Os candidatos e as pesquisas

Transcrevo da Folha de S. Paulo de hoje, 20/10/2010. Vale a pena ler. Faz pensar.

———-

MARCELO COELHO

O ópio dos candidatos

AINDA NÃO tinham inventado a telenovela, a megassena, o futebol e o crediário quando Marx chamou a religião de “ópio do povo”. E ele teria certamente reformulado um pouco suas opiniões se tivesse visto, por exemplo, os sorteios de carro 0 km nas festas de Primeiro de Maio.

Ainda assim, vale lembrar que a mistura entre política e religião, de que a campanha eleitoral no Brasil não é o exemplo mais extremo, tende a trazer muitos riscos para a democracia e para a paz. Para a minha paz de espírito, pelo menos.

Não digo isso apenas para repetir o velho princípio da “separação entre igreja e Estado”. Invocado dessa maneira, sem mais explicações, fica bastante abstrato.

Acho que dá para mostrar onde está o perigo dessa mistura. É que, a meu ver, política envolve compromisso e negociação. Não me refiro à detestável barganha de cargos no governo.

A menos que você queira transformar toda disputa em motivo para derramamento de sangue e em guerra pura e simples, política se faz com um mínimo de entendimento com o adversário. Você aprova determinados pontos de uma lei, mas não todos. Você admite que perdeu certa eleição. Você concorda em jogar para mais adiante alguns detalhes polêmicos, privilegiando aqueles sobre os quais é possível um acordo no momento.

A lógica da religião abomina, por natureza, esse tipo de atitudes. Cardeais num concílio podem discutir seus temas de teologia e chegar a consensos relativamente provisórios, adiando ou contornando assuntos espinhosos: estarão fazendo política entre eles, por certo.

Mas, quando determinado assunto se torna expressão de fé, não há como esperar que o religioso admita soluções de compromisso. Quanto mais religiosa for uma sociedade, menor o terreno para a transigência.

A separação entre igreja e Estado não nasceu pronta da cabeça de algum filósofo iluminista -foi a solução que se encontrou depois de que guerras religiosas entre católicos e protestantes ameaçaram dizimar, por mais de um século, países como Inglaterra, França e Alemanha.

E, se atualmente a grande maioria dos católicos e dos protestantes aceita conviver em um mesmo Estado ao lado de muçulmanos, israelitas, umbandistas, adeptos do candomblé e ateus, isso se deve ao fato de que foi possível, contra o desejo de muitos deles, chegar a um equilíbrio.

Ninguém, ou quase ninguém, dirá que o outro é seguidor do diabo, por mais que secretamente queira pensar assim. Pois, nesse caso, não há convivência possível: o diabo tem de ser destruído.

Não vou entrar na polêmica do aborto. Já escrevi a favor de sua descriminalização, apoio um plebiscito e entendo que se possa ser contra o aborto sem invocar nenhum dogma religioso. Embora a questão seja importantíssima para tantas igrejas, envolve considerações que ultrapassam, ou que são mais básicas, do que o ensinamento religioso.

A fé que eu gostaria de contestar, a esta altura da campanha eleitoral, é a fé nos marqueteiros e nas pesquisas de opinião. O maior obscurantismo não está na condenação ou na defesa do aborto. Está no fato de dois candidatos seguirem, como ovelhinhas, o que lhes recomenda a última estatística.

Convenhamos que nem Dilma nem Serra são pessoas religiosas. Que quando um comunga e a outra se persigna, estamos diante de um ritual que não engana ninguém. Serra e Dilma apóiam a lei vigente, que permite o aborto em casos específicos. Os dois, portanto, não são sempre contra o aborto; estão a léguas de distância dos eleitores que desejam conquistar.

Se fosse para fazer tudo o que os religiosos querem, os dois teriam de condenar a pílula, a camisinha e o divórcio. Simplesmente esses temas não apareceram no debate.

Se fizessem uma pesquisa sobre pena de morte, sobre construção da bomba atômica, sobre proibição da nudez nas praias brasileiras, o que diriam esses candidatos?

É fácil saber qual a religião de cada eleitor. Mas quantos homossexuais há no Brasil? Quantas pessoas já tiveram um aborto na família? Como se dividem suas preferências eleitorais? As pesquisas eleitorais não chegam a esse detalhamento.

As pesquisas, acho que já escrevi isso, são o ópio dos candidatos. A inteligência do país inteiro fica embotada nesse processo.

coelhofsp@uol.com.br

———-

Em São Paulo, 20 de Outubro de 2010

Duas magníficas crônicas da Mário Prata

Transcrevo, do site do autor:

As Meninas-Moça (O Estado de S. Paulo, 07/04/1999)

http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/prata990407.html

O que é isso, Ministro Paulo Renato? (O Estado de S. Paulo, 16/06/1999)

http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/prata990616.html

———-

O Estado de S. Paulo, 07/04/1999

As Meninas-Moça

Mário Prata

Não sei quantos anos tem a moça, nem o leite da moça. Mas, desde que eu me entendo por gente, que tem uma lata por perto. Com aquela moça com jeitão de suíça (se for búlgara, não faz a menor diferença). Embaixo, está escrito: indústria brasileira. Sim, não tem nada mais brasileiro do que o sempre bem-vindo leite condensado. Qualquer que seja a sua idade.

Sabe com o que as gordinhas sonham nos spas? Com elas. As latinhas condensadas. Não uma, que não sacia. Muitas moças, muitos leites moça.

