Luís Inácio Lulla da Silva vs Orlando Zapata Tamayo

Transcrevo abaixo três matérias sobre a pusilanimidade de Lulla em Cuba, quando falou sobre a morte de Orlando Zapata Tamayo. O primeiro é um Editorial do Estadão, datado de 26/2/2010. O segundo, um Editorial da Folha, de 27/2/2010. E o terceiro, um post de 26/2/2010 de Reinaldo Azevedo em seu blog (que também transcreve o Editorial do Estadão).

Lulla culpa a vítima pela violência que lhe foi perpetrada. Mostrou-se incapaz do mais elementar sentimento de humanidade por alguém que se batia pela liberdade, ao pedir democracia para Cuba.

Será que esse indivíduo arrogante e ao mesmo tempo simplório, que não tem pejo de dizer “ah, como seria bom o mundo se todos fossem iguais a mim…” Antes de cantava uma música chamada “Se todos fossem iguais a você”. Algum compositor puxa-saco deve compor “Se todos fossem iguais a mim”…

Que coisa ridícula. Que vergonha. Espero que Le Monde, que lhe outorgou o título de Homem do Ano, publique o que ele disse – e a forma arrogante e insensível em que o disse.

Outros comentários são dispensáveis.

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http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100226/not_imp516523,0.php 

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-em-cuba-cinismo-deslavado/ 

Editorial de O Estado de S. Paulo de sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lula em Cuba: cinismo deslavado

Do lado dos perpetradores

São de um cinismo deslavado os comentários do presidente Lula sobre a morte do ativista cubano Orlando Zapata Tamayo, ocorrida horas antes de sua quarta visita à ilha desde que assumiu o governo. Tamayo, um pedreiro de 42 anos, foi um dos 75 dissidentes condenados em 2003 a até 28 anos de prisão. Inicialmente, a sua pena foi fixada em 3 anos. Depois, elevada a 25 anos e 6 meses por delitos como “desacato”, “desordem pública” e “resistência”. Embora não fosse um membro destacado do movimento de direitos humanos em Cuba, a Anistia Internacional o incluiu na sua lista de “prisioneiros de consciência” ? vítimas adotadas pela organização por terem sido detidas apenas por suas ideias. Em dezembro, Tamayo iniciou a greve de fome por melhores condições para os 200 presos políticos do regime, da qual morreria 85 dias depois.

Lula conseguiu superar o ditador Raúl Castro em matéria de cinismo e escárnio. Este disse que Tamayo “foi levado aos nossos melhores hospitais”. Na realidade, só na semana passada, já semi-inconsciente, transferiram-no do presídio de segurança máxima de Camaguey para Havana. E só na segunda-feira foi hospitalizado. O desfecho foi tudo menos uma surpresa para os seus algozes. Dias antes, autoridades espanholas haviam manifestado a sua preocupação com a situação de Tamayo, numa reunião sobre direitos humanos com enviados de Cuba. Ele morreu porque o deixaram morrer. Poderiam, mas não quiseram, alimentá-lo por via endovenosa. “Foi um assassínio com roupagem judicial”, resumiu Elizardo Sánchez, líder da ilegal, mas tolerada, Comissão Cubana de Direitos Humanos.

Já Lula como que culpou Tamayo por sua morte. Quando finalmente concordou em falar do assunto, sem disfarçar a irritação, o autointitulado condutor da “hiperdemocracia” brasileira e promulgador recente do Programa Nacional de Direitos Humanos, disse lamentar profundamente “que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome”, lembrando que se opunha a esse tipo de protesto a que já tinha recorrido (quando, ainda sindicalista, foi preso pelo regime militar). Nenhuma palavra, portanto, sobre o que levou o dissidente a essa atitude temerária: nada sobre o seu encarceramento por delito de opinião, nada sobre as condições a que são submetidos os opositores do regime, nada sobre o fato de ser Cuba o único país das Américas com presos políticos. Nenhum gesto de desaprovação à violência de uma tirania.

Pensando bem, por que haveria ele de turvar a sua fraternal amizade com os compañeros Fidel e Raúl, aborrecendo-os com esses detalhes? Ao seu lado, Raúl acabara de pedir aos jornalistas que “os deixassem tranquilos, desenvolvendo normalmente nossas atividades”. Lula atendia ao pedido. Afinal, como observara o seu assessor internacional Marco Aurélio Garcia, “há problemas de direitos humanos no mundo inteiro”. Mas Lula ainda chamou de mentirosos os 50 presos políticos que lhe escreveram no domingo para alertá-lo da gravidade do estado de saúde de Tamayo e para pedir que intercedesse pela libertação deles todos. Quem sabe imaginaram, ingenuamente ou em desespero de causa, que o brasileiro pudesse ser “a voz em defesa da proteção da vida aos cubanos”, como diria o religioso Dagoberto Valdés, um dos poucos opositores da ditadura ainda em liberdade na ilha.

Lula negou ter recebido a correspondência. “As pessoas precisam parar com o hábito de fazer cartas, guardarem para si e depois dizerem que mandaram para os outros”, reclamou. E, com um toque de requinte no próprio cinismo, concluiu: “Se essas pessoas tivessem falado comigo antes, eu teria pedido para ele parar a greve e quem sabe teria evitado que ele morresse.” À parte a falta de solidariedade humana elementar que as suas palavras escancararam ele disse que pode ser acusado de tudo, menos disso, a coincidência da visita de Lula com a tragédia de Tamayo o deixou exposto aos olhos do mundo e não exatamente da forma que tanto o envaidece.

A morte de um “prisioneiro de consciência”, a afirmação de sua mãe de que ele foi torturado e o surto repressivo que se seguiu com a detenção de dezenas de cubanos para impedir que comparecessem ao enterro do dissidente no seu vilarejo natal transformam um episódio já de si sórdido em um escândalo internacional. Dele, Lula participa pela confraternização com os perpetradores de um crime continuado que já dura 51 anos.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2702201001.htm

Folha de S. Paulo
27 de Fevereiro de 2010

Editorial

Lamentável

Diante da decrépita ditadura cubana, governo Lula continua, conforme o lema de Che Guevara, "sin perder la ternura jamás"

PELA QUARTA vez em seu mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se dispôs a endossar, entre sessões de fotos, tapinhas nas costas e desconversas macunaímicas, o mais ditatorial regime
do hemisfério americano.

Sua visita a Cuba, nesta semana, ocorreu num momento especialmente sombrio. O dissidente Orlando Zapata, depois de uma greve de fome de 85 dias, acabava de morrer. Ativista em prol dos direitos humanos, Zapata fora preso em 2003, numa investida repressiva que levou outros 75 opositores à prisão.

