Jaborice, o mais novo neologismo

Acabo de criar um novo termo: jaborice. Seu significado é simples: uma jaborice é uma burrice que apenas a ignorância de Arnaldo Jabor pode conceber.

Tenho uma perfeita ilustração do uso do termo, retirada do comentário do próprio Arnaldo Jabor na CBN hoje (27 de setembro de 2005). Comentando a triste sorte de New Orleans, vítima do segundo furacão em poucos dias, sorte essa que ele insiste em considerar responsabilidade do presidente Bush e dos republicanos, ele disse que a maior contribuição que os Estados Unidos deram ao mundo foi o jazz. Sic. Literalmente isso. Sem tirar nem pôr.

Antes de dizer mais nada, esclareço que sou um amante do jazz e dos blues, músicas tipicamente negras. Mas entre admirar o gênero, como muitos o fazem, e afirmar que o jazz é a maior contribuição dos Estados Unidos ao mundo vai uma distância tremenda.

E a noção de um estado de direito, fundamentado nos direitos individuais reconhecidos na Constituição, tão bem defendida por Thomas Jefferson?

E a noção de uma “Carta de Direitos” (“Bill of Rights”) do indivíduo, que proíbe o estado de infringir esses direitos, tão bem defendida por Thomas Jefferson?

E a noção da separação dos poderes, que limita o poder do governo através de “checks and balances”, mais uma vez defendida por James Madison?

E a noção de que mesmo o indivíduo mais humilde pode ascender aos postos mais altos da nação, na esfera política, econômica, e cultural, tão bem ilustrada por tantos que foram “from rags to power, riches and fame”?

E as grandes invenções dos grandes inventores americanos?

E as grandes descobertas científicas realizadas nos Estados Unidos, ainda que por pesquisadores de outras nacionalidades, tantas vezes reconhecidas com um Prêmio Nobel?

O Jabor de vez em quando diz alguma coisa interessante. Pena é que, para ouvir uma das coisas interessantes que de vez em quando tem a dizer, tenhamos de ouvir tanta jaborice.

Em Campinas, 27 de setembro de 2005

A Lei e a Conduta Sexual

Janer Cristaldo, em artigo publicado no site Mídia Sem Máscara no dia 5 de setembro de 2005, faz críticas severas à cultura americana do “politicamente correto” e a aspectos dessa cultura que o Brasil, sempre tardiamente, está importando (http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=4055).

A notícia que corretamente chamou a atenção de Cristaldo foi a de que, nos Estados Unidos, um juiz quer prender um marido que engravidou a mulher – porque esta tem 14 anos.  

O fato está se dando na cidadezinha de Falls City, 4.800 habitantes, no estado de Nebraska. Os dois, maridos e mulher, são legalmente casados, com pleno consentimento dos pais da adolescente. Na verdade, os próprios, seus pais e parentes tiveram de se locomover de Falls City até o estado vizinho de Kansas, porque Nebraska simplesmente proíbe o casamento de pessoas com menos de 17 anos – mesmo que os pretendentes a nubentes inequivocamente expressem o desejo e a intenção de se “unirem no sagrado matrimônio” (como diz a Igreja Católica) e os pais do cônjuge menor estiverem plenamente de acordo com as núpcias.

Ela, que se chama Crystal, engravidou, “post matrimonium”, e deu à luz uma menina. Ele, Matthew Koso, de 22 anos, o marido de Crystal, foi, ato contínuo, intimado a se apresentar à Justiça para responder por crime de estupro. A evidência apresentada contra ele foi nada mais nada menos do que a filha do casal.

Enfim, trata-se, a filha do casal, segundo o procurador-geral Jon Bruning do estado de Nebraska, de produto de crime de estupro – embora Crystal não tenha feito queixa alguma e, segundo consta, esteja perfeitamente satisfeita com o alegado estupro do marido e com aquilo que resultou do putativo (leia-se: supositício) crime. Nem, pelo que consta, se queixaram os pais de Crystal – atualmente os orgulhosos avós da evidência processual. [Aqui entre nós, espero nunca vir a me tornar avô de um criminoso – mas desagrada-me ainda mais a idéia de poder ser bisavô de uma evidência criminal…].

O procurador-geral de Nebraska acusa Matthew Koso, o pai da criança (cujo nome infelizmente não se revela), não só de crime de estupro mas de pedofilia!

Diz o procurador-geral:

“Não queremos que homens adultos façam sexo com meninas. . . . Tomamos muitas decisões por nossas crianças: não permitimos que votem, que ingiram bebidas alcoólicas, que dirijam automóveis e que sirvam as forças armadas em guerras aos 13 anos de idade, quer elas gostem disso ou não. E também não permitimos que façam sexo com homens adultos”.

Está aí o estado paternalista levado ao seu cúmulo. Neste caso nem se pode dizer que o estado esteja agindo “in loco parentes” (leia-se: em substituição aos pais) –- porque os pais de Crystal estão de acordo com o casamento e, pelo que parece, bastante orgulhosos da neta que a filha, através desse casamento, lhes propiciou – com uma pequena (aqui presumo) colaboração – ora acusada de criminosa – do marido.

Janer Cristaldo chama a atenção, em seu artigo, para uma peculiaridade da fala do procurador-geral de Nebraska. Ele se opõe a que meninas (presumo que meninos também) de 14 anos “façam sexo com homens adultos”. Pelo jeito, se meninas (ou meninos) de 14 anos fizerem sexo com meninos (ou meninas) de 14 anos, ou com mulheres adultas, tudo bem. O problema em Nebraska aparentemente é, tendo menos de 17 anos, fazer sexo com um homem maior de idade – ainda que o ato seja consentido pela “vítima” — e pelos seus responsáveis legais — e tenha lugar –- como diriam nossos antepassados – “no leito conjugal”, “dentro dos sagrados limites do abençoado vínculo matrimonial”.  

Isso leva ao seguinte absurdo, bem apontado por Cristaldo: a relação sexual entre um homem (sic) de 19 anos e uma mulher (ou, imagino, um homem) de menos de 17 é classificada como estupro legal, mesmo quando os dois sejam casados ao praticarem o ato sexual. Presumo, porém, que Nebraska não seja o tipo de estado que tenha autorizado casamentos homossexuais. O que é claro é que se o fodente for homem e maior de idade, e o fodido tiver menos de 14 anos, o ato sexual é crime. Se quem perpetra o ato não for maior de idade, ou não for homem, aparentemente não há crime. O crime depende não só da idade de quem o comete e daquele (ou daquela) contra quem é cometido, mas, também, do sexo do cometente. [Sinto-me livre para dizer sexo, e não gênero, do cometente (comente?), porque se trata da alguém, ex hypothesi, é maior de idade. De menores de idade, especialmente se mulheres, será sempre de rigueur referir-se ao gênero: imagino que mulheres menores de 14 anos não tenham sexo em Nebraska).

o O o

Tenho receio de que, aqui no Brasil, venhamos a caminhar pela mesma trilha. A mídia constantemente se refere à “prostituição infantil” de “meninas” de 17 anos. (Minha avó, há muito tempo, e minha [então] cunhada, há não tanto tempo, se casaram com 13). Vira e mexe há gente sendo acusado de pedofilia – às vezes apenas por ter em seu computador fotos de garotas nuas de um pouco menos de 18 anos. Fazer sexo se tornou, hoje, no Brasil e no resto do mundo, uma atividade pouco segura em mais de um sentido. Sexo realmente seguro hoje exige não só atestado de saúde mas, também, certidão de nascimento. As aparências enganam. A mulher que aparenta 23 anos pode ter menos de 18. A Lourdinha da novela tem 18 – mas Cléo Pires tem 23… Se as aparências enganam numa direção, podem enganar também na outra. (Glória Peres está perdendo uma excelente oportunidade de discutir pedofilia na novela: bastaria que se descobrisse que Lourdinha, na realidade, mentiu a idade e tinha apenas 17 anos e 11 meses quando transou pela primeira vez com Glauco!!! Já imaginaram a sensação?)

Nossa legislação criminal faz com que, no caso de relação sexual com mulher de 14 anos ou menos, se presuma a violência – e, portanto, se caracterize o estupro – mesmo que a alegada vítima afirme, com todas as letras, que o ato sexual foi consensual — ou até mesmo que foi ela quem o sugeriu, propôs e iniciou.

Felizmente, aqui no Brasil, tudo é meio esculachado – o que permite que, de vez em quando, tenhamos algum bom senso que nos permite colocar de lado o “politicamente correto” e mesmo o texto da lei para fazer o que é certo.  

Vejamos um exemplo.

o O o

Há alguns anos (não me lembro quando) causou algum furor o fato de que um dos ministros do Supremo, Marco Aurélio de Mello, relatou um processo em que inocentou homem maior de idade do crime de estupro, por ter transado com uma menina de menos de 14 anos (na verdade a menina tinha 12). Mas antes que vocês franzam as sobrancelhas, leiam um pouco mais.

[O parecer do ministro Marco Aurélio de Mello, inocentando o réu, foi no sentido de que “não restou configurado o tipo em relação ao qual foi condenado o Paciente [i.e., ou seja, o agente], a saber, aquele consubstanciado no artigo 213, combinado com o artigo 224 do Código Penal”. [O artigo 213 do antigo Código Penal caracterizava estupro como “constranger mulher (sic) à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça”, e o artigo 224 esclarece que “presume-se a violência, se a vítima: (a) não é maior de 14 (catorze) anos …”].

No caso em pauta, não havia dúvida de que a suposta vítima tinha menos de 14 anos. Parece, porém, que três coisas ficaram provadas nos autos. [As citações são retiradas do parecer do ministro relator].

Primeiro, “a vítima se passara por pessoa com idade superior à real”, e, “quer sob o aspecto físico, quer sob o aspecto mental”, era crível que ela tivesse idade superior àquela que realmente possuía. (Em outras palavras: presumo que ela tenha dito ao agente algo equivalente a “Larga brasa que eu fiz 15 anos ontem…”).

Segundo, o ato foi consensual, “a suposta vítima tendo confessado em Juízo que mantivera relação sexual com o Paciente [i.e., o agente] por vontade própria” e que “não foi forçada em hipótese alguma”: transou, enfim, “porque pintou vontade”.

Terceiro, a menina, malgrado sua tenra idade, era uma transante de primeira (isto é: não estava transando pela primeira vez). Pelo que consta dos autos, ela já havia sido “previamente corrompida” antes da “conjunção carnal” objeto do processo. [Essas duas expressões são minhas e não foram retiradas dos autos. Peço que os leitores me desculpem se, quando em vez, sucumbo à tentação de usar juridiquês]. Para citar o ministro relator, a suposta vítima admitiu que “… [“entre outros rapazes”] já ficou com [um] rapaz de nome Valdir [e] que transou com Valdir num sítio abandonado perto da fábrica”. [Felizmente os detalhes ficaram nisso.] Além disso, ela admitiu “que se relacionou sexualmente com o réu por três vezes e que [só] na última foi que seu pai [os] pegou”. Ela admitiu ainda que “manteve relações sexuais com o réu na primeira vez que o conheceu”. Depoimento de testemunha chegou a classificar a suposta vítima de “uma prostitutazinha”. Ou seja, parece que o “rostit” e o “az” eram supérfluos.

Quarto, a suposta vítima ainda confessou “que o [seu] relacionamento … com o pai não é muito bom e que o pai a pressionou para comparecer perante a autoridade”. Segundo conclui o ministro relator, “ao que tudo indica, a ação penal em que condenado o Paciente [i.e., agente] surgiu única e exclusivamente da reação do pai da vítima” (não dela própria). 

[É bom que se esclareça aqui que mesmo uma transante contumaz pode ser estuprada – se for obrigada a manter relações sexuais não consensuais mediante o uso da força ou de “grave ameaça”. Na verdade, o mero fato de a suposta vítima do suposto estupro ser “afeita ao comércio sexual” não invalida a acusação de estupro (nem mesmo quando se trata de putativa (?) vítima de maior de idade). O que a invalida é a comprovação do consentimento – ainda que a suposta vítima tinha uma idade em que se presume que não tivesse condições de dar consentimento].

A questão que se coloca, portanto, como bem vislumbrou o ministro Marco Aurélio de Mello, é a seguinte:  

  1. “Forçoso é concluir que não se verificou o tipo do artigo 213 do Código Penal, no que preceitua como estupro o ato de ‘constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça’;
  2. “A pouca idade da vítima não é de molde a afastar o que confessou em Juízo, ou seja, haver mantido relações com o Paciente por livre e espontânea vontade”; 
  3. “A menor, contando apenas com doze anos, levava vida promíscua, tudo conduzindo à procedência do que articulado pela defesa sobre a aparência de idade superior aos citados doze anos”.  

Com base nessas considerações, o ministro conclui:

“A presunção de violência prevista no artigo 224 do Código Penal cede à realidade. Até porque não há como deixar de reconhecer a modificação de costumes havida, de maneira assustadoramente vertiginosa, nas últimas décadas, mormente na atual quadra. Os meios de comunicação, de um modo geral e, particularmente, a televisão, são responsáveis pela divulgação maciça de informações, não as selecionando sequer de acordo com medianos e saudáveis critérios que pudessem atender às menores exigências de uma sociedade marcada pelas dessemelhanças. Assim é que, sendo irrestrito o acesso à mídia, não se mostra incomum reparar-se a precocidade com que as crianças de hoje lidam, sem embaraços quaisquer, com assuntos concernentes à sexualidade, tudo de uma forma espontânea, quase natural. Tanto não se diria nos idos dos anos 40, época em que exsurgia, glorioso e como símbolo da modernidade e liberalismo, o nosso vetusto e ainda vigente Código Penal. Àquela altura, uma pessoa que contasse doze anos de idade era de fato considerada criança e, como tal, indefesa e despreparada para os sustos da vida.”

Continua o relator:

“Portanto, é de se ver que já não socorre à sociedade os rigores de um Código ultrapassado, anacrônico e, em algumas passagens, até descabido, porque não acompanhou a verdadeira revolução comportamental assistida pelos hoje mais idosos. Com certeza, o conceito de liberdade é tão discrepante daquele de outrora que só seria comparado aos que norteavam antigamente a noção de libertinagem, anarquia, cinismo e desfaçatez.

