ponga fin a esa política de bloqueo que es una política de guerra, perpetrada por la primera potencia mundial, en contra de una República libre y soberana que no ha cometido más delito que ejercer el derecho a la autodeterminación.

La ONU se apresta a dictar una resolución que condene ese injusto e inhumano bloqueo y lo hará con el apoyo, casi total, de todos los países miembros. Estados Unidos tiene la obligación de acatar las resoluciones de la ONU.

* Rodrigo Santillán Peralbo: Periodista ecuatoriano, miembro del Consejo Editorial de Altercom, presidió de la Unión Nacional de Periodistas, profesor de la Universidad Central del Ecuador, autor de varios estudios publicados, fue director de la Revista Siempre, ahora integra el Tribunal Contra la Guerra y es columnista del Diario Nacional La Hora.

Três conceitos de liberdade

Isaiah Berlin escreveu um artigo que marcou época sobre dois conceitos de liberdade: o de liberdade negativa e o de liberdade positiva. Ele defendia o primeiro.

Hoje comprei um livrinho sobre Isaiah Berlin, escrito por John Gray, e uma coisas que ele disse ajudou a cair a minha ficha…

Com a caída da ficha, parece-me razoável argumentar que, além da chamada liberdade positiva (que, a meu ver, não é liberdade, razão pela qual não vou discuti-la aqui: quem estiver interessado procure o artigo de Isaiah Berlin), há três tipos de liberdade (negativa).

Antes de mais nada, vou brevemente esboçar duas características que esses três conceitos de liberdade (negativa) têm em comum:

Primeiro, todos os três entendem liberdade como não-coação: eu sou livre, se não sou coagido.

Segundo, há dois tipos de coação: aquela que me impede de agir e aquela que me obriga a agir.

Terceiro, a coação é sempre uma ação humana: não faz sentido falar em coação por parte da natureza.

Isso posto, quais são os três tipos de liberdade?


a) Liberdade como a ação segundo o desejo

Em geral se entende liberdade como a possibilidade de agir, sem coação, para realizar o que se deseja – ainda que o desejo seja irrefletido ou mesmo imoral. Ajo livremente, nesta concepção, se, por exemplo, desejando matar alguém, e não sendo nem obrigado a fazê-lo nem impedido de fazê-lo, eu vou e mato a pessoa.


b) Liberdade como a ação segundo o dever

Muitas pessoas acham o conceito anterior repugnante – e argumentam que ele dá uma má reputação à liberdade. Lembro-me de um livrinho que li, parece que faz séculos, de um teólogo alemão chamado Helmut Thielicke, e que tinha o título de “Die Freiheit des christlichen Menschen”(A liberdade do homem cristão). Nesse livrinho ele argumentava que liberdade, para o cristão, não é poder fazer o que se quer, mas, sim, poder fazer o que se deve. A liberdade, aqui, é circunscrita pela moral. Não é livre, neste conceito, quem faz o que deseja – se o que se deseja é imoral. A liberdade (para o cristão) consiste em poder fazer o que se deve – isto é, em fazer o que se deve sem coação de qualquer espécie. (O indivíduo que é obrigado a fazer o que deve não é livre, nessa concepção, porque é coagido, e o indivíduo que faz o que deve porque é impedido, por coação, de fazer qualquer outra coisa também não livre, porque também é coagido). 


c) Liberdade como a ação mediante a escolha

Acho que a concepção anterior vai longe demais – mas chama a nossa atenção para um elemento importante.

Vai longe demais porque não faz muito sentido dizer que é livre apenas a pessoa que age moralmente, que faz o que deve, que faz o que é certo. A liberdade parece implicar a possibilidade de fazer também o que é moralmente errado, o que não é certo, enfim, o que não se deve.

Por outro lado, a possibilidade de escolha parece essencial para a liberdade. Se todas as opções de agir diferentemente me são impedidas por terceiros, eu estou coagido e não há como falar em liberdade. Mas também se eu ajo de forma irrefletida e impensada, sem submeter a minha ação a um processo racional de tomada de decisão, que leva em conta cursos alternativos de ação, as conseqüências de todas as alternativas, etc., parece que a liberdade se confunde com o mero impulso ou com o desejo cego.


Assim colocadas as três alternativas, parece-me evidente que a terceira é superior. John Gray argumenta que Isaiah Berlin tinha essa visão da liberdade. Mas confesso que, em minhas leituras dele, antes de ler o livro de John Gray, não havia me dado conta de que o conceito de liberdade (negativa) poderia ser diferenciado nessas três facetas. Delas, John Gray discute apenas a primeira e a terceira. A segunda é contribuição minha – fruto de meu passado na teologia… (A propósito, li o livreto de Thielicke quando estudava na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, RS, nos idos de 1966. Parece séculos atrás.)

Em Campinas, 25 de outubro de 2005

Informações, conhecimentos e competências

Hoje em dia é comum se dizer – eu mesmo o digo com freqüência – que a educação não tem que ver com a transmissão de informações ou com a "entrega de conteúdos" ("content delivery") aos alunos por parte dos professores, mas, sim, com o desenvolvimento de competências.

