Arquivo do autor:Eduardo Chaves
Lost in Translation
Acho muito interessante o filme "Lost in Translation" de Sofia Coppola (ela dirigiu e escreveu o roteiro), com Bill Murray e Scarlett Johansson. Acho que o nome do filme em Português é "Encontros e Desencontros" — que não indica que o filme em gira em torno de problemas lingüísticos que, por sua vez, se traduzem em problemas culturais.
(Quem não assistiu ao filme pode ver um resumo em http://imdb.com e um trailler em http://mymovies.net)
O filme descreve com muita propriedade as dificuldades que ocidentais têm para entender orientais — especialmente para entender orientais em contextos envolvendo comunicação lingüística.
Nos últimos dois anos vim várias vezes à Asia: Taiwan, três vezes, Hong Kong, duas vezes, Macau, uma vez, Coréia do Sul, uma vez, Cingapura, uma vez — quase sempre passando por Tóquio, cidade cujo aeroporto (Narita) possui todo um setor da United — onde apenas ela controla cerca de 30 portões de embarque.
A maior parte do tempo, quando estou aqui, e quero sair, alguém me acompanha: ou alguém local, que fala a língua local (chinês [mandarin], chinês [cantonês], coreano), ou, então, um grupo de estrangeiros que, embora não falando a língua local, compartilham a ignorância da língua e, assim, socializam qualquer passo em falso…
Ontem, porém, Sábado, dia 6, saí sozinho aqui em Taipei. Não é uma experiência fácil. Estou no Grand Hotel, uma construção de estilo chinês, enorme e magnífica, que fica no alto de um morro, cercada por um bosque que, por sua vez, é cercado por pistas de alta velocidade. Sair do hotel andando, como eu normalmente gosto, é complicado. Logo, saí de taxi.
Problema número um: quase nenhum motorista de taxi aqui em Taiwan fala Inglês (ou qualquer outra língua além do chinês de pronúncia cantonesa]). Exigência número um, portanto: sair do hotel munido de descrições em chinês acerca dos locais aos quais você deseja ir, bem como com um cartão de visitas do hotel, que tenha, em chinês, o nome, o endereço e o telefone do hotel. Na saída do hotel os bell-boys lêem o seu papelzinho, falam com o motorista, anotam em um outro papel o número e a placa do taxi, bem como o nome do motorista e lhe dão. Perguntei a eles para que servia aquilo. Disseram, sorrindo como sempre: para sua segurança. Fiquei na mesma. Na mesma, bem, não: fiquei mais preocupado do que estava. Mas não deixei isso transparecer. Procurei demonstrar segurança. Ao chegar ao destino, o motorista apenas apontou para o taxímetro (na ida foi 125 Taiwan dollars, na volta 140, não sei exatamente por que, pois saí de volta exatamente do mesmo local a que cheguei, apesar de ter rodado pelo centro da cidade). Você paga e ele lha dá o troco. Como você não conhece as notas nem as moedas, coloca tudo no bolso, porque conferir levaria tempo demais.
Problema número dois: muito poucos vendendores nas lojas falam Inglês — e aqueles que falam em geral falam o mínimo indispensável para vender alguma coisa, e, em geral, com uma pronúncia que é muito difícil entender. Eu fui a um local conhecido aqui em Taipei, onde há "trocentas" lojinhas pequenas de eletrônica no espaço de mais ou menos um quarteirão, dispostas quase como estandes de 3×3 ou 2×3 ou até 1×3 numa exposição (como uma feira de informática). Têm de tudo. Mas muitas estavam fechadas. Quando encontrava um vendedor que parecia falar melhor o Inglês, perguntava: "Why so many stores closed?" — Por que tantas lojas fechadas. Recebia em resposta um daqueles olhares indicativos de que a pessoa não entendeu absolutamente nada. Fiquei sem saber se era porque era sábado, se era porque era antes do meio-dia, ou se havia alguma outra razão.
Problema número três: a Joyce Weng, que é a diretora da empresa que organizou a logística do Congresso do qual vim participar, me disse: não pague o que eles lhe pedirem, barganhe. Eu lhe disse: barganhar como??? Ela me disse: quando você achar algo que lhe interessa, aponte para a coisa e pergunte o preço — dizendo "How much?" (isso eles entendem) ou raspando o polegar no indicador ou no pai-de-todos, para indicar dinheiro (que parece ser um gesto com significado universal). Eles vão lhe responder pegando uma calculadora grande e digitando nela o preço. Você pega a calculadora das mãos deles, calcula, digamos, 80% do preço, e mostra pra eles. E por aí vai. Fiquei preocupado. Em geral não sou bom negociador — e barganhar desse jeito parece estar além da minha capacidade. E se eu não me lembrasse de como se calcula porcentagens na calculadora???
Mas encurtemos a história.
Na primeira lojinha que encontrei, logo na entrada no complexo (que tem cerca de 15 enormes barracões, todos com ar condicionado, banheiro, caixas eletrônicos, etc., direitinho), encontrei algo que estava procurando: discos rígidos de 2,5 polegadas. Eles em geral são vendidos pelados, sem o estojo. Você tem de comprar o disco pelado, o estojo do disco, pedir para eles instalarem o disco no estojo, formatar o disco e lhe mostrar que o disco está funcionando e tem a capacidade anunciada. Além disso, se você é como eu, você vai querer comprar uma capinha de couro (ainda que seja couro "genérico") para guardar o seu minúsculo disco rígido (menor do que um Palm). Você tem de comprá-la em separado. (Sei disso por que anteriormente já comprei três desses, dois de 80 GB e um de 120 GB — mas comprei-os quando estava acompanhado de gente que falava a língua e barganhava por mim…).
Na lojinha em questão um jovem gordo e careca falava ao telefone exatamente no balcão onde estavam os discos. Tentei chamar a atenção de um outro vendedor, que estava sem fazer nada, mas ele fez sinal de não com a mão, apontando para o gorducho. Enquanto este terminava a ligação, olhei as caixinhas na vitrina. Havia caixinha de disco de 40 GB, de 60 GB e de 80 GB. Eu queria, naturalmente, o de 120 GB. Apontei para as caixinhas e perguntei: One hundred and twenty gig? Ele me respondeu, Ya. Eu perguntei: How much? O desgraçado não seguiu o script. Ele pegou a calculadora, ligou, e a virou para mim, sem digitar nada. Olhei para ele assim com a minha melhor cara de perdidão. Não adiantou. Fiz um gesto de quem não havia entendido. Ele me respondeu: Make offer — faça uma oferta. Já disse que não sou bom em negociação. Mas quando alguém me dá um preço, em geral sou capaz de oferecer algo assim como cinco por cento abaixo. Mas eu começar dando preço à mercadoria do outro é algo que definitivamente não gosto de fazer. Fiz um sinal de esqueça e fui saindo… O gordão estava rindo, condescendentemente — e levemente sacuindo sua cabeça negativamente. Parecia estar dizendo que ocidentais não sabem negociar. É verdade. Orientais e árabes são muito melhor nisso do que a gente.