Ao fim, cabe uma pergunta que, de tão óbvia, transparece à primeira vista como que desnecessária, conquanto ainda não devidamente respondida: a sociedade envelhece; as leis, não? Ora, enrijecida a legislação – que, ao invés de obnubilar a evolução dos costumes, deveria acompanhá-la, dessa forma protegendo-a – cabe ao intérprete da lei o papel de arrefecer tanta austeridade, flexibilizando, sob o ângulo literal, o texto normativo, tornando-o, destarte, adequado e oportuno, sem o que o argumento da segurança transmuda-se em sofisma e servirá, ao reverso, ao despotismo inexorável dos arquiconservadores de plantão, nunca a uma sociedade que se quer global, ágil e avançada – tecnológica, social e espiritualmente. De qualquer forma, o núcleo do tipo é o constrangimento e à medida em que a vítima deixou patenteado haver mantido relações sexuais espontaneamente, não se tem, mesmo a mercê da potencialização da idade, como concluir, na espécie, pela caracterização.

A presunção não é absoluta, cedendo as peculiaridades do caso como são as já apontadas, ou seja, o fato de a vítima aparentar mais idade, levar vida dissoluta, saindo altas horas da noite e mantendo relações sexuais com outros rapazes como reconhecido no depoimento e era de conhecimento público.”

O relator invoca a doutrina para a conclusão que se antecipa:

“Na doutrina encontra-se a corroboração a esta tese. Consoante ensina Magalhães Noronha, a presunção inscrita na letra ‘a’ do artigo 224 do Código Penal é relativa, podendo ser excluída pela suposição equivocada do agente de que a vítima tem idade superior a quatorze anos: ‘Se o agente está convicto, se crê sinceramente que a vítima é maior de quatorze anos não ocorre a presunção. Não existe crime, porque age de boa-fé.’ (Direito Penal, 4ª ed., vol. 3/221). Também Heleno Cláudio Fragoso, em ‘Lições de Direito Penal’, afirma que a presunção em comento não é absoluta, “pois o erro plenamente justificado sobre a idade da vítima exclui a aplicação de tal presunção’”.

E aqui vem a conclusão:

“Por tais razões, concedo a ordem para absolver o Paciente [i.e., o agente, o suposto perpetrador do estupro]. É o meu voto.”

Abençoado seja o ministro pelo seu bom-senso. É de lamentar, porém, que o uso do bom-senso seja tão raro.

Janer Cristaldo faz uma análise da legislação brasileira, afirmando que “pedofilia nunca foi crime em nosso Direito”. Segundo ele, “são crimes o estupro, o atentado violento ao pudor, a posse sexual mediante fraude, o atentado ao pudor mediante fraude, o assédio sexual” – mas a “pedofilia não está tipificada como crime”. Ele investe contra a mídia ignorante: “Crime cometem os jornalistas contra a informação, quando denunciam os pedófilos no Brasil. Se alguém tem relações com uma menor de 14 anos, presume-se estupro. Pedofilia é outra coisa, e nosso direito não contempla essa figura.”

Continua ele:

“Há três anos, eu escrevia: ‘Neste país onde dezenas de milhares de meninas estão grávidas aos dez anos, conforme pesquisa do último censo, não ouse relacionar-se com uma menina de doze ou quatorze anos. Mesmo que nossa legislação não contemple a figura da pedofilia, você será estigmatizado pela imprensa e pela sociedade com a pecha de pedófilo. Mas e as milhões de meninas que engravidam entre dez e quinze anos, estas não foram vítimas do crime de pedofilia? Nada disso. Como em geral se relacionam com parceiros da mesma idade, não houve pedofilia. Vige em alguns círculos acadêmicos o exótico conceito de que, não existindo mais de cinco anos de diferença de idade entre os parceiros, não ocorre crime. Ou seja: para você, homem maduro, são proibidos os encantos das Lolitas. Estas constituem reserva de mercado dos adolescentes. Você já ouviu falar de um adolescente acusado de pedofilia? Nunca. Criminoso é apenas o adulto. O conceito acadêmico parece ter sido contrabandeado para o mundo jurídico’”.

Conclui ele:

“Nosso Direito está assumindo as práticas ianques: o caráter criminoso de um ato já não reside no ato praticado, mas na idade de quem o pratica. Matthew Koso, o marido de Crystal, a mãe de seu filho, pode receber uma pena que varia de um a 50 anos de prisão. Com a mania tupiniquim de adotar o pior do Primeiro Mundo, não está longe o dia em que no Brasil irão para cadeias maridos de adolescentes. Basta um juiz com fome de mídia e o fiasco está feito.”

O paternalismo estatal está implantado no Brasil, também em áreas que estão fora da sexualidade.

Ainda Janer Cristaldo, no mesmo artigo, chama a atenção para outro fato que constou do noticiário da imprensa. Da novela “A Lua me Disse”, da Rede Globo, participa uma índia, que representa uma personagem índia. O Ministério Público Federal moveu ação civil pública contra a Rede Globo por causa do “conteúdo discriminatório aos povos indígenas, pelo tratamento à personagem Índia, da tribo Nhambiquara”. O Ministério Público Federal pede, em sua ação, “que a justiça determine à TV Globo a suspensão de cenas que exponham a personagem índia a situações constrangedoras ou degradantes, ou que alimentem o estereótipo contra índios” – ficando a ré sujeita a pagar uma multa de R$ 500 mil por cena que viole esse princípio.  

Registre-se que a própria índia que participa da novela acha esse tipo de argumento “o fim da picada”. Ela não se julga prejudicada – está adorando fazer a novela e poder ganhar a graninha que participar da novela lhe propicia. Mas, segundo o Ministério Público Federal, ela, sendo índia, não pode decidir isso por si mesma: é preciso que o estado intervenha…

Janer Cristaldo investe ainda mais contra “o festival de besteira que assola o país”…

Diz ele:

“Em São Paulo, a prefeitura contará com a ajuda de médiuns para prevenir a cidade de tragédias provocadas por enchentes, tornados e chuvas de granizo. O prefeito José Serra – potencial candidato à Presidência da República – houve por bem contratar a Fundação Cacique Cobra Coral, entidade ‘científica-esotérica especializada em fenômenos climáticos’. A entidade é presidida pela médium Adelaide Scritori, que diz receber o espírito do chefe indígena americano Cobra Coral, que em outras encarnações teria sido Galileu Galilei e Abraham Lincoln. José Serra é tido como uma das esperanças para salvar o país da corrupção lulista. Você quer saber se vai chover na semana que vem? Consulte os espíritos.”

A situação é triste. Janer Cristaldo conclui:

“Leitores me perguntam onde está a saída. Não sei. Creio que continua sendo o aeroporto.”

Desde que, naturalmente, o vôo não leve para Nebraska.

[Em Tempo: aos interessados no tema objeto da primeira parte deste artigo recomendo dois livros: Dos Crimes Contra os Costumes, de Juarêz Cordeiro de Oliveira (Éfeta Editora, São Paulo, 1996), e Sexologia Forense, de Orlando Soares (Biblioteca Jurídica Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1990). O parecer do ministro Marco Aurélio de Mello pode ser facilmente encontrado na Internet.]

Em Campinas, 27 de setembro de 2005  

Os cismas do PT

A esquerda se parece com o Protestantismo em alguns aspectos. É curioso. Pessoas que concordam em relação a grandes questões, mas pensam diferente em alguns pontos que, de fora, parecem secundários, não conseguem se manter unidas em função de uma causa comum, que parece claramente maior. Com extrema facilidade os esquerdistas racham, dividem-se, separam-se, formam dissidências — que nada mais são do que igrejinhas protestantes.

Na história da igreja isso tem o nome de cisma. Protestantes são, por sua própria natureza, cismáticos. Não estou contente aqui: vou para uma outra igreja — ou, freqüentemente, formo uma outra igreja pra mim. É por isso que há milhares de denominações protestantes — mas a Igreja de Roma continua (em termos) una, ou seja, católica. Católico, segundo Houaiss, é aquilo que tem vocação de universalidade. (Quem não assistiu ao filme Lutero, que o faça. Lutero não só rachou com Roma — rachou em várias maneiras com seus prévios apoiadores. Em outras palavras: conseguiu rachar dentro do racha maior).

A pergunta que o Jânio de Freitas faz na Folha de hoje (27 de setembro) é a pergunta de todos os que acompanham a crise política: por que os cismáticos do PT não continuaram um pouco mais no partido para tentar derrotar o intragável Berzoini? Juntas, as facções da esquerda do PT poderiam derrotar o sedizente campo majoritário na luta pela presidência do partido. É verdade que o diretório está decidido, mas a presidência não é de jogar fora. Por que rachar justo agora? A resposta parece ser: porque se chegou ao limite. Tal qual Lutero, a esquerda do PT diz "Hier steh’ ich: ich kann nichts anders" — "Aqui eu fico [ou, no caso do PT, ‘aqui me vou’]: não consigo fazer outra coisa". Em outras palavras: não dá mais pra continuar. Como nos relacionamentos conjugais, parece que chega o momento em que não dá mais: tudo irrita no parceiro em vias de se tornar ex. Até o jeito de espremer a pasta de dentes.

A esquerda do PT, hoje cismática, sabia o que estava acontecendo – desde sempre. Mas não saiu antes porque esperava ganhar, contava se beneficiar da "máquina eleitoral" em que havia se tornado o partido (para usar a idéia de Plínio de Arruda Sampaio). Esperava conseguir que os outros fizessem o trabalho sujo e eles conseguissem alcançar o controle a máquina "de mãos limpas", sem precisar se enlamear. São, acima de tudo, ingênuos que pretendiam ser espertos. Vão começar tudo de novo com o partido da Heloísa Helena, protestante e esquerdista. (Pra quem achava que as coisas eram incompatíveis, está aí a prova de que não são).

Há uma outra coisa interessante, e que me deixa curioso: os cismas da esquerda são cheios de estardalhaço. Os cismáticos querem marcar posição: chamam a imprensa, fazem declarações escritas e bombásticas, exageram as divergências, acusam os adversários (até ontem aliados) — e estes se vêem obrigados a responder num tom mais alto. Há verdadeiras declarações de guerra — que, em alguns casos, vão além da simples declaração. Na verdade, parece que os cismáticos passam a detestar mais os ex-aliados de agora do que os tradicionais inimigos de sempre.

A direita, que tem fama de inflexível, tem conseguido se manter razoavelmente unida em relação a algumas questões essenciais, mesmo que as diferenças sejam sérias em outros aspectos. Nisso se parece mais com a Igreja Católica: consegue conviver com diferenças e lidar com suas crises internas fora do spotlight das câmeras, sem criar feridas que, depois, não têm condições de ser curadas.

Observemos, a título de exemplo, o que se passa nos Estados Unidos. A despeito do desprezo que sofisticados capitães de indústria do Norte têm pelos fundamentalistas religiosos do Sul, ambos se unem quando se trata de reduzir o tamanho do governo, baixar impostos, tirar o governo de cima da gente. Conquistada a vitória mais importante, depois se entendem, acham um jeito de conviver. Ou, então, podem até rachar — mas só depois de conquistada a vitória naquilo que realmente importa. Não antes. E o racha só dura enquanto não houver uma outra causa mais importante para a união. A esquerda americana foi pega de surpresa com essa união dos liberais do Norte (que estão longe de ser socialmente conservadores) com os conservadores do Sul. (Vide o livro The Right Nation, escrito por dois ingleses, John Micklethwait & Adrian Wooldridge, recomendado aqui neste espaço).

Não estou, naturalmente, dando conselhos para a esquerda. Por um lado, sei que não adiantaria nada. Por outro, quero mais é que a esquerda exploda de vez — ou até mesmo "expluda", como dizia o hoje ausente Chico Anísio. Mas, acima de tudo, compreendo o que sente o Plínio de Arruda Camargo: agüentar Zé Dirceu, Genoíno, Berzoíni e seu baixo clero deve ser prá lá de insuportável. Eu, no lugar dele, teria dado no pé há muito tempo.

É por isso que, apesar de meu ateísmo impenitente, no fundo sigo sendo, à minha moda, protestante. Não consigo participar de nenhum partido que tenha mais de um associado…

Em Campinas, 27 de setembro de 2005

O suposto neoliberalismo petista

Dou meus parabéns a Tales Alvarenga pelo artigo “O Bode da Esquerda” que publicou na VEJA, Edição 1924, data de capa 28 de setembro de 2005. A chamada do artigo esclarece: “Chamar o governo brasileiro de neoliberal é como apresentar Adam Smith como o fundador do marxismo".

A colocação é perfeita.

A esquerda tenta desesquerdizar qualquer governo que se aparta um pouco de sua vulgata. FHC num determinado momento foi saudado como o primeiro governo de esquerda do Brasil. Depois, com as privatizações e a política econômica, foi rotulado de neo-liberal. O próprio FHC negou. Numa entrevista disse que era neo-social, nunca neo-liberal. Faz muito sentido — mas ninguém, na esquerda ou na impresa, ligou para o que ele disse.

Desesquerdizado FHC, Lulla foi saudado como o primeiro real governo de esquerda do Brasil. Não durou muito. Em pouco tempo, também também foi desesquerdizado – em especial pela política econômica. Acusações de que o governo Lulla é neo-liberal abundam – em especial na ala mais à esquerda do PT, nos partidinhos que esperavam que o PT um dia implantasse o comunismo no Brasil – e, of course, na ala mais esquerda da Igreja Católica, aquela que ainda prega a teologia da libertação.

Tales Alvarenga inicia seu artigo dizendo: “Não sei o que você pensa sobre a esquerda, mas sei o que a esquerda pensa sobre você. A esquerda pensa que você acredita em qualquer lorota.” Na verdade, os intelectuais de esquerda, porque vêm os disciplinados esquerdistas aceitarem qualquer lorota que dizem, perderam o senso do ridículo e hoje dizem em público coisas que há algum tempo só teriam coragem de dizer na célula do partido. Passaram a acreditar que todo mundo é idiota – apenas porque se vêem cercados de idiotas.

