O Texto

1. Uma Tentativa de Definição

O que é um texto?

O New Oxford American Dictionary dá algumas definições, das quais seleciono estas duas:

“Texto: Um livro ou outro material escrito ou impresso, considerado do ponto de vista de seu conteúdo e não de sua forma física”

“Texto: Palavras escritas ou impressas que, tipicamente, constituem uma produção integrada”

O Webster’s Encyclopedic Unabridged Dictionary of the English Language também tem várias definições, das quais a seguinte é a que mais me interessa aqui:

“Texto: Qualquer das várias formas em que algo escrito existe”

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa esclarece:

“Texto: Conjunto das palavras escritas, em livro, folheto, documento etc.”

Creio não ser mais necessário recorrer aos dicionários. Parece haver consenso que um texto é algo — algum material — escrito. Mais precisamente, texto é um conjunto de palavras escritas que, em sua forma típica, constitui uma produção integrada ou um trabalho que, de certo modo, tem começo, meio e fim.

Essa definição do texto exclui a possibilidade de que chamemos de texto um conjunto de palavras orais, mesmo que, no restante, a definição de texto se aplique. Exclui, também, a possibilidade de que chamemos de texto um conjunto exclusivamente de imagens ou de sons — ou de imagens e sons.

O texto, assim, é algo escrito que possa ser considerado, de certo modo, um todo integrado, que tenha uma unidade intrínseca.

2. O Desafio da Classificação

Aqui temos um grande desafio.

Meu amigo Jarbas Novelino publica e divulga no Facebook, com certa regularidade, seus microcontos. Estes são textos que, em sua forma original, no Português de hoje, não têm mais de 140 caracteres, contando os espaços. (Esse limite foi originalmente imposto pelo Twitter: nada acima de 140 caracteres podia ser publicado lá. Hoje, com os chamados microlinks, o texto publicado no Twitter é truncado no limite mas o leitor pode continuar a le-lo clicando no link). O Jarbas se impõe o limite de 100 caracteres, contando os espaços. Outros são mais generosos consigo mesmos.

Eis alguns exemplos de microcontos do Jarbas (retirados de seu perfil no Facebookhttp://www.facebook.com/jarbas.novelino):

“Sua alma morreu há muitos anos, embora o corpo, bem sadio, bata o ponto diariamente na repartição.” (Autor: Jarbas Novelino; 100 caracteres cravados, contando os espaços).

“Deu lógica. Ela sabia tudo. Ele nada sabia. Hoje vivem um casamento sem qualquer verdade.” (Autor: Jarbas Novelino; 90 caracteres, contando os espaços).

“Num dia sem sol, ela se descuidou e não sabe mais onde deixou sua sombra.” (Autor: Jarbas Novelino; 75 caracteres, contando os espaços).

Eis alguns exemplos de microcontos de outros autores (retirados do site Portal dos Microcontos – http://microcontos.com.br/ ou de links ali contidos):

“Ela era corrupta. Ele ladrão. Ao final da cerimônia de casamento não jogaram arroz. Jogaram farinha. Farinha do mesmo saco.” (Autor: Senir Fernandez; 123 caracteres, contando espaços como caracteres).

“O gato dormia no tapete da sala, aproveitando a calma da casa antes de darem pela falta do peixinho no aquário.”  (Autor: Carlos Seabra; 111 caracteres, contando os espaços).

“Era a pessoa mais afável à face da terra. Estava sempre pronto a ajudar e nunca se negava a reconfortar os mais necessitados. Todos diziam que ele tinha um bom coração, excepto o seu cardiologista, depois de analisar o último electrocardiograma.” (Autor: F M B Guerreiro; 245 caracteres, contando os espaços.)

‘Bip vagaroso e compassado. Fios o ligam a máquinas. Ontem, rachas na avenida; hoje, racha na cabeça.” (Autor: Edson Rossatto; 100 caracteres cravados, contando os espaços).

Cito esses microcontos porque eles ilustram a dificuldade de classificar textos…

Há várias formas de faze-lo — como, por exemplo, levando em conta o conteúdo do texto:

  • Pessoais (cartas, diários, notas a si próprio, rascunhos de ideias…)
  • Literários (romances, contos, crônicas, poesias, agora microcontos…)
  • Acadêmicos (comentários, ensaios, resenhas, teses, dissertações…)
  • Jornalísticos (editoriais, artigos, crônicas, reportagens…)
  • Comerciais (anúncios, classificados, reclames [como ainda os chama o Faustão], comerciais, cartas…)
  • Burocráticos (editais, solicitações de proposta, comunicados, ofícios…)
  • Legais (leis, decretos, portarias, exposição de motivos…)
  • Jurídicos (petições, réplicas, tréplicas, sentenças, apelações, embargos, convocações, intimações, citações…)

Há vários “furos” nessa classificação,  que, além de tudo, é incompleta… E há outros critérios que podem ser usados para a classificação. Mas é uma tentativa. Não passa disso.

Apreciaria comentários, que podem ser dirigidos para eduardo@chaves.pro.

Próximo capítulo: As Manifestações Tangíveis do Texto

Em São Paulo, 30 de Novembro de 2012.

Vagabundagem e Bagunça

Está bom… poderia ter dado a esse post o título de “Ócio e Indisciplina”. Mas fica esse título mais escrachado…

O que segue foi tirado de um post que publiquei no Facebook no dia 15/11/2012, Dia da Proclamação da República, feriadíssimo. Estava em casa, sozinho, e escrevi (com algumas pequenas alterações editoriais):

Aproveitando o feriado, hoje não pretendo fazer nada. Nada de útil, quero dizer. Só coisa inútil, mas prazerosa. Tipo beber um bom conhaque comendo um bom queijo… E/ou ficar batendo papo no Facebook… Ou lendo revistas, ou fuçando ora num livro, ora noutro…

Otium cum dignitate.

É preciso alcançar um nível razoável de auto-controle e auto-estima para conseguir voluntária e intencionalmente vagabundear, sem ter qualquer sentimento de culpa (algo especialmente difícil dadas as minhas profundas raizes calvinistas: sempre me ensinaram que uma pessoa desocupada é uma presa fácil para o Diabo).

Por outro lado, o Alípio Casali, que foi professor da minha mulher, Paloma Epprecht Machado Campos Chaves, um dia disse em aula, num lampejo de gênio filosófico, que a inteligência não prospera sem uma forte dose de vagabundagem.

Dias depois de ouvir isso, leio numa coluna do Gilberto Dimenstein algo parecido: a criatividade não prospera exceto em ambientes com uma forte dose de bagunça e desorganização…

É isso. Pensem sobre esses fatos (e não tenho dúvida de que são fatos).

Em São Paulo, 18 de Novembro de 2012

O Leilão da Virgindade: A Culpa é do Mercado?

O artigo de fundo da VEJA desta semana é: “Será que estamos virando uma sociedade em que tudo se compra? Ela vendeu a virgindade”.

A capa tem uma moça puxando para baixo um lado da calcinha e mostrando, na virilha, um código de barras… Criativo!  Embora a foto na capa mostre apenas do pescoço até os joelhos da moça, dentro se vê que a foto é, de fato, da catarinense que colocou a virgindade em leilão (e, aparentemente, arrecadou cerca de um milhão e quinhentos mil reais pela cessão de algo que a maioria das mulheres dá de graça).

Dentro, a VEJA dedica vários artigos ao assunto, sob o título, em letras garrafais vermelhas. “NEM TUDO SE COMPRA”.

A estrela da matéria é o filósofo de Harvard Michael Sandel, que escreveu um livro O que o Dinheiro não Compra, em que procura prescrever uma ética para o mercado. Segundo ele (em entrevista à VEJA), casos como de Ingrid Megliorini (a que leiloou a  virgindade) se classificam como “aplicação da lógica do mercado” fora do mercado, isto é, em áreas da sociedade que não fazem (ou não deveriam fazer, não fica claro) parte do mercado. 

A VEJA perguntou: “Em seu livro, o senhor faz uma distinção entre economia de mercado e uma sociedade de mercado. Qual a diferença?”

A resposta dele me parece fraca:

“A economia de mercado é uma ferramenta valiosa e efetiva para organizar a atividade produtiva. Trouxe prosperidade e riqueza para diversas sociedades ao redor do mundo.”

Arre, até aí tudo bem, exceto, talvez, pelo termo “diversas”… Gostaria que Sandel me desse exemplos de sociedades que se tornaram prósperas e ricas sem a economia de mercado. Se não fornecer, continuo a presumir que as sociedades só se tornam prósperas e ricas à medida que adotam a economia de mercado.

Mas o pior está por vir.

“Uma sociedade de mercado, no entanto, é diferente. Nem tudo está à venda. É um modo de vida no qual o pensamento econômico invade esferas a que ele não pertence”.

O problema está no “pensamento econômico” – isto é, no liberalismo econômico – ou no interesse econômico das pessoas?

A tese do liberalismo econômico é que as pessoas devem ser livres para vender ou trocar  o que quer que seja que, sendo de sua propriedade, queiram vender ou trocar. E que devem ser livres para, tendo meios (recursos financeiros ou bens e serviços), comprar ou receber em troca o que quer que seja que desejam ou que lhes agrada.

Uma observação importante sobre o artigo da VEJA. O surpreendente não é, como sugere a capa e o título, que haja quem compre o direito de disvirginar uma pessoa – ou que haja quem compre o voto de um deputado ou senador. O surpreendente é que haja quem queira vender essas coisas… Se alguém está disposto a vender alguma coisa, qualquer que seja, e é flexível no preço e nas condições de venda, cedo ou tarde aparece quem queira comprar aquela coisa. O problema está na venda, não na compra.

De igual maneira, o título do livro de Sandel é mal posto. Não deveria ser “o que o dinheiro não compra”, porque o dinheiro compra qualquer coisa que esteja à venda. Seu livro estaria na direção certa se o título fosse: O que não se deve vender…

O liberalismo econômico defende a liberdade das pessoas para vender ou trocar o que quiserem e para comprar ou obter em troca o que quiserem.

Mas também defende a tese de que as pessoas devem ter princípios morais e não se dispor a vender (ou trocar) determinadas coisas, ainda que sejam legitimamente suas: sua honra, sua opinião, seu voto, seu apoio político…

As coisas citadas (honra, opinião, voto, apoio político) são, na perspectiva moral do liberalismo, coisas que não se devem vender (nem trocar) nunca. A virgindade, nessa linha, talvez não seja algo que deva ser vendido, devendo ser guardada ou dada  de graça a quem faça por merece-la. Mas vender a virgindade me parece algo muito menos grave do que vender honra, opinião ou voto. Afinal da contas, diariamente vemos gente vendendo acesso sexual ao seu corpo (mesmo que não seja um corpo sexualmente virgem) sem que muita gente se escandalize com o fato ou por ele culpe o capitalismo ou a economia de mercado. (Afinal, a prostituição, ou a venda por alguém do direito de outra pessoa aceder sexualmente ao seu corpo, existe desde que o mundo é mundo, há milhares e milhares de anos, muito antes do aparecimento do capitalismo e da economia de mercado).

O problema não está no “pensamento econômico”, no capitalismo, no liberalismo econômico. O liberalismo defende a liberdade das pessoas para dispor do que é seu da forma que preferirem. Ponto final.

O problema está no código moral das pessoas. Se alguém está disposto a vender a mãe ou o filho, a virgindade, o acesso sexual ao seu corpo, ou um órgão vital de seu corpo, o problema não está no sistema que viabiliza a transação, mas nas pessoas que fazem uso desse sistema.

Qual seria o remédio?

Acabar com o capitalismo com pretendem nossos esquerdistas de plantão? Esta é a solução socialista.

Limitar a esfera de atuação do mercado, como pretende Sandel, determinando, por lei, que algumas coisas não podem ser vendidas, trocadas, compradas ou adquiridas por troca? Esta a solução social democrata.

Ou educar as pessoas na área de valores para que aprendam a respeitar certas coisas, que são suas, sim, mas que não deveriam, por razões morais, ser vendidas ou trocadas – porque, afinal, não têm preço, como diz o bordão de um comercial? Esta a solução liberal.

Eu não tenho dúvida alguma quanto ao remédio certo.