"Foi condenado a três anos", disse o dirigente Raúl Castro, adiantando-se às perguntas dos jornalistas que acompanhavam a visita de Lula. "Foi levado aos nossos melhores hospitais, morreu. Lamentamos muito."

O assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, ecoou solenemente as palavras do ditador: "É lamentável, como disse o presidente Raúl".

Há muita coisa lamentável, com efeito, nesse episódio. Lamentáveis, por exemplo, parecem ser os conhecimentos de aritmética de Raúl Castro, que não explicou de que modo alguém condenado a três anos de prisão em 2003 continuava entre as grades em 2010. Segundo a Anistia Internacional, a pena do dissidente se elevara a mais de 25 anos de detenção, com base nas prolíficas estipulações da legislação cubana para casos desse tipo.

O código criminal cubano prevê, por exemplo, o "estado de periculosidade", definido como "propensão de uma pessoa para cometer crimes, demonstrada por conduta manifestamente em contradição com as normas da moralidade socialista".

Manifestações consideradas ofensivas às autoridades constituem crime de "desacato", levando a um ano de prisão. Se voltado contra os principais dirigentes do regime, o "desacato" acarreta a triplicação da pena. A culpa pela morte de Zapata, prosseguiu Raúl Castro, deve ser atribuída "à confrontação que temos com os Estados Unidos".

A base de Guantánamo, onde o governo George W. Bush confinou suspeitos de terrorismo, seria o único lugar da ilha onde se pratica tortura. "Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro", acrescentou placidamente Marco Aurélio Garcia.

É o clássico expediente de voltar contra outro país as acusações que se referem, especificamente, à tirania que se quer apoiar. É inegável que Bush maculou as tradições democráticas de seu país a pretexto da "guerra contra o terror". É também evidente que nunca faltou, nos EUA, liberdade para protestos contra o governo -coisa impensável sob o sistema castrista.

Fortalecer as relações comerciais com Cuba e apoiar a suspensão do contraproducente embargo norte-americano ao país são atitudes corretas da diplomacia brasileira.

Nada disso se confunde com a revoltante "ternura", para lembrar o célebre dito de Che Guevara, que o governo Lula "não perde jamais" quando se trata de emprestar apoio a um regime decrépito, ditatorial e homicida.

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Blog de Reinaldo Azevedo

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-tenta-dar-alcance-etico-a-pusilanime-cumplicidade-com-a-tirania-cubana/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+ReinaldoAzevedo+%28Reinaldo+Azevedo%29

LULA TENTA DAR ALCANCE ÉTICO À PUSILÂNIME CUMPLICIDADE COM A TIRANIA CUBANA

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010 | 22:07

Vi há pouco Lula no Jornal Nacional, durante entrevista concedida em El Salvador. Com o cenho fechado, certa gravidade no tom de voz, medindo as palavras — UM DIA DEPOIS DE TER CULPADO ORLANDO ZAPATA POR SUA PRÓPRIA MORTE —, disse como seria bom o mundo se todos fossem iguais a ele. Lula é a musa e o Vinicius de Moraes de si mesmo… Bem, nenhuma dúvida sobre isso. Depois do teocentrismo e do antropocentrismo, temos uma nova medida de todas as coisas: o “lulocentrismo”. Ninguém, deu pra depreender de sua fala, tem mais apreço pela democracia do que ele próprio.

É… Assim não é, ainda que lhe parecesse. Porque, de fato, nem ele deve acreditar no que diz. Tentando justificar sua pusilanimidade sobre a violência em Cuba, disse ter aprendido “a não dar palpite no governo dos outros”. Alguém lhe cobrou “palpite”? Não! Bastava uma palavrinha genérica em defesa da democracia, em vez de se comportar como mero espectador do espetáculo grotesco protagonizado por Raúl Castro, o homicida compulsivo, que culpou os EUA pela morte de Zapata.

E quem disse que ele não dá palpite no governo e na política alheias? Honduras que o diga. Lula liderou o esforço — mais do que Hugo Chávez — para impor sanções internacionais àquele pequeno país, que havia posto fora do poder, segundo a sua Constituição democrática, um golpista. Contentou-se com isso? Não! Ajudou a  plantar Manuel Zelaya na embaixada brasileira, levando ao país o risco de uma guerra civil.  Depois, tentou sabotar as eleições, que transcorreram num clima de absoluta legalidade. Ainda era pouco: na formação da tal comunidade de países da América Latina e do Caribe, impôs condições ao governo hondurenho: o país só será aceito se Zelaya, o golpista, for reintegrado à política. Lula não exige nada é da tirania cubana.

A fala de hoje não passou de uma tentativa de engrolar uma desculpa para a estupidez que dissera ontem. A exemplo daquela charge que publiquei aqui, Lula fez questão de partilhar com os irmãos Castro a banheira de sangue em que se deleitam.

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Em São Paulo, 27 de Fevereiro de 2010

Morando com mamãe

Interessante a matéria do Ruy Castro na Folha de hoje (22/2/2010). Ele compara os jovens e jovens adultos de hoje com os de 42 anos atrás, em 1968.  Em 1968 eu tinha 25 anos e estava casado. Mas deixei a casa de meus pais no início de 1961, quando eu tinha 17 anos. Hoje, o pessoal se casa muito mais tarde e fica morando com mamãe até os 30 e até mesmo os 40 anos. As vezes se casa e continua morando com mamãe. Se se separa, volta para a casa de mamãe.

O que aconteceu com o desejo de liberdade e autonomia dos jovens??? Será que as estão trocando por um prato diário de lentilhas e roupa lavada e passada??? Difícil de crer que a liberdade e a autonomia lhes valha tão pouco…

EM TEMPO:

Cerca de meia hora depois de escrever o texto acima, li algo relacionado no livro Grown Up Digital, de Don Tapscott.

Ao discutir algumas das críticas feitas aos chamados “Nativos Digitais”, ele menciona, como quarta crítica (p.4) o seguinte:

“Porque seus pais os mimaram e paparicaram, eles acabaram ficando perdidos no mundo, receosos de escolher um caminho por si próprios. É por isso que muitos, depois de cursar a universidade [onde em regra ficam internos], tantos voltam para casa. Não sabem lidar com a própria independência. Os pais em geral adoram, mas os vizinhos ficam preocupados. Por que eles não se estabelecem por si próprios para cuidar de suas vidas? Por que precisam de pais que, como helicópteros, ficam girando em círculos por cima dos filhos enquanto estes são entrevistados em processos seletivos para ingresso na universidade ou mesmo no mercado de trabalho. Segundo William Damon, autor de Path to Purpose, ‘Os jovens têm tanto medo de assumir compromissos que muitos deles nunca se casam, estão tão incertos sobre seus propósitos na vida, que terminam nunca escolhendo uma carrreira. Dessa forma, muitos deles acabarão vivendo na casa dos pais para sempre.’”  