Tales Alvarenga ilustra sua tese com uma passagem do ex-petista Francisco de Oliveira. Diz ele: "O ‘escândalo’ maior não reside na revelação das ‘mutretas’ – escandalosa não é a desconstrução do PT, é a construção da vitória de Lula e de seu governo em bases neoliberais". Em outras palavras: o problema não é a roubalheira do governo Lulla – o problema é que o governo Lulla virou neo-liberal.

A revista Carta Maior (a que um amigo meu se refere sempre como Bilhetinho Chinfrin) publicou recentemente um artigo de outra sumidade uspiana, Emir Sader. Mesmo em meio à maior onda de corrupção jamais havida no Brasil, criada, gerida e patrocinada pela esquerda, e raiz da atual crise da esquerda no Brasil, Emir Sader tem a cara-de-pau de atribuir a crise a… um real pra quem advinhar: É verdade, ao neo-liberalismo. Segundo ele, o neoliberalismo mercantilizou a política, que tornou possível a corrupção que gerou e explica a crise. Parece não ocorrer a Sader as seguintes e simples questões: antes do liberalismo não havia corrupção? Fora do liberalismo, na União Soviética e nos países comunistas do Leste Europeu, não havia corrupção? Se havia, o que a explica nessas outras condições?

Para a esquerda, dinheiro ou poder são monopólios do neo-liberalismo. Se houve corrupção, e o motivo foi ganho financeiro, então o neo-liberalismo estava em atuação. Se houve corrupção, e o motivo foi ganho de poder, então a direita estava em atuação. A esquerda socialista é pura: não trafica nem com dinheiro nem com poder. A quem a esquerda pretende enganar? Aos não-esquerdistas essa baboseira nunca enganou. O objetivo dessa conversa mole só pode ser reforçar o engano dos que já se deixaram enganar dentro da própria esquerda.

O modelo capitalista, diz Emir Sader, mostra sinais de se esgotar. Está se esgotando desde que Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista. Hoje é quase hegemônico. É um paradoxo: quanto mais se esgota, mais forte fica.

Admito que muitas das conquisas do capitalismo se deveram não a conquistas genuínas (com perdão da má palavra) suas mas, sim, à notória incompetência da esquerda. Mas – para usar uma metáfora futebolística tão do gosto do nosso ex-presidente – um time se torna campeão não só porque ganha todos os jogos, mas também porque os adversários perdem mais do que ele…

Emir Sader quer ainda que o país seja legislado por plebiscitos… Perdeu a esperança nos políticos de esquerda, que estão se devorando uns aos outros. Prega a unidade das esquerdas, quando nem o Campo Majoritário, que é uma tendência dentro de um dos partidos de esquerda, consegue se manter unida, dando evidências de sacanagens políticas explícitar diante das câmeras.

O artigo de Emir Sader se chama "O Mundo pelo Avesso". O infeliz não percebeu que é ele quem está pelo avesso.

Diz Tales de Alverenga no artigo mencionado:

“Na semana passada, apareceu um novo culpado pelo achincalhamento petista. O problema, segundo essa nova interpretação, não é roubalheira do PT. O pecado original foi a cúpula do PT ter aderido à direita.

A academia fugiu da escola. Os professores não sabem mais do que estão falando. O neoliberalismo prega a redução do Estado na economia e na sociedade e uma ampla abertura ao exterior. O Estado, para ser neoliberal, deveria cuidar só da Justiça, polícia, Exército, diplomacia, arrecadação de impostos e mais uma ou duas tarefas típicas do ente governamental. Isso não é o que se vê no Brasil. O oposto do neoliberalismo é o Estado forte que nada concede ao mercado. Alguns dos mais extremados expoentes dessa categoria são os modelos cubano e norte-coreano, além dos sistemas implantados no século passado por Stalin, Mao, Pol Pot e Hitler. Pode-se ter certeza de que o professor Francisco de Oliveira, sumidade em seu campo de estudo, não está sugerindo que o Brasil siga esses exemplos. Frei Betto, o guia espiritual de Lula, acha que o Brasil deveria mirar-se no exemplo de Fidel Castro, mas Frei Betto não é nenhum Francisco de Oliveira. Então, o que estaria pregando o eminente sociólogo da USP? Um Brasil, por assim dizer, capitalista mas nem tanto?”

Tales de Alvarenga conclui o seu brilhante artigo com dados que não é possível contestar:

“Informo aos detratores da utopia neoliberal, como Francisco de Oliveira, que o Brasil é um dos países menos neoliberais do mundo. Há formas objetivas de medir isso. O governo brasileiro, fechado e centralizado, se apossa de 36% do PIB em impostos. Toma para si 68% da poupança destinada ao crédito no país. Tem a mais alta carga de juros do planeta. É um dos países mais burocratizados do mundo. Cobra 100% de encargos sobre os salários dos trabalhadores, contra 9,5% no Chile. "Em 2003, o Brasil foi o sétimo país com menor fluxo de comércio e o terceiro com menores importações, como proporção do PIB, de um conjunto de 145 países", escreve Armando Castelar Pinheiro, economista do Ipea. Num levantamento deste ano sobre o grau de liberdade econômica feito pelo Instituto Fraser, do Canadá, o Brasil aparece como um dos menos livres do mundo, em 88º lugar, numa lista encabeçada por Hong Kong, o mais aberto, Cingapura, Nova Zelândia, Suíça e Estados Unidos. O Brasil, no fim do ranking, é mais fechado do que a China comunista e a Índia, de tradição socialista. Chamar o governo brasileiro de neoliberal é como apresentar Adam Smith como o fundador do marxismo. E, para não perder o fio da meada, o mal do PT não foi o neoliberalismo. Foi roubalheira mesmo.”

É isso.

Em Campinas, 24 de setembro de 2005

Mau gosto, obscenidade e crime

O prefeito José Serra deu uma grande escorregada hoje, 20 de Setembro de 2005. Seus prepostos removeram cerca de 30 outdoors da cidade e fecharam dois dos clubes que os patrocinavam – neste caso, por motivos totalmente inventados na hora.

O secretário de Coordenação das Subprefeituras da cidade de São Paulo, Walter Feldman, em entrevista dada à Rede Globo, transmitida agora à noite no Jornal da Globo, disse que os outdoors foram removidos porque eram "de profundo mau gosto". Se mau gosto fosse crime, dona Marisa Letícia, com suas festas caipiras e seus trajes típicos, deveria estar condenada à prisão perpétua. O gosto ao mesmo tempo fresco e puritano do secretário Feldman não pode ser transformado em lei por ele mesmo – só porque alguns espíritos frágeis supostamente se escandalizaram pelo convite ao sexo contido nos outdoors.

O secretário, numa pobre tentativa de encontrar embasamento legal para seu comportamento arbitrário, alegou que os outdoors eram, além de mau gosto, totalmente obscenos – e sua assessoria alegou que, como tais, os outdoors poderiam ser removidos, por supostamente violarem o artigo 234 do Código Penal, que proíbe a produção e aquisição de material obsceno, para fins de comércio, distribuição ou exposição pública.

Que um determinado material seja obsceno é algo que deve ser provado – e prová-lo não é fácil, dada a natureza subjetiva do que se pretende obsceno. Nem tudo que alguém acha obsceno é de fato obsceno. Há pessoas para quem um vestido decotado ou uma saia acima do joelho é obsceno. Grandes romances já foram um dia proibidos por serem supostamente obscenos. Eu, por exemplo, acho a cara do prefeito obscena. E daí??? Ainda que o secretário, pessoalmente, possa achar os outdoors obscenos (o que eu sinceramente duvido), quem foi que o erigiu em árbitro de obscenidade dos paulistanos??? Ele é, afinal de contas, secretário Coordenação das Subprefeituras de São Paulo – nem Secretário Municipal de Justiça ele é.

A imprensa, na cola do secretário, vem se referindo aos outdoors como não só obscenos, mas pornográficos. A justificativa dessa afirmação é ridícula. Num aparece a bunda (o texto jornalístico diz "as nádegas" – quem é que diz "nádegas" neste país???) de uma mulher. Grande novidade. Noutro há uma mulher sentada no chão e um homem em pé – segundo a imprensa, esse outdoor estaria sugerindo ou até mesmo simulando sexo oral. Um terceiro, promete "Emoção em cada curva" — e mostra o corpo curvilíneo de uma mulher. Ora, até onde vai o ridículo??? A Globo falou em "comércio do pecado". Pecado??? Podia bem ir dormir sem essa.

Quando ao fechamento dos clubes, os motivos alegados – de última hora, só depois da controvérsia causada pelos outdoors – foram mais ridículos ainda: falta de alvará, falta de indicação e iluminação nas saídas de emergência, falta de alarme e extintor de incêndio… Até que os outdoors produzissem controvérsia, nada disso havia sido percebido pela prefeitura. Com a controvérsia, a prefeitura decidiu que teria de achar um motivo para fechar os clubes e mostrar serviço aos puritanos de plantão. Um milhar de outros clubes em São Paulo se encontram em situação semelhante – se não pior.

Registre-se que nem a purataníssima Igreja Católica chegou aos extremos a que o governo Serra se levou. Os atos de Walter Feldman não foram em resposta a uma passeata em protestos aos outdoors pelas senhoras católicas. Em geral elas são as primeiras a ver uma coisa dessas…

Esclareça-se que a legislação brasileira que se refere à prostituição condena apenas a exploração sexual, isto é, a venda de serviços sexuais de terceiros feita por cafetões e cafetinas, não à prostituição em si. Embora a profissão de prostituta não seja ainda regulamentada por lei no Brasil (como o é em alguns países escandinavos), até sindicatos elas possuem. Ser prostituta, portanto, não é crime. Alegar, para justificar a blitz contra os clubes, que eles facilitavam o encontro (o famoso "rendez-vous") de prostitutas light (eufemisticamente chamadas de "garotas de programa") com seus clientes prospectivos e, portanto, agiam como exploradores do comércio sexual, é ridículo. A cidade inteira está forrada desses clubes, e a prefeitura está doente de saber disso, sem nada fazer. Em qualquer hotel ou apart-hotel de São Paulo se encontra ampla propaganda desses clubes.

Justo no Brasil acontece uma coisa dessas??? Recentemente, uma notória cafetina brasiliense foi convocada para depor na CPI e o fez, com transmissão pela TV, no período da tarde e da noite. O assunto? A organização de festas com garotas de programas para os parlamentares brasileiros. Por que não foi presa a cafetina, se vamos agora ficar procurando criminhos em vez de punir os crimões cometidos pelos nossos deputados? A atividade dela é criminosa segundo a lei brasileira. Ela vende serviços sexuais de terceiros — para deputados e seus prepostos. Por que não fecharam ainda o "business" de Dona Jeane Mary Corner? Provavelmente porque, se o fizessem, os nossos parlamentares, obrigados a passar três longos dias em Brasília, iriam ter sérios problemas para encontrar prestadoras de serviços sexuais?

Em Campinas, 20 de setembro de 2005

A catástrofe de New Orleans

Até agora não havia comentado a catástrofe de New Orleans aqui neste blog. Havia algumas coisas que não conseguia entender ali. Aos poucos as fichas vão caindo. Daqui para a frente vou tecer alguns comentários e distribuir alguns textos que vão na direção oposta daquela que os anti-americanistas de plantão gostariam de crer.

O primeiro desses textos é de Contardo Calligaris, na Folha de hoje (20050908 – transcrevo-o a seguir com a autorização do autor). Lido com atenção, mostra uma linha diferente de análise para a catástrofe.

O segundo é o artigo de Rocco DiPippo, também transcrito abaixo, infelizmente em Inglês, sobre dois furacoes. Ele chama a atenção para o que considero importante na catástrofe de New Orleans.

O terceiro texto, também transcrito abaixo em Inglês, é de Robert Tracinski. Ele vai na mesma linha. 

O quarto texto, também transcrito abaixo em Inglês, é de Ben Johnson. Ele começa a colocar os pingos nos is sobre a questão de quem era a responsabilidade pela evacuação da população de New Orleans e pelas providências que, dias antes, já se mostravam necessárias face ao desastre que se aproximava. A responsabilidade, em primeiro lugar, era de cada um. No plano governamental, entretanto, a responsabilidade era do prefeito de New Orleans — democrata de esquerda e negro. A lei até mesmo proíbe o governo federal de interferir na jurisdição de estados e cidades — sem que seja oficialmente chamado a fazê-lo.

Resumo aqui o que penso.

Os EUA têm sido cena de inúmeros desastres naturais. Entre estes estão os furacões que, todos os anos, assolam a Florida e outros estados do Sul do país (além do Caribe em geral). Em decorrência da passagem desses furacões há, sempre, danos materiais e algumas perdas de vida.

O que impressiona no caso de New Orleans não é só a magnitude dos danos materiais causados pelo furacão Katrina e o número elevado de mortos. O que impressiona é a reação de parte das pessoas que ficaram lá. O que houve ou havia naquela cidade — que nunca houve nas cidades da Florida parcialmente destruídas por furacões no passado — que rapidamente levou parte da população a abraçar a selvageria, pergunta Rocco DiPippo. O que houve ou havia naquela cidade que levou parte de seus habitantes a assassinar e estuprar seus concidadãos já fragilizados pela catástrofe natural? A assaltar e roubar de quem havia ficado para trás? A invadir as casas dos que haviam fugido para saquear mesmo coisas que não eram necessárias para sobreviver ao desastre? Continua Rocco DiPippo: O que levou grupos organizados de habitantes de New Orleans a atirar em que vinha socorrê-los, criando uma cena que mais parecia Bagdad do que uma cidade americana? O que impediu o restante dos habitantes que havia ficado para trás de resistir contra aqueles que tomaram de assalto a cidade?

Rocco DiPippo dá a resposta. E eu acredito que ela esteja, no essencial, correta.

