Educação compulsória e educação estatal

Não sou daqueles que, quando os filhos eram pequenos, se julgava dono deles. E nem de longe me considero dono de meus netos. Converso com eles, negocio com eles, como se fossem gente grande — mesmo com o Marcelo, que tem apenas três aninhos.

Se nunca me considerei dono de meus filhos e meus netos, rejeito, enfaticamente, qualquer tese que pressuponha, assuma, ou sugira que o Estado é dono dos meus filhos e tenha o direito (quanto mais o dever) de determinar se e como devem ser educados.

Considero a educação mais do que importante: ela é o processo mediante o qual nós, que nascemos incompetentes, inautônomos (dependentes) e irresponsáveis, nos tornamos, no devido tempo, adultos competentes, autônomos e responsáveis. Se não passarmos por esse processo, vamos crescer (crescer é um processo meramente biológico, que acontece de forma virtualmente automática, desde que sejamos alimentados) e nos tornar parasitas totalmente incompetentes, incapazes de assumir responsabilidade sobre nossa vida e nosso destino: ou alguém (o Estado?) cuidará de nós, ou morreremos à míngua.

Isso posto, pergunto: se nem mesmo nós, pais e avôs, nos consideramos donos de nossos filhos e netos, de onde surge a idéia de que o Estado tem o direito — ou, mais do que isso, o dever — de decidir que nossos filhos e netos devem ser educados dessa ou daquela maneira, nessa ou naquela instituição, durante no mínimo tantos anos (e a partir de determinada idade), de decidir quantas horas por semana ou por ano são sentenciados a permanecer na escola, de definir que coisas devem aprender na escola e como, de escolher quem deve ajudá-los a aprender, de punir os pais que desejam educar eles próprios seus filhos, fora das escolas autorizadas a funcionar pelo Estado?

A noção de uma educação pública, regulada e até mesmo oferecida pelo Estado, é, junto com a noção de uma saúde pública, o último resquício de um socialismo estatizante que, em tudo mais, está totalmente desmoralizado. Na realidade, a educação e a saúde públicas também estão totalmente desmoralizadas — só que a esquerda conseguiu convencer a população a acreditar que podem ser recuperadas, se investirmos mais recursos (isto é, se pagarmos ainda mais impostos) — haja vista a tentativa imoral de ressuscitar a CPMF com outro nome.

O estado socializante arrecada uma quantidade inacreditável de recursos para sustentar o anacronismo de uma educação e uma saúde pública, oferece à população educação e saúde de péssima qualidade, que obriga os cidadãos que tem recursos a pagar pela educação e pela saúde uma segunda vez em instituições privadas, e usa a má qualidade dos serviços que oferece para tentar persuadir os trouxas de que a qualidade deles só vai melhorar se desembolsarmos ainda mais dinheiro.

A escolarização não deve ser compulsória. O Estado não tem o direito, muito menos o dever, de obrigar quem quer que seja a colocar seus filhos na escola. E a educação não deve ser estatal. Isto quer dizer que, havendo escolas, o Estado não deve nem financiá-las nem administrá-las nem, muito menos, definir o que deverá ser ensinado nelas, por quanto tempo, de que forma, ou por quem.

O estado desastroso da educação pública neste país, que tenta doutrinar nossas crianças numa ideologia ultrapassada e já totalmente refutada pelos fatos, é resultado dessa interferência indevida do Estado na educação. As revistas VEJA e Época já denunciaram os livros que o governo compra para colocar nas escolas públicas (assim decretando que determinados autores se tornem sucesso de vendas do dia para a noite, e milionários, exclusivamente porque declamam em piloto automático o catecismo da esquerda).

A esquerda sempre defendeu, quando chegou ao poder, a tese de que as nossas crianças são propriedade do Estado, para serem transformados em bucha de canhão em suas guerras e revoluções ou para se tornar dóceis papagios que repetem o ideário esquerdista, ou, então, robôs que, incapazes de pensar por si próprios, cumprem as ordens de sua "vanguarda" e fazem greve, ou passeatas e demonstrações, ao ouvir o apito de seus líderes, por mais corruptos que sejam. 

Ou os brasileiros recuperam a guarda de seus filhos, impensadamente colocada nas mãos do Estado, e os educam foram da tutela do Estado, ou este país não tem futuro.

Em Campinas, 8 de Junho de 2008.

Sabedoria vs utopia

Li, recentemente, na Introdução de E. J. Payne à famosa obra de Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, publicada originalmente em 1790, que, segundo Burke, "sabedoria consiste, em grau não desprezível, em saber que quantidade de mal é preciso admitir e tolerar" (p.26 na edição do Liberty Fund). Ele invoca Montesquieu: "Il ne faut pas tout corriger" ("Não se deve tentar corrigir tudo"). E invoca também Hooker, que diz: "Both in civil and in ecclesiastical polity there are, and will be always, evils which no art of man can cure, breaches and leaks more than man’s art hath hands to stop" ("Em organizações civis e eclesiásticas sempre há, e haverá sempre, males que nenhuma arte humana conseguirá curar, falhas e rombos em maior número do que a arte humana conseguirá corrigir").

Essa tese me fez lembrar de uma oração famosa de Reinhold Niebuhr, oração que até uma atéia como Ayn Rand achava extremamente significativa (se, naturalmente, "imanentizada"). Dizia Niebuhr: "Ó Deus, dá-me coragem para mudar o que pode ser mudado, paciência para suportar o que não pode, e sabedoria para saber distinguir um do outro".

Em suma, tanto Burke (com Montesquieu e Hooker) como Niebuhr reconhecem que (a) há males e falhas na sociedade (algo, de resto, indiscutível), e que (b) é impossível eliminá-los todos. Em outras palavras, é parte inarredável de nosso destino, como seres humanos vivendo em sociedade, conviver com situações que consideramos erradas ou falhas, do ponto de visto moral (ou da justiça). Se formos sábios, dizem eles, reconheceremos que alguns desses males devem ser tolerados (Burke), que não é possível corrigir tudo (Montesquieu), que, por maior que seja a nossa "arte", não temos como curar todos os males e corrigir todas as falhas (Hooker), ou que há coisas que não podem ser mudadas e que devem, portanto, ser encaradas com resignação e paciência.

O ponto chave da questão é identificar esses males — ou, nas palavras de Niebuhr, saber distinguir entre o que pode (e, por conseguimente, se houver boas razões, deve) ser mudado e o que não pode ser mudado (por mais que desejemos que as coisas fossem diferentes).

Não resta dúvida de que há males em nossa sociedade que, embora considerados inarredáveis no passado, hoje estão virtualmente eliminados. A pesquisa médico-científica, por exemplo, eliminou muitos males que antes pareciam inevitáveis.

Quer isso dizer, porém, que devemos acreditar na nossa capacidade de, oportunamente, eliminar todos os males e, assim, conseqüentemente, construir utopias, como os céus do livro de Apocalipse, em que dos olhos de todos se eliminará toda lágrima?

A diferença entre o liberalismo, de um lado, e as esquerdas do outro, está, em grande medida, na resposta a essa questão.

Os liberais acham que, por maior que seja o progresso que tenhamos alcançado até aqui na melhoria das condições de vida em sociedade, sempre haverá "males" que será impossível eliminar sem causar males ainda maiores.

As esquerdas parecem achar que um mundo drasticamente diferente, igualitário, sem pobreza, sem sofrimento, e ainda livre, é possível.

Em Campinas, 8 de Junho de 2008

Consenso, paz e verdade

Li um dia desses em algum lugar uma frase que me pareceu lapidar: consensos podem contribuir para a paz, mas raramente nos levam mais próximos da verdade. A busca da verdade em geral leva a cotejos e confrontos, a análises e críticas impiedosas, que raramente contribuem para uma convivência pacífica.

Essa constatação simples pressupõe, de certo modo, uma série de questões importantes da filosofia da ciência do século XX.

Karl Popper, cuja obra Logik der Forschung, publicada originalmente em 1934 (e subseqüentemente traduzida para o Inglês como The Logic of Scientific Discovery, e para o Português como A Lógica da Pesquisa), mostrou que a busca da verdade se alicerça num racionalismo crítico — que é definido como uma tentativa séria e sistemática de refutar ou falsificar nossas próprias idéias e, naturalmente, as dos outros. Tentar refutar ou falsificar idéias é tentar encontros erros ou falhas nas pressuposições, nas premissas, nas evidências, e nos argumentos aduzidos em favor de uma tese (hipótese, teoria, ponto de vista, etc.).

Como a vida do próprio Popper atesta, "this is better said than done". Popper era extremamente zeloso de suas convicções, brigava até com amigos quando estes o criticavam, alienou seus melhores alunos por não admitir que realmente questionassem seus pontos de vista… Eu sei. Meu orientador de doutorado, William Warren Bartley III, foi orientadando dele, e, por algum tempo, seu discípulo amado – apenas para se tornar um inimigo quando publicou um artigo ousando criticar alguns aspectos da obra do mestre. (Depois se reconciliaram). Ou seja, a história de Popper atesta que sua receita para a busca da verdade (que eu considero a melhor receita que jamais se sugeriu) trouxe tudo menos paz em seu círculo acadêmico e de amigos.

Mas o fato de que sua receita trouxe conflito em vez de paz não a desmerece como tese sobre como se deve dar a busca da verdade. Pelo contrário, fortalece essa tese.

Há, na vida, aqueles que sacrificam a busca da verdade em favor da convivência, das amizades duradouras, das alianças políticas — ou seja, da paz. E há aqueles que privilegiam a busca da verdade, ainda que ela perturbe a paz, prejudique amizades históricas, os impeça de fazer alianças com aqueles de quem seriamente discordam.

A política, com "p" minúsculo me enoja. Não consigo engulir as alianças feitas só para produzir convivência pacífica. Hilary Clinton, que acabou com Barack Obama durante as primárias, agora o apóia e elogia. Mas não é preciso ir para outro país para encontrar exemplos dessa tendência. Basta olhar os aliados do PT, hoje – ou a aliança Serra – Quércia. Essas alianças mostram que a busca da verdade não tem lugar na política (com "p" minúsculo). Se era verdade (como Clinton dizia há dias) que Obama era incapaz e inexperiente para presidir os EUA, como é que ela agora recomenda que o seu eleitorado vote nele?

Uma boa parte do eleitorado de Clinton provavelmente não seguirá a sua sugestão. Pesquisa hoje revelada nos jornais brasileiros mostra que pelo menos 25% dos que votaram em Clinton nas primárias não vão transferir seus votos para Obama: ou vão votar em McCain, ou em algum candidato independente, ou simplesmente não vão comparecer às urnas (o voto nos EUA não é obrigatório). Fazem bem eles. Votando em McCain, ou simplesmente deixando de votar em Obama, estarão contribuindo mais para a sanidade política do país do que virando bandeira do dia para a noite.