Fiquei umas quatro horas por lá. Desenvolvi uma dorzinha de cabeça chata. E não comprei quase nada. Razão: basicamente, insegurança — tanto para a compra parca como para a dorzinha de cabeça. Quando o preço era mais ou menos bom, eu perguntava: Brand? – Marca? E a marca era uma marca taiwanesa, totalmente desconhecida. Quando a marca era Sony, Fujitsu, Samsung, o preço me parecia alto demais — o que me obrigaria a barganhar bastante, coisa que, convenhamos, eu não estava muito disposto a fazer. O pior é você fazer uma pergunta simples e eles ficarem dois minutos conversando em chinês entre eles antes de lhe dar uma resposta — ou, ainda pior, cair na risada sem que você saiba por quê…
O filme de Sofia Coppola lida com essas realidades. Vivenciar meio-dia sozinho num mercado de tecnologia em Taiwan me ajudou a elevar mais a minha avaliação do filme. Não o percam, caso ainda não o tenham visto. Se não gostarem da história, os homens, pelo menos, vão adorar Scarlett Johansson: a menina de 20 anos, por aí, que todo cinqüentão, como Bill Murray, pediu a Deus — e o idiota do marido dela virtualmente a jogou nos braços dele. Mas já conto o final: exceto por um beijo, o caso incipiente dos dois não foi a lugar nenhum: terminou quando ele voltou de Tóquio para os Estados Unidos. Comme il faudrait, peut-être.
Em Taipei, 7 de maio de 2006
Gestão do conhecimento: o conceito
Vou me arriscar a discutir a questão da conceituação da gestão do conhecimento sem me referir à volumosa literatura que existe sobre esse tema. Vou me valer apenas, de um lado, de minha experiência como filósofo, por muitos anos envolvido com a epistemologia (teoria do conhecimento), e como educador, também por muitos anos envolvido com a questão de como é que as pessoas, que nascem ignorantes e incompetentes, conseguem vir a conhecer, isto é, a se designorantizar, e a se tornar competentes, isto é, a se desincompetentizar, e, de outro lado, de meu conhecimento da literatura filosófica sobre o conhecimento. Também fui, durante vários anos, professor de Gerenciamento de Sistemas de Informação. Colocando tudo isso num liqüidificador, vamos ver no que dá…
Há momentos em que me pergunto se a gestão do conhecimento é algo mais do que o antigo gerenciamento da informação – e se é, no que consiste esse mais?
A impressão que tenho é que a gestão do conhecimento é, sem dúvida, algo mais do que o gerenciamento da informação — e que o mais, no caso, é o gerenciamento de competências. Assim teríamos: gerenciamento da informação + gerenciamento de competências = gestão do conhecimento.
Obviamente haverá quem estranhe essa forma de colocar as coisas. Mas vou tentar justificá-la.
Certamente já houve quem tenha dito que a gestão do conhecimento abrange TANTO o conhecimento (que eu prefiro chamar de informação) que está registrado, digamos, no que Karl Popper chama de "Mundo 3", isto é, em mecanismos diversos de registro e armazenamento da informação, como livros, revistas, jornais, discos magnéticos e ópticos, fitas idem, etc. (o "etc" englobando até mesmo fotografias, quadros, reproduções de imagens, discos e fitas com música e vídeo, paredes de caverna, etc. — isto é, englobando até mesmo a informação audio-visual e não apenas textual), COMO o conhecimento que está armazenado na cabeça das pessoas (naquele que Karl Popper chama de "Mundo 2", o mundo mental; o que ele chama de Mundo 1 é o mundo que resta quando se atribuem a outros mundos as realidades mentais e as informações, e que inclui os mecanismos físicos em que armazenamos as informações).
Mas aqui surge o seguinte problema, que tem várias facetas.
O conhecimento que está armazenado na cabeça das pessoas engloba uma boa parte da informação que também está registrada fora. Digamos que vou escrever um artigo. Penso e decido o que vou dizer. Até que eu coloque o artigo em disco ou papel, ele está só na minha cabeça; depois passa a estar na minha cabeça e no papel ou no disco. Se um dia ou me esquecer totalmente do conteúdo do artigo que escrevi, ou, então, se eu morrer, o artigo continuará a existir em papel ou em disco.
Seria o conhecimento que está em nossa cabeça algo mais do que um conjunto de informações que podem ser, digamos, externalizadas e registradas em algum meio de armazenamento de informações?
Tradicionalmente, na Epistemologia (Teoria do Conhecimento), se argumentou que conhecimento é informação — mas informação de certo tipo. Na versão mais famosa dessa teoria tradicional, as informações que merecem ser chamadas de conhecimento são aquelas que são verdadeiras, para as quais temos evidência, e nas quais acreditamos. Em suma: conhecimento seria crença verdadeira e evidenciada.
Não vou entrar aqui na discussão dessa proposta de conceituação de conhecimento, que é bastante falha. Basta dizer que pouca gente a aceita, hoje. Popper, talvez, tenha sido o seu coveiro.
Muitas outras propostas têm surgido para substituir essa visão tradicional, preservando a idéia de que conhecimento é informação, mas procurando mostrar que apenas um certo tipo de informação faz jus ao rótulo de conhecimento: por exemplo, conhecimento seria a informação integrada, contextualizada e interpretada, por exemplo. E assim vai.
Numa linha diferente, têm havido aqueles que, sob inspiração de Piaget, têm afirmado que conhecimento não é informação (nem mesmo de um tipo especial), mas que é o nome que damos aos nossos modelos e esquemas ("schemata") mentais, que, em última instância, são aquilo que nos permite lidar com grandes quantidades de informação e fazer sentido delas.
Embora atraente, há algumas dificuldades nessa proposta.