O povo que ficou para trás – e o próprio ato de ficar para trás é sintomático, quando se soube, com bastante antecedência, que o furacão iria passar por ali – nunca aprendeu, e, por isso, provavelmente nunca soube tomar responsabilidade pela própria vida e pela qualidade de vida em sua comunidade. Se um dia soube, desaprendeu ou se desacostumou de fazê-lo. O povo que ficou para trás é a grande vítima do estado paternalista a que damos o nome de "Welfare State" (Estado do Bem-Estar Social) implantado nos Estados Unidos desde a presidência de Franklin D. Roosevelt, mas que cresceu terrivelmente depois de o presidente Lyndon Johnson haver implantado a sua "War on Poverty" (Guerra à Pobreza) na década de 60.

[Como a maioria das iniciativas da esquerda, esses programas se mostram empulhações até mesmo no plano lingüístico: o chamado "Estado do Bem-Estar Social" não produziu bem-estar; a "Guerra à Pobreza" não reduziu a pobreza. Os programas deveriam ser renomeados para "Estado do Mal-Estar Social" e "Guerra à Riqueza"].

O estado paternalista que é o "Welfare State" trata as pessoas como se fossem crianças — e elas se aprendem a se comportar como crianças, como se não fosse responsabilidade sua, quando já adultas, cuidar de si próprio e do que é seu. Os que têm um pouco de iniciativa, nessa comunidade de infantilizados que vivem sob a proteção do governo, se voltam para o tráfico de drogas, a prostituição e o crime: é a única coisa que sabem fazer para adquirir um pouco de auto-estima. Os que não têm nenhuma iniciativa ficam sempre esperando que o governo faça alguma coisa. Reivindicar eles aprendem — como também aprendem rapidamente criticar o governo quando este não atende às suas reivindicações.

É essa a verdadeira tragédia de New Orleans. Os americanos estão acostumados a lidar com tragédias naturais e geralmente se saem bem: as pessoas em regra cumprem as ordens, colocam tábuas em suas janelas e portas, e vão para algum lugar mais seguro. O que surpreende em New Orleans, além da magnitude da tragédia natural, é o nível da tragédia social que o Welfare State vem produzindo, no longo prazo. A tragédia natural vem por iniciativa das forças da natureza — ou de Deus, para quem acredita nele. A tragédia social da inação face ao perigo é uma tragédia social que poderia ter sido evitada — se se soubesse, no passado, aonde iria dar. [É bom que se registre que alguns sabiam, e advertiram a população disso — mas ninguém prestou atenção.]

Agora uma palavra sobre a cobertura da mídia.

Há claras diferenças na cobertura que a mídia faz dessa tragédia americana e a cobertura que tem feito de outras tragédias naturais — como o Tsunami.

No caso do Tsunami, houve reconhecimento geral da mídia de que a mortandade foi causada por um evento natural pelo qual ninguém pode ser culpado — a não ser o todopoderoso ("s’il y en a"). Não houve, na mídia, tentativa de culpar o governo central dos países envolvidos por ter demorado em agir / reagir ou por, quando reagiu, não ter conseguido evitar as conseqüências continuadas da tragédia. A mídia deu cobertura ao esforço dos respectivos países, e da comunidade internacional, para controlar, o máximo possível, os efeitos do desastre.

Apesar de o Tsunami ter acontecido na Ásia, é bom que se registre que houve, na mídia, que tentasse culpar … quem??? o governo americano pela tragédia, por, segundo se alegou, não ter informado a tempo os governos dos países envolvidos da possibilidade de ocorrer um tsunami.

Desta vez, quando a tragédia ocorre em território americano, o caráter de tragédia natural parece ter sido totalmente esquecido. A culpa pelos danos materiais e humanos é do Bush.

Está mais do que provado, primeiro, que o governo federal americano informou o governo dos estados que estavam na rota do furacão que eles seriam atingidos, e recomendou que evacuassem toda a população. A responsabilidade, no plano governamental, é, nesse caso, dos governadores e dos prefeitos das localidades atingidas.

O governo federal americano, diferentemente do brasileiro, tem severas limitações para agir, sem solicitação formal destes, no âmbito dos estados e dos municípios. Os estados americanos possuem MUITO mais autonomia do que os estados brasileiros. Isso tudo é sabido.

No entanto, a culpa é do Bush…

O prefeitinho democrata de New Orleans, negro, por sinal, a hora que viu o tamanho do desastre, usou uma expressão de gosto duvidoso: disse "I am pissed off"… [mais ou menos traduzível como "Estou puto da vida…". Lindo, não? O prefeito está puto da vida com ele mesmo, por não ter percebido a dimensão do desastre que se aproximava (apesar de informado pelo governo federal) e não ter agido? Não, puto da vida com o Bush… E a mídia "repercutindo" tudo isso. Uns mais irados, à lá Michael Moore, dizendo que o governo federal não fez nada porque se tratava de gente em sua maioria negra e pobre. Chegou-se a falar em genocídio. Deu-se a impressão nítida de que o Bush estava afim de aniquilar os negros e pobres de New Orleans.

Tudo isso é ridículo. Como é ridículo ver socialistas e esquerdizantes, em todas as partes do mundo, ficarem procurando qualquer coisa errada que acontece nos EUA (ou até mesmo fora, como no caso do Tsunami), para tentar provar que os EUA, longe de ser uma potência econômica, política, cultural e militar, fosse um paiseco do terceiro mundo.

Em Campinas, 8 de setembro de 2005 (revisto e modificado em 11 de setembro de 2005)

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0809200532.htm
Folha de S. Paulo
8 de setembro de 2005

Nova Orleans e a confiança básica no mundo

Contardo Calligaris

Duas ou três vezes por ano, o prédio onde moro fica sem energia por um tempo. Apesar desses cortes, previstos ou imprevistos, não vivo num suspense energético: sigo esticando o dedo para chamar o elevador, convencido de que, lá em cima, alguém me ama. Sem isso, como aceitaria viver no décimo primeiro andar?

Karl Jaspers, o filósofo alemão, dizia que a ciência pede ao usuário uma espécie de fé. De fato, podemos não saber como funcionam o telefone, a televisão, o cabo, mas acreditamos no seu funcionamento.

Para os psicanalistas, essa fé na ciência e na técnica é parte de uma disposição mais geral: a "confiança básica no mundo". Ela acompanha cada sujeito que viu a luz num ambiente que o acolheu com carinho e simpatia. Suponhamos: ninguém nos chutou quando estávamos no desamparo da primeira infância; quando chorávamos, alguém comparecia (mesmo que fosse para nos enfiar uma chupeta na boca quando, na verdade, precisávamos que trocassem a fralda). Em regra, os que tivemos essa sorte (a grande maioria dos humanos) continuamos pensando durante a vida toda que os outros e o mundo nos querem bem.

Conseqüência: podemos viver na Califórnia, embora esteja certo que a região será devastada por um terremoto; podemos viver numa cidade como Nova Orleans, abaixo do nível do mar, protegida apenas por diques antiquados; podemos viver em andares altos, fora do alcance de qualquer escada de bombeiros.

A confiança básica no mundo é também um alicerce da ordem social, pois ela vale como um lembrete permanente que diz: há alguém que cuida, alguém que se importa. Nos termos de nossa infância: os adultos voltarão para nos dar comida e ainda para verificar se a gente se comporta direito.

Não há pesquisas que meçam o número de interrupções da energia elétrica que é necessário para que eu pare de confiar na Eletropaulo. Em compensação, existe a teoria das janelas quebradas, que, nos anos 90, revolucionou nossas idéias em matéria de manutenção da ordem social (George Kelling e Catherine Coles, "Fixing Broken Windows", arrumando janelas quebradas). Experiência básica em psicologia social: se abandono um carro num bairro de classe media, ele será depenado só depois de oito semanas. Se, antes de abandoná-lo, aplico algumas boas marteladas nos faróis e na lataria, ele será depenado em três dias. Outra: num metrô coberto de grafite a criminalidade é muito mais alta do que no mesmo metrô se ele for lavado e limpado a cada noite.

Por quê? Os faróis quebrados e os grafites assinalam que ninguém se importa. E, se ninguém se importa, tudo é permitido. Será que isso basta para entender as rondas armadas de malfeitores e vigilantes em Nova Orleans?

O prefeito da cidade tentou explicar a onda de saques por indivíduos e gangues lembrando que, além dos serviços básicos, também parou de funcionar o comércio de droga, o que teria deixado alguns sujeitos bem "nervosos". É verdade: faz parte da confiança básica acreditar que o traficante da esquina estará lá de novo amanhã. Mas, para explicar o acontecido, não é preciso recorrer à falta de droga (ou de nicotina).

Em Nova Orleans, a ruína da confiança básica foi brutal: o telefone emudeceu, a força acabou, o celular perdeu o sinal, e ninguém respondia aos gritos de ajuda.

Ora, para alguns, abriu-se assim um tempo de desespero. Para outros, a constatação de que "ninguém se importa" foi sedutora e esperada. Nada de estranho nisso: afinal, saquear lojas de armas e circular pelas ruas à procura de comida, de água, de gasolina e de outros humanos que possam ser aterrorizados é o roteiro de numerosas narrativas populares.

Pense nos filmes da tríade de Mad Max, em "O Mensageiro" e "O Segredo das Águas", em "Fuga de Los Angeles" ou "Fuga de Nova York", ou no romance "The Stand" ("A Dança da Morte"), de Stephen King. Pense em videogames como "Duke Nukem" ou "Doom".

Não conheço um adolescente que, em alguma vez, não tenha sonhado com a destruição do mundo (o mundo em que confiamos) e com a aventura de um recomeço radical.

A primeira tarefa é sempre a de armar-se, porque, num universo zerado, não vale o prestígio dos anos ou da experiência, do saber ou do dinheiro: a autoridade é justamente reduzida à sua expressão mais simples e mais facilmente contestável, que é a força.

Qual é o charme desse momento do lobo?

Acontece que o amor que nos acolhe no mundo, instituindo nossa confiança em "alguém que cuida", torna-nos devedores ou, no mínimo, reféns de um passado que é a história dos outros que já estavam lá e nos receberam. Por isso a catástrofe que acaba com nossa confiança no mundo é a última fronteira da autonomia: se não há mais alguém que cuida, ninguém nos antecede, ninguém está acima da gente: somos livres como só pode ser livre quem não tem história.

É a versão extrema do mito, moderno e banal, do "self-made man", o homem que não precisa de ninguém.

Aposto que, nas ruas de Nova Orleans, há alguns desapontados com a volta gradual a um mundo "confiável".

@ – ccalligari@uol.com.br

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http://www.frontpagemag.com/Articles/ReadArticle.asp?ID=19383
FrontPage Magazine | FrontPageMagazine.com | September 6, 2005

A Tale of Two Hurricanes

By Rocco DiPippo

In 1857 the steamship S.S. Central America was plying a route between Panama and New York City. On board the ship were 578 men, women and children from every strata of American society who were returning from the California Gold Rush.

Some of them had made fortunes panning for gold. Most of them hadn’t. The ship’s passengers were truly a collection of "haves" and "have nots."

One hundred fifty miles off the coast of the Carolinas, the Central America, with three tons of gold in her hold, got caught in a hurricane and within three days was slowly pounded to pieces.

In light of what we saw recently happen in New Orleans, it would be easy to assume that the people on board the Central America lost all sense of civility once their situation became hopeless. It would be easy to assume that they lost all self-control and tore each other to pieces.

They didn’t.

The loss of life and property caused by Hurricane Katrina is unprecedented in American history. But it is what happened to the social fabric of New Orleans after Katrina passed that is the real story, the real tragedy of the thing.

After major disasters strike, wreckage can be cleared, homes and businesses rebuilt and infrastructure brought back on line – that is the easy part of recovering from such disasters. What is not so easy is to restore the sense of community and civility that existed before a place was ravaged by nature or man.

The ease of such social restoration is directly proportional to the sense of community and the level of civility that existed in a place before it was physically damaged or destroyed. New Orleans’ pre-disaster crime rate was ten times the national average. Given this and the fact that, during the recent crisis there, many of its citizens chose the law of the jungle over the rule of law, it is easy to conclude that the restoration of New Orleans’ social fabric will be an impossible task.

I have never lived in nor have I ever visited New Orleans. I don’t first-hand know its sights, sounds or people. I must ask: What was it in that city that, after the storm had passed, quickly made men embrace savagery? What caused people there to rape and to murder, to steal from the desperate, to loot things unconnected to survival? What caused organized groups of people to attempt murder on those coming to save them? Why didn’t their neighbors – the good people- band together to stop them from doing those things? The answer is simple: For the last forty years they had been taught by the creators of the Welfare State that they were permanently absolved from the responsibility of tending to their lives.

There have always been mishaps and disasters, natural and otherwise, that have tested humans to the breaking point and beyond. Many, many times, people facing extreme hardship or near-certain deaths have put the welfare of others ahead of their own. What happened on board the S.S. Central America in 1857 provides a shining example of what happens when disaster brings out the best in men.

As the ship slowly sank, the men on board worked to exhaustion pumping her out. They did this knowing full-well that they were only postponing the inevitable since the ship was taking on water faster than they could empty her. They were buying time. They were protecting the women and children on board. They were refusing to die without a fight to live.

The women on board, like the men, were worn out by sea-sickness, lack of sleep, the ship’s careening and its wet sweltering interior. Nevertheless, they tended to the men, feeding their spirits with kind words of encouragement. There was not a single instance of uncivil behavior among the ship’s passengers as each and every one of them looked death in the eye. Not a single instance of predation. Not a single act of cowardice among anyone on that ship as death loomed large over it.

Another ship, itself crippled by the storm, was still somehow able to send its lifeboats to the Central America. In a final act of heroism William Herndon, the Central America’s captain, and his crew loaded the women and children onto those boats and transferred them to the other ship. The lifeboats couldn’t get back to pick up the men – Herndon knew in advance that this would likely be the case. Four hundred twenty six men, including Captain Herndon, drowned.

As the Central America slowly foundered, all the passengers aboard her thought they would die. They were sick, hot, thirsty, hungry and at the limits of endurance. Yet the social order on board remained intact. Civility triumphed and the good in man shined through his dark core up to the moment that the wrecked ship slipped beneath the waves.