Em Campinas, 8 de Junho de 2008

Jennifer Tong

Estou voltando mais uma vez de Taiwan. Desta vez rodei bastante: Taipei, Sun Moon Lake, Taichung, Changhua, Hsinchu e Taipei de novo. Gostei muito de Sun Moon Lake — mas vou deixar para escrever sobre o local — a mais visitada atração turística de Taiwan — uma outra hora.

Aqui quero prestar uma homenagem a uma pessoa extremamente interessante que conheci: Jennifer Tong, “my personal tour guide” durante a viagem a Sun Moon Lake. No ano passado, quando visitei Hualien e o Taroco State Park, fui com um “personal tour guide”. Mas ele não falava muito bem o Inglês e, aqui entre nós, não tinha um papo interessante. Desta vez, porém, saí premiado. Esperava na frente do hotel The Tango, em Taipei, quando chegou uma senhora pequena, magrinha, com idade próxima da minha, com cabelo de trancinhas, como o cabelo de meninhas, só que coberto com um pano, ao estilo das camponesas que trabalham ao sol. Seus dentes, amarelados e todos fora de linha. Carregava apenas uma sacolinha de plástico e uma bolsa. Era minha guia. Atrasada quase meia hora. Minha primeira reação foi mais ou menos um “Ai, meu Deus, o que foi que me arrumaram desta vez?”… Mas quando ela falou comigo, desculpando-se pelo atraso, tive minha primeira surpresa: seu Inglês era perfeito, com um leve sotaque britânico… Entrei no taxi com ela e começamos a conversar — e foi surpresa atrás de surpresa…

Seu nome era Jennifer Tong.

Ainda no carro perguntei a ela onde havia aprendido o Inglês. Ela disse: “O senhor provavelmente não vai acreditar”. Eu lhe disse, naturalmente, que não imaginava por que não iria acreditar no que ela me dissesse… Mas eu estava errado. A história foi longa. Quando percebi que seria longa, perguntei a ela quanto tempo tínhamos para pegar o trem — ela havia chegado com cerca de meia hora de atraso. Ela me disse: “Temos várias opções. Não devemos nos estressar. Há um trem às 8h45, que acho que já perdemos. Mas há outro às 9h05, outros às 9h30… Não temos problema. Além disso, nosso roteiro e nossos horários somos nós que fazemos. Portanto, fique tranqüilo. Disse OK e continuei a ouvir a história dela. Nasceu em Taipei e, segundo me disse, nunca saiu de lá a não ser para uma rápida viagem a Cingapura, acompanhando uns comerciantes de flores. Só estudou Inglês no Ensino Médio, três anos — e o pai era seu professor. Aprendeu bastante com ele, me disse, mas o seu domínio da língua inglesa não vinha daí: vinha de uma vida anterior. Em uma prévia encarnação, me garantiu, havia vivido na Inglaterra — mais especificamente, em Cambridge.

Parou, tomou fôlego, e me perguntou: “O senhor acredita?”

O que é que um cético como eu diz numa hora dessas sem ser deselegante? Tentei sair pela tangente e lhe disse algo assim: “Não tenho razão nenhuma para duvidar de você e tenho certeza de que você acredita no que está me dizendo”. Mas ela não deixou por menos: “Mas o senhor acredita que aquilo que eu estou dizendo é verdade?” Não tive saída. Disse-lhe que não acreditava na reencarnação e que, portanto, achava muito difícil acreditar na história dela. “Mas, então”, continuou ela, “como o senhor explica o meu Inglês?”. Disse-lhe que não tinha a menor idéia de como explicar — mas que tinha de admitir que o Inglês era perfeito e tinha um leve sotaque britânico.

Ela continuou a sua história. A essas alturas já havíamos chegado à estação ferroviária, tomado o trem de alta velocidade, e estávamos cruzando a costa leste de Taiwan, rumo a Taichung.

Desde criança, continuou ela, sonhava com um determinado lugar. Explicou-me em detalhes o lugar, o estilo das casas, sua cor, as árvores, uma taverna, o dono da taverna, as bebidas que havia atrás do balcão, etc. Sempre tinha esse sonho. Quase toda noite. Tanto que contou o sonho para as amigas mais chegadas, que ficaram tão familiarizadas com o lugar virtual como ela mesma…

Um dia, me disse, uma amiga dessas amigas suas voi passear pela Inglaterra e, na volta, lhe disse: “Você tem de ver isso” — e lhe mostrou fotos de Cambridge, idênticas, nos mínimos detalhes, a tudo que ela via em seu sonho recorrente… Para Jennifer, não podia haver outra explicação: em vida anterior, havia sido vivido em Cambridge, e, por isso, conhecia tão bem a cidade, apesar de nunca ter estado lá. E por isso falava tão bem o Inglês, apesar de ter estudado pouco e de nunca ter vivido, ou mesmo ido passear, em países que falavam Inglês, exceto, naturalmente, Cingapura, onde se fala um Inglês bastante diferente do falado em Cambridge…

Como essa, houve outras histórias, sempre interessantes. O tempo passou rápido. Para tudo ela tinha uma explicação. E eu não tinha como verificar se as explicações eram verídicas — mas nem tinha interesse em fazê-lo. As histórias eram suficientemente interessantes em si mesmas, ainda que fictivas.

Em Chicago, 17 de Maio de 2008

Megalivrarias. shoppings, conjuntos de cinemas…

Por que é que livrarias, quando aumentaram de tamanho, se tornaram megalivrarias, enquanto os mercados se tornaram supermercados ou até mesmo hipermercados?

Pergunta boba que me ocorreu ontem quando visitei, pela primeira vez, a magnífica mega Livraria Cultura, inaugurada no Shopping Iguatemi Campinas no início de Abril (dia 9, pelo que fui informado), quando eu estava ainda no Vietnam. Ontem, apesar da chuva, decidi que iria conhecê-la. Por causa do feriado do Dia de Trabalho, o shopping estava insuportavelmente cheio. Os sete andares de estacionamentos cobertos estavam lotados e, assim, depois de perder uns 20 minutos tentando estacionar lá, resolvi estacionar a céu aberto, na chuva, lá perto do Restaurante Montana Grill, do Chitãozinho e Xororó.

Os corredores do shopping estavam intransitáveis e, inevitável, a Livraria Cultura superlotada. Estava linda — mas ainda com problemas de atendimento, de localização de livros, etc. Deixo ao Pedro Herz a sugestão de que mande imprimir um pequeno folheto — um mapinha — com a descrição de onde se localizam as várias áreas da livraria. Isso é necessário porque, como a do Conjunto Nacional, em São Paulo, a Cultura de Campinas ocupa três andares parcialmente vazados, com escadas. A decoração é de muito bom gosto e o acervo, enorme — destacando-se, para o meu gosto, os livros em língua estrangeira (Inglês, Francês e Espanhol).

Com a inauguração da Mega-Cultura, o Shopping Iguatemi Campinas, que já tem uma Mega-Saraiva, recentemente ampliada e redecorada para enfrentar a concorrência, se torna o melhor espaço que eu conheço para comprar livros, DVDs, CDs, etc. (A Cultura não vende computadores, software, videogames: a Mega-Saraiva, sim). Não sei de nenhum outro shopping no Brasil que possua uma Mega-Saraiva e uma Mega-Cultura — juntas, oferecem, creio eu, algo perto de cinco mil metros quadrados de espaço para os amantes do livro, filmes e músicas.

Os shoppings mais finos de Campinas ficam todos numa seqüência de uns poucos quilômetros ao longo do trecho urbano da Rodovia Dom Pedro I, que liga Campinas a Jacareí, ou, se preferem, que liga as rodovias dos Bandeirantes, Anhangüera, e, depois, a Fernão Dias, às rodovias Presidente Dutra e Governador Carvalho Pinto. Há o Iguatemi, o mais antigo, depois o Galleria Shopping (que também pertence à holding Iguatemi, e onde opera uma Minimega-Siciliano, agora comprada pela Saraiva), e o maior de todos, e mais recente, o Parque Dom Pedro Shopping (do grupo Sonae-Sierra, que, com seus 110 mil m2 e cerca de 380 lojas se jacta de ser "o maior centro de moda, cultura e lazer da América Latina"), com a Fnac (para a Fnac, dispensa-se o "mega", pois ela, desde quando criada em Paris, sempre existiu apenas em dimensões grandes, e vende telefones, câmeras, computadores, software, videogames, etc.).

Fico me lembrando da época em que era difícil achar livrarias bem abastecidas e com bom atendimento. Eu ia sempre à Livraria Ciências Humanas, em São Paulo, um muquifo no porão de um prédio na Sete de Abril, ou à Livraria Internacional, um outro muquifo em um andar alto na Líbero Badaró — ou, aqui em Campinas, a Livraria Pontes, do Reinaldo Pontes (que era um muquifinho, depois ampliado para três ou quatro andares "fininhos"). Depois, em São Paulo, surgiu a Brasiliense, na Barão de Itapetininga, de bom tamanho, mas ainda com um cara tradicional. Depois surgiu a rede de livrarias Siciliano, agora comprada pela Saraiva. A Saraiva, que era editora, abriu livrarias, também criou uma rede, depois criou as primeiras mega-lojas em Shoppings (seguindo o modelo da Borders e da Barnes & Noble, americanas, com coffee shop e tudo), torna-se agora, com a compra da rede Siciliano, a maior rede de livrarias no Brasil. A Cultura tem poucas lojas (mas está se expandindo — vide adiante o link para a entrevista de Pedro Herz), a Fnac, também, mas são lojas fabulosas, com as quais a Saraiva vai ter de concorrer pesado se quiser manter sua fatia de mercado. Vai ser interessante observar a concorrência das duas mega-livrarias no Shopping Iguatemi Campinas. Não invejo a sorte de meu amigo Eurípedes Avelino Menezes, gerente da Mega-Saraiva ali.

Enfim, para aqueles que, como eu, só contam entre seus vícios os livros, os DVDs e os CDs, Campinas está de parabéns com suas três mega-livrarias e sua minimega-Siciliano. Vamos ver o que a Saraiva resolve fazer com a Siciliano do Galeria, agora que comprou a rede. A Sicialiano era, originalmente, no Shopping Iguatemi. Quando a Saraiva apareceu com sua mega-loja, todas as demais livrarias, a Sicialiano inclusive, migraram para outros shoppings, a Siciliano indo para o simpático, mas pequeno, Galleria.

Deve haver alguma livraria no Campinas Shopping, que fica ao lado da Anhangüera e da Santos Dumont, quase do outro lado da cidade ("do lado pobre"), mas não sei qual é. Por causa da proximidade e riqueza de opções dos outros três shoppings mais próximos de mim, quase nunca vou ao Campinas Shopping, que é relativamente grande (dez cinemas, etc.).