Interessante, não? Don Tapscott não concorda com a crítica – mas reconhece que os fatos sobre ficar na casa dos pais, postergar (ou mesmo evitar) compromissos relacionais sérios, e adiar ao máximo a definição de uma carreira são evidentes.

Eis o texto do Ruy.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2202201005.htm 

RUY CASTRO
Morando com mamãe

RIO DE JANEIRO – Custei a perceber que era uma tendência: a quantidade de rapazes de 30 anos ou mais, hoje em dia, ainda vivendo com os pais e sendo sustentados por eles -abdicando da liberdade pelos confortos e conveniências da cama, comida e roupa lavada. Foi para isso que os jovens dos anos 60 fizeram duas ou três revoluções?

Nenhum garoto de 1968 trocaria a canja de galinha do Beco da Fome, em Copacabana, às 4h, pelo toddy com biscoitos servido pela mãe às 21h, depois de "O Sheik de Agadir". Ou a aventura de morar num apê tipo já-vi-tudo em Botafogo -o mobiliário consistindo de uma estante de tijolos com uma ripa de madeira por cima (roubados de alguma construção vizinha) e de uma esteira de praia à guisa de cama- pelo quarto acolhedor e quentinho que ocupava desde guri no vasto apartamento dos pais.

Quem chegasse à provecta idade de 20 anos e não tivesse endereço próprio era tido como anormal -a norma era entrar para a faculdade aos 18 ou 19, arranjar um emprego e ir à vida, como até as meninas estavam fazendo. As vantagens de morar sozinho eram poder ir ao banheiro com a porta aberta, namorar a qualquer dia e hora e promover reuniões para derrubar a ditadura ou para escutar o disco novo da Nara, o que viesse primeiro.

Hoje, há marmanjos de até 40 anos morando com a mãe, na Europa, nos EUA e no Brasil. Na Itália são chamados de "mammoni" (filhinhos da mamãe); na Espanha, de "ni-ni" ("ni estudian, ni trabajan"); na Inglaterra, de "kidults" ("kids", crianças, com adultos). Eles se defendem: formaram-se, gostariam de trabalhar, mas o mercado é cruel, não consegue assimilá-los, são desempregados crônicos e não têm como pagar aluguel, comprar um imóvel nem pensar.

E, além disso, ninguém cozinha como a mamãe.

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Em São Paulo, 22 de Fevereiro de 2010

Ainda sobre o memorioso…

Estou lendo um livro interessante: Total Recall (traduzido para o Português como O Futuro da Memória), de Gordon Bell & Jim Gemmell, ambos da Microsoft Research, publicado no Brasil pela Editora Campus (Rio de Janeiro, 2010). Ele se liga bem ao tópico de meu último post, “O memorioso e o pensoso”.

No post anterior havia citado o Ombudsman da Folha dizendo isto:

“A Internet tem criado vários problemas para a sociedade e para o jornalismo, que precisam ser enfrentados com decisão e presteza em nome do bem comum. Um deles é o dessa memória coletiva inapagável. Um livro recente de Viktor Mayer-Schönberger, da Universidade Nacional de Cingapura, trata do assunto. Mostra como a humanidade passou em poucos anos de uma situação milenar em que o esquecimento era a regra e recordar era o desafio (e para superá-lo criaram-se instrumentos como cantos, poemas, livros, jornais) para a [situação] atual, em que lembrar de quase tudo se tornou o padrão e esquecer é quase impossível.” [Ênfase acrescentada por mim].

O livro que estou lendo diz, na p.3 da edição brasileira:

“E se você jamais esquecesse de coisa alguma e tivesse completo controle sobre o que se lembrar e de quando aconteceram as coisas?”

Mais adiante, na p.8:

“. . . A capacidade de memória digital cresce com mais rapidez do que nossa capacidade de recuperá-la. No passado você precisava ser extremamente seletivo e cuidadoso quanto aos dados que deveriam ser guardados. Você tinha de ser econômico com seus fragmentos eletrônicos de informação – ou bits, como os chamamos. Contudo, a partir de 2000, começou a ser trivial e barato guardar imensa quantidade de dados. O difícil já não é decidir o que guardar, mas como armazenar as informações de modo organizado, como classificá-las, acessá-las e ordená-las de modo que façam sentido.”

Continua, na p.11:

“Considere  o fato de que atualmente quase toda transação financeira que você executa – depósito, retirada, pagamentos com cartão de débito ou crédito – é registrada eletronicamente como um único evento”.

Com base no número de seu CPF, já é possível consolidar quase toda a sua vida econômica. Você teria de deliberadamente viver na clandestinidade para que isso não acontecesse com você…

E assim vai. Vale a pena ler. O Prefácio do livro é de Bill Gates.

Em Salto, 20 de Fevereiro de 2010

O memorioso e o pensoso…

Muito interessante a matéria de Carlos Eduardo Lins da Silva, Ombudsman da Folha, na Folha de S. Paulo de hoje (Domingo, 14/02/2010). Transcrevo o texto abaixo (ao final) para os que gostarem desta introdução.

Lins da Silva começa lidando com uma situação concreta – mas generaliza a questão de modo a tratar de um problema filosófico instigante, ao qual, confesso, nunca havia dedicado a devida atenção. 

A situação concreta é esta. Uma moça, que participou de um precursor dos “reality shows”, já faz cerca de nove anos, foi entrevistada, junto de outros participantes, e, pelo jeito, disse alguma besteira da grossa da qual hoje se arrepende. A Folha, na época, publicou o que ela disse. Isso, em si, não parece ter nada de mais. Ninguém se lembra, hoje, do que a Folha publicou há uma semana, não é verdade? Quem vai lembrar do que ela publicou há nove anos? Ou não? O problema está em que o texto do jornal está digitalizado, e quem pesquisa no Google o nome da dita cuja vê a tal entrevista em segundo lugar nas páginas exibidas. E isso a tem prejudicado terrivelmente. Potenciais empregadores, e até mesmo os relacionamentos, em geral, que as pessoas têm, pesquisam o Google, ou equivalente, em procura de passos falsos daqueles que cogitam empregar ou com os quais pretendem se relacionar mais duradouramente. Besteiras ditas ou feitas lá atrás podem reaparecer e assombrar a vida da pessoa, como fantasminhas não tão camaradas…

A moça pediu ao Ombudsman da Folha que intercedesse junto à Redação para remover da versão digital do jornal aquilo que ela disse. A Redação se negou, afirmando (com plausibilidade) que remover da versão eletrônica aquilo que apareceu na versão impressa é reescrever e, por conseguinte, falsificar a história – é pior, mesmo, do que simplesmente dar uma falsa impressão. 