There are, no doubt, many brave and righteous individuals in the City of New Orleans. But there is also a widespread sickening savagery afoot there, as there is in every major urban center in America. A dysfunctional helpless class of people has been created by having been taught to despise the things that bring true satisfaction in life, the things that made the doomed passengers on the S.S. Central America care for each other; the things that propelled this country to prominence and its people to greatness.

Katrina’s winds laid it bare for all to see.

[Rocco DiPippo, a free lance political writer, publishes The Autonomist blog and contributes to David Horowitz’s Moonbat Central group blog.]

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http://realclearpolitics.com/Commentary/com-9_4_05_RT.html

The welfare state

Robert Tracinski

It has taken four long days for state and federal officials to figure out how to deal with the disaster in New Orleans. I can’t blame them, because it has also taken me four long days to figure out what is going on there. The reason is that the events there make no sense if you think that we are confronting a natural disaster.

If this is just a natural disaster, the response for public officials is obvious: you bring in food, water, and doctors; you send transportation to evacuate refugees to temporary shelters; you send engineers to stop the flooding and rebuild the city’s infrastructure. For journalists, natural disasters also have a familiar pattern: the heroism of ordinary people pulling together to survive; the hard work and dedication of doctors, nurses, and rescue workers; the steps being taken to clean up and rebuild.

Public officials did not expect that the first thing they would have to do is to send thousands of armed troops in armored vehicle, as if they are suppressing an enemy insurgency. And journalists–myself included–did not expect that the story would not be about rain, wind, and flooding, but about rape, murder, and looting.

But this is not a natural disaster. It is a man-made disaster.

The man-made disaster is not an inadequate or incompetent response by federal relief agencies, and it was not directly caused by Hurricane Katrina. This is where just about every newspaper and television channel has gotten the story wrong.

The man-made disaster we are now witnessing in New Orleans did not happen over the past four days. It happened over the past four decades. Hurricane Katrina merely exposed it to public view.

The man-made disaster is the welfare state.

For the past few days, I have found the news from New Orleans to be confusing. People were not behaving as you would expect them to behave in an emergency–indeed, they were not behaving as they have behaved in other emergencies. That is what has shocked so many people: they have been saying that this is not what we expect from America. In fact, it is not even what we expect from a Third World country.

When confronted with a disaster, people usually rise to the occasion. They work together to rescue people in danger, and they spontaneously organize to keep order and solve problems. This is especially true in America. We are an enterprising people, used to relying on our own initiative rather than waiting around for the government to take care of us. I have seen this a hundred times, in small examples (a small town whose main traffic light had gone out, causing ordinary citizens to get out of their cars and serve as impromptu traffic cops, directing cars through the intersection) and large ones (the spontaneous response of New Yorkers to September 11).

So what explains the chaos in New Orleans?

To give you an idea of the magnitude of what is going on, here is a description from a Washington Times story:

"Storm victims are raped and beaten; fights erupt with flying fists, knives and guns; fires are breaking out; corpses litter the streets; and police and rescue helicopters are repeatedly fired on.

"The plea from Mayor C. Ray Nagin came even as National Guardsmen poured in to restore order and stop the looting, carjackings and gunfire….

"Last night, Gov. Kathleen Babineaux Blanco said 300 Iraq-hardened Arkansas National Guard members were inside New Orleans with shoot-to-kill orders.

" ‘These troops are…under my orders to restore order in the streets,’ she said. ‘They have M-16s, and they are locked and loaded. These troops know how to shoot and kill and they are more than willing to do so if necessary and I expect they will.’ "

The reference to Iraq is eerie. The photo that accompanies this article shows National Guard troops, with rifles and armored vests, riding on an armored vehicle through trash-strewn streets lined by a rabble of squalid, listless people, one of whom appears to be yelling at them. It looks exactly like a scene from Sadr City in Baghdad.

What explains bands of thugs using a natural disaster as an excuse for an orgy of looting, armed robbery, and rape? What causes unruly mobs to storm the very buses that have arrived to evacuate them, causing the drivers to drive away, frightened for their lives? What causes people to attack the doctors trying to treat patients at the Super Dome?

Why are people responding to natural destruction by causing further destruction? Why are they attacking the people who are trying to help them?

My wife, Sherri, figured it out first, and she figured it out on a sense-of-life level. While watching the coverage last night on Fox News Channel, she told me that she was getting a familiar feeling. She studied architecture at the Illinois Institute of Chicago, which is located in the South Side of Chicago just blocks away from the Robert Taylor Homes, one of the largest high-rise public housing projects in America. "The projects," as they were known, were infamous for uncontrollable crime and irremediable squalor. (They have since, mercifully, been demolished.)

What Sherri was getting from last night’s television coverage was a whiff of the sense of life of "the projects." Then the "crawl"–the informational phrases flashed at the bottom of the screen on most news channels–gave some vital statistics to confirm this sense: 75% of the residents of New Orleans had already evacuated before the hurricane, and of the 300,000 or so who remained, a large number were from the city’s public housing projects. Jack Wakeland then gave me an additional, crucial fact: early reports from CNN and Fox indicated that the city had no plan for evacuating all of the prisoners in the city’s jails–so they just let many of them loose. There is no doubt a significant overlap between these two populations–that is, a large number of people in the jails used to live in the housing projects, and vice versa.

There were many decent, innocent people trapped in New Orleans when the deluge hit–but they were trapped alongside large numbers of people from two groups: criminals–and wards of the welfare state, people selected, over decades, for their lack of initiative and self-induced helplessness. The welfare wards were a mass of sheep–on whom the incompetent administration of New Orleans unleashed a pack of wolves.

All of this is related, incidentally, to the apparent incompetence of the city government, which failed to plan for a total evacuation of the city, despite the knowledge that this might be necessary. But in a city corrupted by the welfare state, the job of city officials is to ensure the flow of handouts to welfare recipients and patronage to political supporters–not to ensure a lawful, orderly evacuation in case of emergency.

No one has really reported this story, as far as I can tell. In fact, some are already actively distorting it, blaming President Bush, for example, for failing to personally ensure that the Mayor of New Orleans had drafted an adequate evacuation plan. The worst example is an execrable piece from the Toronto Globe and Mail, by a supercilious Canadian who blames the chaos on American "individualism." But the truth is precisely the opposite: the chaos was caused by a system that was the exact opposite of individualism.

What Hurricane Katrina exposed was the psychological consequences of the welfare state. What we consider "normal" behavior in an emergency is behavior that is normal for people who have values and take the responsibility to pursue and protect them. People with values respond to a disaster by fighting against it and doing whatever it takes to overcome the difficulties they face. They don’t sit around and complain that the government hasn’t taken care of them. They don’t use the chaos of a disaster as an opportunity to prey on their fellow men.

But what about criminals and welfare parasites? Do they worry about saving their houses and property? They don’t, because they don’t own anything. Do they worry about what is going to happen to their businesses or how they are going to make a living? They never worried about those things before. Do they worry about crime and looting? But living off of stolen wealth is a way of life for them.

The welfare state–and the brutish, uncivilized mentality it sustains and encourages–is the man-made disaster that explains the moral ugliness that has swamped New Orleans. And that is the story that no one is reporting.

[Robert Tracinski is Editor and Publisher of The Intellectual Activist.]

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Discover the Network

The Mayor Who Failed His City

By Ben Johnson

It’s official: the American Left now believes George W. Bush is God.

Bellowing leftists such as Robert F. Kennedy Jr. and Cindy Sheehan have blamed Hurricane Katrina – something insurance companies classify as an act of God – on President Bush’s "killing policies" (and, in RFK Jr.’s case, those of Mississippi’s Republican governor, Haley Barbour). Former Clinton aide Sidney Blumenthal also penned an article in The Guardian chalking up the flood to the Bush administration’s having cut one item in the Army Corps of Engineers’ annual budget. (Desperate to build a presidential legacy, even ex post facto, ex-President Bill Clinton has intimated his administration did more to keep New Orleans safe than Bush’s.) Meanwhile, DNC Chair Howard Dean weighed in by demeaning Bush’s trip to the disaster area, calling it "just another callous political move crafted by Karl Rove."

In addition to claiming Bush somehow fed the phantom of "global warming" to rain death upon his own citizens, the Left has alleged "racism" in his handling of this disaster. Jesse Jackson quipped post-Hurricane New Orleans looks like "the hull of a slave ship." Director Michael Moore played the race card in an open letter to Bush on his website. They found an echo in the "Reverend" Al Sharpton, who told MSNBC’s abysmal Keith Olbermann, "I feel that, if it was in another area, with another economic strata and racial makeup, that President Bush would have run out of Crawford a lot quicker and FEMA would have found its way in a lot sooner." Rep. Elijah Cummings, D-MD, a member in good standing of the Congressional Black Caucus, played both the race and the God card, thundering:

"We cannot allow it to be said that the difference between those who lived and those who died in this great storm and flood of 2005 was nothing more than poverty, age or skin color.To the president of the United States, I simply say that God cannot be pleased with our response."

And they say all the religious nutjobs are on the Right.

The Democrats’ avenging angel has come in the form of Senate Minority Leader Harry Reid, D-NV, who has proposed a 9/11-style commission to probe the feds’ response to Hurricane Katrina. (After all, the original 9/11 Commission proved so exemplary.) Despite these transparent attempts to claw political advantage from the suffering of the downtrodden – after the National Guard forgeries, Plamegate, and conspiratorial ravings about the Federalist Society won them no traction – a Washington Post poll revealed 55 percent of Americans do not blame President Bush for the debacle in the Big Easy.

Perhaps that is because the American people intuit it is not the federal response that should be monitored but that of New Orleans Mayor Ray Nagin, a Democrat and, coincidentally, a black man.

In accordance with the "City of New Orleans Comprehensive Emergency Management Plan" – a blueprint drawn up to deal with emergencies like this one – all "Authority to issue evacuations of elements of the population is vested in the Mayor." The document specifically states, "The person responsible for recognition of hurricane related preparation needs and for the issuance of an evacuation order is the Mayor of the City of New Orleans." This outline does not mention any specific federal government’s role in disaster relief, instead carving out roles for state and municipal governments. In fact, as Defense Secretary Donald Rumsfeld noted this holiday weekend, posse commitatus statutes bar federal officers from working as law enforcement officials.

Charged with so heavy a responsibility, Mayor Nagin punted, then passed the buck. The National Hurricane Center called Nagin Saturday night asking him to evacuate New Orleans, and President Bush also begged him to get his people to safety. As mayor, the final decision was Nagin’s. He was expected to issue such an order 48 hours before the storm made landfall; however, the storm touched down and the levees gave way less than 48 hours after his proclamation.

Moreover, he is to see that "Special arrangements will be made to evacuate persons unable to transport themselves or who require specific life saving assistance." Yet some 205 buses, and perhaps a greater number of large transit vehicles, were left stranded in a flooded parking lot. University of New Orleans professor Shirley Laksa had calculated some 125,000 residents do not have private transportation. As a result of Nagin’s inaction, Katrina’s victims are twice as likely to be poor than the average American. These are the people who had no recourse but to wait for the local government to rescue them; these are the people municipal malfeasance and nonfeasance abandoned to an ill-equipped Superdome.

Despite these critical lapses in judgment, Sen. Mary Landrieu, D-LA, pressured her commander-in-chief to withhold all criticism of the local response (President Bush had not made any, justified though it might be), threatening that, if he didn’t, "I might likely have to punch him.

Literally." Although Washington was abuzz when Rep. Dan Burton called Bill Clinton a "scumbag," no censure has been forthcoming for Landrieu.

The Left has not idled down its criticisms of Bush, blaming him for global warming and poor planning. The facts tell another tale. The infrastructure the Left criticizes Bush of withholding, planned by the Army Corps of Engineers, would have only defended the city from a level three storm; Katrina’s level five winds would have overwhelmed the project, even if it had been completed. Former Louisiana Democratic Senator John Breaux said the funds leftists blame Bush for cutting have been diverted by presidents since the 1970s. With the Left sniping at him over high deficits incurred by fighting a war in two nations, President Bush has had to trim non-essential spending, and no one considered it a vital priority to fund a system designed to guard against what Sen. Breaux called a "once every hundred years" storm. The experts several steps removed from the president – and on both sides of the aisle – simply bet a storm of this magnitude would not occur. The Army Corps of Engineers commander Lt. Gen. Carl Strock spelled out these sentiments: "We had an assurance that 99.5 percent this would be OK. We, unfortunately, have had that .5 percent activity here." Strock also denied needed monies were diverted to Iraq.

However, this storm didn’t catch everyone by surprise. Scientists have known since the 1980s that the city’s levees would fail in a storm of Katrina’s magnitude.

The federal government’s response has been laudable. FEMA Director Mike Brown began moving federal resources into New Orleans two days before the storm hit. Currently, some 8,500 active duty troops are serving in New Orleans. The chaotic situation created by Mayor Nagin’s herding people into the Superdome, without adequate provisions for the long haul, with the resultant murder, rape, and looting a byproduct of poor, or non-existent, planning. Governor Blanco also deserves blame for not calling in the National Guard to get the situation in hand earlier. Now, 38,000 National Guardsmen are aiding the wider disaster area, including undertaking the police functions within New Orleans that Mayor Nagin could not or would not furnish.

With all these efforts going on, Jesse Jackson threw himself before the cameras yet again last week, claiming, "The president has not put together a federal program or a coordinated effort to address this massive crisis."

Just prior to Jackson’s statement, Mayor Ray Nagin coped with the high pressure of the situation he created by launching into a profanity-laden radio interview with WWL-AM. He ranted that federal relief workers needed to "get off your asses." (This at a time when helicopters bearing federal relief were being shot at by New Orleanians Nagin could not control.)

These are the same murderous looters the Democratic Party’s blog referred to as "the victims." The only New Orleans residents not intimidated by the rampaging gangs of hoodlums have relied upon the only freedom that keeps law-abiding men safe: the right to privately own firearms.