Em São Paulo, 18 de novembro de 2012

Em Favor da Dúvida

Fuçando numa Livraria Saraiva em São Paulo ontem (3/5/2012) à noitinha, encontrei um livro cujo título me fascinou: Em Favor da Dúvida: Como Ter Convicções Sem se Tornar um Fanático (Editora Campus, 28,60 na Amazon BR). (O original é In Praise of Doubt, Em Louvor da Dúvida). Os autores são Peter Berger e Anton Zijderveld.

A tese principal do livro é de que a maior contribuição da modernidade para com a civilização não é a secularização, mas a pluralização da sociedade.

Os autores fazem uma análise fascinante da pluralidade: uma situação em que todos convivem em paz cívica e interagem significativamente uns com os outros.

Eles traçam a evolução de um modelo de civilização constituída por grupos de consenso cognitivo e normativo que, entretanto, ou viviam em conflito uns com os outros, ou coexistiam em paz, mas sem interação significativa (como as castas indianas, que convivem até pacificamente mas sem “comensalidade e conúbio”: os membros de um grupo não podem nem sequer comer juntos, quanto mais se casarem uns com os outros) para o modelo de civilização moderno, plural.

Com a urbanização, que aproximou os grupos fisicamente, a proliferação da educação escolar (que ajuda as pessoas a refletir sobre sua herança cultural e a dos outros), os meios de comunicação de massa, que revelam outras formas de pensar, outros valores, outras maneiras de viver, e, por fim, a globalização, que reduziu o tempo que se leva para ir de um espaço ao outro, a pluralidade, no sentido definido, surgiu — e, apesar de eventuais recuos, progride.

A pluralidade, em um espaço globalizado, produz a “contaminação cognitiva e normativa”: se pessoas de grupos diferentes convivem em paz e interagem, elas vão dialogar e discutir umas com as outras, e, com o tempo, podem (talvez devam) influenciar os modos de pensar, os valores e as formas de agir umas das outras. À medida que isso acontece, o outro deixa de parecer estranho — quanto mais nocivo, perverso, insano. Lentamente surge a dúvida: quem sabe se os outros não estão certos, e eu errado? Com esse modo de pensar, mesmo que não se abandonem os modos de pensar, os valores e as formas de agir de antes, sua aceitação sem questionamentos é abalada…  De uma situação em que parecíamos destinados a crer, valorizar e agir de um certo jeito, passamos a acreditar que temos escolha, que temos liberdade de pensar, de escolher nossos valores, de viver como nos aprouver…

Esse é apenas o começo do livro. Vale a pena ler. Recomendo. Principalmente para aqueles que têm dificuldade em entender como os outros podem pensar, adotar valores, e se comportar de forma tão diferente, e, aparentemente, tão sem sentido…

Fundamentalistas em geral provavelmente nem chegarão perto do livro… a menos que já tenham sido picados pela mosca azul da dúvida!

Em São Paulo, 4 de Maio de 2012

Relativismo Cultural e Moral

Achei em meus alfarrábios digitais uma série de mensagens trocadas ao longo de Agosto de 2005 nas listas Quatro Pilares e LivreMente, das quais era (ainda sou, imagino…) coordenador, sobre a questão do relativismo cultural e moral.

O que deflagrou a troca de mensagem foi um artigo sobre Violência Doméstica de autoria de Sharon Lafraniere, do New York Times, escrito em Lagos, Nigéria, e traduzido para o Português por Clara Allain e publicado na Folha de S. Paulo de 20 de Agosto de 2005.

Vou transcrever o artigo aqui e, em seguida, a troca de mensagens a que me referi, na qual estou inevitavelmente envolvido. Prefaciei a transcrição do artigo com a seguinte mensagem, admitidamente provocadora:

“Espancar mulher é norma na Africa… E os relativistas de plantão ainda continuam a afirmar que nenhuma cultura é superior — ou inferior — às outras”.

Eis o artigo:

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Folha de S. Paulo
20 de agosto de 2005

Violência Doméstica

Na região subsaariana, onde surra pode ser “pena” por desobedecer ao marido, luta por direitos engatinha: espancar mulher é norma tácita na África

Sharon Lafraniere, 
do New York Times, em Lagos (Nigéria)

Foi uma discussão típica entre marido e mulher. Ela queria visitar seus pais, ele queria que ela ficasse em casa.

Eles resolveram a disputa de uma maneira típica — para algumas pessoas que vivem neste país, típica demais. Rosalynn Isimeto-Osibuamhe recorda o incidente, que aconteceu em dezembro de 2001. Seu marido, Emmanuel, a seguiu até a rua. Ele a espancou até ela desmaiar e então a deixou jogada na rua, perto do apartamento deles. A senhora Isimeto-Osibuamhe, que tinha 31 anos e estava casada havia cinco anos, havia ousado desobedecer a uma regra não escrita vigente nessa região do mundo: havia desafiado seu marido.

Pesquisas conduzidas em toda a África subsaariana indicam que muitos homens — e também muitas mulheres — vêem uma desobediência desse tipo como algo que justifica plenamente um espancamento.

Mas Rosalynn Isimeto-Osibuamhe, que possui diploma universitário e é fundadora de uma escola de ensino de francês, não concordava com esse padrão de violência doméstica tacitamente aceito na região.

Assim que voltou do hospital, ela fez as malas e deixou sua casa. Embora sua determinação nem sempre se mantenha firme e ela ainda não tenha se decidido pelo divórcio, ela ainda não retornou.

Em entrevista concedida diante de sua sala de aula de francês, Isimeto-Osibuamhe explicou: “Ele acha que não tenho direitos próprios. Se eu digo “não”, ele me bate. Eu falo: “Não é isso o que eu quero da vida'”.

A violência é algo que atinge as mulheres de todas as sociedades. Mas existem poucas regiões em que os abusos são mais comuns e mais largamente aceitos como tais do que a África subsaariana.

De acordo com o estudo mais recente, conduzido em 1993, uma em cada três mulheres nigerianas relatou ter sido fisicamente agredida por um parceiro homem. A mulher do vice-governador de uma Província do norte da Nigéria disse a jornalistas no ano passado que seu marido bate nela constantemente, em parte porque ela assiste a filmes na televisão.

Uma das indicadas do presidente Olusegun Obasanjo — que dirige o país desde 1999 — para integrar uma comissão nacional de combate à corrupção teria sido morta por seu marido em 2000, apenas dois dias depois de ter pedido proteção ao comissário estatal de polícia.

Obong Rita Akpan, que até o mês passado foi a ministra nigeriana dos Assuntos Femininos, declarou, em entrevista, que na Nigéria “é comum as mulheres serem tratadas por seus maridos como sacos de pancada”.

“O homem nigeriano acredita que a mulher é inferior a ele. Desde a primeira infância, os meninos têm preferência sobre as meninas. Mesmo quando os homens se casam por amor, eles ainda pensam que a mulher está abaixo deles e ainda fazem o que bem entendem”, completou Obong Akpan.

Numa pesquisa conduzida em Zâmbia em 2004 — e financiada com recursos dos EUA — quase metade das mulheres que foram entrevistadas disse ter sido espancada por seu marido ou parceiro. Trata-se da mais alta porcentagem entre nove países em desenvolvimento, em três continentes, abarcados na pesquisa.

Na África do Sul, pesquisadores do Conselho de Pesquisas Médicas estimaram no ano passado que, em média, uma namorada ou mulher é assassinada por seu parceiro a cada seis horas. Seria o maior índice de mortalidade resultante de violência doméstica jamais constatado. Um relatório das Nações Unidas concluiu no ano passado que na capital do Zimbábue, Harare, a violência doméstica é responsável por mais de seis em cada dez casos de homicídio julgados nos tribunais.

Apesar disso, segundo as organizações de defesa dos direitos das mulheres, a maioria das mulheres mantém silêncio sobre os abusos que sofre.

Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) constatou que mais de um terço das mulheres da Namíbia relata sofrer ou ter sofrido abusos sexuais ou físicos de um parceiro homem, uma violência que muitas vezes resulta em ferimentos físicos. No entanto, seis em cada sete vítimas ou mantêm silêncio sobre os maus-tratos ou revela o que aconteceu apenas a uma amiga ou a um parente.

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Ela teve pais progressistas pelos padrões nigerianos: seu pai batia em sua mãe de vez em quando, mas também incentivou sua filha a concluir seus estudos e a trabalhar

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O motorista Kenny Adebayo não tem dúvida: “Você fala para sua mulher que ela põe muito sal na comida; todo dia a comida está salgada, todo dia; um dia você fica sentido e bate nela”

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Conta que, desde que saiu de casa, seu marido já lhe bateu uma dúzia de vezes; em uma dessas vezes, a derrubou no chão da igreja; ela se angustia, pois não sabe se ele pode mudar

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Normalmente não é fácil encontrar ajuda. Na Nigéria, o maior país africano — cuja população já se aproxima dos 130 milhões de habitantes –, existem apenas dois abrigos para mulheres que são vítimas de maus-tratos. Os dois foram abertos nos últimos quatro anos. Nos Estados Unidos, em contraste, existem cerca de 1.200 abrigos desse tipo. Além disso, muitas mulheres concordam que as transgressões de uma mulher casada justificam que o marido a espanque.

Cerca de metade das mulheres entrevistadas em Zâmbia em 2001 e 2002 disse que o marido tem o direito de bater em uma mulher que discute com ele, que queima a comida, sai sem a autorização do marido, não cuida bem dos filhos ou simplesmente se nega a fazer sexo com o marido.

Para o motorista Kenny Adebayo, 30, em Lagos, não há dúvidas. “Você fala para sua mulher que ela põe sal demais na comida. Todo dia a comida está salgada demais, todo dia, todo dia. Um dia você fica sentido e bate nela. Nós, homens africanos, odiamos ser desrespeitados.”

O código penal nigeriano que está em vigor no norte do país — onde a maioria dos habitantes professa a religião muçulmana — permite especificamente aos maridos disciplinar suas mulheres, como também autoriza que pais e professores disciplinem as crianças, desde que não lhes causem danos físicos graves.

As leis relativas à agressão física poderiam ser aplicadas, mas a polícia normalmente vê o espancamento de mulheres como exceção. Leis para punir a violência doméstica foram propostas em seis das 36 Províncias nigerianas, mas foram adotadas em apenas duas delas — o equivalente a 5% de todas as regiões administrativas do país.

As ativistas que militam na defesa dos direitos das mulheres dizem que a onipresença dos maus-tratos é um sintoma do baixo status da mulher na África subsaariana. Nessa região, as mulheres costumam ter nível de instrução inferior ao dos homens, trabalham mais horas por dia. Além disso, carregam três vezes mais peso do que os homens, transportando lenha, água e sacos de milho sobre a cabeça.

Rosalynn Isimeto-Osibuamhe não se enquadra nesse perfil padronizado. Bem falante, ostentando um corte de cabelo moderno e carregando um livro de sociologia na bolsa, ela fala em tom de voz confiante. Sua agenda é cheia de planos para os diversos projetos que ela quer empreender. “Sou uma organizadora”, afirma ela, em uma série de entrevistas. “Sou uma líder.”

Mas esse aspecto peculiar de sua formação em relação à média das mulheres de seu país não a poupou de ser espancada interminavelmente durante os oito anos que durou, de fato, seu casamento com seu marido, Emmanuel. Isimeto-Osibuamhe teve pais progressistas pelos padrões nigerianos. Seu pai batia em sua mãe de vez em quando, mas também incentivou sua filha, a mais velha dos sete filhos do casal, a concluir seus estudos e, mais tarde, a trabalhar como executiva de marketing, professora de francês e apresentadora de um programa de TV educativo em francês.

Ela tinha apenas 16 anos quando conheceu Emmanuel. Como ela, ele se formou na universidade, tornando-se contador. Esbelto e bonito, ele a estapeou apenas uma vez durante os anos de namoro deles. Isimeto-Osibuamhe achou que tinha sido um deslize, uma aberração.

Mas não foi. Hoje com 35 anos, Isimeto-Osibuamhe afirma que, desde que eles se casaram, em 1997, Emmanuel a espancou mais de 60 vezes. Ele a espancou quando ela estava grávida do filho deles, que hoje tem 6 anos. Ele atirou uma lanterna nela. Em outra ocasião, ela contou, ele segurou uma faca contra sua cabeça, enquanto um amigo implorava para que não a matasse.