Mas o que fazer em relação com a transmissão de informações? E com a chamada "construção" de conhecimentos? Como isso se relaciona com o desenvolvimento de competências? É isso que vou tentar esclarecer um pouco neste curto artigo.

Informação é o tipo de coisa que pode ser deliberadamente transmitida ou transferida de um para outro.

Isso pode acontecer, por exemplo, quando alguém responde a uma pergunta nossa. "Como faço para chegar daqui até o estádio do Morumbi?", pergunto eu a alguém na saída da Marginal do Pinheiros em São Paulo. A resposata do meu interlocutor será um conjunto de informações.

A transmissão ou transferência de informações também pode se dar quando alguém dá uma aula, uma palestra, uma conferência a um grupo de alunos ou a uma audiência. Aulas, palestras e conferências são processos de transmissão ou transferência de informações. Como no caso anterior, o processo aqui é "face-a-face", presencial, como hoje se convencionou chamar. Quem transmite e quem recebe a informação precisa, aqui, estar no mesmo lugar e na mesma hora para que a transmissão se efetive.

Mas informações também podem ser transmitidas ou transferidas, e, do outro lado, adquiridas, sem contato pessoal, em contextos não-presenciais. Quando compro um jornal, uma revista ou um livro, ou quando estou navegando pela Internet, estou adquirindo informações.

Também posso adquirir informações sem que alguém deliberada e intencionalmente as transmita ou transfira, simplesmente observando as coisas e os outros.

Em grande parte em decorrência das tecnologias de informação e comunicação, a quantidade de informações hoje existente no mundo aumentou tanto a ponto de se tornar incalculável — e o acesso às informações se tornou extremamente fácil.

Mas e conhecimentos? A quantidade de conhecimentos, infelizmente, não aumenta na mesma proporção que a quantidade de informações, por uma razão muito simples. Informação é algo que tem existência objetiva, na forma de livros, jornais, revistas, fitas, discos, Internet, etc.. Conhecimento, por outro lado, é algo que se constrói dentro da mente das pessoas. Nunca seríamos capazes de lidar com a quantidade incalculável de informações a que temos acesso a cada minuto se não fôssemos capazes de construir esquemas ou modelos mentais de como é a realidade, de como ela funciona, etc., que nos permitem organizar e resumir as informações pertinentes.  

Há uma diferença muito importante entre "ter a cabeça cheia" (ter muitas informações) e "ter a cabeça bem-feita" (ser capazes de construir esquemas e modelos que permitam que as coisas façam sentido pra nós). As duas expressões vêm de Edgar Morin. Ele tem um livrinho, traduzido para o português, chamado "A Cabeça Bem-Feita". Vale a pena ler.

Rubem Alves, em muitas de suas crônicas, critica a escola porque esta parece acreditar que educar é encher a cabeça das crianças com informações. Segundo ele, estamos produzindo crianças mentalmente obesas, cheias de informação, e não crianças ágeis, que sabem saltar daqui para ali na busca do que lhes interessa… Paulo Freire também criticou a visão bancária da educação: aquela visão que parece pressupor que educar é transferir informações de uma cabeça pra outra (da mesma forma que se transfere dinheiro de uma conta pra outra)… A escola, nesse caso, seria a agência bancária, em que se dão as transferências!

E as competências?

Há uma diferença entre receber informações (em geral indesejadas, porque não atendem a um interesse e nem se sabe para que servem) e buscar as informações necessárias para algo que se deseja fazer…

Uma competência é mais do que uma mera posse de informação.  Uma competência também é algo que vai além de conhecimentos ou "saberes". Competências, na realidade, são "saber-fazeres".

Saber buscar as informações necessárias para algo que se deseja fazer é uma competência. É um saber-fazer. Saber construir esquemas e modelos (e, assim, construir conhecimentos) também é uma competência. É outro saber-fazer. Desenvolver competências, portanto, é algo mais básico do que construir conhecimentos. Sem o primeiro, não teríamos o segundo.

Não precisamos transmitir informações aos nossos alunos – hoje eles têm acesso fácil e eficiente a muito mais informação do que existia no mundo quando eu nasci, em 1943. Precisamos, isto sim, ajudá-los a se desenvolver. Eles se desenvolvem aprendendo. E aprender é tornar-se capaz de fazer aquilo que antes não se conseguia fazer. Aprender, portanto, é desenvolver competências, é se tornar competente: é passar a saber como fazer isso ou aquilo.

Ninguém consegue aprender tudo o que é possível aprender – ou desenvolver todas as competências que é possível ao ser humano desenvolver. O que nos permite selecionar as competências que vamos desenvolver são nossos interesses — em uma palavra, nosso projeto de vida. Quem quer se tornar um músico, um compositor, um autor de ficção, um dançarino, um filósofo, precisa desenvolver competências muito diferentes daquelas que precisa desenvolver quem pretende ser um engenheiro civil, um astronauta, um geneticista, um programador de computadores, um matemático…

Se isso é verdade, faz sentido exigir de todos que "consumam" as mesmas informações que a escola lhes tenta passar? Não deveria a nossa educação escolar ser centrada nas necessidades dos demandantes em vez de na especialização dos ofertantes?

Em Campinas, 25 de outubro de 2005