The New Orleans debacle has demonstrated a few discomforting truths: there is apparently no national suffering so moving that the Left will not exploit it for crass political advantage. The nation should have learned this when Bill Clinton blamed the Oklahoma City Bombing on Rush Limbaugh and Republican "anti-government rhetoric." More importantly, significant holes remain in our national infrastructure, which an enterprising terrorist cell could exploit. We can no longer turn a blind eye to the national security implications of mayoral elections in this nation’s vital cities. Their governance, so long dominated by corrupt and ineffectual leftists, has led to disaster on a massive scale. In the case of New Orleans, a plan had even been drawn up to fend off the worst.the mayor simply demurred from filling in its blanks. The tragedy filling our television screens for the last week is its result. Next time, the mourning could be caused by an act of war. At least one Bush critic, Rep. Bobby Jindahl, R-LA, is right: "After 9/11, this never should have happened."

A alegria do futebol

Até os oito anos e meio morei nos cafundós do Paraná onde nem tomava conhecimento de futebol profissional. Foi só quando me mudei para Santo André, em março de 1952, que comecei a me interessar por acompanhar jogos no rádio. No ano seguinte passei a torcer pelo São Paulo – que se tornou campeão paulista em 1953, derrotando o Santos na Vila Belmiro no dia 29/12 [* Vide Correções no final].

A escalação do São Paulo naquele jogo, se bem me lembro, foi: Poy, De Sordi e Mauro; Pé de Valsa, Bauer e Alfredo; Maurinho, Dino, Gino, Albella e Teixeirinha [* Vide Correções no final]. Esquema? Será que havia esquema naquela época? Se havia, deve ter sido 1-2-3-5: um goleiro, dois zagueiros (um à direita e outro à esquerda), três meios-de-campo (o centro médio, que  fazia as vezes também de zagueiro central, o médio à esquerda e o médio à direita), e cinco atacantes (dois pontas, um à direita e outro à esquerda, dois meias, um à direita e outro à esquerda, e o centro avante. Os jogos de pebolim ainda preservam esse “esquema”: um goleiro, dois zagueiros, três médios e cinco atacantes.

[Não sei por que o zagueiro (ou beque, como se dizia então) e o médio eram “direitos” mas o ponta era “direita” (assim no feminino). Se alguém tiver uma luz sobre isso, apreciaria se me comunicasse.]

Resolvi escrever sobre isso por causa da alegria que me causou ver o primeiro tempo do jogo do Brasil com o Chile ontem. Que jogo bonito! Quanta habilidade no gramado (no lado brasileiro). O “quadrado” brasileiro, composto por Cacá, Robinho, Ronaldo (o “fenômeno”) e Adriano (o “imperador”) jogou como se fosse um sonho. Eles não fizeram mais gols porque não quiseram. No finzinho do jogo, só para mostrar que, querendo, fariam um outro, o fizeram.

Mas a beleza que foi o jogo criou um aparente problema para o Parreira. Ronaldinho (o “melhor do mundo” no ano passado) não jogou, porque estava suspenso. Agora, terminada a suspensão, quem sai, para ele entrar? Cacá é, de certo modo, a alma do time (sou meio “partisan” aqui, porque para mim ele ainda é são-paulino). Robinho é o grande artista, com pedaladas, chapéus e lençóis. Ronaldo, bem, é Ronaldo. Robinho o chama de “Presidente” (embora o termo hoje tenha conotação dúbia, graças ao Lulla). E Adriano não tem como deixar fora do time: é ele quem faz os gols, afinal de contas.

Tostão, na Folha de hoje (5/9/2005), lastima que o “quadrado” não possa virar um “pentágono”. Li outros artigos que asseguram que um pentágono não daria certo. Não sei por quê. No meu tempo, que eu me dê conta, os times tinham, como ataque, um pentágono: cinco caras. O Brasil ganhou a copa da Suécia com um pentágono: Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo. Zagalo era ponta mas fazia também o meio de campo… No México ganhou com outro pentágono: Jairzinho, Gerson, Tostão, Pelé e Rivelino. Está aí: Rivelino na ponta “à esquerda”…

Pra mim, o ataque da seleção de 2006 está definido: Cacá, Adriano, Ronaldo, Robinho e Ronaldinho Gaúcho. Cacá e Ronaldinho Gaúcho vindo de trás, Ronaldo e Adriano na frente, para arrematar, e Robinho azucrinando os adversários. O ataque está aí: sem tirar nem pôr. Só não vê quem não quer. Para completar: no meio de campo, Cicinho, Emerson (operando também como zagueiro central), e Roberto Carlos — Cicinho e Roberto Carlos voltando para marcar atrás; zagueiros: Alex (o Lúcio de vez em quando dá medo) e Juan. No gol, pode ficar o Dida (se bem que eu prefira o Rogério Ceni).

Olhem só que belo time: Dida, Alex e Juan; Cicinho, Emerson e Roberto Carlos; Cacá, Adriano, Ronaldo, Robinho e Ronaldinho Gaúcho.

Alguém bate esse time??? Pode ser — num momento de azar ou absoluta falta de inspiração do time brasileiro (como aconteceu com a Seleção Brasileira de 1982 — que, entretanto, na minha opinião, não era tão boa quanto esta). Mas não em uma competição estendida.

Brasil – zil, zil, zil, zil… Agora são 180 milhões torcendo — o dobro de 1970. Isso deve valer alguma coisa também.

[* Correções accrescentadas em 20050923: Vim a descobrir, posteriormente, que errei a data do jogo do São Paulo com o Santos e um jogador na escalação do São Paulo. A data do jogo foi 24/1/1954. Na escalação, Dino não jogou — sendo substituído por Negri, que usou a camisa 10, ficando Albella com a camisa 8. Os gols do São Paulo foram de Maurinho, Albella e Negri. Corrigi a informação a partir do livro São Paulo: Dentre os Grandes, És o Primeiro, de Conrado Giacomini, Ediouro, Rio de Janeiro, 2005, p.106. O livro é uma verdadeira “Bíblia Sagrada” do torcedor são-paulino. Imperdível. A propósito: O verdadeiro campeão do Quarto Centenário de São Paulo foi o SPFC, que conquistou o título um dia antes do aniversário da cidade!!!]

Em Campinas, 5 de setembro de 2005.  

"2 Filhos de Francisco"

Vi na quarta-feira, dia 31/8, o filme 2 Filhos de Francisco. Achei o filme lindo – enquanto história e enquanto cinema.

A história de Zezé di Camargo e Luciano – Mirosmar e Welson – é emocionante.

Até os nomes reais de cada um refletem sua origem pobre. O irmão mais novo, que começou a dupla com Mirosmar, mas depois morreu, se chamava Emival. Alguém já imaginou um rico pondo nome de Mirosmar, Emival e Welson em seus filhos? Rico hoje, por uma inversão curiosa, coloca em seus filhos nomes simples, como José, Joaquim, Pedro, Benedito, que antes eram reservados à pobreza. E os pobres buscam nomes mais complicados, às vezes até pretensiosos. No entanto, antes de alcançar o sucesso, Mirosmar vira José (Zezé) e Welson, Luciano.

Mirosmar, Welson e seus (muitos!) irmãos, filhos de seu Francisco e de dona Helena, nasceram na pobreza. Alguns nasceram perto de Pirinópolis, GO, num sitiozinho pobre, com casa de adobe, que pertencia ao avô Benedito (pai de dona  Helena), que um dia resolveu tomá-lo de volta. Os mais novos nasceram num barraco em Goiânia – que, em termos de casa, era pior do que a do sítio. Todos viviam na pobreza — pobreza mesmo, dessas em que a menina ia deitar de bruços pra ver se, comprimindo o estômago, a fome passava. O dono do armazém da esquina estava negando o fiado, porque a dívida havia ficado grande demais e passara a ser um risco.

O pai, seu Francisco, que gostava de música sertaneja, não põe muita fé na habilidade musical do filho mais velho. Este havia desafinado terrivelmente ao cantar “Beijinho Doce” em cima de um caminhão num desses encontros musicais de vilarejo do nosso Brasil profundo. Mas mesmo assim lhe dá uma gaita de presente por haver tentado – gaita com a qual Mirosmar agora atormenta toda a família, tocando – ou tentando tocar – o tempo todo. Mas um dia, Seu Francisco, ao ouvir o menino tocar “Menino da Porteira” na gaita, começa a acreditar que o menino tem futuro na música. Usa o dinheiro da venda de toda a colheita, mais um porco e o revólver para comprar-lhe uma sanfona – e para o irmão mais novo, um violão. Não sossega até o sanfoneiro mais famoso da região lhe dá uma primeira – e única – lição. O menino aprende a tocar o necessário para se acompanhar na sanfona – e o irmão faz o mesmo com o violão.

Como o sogro pede o sítio de volta, Seu Francisco resolve que é chegada a hora de ir para uma cidade grande. Empacota “os trens” e vai com a família para Goiânia – morar num barraco de periferia. Na roça sempre havia alguma coisa pra comer, mas na cidade grande a família chega a passar fome, enquanto seu Francisco faz bicos como ajudante de pedreiro. Para ajudar a família a comprar comida Mirosmar resolve agir. Quando chegavam em Goiânia, viu duplas sertanejas cantando na rodoviária em troca de dinheiro. Chama Emival e lá vão os dois para a rodoviária, de sanfona e violão nas costas. Na rodoviária foram impedidos de cantar em frente a uma lanchonete. Mas quando estavam sentados, desanimados, sem saber o que fazer, alguém provocou Mirosmar: “Sabe tocar essa sanfona?” “Sei”, disse ele. E começou a tocar e a cantar. Cutucou o irmão para que pegasse o violão e também cantasse. Quando os dois viram o interesse do público, puxaram uma caixinha de papelão que estava embaixo do assento — e ela rapidamente se encheu de trocados.

Com o sucesso que fizeram na rodoviária, não demorou para a dupla encontrar um “empresário”, meio sacana, que os levou a uma “tournée” pelo interior de Goiás. Depois de um relacionamento meio conflituoso com a família no início, o empresário começa a ser bem aceito — mas numa das viagens, seu carro (um carro "novo", um Maverick, que já havia sido comprado com o dinheiro ganho com a dupla para substituir à velha Kombi) bate em um caminhão e Emival morre. A família, já sofredora, toma um baque do qual vai levar muito tempo para se recuperar. Mirosmar pára de cantar por um bom tempo: perdera não só o irmão, mas o parceiro.

Quando Mirosmar volta a cantar, o faz tanto em dupla com outros cantores quanto cantando sozinho. Welson, que viria a se tornar Luciano, ainda é muito novinho (tem onze anos a menos do que o irmão). Mirosmar começa também a compor. Eventualmente grava um disco sozinho (já com o nome de Zezé di Camargo — o "di" deve ser coisa de marketeiro do interior) – mas embora algumas de suas músicas alcancem algum sucesso em gravações de outros cantores (como a dupla Leandro & Leonardo), o seu disco não faz nenhum sucesso.

Enquanto canta em eventos no interior goiano Mirosmar encontra Zilu e se casa. Logo vem uma filha (Wanessa – tinha de ser com “w”… ). Resolvem ir tentar a sorte em São Paulo. Mas nada dá certo. Para que o marido continuasse compondo, Zilu tem de, além de cuidar das filhas (uma outra havia chegado), de fazer bicos vendendo bugigangas – o sustento da família depende desses bicos.

Lá em Goiânia, Welson cresce, arruma uma namorada e um filho, e se interessa pela música – mas não mostra grande talento. Quando a namorada o abandona, levando o filho, ele vem pra casa do irmão em São Paulo – e lhe dá uma injeção de confiança, garantindo-lhe, num momento em que a confiança deste estava perto de esmoronar, que iriam alcançar sucesso e vender mais de um milhão de discos.

Mirosmar começa a treinar o irmão para que possa novamente ter um parceiro. E continua a compor. Acha uma gravadora que se dispõe a gravar suas músicas, mas sem garantia de que lançará um disco.

Nesse momento Mirosmar compõe “É o Amor!” e grava a música com seu irmão – agora já “batizado” de Luciano. Mas a gravadora ainda não acredita que o disco tenha condições de ser lançado: duvida de que terá sucesso.

Numa visita à família em Goiânia, a dupla mostra a fita de “É o Amor!” à família. Esta fica encantada – e não se conforma de que a gravadora não queira lançar o disco. Sem que os meninos soubessem, seu Francisco pega a fita e a leva a uma das rádios de Goiânia, onde conhecia um DJ. Ao voltar para casa, começa a ligar para a rádio, pedindo que toquem a música dos filhos. Chega ao extremo de gastar quase o salário inteiro em fichas, distribuindo-as aos colegas de obra, fazendo com que cada um telefonasse para a rádio pedindo para que tocasse “É o Amor!”. O estratagema funciona. Um dia, enquanto a família almoça no barraco, o rádio sempre ligado, ouvem a música – já alçada ao topo da parada de sucessos da rádio – e entram em delírio.

É o começo do sucesso – e o sucesso contagia, gera mais sucesso. Como dizem os americanos, “nothing succeeds quite like success” – “nada traz tanto sucesso como o sucesso”, algo assim. A gravadora em São Paulo finalmente resolve lançar o disco. O resto é história. Mais de um milhão de cópias vendidas com o primeiro disco da dupla.

O filme termina nesse ponto. Assim que o disco alcança sucesso o filme corta para um show da dupla – mas agora já são os próprios cantando no presente, não os atores que os representaram no filme. E o pai e a mãe também entram no filme em pessoa. Todos fazem alguns depoimentos comoventes.

Enquanto aparecem os créditos, no final do filme, há um dueto em que Caetano Veloso e Maria Bethânia cantam Tristeza do Jeca. Caetano assina a trilha sonora com Zezé di Camargo, e participa cantando algumas músicas – como o fazem Bethânia e Ney Matogrosso. O CD com a trilha certamente também será um sucesso.

A história é emocionante, porque é a história de um sonho. Originalmente, o sonho do pai. Mas o sonho do pai contagia o filho. E, eventualmente, o sonho de Mirosmar contagia Welson.