Emmanuel Osibuamhe, 36, hoje afirma ter errado ao bater em sua mulher. Entretanto, durante as duas horas de entrevista que concedeu, em seu escritório, ele insistiu que Rosalynn o conduziu a isso ao provocá-lo propositadamente. Caminhando de um lado a outro da sala, ele foi ficando cada vez mais agitado, recordando como sua mulher, nas suas palavras, desafiava a sua autoridade.

“Você não pode se imaginar batendo em sua mulher?”, perguntou. “Não pode se imaginar sendo levado a esse ponto? Mas há pessoas que empurram a gente para além do que a gente é capaz de suportar. Aí você se vê fazendo coisas que não devia. Pelo amor de Deus! Você é o homem, é o chefe da casa. Você precisa ter uma família que lhe obedeça.”

Para Emmanuel Osibuamhe, isso significa aceitar que ele é o chefe da família e é quem toma as decisões finais. Também significa que todos os bens devem estar em seu nome e, afirmou, que sua mulher tem de pedir a sua autorização para poder visitar a família dela.

Quando Isimeto-Osibuamhe finalmente procurou ajuda, as pessoas que ela procurou pareciam concordar com a visão de seu marido. Ela foi à polícia. “Me disseram que não sou menininha”, ela lembrou. “Se eu não quisesse continuar casada, deveria me divorciar”, foi outro argumento que afirma ter ouvido.

Ela contou a seu sogro, que lhe respondeu que “espancar a mulher é normal”. Ela contou ao pastor da igreja, que a aconselhou a não deixar seu marido tão irritado. “Ele me disse que, seja o que fosse que meu marido dissesse, deveria aceitar.”

Isimeto-Osibuamhe finalmente encontrou apoio no Projeto Alerta para a Violência contra as Mulheres, a organização sem fins lucrativos que mantém um dos dois abrigos nigerianos. Ela passou semanas no abrigo. Escreveu um relato detalhando a violência que sofreu e o intitulou “Um grito de socorro”.

Briget Osekwe, responsável pelo programa da organização, disse que os arquivos do grupo contêm 200 casos como os de Isimeto-Osibuamhe. Mesmo algumas mulheres que são economicamente independentes, como Isimeto-Osibuamhe, disse ela, hesitam em divorciar-se de seus maridos, por temerem ser alvos de repúdio social.

“Nesta sociedade uma mulher precisa fazer tudo o que pode para fazer seu casamento dar certo”, disse Josephine Effah-Chukwuma, que criou o Projeto Alerta em 1999. “Se o casamento fracassa, a culpa cai sobre a mulher.”

Isimeto-Osibuamhe conta que, desde que saiu de casa, seu marido já lhe bateu uma dúzia de vezes. Em uma dessas vezes, a derrubou no chão da igreja. Ela se angustia porque não sabe dizer se é possível que ele mude. Ela se preocupa em saber como vai criar seu filho, que hoje vive com os avós, no caso de se divorciar. “Será que eu deveria ficar em casa por causa do menino, correndo o risco de ser morta?”, indagou. Em outro momento, porém, ela pediu à repórter que não deixasse de colocar seu sobrenome ligado ao do marido.

Isimeto-Osibuamhe encontrou uma nova maneira de extravasar seus sentimentos, criando e apresentando um programa justamente sobre violência doméstica na televisão local.

Ela conta que, depois do primeiro dia em que o programa foi ao ar, recebeu uma enxurrada de telefonemas de mulheres em situação semelhante à dela. Ela espera defender a causa dessas mulheres através de uma fundação que criou, chamada Família Feliz.

“O homem africano acha que sua mulher é um bem que lhe pertence, como um carro, um sapato — algo que ele pode pisotear”, disse Isimeto-Osibuamhe.

“Nossos homens precisam ser educados. Nossos pais, nossas mães e nossos filhos, também. Toda a nossa sociedade precisa passar por uma reforma.”

(Tradução de Clara Allain)

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O meu comentário provocador recebeu a seguinte resposta de alguém chamada Darlana, de algo chamado PET Educação, da UnB:

“O homem nigeriano acredita que a mulher é inferior a ele. Desde a primeira infância, os meninos têm preferência sobre as meninas. Mesmo quando os homens se casam por amor, eles ainda pensam que a mulher está abaixo deles e ainda fazem o que bem entendem”, completou Obong Akpan.

Considerar inferior o que é diferente é o que causa este tipo de relação….

Darlana
PET Educação UnB”

Respondi assim:

“Darlana:

(Presumo que esse nome seja de uma mulher)

O indivíduo não bate na mulher porque ele acha que ela é inferior a ele: bate porque acha que é dono dela.

Se você for para a África, se casar com um africano desses, e ele lhe descer o sarrafo diariamente, por motivos como o que a comida que você fez ficou um pouco salgada, espero que continue ainda achando as culturas todas iguais. E boa sorte. Espero que sobreviva. Vai precisar da sorte que lhe desejo.

–Eduardo”

Darlana retorquiu:

“Quem disse que ele batia na mulher por considera-la inferior foi o entrevistado da materia que você enviou…não fui eu…

E ainda acredito que essa postura de rotular as pessoas como superior e inferior é muito prejudicial a bons relacionamentos. Minha bisavó apanhou muito de meu bisavô por causa da comida mal feita… Meu marido lava, passa cozinha e limpa casa… Os tempos mudam… As pessoas mudam… Mas não me considero superior a minha bisavó… Apenas diferente.

Darlana”

Eu respondi:

“Darlana,

Se você olhar lá embaixo nesta série de mensagens, o que eu falei foi:

“E os relativistas de plantão continuam a afirmar que nenhuma cultura superior — ou inferior — às outras”.

Em nenhum momento falei que pessoas são superiores umas as outras.

Mas já que você mencionou, há um aspecto básico em que todos os seres humanos são iguais: em sua humanidade e na dignidade de que ela é merecedora — até que o ser humano se animalize.

Feita essa marcação de posição em favor de uma igualdade em dignidade, em tudo o mais os seres humanos diferem um dos outros e são superiores e inferiores uns aos outros. O Robinho é superior a mim quando se trata de jogar futebol. Eu sou superior a ele no que diz respeito a conhecimento filosófico. O Marcelo Anthony é superior a mim em aparência física (seja lá como ela for definida), o Cafu em resistência física (seja lá como ela for definida), o Gustavo Borges em altura e em capacidade natativa (se posso usar essa expressão). Negar essas coisas é afrontar a realidade.

Lastimo que sua bisavó tenha apanhado de seu bisavô por comida mal-feita. Provavelmente muitas mulheres apanhavam assim naquele tempo. E você tem sorte de viver em uma cultura em que os maridos se dispõem a lavar, passar, cozinhar e limpar a casa. Minha pergunta era: você prefere viver numa cultura como aquela em que sua bisavó vivia (ou em que as mulheres africanas vivem) ou em uma cultura como a nossa (apesar de também ter vários defeitos). Se você fizer a opção que eu imagino que você fará, você a fará porque nossa cultura, em que maridos (alguns, pelo menos) ajudam suas mulheres nos afazeres domésticos em vez de bater nelas por não realizarem esses afazeres de forma bem-feita, é superior à cultura em que vivia sua bisavó (e em que vivem as mulheres africanas).

Foi só isso que eu disse. Cuide bem de seu marido. Ele merece.

–Eduardo”

Um outro membro da lista, chamado Roberto, da Universidade Federal da Bahia, interveio na discussão:

“Eduardo, Darlana,

Os absolutistas de plantão costumam afirmar que há culturas superiores e inferiores. Esse é o primeiro passo que permite julgar culturas, estabelecer um etnocentrismo que posterioremente justifica a intervenção em cultura de outros e, historicamente chegar até geonocídio. Foi o que aconteceu com os nazistas e pode acontecer conosco, vide mais abaixo o livro de leitura sugerido.

Eduardo: Robinho não é superior a você ao jogar futebol. Robinho tem uma habilidade superior a sua em algumas maneiras (pode ser quase todas) de jogar futebol. Você é muito mais que alguém que joga futebol. É importante não confundir as coisas.

Se pegarmos isoladamente, a nossa cultura permite o espancamento de crianças, ou chantagens emocionais para educação. Parte dos nossos índios brasileiros têm uma paciência extraordinária e nunca espancam crinaças. Logo eles tem uma cultura superior a nossa. Pegar traços isolados de uma cultura e querer com outra é falacioso.

Por fim leiam o livro “Cobaias Humanas – A História Secreta do Sofrimento Provocado em Nome da Ciência” de Andrew Golistzek, Ediouro, 2004, 534p.

Trata de inúmeros experiências efetuadas por cientistas e agentes oficiais dos governos (inclusive americano) sobre seres humanos. A quantidade de casos documentados é enorme. Apesar do título ser a história SECRETA, pode ser considerada como aberta, vez que, muitas das experiências dos cientistas foram publicadas em periódicos internacionais e lidos por seus pares. O autor é professor da Universidade Estadual A&T da Carolina do Norte, EE.UU.

Depois de ler esse livro acho muito difícil alguém ainda pensar em superioridade cultural.

Abraços,

Roberto”

A esse e-mail eu respondi com as seguintes considerações (esclarecendo que Axel era ainda um outro membro da lista que também interveio na discussão, concordando comigo).

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“Roberto e Darlana:

Minha mensagem é longa e, por vezes pode parecer pedante e condescendente. Como dizia Groucho Marx, não se enganem: ela É isso… Quem ler daqui em diante saiba disso. Se se irritar, lembre-se de que foi advertido antes…

A mensagem discutirá três grandes questões: a questão do relativismo vs absolutismo na discussão de culturas, a questão da natureza e da forma da discussão racional, e a questão da natureza da cultura e o problema dos valores. E terminará com duas conclusões.

Vamos, portanto, por partes.

I) A Questão do Relativismo vs Absolutismo na Discussão de Culturas

Acho gozado…

O Roberto parece ser contra o que se poderia chamar de absolutismo — pelo menos é o que se depreende de sua referência, em tom pejorativo, aos “absolutistas de plantão” na discussão da prática cultural que deu início à discussão, a saber, o espancamento de mulheres, que, segundo matéria jornalística transcrita, é a norma na África.

No entanto, se eu sou absolutista, o Roberto também o é, e com maior razão, como procurarei argumentar nesta seção.

Vejamos.

Eu afirmo (e o Axel endossa) o seguinte enunciado: “Há culturas que são superiores a outras”.

Esse enunciado não é universal: ele é claramente particular (e afirmativo). Analisado logicamente ele é do tipo “Algum x é y” e quer dizer, simplesmente, aquilo que de fato diz, que “há culturas que são superiores a outras”.

Pode ser que essa afirmação seja absolutista. Eu não acho que seja e estou disposto a mostrá-lo, eventualmente, em outra mensagem, mas não vou fazê-lo aqui, para não complicar desnecessariamente uma discussão em si já complicada.

Advirto neste ponto que há em lógica algo chamado de “quadrado das contradições”, que vou pressupor nos parágrafos que seguem.

A negação lógica (por contrariedade) do enunciado particular afirmativo expresso por mim e pelo Axel (“Há culturas que são superiores a outras”) é feita por um enunciado particular negativo do tipo “Algum x não é y”: “Há culturas que não são superiores a outras”. A negação (por contrariedade) daquilo que eu afirmei se contém, portanto, na afirmação de que há culturas que são iguais a outras — afirmação a meu ver incontroversa e, de resto, totalmente chocha. Estou convicto de que, como o meu enunciado original, esse enunciado particular negativo que o nega (por contrariedade) também não é absolutista, mas não vou brigar por isso agora.

Uma coisa porém é evidente. Para contestar o que eu afirmei, não basta ao Roberto negar (por contrariedade) o que eu disse: ele precisa contradizer o que eu afirmei.

A contradição lógica de um enunciado do tipo “Algum x é y”, particular afirmativo, como o que eu fiz, se expressa em um enunciado universal negativo, do tipo “Nenhum x é y”.

Há uma diferença ENORME entre a condição de negação (por contrariedade) e a condição de contraditoriedade. Por exemplo: Os enunciados dos tipos “Algum x é y” e “Algum x não é y” podem ser ambos verdadeiros com uma substituição coerente de x e y. No entanto, os enunciados dos tipos “Algum x é y” e “Nenhum x é y” são podem ser ambos verdadeiros com uma substituição coerente de x e y: se um é verdadeiro, o outro é necessariamente falso (e vice-versa).