Por falar em cinemas, os shoppings também mataram os cinemas que ficavam fora deles. O Iguatemi tem oito salas de cinema (CineMark) e está expandindo o setor (aparentemente criando mais duas). O Galleria tem, se não me engano, seis (CineSystem). O Parque Dom Pedro, exagerado como sempre, tem quinze (KinoPlex). O Shopping Campinas, dez (Box Cinemas). Só aí cerca de quarenta. Há mais alguns mini-shoppings na cidade que possuem algumas poucas salas também (Ouro Verde, na Rua Conceição; Jaraguá, na Avenida Brasil; Unimart, na Av. John Boyd Dunlop). O Ventura Mall, pequeno, pertinho de minha casa, não tem cinema. Mas ao todo, são quase cinqüenta salas de projeção dentro de shoppings. Ninguém, fora, consegue concorrer com tamanha variedade de opções.

Verifique os sites dos principais shoppings de Campinas:

Shopping Iguatemi Campinas (o mais chique e antigo):
http://www.iguatemicampinas.com.br/ 

Galleria Shopping (o mais simpático):
www.galleria.com.br/

Parque Dom Pedro Shopping (o maior):
http://www.parquedpedro.com.br/ 

Campinas Shopping (talvez o mais popular):
http://www.campinasshopping.com.br/ 

Verifique os sites das principais mega-livrarias:

Livraria Cultura:
http://livrariacultra.com.br/

Livraria Saraiva:
http://www.livrariasaraiva.com.br/ 

Livraria Siciliano:
http://www.siciliano.com.br/

Livraria Fnac:
http://www.fnac.com.br/

Ah, quase me esqueço! A Livraria Nobel também tem uma rede —
esta, de franquias. Meu amigo Nivaldo Cordeiro tem uma loja, no mini-shopping bem em frente ao Conjunto Nacional, em São Paulo, naquele prédio que pegou fogo há vários anos. E minha amiga Jurema Sampaio-Ralha me garante que há uma Livraria Nobel no Galleria Shopping, da qual realmente não me lembrava.

 

O site da Livraria Nobel é:

http://www.livrarianobel.com.br/

Por fim, verifique também a interessante entrevista de Pedro Herz, proprietário das Livrarias Culturas, dada ao UOL Business em Setembro de 2003, em que ele anuncia a intenção de criar uma nova mega-livraria por ano:

http://www1.uol.com.br/economia/business/entrevista20030912.shl

Em Campinas, 3 de Maio de 2008

A Interferência do Estado na Vida Privada: O Casamento

Li um artigo de capa interessante sobre o divórcio na revista semanal Newsweek que está nas bancas dos Estados Unidos esta semana. No que segue vou tecer algumas considerações sobre a interferência no estado na vida privada, especificamente, no casamento (e no seu término mediante o divórcio). O artigo da Newsweek serve apenas de pretexto (mas é interessante: recomendo a leitura, e espero que ele apareça na edição internacional que é vendida nas bancas brasileiras).

Antes de o divórcio ser legal no Brasil — foi parcialmente legalizado em 1977, em decorrência dos esforços do senador Nelson Carneiro e de um clima de opinião mais liberal — era complicado se separar legalmente do cônjuge e mais complicado ainda casar-se, legalmente, em novas núpcias, com outro. Para falar a verdade, o novo casamento, do ponto de vista legal, mais do que complicado, era impossível. Havia a instituição do desquite, que era uma dissolução da sociedade conjugal. Mas o desquite impedia que os desquitados se casassem de novo.

Fico imaginando qual teria sido a justificativa de quem criou essa instituição de permitir a dissolução legal do casamento mas de impedir que aqueles que tiveram seu casamento dissolvido se casassem de novo. Parece pura maldade, sadismo. Provavelmente a justificativa deve ser buscada nos livros de direito canônico da Igreja Católica, que, a despeito do que digam as leis do país, considera o casamento indissolúvel (num plano quase metafísico), de modo que um novo casamento, mesmo que admitido pela lei local, seria, para a igreja, sempre adúltero. (Lembram-se do Evangelho? Se alguém casou várias vezes nesta vida, com quem ficará casado na vida futura? Grande dilema para quem acredita na existência de uma outra vida depois desta…)

Houve tempo, aqui no Brasil, em que, para obter o desquite, uma das partes (a “insatisfeita”) tinha de provar que a outra havia faltado com seus deveres conjugais — ou por infidelidade [fato que, uma vez comprovado, não pode ser corrigido], ou por se recusar a manter relações sexuais [fato que, aparentemente, pode ser corrigido a qualquer momento pelo retorno ao cumprimento desse presumido “dever conjugal”], ou por violência doméstica, ou seja, maltratos físicos ou psicológicos que tornavam a continuidade da convivência no matrimônio inviável. Nessa época não havia a possibilidade de os cônjuges, consensualmente, concluírem que, tudo bem, foi bom enquanto durou, mas daqui para frente cada um de nós quer voltar a ser livre. O “desquite por mútuo consentimento” não existia ainda (veio, evidentemente, a existir depois).

Como não havia “desquite por mútuo consentimento”, a iniciativa do desquite era sempre, unilateralmente, de um dos cônjuges (o cônjuge “insatisfeito”, ou, digamos, mais insatisfeito), que “pedia” o desquite ao outro. A decisão de separar era, portanto, em geral, unilateral. O outro podia decidir conceder o desquite, admitindo a culpa, ou, então, negar a culpa, recusando-se a conceder o desquite, assim complicando a vida do parceiro insatisfeito. Todo desquite, nessa época, era judicial, mesmo que nem todos fossem exatamente litigiosos.

Quando, no Brasil, surgiu o “desquite por mútuo consentimento”, mediante simples decisão das partes, as coisas se simplificaram consideravelmente — embora a restrição ao segundo casamento houvesse sido mantida. Agora não era mais necessário provar que o outro cônjuge havia descumprido seus deveres conjugais caso ele (o outro cônjuge) se resignasse a não contestar o pedido. Mesmo que, na realidade, não houvesse consenso, e apenas um dos dois desejasse o desquite, a decisão do cônjuge não solicitante de não contestar o pedido do outro tornava o desquite consensual (ou “amigável”, como era geralmente chamado no dia-a-dia).

Se o cônjuge não solicitante decidisse contestar o pedido de desquite, isto é, não concordar com ele, o desquite só aconteceria de fosse litigioso. Neste caso, cada uma das partes tentaria convencer o juízo da justeza de seu pleito.

A propósito, informa a Folha de S. Paulo de hoje, 17/4: “O Parlamento português aprovou ontem (16/4), graças à maioria socialista da Casa, lei que permite o divórcio mesmo que não haja consentimento mútuo do casal. Com a nova lei será possível pedir o divórcio baseado em alegações de prática de violência doméstica, entre outros casos que, independentemente da culpa dos membros do casal, mostrem a ruptura do matrimônio”. Gozado: depois de instituído o divórcio consensual, o estado regulamenta o divórcio não-consensual…

No Brasil, a mudança constitucional de 1977 instituiu o divórcio consensual, com direito a um novo casamento — mas o tornou aplicável apenas uma vez… Além disso, o divórcio devia ser ser precedido do desquite (agora rebatizado de “separação judicial”, que continuava a ser tanto consensual como litigiosa), ou então da comprovação de uma separação de fato, e, adicionalmente, de um intervalo, fixado em lei, entre o decreto do desquite, ou o início da separação de fato, e o requerimento da conversão do desquite ou da separação de fato em divórcio. Felizmente a atual Constituição Federal veio a remover a maior parte desse besteirol.

Forneço esses detalhes para ilustrar os extremos da interferência do estado na vida privada. A questão que quero levantar é esta: por que o estado imagina ter o direito de se arvorar em árbitro ou, pelo menos, sancionador de decisões que são totalmente privadas, como é o caso da decisão de se casar ou de encerrar o vínculo matrimonial? Não deveria ser o casamento um contrato totalmente privado, já devidamente regulamentado no Código Civil junto com qualquer outro contrato? Neste caso, o contrato conteria provisões sobre as condições em que poderia ser dissolvido.

Quando alguém deseja contratar uma pessoa para trabalhar em sua casa, faz um contrato. Quando dois ou mais querem estabelecer uma sociedade para fins comerciais, fazem um contrato (que estipula em que condições um dos signatários pode sair, sem que a sociedade se dissolva, ou em que condições a sociedade pode ser dissolvida). Por que não podemos fazer contratos conjugais sem que o estado meta o bedelho?

Alega-se que, como o casamento pode produzir união de bens (total ou parcial) e pode produzir filhos, que se tornam herdeiros desses bens, o casamento é uma instituição social em que o estado deve interferir, regulamentando as condições em que pode ocorrer e em que pode ser dissolvido. O argumento não me convence nem um pouco. Sociedades comerciais também interferem com a propriedade e sua propriedade pode ser transmitida a herdeiros, e nem por isso se defende a tese de que devam ser regulamentadas pelo estado como o é o casamento (mesmo que, também aqui, o estado já tenha metido o seu indesejável bedelho em um grau considerável).

Por que o estado tem de defender a monogamia? Estive nos Estados Unidos há poucos dias e na televisão de lá não se fala em outra coisa além da eleição presidencial e do grupo polígamo que foi descoberto no Texas. Por que é que o estado tem o direito de considerar como crime um acordo perfeitamente aceitável entre as partes e do qual ninguém está reclamando (e, se vier a reclamar, pode fazê-lo com base na legislação de contratos e não numa legislação matrimonial específica?)

Por que o estado deve impedir que pessoas que claramente já são capazes de dar seu consentimento, mas estão abaixo de uma certa idade, se casem? A idade, no caso, parece ser hoje dezoito anos em quase todo lugar, mas já chegou a ser até mesmo 21 anos. Como, no episódio do Texas, aparentemente havia casos em que, com pleno consentimento dos pais, mas não do estado, moças menores de dezoito anos haviam se casado, e, o que é pior, se casado com quem já tinha esposa(s), agora os pais dessas moças menores estão todos perdendo a guarda de seus filhos (das próprias e de outros), porque haviam concordado com sua “exploração sexual” como menores”… Come on!

Quando pensamos em “estado mínimo” em geral o fazemos no contexto econômico, da interferência do estado na economia. Mas existe uma interferência do estado na vida privada, totalmente pessoal, que é mais indevida ainda.

Por que o estado deve ter o direito de determinar, como determinava no Brasil, que quem se casa uma vez não pode, ainda que se separe legalmente, contrair outro casamento legal?

Por que o estado deve ter o direito de determinar, como determina agora, que eu posso me casar e me separar quantas vezes quiser, desde que seja “em série”, e não “em paralelo”? Se, aqui no Brasil e nos Estados Unidos, em que aparentemente falta homem para tanta mulher, mais de uma mulher concorda em se casar com o mesmo homem, deve o estado ter o direito de decretar que isso é ilegal, taxando de criminosos os que assim procedem?