Os sonhos da gente humilde deste país são assim: sonhos de se tornar cantor de música sertaneja, sonho de se tornar jogador futebol, sonho de se tornar sindicalista e, quem sabe, um dia presidente… Alguns desses sonhos se tornam realidade. É assim que surgem os Zezés di Camargo e Lucianos, os Ronaldos, Ronaldinhos e Robinhos, os Lulas.

Para quem olha de fora, parece que o sucesso um dia chega assim de forma misteriosa, como se fosse dádiva divina. Quem olha de fora não vê, na história dos envolvidos, o pensamento, que não se deixa esmorecer, de que o sucesso, isto é, a vida melhor, é possível, mesmo para quem não tem nada, a não ser um sonho; não vê o propósito inarredável de alcançar esse sucesso; não vê a paixão pela realização desse sonho, que leva o pai a investir toda a sua colheita, e ainda mais alguma coisa, para comprar um instrumento para os filhos, ou todo o seu salário, para trazer à gravação dos filhos o reconhecimento que ela devia; não vê os planos feitos para abrir caminhos; não vê a paciência diante das maiores dificuldades; não vê a persistência de quem não se deixa quebrar nem mesmo quando a morte imprevistamente ataca e rouba um dos pilares em que se sustentava a esperança. Pensamento, propósito, paixão, planos, paciência, persistência… Seis "P"s que explicam o sucesso na vida.

Não resta dúvida que Mirosmar / Zezé di Camargo tem talento – e se tem hoje, tinha, quando era pequeno. Ele tem voz privilegiada e é excelente compositor desse gênero de música. E seu talento é bem complementado pela voz de Luciano, que o considera, além de irmão e parceiro, um segundo pai. Mas esse talento, ainda que tenha componente genético (de que não duvido), precisou ser estimulado, cultivado, burilado… Quem os ouve cantar hoje fica com a impressão de que cantar é tão fácil para eles quanto para os canários da terra. Mas não imagina o esforço que está por traz da competência desenvolvida – tão desenvolvida que o seu exercício parece natural e automático. Não imagina, isto é, a menos que veja o filme…

É por isso que a história é boa, engajante, comovente – mesmo que a gente, ao entrar no cinema, já conheça o fim do filme. Ela nos mostra os bastidores do sucesso, o esforço que está por trás do desenvolvimento do talento e da aquisição da competência, a importância de um ambiente que nutra e dê apoio aos nossos sonhos.

Educar é criar condições para que as pessoas possam se desenvolver como seres humanos, possam realizar seus potenciais, possam transformar a dependência e incompetência com que nascem em autonomia e competência na definição e realização de um projeto de vida – que nada mais é do que um sonho que não fica apenas sonho, e nada mais.

Falei muito da história – e ainda nada do filme.

Não é sempre que o cinema brasileiro produz uma obra de primeira qualidade como esta. Tudo é bom. A direção, competente, é de Breno Silveira. O história corre fácil e gostosa, sem que a gente sinta o tempo passar. Cenas emocionantes, em que quase todo o cinema chora, são misturadas com cenas engraçadas. O roteiro é de Patrícia Andrade e Carolina Kotscho, que o construíram em cima de entrevistas, relatos e um sem número de “causos” – afinal de contas, exceto por Emival, os personagens estão todos aí, vivos e, felizmente, bem de saúde. Quanto à trilha sonora, a simples assinatura de Caetano é sinal de qualidade – e a de Zezé de Camargo não é de modo algum desprezível. A interpretação das canções que entram na trilha fica na medida certa.

Mas o mais importante é que a interpretação dos atores principais é impecável. Eis a lista completa deles:

Ângelo Antônio: seu Francisco

Dira Paes: dona Helena

Dablio Moreira: Mirosmar (inicialmente Camargo, depois Daby) [criança]

Marcos Henrique: Emival (inicialmente Camarguinho, depois Diebersson) [criança]

Wigor Lima: Welson (Luciano) [criança]

Márcio Kieling: Mirosmar (Zezé Di Camargo) [adulto]

Thiago Mendonça: Welson (Luciano) [adulto]

Paloma Duarte: Zilu [mulher de Mirosmar]

Lima Duarte: Benedito [pai de Helena]

Natália Lage: Cleide [primeira mulher de Welson]

Jackson Antunes: Zé do Fole [sanfoneiro]

José Dumont: Miranda [empresário]

Enfim. Há quem se surpreenda de eu estar recomendando o filme. Acho que esse resumo responde a essa surpresa. Esse não é um filme que agrada apenas os amantes de música sertaneja: agrada qualquer um que gosta de ver na tela uma boa história competentemente contada.

Em Campinas, 5 de setembro de 2005

Eugenia ou bom senso?

Nunca imaginei que chegasse o dia em que me eu visse levado a defender o atual governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira, do PMDB, a quem tenho o desprazer de conhecer pessoalmente e por quem tenho especial antipatia. Acontece, porém, que chega a hora em que aparece algo ainda mais detestável do que minhas antipatias pessoais, a estupidez humana, e isso me leva a deixar minha antipatia pelo governador de lado e defendê-lo da acusação injusta de que ele propôs a eugenia em um artigo que publicou.

Esclareço que não li o artigo. Li apenas o relato que faz a Folha do que disse o governador (edição de 3/9/05) — e do que dizem os seus críticos. Parece o suficiente. Se a Folha errou ao relatar o que pensa o governador, serei forçado a rever o que aqui afirmo.

Enfim, vamos lá.

Dizer que tudo o que somos é resultado dos genes que herdamos de nossos pais, e que o ambiente não tem nenhuma responsabilidade naquilo que nos tornamos, é afirmar uma estupidez tão grande que nem sei se jamais houve alguém com coragem suficiente de passar para si próprio esse atestado de burrice.

Da mesma forma, dizer que tudo o que somos é resultado do ambiente em que vivemos, e que os genes que herdamos não têm nenhum papel naquilo que nos tornamos, é afirmar outra estupidez — no mínimo tão grande quanto a primeira, talvez maior: se isso fosse verdade, todos os que nascemos e crescemos em um mesmo ambiente deveríamos ser idênticos.

No entanto, neste segundo caso, há gente disposta a defender essa tese em entrevista de jornal (Folha de S. Paulo, 3 de setembro de 2005). Infelizmente, não é surpresa para ninguém, hoje em dia, que tamanha estupidez esteja sendo declarada aos quatro ventos por uma profissional de biologia de uma universidade pública de renome: "O ambiente é tudo", diz Mayana Zatz, bióloga da USP especialista em doenças genéticas. Mme. Zatz deveria ter seu diploma cassado por estupidez incurável (de causa provavelmente genética). Se se tratasse de uma antropóloga cultural ou de uma socióloga, eu até a desculparia. Mas uma bióloga?!?!?! A mulher errou de profissão!

Não creio que haja dúvida, hoje em dia, entre os que pensam um pouco, de que entre as características que são, em parte, geneticamente transmissíveis, estão, certamente, várias de nossas características físicas (inclusive aquelas que servem de base para a determinação do que é bonito e do que é feio) e a inteligência (qualquer que seja a definição que se dê à inteligência, seja ela una ou múltipla).

SE — notem o condicional — a ciência vier a manipular os genes de forma a evitar que uma criança nasça, por exemplo, com defeito congênitos, ou com Síndrome de Down, ou com algum outro problema que tem, nos genes, sua causa, tenho certeza absoluta de que 100% dos pais que porventura venham a estar nessa situação optarão, sendo possível, por corrigir o defeito.

SE — notem o condicional — a ciência vier a manipular os gens de forma a permitir que alguém nasça mais inteligente do que doutra forma seria o caso, qualquer que seja a definição de inteligência que se adote, tenho certeza absoluta de que 100% dos pais optarão por um filho mais inteligente do que por um mais sonsinho, outras coisas sendo iguais (et ceteris paribus).

SE — notem o condicional — a ciência vier a manipular os genes de forma a permitir que alguém nasça mais bonito do que doutra forma seria o caso, qualquer que seja a definição de beleza que se adote, tenho certeza absoluta de que 100% dos pais optarão por um filho mais bonito do que por um mais feinho, et ceteris paribus.

A resposta à indagação da nossa ré confessa em estupidez sobre "quem é que decide o que é bonito" é evidente: é a parte tomando a decisão! Eu, pessoalmente, teria horror de deixar a Mme. Zatz até mesmo a  responsabilidade de decidir o que eu vou tomar de café da manhã amanhã.

Estupidez, eu gostaria de crer, tem limites, mas aparentemente esses limites não são tão altos a ponto de impedir alguém de trabalhar na USP. (Espero que Mme. Zatz não seja professora da USP — mas não tenho certeza de que sua estupidez o impeça).

Enfim. O governador de Santa Catarina sem dúvida errou: errou ao imaginar que o mundo não tem gente tão despreparada quanto Mme. Zatz — e que ostenta sua estupidez em nome da ciência. Em nenhum momento o governador de Santa Catarina propôs a eugenia como política pública ou como regra de conduta pessoal. Disse apenas que a ciência pode — e vai — chegar ao ponto em que poderemos, querendo, tomar decisões como a relativa à escolha do sexo dos nossos filhos e outras como, por exemplo, as relativas à correção de defeitos congênitos e à incorporação de características que consideramos importantes. Eu diria que, se fizermos um plebiscito sobre o que disse o governador de Santa Catarina, mais de 95% dos brasileiros estariam de acordo com ele. Os 5% que discordariam provavelmente seriam acadêmicos (infelizmente, não só da USP).

O conceito de eugenia surgiu num contexto em que o desenvolvimento da ciência era outro. A idéia da eugenia era eliminar, por um processo de seleção consciente, os membros mais fracos, menos inteligentes, menos apreciados da raça, com o fim de, assim, melhorar a qualidade da raça. O governador de Santa Catarina não propõe a eliminação de ninguém. Propõe, isso sim, que usemos a ciência para remover, em tempo, no próprio indivíduo, aquelas características que, a se manterem, poderiam tornar aquela pessoa mais fraca, menos inteligente ou menos apreciada (e, portanto, com menores condições de sobreviver). O que deseja o governador, portanto, é a melhoria da qualidade de vida do indivíduo — não uma abstrata melhoria da raça.

Só não vê isso quem não quer.

Por fim, o desequilíbrio entre os sexos na China não é decorrente da aplicação de princípios relacionados à manipulação genética (como sugere Mme. Zatz): é decorrente do fato de que os chineses matam ou deixam morrer nenês do sexo feminino. O que é preferível: deixar que as pessoas escolham o sexo de seus bebês ou conviver com o infanticío de bebês do sexo feminino?

Se eu ler mais acerca do que pensa essa uspiana, vou acabar acreditando que a estupidez humana não tem limites.

Em Campinas, 3 de setembro de 2005


—–Matéria Original—–
 

Folha de S. Paulo
3 de setembro de 2005
 
BIOÉTICA

Luiz Henrique da Silveira diz que genética permitirá evitar filhos "feios" ou "idiotas"; biólogos condenam proposta

Governador de SC louva eugenia em artigo

REINALDO JOSÉ LOPES
DA REPORTAGEM LOCAL

Um artigo publicado no último domingo pelo governador de Santa Catarina, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), trouxe de volta um fantasma da ética científica: a eugenia. O governador defendeu a utilização das descobertas sobre o genoma humano para que as pessoas possam evitar que seus filhos nasçam "feios, deformados, deficientes ou idiotas".

Com o título "O DNA Espartano" (em referência às práticas de seleção de crianças na antiga cidade grega de Esparta), o texto foi publicado no jornal diário "A Notícia" (an.uol.com.br), de Joinville, no qual o governador assina semanalmente um texto opinativo exclusivo. A assessoria de imprensa do governador, procurada pela Folha durante toda a tarde de ontem, disse não ter conseguido localizá-lo para comentar o caso.

Apesar das idéias polêmicas do texto – o governador fala não apenas em melhoramento genético de bebês antes do nascimento mas também em filhos que poderiam ser clones de gênios ou pessoas de beleza excepcional-, a reação ao artigo foi tímida, mesmo dentro de Santa Catarina.

Um deputado do PT catarinense, Afrânio Boppré, condenou na Assembléia Legislativa as afirmações de Luiz Henrique. O mesmo fez o biólogo João de Deus Medeiros, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em carta enviada ao jornal.

Pseudociência

"A história já nos mostrou quão infeliz se torna a apropriação de conceitos pseudocientíficos para legitimar concepções ideológicas. Nesse contexto, a eugenia, não fosse o artigo do governador, nos parecia definitivamente sepultada com a sucumbência das pretensões de Hitler", escreve Medeiros.

Em seu artigo, o governador começa citando o exemplo da Esparta, cidade do sul da Grécia que se tornou, durante algum tempo, a maior potência militar da região.

Acontece que a eugenia, ou seja, a seleção das pessoas que supostamente teriam as melhores características físicas e mentais e a eliminação das doentes ou fracas, "era o dogma mais importante para os espartanos", escreve Luiz Henrique. Os bebês recém-nascidos de Esparta eram inspecionados por um ancião de sua tribo. Se tivessem qualquer deformidade ou fossem fracos, eram jogados num abismo chamado "Apothetai" ("as descartadas").

O governador afirma que o avanço das pesquisas genéticas, como a soletração do genoma humano, permitirá um "novo cenário eugênico", que "não se dará pela ação da adaga, mas pela evolução da ciência".

Apesar de ter sido ministro da Ciência e Tecnologia entre 1987 e 1988 (governo Sarney), Luiz Henrique escorrega na hora de analisar as implicações científicas de sua idéia, diz Mayana Zatz, bióloga da USP especialista em doenças genéticas. "Não faz o menor sentido", resume a pesquisadora, cujo laboratório oferece aconselhamento a famílias que carregam em seu DNA mutações que podem estar ligadas a males incuráveis. "São especulações que, hoje, não têm a menor possibilidade de se realizar. Além do mais, quem é que decide o que é bonito e o que é feio? O famoso nariz romano, que eles achavam lindo, não seria visto do mesmo jeito por nós", diz.