É por isso que, para me contradizer, o Roberto é forçado a fazer uma afirmação claramente universal e negativa: “Nenhuma cultura é superior a outra”.

Eu afirmo: “Há culturas que são superiores a outras”. O Roberto afirma: “Nenhuma cultura é superior a outra”. Qual desses dois enunciados, pergunto, é absolutista? Não tenho a menor dúvida de que é o segundo.

Ainda que se conceda, “ad argumentandum”, que o meu enunciado, particular e afirmativo, também seja absolutista, o do Roberto, universal e negativo, é claramente mais absolutista (por abranger todas as culturas). (Pessoalmente, e em coerência com minha tese, não defendida aqui, de que o primeiro desses dois enunciados não é absolutista, acredito que o “absolutismo” seja parecido com a gravidez: ou se está grávida ou não se está grávida, não há gradações — embora, no dia-a-dia, digamos que fulana está mais grávida do que sicrana se estiver grávida há mais tempo, ou se sua barriga estiver maior, coisas assim.)

E aqui está o que acho gozado nessa discussão: a afirmação que o Roberto se vê obrigado a fazer, nessa disputa, é universal e absoluta, enquanto a afirmação que me é suficiente não precisa sê-lo, bastando ser particular. (Como disse, se o Roberto pretender sustentar que minha afirmação original é absolutista, concedo, apenas “ad argumentandum”, mas daí sou forçado a recorrer à tese de que há gradações no absolutismo, e que a afirmação do Roberto é mais absolutista do que a minha. Em suma: neste caso, estaríamos os dois brigando como se fôssemos irmãos, apenas para determinar quem é mais absolutista do que o outro! O Axel certamente conhece a brincadeira do “qui pisse le plus loin”).

Não estou entre os que sustentam a tese de que na Bahia tudo é possível. Logo, não acredito que a Universidade Federal da Bahia tenha abolido a lógica sem que eu houvesse ficado sabendo. Se isso é verdade, no entanto, o Roberto é absolutista, “malgré soi”.

II) A Questão da Natureza e da Forma da Discussão Racional

Passo a discutir uma outra questão, relacionada a esta que venho discutindo, e relevante para ela.

O Axel é meio implicado contra o Popper, mas a grande contribuição de Popper é que ele deixou claro que o método de discussão racional é hipotético-dedutivo. Esse método inclui, como um caso particular, o chamado método científico.

Os enunciados gerais da ciência (teorias e leis) são tipicamente universais, do tipo “Todo x é y” e “Nenhum x é y”. Esses dois tipos de enunciados implicam, lógica e necessariamente, estes dois tipos de enunciados, respectivamente: “Algum x é y” e “Algum x não é y”.

(Parêntese. Saiamos da abstração e caiamos na concretude. O enunciado universal afirmativo “Todo brasileiro é cordial” implica o enunciado particular afirmativo “Algum brasileiro é cordial”. Se o primeiro é verdadeiro, o segundo necessariamente também é — embora a recíproca claramente não se aplique — e se o segundo é falso, o primeiro necessariamente também é — embora a recíproca claramente também não se aplique aqui. O enunciado universal negativo “Nenhum brasileiro é cordial” implica o enunciado particular negativo, “Algum brasileiro não é cordial”. Novamente, se o primeiro é verdadeiro, o segundo necessariamente também é — embora a recíproca claramente não se aplique — e se o segundo é falso, o primeiro necessariamente também é — embora a recíproca claramente também não se aplique aqui. Fim de parêntese.)

Um enunciado universal afirmativo, no entanto, é contraditado por um enunciado particular negativo, e um enunciado universal negativo é contraditado por um enunciado particular afirmativo. Neste caso, se um é verdadeiro o outro é falso e se um é falso o outro é verdadeiro — e vice-versa.

(Outro parêntese. O enunciado universal afirmativo “Todo brasileiro é cordial” é contraditado pelo enunciado particular negativo “Algum [pelo menos um] brasileiro não é cordial”. Isto é: se eu encontrar um brasileiro só que não seja cordial, eu refuto a afirmação de que todos são. Por seu lado, o enunciado universal negativo “Nenhum brasileiro é cordial” é contraditado pelo enunciado particular afirmativo “Algum [pelo menos um] brasileiro é cordial”. Isto é: se eu encontrar um brasileiro só que seja cordial, eu refuto a afirmação de que nenhum é. E vice-versa. Fim do parêntese.)

Voltando a Popper, a forma de argumentar que sustenta a discussão racional, inclusive (mas não exclusivamente) na ciência, nos leva a buscar enunciados particulares (afirmativos ou negativos) que refutem enunciados universais (negativos e positivos).

A tese que os chamados relativistas culturais defendem, curiosamente (como vimos), é uma tese universal negativa — que, como tal, tem caráter absolutista: “Nenhuma cultura é superior à outra”.

Para contraditar, e, conseqüentemente, refutar, essa tese, basta achar uma cultura que seja superior a outra. Uminha só. Ainda que seja num só aspecto ou em relação a um só traço — “et ceteris paribus”, isto é, outras coisas sendo iguais.

III) A Questão da Natureza da Cultura e o Problema dos Valores

Em sua mensagem o Roberto afirma algo que gostaria de contestar em parte. Diz ele:

“Pegar traços isolados de uma cultura e querer [comparar] com outra é falacioso”. (A palavra em colchetes faltou na mensagem dele, mas acho que se pode presumi-la).

Concordaria plenamento com o Roberto se a afirmação dele fosse que é falacioso pegar um traço isolado e, a partir dele, generalizar. Mas essa afirmação (que não é a que ele fez), embora verdadeira, não é relevante aqui.

Não usei o relato de espancamento de mulheres na África para, a partir dele, generalizar, afirmando (por exemplo) que todas as culturas africanas aceitam o espancamento de mulheres como norma.

Quando transcrevi o relato de que na África o espancamento de mulheres é norma, e acrescentei meu comentário de que, apesar disso, “os relativistas de plantão continuam a afirmar que nenhuma cultura é superior — ou inferior — às outras”, estava afirmando, implicitamente, apenas o seguinte:

* Há culturas em que o espancamento de mulheres (por motivos até triviais, como o fato de que a comida ficou salgada demais) é considerado normal;

* Há culturas em que o espancamento de mulheres (por qualquer motivo, até mesmo a traição conjugal) é considerado inadmissível;

* Uma cultura do primeiro tipo é claramente diferente de uma cultura do segundo tipo, ainda que em todos os demais aspectos sejam idênticas;

* Uma cultura do primeiro tipo é não só diferente: é inferior a uma cultura do segundo tipo, em relação a esse aspecto específico (ainda que sejam idênticas em todos os demais aspectos, ou ainda que haja outros aspectos, não focados na discussão, em que a cultura do primeiro tipo de cultura seja superior);

* Logo, há culturas que não só são diferentes mas que são superiores ou inferiores a outras (em relação a determinados aspectos);

* Logo, a tese universal negativa do relativismo cultural, de que nenhuma cultura é superior a outra, está refutada, pois encontramos pelo menos um exemplo de uma cultura que é superior a outra — evidentemente, no aspecto em discussão.

A Darlana respondeu à minha mensagem original afirmando que eu estava considerando como inferior apenas o que era diferente. Em minha resposta a ela, procurei mostrar que, mesmo segundo os valores DELA, uma cultura que não aprova e considera normal o espancamento de mulheres é não só diferente, mas superior a uma que aprova e considera normal esse tipo de prática.

Há três questões importantes que merecem ser mencionadas para que esta mensagem seja encerrada — permitindo que a discussão continue.

Primeiro, a complexidade dos traços que incluímos no termo “cultura” é enorme. Tudo o que é feito pelo homem, e, portanto, não é natural, é parte da cultura, no sentido mais amplo do termo. Logo, a quantidade de traços envolvidos ao se falar em uma determinada cultura é inacreditavelmente grande. Ao se comparar uma cultura com outra, é literalmente impossível comparar todos os traços de uma com todos os traços da outra.

Na verdade, se tentarmos falar de uma cultura específica, não em termos de traços essenciais e característicos, mas em termos da totalidade dos traços que definiriam uma cultura, nos perderemos. Se pensarmos na totalidade dos traços, não existe uma cultura ocidental ou européia ou mesmo uma cultura brasileira, pois há traços em que a cultura francesa claramente difere da alemã e da inglesa como há traços em que a cultura gaúcha difere da cultura do sertanejo nordestino no Brasil.

Por isso, quando falamos em cultura, qualificando o termo com um adjetivo que se refere a uma região geográfica, estamos em geral pensando em algumas de suas características que nos parecem essenciais — não na totalidade dos traços que definiriam aquela cultura.

Segundo, quando falamos de relativismo cultural não queremos, portanto, focar traços como, por exemplo, o fato de que no Japão se escreve da direita para a esquerda enquanto nós escrevemos da esquerda para a direita. O que queremos focar, ao discutir essas questões, são valores — valores morais, em especial, questões relativas a condutas que consideramos moralmente certas, e, portanto, louváveis, e condutas que consideramos moralmente erradas, e, portanto, condenáveis ou censuráveis. São essas questões que são importantes.

Terceiro, mesmo em relação aos valores morais, cada cultura apresenta uma variedade tão surpreendente que torna impossível abranger, num determinado momento, todos os seus valores morais (aqui entendidos como traços culturais). Assim sendo, comparamos duas ou mais culturas em relação a determinados valores ou conjuntos de valores — como, por exemplo, sua relação para com as mulheres, ou para com as crianças, ou para com os velhos, etc. Ao concluir que uma cultura é superior ou inferior a outra, em relação a determinado valor ou conjunto de valores, não se está fazendo uma avaliação geral de todos os traços culturais das respectivas culturas, nem mesmo de todos os valores morais.

Assim sendo, o fato, se é fato, de que a cultura dos índios brasileiros não aprova o espancamento de crianças, trazido à baila pelo Roberto, curiosamente só mostra que a cultura indígena, nesse aspecto, é superior a outras culturas que aprovam esse espancamento — tese que é contrária àquela que ele pretende estar defendendo. Não tem nada que ver com a questão que estava sendo discutida, que era o de que as culturas africanas que consideram normal o espancamento de mulheres estão erradas, do ponto de vista moral, e, por isso, merecem censura e condenação, e que esse fato as torna, nesse aspecto, inferior a culturas que não consideram essa prática normal. Idem sobre a clitoridectomia (remoção do clitóris) e a infibulação (costura da vagina). (Quem tem dúvida sobre o sentido desses dois termos, procure no Google “clitoridectomy” e “infibulation” e veja as descrições, os gráficos e as fotos. É preciso ter estômago).

IV) Conclusão

Em nenhum momento afirmei que a cultura européia ou ocidental no seu todo, isto é, na totalidade dos seus traços, fosse superior à totalidade dos traços de outras culturas. Afirmar algo assim seria temerário e irresponsável. O que chamamos de cultura européia ou ocidental é tão abrangente e complexo que nem sequer conseguimos conhecer e descrever todos esses traços. Além disso, em relação aos poucos traços que conhecemos melhor, há muita divergência, de modo a permitir que falemos de várias culturas que compartilham alguns traços essenciais. O fato de a cultura européia ou ocidental ter traços que são comprovadamente superiores a traços de outras culturas não exclui o fato de que ela também tenha traços em que é comprovadamente inferior a outras culturas. Isso é tão óbvio que fico até constrangido de dizer. Conseqüentemente, o livro sugerido pelo Roberto é irrelevante — embora possa ser de leitura muito instrutiva.

Uma observação final. Nós temos, como seres humanos, não só o direito como o dever de julgar, avaliar, comparar, decidir, e escolher. O relativismo moral e cultural que pretende nos impedir de fazer julgamentos morais e culturais é uma tentativa de nos eximir não só de um direito, mas de uma responsabilidade que é inerente à condição humana.

As mulheres africanas, vítimas de espancamento, esperam que tenhamos sensibilidade moral e exerçamos nosso dever de condenar moralmente essa prática. Adotar o relativismo moral pode ser uma atitude cômoda (“isso é problema da cultura deles”) mas é irresponsável.