Em primeiro lugar, boa parte de nossos modelos e esquemas mentais normalmente não são conscientes. Se fizermos um esforço de foco e auto-análise, poderemos até adquirir consciência de alguns deles, se bem que dificilmente em toda a sua complexidade. Em segundo lugar, se isso é verdade, seria possível descrever, em parte, esses modelos e esquemas, mas seria muito difícil transmiti-los ou transferi-los a terceiros: cada um, em última instância, teria de desenvolver os seus. Em terceiro lugar, se isso é verdade, é difícil imaginar o que seria a gestão, por terceiros, desse conhecimento que está na cabeça dos outros. Na verdade, é difícil até mesmo imaginar o que seria a gestão dos modelos e esquemas mentais que estão na nossa própria cabeça, em parte porque a tomada de consciência deles, ainda que parcial, exige competências de auto-percepção (auto-conhecimento?), análise e descrição de sistemas complexos que a maior parte dos mortais não desenvolve.
Quaisquer que sejam os modelos e esquemas que desenvolvamos para lidar com a informação e fazer sentido dela, parece inegável que esses modelos e esquemas, mais as informações que possuímos em nossa cabeça, se traduzem nas competências e habilidades que desenvolvemos. Sem, necessariamente, nos comprometer com uma visão behaviorística da mente, mas reconhecemento que num contexto instituticional é o comportamento que mais importa, poderíamos, então, concluir que a chamada gestão do conhecimento é o gerenciamento da informação registrada em diversos meios de armazenamento dentro de uma instituição mais o gerenciamento das competências daqueles que ali militam. Assim evitaríamos as complicações envolvidas em falar no conhecimento que está "dentro da cabeça das pessoas".
Quod erat demonstrandum.
Uma última dificuldade, para concluir.
Quando se trata de instituições educacionais, cuja missão, portanto, mais do que transmitir informações, é ajudar os outros a aprender, e reconhecendo, apud Senge, que aprender é se tornar capaz de fazer o que antes não conseguíamos fazer, ou seja, aprender é desenvolver competências, o gerenciamento das competências talvez seja, nessas instituições, bem mais importante do que o gerenciamento da informação.
Em Taipei (Taiwan), 7 de maio de 2006
A liberação do desejo e a busca da riqueza
United flight 881 – May 2, 2006
Se Alvin Toffler estava certo ao afirmar que riqueza é tudo aquilo que satisfaz uma necessidade ou um querer do ser humano, sou uma pessoa muito rica, no momento — apesar de pequenos dramas pessoais e de frustrações profissionais.
Escrevo esta crônica a bordo de um Boeing 747, que se dirige para o Polo Norte, numa viagem de Chicago a Tóquio (voo United 881, do dia 2 de maio de 2006). O vôo saiu de Chicago ao meio-dia, hora local, e deve chegar em Tóquio às 15 horas do dia seguinte — também hora local. A duração do vôo é de treze horas. (Se algúem duvida, estude os fusos horários). De Tóquio saio às 17h30 com destino a Taipei, Taiwan, onde chego às 20h15 de amanhã — para dar uma palestra às 10h30 de depois de amanhã, abrindo um congresso sobre Jogos na Educação, do qual a Microsoft é co-patrocinadora.
Enquanto lia e ouvia música no meu iPod Nano na sala de espera do Portão C-18, no Terminal 1 do aeroporto O’Hare de Chicago, ouvi um ruído estranho no background. Era um senhor engravatado que, ao lado de alguém vestido como piloto, dizia alguma coisa amplificada pelo sistema de som. Tirei os meus fones de ouvido e prestei atenção. O engravatado dizia que aquele vôo (o vôo em que eu iria embarcar) seria o último vôo daquele comandante — que, completando 60 anos dois dias depois, era obrigado a se aposentar, pelas regras americanas para esse tipo de trabalhador. O engravatado fez um breve discurso, dizendo que o comandante estava com a United há 32 anos — desde 1974. (Imediatamente me lembrei de que 1974 foi o ano em que comecei a trabalhar na UNICAMP, depois de ter passado sete anos nos Estados Unidos, estudando e trabalhando, sem voltar uma vez sequer para o Brasil nesse período). E que agora, em decorrência da legislação americana, era obrigado a se aposentar. (Eu também me aposento este ano da UNICAMP, depois de 32 anos de trabalho, embora não pela compulsória). E aquele era seu último vôo. “The Final Flight”. Todos aplaudimos o discurso e, naturalmente, o fiel comandante — que recebeu seu broche de ouro (um “pin“) de aposentado como prêmio por tantos anos de dedicação. (Que eu saiba, a UNICAMP — i.e., seu corpo diretivo — nem está tomando conhecimento de que eu vou me aposentar ao final do segundo semestre. Nem, muito menos, está planejando me dar um pin para comemorar a ocasião. E tem gente, pobre de espírito, que acha que empresas privadas, que visam ao lucro, são entidades opressoras, desumanizadoras, e que a solução está em entidades estatais como a UNICAMP…)
O vôo estava surpreendentemente vazio. Minha poltrona era a de número 12A, na parte de cima da classe executiva de um Boeing 747, sem ninguém no assento B, ao lado, e com pouca gente nos outros assentos (dos 30 lugares, só 13 estavam ocupados). Com duas comissárias de bordo e um estagiário, fui muito bem atendido — e o clima estava tão descontraído que tive a oportunidade de conversar um pouco com a tripulação. A comissária de bordo chefe, me chamando pelo nome (Mr. Chaves), veio perguntar o que eu queria comer. Havia escolha entre filé mignon, frango e massa. Preferi o filé mignon. Perguntei a ela por que o vôo estava tão vazio. Voos para Tóquio em geral são lotados. Ela não sabia. Falou que em mais de 20 anos voando entre Chicago e Tóquio, nunca esteve em um vôo tão vazio. Sorte minha. Sorte dela também, creio — tem menos trabalho. Quanto a mim, ganhei mais espaço, mais sossego, e uma interlocutora…
Quando a Comissária veio me trazer bebidas (pedi Vodka Absolut, “on the rocks“, acompanhada de castanhas de caju torradas e bem salgadas), solicitei-lhe que me escrevesse numa folha de papel o nome do comandante — o piloto que estava fazendo sua viagem final. Disse a ela que pretendia escrever uma crônica sobre o episódio e queria o nome dele. Disse-lhe que achei bonito a United reconhecer — e fazê-lo publicamente — seus fiéis empregados, que chegaram ao final de sua carreira na empresa.