Um furinho de cada lado, um maior onde vai a boca. E é só chupar que a moça entra dentro de você. Gostosa, macia. Quem já fez isso, sabe o delírio que é.

Quem é que nunca acordou de noite e foi até a geladeira, sem acender a luz da cozinha e, só com a penumbra da luzinha interna, levou a latinha até os lábios pra melecar a língua? Talvez tenha ido dormir com uma certa culpa. Mas tomou e não escovou o dente pra não cortar o barato.

Larica é larica. Vide dicionário.

Tou aqui nessa fissura porque o Leites Nestlé, o time de vôlei feminino de Jundiaí, que já foi tricampeão brasileiro, está fora da final. Por duas gotinhas, ou melhor, dois pontinhos.

Sim, o time feminino. Não ia pegar bem homens subindo na rede com as letras Leite Moça no peito peludo. Não, Leite Moça foi feito para flanar esparramado em seios esplêndidos, chacoalhando no ar, jornadando até as estrelas e viajando ao fundo do mar de nossas emoções.

Isso tudo para falar da estranha torcida das pessoas que gostam de moças, de leite, de Leite Moça. Ou seja, as pessoas, como eu, que gostam de vôlei. Principalmente o feminino, balé de braços, de loiras e altitudes mil. Não tendo nem Corinthians, nem Palmeiras pra torcer, torcer pra quem no vôlei feminino que nos bafeja com aquelas bundinhas divinamente proeminentes?

Quem, em sã consciência, vai torcer por um BCN, que é um banco? Impossível dizer: sou BCN desde pequenininho. E desodorante, gente? Imagina a torcida gritando: de-so-do-ran-te!

De-so-do-ran-te. Pelo amor de Deus!

E vocês acham que os universitários da USP, da PUC, da FAAP, da Federal do Rio, da Veterinária de Uberaba, da Odontologia de Lins, da Santa Marcelina, vão torcer para a Uniban? Universidade Bandeirantes?

Difícil. A UNE ia interferir.

Por mais que eu seja amigo do Felipe – colega de faculdade -, desculpa, Felipe, mas não dá pra torcer pra Petrobrás. Falta-lhe passado esportivo. E o Blue Life, que é uma expressão americana que não significa, absolutamente, vida azul? Vida azul é leite condensado.

Sacou?

Foi pensando nessas bobagens todas que eu fui descobrindo que todo mundo torce pelo Leites Nestlé, no vôlei feminino. É o Flamengo, o Corinthians da categoria. Tem Corinthians até no técnico. O sujeito chama-se Negrão.

Ando lendo por aí que a empresa está pensando em fechar o time. Mas como? Como é que fecham um time? Já pensou, um dia o diretor chega e diz: vamos fechar o Corinthians. Não pode, cara! Aqueles meninas-moças todas voando pela quadra já fazem parte da latinha das nossas recordações. E sonhos: a Leila, mineira como o leite, que deixou até os japoneses desatinados.

E as pernas da Karin, que saem de dentro da lata, como que convocadas pelo gênio das lâmpadas que iluminam as quadras e as redondilhas dos seus ataques fulminantes aos nossos corações torcedores? Onde ficam as pernas da Karin?

E o colorido tropical da americana Tara? E a Elena, que não é do Machado de Assis, e sim dos Gorkis e Gógols?

Não tenho nenhuma dúvida: o Leites Nestlé é o time “da lata”. E ponto.

———-

O Estado de S. Paulo, 16/06/1999

O que é isso, Ministro Paulo Renato?

Mário Prata

Saber que uma crônica minha, publicada aqui neste espaço, foi tema da prova de português num vestibular para medicina só me envaidece. O ego dá um pulo. Melhor até mesmo que um elogio no The New York Times (sorry, mas eu tinha de contar).

A crônica imposta aos jovens se chama As Meninas-Moça. Publicaram a danada inteira e depois fizeram oito perguntas em forma de múltipla escolha. E eu, que escrevi, que sou o autor, errei as oito. Imagino os meninos e as meninas, que querem ser médicos, submetidos a tal dissecação.

Fico aqui me perguntando, ministro, pra que isso? Será que, para cuidar de uma dor de cabeça, um jovem tem de saber se a minha expressão “esparramados em seios esplêndidos” é uma paráfrase, uma metáfase, uma paródia, uma amplificação ou o resumo de um texto bem conhecido pelo cidadão brasileiro? Com toda a sinceridade, ministro da Educação Paulo Renato, você sabe me responder isso? Algum assessor seu sabe?

A gente educa os filhos direitinho, ensina o que achamos fundamental. Educação, honestidade, indica bons livros, explica porque o Maluf é nefasto, pede para ele torcer pelo Corinthians, apresenta gente decente, paga milhões de reais por bons colégios, ensina inglês e até paga o analista. Para que ele tenha um bom futuro e seja feliz. Meus filhos sabem, por exemplo, o que é larica. Você também sabe. Mas, para ser médico, a larica é outra. Veja mais um exemplo da prova: “Larica é larica. Vide dicionário.” Aí, para ser médico, o jovem precisa saber se esta pequena frase é poética, fática, metalingüística, emotiva-expressiva, referencial, conativa ou apelativa? O que você acha, Paulo Renato? Eu, larica à parte (e bem-vinda), não faço a menor idéia.

Será que não teria sido melhor publicar a crônica (como foi feito) e pedir para a garotada escrever o que quisesse, o que achasse, o que bem entendesse do que eu entendi? Deixar o jovem manifestar a sua opinião, fazer a garota escrever no lugar de ficar ticando opções fáticas?