O Ombudsman (pelo que ele afirma) argumentou com sua Redação que retirar do arquivo eletrônico, a pedido dos interessados, declarações de cidadãos comuns, ou relatos sobre eles, quando eles não são figuras públicas, declarações e relatos que hoje os prejudicam, talvez fosse um pecadilho venial perto do prejuízo pessoal que a declaração ou o relato, agora preservado para sempre, lhes causa… Qual o prejuízo informativo para a sociedade e para história, para a posteridade, enfim, se some para sempre da Internet o que a moça disse ou o que algum outro, hoje um feliz anônimo, fez? Mas a Redação foi inflexível.

Estes os fatos – o “Sitz im Leben” (“Lugar na Vida”) da questão maior, filosófica.

Eis a problematização da questão em uma passagem lapidar pela sua precisão e pela sua economia de palavras, retirada do artigo que transcreverei abaixo:

“A Internet tem criado vários problemas para a sociedade e para o jornalismo, que precisam ser enfrentados com decisão e presteza em nome do bem comum. Um deles é o dessa memória coletiva inapagável. Um livro recente de Viktor Mayer-Schönberger, da Universidade Nacional de Cingapura, trata do assunto. Mostra como a humanidade passou em poucos anos de uma situação milenar em que o esquecimento era a regra e recordar era o desafio (e para superá-lo criaram-se instrumentos como cantos, poemas, livros, jornais) para a [situação] atual, em que lembrar de quase tudo se tornou o padrão e esquecer é quase impossível.” [Ênfases acrescentadas por mim].

Interessante a questão, não?

Mas o mais interessante vem a seguir.

Outra citação. Continua o ombudsman da Folha:

“Ireneo Funes, o personagem do genial conto abaixo indicado [de Jorge Luis Borges], escrito em 1942, não se esquecia de nada. Por isso, diz o autor, era incapaz de pensar. ‘Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo entulhado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos’, como também na memória implantada nos ‘replicantes’, os androides do filme recomendado abaixo, e também na Internet.”

Comento eu agora um tema que é de minha especial predileção. Reter informação demais prejudica a nossa capacidade de pensar… Pensar implica generalizar – e generalizar implica abstrair, deixar fora do quadro os detalhes (ainda que verdadeiros), para chegar à essência das coisas… O conceito de “mesa” não pode fazer referência à cor, ou ao material, ou ao número de pernas de mesas concretas – pois pode haver mesa de todas as cores, de vários tipos de material, de quantidade variada de pernas… Se eu começar a me preocupar com a cor, ou o material, ou o número de pernas de todas as mesas que eu já vi, ou de todas as mesas possíveis, eu não consigo pensar sobre a mesa, em sua essencialidade… Não consigo formular, enfim, o conceito de mesa, porque conceitos são entidades gerais, genéricas mesmo. .

E nós pensamos, não em termos de perceitos (que são as imagens mentais de coisas físicas que são percebidas), mas em termos de conceitos (que são entidades lógicas concebidas por nós, criadas pela mente humana, em geral a partir dos perceitos).

Enfim: reter informação demais prejudica a nossa capacidade de formular conceitos, de pensar…

Qual a implicação disso para a Internet?

Mais importante: qual a implicação disso para a educação — uma educação que gosta tanto de detalhes, na grafia, nos plurais e nos gêneros das palavras, na sintaxe, na concordância dos termos, na regência dos verbos; uma educação que, na história, dá tanto valor a lugares e datas, e, na geografia, à altura das montanhas, à extensão e à vazão dos rios, e outras tantas bestagens?

Lembro-me de que o Rubem Alves, em um de seus artigos, não me lembro qual, disse que quem retém informação demais em sua mente não fica inteligente: fica apenas mentalmente obeso. E ele vai adiante, na direção do que se disse atrás sobre Funes: o mentalmente obeso não consegue pensar, porque sua mente está tão pesada de informações que ele não tem a agilidade mental requerida para pensar… Fica obcecado com detalhes.

A única vantagem que o memorioso (o que retém muita coisa na memória, o que tem uma cabeça cheia) tem sobre o pensoso (o que sabe pensar bem, o que tem a cabeça bem feita) é que o memorioso pode se sair melhor em um jogo de trívia…

Talvez a única falha do artigo do Ombudsman está em sua sugestão que, ao abstrair, devemos “esquecer diferenças”. Talvez a falha tenha origem em Borges. Mas ela me parece ser dupla.

Em primeiro lugar, o verbo esquecer é, no meu entender, forte demais. Talvez o verbo mais indicado seja ignorar, ou não atentar para, ou não levar em consideração.

Em segundo lugar, não é toda diferença que deve ser ignorada no processo de abstração, generalização e conceituação: são apenas as diferenças não essenciais, as diferenças que os antigos chamavam de acessórias…

Explico.

Não resta dúvida que nós, seres humanos, somos diferentes uns dos outros (no sexo, na altura, no peso, na cor, na inteligência, na beleza, etc.). Algumas dessas diferenças comportam inúmeras possibilidades, como as diferenças de altura e de peso; outras, nem tanto; no caso do sexo, há apenas duas possibilidades. Ao tratar uns aos outros, devemos ignorar, não atentar para, não levar em consideração essas diferenças: somos todos humanos e todo ser humano merece ser tratado com dignidade e respeito, apesar das diferenças individuais.

Mas não podemos ignorar, não atentar para, não considerar as diferenças que nos tornam únicos como espécie, e que nos distiguem, não uns dos outros, mas todos nós, como espécie, de outras espécies animais… Ou da espécie angélica. Ou da espécie divina (que, segundo os que crêem, é um conjunto de um só). Quem sabe não é exatamente a consideração dessas diferenças que nos obriga a ignorar aquelas? Ou que nos sugere que, sendo humanos, e portanto animais, e não anjos ou deuses, estamos “salvos da perfeição” e não devemos pretender ser perfeitos? (A busca da perfeição, no plano individual [físico e mental, neste segundo caso envolvendo as dimensões intelectual, emocional, espiritual, imaginativo, criativo, etc.] ou no plano social [representada pelas utopias] já causou muito sofrimento ao ser humano).

É isso… Leiam o texto inteiro do Ombudsman. Vale a pena.

—–Início da transcrição—–

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsma/om1402201001.htm

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ombudsman@uol.com.br

Quem cai na rede nunca mais sai


A internet criou problemas para a sociedade e o jornalismo que têm de ser enfrentados em nome do bem comum


UMA LEITORA, cujo nome não é revelado por razões que ficarão claras, escreveu ao ombudsman para pedir que encaminhasse ao jornal um pedido: a retirada do arquivo eletrônico de uma declaração que lhe foi atribuída em texto publicado quase nove anos atrás sobre um programa de TV.