Vi que os olhos azuis dela brilharam quando lhe pedi o nome do piloto… “Claro”, disse ela, assentando-se meio de lado no assento vazio. “Terei enorme prazer. Sabe que ele e eu ficamos noivos há seis meses e que vamos nos casar em Dezembro?” Fui pego de surpresa. Dei-lhe os parabéns. Ousei perguntar-lhe como o conheceu. Disse-me que foi num desses mesmos vôos entre Chicago e Tóquio. Não especulei mais. Tive enorme vontade de perguntar se os dois eram solteiros, quando se conheceram, ou se eram casados e… Mas até a indiscrição, e mesmo a curiosidade, tem seus limites. Não sou repórter de coluna social.
Para resumir: escreveu o nome do comandante, o e-mail dele (no Yahoo! — sorry, Microsoft), e, naturalmente, o nome e o e-mail dela (mulher é um bicho difícil de entender). Ele é o comandante Wayne Walczak. Ela, a Comissária de Bordo Nani Lovell. Os e-mails são informação privilegiada, que não revelo, nem em juizo…
Depois veio o primeiro prato. Salada de folhas verdes da estação, com molho de queijo parmesão, seguido de um “boursin” recheado com núcleo de alcachofras, acompanhado de salmão defumado e camarões gigantes. O prato principal, filé mignon, com pimentas vermelhas “chipotie“, e molho “demi–glacé” de mostarda. Tudo “comme il faut” (já que o menu usa vários termos estrangeiros, entro na corrente…). O vinho, para acompanhar, Château Haut-Brisey 2001 Médoc. Havia outras escolhas, mas preferi esse.
[Lamento informar que entre o primeiro prato e prato principal tive de ir ao banheiro fazer xixi… A natureza parece não conhecer as normas de bom-tom e não respeitar o clima romântico desta crônica. Eu, cronista fiel à realidade, não posso deixar de registrar o fato].
De sobremesa, “Eli’s Caramel Apple Cobbler“, acompanhado de Sandeman Founders’ Reserve Porto. “Apple Cobbler” é nome sofisticado para a nossa torta de maçã – que no sul do Brasil se chama “Apfel Strudel“. O vinho do Porto é coisa que só aos deuses deveria ser permitido. No entanto, cá estou eu, sorvendo-o…
Enfim… O que mais se pode desejar? Querem mais riqueza do que isso? Estou viajando lendo um livro interessantíssimo (Revolutionary Wealth, de Alvin Toffler), com comida de primeira, e tendo o privilégio de conviver com histórias pessoais tão interessantes… E, para culminar, tendo acesso ao meu computador Dell (Latitude X1) que me permite registrar tudo isso enquanto as coisas acontecem, sem precisar esperar até chegar ao meu destino, a querida Taipei.
Desejo ao comandante Wayne Walczak e à Comissária-Chefe de Bordo Nani Lovell uma vida feliz e longa. Eles certamente a merecem. Trabalharam na United num período difícil, em que a empresa passou de líder do mercado a concordatária — só se recuperando recentemente (quando saiu da concordata). Devem ganhar menos hoje do que ganhavam há 10 anos, em termos relativos.
Apesar de tudo, só lamento que a UNICAMP não seja a United — embora ambas as instituições tenham um nome que comece com “Uni” — e não reconheça aqueles que deram boa parte de sua vida a ela. Quando me aposentar da UNICAMP, terei de abrir mão do e-mail chaves@unicamp.br, e, se quiser colaborar com a Universidade, sem ganhar um tostão a mais, terei de me sujeitar a todo um ridículo processo de avaliação, extremamente burocrático, que ignora o fato de que já trabalhei ali por 32 anos e meio. Se servi durante 32 anos e meio, por que não iria servir agora, principalmente levando-se em conta que iria trabalhar de graça??? Não vou querer colaborar. Quanto ao e-mail, registrei o domínio unicamp.net nos Estados Unidos. Se quisesse, poderia usar o e-mail chaves@unicamp.net enquanto vivesse. Não faço questão. Prefiro continuar usando o meu eduardo@chaves.com.br. Só registrei o domínio unicamp.net para encher o saco (se bem que não saiba bem de quem). [Nota de 25.9.2022, em revisão: há algum tempo a UNICAMP alterou suas normas e eu recuperei o uso do meu e-mail chaves@unicamp.br. Uso-o normalmente agora, sempre que me convém, em especial para mostrar vínculo como uma instituição acadêmica. Por outro lado, aposentei o e-mail eduardo@chaves.com.br, porque ele recebe uma quantidade enorme de spam e de puro lixo. Uso agora os e-mails eduardo@chaves.pro, eduardo@chaves.im, e eduardo@chaves.one, dependendo da natureza da pessoa ou da instituição com que estou me comunicando. Fim da Nota.]
Se a gente estiver atento, há histórias, mesmo comédias, dramas e até algumas tragédias, ocorrendo ao nosso lado o tempo todo. Eu posso nem saber agora — mas este Boeing 747 pode cair antes de aterrissar em Tóquio daqui umas dez horas. Ele já tem idade para se aposentar. E, em decorrência, haverá várias tragédias pessois acontecendo. Haverá quem chore por mim — acredito que sim, mas até nessa questão crucial reconheço que posso estar errado.
Mais ou menos em cima do Polo Norte, em 2 de maio de 2006. [Revisado em Salto, SP, no dia 25 de Setembro de 2022.]
(PS: Meu neto Felipe completa hoje um dia inteiro de vida fora do Éden uterino). [Nota de 25.9.2002: por eu ter me separado da avó dele, a neticidade do Felipe, que é filho de meu (ex-)enteado Rodrigo, me foi confiscada. Ossos da vida. A gente come os filés mas de vez em quando depara com alguns ossos — sem nenhum tutano. Fim da Nota.]
As demonstrações dos imigrantes ilegais nos EUA
Da amizade e do amor (e, quem sabe, do sexo)
AIDS, o Grande Inquisidor e as certezas da classe médica
[Este artigo foi escrito em 1989. Até hoje não vi resposta convincente às questões que ele levanta]
É como leigo no assunto que venho tornar pública minha surpresa diante da absoluta certeza demonstrada por uma parte da classe médica de que o vírus HIV é de fato o causador da AIDS. Essa certeza parece ter se acentuado a partir do momento em que um professor alemão, radicado na Califórnia, resolveu questionar a ortodoxia dominante. “O HIV causa AIDS, sim!”, é, por exemplo, o título de um dogmatizante artigo do médico Drauzio Varella, publicado em O Estado de São Paulo de 27/04/89.