O título da vestibular crônica,
já disse, era As Meninas-Moça e eu me referia ao time feminino de vôlei da Leites Nestlé que ia acabar. Olha o que eles perguntaram aos alunos, sobre o título:

a – ao usar meninas-Moça, não flexionou no plural o segundo elemento porque criou um neologismo, processo que não se submete a normas da língua;

b – ao criar um novo vocábulo, não transgrediu as regras de flexão dos compostos;

c – usou uma flexão admissível porque o segundo elemento é um nome próprio feminino;

d – ao usar a expressão do composto, violentou a regra da língua que preconiza, para esse caso, a variação no plural para os dois elementos;

e – usou apropriadamente a forma meninas-Moça, visto que o segundo elemento tem função apositiva.

O que você acha, ministro? Eu, fico entre a e b. Mesmo porque eu não tenho a menor idéia do que seja uma função apositiva. E você, Paulo Renato, vota em quem? F, H, C? Ou A, C, M? Ou M, E, C?

E agora, meu querido ministro, só para terminar a aula, me diga, nas expressões abaixo, onde você identifica um exemplo de intertextualidade:

a – “… principalmente o feminino balé de braços, de loiras e altitudes mim”;

b – “Não, leite Moça foi feito para flanar esparramado em seios esplêndidos, chacoalhando no ar, jornadando até as estrelas”;

c – “Aquelas meninas-moças, todas voando pela quadra já fazem parte da latinha”;

d – “Embaixo, está escrito: indústria brasileira”;

e – “… que saem de dentro da lata como que convocadas pelos gênios das lâmpadas que iluminam.”

E agora, C, D, ou F?

Já disse lá atrás, ministro e organizadores da prova, que sinto-me sinceramente envaidecido com a escolha de um texto meu. Mas jamais poderia imaginar que, ao escrever uma crônica pensando naquelas coxas todas, naqueles seios esparramados pelas quadras, ao escrever um texto de olho na Karin, ao digitar uma crônica preocupado com o desemprego da minha namorada (que fazia parte da equipe) fosse dar tanta dor de cabeça para dezenas de milhares de jovens que querem apenas uma profissão digna para enobrecer este nosso País tão mal-educado.

Quanto às pernas da Karin, ministro, vá de a, b, c, d e fim de papo.

Sacou?

———-

Transcrito em São Caetano do Sul, 19 de Outubro de 2010

A Educação e a Vida: O Papel da Tecnologia

Transcrevo abaixo pequeno artigo que publiquei na Newsletter de Outubro de 2010 da Legozoom: Education for Life.

———-

“Educação Tecnológica” e “Tecnologia na Educação” são expressões com sentidos distintos. No primeiro caso, o foco está em “aprender a usar a tecnologia”; no segundo, em “usar a tecnologia para aprender”.

Mas para que devemos aprender a usar a tecnologia? E usamos a tecnologia para aprender o quê?

Para responder a essas perguntas, precisamos analisar os conceitos de educação e tecnologia.

Educação

Educação é o nome que damos ao processo de desenvolvimento humano.

O ser humano nasce inacabado: incompetente, sem saber fazer nada, ele é, e permanece por bom tempo, dependente, incapaz de assumir responsabilidade sobre sua vida.

Pela educação ele recebe acabamento e se torna competente e autônomo: capaz de definir seu projeto de vida e de lutar para transformá-lo em realidade.

Porque nascemos inacabados, podemos (dentro de limites) dar à nossa vida o acabamento que quisermos. É por isso que nossos projetos de vida são distintos. Precisamos de autonomia para escolhê-lo – e de competência para transformá-lo em vida vivida.

O desenvolvimento de autonomia e competências se dá pela aprendizagem. Aprender é construir capacidades, tornar-se capaz de fazer aquilo que, antes, não se conseguia fazer. Aprender é algo ativo e interativo. Seu objetivo é dominar o processo de fazer alguma coisa que se deseja fazer. E aprende-se a fazer fazendo, i.e., observando os outros fazerem, tentando imitá-los, recebendo estímulo e ajuda, aprimorando o processo, até que…

Assim, a educação não é algo que uns fazem sobre os outros. Mas também não nos educamos sozinhos. A educação é um processo interativo e colaborativo: nós nos educamos uns aos outros em comunhão uns com os outros no processo de construção de nossas vidas no mundo. Paulo Freire nos fez ver isso.

Tecnologia

A tecnologia é fruto da autonomia, da competência e da criatividade humana. Ela é aquilo que o ser humano inventa para tornar sua vida mais fácil ou agradável.

Há tecnologia-ferramenta que torna a nossa vida mais fácil. E há tecnologia-brinquedo que torna a nossa vida mais agradável. A primeira nos ajuda a viver. A outra nos dá razão para querer viver. E há tecnologia que é ao mesmo tempo brinquedo e ferramenta: ao nos divertir com ela, aprendemos coisas úteis.

Para que, então, devemos aprender a usar a tecnologia? Para tornar a nossa vida mais fácil ou agradável. São, em grande medida, as nossas tecnologias que nos diferenciam dos nômades que viviam da caça e da pesca há milhares de anos.

As tecnologias de informação e comunicação que hoje temos, centradas no computador, são extremamente relevantes para a aprendizagem, porque aprendemos interagindo – com pessoas, com informações, ou diretamente com o mundo.

Assim, aprendemos a usar a tecnologia porque, além de nos apoiar no trabalho e no lazer, ela nos ajuda a aprender mais e melhor.