E se, na China, onde falta mulher para tanto homem (as razões são sobejamente conhecidas), mais de um homem concorda em se casar com a mesma mulher, por que o estado deveria ter o direito de decretar que isso é ilegal? Hoje, com exames de DNA, é perfeitamente possível determinar de quem são os filhos, nesta última hipótese. (Hoje é triste ver a tentativa de arrumar noivas taiwanesas e coreanas para os homens chineses condenados ao celibato por causa da cultura e da lei daquele país, que privilegia o filho homem e ao mesmo tempo fixa o teto de um filho só por casal).

Por que o estado deve ter o direito de determinar que pessoas do mesmo sexo não podem se casar legalmente?

Basta começar a pensar nessas coisas para se verificar o absurdo que é a interferência do estado na vida privada. Nos Estados Unidos houve tempo em que o estado se achava no direito de proibir relações sexuais em posições que não a missionária, e ainda hoje há estados que possuem leis que proíbem sexo oral ou anal mesmo dentro de um casamento legal e ainda que os envolvidos estejam perfeitamente de acordo em se engajarem nessas práticas. (Como sexo em geral é coisa bastante privada, raramente observada por terceiros, as práticas criminosas, nesse caso, em geral só se revelam quando há uma separação, em cujo caso um dos cônjuges, em regra a mulher, acusa o outro de havê-lo obrigado ou constrangido a praticar atos, por hipótese ilegais, contra a sua vontade.)

Enfim… Acredito que me tornei liberal, lá nos idos dos anos sessenta, mais em função dessas intervenções do estado na vida privada do que em decorrência das intervenções do estado na vida econômica (que, hoje não tenho dúvida, deveria também ser totalmente privada). Foi a leitura de “Da Liberdade”, de John Stuart Mill, que me levou a aderir ao liberalismo político. A adesão ao liberalismo econômico (capitalismo) veio um pouquinho mais tarde. E só um pouco mais tarde, lendo Ayn Rand e von Hayek, vim a ter plena consciência de que Mill tergiversou em muitos pontos em sua defesa do liberalismo. Tudo bem: mas minha dívida histórica para com ele permanece.

Campinas, em 17 de Abril de 2008 [com revisão e pequenas alterações em 5 de Maio de 2008]

Free flow of consciousness

São 20h, horário de Tóquio — 8h, horáro do Brasil. O dia é 15/4, terça-feira, o ano é 2008, em ambos os lugares. Estou no vôo UA 884 da United, que me leva de Tóquio para Chicago.

Desde criança me fascino com o fato de que o Brasil (Leste – São Paulo, Rio) e o Japão estão exatamente doze fusos horários a parte. São Paulo fica três horas atrás do horário do meridiano de Greenwich — ou GMT -03, GMT querendo dizer Greenwich Meridian Time. Tóquio fica nove horas na frente do horário do meridiano de Greenwich — ou GMT +09. Ao todo, doze fusos horários separam as duas cidades. Sempre achei curioso que, quando era meio-dia em São Paulo, já fosse meia-noite em Tóquio — ou seja, que quando estivéssemos almoçando em Santo André (cidade em que cresci, na Grande São Paulo) os toquianos já estivessem entrando num novo dia, provavelmente em pleno sono. No meu imaginário infantil a idéia se alimentava de que os japoneses eram o oposto de nós — idéia que, em seu extremo, resultava na imagem de que, se a gente cavasse um buraco suficientemente fundo na superfície da Terra na região de São Paulo, iria acabar saindo, no lado oposto, na região de Tóquio — imagem que não levava em conta o fato de que nós estávamos no Hemisfério Sul, Tóquio no Hemisfério Norte. Para o experimento dar certo o buraco teria de ser furado meio na diagonal…

Saí de Tóquio, em direção a Chicago, às 18h de hoje, 15/4 Vamos estar no ar por aproximadamente doze horas, e vou chegar a Chicago por volta das 16h do mesmo dia — duas horas antes do horário em que saí de Tóquio, porque Chicago está 14 horas atrás de Tóquio… Esse é o tipo de coisa que me fascina. Ou seja, vamos estar no ar durante doze horas, apenas para tirar parte da diferença, em fusos horários, que separa Chicago de Tóquio. Se estivéssemos indo de Tóquio para São Paulo, direto, e a viagem levasse as mesmas doze horas, chegaríamos exatamente no mesmo horário em que havíamos saído… Fascinante. Para onde teria ido o tempo que evaporou?

Saí de Hanói — que fica duas horas atrás de Tóquio — às 23h30 de ontem, 14/4, segunda-feira, em direção a Seoul, que está no mesmo fuso horário de Tóquio. O vôo era da Asiana, empresa aérea coreana que faz parte do sistema Star Alliance, liderado pela United. O embarque em Hanói  foi tranqüilo, porque com os cartões especiais de Frequent Flyer da United fomos direto para a frente da fila, o Les Foltos e eu. Depois de fazermos o check-in, ficamos na Sala VIP da Asiana em Hanói, até o horário de embarque. Pobrinha a sala VIP deles — mas tinha computadores e Internet de graça para quem quisesse usar.

A propósito, li na Newsweek desta semana (Edição Internacional com data de 14/4) que, enquanto os governos de alguns países (como a Arábia Saudita) censuram sites pornográficos da Internet, impedindo os seus cidadãos de visualizarem material com conteúdo sexual, digamos, explícito, o governo comunista do Vietnam censura sites cujo conteúdo político possa interferir com os seus propósitos. Aliás, vale a pena ler o artigo inteiro, que tem o curioso título de “Repression 2.0”. A tese principal é de que, nos tempos da Internet tradicional (a Internet 1.0), a repressão era menos sofisticada: sites eram simplesmente bloqueados. Às vezes extensões “top level” inteiras eram bloqueadas. Lembro-me de que, uma vez, quando estive em Perth, na Austrália, dando uma série de palestras a convite da Associação Australiana de Escolas Particulares, fiquei hospedado na Saint Hilda’s Anglican School for Girls, uma escola chiquérrima que tem um excelente apartamente para (professores) visitantes. Descobri, muito a contragosto, que, de dentro da escola, a extensão “top level” .br inteira era censurada para as alunas (não para os professores, descobri depois). Qualquer site que eu digitasse que terminasse em .br, como o site do UOL, por exemplo, me trazia uma mensagem na tela de que o acesso àquele site estava proibido. Só no dia seguinte, depois que eu reclamei, me deram uma senha de professor, que não tinha a restrição. Ou seja, professor podia até ver as meninas seminuas do Paparazzi — mas as aluninhas da escola, mulheres como as outras, não… Mas, voltando ao assunto do artigo da Newsweek. Na Internet 2.0 (a Internet dos webmails, dos sites de relacionamento, como o Orkut, é mais difícil fazer esse tipo de censura “no atacado”. O problema é sintonizar o filtro: restrinja-se demais o filtro e se impede o usuário de ver coisas perfeitamente inócuas até do ponto de vista do censor (como ler a Folha de S. Paulo de dentro de Saint Hulda’s); flexibilize-se demais o filtro e ele vai permitir que conteúdos considerados impróprios sejam exibidos. Censurar o Orkut inteiro porque há algum material impróprio lá dentro? Isso pode impedir os usuários de fazer bom uso do Orkut. Não censurar o Orkut? Os usuários, neste caso, poderão a aceder a materiais — de natureza sexual ou política — que o censor considera profundamente inconvenientes. A solução que os novos censores acharam, segundo o artigo da Newsweek, foi agir de forma mais sutil, não “no atacado”. Os censores hoje dão a impressão (nos países que praticam esse tipo de censura) de que eles lêem, ou pelo menos gravam, tudo o que se passa na Internet, de modo que se você entrar num site considerado impróprio, mais cedo ou mais tarde eles vão descobrir. Se os usuários acharem que os censores de fato fazem isso, eles nem precisam fazê-lo: os próprios usuários se censuram!!! Terrível, não? É COMO SE os censores governamentais — ou, o que seria equivalente, os pais, ou o cônjuge, ou os próprios filhos — estivessem sempre atrás da gente, observando, por cima do nosso ombro, o que a gente faz, escreve, lê na Internet… Quando a gente está absolutamente seguro de que ninguém está olhando, a gente faz coisas que nunca faria quando sabe — ou suspeita — que alguém está nos observando… É esse o princípio da “Repression 2.0”: dar a impressão de que os censores do governo, os censores da empresa, os censores do lar estão por todo lado e que tudo o que você faz é devidamente observado, classificado, registrado e arquivado para uso futuro. Um dia, quando você tiver algum problema com o governo (ou com seu chefe) ele pode lembrá-lo de que, você, sessentão, pai e avô, respeitado na comunidade, etc., andou bisbilhotando umas fotinhos inocentes da Britney Spears sem calcinha… Ou andou demonstrando interesse num vídeo do Alexandre Frota (antes da conversão) ou da Rita Cadillac. O princípio básico é o de que não é nem necessário montar toda uma estrutura para fazer esse tipo de censura: basta convencer os “súditos” de que você a possui — e eles próprios se encarregam de se censurar. O seu próprio superego faz o trabalho sujo dos censores.

Nessa época de debate sobre a China, o Tibet, os Jogos Olímpicos, consta que a governo chinês, com a colaboração das companhias de telefonia celular, de vez em quando envia uma mensagem sem remetente, totalmente anônima, a todos os usuários dos telefones, dizendo coisas como “Obedeça a lei”, “Siga as regras”… Está feito o serviço. O pobre usuário, que provavelmente aqui ou ali desobedeceu uma leizinha idiota, ou quebrou uma regrinha imbecil, fica matutando: os fdps sabem que eu fiz isso, por isso estão me mandando esse recado. E, assim, da vez seguinte em que a oportunidade se apresentar, ele não faz: seu superego o censura…

Mas voltemos à minha viagem de volta para o Brasil. O bom filho à casa torna.

O vôo de Hanói a Seoul levou apenas três horas e meia (na ida foram quase cinco horas) — e chegamos a Seoul às 5h (não se esqueçam de que Seoul está duas horas na frente de Hanói). Em Seoul, fomos direto para a Sala VIP da Asiana,  A sala estava quase vazia quando ali chegamos, Les Foltos e eu. Eu belisquei alguma coisinha, para servir de acompanhamento para um café do tipo Latte. Mas o Les, que, na minha opinião, está totalmente orientalizado, tomou chá com sopa de macarrão e verduras cozidas — isso antes das seis da manhã, pode? Entre as verduras cozidas havia repolho, couve-flor e outras coisas que só os orientais conseguem comer a essas horas da manhã. Ficamos na Sala VIP perto de seis horas, trabalhando nos nossos computadores. A sala tem uma rede wireless razoável — e gratuita. Um pouco antes das 11h rumamos para o portão 45 do interminável aeroporto de Incheon (Incheon está para Seoul como Guarulhos para São Paulo, em termos de localização dos respectivos aeroportos), de onde sairia o vôo da United para Tóquio, porque em Hanói só nos deram o cartão de embarque até Seoul: os demais cartões, disseram-nos, deveríamos obtê-los em Seoul (e de fato os obtivemos).

