Nights in Rodanthe (2008, Noites de Tormenta)

“Nunca é tarde para uma nova chance” – é este o slogan (“tagline”) do filme na International Movie Data Base (IMDB). Bastante apto. O filme trata de um recomeço para dois e a dois – um recomeço que que se tornou possível por causa do acaso. Ou, para quem não acredita em acaso e tem pendores calvinistas, por graça e obra de uma providentia divina specialissima, que opera de forma oculta e misteriosa, detrás dos bastidores, dirigindo nossos afazeres, determinando nossas decisões, condicionando nossas escolhas…

A história é bonita – e é interpretada quase à perfeição. Ela se baseia em um livro de Nicholas Sparks, com o mesmo título do filme. Já assisti a três outros filmes baseados em livros dele: The Notebook (2004,  Diário de uma Paixão, em Português), A Walk to Remember (2002, Um Amor para Recordar, em Português), e Message in a Bottle (1999, Uma Carta de Amor, em Português). Todos muito bons.

Nicholas Sparks é hoje famoso por suas histórias de amor simples, não raro tristes, mas muito bem contadas. É possível que nunca seja um sucesso de crítica nem ganhe um Nobel de Literatura. Mas será sempre um bestseller – e um campeão de bilheterias, quando suas histórias são transformadas em filmes, como várias já foram.

Noites de Tormenta, lançado este ano, traz Richard Gere e Diane Lane – o mesmo par de Unfaithful (2002, Infidelidade, em Português) e The Cotton Club (1984, Cotton Club, em Português). Ambos estão perfeitos em seus papéis. Gere, do alto de seus 59 anos, está melhor do que nunca, e Lane está perfeita. Esse terceiro filme deles mostra que os diretores afinal descobriram que os dois juntos fazem uma parceria que é sucesso garantido. 

A história é sobre um casal que se encontra (por acaso?) em uma pousada, à beira do mar, em Rodanthe, no litoral da Carolina do Norte. Ela (Adrienne Willis) foi para lá para tomar conta da pousada para a proprietária, sua amiga. Ele (Paul Flanner) é o único hóspede durante a baixa temporada – na verdade, na temporada das tormentas e dos furacões.

Adrienne está separada do marido, que quer que ela volte para ele. Em seu pleito, o ex-marido tem o apoio dos filhos, um casal. Adrienne hesita. Pensa nela, que não quer voltar. Pensa nos filhos, que querem que ela volte. A temporada na pousada lhe dará tempo para pensar.

Paul é um médico, em cujas mãos morreu uma paciente já idosa, da qual ele retirava um cisto no rosto. A família da mulher morta o processou. No entanto, o viúvo, que mora perto da pousada, lhe envia uma carta convidando-o para uma conversa. É por isso que ele se dirige para a pousada, onde ficará conhecendo Adrienne.

Um encontro que tem lugar por obra do acaso? Ou será que há forças ocultas que, mesmo quando não planejamos, ou até mesmo quando estamos inconscientes dos motivos de nossas ações, nos colocam no lugar certo, na hora certa?

A primeira conversa entre Paul e o viúvo mostra um Paul defensivo, dizendo que não teve culpa na morte da mulher, e sem sensibilidade para com a dor do outro. Adrienne observa a conversa. E decide intervir – sem saber aonde a intervenção vai levar. 

Desde o primeiro encontro dos dois protagonistas se percebe que há uma química especial que os aproxima um do outro. Aos poucos ela vai se abrindo e lhe contando sua história. Ele, meio a contragosto, vai revelando a dele a ela – o resto ela vai descobrindo. Embora os dois tenham problemas, um vai procurando ajudar o outro – e o amor aparece sem ter sido convidado: os dois se apaixonam. Cenas lindas dos dois andando abraçados pelas praias de Rodanthe.

Ela o estimula a procurar o viúvo mais uma vez e a mostrar-lhe solidaridade e sentimento. Ele o faz – e a conversa franca e dura com o homem lhe alivia um pouco a alma. Ela o estimula, de igual forma, a procurar o filho, também médico, que, depois do acidente, abandonou o hospital em que ambos trabalhavam e foi prestar serviços médicos a populações carentes no Equador.

A história caminha e os dias de sua permanência juntos na pousada chegam ao fim. Ela volta para casa, ele parte ao encontro do filho. Planejam o dia em que se reunirão.

Em casa ela comunica aos filhos e ao ex-marido que não quer refazer o casamento. A filha adolescente se revolta. O menino mais novo, embora triste, tem um comportamento mais receptivo, e abraça a mãe.

O tempo passa. A filha dela, distante. O amor entre os dois, cultivado apenas por cartas apaixonadas. No Equador, ele se reconcilia com filho, ao entrar de cabeça no trabalho social. Fica um tempo relativamente longo lá – depois do qual anuncia para ela que estará retornando em breve. Marca o dia, informa o vôo.

E não chega… Ela fica agarrada ao telefone a noite inteira. Liga para a companhia aérea e ele não estava no vôo.

Pouco tempo depois toca a campainha e é o filho dele – com uma caixa de cartas e objetos pessoais na mão. O desfecho é evidente: Paul Flanner morreu. Numa tempestade a casa em que o filho trabalhava e morava no Equador desabou sobre ele – quando ele corajosamente entrou nela para tentar salvar os medicamentos que lá estavam.