Mas o computador não é a única tecnologia que existe.

Lego

Lego, por exemplo, é uma fascinante tecnologia. É brinquedo, criado para nos dar prazer. Mas também é ferramenta, que nos ajuda a aprender enquanto brincamos de construir coisas úteis. Um robô é um artefato útil. Robótica é a ciência e a arte de criar artefatos úteis, aparentemente inteligentes, que facilitam a nossa vida.

Em contextos educacionais Lego promove a união da “tecnologia na educação” com a “educação tecnológica”. Com Lego, aprendemos a resolver problemas e trabalhamos em colaboração. Para resolver problemas exercitamos nossa criatividade e engenhosidade, mas também nossa paciência e persistência, e nossa resiliência, que nos impede de desistir diante de dificuldades – bem como nossa capacidade de testar com método e rigor nossas conjeturas… Nesse processo, desenvolvemos a capacidade de ouvir os outros, de considerar com seriedade suas críticas, mas também de responder às críticas que não nos parecem bem fundamentadas…

Parece impossível que um projeto de educação tecnológica e de tecnologia na educação nos permita desenvolver e exercitar tantas competências… O fascínio sobre crianças e jovens e o impacto sobre a aprendizagem de uma tecnologia como Lego estão no fato de que Lego é brinquedo e ferramenta de aprendizagem: ao aprender a usar Lego, para enfrentar desafios e solucionar problemas, desenvolvemos nossas competências mais nobres e, assim, aprendemos a aprender melhor.

São Paulo, 3 de Setembro de 2010

Transcrito aqui em São Paulo, 19 de Outubro de 2010

“A proteção que atrapalha”

Transcrevo interessante artigo de Rosely Sayão na Folha de S. Paulo de hoje (19/10/2010).

———-

ROSELY SAYÃO
A proteção que atrapalha


O que fazemos com o ambiente da criança? Amaciamos o chão, aliviamos os cantos, retiramos os obstáculos


Muitas crianças com menos de seis anos vivem hoje, tanto em suas casas quanto nas escolas, em ambientes tão assépticos que se assemelham mais a hospitais do que a espaços habitados por gente sadia e plena de vida.

Aliás, pesquisadores já relacionaram o aumento de alergias entre crianças das classes média e alta com a falta de exposição delas aos germes do ambiente natural. É a chamada “alergia do isolamento”.

Hoje, escolas que querem seduzir os pais de filhos que estão na primeira infância se esmeram para apresentar um ambiente que consideram chamativo: limpo e claro, areia tratada (isso quando há areia), sem muitos obstáculos, tampouco terra e água.

O chão costuma ser macio e fofo -e para ser assim, precisa ser artificial. Fazem parte desse pacote a abundância de brinquedos de parque de plástico, muito coloridos.

Quando termina o período escolar, dá para se perguntar o que foi que a criança fez durante todo o tempo em que esteve na escola -já que muitas delas são entregues aos pais devidamente “higienizadas”.

Até mesmo o discurso escolar acompanha esse clima: as crianças não mais escovam os dentes ou lavam as mãos: elas “fazem higiene”. Que coisa mais louca!

Em casa, muitos pais até adotaram o costume oriental de deixar os sapatos à porta e só usar dentro de casa calçados destinados exclusivamente para esse fim.

Apetrechos dos mais variados tipos são comprados já no enxoval do bebê que irá nascer, para esterilizar tudo o que ele usa. O problema é que isso se estende por mais de um ano, quando a criança já engatinha, anda e faz a exploração dos espaços.

E isso costuma ser a melhor justificativa para tantos cuidados: afinal, nessa fase a criança adora conhecer as coisas pela boca, não é verdade? E como permitir que ela leve para a boca as sujeiras do ambiente?

Quando foi que esquecemos que criança combina com terra, água, vento e fogo?

O contato, o conhecimento e a exploração desses quatro elementos é muito importante para que ela crie um vínculo com a natureza, explore-a e aprenda, com essa relação, um pouco mais sobre si mesma e sobre seu corpo.

Mexer na areia e lambuzar-se com ela, brincar com a água e a terra, fazer barro e sentir sua consistência, experimentar seu sabor -por que não? Tomar banho de mangueira, sujar-se toda aos olhos dos adultos: tudo isso é possível ainda para a criança, mesmo nesse estilo de vida urbano que adotamos.

Mas, parece que escolhemos consumir um determinado tipo de cuidado com a saúde que não combina com nada disso, não é verdade?

E o que fazemos, então, com o ambiente em que a criança vive? Retiramos todo tipo de perigo possível: arredondamos os cantos, suprimimos as quinas, amaciamos o chão, retiramos os obstáculos como escadas e aclives ou declives pronunciados e outras coisas mais estranhas ainda.

Tudo para evitar que a criança corra algum risco. Até os brinquedos, agora, precisam ser adaptados à idade da criança!

Mas é bom saber que o tiro pode sair pela culatra. Começar a viver em ambientes tão diferentes da realidade apenas tolhe a vida da criança, limita as suas possibilidades de aprender sobre seu corpo e de explorar o meio em que vive. Isso também desestimula sua curiosidade e não a prepara para reconhecer riscos e saber quais podem ser enfrentados e quais devem ser evitados.

Não é à toa que temos tantas crianças que se machucam em situações que elas já deveriam controlar. É bem significativo o número de acidentes com crianças grandes que caem, quebram ossos, levam pontos etc. Elas pouco ou quase nada sabem a respeito do relacionamento delas com o ambiente em que vivem.