A moça tinha 18 anos e foi entrevistada com outros participantes de um precursor dos “reality shows”. Na carta ao ombudsman, alega que suas palavras “foram completamente deturpadas”, o que é impossível determinar. Além disso, ela diz não ter autorizado que sua declaração fosse para a internet e, o mais importante, que o fato de estar lá atualmente lhe traz muitos problemas e constrangimentos. Quem pesquisa seu nome no Google, por exemplo, vê a tal reportagem em segundo lugar entre as páginas mostradas.

É cada vez mais comum em processos de seleção profissional os responsáveis pela escolha dos candidatos procurarem saber sobre eles nos mecanismos de busca da internet. Muitas pessoas em início de uma relação sentimental ou de amizade fazem o mesmo.

Encaminhei o pedido à Secretaria de Redação, que respondeu: “A Folha não pode retirar de seu arquivo eletrônico reportagens que foram publicadas na edição impressa”.

Perguntei, então: “por que o jornal não retira declarações de, ou referências a, cidadãos comuns, não pessoas públicas, que façam essa solicitação alegando que a manutenção desse material na internet as prejudica de diversas maneiras, quando tal retirada não acarretar nenhum prejuízo histórico ou informativo para a sociedade?”

A resposta do jornal foi: “A Folha, de fato, não altera seu arquivo digital por considerar que isso seria reescrever sua história mesmo quando o assunto em questão envolver cidadãos comuns. Mas está “linkando” todos os erramos aos textos correspondentes desde 2008. E há um projeto em curso de indexar todo o acervo desde que a seção “Erramos” foi criada”.

É um progresso que as correções estejam sendo anexadas aos textos originais. Mas muitos erros não são reconhecidos e registrados. E há situações em que não há erro: simplesmente a pessoa não quer mais que aquela referência a ela continue circulando na rede.

Claro que é um perigo o jornal permitir que sejam alteradas as matérias como foram publicadas. Mas há situações em que extrair alguma coisa do arquivo eletrônico, às vezes até por razão humanitária, é inócuo do ponto de vista da história ou do interesse público e pode fazer diferença enorme para a vida do cidadão envolvido.

A internet tem criado vários problemas para a sociedade e para o jornalismo, que precisam ser enfrentados com decisão e presteza em nome do bem comum. Um deles é o dessa memória coletiva inapagável. Um livro recente de Viktor Mayer-Schönberger, da Universidade Nacional de Cingapura, trata do assunto. Mostra como a humanidade passou em poucos anos de uma situação milenar em que o esquecimento era a regra e recordar era o desafio (e para superá-lo criaram-se instrumentos como cantos, poemas, livros, jornais) para a atual, em que lembrar de quase tudo se tornou o padrão e esquecer é quase impossível.

Ireneo Funes, o personagem do genial conto abaixo indicado, escrito em 1942, não se esquecia de nada. Por isso, diz o autor, era incapaz de pensar. “Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo entulhado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos”, como também na memória implantada nos “replicantes”, os androides do filme recomendado abaixo, e também na internet.

Mais grave, como registra a professora Sylvia Moretzsohn, da Universidade Federal Fluminense, em diálogo com o ombudsman, é que na memória de Funes, todas as lembranças eram de fatos reais, eram “verdades”, enquanto na internet pululam mentiras, invencionices sobre qualquer pessoa, cuja veracidade não se pode comprovar e, às vezes, nem desmentir.

Cada cidadão, o jornal e a sociedade precisam todos pensar com mais seriedade a respeito dessa questão, que já tem sido capaz de provocar pequenas e grandes desgraças individuais e ainda tem o potencial de gerar enormes dificuldades coletivas.

PARA LER
“Funes, o Memorioso”, in “Ficções”, de Jorge Luis Borges, tradução de Davi Arrigucci Jr., Companhia das Letras, 2007 (a partir de R$ 28,84)

PARA VER
“Blade Runner, o Caçador de Androides”, de Ridley Scott, 1982 (a partir de R$ 24,90)

—–Fim da transcrição—–

Em Salto, 14 de Fevereiro de 2010. (Domingo de Carnaval). Pequenas revisões feitas, também em Salto, em 3 de Junho de 2021. (Quinta-feira de Corpus Christi, para compensar o Domingo de Carnaval de há onze anos e pouco).

*** Nota acrescentada hoje, em 2021: Pelo que parece, a expressão “fake news” não havia ainda sido criada no início de 2010…

*** Nota acrescentada hoje, em 3.6.2021: Confira também os seguintes artigos meus, sobre o mesmo tema:

Pode uma decisão judicial mudar o passado? [Published on Feb 25, 2011 at 7:35 AM]

Tem alguém o direito de pleitear que seu “passado digital” seja re-escrito (ou apagado)? [Published on May 16, 2010 at 8:51 AM]

Sobre o direito de que se esqueça o que dissemos e fizemos [Published on Apr 5, 2010 at 8:35 AM]

Ainda sobre o memorioso… [Published on Feb 20, 2010 at 11:33 PM]

O Medo (versos do fado interpretado por Mariza e, antes, por Amália)

Durante toda a viagem em Portugal, ouvimos um CD de Mariza, com o show (Concerto, na verdade) que deu em Lisboa e que foi gravado ao vivo. Gostamos mais da faixa 2, O Medo.

Para ver o filme dela cantando esse fado no Concerto, publicado no You Tube, visitar: http://www.youtube.com/watch?v=9wQrrIywsok/

Eis a letra:

Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo

E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão

Gritar: quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

Gentileza de http://www.lyricsmode.com/lyrics/m/mariza/medo.html

[Acrescentado posteriormente: Segundo me informa Manuel Costa, em um comentário:
A letra é de Reinaldo Ferreira Jr. {
http://pt.wikipedia.org/wiki/Reinaldo_Ferreira_(filho)}
A música, de Alain Oulman {
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alain_Oulman}.
Obrigado, Manuel. – EC 14 de Fevereiro de 2010]

Em São Paulo, 8 de Fevereiro de 2010

Por que caímos de quatro diante de nossos netos (Drauzio Varella)

Transcrevo aqui, por sua total relevância a este space, crônica de Dráuzio Varella na Folha de S. Paulo de hoje (30/1/2010), que pode ser conferido em

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3001201022.htm 

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DRAUZIO VARELLA

Bem-vinda


Sejam quais forem as raízes biológicas, o fato é que caímos de quatro diante dos netos


MINHA NETA acabou de nascer. Não é a primeira, tive outra há cinco anos; uma menina de bons modos e olhar atento que encanta a família inteira.