Bertrand Russell, por muitos considerados o maior filósofo europeu ou ocidental do século XX, sucumbiu à tentação relativista. Quando fazia 90 anos, afirmou algo mais ou menos assim (cito de memória): O que me leva a condenar Hitler por ter levado ao holocausto mais de seis milhões de judeus não é o fato de que eu considere moralmente errado o que ele fez, mas, sim, simplesmente o fato de que eu não gosto desse tipo de ação e, no lugar dele, não o faria.

Eu, que admiro o pensamento de Russell em outros aspectos, prefiro imaginar simplesmente que o velho estava caduco a crer que fosse tão irresponsável moralmente.

–Eduardo”

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Transcrito em São Paulo, 5 de Janeiro de 2012

A Educação das Emoções e da Vontade

Originalmente publicado no Blog das Editoras Ática e Scipione.

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1. Introdução

Sócrates morreu no domingo. Não o grego, naturalmente, que morreu já faz tempo. Quem morreu esta semana foi o Sócrates Brasileiro (com “b” maiúsculo): o homem do futebol arte, o capitão daquela seleção brasileira que muitos consideram a melhor de todos os tempos — mas que, entretanto, perdeu a Copa do Mundo na Espanha.

Estava pensando sobre o assunto deste artigo quando soube que Sócrates, o homem, havia, como antes o jogador, encerrado sua carreira. 

Eu lia um livro genial quando fiquei sabendo da notícia: The Goal, de Eliyahu Goldratt. Foi a partir de uma discussão interessante no Facebook que alguém me sugeriu a leitura dele. Não é um tratado ou um ensaio: é um romance. Procurei na Internet algumas resenhas, achei-as interessantes, e comprei o livro. Foi um excelente investimento. Gosto de romances que não apenas entretêm, mas que, ao contar bem uma história, também ilustram uma filosofia de vida. Melhor do que isso: ilustram a busca por uma filosofia de vida interessante.

Aos poucos, Sócrates e The Goal se juntaram…

2. A Meta

É difícil descrever o enredo do livro quando já é complicado traduzir o título. “Goal” é o quê? “Goal” é gol (“o grande momento do futebol”, como dizia um programa de rádio e de TV antigo). Foi esse título que me fez juntar mentalmente a morte de Sócrates com o conteúdo do livro. O termo “goal/gol” é usado no futebol para descrever a meta que os jogadores devem perseguir. A meta, no futebol, é representada por aquele retângulo delimitado por dois postes e um travessão que a bola deve ultrapassar para que um time faça pontos e, caso os faça em maior número que o time adversário, ganhe o jogo. Por isso, enquanto uma equipe tenta fazer a bola ultrapassar a meta da equipe adversária, esta busca protege-la. Tanto isso é assim que o goleiro era antigamente chamado de “guarda-meta”. E, quando se fazia um gol, dizia-se que a meta havia sido “vasada”.

Embora haja uma grande e interminável discussão sobre “futebol arte” vs “futebol resultado”, não há como discordar do truísmo que “futebol é bola na rede”, ponto final. Ganha o jogo, ao final, quem fez mais gols. Ou, em outro chavão, jogo bonito não ganha campeonato — nem a Copa, como descobrimos tristememente em 1982.

Apesar de que, muitas vezes, pode parecer mais gostoso ver nosso time jogar bonito do que ganhar, se o time perder o jogo, ficamos frustrados, porque o objetivo real do futebol é fazer mais gols do que o adversário. Como dizem os mais fanáticos, o objetivo é fazer gol, ainda que seja gol contra, em impedimento, de canela, sem querer, chorado, com a ajuda do morrinho artilheiro, ou então do juiz, etc.

O livro de Goldratt discute a história de uma empresa. E procura deixar claro que, se a empresa não sabe qual é a sua meta, não tem jeito de ganhar no jogo do mercado — a menos que tenha muita sorte e, ainda assim, quando isso acontece, a vitória é por pouco tempo.

A sugestão de Goldratt é simples e óbvia: a meta de uma empresa é (como todo empresário deveria saber) fazer dinheiro. Fazer dinheiro, “make money”, é diferente de simplesmente ganhar dinheiro. Alguém que acerta na Loteria ganha dinheiro. Fazer dinheiro, porém, é dar lucro, é gerar mais dinheiro do que se investe e gasta para gerá-lo. Para não conquistar a antipatia dos meus leitores de simpatias esquerdizantes, que acham que a meta de uma empresa é exercer sua responsabilidade social, contribuir para a melhoria do meio ambiente, contribuir para o crescimento econômico do país, fazer filantropia, etc., paro aqui o relato sobre o livro de Goldratt.

Mas fica a lição: nenhuma organização, nenhuma pessoa, e nenhuma atividade consegue ser bem sucedida se não souber qual é a sua meta.

Aqui chegamos à educação.

3. A Meta da Educação

Qual a meta da atividade que chamamos de educação?

Hoje a gente houve várias sugestões: formar cidadãos, preparar trabalhadores do conhecimento para a economia digital, etc.

Prefiro, entretanto, uma visão diferente… Para usar uma expressão bonita da Viviane Senna, a meta da educação é fazer com que as pessoas “dêem certo”. Ou, para usar uma expressão que foi incluída pela Microsoft na sua missão, fazer com que as pessoas realizem seu pleno potencial. Ou ainda, como eu mesmo venho dizendo aqui neste blog, fazer com que as pessoas se desenvolvam, plena e integralmente, como seres humanos.

Essas três formulações são bonitas, nobres e, estou convicto, corretas. Mas não bastam, porque é preciso que se esclareça o que queremos dizer quando afirmamos que uma pessoa “deu certo”, ou “realizou seu pleno pontencial”, ou “se desenvolveu plena e integralmente como ser humano”?

Quando Goldratt afirma que a meta de uma empresa é fazer dinheiro ou dar lucro, todo mundo entende claramente o que ele quer dizer, mesmo que não concordo ou que não saiba o que uma empresa precisa fazer para alcançar essa meta.

Mas quando a gente diz que a meta da educação é fazer as pessoas darem certo, realizarem seu pleno potencial, ou se desenvolverem como seres humanos, não há uma clareza comparável de entendimento. Parece que fica faltando explicar alguma coisa.

E aqui chegamos à filosofia. Mais cedo ou mais tarde a gente chega a ela.

4. A Contribuição da Filosofia

Pegando uma sugestão dos principais filósofos gregos clássicos (Sócrates, Platão e Aristóteles), gostaria de sugerir que uma pessoa dá certo, ou realiza o seu potencial, ou se desenvolve como ser humano, quando se torna uma “pessoa virtuosa” (no sentido técnico que vou tentar esclarecer).

Muitos vão me acusar de estar trocando seis por meia dúzia, por que, afinal de contas, o que queremos dizer quando chamamos uma pessoa de virtuosa?

Mas os gregos tinham uma resposta para essa questão…

Para chegar à resposta dos gregos, precisamos, como Jack o Estripador, ir por partes…

Primeiro, os gregos (que eram muito lógicos — na verdade, eles inventaram a lógica…), sabiam que, para responder à pergunta “O que é uma pessoa virtuosa?” tinham de esclarecer antes o que é uma pessoa e o que é a virtude…

Assim, refletiram sobre o que significa ser uma pessoa.

Uma pessoa, concluíram, é um ser que é capaz de pensar, sentir (emocionar-se, por exemplo) e agir. Para agir, ele tem de ser capaz de escolher e decidir. Essas competências (ou “faculdades”) de pensar, sentir, escolher, decidir e agir compreendem a mente (ou “alma”) da pessoa.

(Algumas pessoas, como, por exemplo, as pessoas humanas, têm, além de sua mente, um corpo. Isso não é novidade. Outras, porém, como quem sabe os anjos e os deuses, não teriam um corpo, por não terem necessidade dele. Mas deixemos de lado esses detalhes).

Virtude, por seu lado, é aquilo que é bom (ou certo) na ação ou na conduta.

(A propósito, os gregos davam enorme importância a três coisas que consideravam “transcendentais”: o verdadeiro, o belo e o bom. O verdadeiro deve reger os nossos pensamentos; o belo, os nossos sentimentos; e o bom, a nossa ação ou conduta. O leitor pode notar que os gregos gostavam de deixar tudo muito bem “amarradinho”).

Uma pessoa virtuosa, portanto, é uma pessoa que, em suas ações, faz o que é bom ou certo, ou que pauta sua conduta por aquilo que é bom ou certo.

Mas como é que descobrimos o que é bom ou certo em nossas ações e em nossa conduta?

Resposta dos gregos (que considero difícil de melhorar): pensando, isto é, refletindo, discutindo, criticando e sendo criticado. Nesse processo, é possível (eles estavam convictos disso) descobrir algum critério que nos permita  distinguir a ação boa, ou conduta correta, da ação má, ou conduta incorreta. Digamos que um critério como este seja próximo do que é procurado: uma ação é boa ou correta se é generalizável, isto é, se eu, ao contemplá-la, posso desejar que qualquer outra pessoa, mesmo um inimigo meu, em circunstâncias semelhantes, faça a mesma coisa. (Essa é uma versão meio kantiana e afirmativa da lei áurea cristã: não fazer aos outros aquilo que não queremos que eles nos façam).

Aqui os gregos constataram um fato importante sobre a natureza humana. Mesmo que eu saiba (por concluir, através de um processo de reflexão, discussão, etc.) que determinada ação é certa, e, portanto, deve (ou pode) ser realizada, ou que é errada, e, portanto, deve (sem o “pode”, aqui) ser evitada, esse conhecimento é suficiente para que eu faça o que é certo e deixe de fazer o que é errado?

Resposta: não. Saber o que é certo e o que é errado é condição necessária, mas não suficiente, para fazer o certo e não fazer o que é errado. Há uma lacuna, ou “gap”, entre saber o que é certo e fazer o que é certo, entre saber o que é errado e não fazer o que é errado.

Os gregos também descobriram que esse “gap” pode ser de dois tipos:

a) Em alguns casos, a pessoa sabe o que é certo e o que é errado, mas não quer fazer o certo e evitar o errado;

b) Em outros casos, a pessoa sabe o que é certo e o que é errado, quer fazer o certo e evitar o errado, mas não consegue.

Em ambos os casos, a pessoa não tem nenhum problema no plano cognitivo: ela sabe o que é certo e o que é errado.

No primeiro caso, porém, a vontade da pessoa, o seu querer, não está alinhado com a sua cognição. Ela sabe que uma determinada ação é certa, mas não quer faze-la. Ou ela sabe que uma determinada ação é errada, mas ainda assim quer faze-la.

Consequentemente, ela não vai ser uma pessoa virtuosa: ela não vai fazer o que é bom ou certo.

Se o objetivo da educação é fazer com que as pessoas se tornem virtuosas, ou a educação acha um jeito de fazer a pessoa mudar o que ela quer (mudar a sua vontade) ou ela terá fracassado.

Note-se que não basta que a educação consiga que a pessoa faça ou que é certo e deixe de fazer o que é errado. Isso pode ser conseguido constrangendo-a ou mesmo obrigando-a (caso tenhamos como fazer isso) a fazer o certo e a não fazer o errado. Mas, nesse caso, ela não estaria escolhendo e decidindo ser virtuosa: estaria apenas agindo certo e deixando de agir errado por coação, física ou mental. A sua vontade, o seu querer, estaria inalterado, ainda desejando não fazer o certo e a fazer o errado. Assim que a coação fosse removida, possivelmente ela iria deixar de fazer o certo e fazer o errado.

O desafio da educação aqui é como agir sobre a vontade da pessoa, para alterá-la, na verdade, para conseguir que a pessoa mesma, de forma livre e espontânea, e, portanto, consentida, mude sua vontade.

Esse é um desafio enorme para a educação.

No segundo caso, o problema é outro. Nesse caso, a vontade da pessoa é fazer o que é certo e deixar de fazer o que é errado. Mas ela não consegue.

Até o apóstolo Paulo, que conhecia o pensamento grego, sabia que há um fosso difícil de transpor não só entre saber o que é certo e o que é errado e fazer o que é certo e não fazer o que é errado, mas também entre querer fazer o certo e não querer fazer o errado, e, de fato, fazer o certo e não fazer o errado. Ele disse algo assim: o bem que eu quero, esse eu não faço, e o mal que eu quero, esse eu faço… (Ver Romanos 7:19).