Como isso aqui é “free flow of consciousness”, é esquisito que o principal aeroporto de São Paulo tenha, como código internacional de identificação, GRU. Essas três letrinhas vêm, naturalmente, de Guarulhos (como CGH vem de Congonhas e VCP de Viracopos). Minha bagagem está etiquetada para GRU. Na verdade, a etiqueta indica que saí de HAN (Hanói), passei por ICN (Incheon / Seoul), passei por NRT (Narita / Tóquio) e vou passar por ORD (Ohare / Chicago, que tem como código ORD porque o aeroporto, quando era um mero campinho de aviação, no meio de uma plantação de hortaliças, se chamada Orchard…), antes de chegar a GRU.

De Seoul a Tóquio o vôo foi de mais ou menos duas horas e meia. Dormi a maior parte do tempo (só tirando um tempinho para comer uma salada).

Em Tóquio, onde chegamos por volta das 14h30, mais espera. Ficamos no Red Carpet Club da United. O Les saiu para Seattle às 16h e eu para Chicago às 18h.

O meu vôo de Tóquio para Chicago saiu duas horas depois de um outro vôo da United com o mesmo destino. Resultado: o meu vôo está totalmente vazio. Na classe Executiva deste Boeing 777 há 45 lugares, e apenas dez passageiros — cada um dono de um pequeno feudo. Pude deixar minha maleta de mão em cima da poltrona do lado, posso pegar o computador quando quiser, uma beleza. 

Tomei duas taças de vinho e comi uma salada. Dispensei o filé mignon que seria o prato principal: fui direto para a sobremesa, um bolo gelado de chocolate delicioso, acompanhado de Vinho do Porto.

E agora estou aqui, batendo papo — ou, como diz o caipira do interior de São Paulo, jogando prosa fora… Como disse, ninguém está sentado do meu lado, de modo que posso esparramar minha tralha por duas poltronas enormes. Ali estão, além da maleta do computador, a Newsweek e o Time (com o Papa na capa), fones de ouvido, kit com escova de dentes, etc.

Com todo o vinho tomado, estou com sono. Vou guardar o computador e depois volto.

Pronto, estou de volta. Dentro de duas horas chegaremos a Chicago. Dormi bastante e bem, ouvindo dois CDs de hinos religiosos que povoaram a minha infância. O nome da coleção de dois CDs é “Thomas Kincade’s 32 Country Gospel Classics”. Uma beleza, para quem gosta do gênero, como eu. O cognitivo (a cabeça) faz a gente deixar de ser religioso, mas o emocional (o coração) mantém, escondidinho em algum lugar recôndito, resquícios do tempo em que a gente foi religioso, e a gente continua a gostar de hinos cujas letras são simplesmente horrorosas. Ou seja, o coração tem seus cantinhos que a própria razão desconhece — ou simplesmente ignora, por considerá-los inofensivos.

A aeromoça já veio trazer aquelas toalhinhas quentes que servem para a gente fingir que lava a cara quando acorda num vôo longo… Dispensei o café da manhã (só aceitei um suco de tomate gelado) — não estou com fome. Além disso, ficarei na Sala VIP da United, onde há comida boa, e, depois, pegarei o vôo para o Brasil, em que haverá um bom jantar. Isto significa que devemos chegar mais cedo do que previsto em Chicago.

No momento ouço “Near the Cross” (“Junto à Cruz”, em Português), cantado por Eddie Arnold. É curioso como quase todo cantor americano mais convencional (isto é, excluídos os roqueiros da pesada) que se preza mais cedo ou mais tarde grava um disco de hinos — ou, no mínimo, de músicas de Natal. Elvis Presley, Frank Sinatra, Perri Como, George Whitakker, Doris Day, Barbara Streisand, Anne Murray (que é canadense), you name it, todos gravaram. Os do Presley são maravilhosos: creio que os tenha todos.

Estou cansado. Por mais confortável que seja a classe Executiva da United, uma viagem que mantém você no ar por cerca de 32 horas, ainda que em quatro segmentos, especialmente para quem vai fazer 65 anos esse ano.

Por falar nisso, vou comentar rapidamente o sistema que tenho (em Excel) para me lembrar de tomar todos os meus remédios na hora certa. Tomo cinco remédios de manhã, dois na hora do almoço, e cinco de novo na hora do jantar. Doze comprimidos, ao todo. Quando viajo e atravesso vários fusos horários, tenho de fazer uma tabelinha que me diz quando devo tomar cada conjunto de remédios. Há várias soluções para o problema, mas optei por manter o horário do Brasil. Como a maioria dos países da Ásia está cerca de 12 horas, mais ou menos duas, do Brasil, simplesmente inverto a hora de tomar os remédios: os que tomaria na hora do café da manhã tomo no jantar; os que tomaria na hora do almoço, tomo antes de ir dormir; e os que tomaria na hora do jantar, tomo ao me levantar. Funciona bem. O problema maior é a hora de tomar os remédios em trânsito, quando estou indo de um lugar para outro. Tomei há pouco os remédios da hora do almoço — porque já estou operando no fuso horário de Chicago, que, no momento, está só duas horas atrás do de São Paulo. Um coisinha dessas dá trabalho, quando você sai da rotina.

Antes de terminar, lembrei-me de uma notícia curiosa que li no International Herald Tribune, Edição Ásia, enquanto estava em Seoul. Em algum lugar do mundo em que mudanças de sexo são legalmente permitidas, uma mulher, que nunca havia se sentido confortável no seu corpo de mulher, conseguiu permissão para mudar legalmente de sexo e sofrer os procedimentos médicos, cirúrgicos e medicamentosos, necessários para adequar seu corpo à sua nova identidade legal. Ou seja, legalmente virou homem, mudando de nome e de sexo (que os politicamente corretos preferem chamar de gênero, porque não gostam de falar de sexo). Tomou hormônios, cresceu barba e bigode, removeu cirurgicamente os seios, etc. E, como de certo modo pareceria inevitável, se casou (legalmente — estamos falando de um país prafrentex) com uma mulher. Passado algum tempo, quiseram ter um filho. A lei e a medicina podem ir até certo ponto, mas não conseguem (hoje) fazer com que um homem construído de um corpo de mulher consiga engravidar a esposa (Dani: uso o termo aqui apenas por falta de maiores recursos lingüísticos, dado o contexto). Resultado, optaram por comprar esperma de um banco de esperma para que a esposa pudesse ser impregnada artificialmente. Na hora de fazer isso, descobriram que ela tinha um problema e não poderia ficar grávida. Solução? Foram verificar se o corpo do marido, a despeito da barba e do bigode, e da falta dos seios, ainda teria condições de ser impregnado artificialmente — e tinha, pois o útero não havia sido removido e, aparentemente, estava em pleno funcionamento. Resultado: hoje quem passar pela cidadezinha onde mora o casal pode ser que veja um distinto senhor, de terno, barba e bigode, tremendamente grávido, ao lado de sua mulher magrinha e esbelta. Ironias do mundo moderno.

Estamos chegando.

ET: Chego aos Estados Unidos ao mesmo tempo que o Papa.

No ar, entre Tóquio e Chicago, 15 de Abril de 2008

O Campeonato Paulista

Sei muito bem que o importante não é como as finais do Campeonato Paulista começam, mas, sim, como terminam. Mas antes começarem assim, com vitória da Ponte Preta e do São Paulo, este totalmente estropiado, sem elenco, com gente machucada, suspensa, etc., do que de outro jeito. Agora Guaratinguetá e Palmeiras terão de lutar contra o prejuizo. Espero que Ponte Preta e São Paulo façam a final. Assim, se o São Paulo perder, não ficarei tão triste, porque um time de Campinas terá ganho.

E falem o que quiserem do Adriano, ele está garantindo o time na frente — com o Rogério garantindo na defesa.

Avante, São Paulo.

Em Hanoi, 14 de Abril de 2008

Good-bye, Hanoi

Daqui umas doze horas estarei voando, espero, daqui de Hanoi para Seoul — de onde irei para Chicago e, em seguida, para São Paulo. Finalmente, home, depois de onze dias aqui em Hanoi e mais dois em viagem.

Para ser franco, detestei a cidade. Não fosse o cruzeiro pela Ha Long Bay, a viagem teria sido uma desgraça total do ponto de vista turístico.

Sempre me gabei do fato de que, precisando, seria capaz de morar em qualquer lugar do mundo (dos que eu conheço). Não tenho, por exemplo, dificuldade de me imaginar morando em Cingapura, ou Seoul, ou Taipei, ou Hong Kong, ou até mesmo na em grande parte muçulmana Kuala Lumpur. Mas aqui em Hanoi encontrei o meu limite.

Não consegui sair na rua andando aqui — exceto ao redor do hotel. Não teria coragem de atravessar uma rua movimentada. Saí de taxi ou ônibus especial várias vezes, mas o que vi simplesmente confirmou a minha decisão de não sair andando — e olhem que adoro andar: em Janeiro, em Seoul, com um frio de rachar, andei pelas ruas, zanzando de lá para cá, durante cerca de seis horas, conhecendo as vizinhanças, tirando fotos. Aqui, como se dizia antigamente, neca de piribitibas. A viagem de taxi até Ha Long foi um tormento: parecia que um ônibus ou um caminhão ia passar por cima da gente a qualquer momento. Nosso motorista era calmo e competente, mas mesmo assim foram quase quatro horas de sobressaltos. Chegando no barco, encontramos um colega de cruzeiro, americano, com o crânio todo remendado: o chofer do taxi dele, dias antes, havia dormido no volante, saído da estrada e arrebentado o carro numa árvore.

Além do mais, a cidade é feia, não tem comércio senão do tipo de mercado de rua, feira livre… Não soube de nenhum shopping agradável por aqui que atraia turistas.

Restaurantes, até que há bons. Mas chegar lá é um problema. Nos últimos dias comi aqui no hotel mesmo, onde há um excelente restaurante (The Hemispheres), com comida de primeira e não tão cara. Comi três dias seguidas o mesmo prato: salmão grelhado com arroz frito com legumes. Imbatível. Mas a melhor coisa foi não ter de sair à rua para jantar.

Meu amigo Les Foltos é mais aventuroso do que eu. Ontem e hoje saiu durante o dia. Ontem foi visitar o famoso “Hanoi Hilton”, que nada mais é do que uma cadeia onde os franceses prendiam os vietnamitas e onde estes, depois, prendiam os americanos. Coisa deprimento. Só um americano meio de esquerda com a consciência ainda meio molestada pela guerra do Vietnam pode querer ir lá. De lá andou pelas ruas, comprando camisas de seda em lojas populares locais. Hoje, saiu de novo. Corajoso. Dou a minha mão à palmatória: eu nesse aspecto sou covarde. Prefiro ficar aqui no quarto trabalhando, vendo TV, beliscando um salgadinho, tomando uma cerveja (Carlsberg, da Dinamarca — excelente).