Curiosa a experiência de ser avô, perceber que a espiral da vida dá uma volta completa; a primeira que independe de nossa participação.

Sim, porque até o nascimento de um neto os acontecimentos biológicos de alguma forma dependeram de ações praticadas por nós: nossos filhos só existem porque os concebemos, os fatos que constituíram a história de nossas vidas apenas ocorreram porque estávamos por perto; mesmo nossos pais só se transformaram em figuras carregadas de significado porque nos deram à luz. Os netos, em oposição, vêm ao mundo como consequência de decisões alheias, nasceriam igualmente se já nos tivéssemos ido.

A ideia de nos tornarmos seres biologicamente descartáveis é incômoda, porque nos confronta com a transitoriedade da existência humana: viemos do nada e ao pó retornaremos, como rezam os ensinamentos antigos.

Por outro lado, liberta do compromisso de transmitirmos às gerações futuras os genes que herdamos das que nos precederam, força da natureza que reduz a essência da vida na Terra (e em qualquer planeta no qual ela porventura exista ou venha a existir) ao eterno crescei, competi e multiplicai-vos, como ensinaram Alfred Wallace e Charles Darwin.

A sensação de que nos livramos dessa incumbência biológica, entretanto, não nos torna imunes ao ensejo de proteger os filhos de nossos filhos como se fossem extensões de nós mesmos. Somos impelidos a fazê-lo não por senso de responsabilidade familiar ou por normas de procedimento ditadas por imposições sociais, mas por ímpetos instintivos irresistíveis.

Os biólogos evolucionistas afirmam que a seleção natural privilegiou nas crianças uma estratégia de sobrevivência imbatível: a beleza. Fossem feias e repugnantes, não aguentaríamos o trabalho que nos dão, porque cavalos e bezerros ensaiam os primeiros passos ao ser expulsos do útero materno, enquanto filhotes de primatas como nós são dependentes de cuidados intensivos por anos a fio.

Dizem eles, também, que o amor dos avós conferiu maior chance de sobrevivência aos bebês que tiveram a sorte de contar com ele, razão pela qual esse sentimento teria persistido em nossa espécie. Pelo mesmo motivo, explicam as vantagens evolutivas conferidas pela menopausa, fase em que a mulher já infértil reúne experiência e disponibilidade para ajudar os filhos a cuidar da prole.

Sejam quais forem as raízes biológicas, o fato é que caímos de quatro diante dos netos. Por mais voluntariosos, mal-educados, egoístas, temperamentais e pouco criativos que os outros os julguem, para nós serão lindos, espertos, de boa índole e, sobretudo, inteligentes como nenhuma outra criança.

Anos atrás, surpreendi um amigo ao telefone perguntando para o neto como fazia o boizinho do sítio em que o menino de dois anos se encontrava. A cada "buuuu" que ouvia, meu amigo ria de perder o fôlego. Diante do riso exagerado, perguntei como reagiria quando a criança relinchasse. Você verá quando for avô, respondeu.

Tinha razão. Os netos surgem em nossas vidas quando estamos mais maduros, menos preocupados em nos afirmar, mais seletivos afetivamente, desinteressados de pessoas que não demonstram interesse por nós, libertos da ditadura que o sexo nos impõe na adolescência e cientes de que não dispomos mais de uma vida inteira para corrigir erros cometidos, ilusão causadora de tantos desencontros no passado.

A aceitação de que não temos diante de nós todo o tempo do mundo cria o desejo de nos concentrarmos no essencial, em busca do máximo de felicidade que pudermos obter no futuro imediato. A inquietude da inexperiência e os desmandos causados por ela dão lugar à busca da serenidade.

Fase inigualável da vida, quando abandonamos compromissos sociais para brincar feito crianças com os netos, sem nos acharmos ridículos. Ajoelhar para que montem em nossas costas, virar monstros, onças ou dinossauros em obediência ao que lhes dita a imaginação aventureira, preparar-lhes o jantar que não comerão, assistir aos desenhos animados da TV, ler histórias na cama quando estão entregues, beijar-lhes o rosto macio, sentir-lhes o cheiro do cabelo e a respiração profunda ao cair no sono.

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[Fim da transcrição]

Em Lisboa, 30 de Janeiro de 2010

Dudu, the Puff (*)

Na minha memória, ele tinha o nome de Dudu, the Puff. Talvez em algum lugar nele estivesse escrito “Pooh”, em vez de “Puff”. Não sei direito. E talvez fosse “de”, e não “the” (*). Ganhei esse ursinho de pelúcia, de cor entre o amarelo e o alaranjado, quando fiz três anos (creio) e eu morava em Marialva, no Paraná. Quem me deu foi minha Tia Alice – a tia querida, que muitas vezes me fez papel de mãe e que me abrigou mais de uma vez na casa dela quando me vi sem teto.

Eu adorava o meu ursinho.

Mas um dia, meu pai decidiu que mudaríamos do Paraná para São Paulo. Eu não sabia, naturalmente. Então já morávamos em Maringá, não muito longe de Marialva.

Saímos em uma longa viagem de Jeep (Willys Overland), por volta de Novembro de 1951: meu pai (Rev. Oscar), minha mãe (Edith), meu irmão Flávio e, naturalmente, eu (as meninas, Priscila e Eliane, só nasceram bem depois). Na data já tinha oito anos completos. Era um hominho. Por isso, não levei o meu Dudu, the Puff. Não ficava bem.

Saímos de Maringá, fomos até Campinas, visitar minha Avó Angelina (materna) e minha Tia Alice (única irmã sobrevivente de minha mãe), e, naturalmente, meu Avô Juca, meu Tio Anello e meus primos Anellinho e Márcia (os outros, Mário, Élcio e Anelice, não haviam ainda nascido). Ficamos vários dias em Campinas – não sei quantos. De Campinas fomos para Patrocínio, visitar meu Tio Raul (irmão do meu pai), minha Tia Catarina (mulher dele) e meus primos Irene, Idília e Edmar. Também não sei quantos dias ficamos lá, mas me lembro muito bem do sítio (chamado de “Retiro”) do meu tio. Lá visitamos meu tio Aldo (irmão mais novo do meu pai). De Patrocínio fomos até Belo Horizonte, visitar minha Avó Alvina (paterna), minha tia Dulce (irmã do meu pai), meu tio Mauro (irmão do meu pai, boêmio, seresteiro, dançarino, pintor, poeta, engenheiro agrônomo… – de longe o mais bonito e fascinante dos meus tios [embora não o mais querido: aqui a taça vai para o Tio Anello mesmo]. Acho que o Tio Mauro era ainda casado com a Tia Esther naquela época. Depois se separaram e, muito tempo depois, ele se casou com a Terezinha – mas nunca a chamei de tia… De Belo Horizonte voltamos para Campinas.