Se a pessoa, mesmo querendo, não consegue fazer o que ela sabe ser certo, e, mesmo querendo, não consegue deixar de fazer o que ela sabe ser errado, aqui também ela não se tornará uma pessoa virtuosa. Mas o problema é outro. Se há problema com a vontade, aqui, o problema é que a vontade é demasiado fraca para produzir a ação.

5. As Emoções e os Sentimentos 

David Hume, filósofo sobre o qual escrevi minha tese de doutoramento nos idos de 1970-1972, escreveu sua primeira obra, que se tornou, oportunamente, sua obra prima, antes de completar 30 anos: A Treatise of Human Nature. Essa obra está dividida em três partes, que correspondem ao “Thought, Emotion and Will” (Pensamento, Emoção e Vontade) da filosofia clássica: “Of the Understanding, Of the Passions, Of Morals” (Do Entendimento, Das Paixões, Da Moral”).

Nesse livro ele diz algo que se tornou um ponto de vista importante na filosofia posterior.

“Reason is, and ought only to be the slave of the passions, and can never pretend to any other office than to serve and obey them” (A razão é, e apenas deve ser, a escrava das paixões, e não pode pretender nenhuma outra função além de servir e obedecer a elas).

Para Hume, a razão é incapaz de mover a vontade, ou, havendo a vontade, de produzir a ação — a menos que haja a intermediação do que ele chamava de paixões: as emoções e os sentimentos.

Em outras palavras: a razão me diz que é certo ou que é errado fazer determinada coisa, mas não é capaz de me fazer querer fazer o certo e evitar o errado, nem de capaz de, assumindo-se que eu queira fazer o certo e deixar de fazer o errado, de me levar a agir como eu quero.

Para mover a vontade ou fazer com que a vontade produza a ação, as emoções e os sentimentos são necessários.

Se Hume está basicamente correto, a educação, como um todo, precisa dar muito mais importância do que dá hoje (se é que dá alguma) à educação das emoções, dos sentimentos, da sensibilidade, porque esse aspecto da educação será indispensável para que uma pessoa possa “dar certo” na vida, ou “realizar seu potencial”, ou “se desenvolver como ser humano”.

6. Conclusão

No dia 25 de Outubro último o Instituto Ayrton Senna realizou um Seminário Internacional que teve o título de “Educação para o Século XXI”. A principal estrela do evento foi o James Heckman, professor de economia da Universidade de Chicago e ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2000. Ladeado por três ex-alunos, ele discorreu sobre a importância — para o sucesso na escola e na vida — das chamadas “competências não-cognitivas”. Não só elas seriam tão importantes quanto as competências cognitivas para explicar o sucesso na escola e na vida, como seriam importantes até mesmo para o desenvolvimento das competências cognitivas.

Vimos aqui que, se os filósofos gregos e David Hume estavam na direção certa, os desafios que a educação enfrenta são maiores do que a dicotomia cognitivo-não cognitivo deixa entrever. A dimensão não cognitiva abrange não só competências não-cognitivas como liderança, colaboração, persistência, resiliência, etc. Ela envolve também a educação das emoções, dos sentimentos, da sensibilidade, e da vontade.

Esse complexo de “educações” está estreitamente relacionado com a formação de hábitos, desde que a criança é muito pequena… É nessa fase que se desenvolvem, muito antes que a criança possa entendê-las racionalmente, atitudes e posturas básicas perante os outros, perante a vida, perante a natureza, perante as coisas, que farão com que a criança oportunamente venha a ter respeito pelo verdadeiro, pelo bom e pelo belo, sem os quais, mesmo que venha a saber, no plano cognitivo, o que é certo e o que é errado, dificilmente vai querer fazer o que é certo: por que não posso bater nele? por que não posso levar comigo o que é dele? por que não devo falar quando os outros estão falando? por que não devo chamar de você alguém que merece o meu respeito e a minha consideração?

Suspeito que, nesse caso, relações interpessoais sadias e afetivas, e os bons exemplos que elas produzem, são muito mais eficazes do que hoje passa por trabalho escolar.

Escrito em São Paulo, 5 de Dezembro de 2011, e transcrito aqui em 28 de Dezembro de 2011

Pode (e deve) a moralidade ser ensinada (na escola pública)?

Assunto quente na Seção Tendências/Debates da Folha de S. Paulo de hoje, 30 de Janeiro de 2011: a quem compete a educação moral das crianças, aos pais ou ao Estado (através da escola pública)?

Platão já perguntava, em um dos diálogos socráticos: pode a virtude ser ensinada? (O “pode”, nesse caso, é equivalente a “é possível”, não a “é permissível”).

Tenho a impressão de que a escola pública sempre achou que era possível ensinar a virtude, e, até mesmo, que era obrigatório que isso fosse feito por ela (e não pelos pais).

Ou vejamos.

A escola pública americana, que é, de certo modo, a mãe de todas, sempre se considerou o principal canal para veicular os valores básicos da sociedade americana, como a liberdade individual, a democracia, a responsabilidade de cada um pelo próprio sustento, a importância do trabalho, a limitação dos poderes do Estado. Até mesmo valores morais e religiosos sempre fizeram parte dessa agenda até recentemente. Seria a escola pública que ensinaria os estrangeiros imigrantes a viver segundo “the American way of life”, funcionando assim como principal agente para a criação do “melting pot”, o caldeirão em que crenças, valores e costumes alienígenas eram misturados com as crenças, valores e costumes da sociedade americana, desaparecendo, enquanto tais, ainda que tivessem uma pequena parcela absorvida no caldeirão de fusão. O que era abertamente assimilado pelos americanos eram, em geral, costumes que nada tinham de moral, como o hábito de comer pizza, ou taco… No que diz respeito aos valores básicos, os valores americanos varriam do mapa valores conflitantes trazidos pelos imigrantes.

Como a escola pública americana era composta predominantemente por alunos de tradição religiosa protestante, os valores ensinados por ela eram, em regra, valores da tradição protestante. Foi por isso que os católicos romanos se viram obrigados a criar suas próprias escolas, para usá-las como instrumentos para transmitir aos alunos as crenças, os valores e o ethos católicos romanos.

Assim, no tocante aos valores básicos da sociedade americana, era a escola que deveria transmiti-los. Se ela deixasse essa transmissão a cargo dos pais, os imigrantes católicos romanos, irlandeses e italianos, iriam formar filhos católicos, papistas, adoradores da Virgem Maria e dos santos, autoritários ou então anárquicos, etc. – algo indesejável. 

No Brasil a escola pública era composta predominantemente por alunos de tradição religiosa católica romana. Quando estudei na escola pública (início da década de 50), dizia-se que o Brasil era o maior país católico romano do mundo, com 95% da população aderindo a essa religião. Para protestantes, espíritas, judeus, muçulmanos, confucionistas, budistas e ateus sobravam apenas 5% da população… Assim, as crenças, os valores e o ethos católicos romanos eram  transmitidos (ainda que de maneira mais light do que nos Estados Unidos, pois no Brasil a religião católica romana nunca foi levada muito a sério pelos seus praticantes). Lembro-me, no detalhe, de que meu pai frisava com grande ênfase, em casa, que eu não deveria dizer “rezar”, como diziam meus professores e colegas, em vez de “orar”, como se diz na tradição protestante. Constato, com alguma surpresa, que a Paloma, mais zelosa dos valores e da linguagem protestante do que eu, hoje, em plena segunda década do século XXI, ainda de vez em quando se implica comigo por eu me referir a “Santo Agostinho” ou “São Tomás” (como sempre me referi a eles) – porque santo, como se sabe, só há um, que não é só uma vez santo, mas santo, santo, santo (como diz o hino)…

Assim, no Brasil, foram os protestantes que precisaram criar suas escolas, para transmitir nelas as crenças, os valores, e o ethos protestantes (embora as ordens católicas não tenham se descuidado da tarefa também, em especial quando ficou mais difícil usar a escola pública para transmitir as crenças, os valores e o ethos católicos).

É verdade que a escola pública, tanto a americana como a brasileira, só se safou, nesse processo de ensinar a moralidade ou a virtude (como preferia Platão) aos seus alunos, enquanto os valores ensinados eram consensuais, ou próximos disso, na sociedade. Houve época em que os imigrantes iam para os Estados Unidos querendo ser “americanizados”. Hoje, mesmo na terceira e quarta geração, eles insistem em preservar as suas crenças, os seus valores, os seus costume – chegando até a se descrever de forma hifenizada: ítalo-americanos, latino-americanos, etc. E, nessa época de multiculturalismo e diversidade, até o Pai Nosso foi removido da prática diária com que se abria o dia escolar. O juramento de lealdade à bandeira americana continua:

“I pledge allegiance to the Flag of the United States of America and to the Republic for which it stands, one nation, indivisible, with liberty and justice for all.”

No Brasil, em toda época em que houve uma ditadura foi introduzida no currículo a disciplina Educação Moral (às vezes, Educação Moral e Cívica) – com o objetivo nem sequer disfarçado de moldar (ou remoldar) a visão e a prática moral das crianças – e, também, de levá-las a se orgulhar de seu país (“Por que me ufano de meu país”…), e a não criticar muito severamente seus governantes, construindo, assim, os valores do patriotismo e a lealdade à pátria (muito mais forte nos Estados Unidos do que aqui). 

Estamos vivendo, hoje, no Brasil, uma época extremamente conflitiva em relação a valores morais, como as discussões acerca do aborto deixaram claro nas últimas eleições.

O aborto, porém, foi apenas a ponta do iceberg. Há a questão do homossexualismo, que os protestantes mais conservadores (para não dizer fundamentalistas) insistem em considerar não só como pecado, mas como doença (curável, naturalmente). Esses protestantes se insurgem contra projeto de lei que, se aprovado, tornaria crime “homofóbico” (equivalente a racismo) afirmar (vale dizer, pregar) que o homossexualismo é pecado, e, como tal, errado, e a tentativa de impedir que as pessoas se tornem homossexuais e de “resgatar” os que já caíram nesse “pecado” ou foram acometidos dessa “doença”. (Existem nas ruas placas e cartazes informando sobre supostos pastores que conseguem a “cura da viadagem”).

Mas não precisamos ir tão longe.

O artigo abaixo fala de tópico mais light, a sexualidade, pura e simples, o interesse que a criança cedo manifesta pelos órgãos sexuais (próprios e do sexo oposto), o toque dos órgãos sociais e a masturbação (ainda que inicialmente quase inconsciente e certamente inocente), a afirmação de que masturbar-se é algo gostoso e que não há nada de errado nisso (apesar de os pais mais religiosos e conservadores tentarem coibir o ato).

Deve a escola, em aulas de educação sexual, se meter a transmitir esses valores, digamos liberais, às crianças, ou deve se omitir, tratando da sexualidade apenas do ponto de vista, digamos, fático, científico, deixando a moralidade para ser tratada no lar (ou na igreja)?

Se alguém tem o direito de moldar a moralidade da criança, de quem é o direito: dos pais ou do Estado?

Está lançado o debate.

O artigo é “partisan”: o direito, afirma, é dos pais, e estes não devem permitir que o Estado lhes roube mais esse direito…

Concordo com os autores do artigo, mas em parte.

O que penso, em minha visão liberal radical, é que, se há esse direito, é dos pais, nunca do Estado.

Mas tenho sérias dúvidas de que mesmo os pais tenham esse direito.

Mas aqui surge o desafio: se nem os pais têm tem esse direito, o que fazer? Devemos deixar que a moralidade evolva por (assim dizendo) geração espontânea, “naturalmente”? Acreditar nisso seria ingênuo. Os pares, a televisão (a MTV, o Disney Channel, a Globo com suas novelas), etc. acabariam tendo um papel mais ativo na moldagem se os pais se omitissem totalmente.

É possível falar em uma educação moral “não moldadora”, “não impositiva”, “não diretiva”, mas “clarificadora”? (A “Clarificação de Valores” se tornou um modismo em algumas escolas há algum tempo). Isso funcionaria?

Repito: está lançado o debate.

(Meu primeiro projeto de pesquisa na UNICAMP, escrito em 1974, era sobre esse assunto).