Também, depois de elas viverem tanto tempo enclausuradas em um mundo almofadado e asséptico, tal resultado não é nada espantoso.


ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)

———-

Em São Paulo, 19 de Outubro de 2010

Brincar, Aprender, Trabalhar: Enfim, Viver

Tradicionalmente a vida da gente era dividida em estágios – basicamente quatro estágios. Hoje esses estágios não fazem mais sentido.

O primeiro estágio, dos 0 aos 6 anos (inclusive), era o do Brincar. Nele, naturalmente, a gente brincava.

No meu tempo – nasci em 1943 – o brincar era totalmente não dirigido e descomprometido do aprender – e, naturalmente, do trabalhar.

Brincar era, na verdade, a essência da vida nesse estágio. E o brincar era, naturalmente, prazeroso – ou “fun”, como se diz em Inglês.

O segundo estágio, dos 7 aos 10/14/17/21 anos, era o do Aprender. Nele, imaginava-se, a gente aprendia.

Pressupunha-se, em relação a esse estágio, de forma tácita (não totalmente explicitada) uma série de coisas, como estas:

* O aprender nada tem que vem com o brincar, nem o brincar com o aprender;

* Diferentemente do brincar, o aprender é difícil e penoso, e, portanto, não prazeroso. Por isso, requer, da parte do professor, competências na área de comunicação, coordenação, controle e direção, e, da parte do aluno, atenção, esforço, disciplina e obediência;

* Aprender é um processo em larga medida passivo, por parte do aluno, visto que requer que ele fique quieto e preste atenção ao que o professor diz, para absorver e assimilar as informações que o professor transmite, fazendo uso, quando já domina a leitura e a escrita, de leituras suplementares (feitas em casa) e anotações em classe.

Os sete anos representavam um marco importante para a criança. Era com essa idade que ela entrava na Escola Primária. E entrava na escola sem ter antes freqüentado qualquer outra instituição que se assemelhasse à escola: Pré-Primário, Infantil, Jardim da Infância, Maternal, Creche…

Eu, que era protestante (presbiteriano), freqüentava, religiosamente (desculpem o trocadilho), a Escola Dominical. Mas esta era diferente. Além de só acontecer aos Domingos de manhã, ocupava-nos por apenas cerca de uma hora e meia cada Domingo.

Assim, o ingresso na Escola Primária representava, para a maioria absoluta das pessoas, um rito de passagem: a transição do estágio desestruturado, alegre, e livre do brincar, em que a criança era não só ativa, mas protagonista dos seus brinquedos, para o estágio estruturado, doloroso, tedioso, e cativo do aprender, em que a criança era passiva, alvo da ação do professor – equiparando-se muito mais a um figurante do que a um protagonista.

Esse segundo estágio tinha duração variada. Por muito tempo, e para muita gente, durava no máximo quatro anos – duração da Escola Primária. Esta, num determinado momento, tornou-se obrigatória. Para uns poucos, a escolaridade durava oito anos: além do Primário, cursavam o Ginásio, com duração também de quatro anos. O Ginásio era o Primeiro Ciclo do Ensino Médio dessa época.

Mais recentemente, o Primário e o Ginásio foram meio que grudados um ao outro, passando a se chamar, durante o Regime Militar, Ensino de Primeiro Grau – que, ainda mais recentemente, já na chamada Nova República, se tornou Ensino Fundamental. Sua duração, até bem recentemente, era de oito anos – a soma de quatro mais quatro. Há muito pouco tempo, o Ensino Fundamental ganhou um ano adicional, passando o seu Primeiro Ciclo (equivalente à Escola Primária antiga) a ter cinco anos e o Segundo Ciclo (equivalente ao Primeiro Ciclo do Ensino Médio da escola antiga), quatro.

Os realmente privilegiados, no meu tempo, cursavam também o Ensino Secundário, equivalente ao Ensino de Segundo Grau do tempo dos militares e ao Ensino Médio de hoje. O Ensino Secundário daquela época era dividido em três trilhas: o Científico, o Clássico, e o Normal (para quem queria ser Professor Primário – uma profissão eminentemente feminina então, e ainda agora). E havia, em trilha paralela, os Cursos Técnicos, que eram profissionalizantes.

No Regime Militar institui-se o Ensino de Segundo Grau (Ensino Médio) obrigatoriamente profissionalizante. Parece que os militares imaginavam que, obrigando os jovens de 14 ou 15 anos a estudar um curso profissionalizante, eles não perderiam muito tempo estudando Filosofia e Sociologia, disciplinas que eram consideradas verdadeiras fábricas de subversivos pelos militares (que preferiam que os alunos estudassem a rala e patriótica Educação Moral e Cívica). Mas o projeto não deu certo. As classes mais altas protestaram, porque queriam que seus filhos tivessem um curso de natureza geral que os preparasse para a universidade… Assim, pouco tempo depois, ainda durante o Regime Militar, o Segundo Grau (Ensino Médio) deixou de ser obrigatoriamente profissionalizante.

Ao Ensino Superior tinha acesso, até bem pouco tempo, apenas “la crême de la crême”, a elite das elites.

Por isso, a duração do segundo estágio era de quatro, oito, onze, ou quinze anos – dependendo de seu ponto final. Por um tempo, até o Regime Militar, apenas quatro anos eram obrigatórios. Depois passaram a oito anos. Agora são nove. E há propostas de tornar todos os doze primeiros anos obrigatórios.