Nada da minha antipatia se deve ao fato de que o país é (ainda) comunista. Apesar de a economia ser em grande parte capitalista, o regime político é comunista. Vejamos até quando.

Enfim, estou contente de voltar para casa. No mês que vem (daqui a três semanas) estarei me sentindo bem melhor em Taiwan, onde me sinto em casa.

Em Hanoi, 14 de Abril de 2008

Debate entre Valdemar Setzer e Eduardo Chaves na TV Cultura (Opinião Nacional) em 28/5/99



Debate na TV Cultura, programa Opinião Nacional
28 de Maio de 1999
O Uso da Informática na Educação

Entrevistador: Heródoto Barbeiro
Comentarista: Carlos Alberto Sardenberg
Debatedores: Valdemar Setzer e Eduardo Chaves

Heródoto Barbeiro:

Afinal, o uso da Informática na escola ajuda ou atrapalha? Os computadores estão cada vez mais presentes na sala de aula. Os estudantes usam programas de edição de texto, produção gráfica, softwares educacionais nos seus trabalhos escolares. O professor Valdemar Seltzer da USP considera esse uso prejudicial. Está aqui conosco o professor Eduardo Chaves da UNICAMP que defende a informática na educação. Muito bem. Nós convidamos os dois para um debate aqui. Professor Valdemar, boa noite. Professor Eduardo, boa noite.

Professor Valdemar, esta questão da utilização do computador na escola não nos remete a uma questão anterior? Eu me lembro quando saíram as máquinas de calcular. Aí eu cheguei para um professor de matemática, Professor Orivaldo Pereira, que era meu colega na época, e disse:

– “Escute, como fica esse negócio da maquininha de calcular? Então não é mais preciso saber fazer raiz quadrada, é só apertar o botãozinho”?

Aí ele me disse:

-“Olha, é como andar de bicicleta. Você sabe andar de bicicleta”?

Eu disse: -“Sei”.

-“Você desaprendeu a andar porque anda de bicicletas”?

Eu disse: -“Não”.

-“Então vamos usar as maquininhas que são os antepassados dos computadores”.

Eu gostaria de saber se o senhor concorda ou não com este professor que estou citando aqui.

Valdemar Setzer:

É interessante, Heródoto, que eu publiquei um artigo no jornal “O Estado de São Paulo”, contra o uso de calculadoras eletrônicas na educação elementar, muito antes de se falar em computadores na educação. Acho que foi nos anos 70 e qualquer coisa. Eu acho que aquele artigo tinha sido motivado por uma frase que foi dita por um famoso cientista da computação nos Estados Unidos, Joe McCarthy, dizendo que era um absurdo as crianças aprenderem aritmética em 1000 horas, quando podiam aprender em 10 horas a usar uma maquininha de calcular. Ocorre que essa pessoa não percebe que o aprendizado da aritmética, o decorar da tabuada, representa um esforço mental, um esforço rítmico. O desenvolvimento que a criança faz decorando a tabuada é muito mais importante do que simplesmente sabe-la de cor. Se se entregar a uma criança uma máquina de calcular muito cedo, a criança vai deixar de passar por essa fase de aprender essa abstração que é a tabuada. Terá deixado de fazer um treino mental essencial para o raciocínio e para a capacidade de memorizar.

Carlos Alberto Sardenberg:

Mas a criança pode treinar em outras coisas não pode?

Valdemar Setzer:

Não, porque a tabuada é algo único, do ponto de vista de desenvolvimento mental. Isso me lembra toda aquela discussão com a Matemática Moderna, que felizmente já desapareceu, a menos das pobres crianças e adolescentes que continuam a calcular o “conjunto verdade” das equações – um conceito puramente lógico-formal, uma equação considerada como uma asserção da lógica – em lugar de procurarem as “raízes” das mesmas. Eu ainda tenho a esperança de que outras coisas ainda vão desaparecer do ensino, outros modismos vão desaparecer, como o uso exagerado de definições. Um exemplo é o absurdo de se ensinar ilha como “um pedaço de terra cercado de água por todos os lados”, o que, além de estar logicamente errado, é uma definição morta, como todas as definições. Essa ilha não tem plantas, praias, rochedos no mar, vento, etc. – é uma ilha morta, e isso mata de certa maneira a imaginação das crianças e força-as a uma atividade mental inapropriada para a idade (talvez 8 anos). O raciocínio matemático, como por exemplo o envolvido no aprendizado da tabuada, é um raciocínio muito especial, abstrato, e ele tem que ser dado com muito vagar. Não há necessidade de se ter pressa, pois, afinal, estamos moldando a mente da criança. Nós vimos aqui no bloco anterior um vídeo sobre uma escola. Interessante que é justamente a escola onde minha esposa é médica, e todos meus filhos nela se formaram, onde eu dei aula de matemática por dois anos. Essa escola pertence a um sistema pedagógico mundial, a Pedagogia Waldorf (há mais de 1.000 escolas Waldorf no mundo, 4 aqui em São Paulo, com o ensino fundamental e médio). Essa pedagogia, que tem muito sucesso, de todos os pontos de vista (desenvolvimento intelectual, artístico e social), é totalmente diferente do usual. Por exemplo, todas as crianças fazem tricô no primeiro ano. Isso serve como preparação para a aritmética, porque no tricô é preciso contar os pontos e, como em uma conta armada, não se pode pular nenhum passo, perder nenhum ponto.

Heródoto Barbeiro:

Como se fosse um ábaco?

Valdemar Setzer:

É, no ábaco também se desloca uma pecinha ao lado da outra, mas ele exige muito menos coordenação motora; além disso, usa um sistema quinário que não é adequado para crianças pequenas como as da primeira série. Por outro lado, o tricô é uma coisa muito mais real, produzindo algo de utilidade. No decorrer dos anos, o tricô vai se tornando mais complexo: chega uma série em que todos os alunos fazem uma meia sem costura, usando 5 agulhas, depois cada um faz uma malha para si, e no colegial chega-se à tecelagem.

Heródoto Barbeiro:

Professor Eduardo, é assim que o ensino do século XXI, estamos na beirada do século XXI, é tricotando que nós vamos desenvolver o ensino do século XXI?

Eduardo Chaves:

Poderia até ser, mas não será só com isso… Eu queria, de início, em vez de falar do século XXI, falar um pouquinho do século V a.C.. Naquela época, Sócrates, por exemplo, se opôs ao uso da tecnologia da escrita (isto é, ao uso de materiais escritos, livros) na educação, principalmente por duas razões. Primeiro, disse ele, porque quando a gente usa um material escrito a gente não precisa guardar o conteúdo na memória (pois está sempre ali, disponível) e, assim, esse tipo de material não exercita e fortalece a memória. Segundo, acrescentou ele, porque com o livro você não pode dialogar: se você tiver vontade de fazer uma pergunta para o livro, já sabe de antemão que ele não responde… Para Sócrates, a educação era alguma coisa que deveria ter lugar entre duas pessoas, face a face, uma dialogando com outra… Para ele, o livro, ou qualquer material escrito, iria atrapalhar a educação, pois interferiria com esse diálogo interpessoal face-a-face…

Carlos Alberto Sardenberg:

O que era uma bobagem…..(risos)

Eduardo Chaves:

É verdade: essa foi uma grande bobagem socrática – o que prova que até grandes homens dizem besteira. A história é análoga à da bicicleta que o Heródoto mencionou: quando a gente aprende a andar de bicicleta, a gente não precisa abandonar o andar a pé. Hoje a gente nem se dá conta de que o livro é tecnologia, de que a gente usa o livro, usa uma série de outras coisas que são tecnologia, usa tudo isso na educação, com a maior naturalidade – sem, necessariamente, abandonar o diálogo socrático, que continua importante. Na verdade, a tecnologia até aumenta, exponencialmente, as possibilidades que temos de dialogar socraticamente – interpessoalmente, mas não face-a-face. Tricô é tecnologia: você precisa ter agulhas, você precisa ter uma receita a ser seguida, etc… Então, o que eu não consigo entender em posturas como a do Setzer, é por que a criança, que hoje é acompanhada pela tecnologia desde antes de nascer (faz exames de ultrassom, nasce num centro cirúrgico sofisticado, vai para casa de carro, que é uma tecnologia, em casa tem eletricidade, quando não tem uma babá eletrônica para informar os pais que a criança está chorando, etc.), não pode – ou não deve – aprender com o auxílio da tecnologia. Pelo que sei, o Setzer não se opõe, como Sócrates, a que a criança aprenda usando o livro, usando materiais de toda sorte que são tecnologia ou sub-produtos da tecnologia. Ora, por que singularizar, por que pegar computador e a máquina de calcular como bodes expiatórios e dizer: na hora de aprender a criança não pode – ou não deve – usar essas coisas aqui. Parece-me que fazer isso é quase cometer uma violência contra a criança, é dizer: olhe, o seu aprender, a sua educação não têm nada que ver com sua vida fora da escola: lá fora você usa toda a tecnologia disponível, mas aqui dentro da sala de aula você só pode usar as tecnologias do livro, do gis, do quadro-negro — ou do tricô. Não é esquisito?

Heródoto Barbeiro:

Professor Valdemar.

Valdemar Setzer:

Existe um ponto…

Carlos Alberto Sardenberg:

Pela teoria do professor, deveriam ser usados video games não tricô, não é?

Valdemar Setzer:

Exatamente. Acontece que a situação é bastante complexa. Existem vários pontos de vista. Veja como Sócrates ou Platão tinham toda razão. Antes da escrita era necessário fazer um esforço de memória, aliás, a memória era fantástica. Por exemplo, acredita-se que inicialmente a Ilíada e a Odisséia foram transmitidas de memória. Imagina-se que muito depois de Homero é que elas foram escritas; a humanidade estava perdendo essa capacidade de memória e por isso é que se precisou inventar a escrita e se precisou colocar a história em livro. Mas isso correspondeu a uma perda, claro (a propósito, uma perda necessária para se desenvolver a capacidade de abstração). Eu não sou contra o livro; eles são fantásticos e sua leitura é essencial para o desenvolvimento intelectual e emotivo dos jovens. Só que há idade certa para se começar a ler um livro; com pouco mais de 1 ano de idade pode-se começar a mostrar figuras infantis bonitas, artísticas – raridade nos livros infantis de hoje. Como nesse tipo de escola que vocês mostraram no vídeo no bloco anterior, eu não recomendo que as crianças aprendam a ler antes de 6,5 ou 7 anos, para não forçar uma abstração mental precocemente (as letras latinas são símbolos sem vida ou estética, hoje em dia). Esse aprendizado tem que ser muito lento, como o Herodóto conhece muito bem, porque os filhos deles freqüentaram uma escola que usa método pedagógico. É importante entender-se qual é a influência da tecnologia, dos aparelhos, sobre as crianças, e aí perguntar-se: existe idade adequada para começar a usá-los? Vou dar um exemplo por analogia – com isso termino, para o Eduardo também ter alguma chance. Alguém diria que uma criança de 7 ou até 10 anos devesse guiar automóvel? Certamente, não nesta cidade de São Paulo. O Eduardo Chaves tem a sorte de morar em Campinas, isso é como um sítio para nós, pois aqui nós estamos num caos total no trânsito. Bem, certamente ninguém iria dizer que uma criança de 7 ou 10 anos deveria aprender a guiar um automóvel, não tem coordenação motora, não tem responsabilidade, vai brincar no volante, etc. Por que não se faz um estudo, como eu fiz, de qual é a idade adequada para se usar um computador? Porque o desastre…

Heródoto Barbeiro:

Qual é a idade professor por favor?