A reação à entrevista dada ao Fantástico pelo professor Peter Duesberg não se dignou sequer a levar a sério as idéias por ele externadas: partiu diretamente para argumentos “ad hominem”. Um dos médicos brasileiros que “repercutiu” (se me permitem o jargão jornalístico) a entrevista chegou quase a taxar o professor californiano de um mero “Zé Ninguém” em busca de notoriedade.
O Dr. Varella ataca somente o homem, deixando incólume a tese que este defendeu. Afirma, por exemplo, que o professor Peter Duesberg não é médico, nunca colocou mão em doente, nunca estudou o HIV em laboratório, nunca publicou no campo da AIDS. Além do mais “é nitidamente fascinado pelas câmeras”.
O Dr. Varella é forçado a reconhecer que o professor Duesberg é um Ph.D. e que andou fazendo umas pesquisas importantes na área dos retro vírus (ao qual pertence o chamado vírus da AIDS), mas sua descoberta mais importante é descrita como nada mais do que o desvendamento de “certos mistérios que envolvem a malignização de células da galinha”. C’est tout. Fini.
Contra o professor Duesberg o Dr. Varella afirma, ainda, que suas teses são desmobilizadoras, pois poderão levar muitas pessoas a não tomar tantos cuidados em relação à AIDS, e que poderão dar a impressão de que “nem os próprios cientistas sabem se a AIDS é transmitida por vírus ou não”. Contra essa impressão ele decreta: “Não existe polêmica no mundo científico: é o HIV que provoca AIDS, e ponto final”. O professor Duesberg acaba de ser colocado fora do mundo científico.
Eu, como leigo no assunto, mas razoavelmente interessado em encontrar sentido naquilo que os especialistas, reais ou auto-proclamados, afirmam, permito-me algumas considerações semi-epistêmicas sobre o assunto.
1) Parece-me um absurdo, em primeiro lugar, a utilização descarada da argumentação “ad hominem”. Tudo bem, o professor Duesberg não é médico. Mas e daí? Vamos analisar o que ele disse, não quem ele é. Afinal de contas, de vez em quando um não-médico também diz alguma coisa que faz sentido e que pode até ser verdadeira. Não me consta que os médicos detenham o monopólio do saber, nem mesmo na área restrita da medicina. Muito menos em áreas envolvendo pesquisas de ponta da biologia. O fato de não ter colocado as mãos em doentes de AIDS não desqualifica o professor Duesberg, a priori, para fazer afirmações sobre vírus, em geral, e o dito da AIDS em particular. E se o fato de supostamente “ser fascinado pelas câmeras” tornasse suas afirmações automaticamente inverídicas, não sei bem o que restaria de verdade dentro da comunidade médica, pois alguns dos defensores da ortodoxia vigente na área da AIDS no Brasil me parecem vítimas pelo menos igualmente graves da mesma fascinação, para não mencionar o encanto pelas páginas dos jornais.
2) Parece-me, porém, ainda mais absurdo criticar o professor Duesberg com base na alegação de que sua tese desmobiliza todo o esforço hoje sendo feito no sentido de reduzir a infecção pelo HIV. Ora, é isso, porventura, argumento que se apresente? Ainda que o Dr. Duesberg estivesse redondamente errado, a forma de combatê-lo seria mostrar que sua tese é falsa, não apelar para o seu potencial desmobilizador. Afinal de contas, o próprio professor Duesberg deixou claro, no Fantástico, para quem quis ouvir, que, mesmo que ele esteja certo em relação ao HIV, a mobilização é importante, porque a síndrome que se chama de AIDS está estreitamente relacionada a hábitos ou estilos comportamentais.
Mas vou além: ainda que o professor Duesberg estivesse propondo a tese de que a forma de contrair AIDS não tem nada que ver com o HIV nem com hábitos ou estilos comportamentais, e que, portanto, toda a mobilização atual é desnecessária, ainda assim, repito, a afirmação de que sua tese é desmobilizadora em nada a invalida.
3) O Dr. Varella afirma que não teria havido “nada de mais” se o professor Duesberg tivesse restringido suas opiniões ao círculo “de sofisticada discussão acadêmica” e tivesse se limitado à “elegância do estilo científico”. O problema foi que ele levou suas idéias “aos meios de comunicação de massa”.
Essa técnica de argumentação me faz lembrar “O Grande Inquisidor”, do romance Os Irmãos Karamazov, de Dostoiewsky. Por detrás do dito, o não-dito correria mais ou menos assim: “Nós, pesquisadores e médicos, sabemos, aqui entre nós, que o professor pode ter razão. Mas não é bom divulgar isso, porque vai fazer com que os costumes do povão voltem a se deteriorar. Toda a ‘indústria da AIDS’ pode ser desmontada se o povão acreditar no que diz o professor. As empresas farmacêuticas não vão fabricar mais tantas camisinhas, nem tantos ‘kits’ de testes anti-HIV, Elisa, Western Blot, etc. E nós, os protetores dos enfermos aidéticos, vamos perder nosso acesso à tribuna da imprensa, para não falar nas consultorias e nas verbas para pesquisa, etc.”. “O Grande Inquisidor” defendia postura idêntica: é importante fazer o povão acreditar em “mentiras pias”, que nos permitem controlá-lo melhor e tê-lo à nossa mercê.
Foi com base em posturas desse tipo que muito incrédulo mandou herejes para as fogueiras na Inquisição — não porque os hereges dissessem algo de que discordassem, mas porque os hereges o diziam abertamente, em praça pública (diante das câmeras de televisão, dir-se-ia hoje).
4) Em resumo, o que é que disse o professor Duesberg? Ele disse, fundamentalmente, o seguinte:
A) Não se tem conhecimento de nenhum caso de infecção virótica que se manifeste sete ou oito anos depois de a pessoa haver contraído o vírus e após ter desenvolvido os anti-corpos a esse vírus. As infecções viróticas geralmente se manifestam logo após o vírus ter sido contraído.
B) As pessoas que contraem o HIV, segundo a evidência disponível, desenvolvem anti-corpos (na verdade os testes verificam a presença não do vírus em si, mas de anti-corpos a ele), e ficam sem manifestação alguma da doença por vários anos — sete a oito, em média. Pode até dar-se o caso de algumas pessoas terem contraído o vírus e nunca virem a ter manifestação alguma da doença.