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz3001201107.htm

TENDÊNCIAS/DEBATES

Direito dos pais ou do Estado?
LUIZ CARLOS FARIA DA SILVA e MIGUEL NAGIB

Impõe-se que questões morais sejam varridas dos programas das disciplinas obrigatórias de ensino; quando muito, podem integrar disciplina facultativa

No começo de 2010, pais de alunos da rede pública de Recife protestaram contra o livro de orientação sexual adotado pelas escolas. Destinada a crianças de sete a dez anos, a obra “Mamãe, Como Eu Nasci?”, do professor Marcos Ribeiro, tem trechos como estes: “- Olha, ele fica duro! O pênis do papai fica duro também? – Algumas vezes, e o papai acha muito gostoso. Os homens gostam quando o seu pênis fica duro.” “Se você abrir um pouquinho as pernas e olhar por um espelhinho, vai ver bem melhor. Aqui em cima está o seu clitóris, que faz as mulheres sentirem muito prazer ao ser tocado, porque é gostoso.”
Inadequado? Bem, não é disso que vamos tratar no momento. O ponto que interessa está aqui: “Alguns meninos gostam de brincar com o seu pênis, e algumas meninas com a sua vulva, porque é gostoso. As pessoas grandes dizem que isso vicia ou “tira a mão daí que é feio”. Só sabem abrir a boca para proibir. Mas a verdade é que essa brincadeira não causa nenhum problema”.

Considerando que entre as pessoas que “só sabem abrir a boca para proibir” estão os pais dos pequenos leitores dessa cartilha, pergunta-se: têm as escolas o direito de dizer aos nossos filhos o que é “a verdade” em matéria de moral?

De acordo com a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH), a resposta é negativa. O artigo 12 da CADH reconhece expressamente o direito dos pais a que seus filhos “recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”. É fato notório, todavia, que esse direito não tem sido respeitado em nosso país.

Apesar de o Brasil ter aderido à CADH, o MEC não só não impede que o direito dos pais seja usurpado pelas escolas como concorre decisivamente para essa usurpação, ao prescrever a abordagem transversal de questões morais em todas as disciplinas do ensino básico.

Atendendo ao chamado, professores que não conseguem dar conta de sua principal obrigação -conforme demonstrado ano após ano por avaliações de desempenho escolar como o Saeb e o Pisa-, usam o tempo precioso de suas aulas para influenciar o juízo moral dos alunos sobre temas como sexualidade, homossexualismo, contracepção, relações e modelos familiares etc.

Quando não afirmam em tom categórico determinada verdade moral, induzem os alunos a duvidar “criticamente” das que lhes são ensinadas em casa, solapando a confiança dos filhos em seus pais.

A ilegalidade é patente. Ainda que se reconhecesse ao Estado -não a seus agentes- o direito de usar o sistema de ensino para difundir uma agenda moral, esse direito não poderia inviabilizar o exercício da prerrogativa assegurada aos pais pela CADH, e isso fatalmente ocorrerá se os tópicos dessa agenda estiverem presentes nas disciplinas obrigatórias.

Além disso, se a família deve desfrutar da “especial proteção do Estado”, como prevê a Constituição, o mínimo que se pode esperar desse Estado é que não contribua para enfraquecer a autoridade moral dos pais sobre seus filhos.

Impõe-se, portanto, que as questões morais sejam varridas dos programas das disciplinas obrigatórias. Quando muito, poderão ser veiculadas em disciplina facultativa, como ocorre com o ensino religioso. Assim, conhecendo previamente o conteúdo de tal disciplina, os pais decidirão se querem ou não compartilhar a educação moral de seus filhos com especialistas de mente aberta como o professor Marcos Ribeiro.

LUIZ CARLOS FARIA DA SILVA, 54, doutor em Educação pela Unicamp, é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá.

MIGUEL NAGIB, 50, é procurador do Estado de São Paulo, coordenador do site www.escolasempartido.org e especialista do Instituto Millenium

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Em São Paulo, 30 de Janeiro de 2011.

É o embrião um ser vivo?

Na minha metadiscussão da presente discussão do aborto (http://liberalspace.net/2010/10/15/metadiscusso-da-presente-discusso-do-aborto/) caracterizei três textos que apareceram na Folha de S. Paulo de 14/10/2010 como metadiscussão, e não como discussão, do aborto. Contardo Calligaris prometeu para depois uma discussão do aborto. Antonio Cícero, porém, se antecipa a ele na Folha de S. Paulo de hoje – e, de lambuja, acrescenta mais uma referência bibliográfica que parece ser interessante: o livro do filósofo francês Francis Kaplan O Embrião É um Ser Vivo?, que também pretendo comprar. 

Transcrevo o texto de Antonio Cícero, porque vale a pena ler. É um exemplo claro do que uma discussão racional e despaixonada do tema pode ser. E dá uma resposta à pergunta que levantei no meu post “O liberalismo e o aborto” (http://liberalspace.net/2010/10/15/o-liberalismo-e-o-aborto/), ao discutir a atual legislação brasileira sobre o aborto: Por que a vida da mãe é mais importante do que a do feto?

Se você tem interesse na questão, leia o artigo de Antonio Cícero, filósofo respeitado.

Aguardo ansioso a discussão que Contardo Calligaris prometeu fazer do assunto.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1610201035.htm

Folha de S. Paulo

16 de Outubro de 2010

ANTONIO CICERO

A questão do aborto


Quem se opõe à descriminalização do aborto defende não a vida, mas uma crença religiosa


Se não me engano, algum tempo atrás Lula previu que, nas eleições deste ano, todos os candidatos à Presidência seriam de esquerda. De fato, os três mais votados candidatos do primeiro turno, logo, os dois do segundo, são considerados de esquerda.

Serão mesmo? Pensaria o contrário quem, sem nada saber dos candidatos, visse as fotos diárias que a imprensa publica de cada um deles a assistir à missa; ou suas declarações de fé; ou suas confraternizações com pastores e políticos evangélicos; ou as promessas de obediência que fazem a líderes religiosos; ou suas renegações da proposta da descriminalização do aborto…

Dois dias atrás, afirmando que uma eleição é o pior momento para debater qualquer questão que seja, Contardo Calligaris postergou uma discussão sobre o aborto. Acho que ele estava certo. Contudo, tendo lido inúmeros ataques à tese de que o aborto deve ser descriminalizado, mas nenhum argumento a favor dela, resolvi lembrar aqui alguns que me parecem decisivos.

E, para mim, os argumentos mais decisivos são os do filósofo francês Francis Kaplan no seu livro “O Embrião É um Ser Vivo?”, por ele resumidos em entrevista que a Folha publicou em abril de 2008.

Segundo Kaplan, deve-se distinguir entre “estar vivo” e “ser um ser vivo”. Um ser vivo não é apenas um ser que tem funções (pois várias partes do ser vivo têm funções), mas um ser que tem todas as funções necessárias para estar vivo. Assim é um ser humano, por exemplo. Já o olho do ser humano, na medida em que lhe faculta enxergar, está vivo, mas não é um ser vivo. O olho está vivo somente na medida em que faz parte do ser vivo que é o ser humano.

Assim também o embrião está vivo somente enquanto parte de outro ser vivo, que é a sua mãe. Por si mesmo, “as funções vitais de que ele precisa para estar vivo são as da mãe. É graças à função digestiva da mãe que ele recebe o alimento, que pode usar somente por lhe chegar previamente digerido pela mãe; é graças à função glicogênica do fígado da mãe que ele recebe a glicose; é graças à função respiratória da mãe que os glóbulos vermelhos de seu sangue recebem o oxigênio; é graças à função excretória da mãe que ele expulsa materiais prejudiciais, dejetos que, de outro modo, o envenenariam”.

E mais: “Não é o embrião que se desenvolve: é a mãe que, por meio da produção da serotonina periférica no sangue, determina, durante mais da metade da gestação, o desenvolvimento neurobiológico e a viabilidade futura do organismo que carrega”.

Kaplan explica, ademais, que, pelo menos até o terceiro mês da concepção, o feto não tem atividade cerebral. Acontece que, como ele observa, “um homem sem atividade cerebral é considerado clinicamente morto”. Ora, “o prazo de três meses é o prazo dentro do qual a maioria das mulheres que quer abortar aborta, mesmo que possam legalmente fazê-lo mais tarde”.

Dito isso, vê-se que não é totalmente verdadeiro, como se supõe às vezes, que o embrião esteja para uma criança como uma semente para uma árvore ou um ovo para uma ave. Uma semente largada na terra pode tornar-se uma árvore; e um ovo pode, sendo incubado, tornar-se uma ave; um embrião, porém, não é capaz de se tornar uma criança fora do corpo da mãe.

Se, portanto, não se pode comparar a destruição de uma semente com a derrubada de uma árvore nem se pode comparar quebrar um ovo com matar uma ave, menos ainda se pode comparar o aborto, como querem alguns religiosos, com o assassinato de uma pessoa. Que pensar então da tese de que a vida da mãe não vale mais que a do feto?

Diga-se a verdade: quem se opõe à descriminalização do aborto defende não a vida, como alega, mas sim uma crença religiosa segundo a qual nem o prazer sexual pode ser um fim em si mesmo nem o ser humano é dono de si próprio ou do seu corpo.

Ora, cada qual tem o direito à crença religiosa que bem entender, mas o Estado, que deve ser laico, não pode adotar nenhuma delas em particular.

Nenhuma mulher recorre ao aborto por prazer, mas por sofrimento e para evitar ainda maior sofrimento para si, para sua família e para a criança que nasceria.

É uma grande crueldade que o Estado penalize ainda mais justamente as mulheres pobres que, sem recursos, são obrigadas a praticar o aborto nas piores condições imagináveis.

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Em São Paulo, 16 de Outubro de 2010

Direito à felicidade?

Diz o título de uma matéria na Folha de S. Paulo de hoje que “grupo quer incluir direito à felicidade na Constituição”.

Errou a Folha. Não é isso que o grupo pretende. O que tenta (como fica claro no corpo da matéria) é incluir na Constituição Brasileira o “direito à busca da felicidade” – que está presente na Declaração de Independência dos Estados Unidos desde 1776 (como, novamente, o próprio o corpo da matéria assinala – vide http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0606201013.htm).

Enganam-se os proponentes da idéia ao imaginar que a inclusão do direito à busca da felicidade na Constituição Brasileira tornará os brasileiros mais felizes, ou lhes dará alguma base constitucional para exigir do governo que os faça felizes, ou mais felizes. E isso porque a garantia de um direito de buscar a felicidade não implica:

* Que todos queiram buscar a felicidade
* Que aqueles que queiram buscá-la de fato a busquem
* Que aqueles que de fato a busquem tenham competência e sorte suficientes para conquistá-la

Pode o governo fazer alguma coisa para ajudar as pessoas a serem felizes?

Nem a Social-Democracia, com todo o seu otimismo infundado sobre políticas públicas, fala em felicidade: fala em bem-estar. Mas mesmo bem-estar é complicado – e isso porque felicidade ou bem-estar são coisas profundamente subjetivas. O que torna um feliz ou o faz estar bem, não torna o outro feliz ou não o faz estar bem.

Há uma música, chamada “Happiness is”, que era cantada por Ray Conniff e seus cantores, que expressa isso bem: 

Happiness is (Happiness is)
Happiness is (Happiness is)
Happiness is (Happiness is)
Different things to different people
That’s what happiness is

To the preacher
It’s a prayer, prayer, prayer
To the Beatles
It’s a "Yeah, Yeah, Yeah"
To the golfer
It’s a hole in one
To the father
It’s a brand new son

Happiness is (Happiness is)
Happiness is (Happiness is)
Happiness is (Happiness is)
Different things to different people
That’s what happiness is

To the beatnik
It’s his beard, beard, beard
To the monster
Something weird, weird, weird
To a night owl
It’s a good days sleep
To the Yankee’s
It’s a four game sweep

Happiness is (Happiness is)
Happiness is (Happiness is)
Happiness is (Happiness is)
Different things to different people
That’s what happiness is

On the desert
It’s a drink, drink, drink
To the show girl
It’s a mink, mink, mink
To the banker
Lots and lots of dough
To a racer
It’s a GTO

Happiness is (Happiness is)
Happiness is (Happiness is)
Happiness is (Happiness is)
Different things to different people
That’s what happiness is

To a sailor
It’s the sea, sea, sea
To my mother
Why, it’s me, me, me
To the birdies
It’s the sky above
But, to my mind
It’s the one I love

Happiness is (Happiness is)
Happiness is (Happiness is)
Happiness is (Happiness is)
Different things to different people
That’s what happiness is

(http://lyricsplayground.com/alpha/songs/h/happinessis.shtml)

Se não me engano houve um comercial na TV americana no final dos anos 60 que usava essa música… Mas não posso dizer com certeza.