Valdemar Setzer:

… o desastre que o computador produz não é físico como o automóvel. Esse é um desastre mental, é um desastre psicológico.

Heródoto Barbeiro:

E qual é a idade então, adequada?

Valdemar Setzer:

Bem, a idade que eu cheguei à conclusão nos meus estudos é que deveria ser depois da puberdade, idealmente aos 17 anos. O computador exige uma tremenda auto-disciplina, um enorme auto controle e grande maturidade. Imagine essas crianças todas tendo acesso à Internet sem nenhum controle, sem poder julgar o que é bom e o que é mal.

Heródoto Barbeiro:

Mas veja, o senhor não está comparando o computador com a televisão, mas aí nós vamos chegar no lugar da televisão…

Valdemar Setzer:

Eu gostaria que vocês me convidassem uma vez e vamos falar só contra a televisão (risos).

Heródoto Barbeiro:

Falaremos em outra oportunidade. O senhor também acha que o computador só deveria ser usado após a puberdade, professor Eduardo?

Eduardo Chaves:

Não. Eu sei que o Setzer tem um referencial teórico muito elaborado por trás das posições dele, ao qual ele fez menção: a Pedagogia Waldorf. Mas estou certo de que esse referencial, elaborado há muito tempo, não leva em conta o fato de que a criança de hoje é muito diferente da criança de 100 anos atrás, quando esse referencial foi desenvolvido. Acho que hoje a criança está preparada para a alfabetização muito antes dos 7 anos tradicionais e isso porque, dada a estimulação do meio, repleto de tecnologia, tem uma sofisticação cognitiva que lhe permite lidar com razoável tranqüilidade e naturalidade até com máquinas sofisticadas e abstratas, como é o caso do computador e de aparelhos de vídeo-game – sem que isso lhe cause qualquer efeito nocivo, no curto, no médio e no longo prazo, muito pelo contrário. Um jogo de vídeo-game estimula o sistema sensorial-perceptivo, o sistema psico-motor, o sistema cognitivo (o raciocínio) – muito mais do que o tricozinho do Setzer, ainda que feito com cinco agulhas (contra o qual não tenho nada, repito, desde que ele encontre uma criança que prefira aprender fazendo tricô a aprender jogando um vídeo-game, ou interagindo com um computador, ou, melhor ainda, interagindo com seus colegas através do computador).

Heródoto Barbeiro:

Olha, tenho duas manifestações aqui já, uma do Sr José Roberto Rosa que é gerente de tecnologias e diz o seguinte: “Segundo algumas projeções de evolução do processamento de inteligência artificial, no ano 2019 o micro de U$1000 terá a capacidade de um cérebro humano. Imagino como será a sociedade e que educação precisará ter hoje.” O senhor Alexandre Ramalho, que é professor universitário, diz: “Sou radicalmente contra a utilização do computador no ensino fundamental. As crianças não devem primeiro aprender a usar o cérebro? Posteriormente poderão aprender a utilizar os magníficos recursos dessa informática.”

Valdemar Setzer:

Exatamente.

Eduardo Chaves:

Uma coisa não exclui a outra, professor Ramalho: a criança pode muito bem aprender a usar seu cérebro usando a melhor tecnologia disponível hoje. Ficar ouvindo um professor que usa, como tecnologia, apenas a voz, o giz e o quadro negro (como o faz a maioria dos professores universitários) não me parece ser uma forma muito eficaz de aprender a usar o cérebro – a não ser, talvez, como repositório de informação, muitas vezes inútil, não raro doutrinária. Uma das formas mais eficazes de aprender a usar a nossa capacidade cognitiva é interagindo com o nosso ambiente natural, humano e tecnológico (i.e., artificial), tentando resolver os problemas que esse ambiente apresenta… e esse meio ambiente hoje é repleto da mais variada e poderosa tecnologia. Nós encontramos tecnologia sofisticada hoje em todo e qualquer lugar. Tentar fazer com que a educação escolar abstraia desse universo tecnológico em que a criança vive, para que apenas depois, lá pelos 17 anos, ela subitamente comece a interagir com esse ambiente todo, me parece, no mundo em que nós vivemos hoje, mais do que irrealista: é um grande desperdício de oportunidades educacionais.

Valdemar Setzer:

Isso depende dos pais e da escola. Felizmente nós estamos num país onde se pode ter e fazer dentro do lar aquilo que se quiser, desde que não se maltratem as crianças. Pode-se organizar o próprio lar da maneira como a gente escolher, não há imposição quanto a isso. Então é muito simples, e eu apelo para os pais pensem, estudem, reflitam: não há a mínima necessidade de uma criança usar o computador…

Heródoto Barbeiro:

Isso é um modismo, na opinião do senhor?

Valdemar Setzer:

Não é só um modismo, é um tremendo mercado, por que atende os interesses dos fabricantes e não da sociedade – se bem a sociedade está sendo induzida a consumir computadores, isto é, está com seus interesses bem deturpados.

Carlos Alberto Sardenberg:

Há estatísticas a respeitos disso, por exemplo, avaliar o desempenho de alunos de escolas que usam o computador e não usam o computador? Há modos de medir isso?

Valdemar Setzer:

Sim, eu gostaria de citar dois estudos, aliás os dois da mesma universidade de Carnegie Mellon, uma das melhores universidades americanas. Um deles é um estudo que foi publicado há alguns meses, em que se demonstrou que o uso da Internet produz aumento de depressão e antisociabilidade. Foi uma surpresa porque inclusive esse estudo foi financiado por Bill Gattes & Cia., que queriam resultados exatamente contrários. Um outro estudo foi muito interessante e diz respeito direto à nossa questão aqui. Eu li uma referência a esse estudo em uma tese que acabei de receber há pouco tempo pela Internet (risos) de Lowel Monkey, professor secundário nos Estados Unidos, que fez doutorado numa universidade americana. Ele cita uma pesquisa, naquela mesma universidade, em que se examinou o resultado de testes de matemática de crianças que tiveram aulas de uso do computador, em comparação com outro grupo de crianças que não teve aulas de uso do computador, mas estudou música, estudou piano. O resultado daqueles que estudaram piano foi muito melhor nos testes de matemática dos que tiveram computador. Na sua tese, Monkey cita que ele era membro de um conselho de tecnologia das escolas secundárias lá da sua cidade, Des Moines, capital do estado de Iowa, nos EUA. Ele escreveu um relatório dizendo que, baseado, naquele estudo, não se deveria embarcar na campanha do presidente Bill Clinton de instalar um computador em cada sala de aula; o correto, do ponto de vista educacional, seria instalar um piano em cada sala de aula, pois o resultado seria muito melhor. Eu gostaria de acrescentar o seguinte. Todas as experiências de uso de arte em qualquer ambiente escolar, prisão, FEBEM (que é o caso do magnífico projeto Guri, de ensino de música e formação de orquestras juvenis), dá resultados extraordinários, como pode ser verificado nas escolas Waldorf, onde há um intenso ensino artístico. O computador não dá resultados extraordinários, pelo contrário, em minha conceituação ele é extremamente prejudicial à formação intelectual, sentimental e volitiva das crianças e jovens. Isso está sendo comprovado cada vez mais por pesquisas estatísticas.

Eduardo Chaves:

Ninguém está defendendo que se use apenas a tecnologia na escola, em detrimento de tudo o mais, que a escola abra mão do uso da pintura, da música, da arte em geral. Algumas dessas pesquisas mostram que se o indivíduo ficar fixado no computador 10 ou 12 horas por dia, ele pode sofrer efeitos nocivos para a sua personalidade, da mesma forma que se ele ficar trancado numa biblioteca, lendo 12 horas por dia, se ele não tiver uma vida social, se não se movimentar, brincar, correr, se não fizer outras coisas além de ler, isso também pode prejudicá-lo…

Carlos Alberto Sardenberg:

E se ele ficar a tarde inteira decorando tabuada?

Eduardo Chaves:

… É a mesma coisa. Falou-se no início sobre o suposto mérito da memorização. Eu não vejo mérito algum na memorização como tal, em decorar tabuada ou coisas desse tipo. O importante é saber o que fazer com as informações que estão disponíveis para nós. Se eu compreendo a natureza das operações aritméticas, sei quais são as operações que precisam ser feitas para resolver um problema, e faço essas operações usando a máquina de calcular ou o computador (e não de memória – ou usando papel e lápis, que, convenhamos, são tecnologias…), eu não preciso ter presente na memória o tempo todo o algoritmo que me permite multiplicar ou dividir dois números, extrair raiz quadrada, etc. Eu sei quais são as operações, vou ali na maquininha e as faço – pronto, problema resolvido. Então o suposto mérito de memorizar a tabuada, ou os algoritmos necessários para extrair a raiz quadrada, ou as declinações e conjugações latinas, como se fazia antigamente, é uma coisa, na melhor das hipóteses, sobre-valorizada – na pior das hipóteses, uma perda de tempo terrível. Certamente nossa capacidade de memorizar foi reduzida com as várias tecnologias que surgiram, com o aparecimento do livro, com o surgimento da máquina de calcular, com a presença ubíqua do computador entre nós… Mas nós certamente ganhamos em nossa capacidade de armazenar informações fora da memória e em nossa capacidade de processar a enorme quantidade de informações armazenadas em meios externos e disponíveis a qualquer momento. Ganhamos na forma de processar essa informação, de analisá-la, de raciocinar em cima dela, de colocá-la a bom uso. Pode parecer um truísmo, mas podemos fazer, utilizando a tecnologia (com o seu auxílio ou apoio), boa parte das coisas que também podemos fazer sem ela. E podemos fazer, com a tecnologia, coisas que é muito difícil (ou mesmo impossível) fazer sem ela. E, assim, ainda teremos até mais tempo para fazer as outras coisas, aquelas que não podemos fazer com a tecnologia, do jeito que devem ser feitas: a pintura, o teatro, ou o tricô do Setzer…

Valdemar Setzer:

Eu gostaria de citar mais um fato. Não sei se o Eduardo Chaves sabe disso:existem várias universidades americanas que estão com aconselhamento psicológico para estudantes que são viciados na Internet, porque ela está prejudicando seus estudos de uma maneira extraordinária. Eu pergunto aos senhores o seguinte: alguém já ouviu falar de “rato” de biblioteca que fosse mal nos estudos?