C) Esse fato, em si, é indicativo de que a causa da doença não é a presença do vírus no organismo. Este já foi tornado ineficaz, como demonstra a presença dos anti-corpos. Daqui a vinte anos, afirmou o professor Duesberg, a comunidade científica vai rir de quem um dia afirmou que um vírus contraído oito anos antes, e cuja ação já foi tornada ineficaz, pudesse ainda causar uma doença e, finalmente, a morte de uma pessoa.
D) O professor Duesberg afirmou que o que é hoje chamado de AIDS é uma síndrome de doenças, que possuem manifestações diferenciadas e provavelmente etiologias diferentes, dependendo dos grupos de comportamento de risco das pessoas que as contraem: homossexuais, viciados em drogas, etc. Mais perigoso para a saúde (inclusive imunológica) da pessoa é sua promiscuidade sexual, o conteúdo de suas seringas, do que ser homossexual ou usar agulha contaminada.
E) Afirmou, por fim, o professor Duesberg que remédios, como o AZT, que estão sendo utilizados contra a AIDS, em função da visão dominante quanto à sua etiologia, estão causando mais mal do que bem e que na verdade podem estar realmente matando os pacientes.
5) São essas afirmações que eu, como leigo neste assunto, gostaria de ver discutidas pela classe médica. E gostaria de ver argumentos reais, e não meros “argumentos” de autoridade. Para mim, dizer que fulano de tal, prêmio Nobel, ou diretor de um famoso hospital, não concorda com o professor Duesberg, não significa nada: quero ver alguém refutando as afirmações do professor. Seria pedir demais à classe médica?
E não adianta simplesmente reiterar a verdade recebida, dizendo, “O HIV causa AIDS, sim!”, por mais pontos de exclamação que possam ser colocados após o “sim”, nem dizer, como disse um outro entrevistado do Fantástico, que é um pesquisador contra 50.000. O problema não é de aritmética nem se resolve no voto.
Alguém se habilita a realmente responder ao professor de Berkeley?
Em Salto, 29 de março de 2006 (artigo escrito em 1989)
Educação, felicidade e riqueza
O questionário tinha itens como “Ajudar os alunos a dominar bem os conteúdos constantes das matérias do currículo”, “Ajudar os alunos a apreciar e valorizar as diferenças culturais”, “Ajudar os alunos a se envolver na luta por uma sociedade melhor e mais justa”, “Ajudar os alunos a adquirir hábitos constantes de aprendizagem”, “Ajudar os alunos a se preparar para o exercício de uma profissão”, etc. No total, vinte possíveis objetivos para a escola.
A tarefa dada aos alunos seria discutir, em pequenos grupos, aqueles objetivos e, depois, cada um por si, hierarquiza-los em ordem de preferência. O objetivo colocado em primeiro lugar seria aquele considerado pela pessoa como o mais importante para escola – e assim por diante. Os objetivos colocados nos últimos lugares seriam aqueles que a pessoa nem achava que devessem ser objetivos da escola. (Embora pudesse considera-los objetivos dignos da educação que tem lugar no lar, na comunidade, no trabalho, etc.).
(A segunda fase do exercício era pedir aos alunos para preencher mais uma vez o questionário agora hierarquizando os objetivos segundo, na opinião deles, as preferências dos seus professores… Depois, na terceira, pedir aos professores que preenchessem o questionário, segundo suas próprias preferências. Finalmente, na quarta, pedir aos professores que preenchessem o questionário segundo, na opinião deles, as preferências dos alunos. Depois se comparava tudo. Dava uma discussão interessante. Mas não é bem isso que eu quero focar aqui).
Durante quase trinta anos apliquei esse questionário aos meus alunos. Consistentemente os objetivos que ficaram nos dois primeiros lugares na preferência dos alunos foram “Ajudar os alunos a adquirir hábitos constantes de aprendizagem” e “Ajudar os alunos a se envolver na luta por uma sociedade melhor e mais justa”. Esses dois sempre se alternaram nos dois primeiros lugares ao longo dos anos.
Nenhuma surpresa aí.
O que me causou surpresa foram os dois objetivos que consistentemente ficaram nos dois últimos lugares na preferência dos alunos: “Ajudar os alunos a melhorar sua condição sócio-econômica e, se possível, alcançar sucesso financeiro” e “Ajudar os alunos a alcançar felicidade pessoal”. Novamente aqui, esses dois objetivos se alternaram nos dois últimos lugares, ao longo dos anos.
Isso, para mim, sempre foi fonte de grande perplexidade.
Explico por quê.
1) A educação deve promover o desenvolvimento humano. Se não nos desenvolvemos (a partir dos seres incompetentes e dependentes que somos ao nascer), morremos (a menos que alguém constantemente tome conta de nós, em cujo caso nos tornamos piores do que incompetentes e dependentes temporários: nos tornamos parasitas permanentes).
2) Isso significa que a educação deve nos preparar para a vida. A vida do ser humano, entretanto, diferentemente da vida de uma tartaruga marinha, é relativamente aberta: podemos escolher, dentro de amplos limites, o que vamos ser na vida. Em geral, essa escolha é ditada por nossos valores (aquelas coisas que nos dispomos a lutar para alcançar ou, tendo alcançado, preservar). Outra forma de dizer isso é afirmando que o que fazemos de nossa vida é ditado por nossos sonhos (nossos projetos de vida). Dinheiro (como já dizia Aristóteles) é meio: não tem valor em si, seu valor decorrendo daquilo que ele nos permite fazer (e que, sem dinheiro, não conseguiríamos). Embora se afirme que dinheiro não traz felicidade, isso só é verdadeiro no sentido de que a posse do dinheiro, em e por si só, não faz ninguém feliz. Mas é inegável que o dinheiro torna possível viabilizar muitos de nossos sonhos e torna possível, de muitas maneiras, a transformação de nossos sonhos (projetos de vida) em realidade.
3) A felicidade, a meu ver, tem muito que ver com tudo isso. Feliz, ou realizada, é a pessoa que é capaz de transformar seus sonhos (projetos de vida) em realidade. Embora isso muitas vezes seja um horizonte distante, em geral somos felizes quando conseguimos fazer progresso nessa direção, quando vemos que nossos esforços para transformar nossos sonhos (projetos de vida) em realidade estão surtindo resultados e estamos caminhando na direção daquilo que vai nos tornar felizes, ou realizados.