O terceiro estágio começava onde o segundo se encerrava. Era o longo estágio do Trabalhar. Terminava com a aposentadoria, lá pelos 50 a 60 anos (ou, prematuramente, com a morte).

Neste estágio o indivíduo iria colocar em prática ou utilizar aquilo que aprendeu no segundo estágio.

Pressupunha-se que o Trabalhar era ainda menos prazeroso e mais penoso do que o Aprender e que exigiria, portanto, mais estruturação e controle por parte dos supervisores e mais obediência e atenção por parte dos trabalhadores.

Depois da aposentadoria vinha o quarto estágio, em que a pessoa, de certo modo, retorna ao estágio inicial. Tendo completado todo o ciclo, ela está mais uma vez livre para brincar e descansar.

Como disse acima, hoje esses estágios não fazem mais sentido. Aprendemos o tempo todo – aprendemos enquanto brincamos e enquanto trabalhamos. E o trabalho, além de ser um ambiente importante de aprendizagem, deve ser também algo que nos interessa, motiva, e nos torna felizes: e esse é o sentido permanente de brincar.

Em São Paulo 18 de Outubro de 2010

Internet Archive: The WayBack Machine

Arquivo da Internet: A Máquina para Voltar no Tempo.

Mencionei em post anterior, mas aqui quero dedicar a esse site um post separado. Recomendo, sem reservas, o Internet Archive – The WayBack Machine (http://www.archive.org/web/web.php). Ele mantém cópias de muitos sites que já desapareceram ou foram modificados.

Confira.

Veja, por exemplo, www.mindware.com.br, que é o site de minha empresa. Eles têm todas as alterações nesse site deste 1998. Dá até vergonha ver o que eu tinha como site de minha empresa em 1998, um ano depois de ela ter sido criada em Junho de 1997.

(O nome fantasia de minha empresa era, e continua sendo, Mindware – embora eu tenha mudado o que vem depois do MindWare… Originalmente era MindWare Editora. Hoje uso MindWare – EduTec.Net).

O que mais me admira no Internet Archive foi o sentido histórico que esse pessoal teve, lá atrás, em 1996 (no século passado!), de preservar versões anteriores de site que se modificam constantemente, ou de preservar sites que por alguma razão despaceram.

Eis como eles descrevem o site:

“Browse through over 150 billion web pages archived from 1996 to a few months ago. To start surfing the Wayback, type in the web address of a site or page where you would like to start, and press enter. Then select from the archived dates available. The resulting pages point to other archived pages at as close a date as possible. Keyword searching is not currently supported.”

150 bilhões de páginas armazenadas… Quase 30 páginas para cada habitante do planeta!

A importância desse site para a pesquisa histórica, para a história da Internet, etc., é simplesmente fantástica.

Entre lá e veja, por exemplo, quantas vezes a Microsoft já alterou seu site (www.microsoft.com). Investigue o ano em que ela fez mais alterações em seu site…

Como dizia Aurélio Campos, o céu é o limite.

Em São Paulo, 16 de Outubro de 2010

 

A mudança do Live Spaces para o WordPress

Já deixei claro em diversos lugares que, embora não achasse o Microsoft (ou Windows, ou MSN) Live Spaces “um micro” (foi assim que meu amigo Julio de Angeli o designou no Facebook), acho que, sistema de blog por sistema de blog, o WordPress é superior, e, assim, saímos ganhando com a decisão da Microsoft de migrar o Microsoft Live Spaces para o WordPress.

O WordPress criou um blog sobre essa migração: http://pt.blog.wordpress.com/2010/09/27/bem-vindos-bloggers-do-windows-live-spaces/.

Este post contém inúmeros comentários críticos à migração em si e ao modo em que foi feita.

As críticas à migração em si dizem respeito, em geral, ao fato de que o Microsoft Live Spaces, embora inferior como plataforma de blog, permitia que a gente tivesse, ao lado do blog, álbuns de fotografias, diversas listas de preferências (de outros blogs, de filmes, de músicas, de livros, etc.), uma mini-janela com o Windows Live Player, listas de amigos, livro de ouro com comentários gerais ao blog em si (e não aos posts específicos do blog), etc.

Às críticas ao processo dizem respeito, em geral, ao fato de que o sistema de migração criado, embora perfeito na migração do blog e das fotos inseridas nos posts, não migrou as outras coisas mencionadas no parágrafo anterior. Pior do que isso: depois de migrado o blog, tornou-se muito difícil acessar essas outras coisas no site antigo, porque o URL do site antigo foi usado para redirecionar para o novo blog no WordPress.

Compartilho da maioria dessas críticas.

Na verdade, fui meio precipitado ao fazer a migração sugerida e fiquei meio desesperado quando vi que minhas janelas (extra-blog) sobre “Meu Credo Liberal”, “Meus Filmes Favoritos”, etc., não haviam sido migradas e pareciam ter simplesmente desaparecido.

Na realidade, não desapareceram. Essas janelas, junto com os álbuns de fotografia, as listas de amigos, etc., continuam disponíveis. O que desapareceu foi o URL master que dava acesso a elas. Sub-URLs (longos e complicados) ainda dão acesso a essas coisas.

Descobri, no processo de tentar encontrar meu blog antigo (pré-migração), que o Google tem uma ferramenta interessante, chamada Google Cache, que dá acesso a URLs ou endereços que você acessou recentemente na Internet, mas que, agora, sumiram. Bastou colocar na janela de busca do Google “cache: ec.spaces.live.com” (no meu caso) para encontrar uma cópia do site antigo, antes da migração. (Hoje, passados vários dias, isso já não funciona). Assim recuperei o material que não havia sido migrado e que estava aparentemente perdido (e o coloquei como “Páginas” – não “Posts” – no blog do WordPress).