A complicação toda aconteceu nessa hora.

Já era 1952 e (supostamente porque eu já tinha oito anos e nem havia ainda começado a escola, por ser a escola de Maringá muito ruim) o meu pai arrumou sua transferência da Junta de Missões Nacionais, que o colocava sempre na fronteira, abrindo igrejas, para o Presbitério de São Paulo, ao qual pertencia a Igreja de Santo André, que precisava de um pastor. Na minha memória, a mudança foi assim, abrupta: um dia estava tudo certo que iríamos voltar para Maringá, no outro estava resolvido que iríamos ficar em São Paulo, morando em Santo André. Provavelmente as coisas não se deram assim de forma tão abrupta – mas na minha memória, foi assim que elas aconteceram.

Com isso, meu pai resolveu voltar sozinho para Maringá, para buscar nossa mudança. Nós ficaríamos com a Avó Angelina e a Tia Alice, esperando o seu retorno. Criança não apitava nada naquela época. Não tinha nem direito de dizer “Não se esqueça do meu ursinho…”

Pois é… Meu pai foi meio radical. Vendeu quase tudo, para comprar coisa nova em Santo André. Com essas e outras, meu ursinho não veio. Provavelmente foi dado para alguém ou deixado por lá. Só sei que sumiu. Evanesceu (se é que há esse verbo em Português – em Espanhol, sei que há). Na minha memória, quando perguntei ao meu pai o que havia acontecido com o Dudu, the Puff, ele nem soube dizer. O ursinho estava além das preocupações dele. Lembro-me de ter sido repreendido por ficar preocupado com coisas tão pequenas quando coisas tão importantes estavam acontecendo. De qualquer maneira, disse, qualquer hora ele me compraria outro.

Isso foi em 1952. Faz cinqüenta e oito anos. Meu pai morreu em 1991. Nunca comprou o ursinho que iria substituir o meu Dudu, the Puff.

Uma vez contei essa história para a Paloma. E ela deve tê-la registrado lá em algum lugar daquela memorinha prodigiosa dela. (E eu pensava que eu tinha memória boa…)

Em Londres, um dia, quando a Paloma saiu passear sozinha, passou pela Disney Store, e lá me comprou um Winnie, the Pooh. Exclusivo da Disney. Lindo de morrer. Parecidíssimo com o meu Dudu, the Puff. Só que muito mais lindo ainda. E muito mais fofo, como apenas os materiais atuais permitem construir esses bichinhos de pelúcia…

É verdade que a Paloma se afeiçoou ao bichinho, também, que passou a ser não só meu, mas nosso. Mas até isso é bom. Agora compartilho o meu brinquedo. Há mais gente para cuidar dele… Assim, a chance de ele se perder é menor. Ele tem ficado juntinho de nós na cama, à noite, e em cima dela, durante o dia.

Amor, obrigado. Você é linda – e muito sensível. “Thoughtful”, é o termo certo. Obrigado mesmo.

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Ele não é lindo, de verdade? Não me importa que o nome que está na etiqueta (na orelha) diga que ele se chama Winnie, the Pooh. Para mim, ele é o Dudu, the Puff, redivivo. Até porque Dudu é o meu nome de avô, que me foi dado pelo meu primeiro neto, o Gabriel.

[(*) O nome correto do ursinho em Português era — ainda é, presumo — Dudu-de-Puf, com um “f” só. Um comentário de um leitor chamado Fernando Sthetatos esclareceu isso e, depois, em minha resposta ao comentário, coloquei dois links que o comprovam, e que encontrei fuçando no Google.]

No Porto, em 24 de Janeiro de 2010

How I see what I do today

I – Preamble

I am a philosopher by training, and perhaps my understanding of what I do sounds a bit grandiose because of this…

Philosophers are supposed to be focused on analyzing, reflecting, knowing instead of acting. Karl Marx once said that philosophers have analyzed the world, but it is necessary to change it…

I don’t doubt it is necessary to change the world – and I consider education a powerful way of doing it.

But for this to happen, education must be action-oriented.

In this vein, I agree with an English philosopher – Herbert Spencer, 1820-1903 – who said:

“The great aim of education is not knowledge but action”

This assertion is not meant to deny that analysis, reflection, and knowledge ought to precede action…

II – What I do (in more general aspects)

I see myself in the business of rethinking education and reinventing schooling, something I consider necessary because of fundamental changes in the context in which we live.

1. Rethinking education involves mostly:

      • Listing and integrating (systematizing) the changes in the context
      • Showing why these changes force us to rethink education and reinvent schooling
      • Show in which direction education and learning ought to be reconceptualized

2. Reinventing schooling involves creating a model that deals with:

      • Proposing a pedagogical vision (curriculum, methodology, assessment) and ways of implementing it
      • Redefining the kind of professionals that are able to implement this vision and how they are prepared
      • Identifying / creating materials, resources and tools
III – What I do (more specifically)

More precisely, I have concentrated my attention mostly on the first sub-item of item 2 and have been working on:

1. Curriculum:

      • What is there to be learned? Curriculum as a set of learning expectations / What "learnings" are of most worth
      • Focus on capacities / competencies / skills >>> what people ought to be able to do (know-how, savoir-faire)
      • Not only 21st-Century Skills, much less Digital Skills, but every sort of basic competency (some of which have been valued for a long time…)

2. Methodology:

      • How are competencies developed? What is the best way for people to acquire / build competencies?
      • Focus on how people learn best
      • Active, Interactive, Collabora(c)tive, Hands-on, Project-based, Contextual (Just in Time), Modular (Just-Enough)

3. Assessment:

      • How to assess the development of competencies?
      • Clearly define them operationally
      • Specify evidence / indicators of their presence / mastery / development
      • Observe, interact, challenge to see if these evidences are present

Em Londres, 17 de Janeiro de 2010

Democracia Constitucional Republicana vs A Tirania da Maioria

Excelente artigo sobre “democracia direta”, através de plebiscitos e assemelhados, publicado na edição internacional especial de fim de ano (número duplo, com datas de 19/12/2009 e 01/01/2010), de The Economist e na edição online (http://www.economist.com/world/unitedstates/displaystory.cfm?story_id=15127600).

O assunto é extremamente relevante para o Brasil, onde ameaças de plebiscitos aparecem com razoável freqüência.

O artigo argumenta que democracias como a nossa não são democracias diretas ou plebiscitárias, mas democracias constitucionais republicanas. Nosso regime é democrático – mas tem duas características que qualificam a democracia:

Primeiro, é republicano, o que quer dizer quea democracia aqui é representativa, não direta ou plebiscitária;

Segundo, é constitucional, o que quer dizer que direitos individuais, em especial os das minorias, são garantidos contra eventuais tentativas das maiorias de exercer, pela democracia direta ou plebiscitária, o que o artigo chama de “tirania da maioria”.