Desequilíbrio

Zatz já vê problemas na escolha do sexo dos bebês, algo muito mais próximo da realidade hoje por envolver manipulação mais simples -basta garantir que o espermatozóide do pai carregue o cromossomo Y, a marca genética da masculinidade. "A escolha do sexo dos bebês entre os chineses já mostrou que você pode criar um desequilíbrio muito grande entre homens e mulheres."

"O texto dele é tão ridículo que fica difícil articular uma resposta científica", declarou à Folha a geneticista Maria Cátira Bortolini, do Departamento de Genética da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), que também chama a atenção para o absurdo de traçar uma equivalência entre "beleza" e a estrutura dos genes. Afinal, características como aparência física geral ou inteligência, também mencionada pelo governador, envolvem a interação de centenas ou até milhares de proteínas codificadas pelos genes entre si e com o ambiente em que a pessoa se desenvolve.

"O ambiente é tudo", afirma Zatz. "É o que acontece com aqueles bancos de esperma de vencedores do Nobel. Um monte de mulheres fez inseminação e até agora não nasceu nenhum novo gênio", brinca. Uma referência do texto mostra de onde o governador pode ter tirado as idéias: ele cita o biólogo americano James Watson, um dos descobridores da estrutura do DNA, criticado por defender o melhoramento da beleza e da inteligência humanos.

"Nunca o ritmo das revoluções científicas foi tão rápido, o que é bom por um lado, mas tem alguns subprodutos não muito desejáveis. Um deles é surgirem pessoas que se sentem capazes de emitir opiniões supostamente sobre bases científicas", lamenta Bortolini.

"O que mais me ofende, e ao mesmo tempo serve de alerta, é ver minha área de trabalho ser usada para fundamentar uma argumentação estapafúrdia dessas", diz Marcelo Nóbrega, biólogo brasileiro da Universidade de Chicago (EUA). "É na ignorância científica que está a maior tragédia do que foi dito por ele."

"Adeus, Lênin"

Assisti há dois dias – no mesmo dia em que assisti a “2 Filhos de Francisco” – ao filme alemão de 2003 “Good-bye Lenin” (“Adeus Lênin”, em Português).

Achei o filme simplesmente fantástico.

Fiquei tão bem impressionado pelo filme que fui procurar informações sobre ele na Internet. Tive várias surpresas. A maior delas é que o filme é geralmente classificado como comédia… A mim me pareceu que o filme, embora tenha partes engraçadas, é drama — perto de tragédia. Mesmo as piores tragédias podem ter partes engraçadas.

Vou procurar explicar nesta mensagem porque acho o filme um drama próximo da tragédia.

Certamente não considero o filme uma tragédia porque ele descreve os estertores e o fim do comunismo na antiga Alemanha Oriental (ironicamente – e orwelliamente — denominada DDR ou RDA – Deutsche Demokratische Republik ou República Democrática Alemã). Isso foi uma tragédia só para os dirigentes comunistas que mandavam na não-democrática não-república (de verdadeiro no nome do país só o “Alemã”).

A tragédia é de outro tipo, mais sutil. Mas para explicá-la, tenho de resumir o filme – que é dirigido por Wolfgang Becker.

A história começa mostrando uma mãe de família (dois filhos, um rapaz e uma moça) vivendo o que parece ser um processo de abandono pelo marido – que estaria fugindo para a Alemanhã Ocidental (essa sim, república democrática) acompanhado de uma amante. Essa a história oficial que ela conta aos filhos e aos amigos. O filme mostrará, mais tarde, que a história não era bem assim. Nada no filme é “bem assim”…

A mulher, cujo nome no filme é Christiane Becker, e que é representada pela atriz Kathrin Sa, é professora, cidadã ativa e entusiasta do regime da DDR. Depois de perder o marido, o foco de sua vida passa a ser a defesa do regime comunista de seu país. Sem marido, ela se casa com o comunismo. Dedica-se de corpo e alma a essa causa, doutrinando crianças, formando corais patrióticos de crianças, combatendo a opressão capitalista, etc. Assim, torna-se um troféu para os políticos poderosos que dominavam a nação – convivendo, superficialmente, nos mais elevados círculos do poder.

Mas, durante os eventos tumultuosos que antecederam a queda do muro de Berlin, em 1989, a queda do regime comunista na DDR, e eventualmente a reunificação das duas Alemanhas, ela vê seu filho (Alexander, representado por Daniel Brühl) sendo preso e jogado dentro de um caminhão, ensangüentado, numa manifestação de rua em protesto contra o regime. Através de seus contatos políticos ela consegue libertar o filho. Mas seu choque e desgosto foram tão grandes que tem um enfarto e fica em coma, num hospital, durante oito meses, depois dos quais recobra a consciência mas continua inválida numa cama de hospital.

A família foi advertida pelos médicos de que deveria proteger a mãe de qualquer choque emocional – pois, em sua condição, uma alteração emocional maior poderia ser fatal.

Acontece que, durante os oito meses em que Christine Becker ficou em coma no hospital, a DDR virtualmente acabou – só a unificação com a Alemanha Ocidental ainda não aconteceu. O muro de Berlin caiu, o trânsito de alemães da parte ocidental pela Alemanhã Oriental, e vice-versa, passou a ser permitido, a Alemanha Oriental começou a passar por “um choque de democracia e capitalismo”, as instituições comunistas começaram a ruir, a estrutura paternalista (travestida de “aquisições sociais”, “les acquis sociaux” de que falam os franceses) deixou de funcionar, o desemprego aumentou, o caos imperava em muitos aspectos da vida, indústrias multinacionais começaram a entrar no país, muitos alemães orientais, com medo de um retrocesso, fugiram para o Leste enquanto era possível (abandonando casas e apartamentos mobiliados, roupas e outros pertences pessoais), e outros, ainda mais fiéis ao comunismo, por convicção ou interesse, simplesmente estavam perdidos: não sabiam o que fazer – porque o mesmo estava acontecendo nos outros países da Cortina de Ferro e a União Soviética não fazia nada, em parte porque ela mesma atravessava igual processo.

O raciocício do filho Alexander (que nisso não é entusiasticamente acompanhado por sua irmã, Ariane, representada por Maria Simon) o levou a concluir que a única forma de preservar a saúde da mãe era impedindo-a de saber o que estava acontecendo.

O enredo todo do filme, a partir desse ponto, gira em torno dos esforços de Alexandre para criar um “mundo de faz-de-conta” para a mãe, que a poupasse de um choque emocional. É esse esforço que produz algumas cenas muito divertidas, que leva alguns a classificar o filme como comédia. Mas, convenhamos, são cenas engraçadas diante de uma situação trágica.

No aniversário da mãe, Alexander monta uma festinha no quarto do hospital, trazendo antigos líderes políticos, amigos da mãe, agora fora do poder, devidamente “persuadidos” a participar… Traz um pequeno sub-conjunto de um dos ex-corais dirigidos pela mãe – as crianças devidamente uniformizadas, como antigamente.

Cristiane Becker, a mãe, tem vontade de comer os produtos com que estava acostumada (e que agora, sem que ela saiba, não existem mais…) Alexandre e sua namorada (uma loirinha russa linda, que era enfermeira do hospital, chamada Lara [o que mais?], representada por Chulpan Khamatova) começam a vasculhar apartamentos abandonados por seus donos para ver se encontravam os produtos desejados pela mãe (e os encontram).

Mas o pior de tudo é que Christiane Becker, a mãe, resolve que quer assistir à televisão no quarto – em especial ao noticiário das 19h30, a que sempre assistia, como se fosse um dever religioso. O que fazer??? Com a ajuda de um amigo que tinha interesse em se tornar produtor de programas de TV e de uma câmara amadora de mão, Alexander monta, diariamente, um noticiário falso, de 30 minutos, contendo imagens retiradas do noticiário verdadeiro, mas tendo, como âncora, o amigo – ambos sendo responsáveis pela redação do roteiro, que interpreta as imagens. Assim se produz um noticiário falso, que é gravado em fita cassete e exibido na TV através de um aparelho de video-cassete colocado fora da porta do quarto.

O presidente da DDR, explica o noticiário, resolveu abrir as fronteiras para que os alemães do Leste pudessem ver in loco o que é o comunismo. Imagens do muro de Berlin arrebentado são mostradas à mãe no noticiário – junto de imagens de multidões se atropelando para atravessar para o outro lado. O âncora explica que se trata de alemães ocidentais, desiludidos com a opressão capitalista, tentando passar para a Alemanha Oriental para usufruir das benesses do comunismo…

E assim vai.  Há inúmeras variações sobre o mesmo tema.

A mãe vê, pela janela, cuja cortina o vento temporariamente afasta, um enorme banner da Coca-Cola. Quer saber o que está acontecendo… Para não deixar o fato inexplicado, Alexander inicialmente diz que aquilo é um reflexo de um edifício do Leste. Mais tarde, porém, o noticiário explica que a empresa de refrigerantes da Alemanha Oriental está em negociações com a Coca-Cola para resolver uma disputa judicial, porque se descobriu que a Coca-Cola copiou a fórmula da companhia comunista… Isso é demais até para a mãe, que diz algo assim: “Mas a Coca-Cola não fabrica Coca-Cola há mais de cem anos? Como pode ter copiado nossa fórmula?”

O problema maior é que nem tudo pode ser controlado. A mãe melhora um pouco. Ao ver a netinha (filha da filha com um de seus inúmeros namorados) andar pela primeira vez, resolve tentar andar de novo – e consegue. (Alguns vêem nesta cena uma metáfora dos primeiros passos do novo país ao lado dos últimos passos, claudicantes, de um país enfermo e condenado à morte…). Enquanto o filho dorme na poltrona, ela sai – e não faz o menor sentido do que vê. Especialmente perplexa lhe deixa a visão de um helicóptero levando embora parte da estátua de Lênin, que parece estar apontando para ela — episódio que acaba dando nome ao filme. Christiane Becker acaba tendo um outro enfarte (que, depois de algum tempo, lhe traz, enfim, a morte há tanto temida, mas antecipada).

Enfim. A história, me parece, longe de ser comédia, é um drama – na verdade, uma tragédia. Na tela é uma tragédia concreta, embora fictícia, que, na forma de parábola, denuncia uma tragédia ainda mais trágica: a dos intelectuais comunistas, socialistas e esquerdizantes (os MSCV — marxistas, socialistas e companheiros de viagem — de que falei em outra mensagem) que criaram para si um mundo fictício que lhes permite não ver a realidade “externa” e, assim, continuar a crer nas ilusões mercadejadas pelos vários tipos de socialismo. Esse mundo fictício tem os seus noticiários próprios, os seus jornais, as suas revistas, a sua literatura de ficção, a sua poesia, a sua música. É um mundo mais fechado do que o de Christiane Becker. Esta desconfia de que pelo menos algumas das coisas noticiadas pelo noticiário de seu mundo não são verdade. O mundo dos intelectuais MSCV não admite dúvidas.

Nesse mundo fictício, Fidel Castro é um grande estadista, amado por seu povo, que está há 46 anos no poder não porque seja um ditador violento e sanguinário, mas porque o povo o ama, entre outras coisas porque conseguiu dar saúde e educação a todos (e porque em Cuba até as putas são sadias e têm diploma de curso superior). A situação de Cuba só não é ainda melhor por causa do “bloqueio” americano que a impede de negociar com os países capitalistas.

Nesse mundo fictício, Hugo Chavez também é um estadista, que está promovendo, por fins pacíficos, a integração do continente sul-americano, quem sabe sendo capaz de trazer a América Central e parte do Caribe para essa enorme frente latinoamericana que vai mostrar sua força “a los hermanos del Norte” – pobres desgraçados que não percebem que vivem debaixo de uma tirania e, em grande parte, na miséria. A parte relativa à miséria vai ser aliviada em breve, porém, pois Chavez pretende vender petróleo a preço de custo aos mais de 30 milhões de pobres americanos (que, coitados, vivem em famílias que, na média, possuem quatro membros com renda de pouco mais de 1.600 dólares por mês).

Os Estados Unidos, nesse mundo fictício, são um país sem liberdade que possui um governo corrupto que foi eleito numa eleição fraudada. É verdade que os que vivem nesse mundo têm um pouco de dificuldade para explicar porque pessoas do mundo inteiro querem ir trabalhar e viver nos Estados Unidos, acreditando que o país é uma terra de liberdade e oportunidade. Para eles, só a ignorância e a mídia mentirosa pode explicar isso.

Para os habitantes desse mundo fictício que vivem aqui no nosso Brasil a crise política que vivemos foi criada pela mídia, sempre subserviente da elite dominante. Na pior das hipóteses, pode ter havido algum descuido de dois ou três dirigentes petistas que podem ter cometido algum erro – ainda não totalmente comprovado. Mas o governo (pete-socialista) não sabia. O presidente Lulla, então, estava muito ocupado promovendo uma política exterior terceiro-mundista para se ocupar de detalhes como quem estava pagando os empréstimos que fez para levar Mme. Lulla à China. Os outros partidos fizeram muito, muito pior quando estiveram no poder. O PT sobreviverá à crise e continuará sendo o paladino da moral contra os corruptos. Estão mal-intencionados aqueles que afirmam que a ética petista nada mais do que a ética revolucionária marxista de que qualquer meio é legítimo se fortalece o partido do “proletariado”, isto é, dos trabalhadores…

Tenho lido por aí que marxistas de persuasão mais ortodoxa, entre os quais alguns colegas de departamento meus na UNICAMP, não conseguiram assistir ao filme até o fim. Literalmente passaram mal.

ET: O marido de Christiane Becker não fugiu para a Alemanha Ocidental com uma amante. Conforme ela própria admite aos filhos, ele e ela haviam feito um plano de que iriam participar de um congresso de um congresso na Alemanha Ocidental e ficariam por lá – tentando, depois, levar os filhos. Por estratégia, ele foi primeiro. Ela, porém, não conseguiu reunir coragem ou convicção suficiente para fugir. Até aí, nesse detalhe, o filme deixa claro que lado estava a mentira.

Em Campinas, 2 de setembro de 2005