Assim, quem me salvou de um processo de migração mal feito (porque incompleto), impedindo que eu perdesse material importante para mim, foi o principal concorrente da Microsoft – a sua nêmesis, Google. Thank you, Google. E mais cuidado da próxima vez, Microsoft.

(A propósito, o site Internet Archive – The WayBack Machine (http://www.archive.org/web/web.php) tem cópia de muitos sites que já desapareceram ou foram modificados. Confira. Veja, por exemplo, www.mindware.com.br, que é o site de minha empresa. Eles têm todas as alterações nesse site deste 1998).

Em São Paulo, 16 de Outubro de 2010

É o embrião um ser vivo?

Na minha metadiscussão da presente discussão do aborto (http://liberalspace.net/2010/10/15/metadiscusso-da-presente-discusso-do-aborto/) caracterizei três textos que apareceram na Folha de S. Paulo de 14/10/2010 como metadiscussão, e não como discussão, do aborto. Contardo Calligaris prometeu para depois uma discussão do aborto. Antonio Cícero, porém, se antecipa a ele na Folha de S. Paulo de hoje – e, de lambuja, acrescenta mais uma referência bibliográfica que parece ser interessante: o livro do filósofo francês Francis Kaplan O Embrião É um Ser Vivo?, que também pretendo comprar. 

Transcrevo o texto de Antonio Cícero, porque vale a pena ler. É um exemplo claro do que uma discussão racional e despaixonada do tema pode ser. E dá uma resposta à pergunta que levantei no meu post “O liberalismo e o aborto” (http://liberalspace.net/2010/10/15/o-liberalismo-e-o-aborto/), ao discutir a atual legislação brasileira sobre o aborto: Por que a vida da mãe é mais importante do que a do feto?

Se você tem interesse na questão, leia o artigo de Antonio Cícero, filósofo respeitado.

Aguardo ansioso a discussão que Contardo Calligaris prometeu fazer do assunto.

———-

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1610201035.htm

Folha de S. Paulo

16 de Outubro de 2010

ANTONIO CICERO

A questão do aborto


Quem se opõe à descriminalização do aborto defende não a vida, mas uma crença religiosa


Se não me engano, algum tempo atrás Lula previu que, nas eleições deste ano, todos os candidatos à Presidência seriam de esquerda. De fato, os três mais votados candidatos do primeiro turno, logo, os dois do segundo, são considerados de esquerda.

Serão mesmo? Pensaria o contrário quem, sem nada saber dos candidatos, visse as fotos diárias que a imprensa publica de cada um deles a assistir à missa; ou suas declarações de fé; ou suas confraternizações com pastores e políticos evangélicos; ou as promessas de obediência que fazem a líderes religiosos; ou suas renegações da proposta da descriminalização do aborto…

Dois dias atrás, afirmando que uma eleição é o pior momento para debater qualquer questão que seja, Contardo Calligaris postergou uma discussão sobre o aborto. Acho que ele estava certo. Contudo, tendo lido inúmeros ataques à tese de que o aborto deve ser descriminalizado, mas nenhum argumento a favor dela, resolvi lembrar aqui alguns que me parecem decisivos.

E, para mim, os argumentos mais decisivos são os do filósofo francês Francis Kaplan no seu livro “O Embrião É um Ser Vivo?”, por ele resumidos em entrevista que a Folha publicou em abril de 2008.

Segundo Kaplan, deve-se distinguir entre “estar vivo” e “ser um ser vivo”. Um ser vivo não é apenas um ser que tem funções (pois várias partes do ser vivo têm funções), mas um ser que tem todas as funções necessárias para estar vivo. Assim é um ser humano, por exemplo. Já o olho do ser humano, na medida em que lhe faculta enxergar, está vivo, mas não é um ser vivo. O olho está vivo somente na medida em que faz parte do ser vivo que é o ser humano.

Assim também o embrião está vivo somente enquanto parte de outro ser vivo, que é a sua mãe. Por si mesmo, “as funções vitais de que ele precisa para estar vivo são as da mãe. É graças à função digestiva da mãe que ele recebe o alimento, que pode usar somente por lhe chegar previamente digerido pela mãe; é graças à função glicogênica do fígado da mãe que ele recebe a glicose; é graças à função respiratória da mãe que os glóbulos vermelhos de seu sangue recebem o oxigênio; é graças à função excretória da mãe que ele expulsa materiais prejudiciais, dejetos que, de outro modo, o envenenariam”.

E mais: “Não é o embrião que se desenvolve: é a mãe que, por meio da produção da serotonina periférica no sangue, determina, durante mais da metade da gestação, o desenvolvimento neurobiológico e a viabilidade futura do organismo que carrega”.

Kaplan explica, ademais, que, pelo menos até o terceiro mês da concepção, o feto não tem atividade cerebral. Acontece que, como ele observa, “um homem sem atividade cerebral é considerado clinicamente morto”. Ora, “o prazo de três meses é o prazo dentro do qual a maioria das mulheres que quer abortar aborta, mesmo que possam legalmente fazê-lo mais tarde”.

Dito isso, vê-se que não é totalmente verdadeiro, como se supõe às vezes, que o embrião esteja para uma criança como uma semente para uma árvore ou um ovo para uma ave. Uma semente largada na terra pode tornar-se uma árvore; e um ovo pode, sendo incubado, tornar-se uma ave; um embrião, porém, não é capaz de se tornar uma criança fora do corpo da mãe.