4) Se essa linha de raciocínio faz sentido, ajudar as pessoas a alcançar sucesso financeiro e ajudar as pessoas a alcançar felicidade pessoal deveriam ser os objetivos centrais da educação. Por que meus alunos relegaram esses dois objetivos para os últimos lugares, removendo-os do escopo da escola, é, para mim, difícil de entender.
5) Nas discussões que mantinha com eles ficava claro que a principal razão que eles tinham para remover esses objetivos educacionais do âmbito da escola era que eles imaginavam que a escola deveria se limitar a tratar de questões cognitivas ou intelectuais, deixando questões como sucesso financeiro e felicidade pessoal para o âmbito da educação que tem lugar no lar e na comunidade. Assim, defendiam-se dizendo que os objetivos poderiam até ser importantes para a educação, mas não deveriam ser incluídos no âmbito da escola: esta deveria só tratar do desenvolvimento de competências cognitivas.
6) Se, entretanto, levamos a noção dos 4 Pilares a sério, como definindo, em linhas gerais, um programa não só para a educação, mas para a escola, então teremos de virar o currículo verdadeiramente de cabeça para baixo. Não se trata simplesmente de a escola deixar de ser uma transmissora de informações e conhecimentos. Ela deve passar a se preocupar com o desenvolvimento de competências, por parte dos alunos – e não só de competências ditas cognitivas [aprender a conhecer, aprender a aprender], mas também de competências no plano dos relacionamentos, até mesmo no âmbito do casamento ou das uniões estáveis [aprender a conviver], de competências no plano dos empreendimentos [aprender a fazer, onde está a competência de alcançar sucesso financeiro], e, finalmente, de competências no plano pessoal, que inclui a imaginação, as emoções, a sensibilidade [aprender a ser].
7) Falando do aprender a ser, o que seria de nós sem a imaginação da leitura (Rebecca, Helena e Gabriela são mulheres mais reais para muitos de nós do que muitas de carne e osso), as emoções da música (Una Furtiva Lacrima, com Nana Mouskouri), as sensações geradas pela contemplação do belo (um pôr-do-sol, um beija-flor beijando a flor, ou então as belezas criadas pelo homem, a Mona Lisa no Louvre, o pensador de Rodin, mais ao lado, no Museu Rodin, a Catedral de Sacré-Coeur um pouco mais acima, em Montmartre…]. Nossa vida seria muito mais pobre se não desenvolvêssemos competências nessas áreas. [Mudem os exemplos para outros que cada um acha importante].
8) Edgar Morin disse, num tom poético, que a educação (inclusive a escolar) deve nos preparar para falar em prosa e em poesia… O falar em prosa trata dos meios, daquilo que nos permite continuar vivos, mas o falar em poesia trata dos fins, daquilo que nos permite querer continuar vivos. O primeiro, nos permite viver, mas o segundo nos dá a razão para querer viver…
9) Rubem Alves também falou, em várias de suas crônicas, que a educação (inclusive a escolar) deve nos permitir criar uma caixinha de ferramentas (tool box) e uma caixinha de brinquedos (toy box). Semelhantemente à propositura de Morin, a primeira nos permite continuar vivos (e, em grande media, nos traz dinheiro), mas é a segunda que nos dá prazer (embora muita gente aprenda a ganhar dinheiro com as coisas que lhe dão prazer).
10) Deve a escola deixar ao desabrigo o desenvolvimento dessas competências-brinquedo e se concentrar em desenvolver nossas competências-ferramenta? Deve a escola nos ajudar a aprender a falar apenas em prosa, não em poesia?
É isso – por enquanto. Se eu fosse preencher hoje o questionário que costumava dar para meus alunos (minhas alunas), colocaria nos dois primeiros lugares exatamente os dois objetivos que eles consistentemente colocaram em último…
Em Washington, 14 de março de 2006
De cães e gatos
A presente crônica é aproveitada de uma mensagem que escrevi em uma das listas de discussão que coordeno. Na mensagem, falei dos vários cães que tenho em meu sítio (“O Canto da Coruja”) aqui em Salto. Meu dileto amigo, Axel de Ferran, francês de nascimento, tio do Gil de Ferran (chefe do Rubinho Barichello) e gatófilo juramentado, protestou que eu nada houvesse dito acerca dos gatos do sítio. A mensagem é uma resposta ao Axel.
Não tenho gatos, Axel. Na verdade, não gosto de gatos – em parte, exatamente pela índole deles, que você sublinha tão bem: eles gostam de disfarçar, enganar, fazer charme… Enfim, são falsos. [Mulheres: notem, por favor, que NÃO estou concordando com o Axel que essas características os gatos compartilham com a sub-espécie feminina da espécie humana].
Como todo mundo nesta lista [e que lê este blog] sabe, defendo a tese de que nós, humanos, devemos ser egoístas, cuidar, acima de tudo, de nossa felicidade. Mas não defendo a tese de que animais de estimação devam também ser egoístas. Eles existem para causar prazer aos seus donos – o que vale dizer que existem exclusivamente para ser altruístas (o seu “alter” sendo nós, seus donos). Sua felicidade, portanto, é a nossa. Eles estão felizes quando nós estamos felizes. Ponto final. Na verdade, diria que o altruísmo é atitude que cai como uma luva em animais de estimação – e que não serve, de maneira alguma, para nós humanos (a menos que pretendamos nos rebaixar à condição de animais de estimação dos outros, que vivem, não em função de sua própria felicidade, mas do bem estar dos outros).
Gatos são egoístas. Fazem de conta que são humanos. Eles não vêm lhe fazer festa quando você está querendo festa. Eles só chegam perto de você quando ELES querem um afago. Tente afagar um gato quando ele não quer se afagado. Ele arranha você, mesmo que você seja seu dono. E se você, idiotamente, cai na deles e os afaga – mas os afaga mais do que eles querem, eles se levantam e vão embora. Sem dar satisfação. Sem sequer dizer "merci".