Essa forma de governo é herdada dos Estados Unidos. É uma herança fabulosa, que precisamos saber preservar.

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United States

Direct democracy: The tyranny of the majority

Dec 17th 2009 | LOS ANGELES

From The Economist print edition

The fourth branch of government has run amok in parts of America

Reuters

AS 2009 draws to a close, the voter-initiative industry is already frantically busy. In two dozen states new propositions are being readied to go before voters in 2010. Soon “bounty hunters”, paid by the sponsors, will appear on the streets to gather signatures in order to place initiatives on ballots. In states such as California voters will probably have to consider more than a dozen next year.

The lofty term for these initiatives, along with referendums and recalls (most famously of Gray Davis, California’s then-governor, in 2003), is “direct democracy”. They play the biggest and most excessive role in California, where voters have directly amended the state’s constitution or statutes in matters big and small, from how to spend to how to tax, from regulating how fowl should be kept in coops to banning gays from marrying.

The latter two initiatives happened to pass on the same ballot in 2008. Thus “chickens gained valuable rights in California on the same day that gay men and lesbians lost them,” as Ronald George, the chief justice of California’s Supreme Court, remarked recently. The court had previously ruled gay marriage legal, but was obliged to uphold the voters’ wishes.

This odd pairing illustrates the problem that direct democracy poses today. First, by circumventing legislatures in the minutiae of governance (chicken coops, for instance), direct democracy overrules, and often undermines, representative democracy. Second, by letting majorities of those voting—who are often a minority of the state’s residents—circumscribe the rights of minorities (gays, in this case), direct democracy can threaten individual freedom.

Put differently, it is the “tyranny of the majority” that James Madison, a Founding Father, warned about. His reading of ancient history was that the direct democracy of Athens was erratic and short-lived, whereas republican Rome remained stable for much longer. He even worried about using the word “democracy” at all, lest citizens confuse its representative (ie, republican) form with its direct one. “Democracy never lasts long,” wrote John Adams, another Founding Father. Asked what government the federal constitution of 1787 had established, Benjamin Franklin responded: “A republic, if you can keep it.”

But republican governance, even with its competing branches of government and elected representatives, did not perform well as America expanded westward. In California, according to a famous account from 1896, there was “only one kind of politics and that was corrupt politics. It didn’t matter whether a man was a Republican or Democrat. The Southern Pacific Railroad controlled both parties.” Enraged, the Progressive movement grew and took a new look at direct democracy as it was practised in Switzerland, where its use was—and is—sparing and effective (even if occasionally controversial, like last month’s vote to ban minarets).

In 1898 South Dakota became the first state to allow voter initiatives, and others followed, including California in 1911. For many years direct democracy worked as a safety valve, if and when legislatures proved corrupt or unresponsive. But starting with California’s infamous Proposition 13 of 1978, which not only capped property taxes but required (thanks to a vote by a simple majority of those voting) a supermajority of legislators for any future tax increase, direct democracy changed.

It became a fourth branch of government, an industry and a circus. In the 1980s and 1990s the number of ballot initiatives soared, as tycoons from Silicon Valley and Hollywood, or special interests such as public-sector unions, threw millions of dollars into campaigns, paying college students a dollar or more for each signature they collected, blanketing the airwaves with demagogic attack ads and pestering residents with robo-calls at suppertime. The initiatives became longer—the longest rambled on for 15,633 words—and, with double negatives and impenetrable legalese, less comprehensible.

Ironically enough, Southern Pacific, now itself just another interest group, bankrolled an initiative in 1990 to issue billions in bonds to support rail transport. Even elected representatives, such as Arnold Schwarzenegger, the governor of California, often make use of initiatives nowadays instead of working with the legislature. Mr George wonders whether the voter initiative has now “become the tool of the very types of special interests it was intended to control, and an impediment to the effective functioning of a true democratic process.”

The bringer of gridlock

Direct democracy in this form contributes to dysfunction. California currently has America’s worst budget problems, but other states with extensive direct democracy, such as its neighbours Arizona and Oregon (which has had more initiatives than even California), are close behind. In Oregon it will be voters who decide, in January, for or against a tax increase to help plug the latest budget hole.

Those budget holes often result from the cumulative consequences of voter initiatives as much as from economic slowdown. Since the 1970s voters have tended to like initiatives that promise better schools, new hospitals or tougher prison terms, but they are oblivious to the costs involved. At the same time, they loathe taxes and in many states they have insisted, by voter initiative, that two-thirds majorities are needed to raise them.

Robert Stern, the president of the non-partisan Centre for Governmental Studies in Los Angeles (and a drafter of initiatives since the 1970s), believes that direct democracy cannot and should not be ditched wholesale. Despite everything, “most Californians have more confidence in the initiative process than in the legislative process,” he says. That is a result of increasing polarisation between the two big parties, which has led to blocked and unresponsive legislatures and so bred a yearning to circumvent them.

But Mr Stern, like Mr George, believes that the process must be improved and supports the idea of a constitutional convention in California for that purpose. There are far too many initiatives because the signature-collection process is trivially easy for those with money (though daunting for those without it). There must be clearer and more accessible information for voters. And in California the legislature should be allowed at least to amend all initiatives, which it currently cannot. Its citizens should remember that they have a republic, if they can keep it.

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Em São Paulo, 5 de Janeiro de 2010

O ser humano

Frase magnífica de Robert Heinlein, o escritor de ficção:

"O ser humano deve ser capaz de trocar fraldas, planejar uma invasão, matar e desossar um leitão, governar um navio, projetar e construir um prédio, escrever um soneto, conferir o saldo de uma conta bancária, construir muralhas, colocar um osso no lugar, confortar os que morrem, receber e dar ordens, agir sozinho, cooperar, construir e solucionar equações, analisar um problema novo, programas um computador, cozinhar uma refeição saborosa, lutar com eficiência, morrer com dignidade. Especialização é coisa de inseto."

[Apud Karl Albrecht, Practical Intelligence: The Art and Science of Common Sense (John Wiley & Sons, San Francisco, 2007), p.25]

Essas são coisas que o ser humano deve ser capaz de fazer. Todas elas são habilidades e, quando no nível mais amplo e genérico, competências.

Educar é desenvolver competências e habilidades. Não tem nada com memorizar fatos, conceitos, princípios inúteis.

Há outras competências, talvez ainda mais importantes. O ser humano deve, também, por exemplo, ser capaz de amar com carinho e ternura e se deixar amar com humildade e naturalidade.

Em São Paulo, 2 de Janeiro de 2009