Se, portanto, não se pode comparar a destruição de uma semente com a derrubada de uma árvore nem se pode comparar quebrar um ovo com matar uma ave, menos ainda se pode comparar o aborto, como querem alguns religiosos, com o assassinato de uma pessoa. Que pensar então da tese de que a vida da mãe não vale mais que a do feto?

Diga-se a verdade: quem se opõe à descriminalização do aborto defende não a vida, como alega, mas sim uma crença religiosa segundo a qual nem o prazer sexual pode ser um fim em si mesmo nem o ser humano é dono de si próprio ou do seu corpo.

Ora, cada qual tem o direito à crença religiosa que bem entender, mas o Estado, que deve ser laico, não pode adotar nenhuma delas em particular.

Nenhuma mulher recorre ao aborto por prazer, mas por sofrimento e para evitar ainda maior sofrimento para si, para sua família e para a criança que nasceria.

É uma grande crueldade que o Estado penalize ainda mais justamente as mulheres pobres que, sem recursos, são obrigadas a praticar o aborto nas piores condições imagináveis.

———-

Em São Paulo, 16 de Outubro de 2010

O liberalismo e o aborto

O liberalismo defende a tese de que o estado deve ser mínimo. Essa tese (já discutida aqui várias vezes, a mais recente no post “Os múltiplos tentáculos do estado”, de ontem http://liberalspace.net/2010/10/14/os-mltiplos-tentculos-do-estado/), postula que ao estado só cabe cuidar (e consequentemente legislar e administrar o cumprimento das leis) nas áreas de segurança interna (função policial) e segurança externa (função militar).

O liberal defende um estado laico. A tese liberal acarreta a separação do estado da religião (e da saúde, da educação, etc.).

Consequentemente, para o liberal não cabe ao estado legislar sobre questões morais acerca das quais as pessoas podem, racional e legitimamente, diferir.

Dentro dessa visão, não cabe ao estado legislar acerca de controle da natividade, casamento e divórcio, etc.

O aborto é um caso diferente, porque não se trata apenas de uma questão moral. Se a vida começa na concepção e a vida que tem início ali já deve ser considerada uma pessoa humana (como pretendem os católicos e muitos protestantes), o aborto envolve assassinato – e a lei já proíbe (corretamente) o assassinato.

O problema é que, no caso brasileiro, a lei já abre exceções. Ela permite o aborto quando a gestação é decorrente de estupro e quando a continuidade da gestação coloca em risco a vida da mãe. Ou seja: a se manterem as premissas católicas e de muitos protestantes, a porta para exceções ao crime de assassinato já está aberta: a lei admite o assassinato do feto nesses casos. (Por que a vida da mãe é mais importante do que a do feto?) E a lei já admite exceções de culpabilidade para casos de assassinato em legítima defesa, por exemplo. Ou em guerra.

A admissão dessas exceções abre a porta para discussão de outros casos em que uma exceção poderia ser contemplada. O caso limite seria aquele em que a mãe simplesmente não quer a criança. Vide o post anterior, em que descrevo a posição do Aníbal Faúndes e vide o caso mencionado pelo Contardo Calligaris.

A questão do aborto, portanto, não é, para o liberal, uma questão simplesmente moral. Porque pode envolver assassinato, ou exceções à lei que proíbe assassinato, é uma questão jurídica complexa, em que se admitem posições constrastantes.

Em São Paulo, 15 de Outubro de 2010

A referência bibliográfica do Calligaris sobre o aborto

No finzinho do artigo do Calligaris na Folha de S. Paulo de ontem (14/10/2010), que eu transcrevi em outro post, ele recomenda a leitura de um livro sobre o aborto.

Diz ele:

“Depois desse preâmbulo, talvez eu consiga, numa coluna futura, escrever sobre a questão do aborto. Enquanto isso, eis uma leitura que recomendo a todos os que preferem pensar a gritar: O Drama do Aborto: Em Busca de um Consenso, de dois médicos, A. Faúndes e J. Barzelatto (Komedi). Sobre o tema, talvez esse seja o escrito mais honesto, menos tendencioso e mais generoso que já li.”

Não li esse livro específico, mas conheco o Faúndes. Fui colega dele na UNICAMP por vários anos e trabalhamos juntos na Secretaria Estadual da Saúde, quando o Pinotti era secretário (1987-1990). O Faúndes é chileno e médico obstetra e ginecologista. Admiro muito a pessoa, especialmente sua coragem. Uma vez ele deu uma entrevista a um jornal e disse que ele, dependendo das circunstâncias, fazia abortos, mesmo fora das condições que a lei atual prevê. Levou um monte de bordoada, foi até ameaçado de processo e censura da UNICAMP, mas (acredito) nada acabou acontecendo. Afinal, estamos no Brasil. Mas a coragem dele de admitir publicamente e sem tergiversações as suas convicções e as suas ações, coerentes com suas convicções, sempre foi objeto de minha grande admiração.

Na década de 80, quando estávamos os três na Secretaria da Saúde, publicamos um livro em co-autoria: Uma Nova Estratégia para a Área Social (São Paulo, 1988; José Aristodemo Pinotti, Eduardo O C Chaves e Anibal Faundes).

Vou procurar o livro que o Calligaris recomenda e comprar – apesar de não acreditar que um consenso seja alcançável “na espécie”, como dizem os advogados.

Em São Paulo, 15 de Outubro de 2010