Se você chegar em casa numa noite fria e chuvosa, não espere que os seus gatos estejam lá no portão / na porteira, para lhe dar boas-vindas. Os gatos estarão dormindo, num bem-bom, quentinhos… Se bobear, na sua cama e com a sua mulher… Os cachorros, não… Saem de suas casinhas e vêm correndo lhe dar boas-vindas… Se um deles tentar pular em você com as patas meio sujinhas, e você der um grito horrorizado e grosseiro de "Passa!!!", ele fica meio surpreso, pensando, com seus botões: "O que será que houve com ele? Eu saí lá da minha casinha para vir festejá-lo, nesse frio e nessa chuva, e ele grita comigo, como se eu fosse um leproso?… Acho que ele teve algum problema na festa a que foi! Só pode ser". E tenta de novo… Outro "Passa!!!" Pensa que ele desiste? Não! Fica lá, com o rabinho entre as pernas, murcho – mas a carinha dele diz que, assim que você o chamar, ele vem correndo para se prostrar diante de seu amo e senhor. Afinal de contas, ele sabe que existe para faze-lo feliz. Ele sabe perdoar melhor do que um cristão — ele perdoa os gestos impensados daqueles que ele considera amigos (dos quais o mais importante É VOCÊ) – mas nunca perdoa os inimigos. Inimigos são inimigos "pour toujours", "for ever".
E se algum ladrão tentar invadir a sua casa? Ao primeiro sinal de problemas, os gatos todos desaparecem. Somem sem deixar traço. Só quando o problema acaba é que reaparecem com aquele ar de quem não sabe o que houve… "Aconteceu algum problema? Tá todo mundo com uma cara meio estressada!!!", dirá o gato-chefe-da-casa, tentando fazer uma graça para relaxar o ambiente. O cachorro, se o ladrão tenta entrar, late, rosna, mostra os dentes, corre pra lá e pra cá, pula na cerca. Se o ladrão consegue passar do portão, ele o ataca fisicamente. Se o ladrão dá um tiro de revólver na direção de alguém da família, o cachorro é capaz de pular na frente para receber a bala no lugar do familiar.
Cachorro é altruísmo puro (como é absolutamente certo quando se trata de cachorros). Diria até mesmo que o cachorro é o mais cristão dos animais: o perfeito animal sacrificial (deixa os carneiros e as ovelhas, tradicionais animais de sacrifício, quilômetros para trás, pois o cachorro se oferece voluntariamente ao sacrifício – os outros animais apenas se prestam ao sacrifício).
Por essas e outras, Axel, se aparecer algum gato por aqui, boto imediatamente carvão na churrasqueira. E abro uma garrafa de vinho francês.
[Aqui entre nós e tendo em vista o fato de que você é francês de nascimento: para acompanhar carne de gato, o vinho seria branco ou tinto?]
[ET: Dedico essa crônica à minha cachorrinha preferida, a Jul – amor recente, mas fulminante, como é o caso de quase todos amores à primeira vista. Felizmente, estou convicto de que o sentimento é “reciprocado”.]
Em Washington, 14 de março de 2006
——————–
[A seguir, uma crônica do Rubem Alves sobre assunto afim, aparentemente publicada ou a ser publicada na Folha de S. Paulo]
Sobre os Gatos
Numa tive intimidade com os gatos e sempre os olhei de longe, com desconfiança. Preconceito meu sustentado por uma estória que minha mãe contava de um gato que havia matado um padre. Hoje sei que ele não o teria feito se não tivesse razões… Os bichos que amo são os cachorros e eles me amam. Meu amor pelos cachorros se consusbstanciou num artigo que escrevi sobre minha cadela Lola, a pedido da redação da Folha. Olhando para os seus olhos que estavam fixos nos meus eu me perguntei: “O que será que ela pensa de mim?” Sobre isso escrevi.
Cães, nem sei quantos tive: Pastores, Dobbermans, Dálmatas, Boxers, Weimaraners, Cockers… Os Dobberman foram os mais obedientes; os Boxers, os mais mansos e efusivos. A Nina, cadela Dálmata foi a mais desobediente e não gostava de crianças. Era preciso trancá-la quando havia crianças em casa.
Menino, eu sonhei ter um cãozinho. Mas nunca me foi permitido ter um. Realizei o meu sonho simbolicamente: comprei um caderno de desenho dos grandes no qual fui colando fotografias de cachorros que eu recortava de revistas . Meu amor pelos cachorros assim se realizou platonicamente.
Mas nunca tive simpatia pelos gatos. Também eles nada fizeram para que eu gostasse deles. Os cachorros são comunicativos, querem fazer amigos, são dotados de um humor italiano, fazem barulho, estão sempre sorrindo com o rabo, gostam de brincar e seu único desejo é agradar os seus donos. Uma amiga enviou-me um e-mail contando da sua cadela Labrador, adolescente, chamada Lua. Pois a Lua gosta de plantas, especialmente bromélias, que ela arranca do jardim e deposita na porta da cozinha com latidos de felicidade, latidos esses que, se traduzidos, querem dizer: “Eis o presente de flores que colhi no campo para você…”
Os cães se parecem tanto com os humanos! O que já havia sido constatado por um dos nossos antigos Ministros que, inquirido sobre as razões que lhe permitiam transportar o seu cão em carro oficial, explicou: “Os cachorros também são seres humanos…”
Se isso tivesse acontecido no Egito Antigo, e um ministro fosse inquirido pelo seu uso das carruagens oficiais para transportar o seu gato, a resposta seria mais surpreendente: “Não sabe o senhor que os gatos são seres divinos?” Sim, no Egito os gatos eram deuses. Talvez algo dessa teologia tenha escorrido até nós. Pois não dizemos de uma mulher bonita “Ela é uma deusa” e, para completar, “Ela é uma gata”?
Mas comecei a mudar de idéia sobre os gatos quando minha filha me deu um gato de presente. E logo ficamos amigos, eu e o gato.
Hoje o meu médico clínico me enviou um artigo que apareceu no The New England Journal of Medicine, July 26, 2007, um dos mais respeitados periódicos das ciências médicas. Sobre um gato chamado Oscar. Oscar vive numa instituição que acolhe pessoas num estado terminal. Diariamente ele segue uma rotina. Abre os olhos preguiçosamente e põe-se a fazer aquilo a que os médicos dão o nome de visita: vai de leito em leito, sobe na cama, cheira o ar e faz o seu diagnóstico. Se não é para acontecer naquele dia ele desce e vai para o leito seguinte onde repete o procedimento. Se, por acaso, sua misteriosa sensibilidade deteta o cheiro ou as vibrações ou a música da morte, ele se aloja junto ao moribundo e a enfermeira sabe que é preciso avisar os parentes.
Isso me deixou um tanto apreensivo porque o meu gato tem insistido em dormir na minha cama e é preciso expulsa-lo fazendo uso da força. Será que ele faz isso por gostar de mim ou para que os outros avisem meus parentes?
[A crônica do Rubem Alves foi acrescentada em 3 de Junho de 2009]