O importante é a tese que se repete no refrão: “Happiness is different things to different people” — “A felicidade é uma coisa diferente para cada pessoa”. Sendo assim, é impossível legislar sobre ela ou, para um governo, tomar medidas que garantam que o povo fique mais feliz, ou alcance mais bem-estar.

Consta (é o artigo da Folha que nos diz) que o Gabão foi o primeiro país a criar, para comparar com o Produto Interno Bruto (PIB), um índice de Felicidade Interna Bruta (FIB). Na Wikipedia há um artigo sobre “Gross National Happiness” (GNH), do qual vale a pena citar o preâmbulo (Vide http://en.wikipedia.org/wiki/Gross_national_happiness):

“The concept of gross national happiness (GNH) was developed in an attempt to define an indicator that measures quality of life or social progress in more holistic and psychological terms than gross national product or GDP. As a chief economic indicator, GDP has numerous flaws long known to economists. GDP measures the amount of commerce in a country, but counts remedial and defensive expenditures (such as the costs of security, police, pollution clean up, etc.) as positive contributions to commerce. A better measure of economic well-being would deduct such costs, and add in other non-market benefits (such as volunteer work, unpaid domestic work, and unpriced ecosystem services) in arriving at an indicator of well-being. As economic development on the planet approaches or surpasses the limits of ecosystems to provide resources and absorb human effluents, calling into question the ability of the planet to continue to support civilization (per the arguments of Jared Diamond, among others), many people have called for getting "Beyond GDP" (the title of a recent EU conference) in order to measure progress not as the mere increase in commercial transations, nor as an increase in specifically economic well-being, but as an increase in general well-being as people themselves subjectively report it. GNH is a strong contributor to this movement to discard measurements of commercial transactions as a key indicator and to instead directly assess changes in the social and psychological well-being of populations.

The term was coined in 1972 by Bhutan‘s former King Jigme Singye Wangchuck, who has opened up Bhutan to the age of modernization, soon after the demise of his father, King
Jigme Dorji Wangchuk. He used the phrase to signal his commitment to building an economy that would serve Bhutan’s unique culture based on Buddhist spiritual values. At first offered as a casual, offhand remark, the concept was taken seriously, as the Centre for Bhutan Studies, under the leadership of Kaarma Uru, developed a sophisticated survey instrument to measure the population’s general level of well-being. The Canadian health epidemiologist Michael Pennock had a major role in the design of the instrument, and uses (what he calls) a "de-Bhutanized" version of the survey in his work in Victoria, British Columbia.

Like many psychological and social indicators, GNH is somewhat easier to state than to define with mathematical precision. Nonetheless, it serves as a unifying vision for Bhutan’s five-year planning process and all the derived planning documents that guide the economic and development plans of the country. Proposed policies in Bhutan must pass a GNH review based on a GNH impact statement that is similar in nature to the Environmental Impact Statement required for development in the U.S.

While conventional development models stress economic growth as the ultimate objective, the concept of GNH is based on the premise that some forms of economic development are "uneconomic", a concept that is advanced by the nascent field of ecological economics. Such development costs more in loss of ecosystem services, and in the imposition of "urban disamenities," than it produces as a positive contribution to well-being. (The difficulty, of course, is that for many forms of development, the gains are taken privately, while the costs the development imposes are born generally and publicly.)

The Bhutanese grounding in Buddhist ideals suggests that beneficial development of human society takes place when material and spiritual development occur side by side to complement and reinforce each other. The four pillars of GNH are the promotion of sustainable development, preservation and promotion of cultural values, conservation of the natural environment, and establishment of good governance. At this level of generality, the concept of GNH is transcultural—a nation need not be Buddhist in order to value sustainable development, cultural integrity, ecosystem conservation, and good governance”.

Infelizmente não tenho tempo para traduzir essa interessante abordagem.

Resta mencionar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) criado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD/UNDP). Ele também se pretende um índice que seja usado ao lado do PIB. Inclui, além do desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social (programas de saúde e educação) e o desenvolvimento político (garantia de liberdades individuais).

Mas IDH alto não é garantia de felicidade – nem mesmo de bem-estar.

Se fosse, os ricos, que têm dinheiro, têm acesso a excelentes programas de saúde e educação, e têm seus direitos individuais geralmente respeitados, seriam todos felizes. Sabemos que nem todos são.

As seguintes questões estão postas para discussão:

1) É possível chegar a um consenso a respeito de uma definição operacional de felicidade?

2) Supondo que sim, será possível medir o grau de felicidade das pessoas de forma razoavelmente objetiva, que não dependa apenas do relato das pessoas, e que possa servir para a criação de um Índice de Felicidade Nacional?

3) Supondo que sim, haverá ações que um governo possa tomar para elevar o Índice de Felicidade Nacional de um país?

Em São Paulo, 6 de Junho de 2010

Em defesa do direito de não ser perfeito

A crônica de Ruy Castro hoje na Folha é perfeita – exatamente por defender o nosso direito de não ser perfeito.

Ruy Castro discorre sobre algo que foi dito por João Marcello Bôscoli – filho da quase perfeita (enquanto cantora) Elis Regina (e também filho de Ronaldo Bôscoli e enteado de Carlos Camargo Mariano). Gente que, se a genética vale alguma coisa, deve entender de música.

Leia abaixo a crônica.

Mas acrescento, como de praxe, meus comentários.

A indústria do software parece querer nos “salvar da imperfeição”.

Não sei se começou com Photoshop. Talvez não. Possivelmente Photoshop apenas colocou ao alcance de nós, mortais, o que já estava disponível para profissionais.

Lembro-me de como fiquei chocado, já há muito tempo, quando visitei a redação da Playboy, na Editora Abril, acompanhando alguns americanos que queriam fazer uma parceria com uma grande editora brasileira. Ali vi monitores de computadores enormes, de altíssima resolução, com software sofisticado operado com teclado, joystick e trackball, cuja função era remover as imperfeições das fotografadas da revista. O software, nas mãos hábeis dos artistas gráficos, removia barriguinhas salientes demais, aumentava e reconfigurava bumbuns pequenos demais (aos olhos das preferências masculinas típicas), reduzia, aumentava e endurecia seios, melhorava lábios, eliminava papadas e rugas, tirava manchas na pele, escurecia a foto quando ela mostrava (como diz o mineiro) “demais da conta”… Enfim: o software produzia uma versão fotográfica perfeita de uma fotografada fisicamente ou esteticamente imperfeita – como a Hortência, por exemplo.

Já existe, sei disso, um software que faz algo equivalente, não apenas em fotografias isoladas, como as da Playboy, mas com vídeo (para as novelas, por exemplo). Esse “software de rejuvenescimento” permite que atrizes sessentinhas possam aparecer em séries como “As Cinqüentinhas”… Ele rejuvenesce seqüências de fotos, no vídeo, on the fly. Faz nossas Reginas Duartes e Suzanas Vieiras aparecerem perfeitas nas novelas e séries – apesar das imperfeições que (do ponto de vista físico ou estético) as acometem (como a todo mundo que tem a ventura de não morrer jovem).

Agora vem Auto-Tune – o software que remove os desafinamentos do cantor. Mas não só isso: corrige também a respiração, as pausas, o volume de voz, o alcance, etc.. Fiquei otimista. Imaginei de imediato que versões futuras do software possam permitir que nossas vozes recebam o timbre do cantor de nossa escolha e, assim, eu possa, quem sabe, finalmente me sinastrizar: cantar My Way com a naturalidade e a beleza com que Ol’ Blue Eyes a cantava…  Ou cantar A Deusa da Minha Rua como Nelson Gonçalves… Ou possam me permitir tornar-me um travesti cantante, assumindo a voz de Maria Bethania cantando Roberto Carlos (As Canções que Você Fez pra Mim), ou, maior desafio ainda, Ney Matogrosso cantando Lupicínio (A Flor da Pele)…

Enfim: a indústria do software quer nos “salvar da imperfeição” e nos tornar, a nós humanos musicais, como os deuses da música… Perfeitos.

Mas Ruy Castro está na contra-corrente. Ele quer nos “salvar da perfeição”. Sua crônica é uma versão secular do livro Salvos da Perfeição: Mais humanos e mais perto de Deus, do pastor protestante Elienai Cabral Junior (vide http://www.ultimato.com.br/?pg=show_livros&util=1&registro=531 e também o blog do autor, O Blog do Elienai: http://elienaijr.wordpress.com/). Já comentei o livro do Elienai aqui, neste space, mais de uma vez. Elienai afirma que o Evangelho (contrário ao que acreditam e pregam alguns), nos salvou da necessidade de buscar a perfeição. Ele é a mensagem de um Deus que, sendo Deus, e, portanto, perfeito, se fez homem (assim, com “h” minúsculo, e, portanto, imperfeito), e, assim, ao se tornar homem, nos liberou do imperativo de nos tornarmos Deus, o único que era de fato perfeito (mas que, ao encarnar, optou pela imperfeição humana)… (A queda humana, segundo Gênesis 3:5, se deu porque o ser humano quis ser como Deus: a serpente tenta a mulher dizendo que, se ela e seu marido comerem do fruto proibido, “sereis como Deus”).

Enfim. Ruy Castro conclui: “O filho da cantora mais afinada do Brasil defende os desafinados no que eles têm de mais precioso: sua falível condição humana, essencial à obra de arte”.

Nossa falível condição humana, da qual, no Éden, tentamos desastrosamente fugir para sermos como Deus. O Deus do Velho Testamento nos condenou por tentar. O Deus do Novo, provavelmente já mais velho e de coração mais mole, vendo que queríamos ser como ele, optou por se tornar como nós…

Amém. Ou, como preferem alguns pregadores de TV, “Amém, amém e amém”.

Admiro a Maria Bethânia, portanto, por sua teologia – que, se Feuerbach, estava certo, é sempre antropologia. Ela se deixa envelhecer naturalmente, não esconde os cabelos brancos, as rugas, não faz plástica, não usa botox. Ela é o que ela é. Um ser humano. Uma cantora que, apesar dos anos, continua a ter uma voz e uma interpretação quase perfeitas, sem software, mas um rosto e um corpo que mostram que ela é humana como todos nós.

Eis a crônica do Ruy Castro.

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Folha de S. Paulo
5 de Junho de 2010

RUY CASTRO

Proibido não ser perfeito

RIO DE JANEIRO – No sábado último, em belo artigo, o Caderno 2 do "Estado" anunciou "A morte da voz humana". Nenhum exagero no título. O Auto-Tune -o software que "corrige" a afinação dos cantores- está criando padrões de perfeição inatingíveis para humanos, oferecendo a recompensa sem esforço e tornando dispensáveis a vocação, o talento e o mérito na música popular. "É como se Ronaldinho Gaúcho usasse uma chuteira que acertasse o gol por si. Treinar pra quê?", pergunta o autor.

O grito foi dado por quem tem toda autoridade para fazê-lo: João Marcello Bôscoli, 40 anos, músico, produtor e diretor de gravadora. Como se não bastasse, filho de Elis Regina e do compositor Ronaldo Bôscoli, um dos criadores da bossa nova, e que teve como padrasto o pianista César Camargo Mariano, com quem Elis se casou ao se separar de Bôscoli. Nunca houve gente mais exigente em música.

Para João Marcello, pior até do que dar afinação a quem não tem, o Auto-Tune está fazendo com a voz o que o Photoshop fez com a pele humana. Assim como o Photoshop "gerou um padrão estético onde poros, rugas de expressão, pelos e outras características se tornaram defeitos", o Auto-Tune passa o rodo e "corrige" tudo o que considera imperfeito no cantor: afinação, respiração, pausas, volume, alcance -sem se importar se pertencem à sua expressão e emoção.

Ele vai mais longe: "Hoje em dia tomamos remédio quando sentimos tristeza, comemos lixo pré-mastigado quando temos fome, dopamos as crianças quando estão agitadas, passamos horas no computador quando nossa vida parece desinteressante" etc. -e "usamos softwares de afinação quando temos um cantor desafinado".

O filho da cantora mais afinada do Brasil defende os desafinados no que eles têm de mais precioso: sua falível condição humana, essencial à obra de arte.

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Em São Paulo, 5 de Junho de 2010 (de madrugada)