Eduardo Chaves:

O problema, Setzer, não é a Internet: é o vício. Ser viciado em qualquer coisa é sempre ruim – ainda que o objeto do vício seja, fora do contexto do vício, alguma coisa boa.

Valdemar Setzer:

Um aluno viciado em biblioteca não irá mal nos estudos.

Eduardo Chaves:

Isso me faz lembrar a história do indivíduo que era alcoólatra. Um dia quiseram mostrar para ele o mal que o álcool fazia ao organismo e jogaram um ovo fresco dentro de um copo com pinga: o ovo imediatamente ficou cozido. O alcoólatra olhou e falou: puxa vida, de hoje em dia não como mais ovo… (risos….). O problema é o vício, não é a Internet. Qualquer coisa em excesso, até uma coisa boa, é prejudicial. Um aluno que se trancafie na biblioteca 12 horas por dia, lendo o tempo todo, e não fazendo outra coisa, pode até não ir mal nos estudos, mas irá terrivelmente mal na vida.

Valdemar Setzer:

Repito, nenhum aluno viciado em biblioteca foi mal nos estudos. Isso mostra que o computador e a Internet têm uma influência maléfica especial. Mas estou de acordo quanto aos prejuízos sociais, se isso prejudicar o convívio social, mas isso aplica-se a qualquer vício. A segunda coisa que você falou foi o latim. Aqui eu gostaria de citar uma historinha que se conta de um dos fundadores do ensino da matemática superior na antiga Faculdade de Filosofia da USP, um daqueles famosos matemáticos europeus, franceses e italianos, talvez Fantapié, Dieudonné ou Alabanesi, que estiveram aqui, acho que evitando o nazismo. Perguntou-se a ele o que se deveria ensinar no colegial ou na escola para que ele recebesse posteriormente bons alunos de matemática no ensino superior. Sabem o que ele respondeu? “Por favor, não ensinem matemática, ensinem latim”. Vejam a sabedoria, a intuição que havia naquela época. Porque quando se estuda o latim faz-se um intenso desenvolvimento de raciocínio lógico, em cima de uma linguagem natural. Hoje em dia essa língua está morta, mas existiu. É uma linguagem natural, não é uma linguagem simbólica, formal como a matemática…

Eduardo Chaves:

… Mas dá para estudar lógica em cima de uma linguagem viva…

Valdemar Setzer:

…mas o latim tem uma estrutura lógica que hoje em dia é difícil de encontar em outras linguagens. Por exemplo, nele a ordem das palavras não interessa, as declinações dão o sentido de um sujeito, de um objeto direto ou indireto, etc. A capacidade de raciocinar que o Eduardo Chaves mencionou pode ser desenvolvida com o latim. Na estou advocando que se volte a ensinar latim, como era obrigatório no Brasil inteiro, por 4 anos, quando eu estava o antigo ginásio (atuais 5ª a 8ª séries). Ele mencionou uma outra palavra antes: chamou o computador de máquina abstrata. De fato, o computador é uma máquina puramente matemática, isso pouca gente sabe. Ele é uma máquina abstrata porque nós podemos descrever todas as funções que ela exerce por meios matemáticos, estritamente formais. A linguagem que se usa com o computador, pode ser digitando algum comando, control + C por exemplo, ou então selecionando um ícone, é estritamente formal, ela não tem ambigüidades como as linguagens naturais…

Eduardo Chaves:

Eu como usuário posso muito bem usar o computador sem fazer uso dessas linguagens formais que são necessárias para programá-lo.

Valdemar Setzer:

Não, é impossível. Eu não estou falando de linguagens de programação, que obviamente são formais, mas nos comandos que é necessário dar no uso de qualquer software. Na hora que você aciona um ícone sempre a mesma função matemática de manipulação de símbolos vai ser executada pelo computador. As pessoas não percebem isso, mas no fundo quando se usa o computador com qualquer programa, por exemplo com um editor de textos (não precisa ser na confecção de um programa, onde o formalismo lógico-matemático é óbvio), também se está usando uma linguagem formal. Qual é a conseqüência disso?

Heródoto Barbeiro:

O resultado é sempre o mesmo?

Valdemar Setzer:

Sim o computador é uma máquina totalmente determinista. É isso que faz o computador ser uma máquina tão potente: sempre que ele está em certo estado, por exemplo apresentando alguma coisa na tela, apertando-se uma tecla – tanto faz qual é a pessoa que aperte aquela mesma tecla –, ele vai sempre fazer a mesma ação; trata-se de um processo matemático. Agora, qual é a conseqüência disso? Que o computador força, induz, um pensamento lógico-simbólico. Por exemplo, os ícones são símbolos, os caracteres são símbolos, constituindo uma linguagem lógico-simbólica. Portanto e ele força um tipo de raciocínio, um tipo de pensamento, lógico-simbólico, e aí é que vem o problema. Na minha concepção não é correto que se force crianças a pensar dessa maneira: vai ser prejudicial posteriormente.

Heródoto Barbeiro:

Professor Eduardo, gostaria de ouvir o comentário do senhor, porque o nosso tempo está esgotando.

Eduardo Chaves:

Certamente o computador é uma máquina abstrata, lógica, determinista. Mas é possível usá-la de forma concreta, não determinista, até ilógica. Vou usar uma comparação para ilustrar o que estou dizendo. A linguagem que usamos – a linguagem escrita mais do que a falada – é uma tecnologia abstrata, lógica, determinista. É abstrata porque usamos símbolos para representar entidades (reais ou fictícias), características e atributos (empíricos ou abstratos), conceitos de vários tipos. É lógica porque esses símbolos precisam ser usados de acordo com certas regras. E é determinista: exceto em situações muito especiais, não temos liberdade de inovar à vontade no uso desses símbolos e nas regras que os governam. E, no entanto, a despeito de tudo isso, somos capazes de usar a linguagem não só em contextos matemáticos e científicos, admitidamente rigorosos, mas para registrar eventos, para narrar histórias (reais ou inventadas), para criar contos fantásticos, surrealistas ou pós-modernos, para compor poemas que inspiram e nos fazem sentir que a vida vale a pena. O mesmo vale para o computador. Ele é, lá dentro dele, uma máquina abstrata, lógica, determinista. Mas nós o usamos – o mundo inteiro o usa – para conversar com os entes queridos pela Internet, para trocar e visualizar fotos, para compartilhar e ouvir músicas, para distribuir nossos ensaios literários e nossos poemas, para registrar nossas viagens em textos e imagens… Tudo isso é concreto e nada tem de lógico ou determinista. Toda a estrutura abstrata, lógica, determinista do computador está lá, mas ela não é visível para mim, ela é transparente, eu não a enxergo – e posso usar o computador para fazer coisas que não são condicionadas por essa infra-estrutura tecnológica. Concentrar a atenção, como se fosse, nos intestinos do computador, da forma que o faz o Setzer (algo até compreensível para quem é um cientista da computação, mas que implica um reducionismo terrível), é deixar de lado o fato de que com o computador nós podemos fazer uma multidão de coisas extremamente úteis e importantes – como, por exemplo, interagir e dialogar com nossos semelhantes, aceder às informações de que precisamos para fazer aquilo que desejamos, etc. Interação humana, acesso a informações, manipulação de informações, etc. são atividades essenciais para o mister de aprender, de educar, de viver.

Heródoto Barbeiro:

Eu quero agradecer a presença dos dois, professor Valdemar e Professor Eduardo. Quero dizer que vocês acabaram de responder o senhor Romildo Neto, de São Paulo, e o comentário do senhor Cláudio Teles, Salvador na Bahia: “Devemos olhar os mais nobres valores de conduta, noção de vida, sociedade e respeito ao próximo. Felizmente, o computador não tem condição de transformar indivíduos e seres humanos”.

Valdemar Setzer:

Na minha concepção, transforma, sim, pois atua no nível mental. No caso de crianças, para muito pior. Por favor, sobre isso, leiam os artigos em meu site. Insisto em que o computador impõe certo tipo de pensamento, que é inadequado para crianças e adolescentes. Há várias pesquisas mostrando que, quanto mais um aluno usa o computador, pior o seu rendimento escolar. Uma das razões que se dá é o tempo que a criança ou adolescente perde com o computador, prejudicando suas outras atividades, inclusive o estudo. Isso é óbvio. Mas eu vou muito mais a fundo: preocupa-me a influência no tipo de pensamento e na linguagem lógico-simbólicos. Isso obviamente não ocorre quando uma criança está digitando um e-mail, mas na hora de enviar o e-mail, ela usará um comando que, no fundo, é matemático, pois dispara funções matemáticas dentro do computador. Como exemplo de prejuízo, tenho certeza que algum dia uma pesquisa mostrará que o computador prejudica a imaginação (o que ocorre com também qualquer aparelho que use tela), e portanto a criatividade, bem como induz indisciplina mental. Gostaria ainda de salientar o que já disse: não há necessidade de se começar a usar o computador e a Internet muito cedo. Quase todos os que têm mais de 40 anos hoje não os usaram quando crianças, e não tiveram dificuldade de aprender a usá-los quando adultos.

Eduardo Chaves:

Só uma observaçãozinha final, curtinha… Um dos grandes males da escola é tentar impingir sobre as crianças um modelo de aprendizagem, fazendo de conta que é o único. As crianças, tradicionalmente, acreditavam que ouvir o professor falar, ler o que ele escrevia no quadro-negro, e fazer anotações no caderno era o único jeito de aprender. Hoje, quando têm acesso a uma tecnologia sofisticada que lhes permite aprender de várias outras formas – pesquisando, discutindo, criando modelos, fazendo simulações, resolvendo problemas que consideram importantes – é natural que se dêem conta de que o modelo de aprendizagem que a escola tenta lhes impor deixa muito a desejar e, por isso, que percam ainda mais o pouco interesse numa escola que mantém esse paradigma hoje ainda, infelizmente, vigente – e que seu rendimento escolar caia.

Heródoto Barbeiro:

O debate segue na Internet, via computador. Os dois participantes têm nas suas páginas artigos sobre o assunto. O endereço do professor Valdemar é http://www.ime.usp.br/~vwsetzer. A home page do Projeto Edutecnet do professor Eduardo é: http://edutec.net [hoje, 15/6/2015: https://liberal.space/ e http://facebook.com/eduardo.chaves) O debate vai seguir lá com certeza, mais animado depois da participação dos dois aqui. Muito obrigado aos dois.

[A transcrição deste debate foi feita, a partir de fita gravada, por Lourdes Matos, do grupo de discussão EduTec, que eu criei e coordenei de 1998 a 2001. Ela foi revista pelos entrevistados em abril de 2008; eles tentaram conservar os argumentos e conhecimentos da época. EC ]

Debate gravado em São Paulo, na TV Cultura, em 28/5/1999; transcrito em uma versão anterior do meu blog em 14/4/2008; e, posteriormente, transferido para WordPress; revisto em 15/6/2015