O final do filme é lindo e triste. Ela cai em crise de depressão por uns dias. A filha finalmente se aproxima da mãe e a ajuda material e emocionalmente. O sofrimento visível da mãe comove e muda a filha. A cena em que Adrienne examina os objetos da caixa trazida pelo filho dele é memorável… A dor e a angústia se estampam no rosto dela a cada objeto tocado, a cada carta aberta — inclusive uma última, dele para ela, não enviada.

Filme sensível, que faz pensar e faz chorar (como Diário de uma Paixão e Uma Carta de Amor).

Uma linda história de amor – apesar de triste.

Em Brasília, 8 de Outubro de 2008

Aprendizagem significativa

 

Lake Atitlan by Lake Atitlan.

Já era noite, chuviscava um pouco e, em determinados lugares, a estrada, cheia de curvas, era muito ruim. Mas quando voltávamos, ontem, de Panajachel, ao lado do magnífico lago Atitlan, rodeado de vulcões (http://www.atitlan.net/), numa Hyunday Santa Fé, Les Foltos, Mary Grace Martins, a Paloma e eu conversávamos livremente, misturando Inglês, Espanhol e Português…

Num dado momento, sem qualquer planejamento, a conversa veio a tratar da educação – especificamente, do tipo de aprendizagem que é significativa para crianças em escolas. Mary Grace falava do trabalho que fazia com os alunos em sala de aula e mencionou um artigo (antigo!) que eu escrevi criticando o chamado software educacional e defendendo a tese de que, na escola, os alunos deverm usar os mesmos softwares que adultos usam para trabalhar, se comunicar, se divertir.

Nesse ponto Les Foltos contou uma história interessante. Em 1995, quando a Internet começava a ser usada fora de ambientes universitários, ele ouviu falar de um professor de quarta série, nas cercanias de Seattle, que estava estimulando seus alunos a escrever textos e colocá-los na Internet, para que não só ele, o professor, mas qualquer pessoa os lesse. Contatou esse professor e foi visitar sua sala de aula. Lá presenciou uma cena interessante. O professor cobrou dos alunos a tarefa que havia pedido no dia anterior e uma menininha de nove anos disse que não a havia feito. O professor indagou por quê… Nesse ponto Les esperou que ela desse uma desculpa típica qualquer. Mas ela disse que não havia tido tempo de fazer a tarefa porque estava escrevendo um texto para uma audiência muito maior e mais importante: o mundo inteiro…

Da história e da conversa é possível tirar algumas lições importantes sobre a aprendizagem que é significativa para as crianças – e que a escola deveria ser capaz de propiciar-lhes. E foi isso que fizemos, no restanteda conversa. Eis o resultado (em minhas palavras):

* Crianças querem aprender a fazer coisas que são realmente úteis em suas vidas – em geral coisas semelhantes às que adultos fazem o tempo todo na vida real, como redigir artigos, escrever poemas, compor músicas, produzir vídeos, construir máquinas e outras coisas, resolver problemas diversos;

* Crianças querem aprender a fazer essas coisas usando os mesmos métodos e ferramentas que adultos usam para fazê-las, não uma "versão brinquedo" deles;

* Crianças querem que os trabalhos que fazem sejam lidos, vistos, e usados pela mesma audiência que lê, vê e usa os trabalhos correspondentes feitos por adultos;

* Crianças querem que adultos participem da sua aprendizagem apenas orientando-as e avaliando-as para que os trabalhos que fazem tenha a qualidade necessária para que a audiência almejada deseje lê-los, vê-los e usá-los.

Isso significa que, para propiciar aos alunos uma aprendizagem significativa, a escola não pode ser separada da vida, do dia-a-dia, como se fosse um gueto, mas, pelo contrário, tem de ser parte da vida – da vida real que todos vivemos no cotidiano. Os trabalhos escolares não podem ser produções limitadas que só têm sentido (se o têm) no contexto escolar, realizadas com métodos e ferramentas que adultos nunca usam, lidas e vistas apenas pelo professor… Os alunos querem que a experiência escolar seja parte da vida que já vivem e na qual deverão um dia trabalhar, se comunicar, se divertir, exercer sua cidadania.

Foi por causa de princípios assim que argumentei, em 1987, que o chamado software educacional ou pedagógico é, em geral, um substituto pobre, porque feito apenas para o uso escolar, para os softwares aplicativos normalmente usados na vida diária, como Microsoft Office. As crianças querem fazer coisas semelhantes às que os adultos fazem, usando os mesmos métodos e ferramentas que os adultos usam.

É por causa disso que também tenho argumentado em minhas listas de discussão contra a tentativa de criar hardware (laptops, notebooks) destinados apenas ao uso escolar ou infanto-juvenil. As crianças querem usar computadores como os que os adultos usam, com as mesmas características e configurações. O mérito do tipo de máquina inicialmente proposto por Nicholas Negroponte foi apenas cutucar os fabricantes de laptops e notebooks para que baixassem o preço dos produtos que colocavam no mercado. E esse mérito é considerável. Hoje já é possível comprar, nos Estados Unidos, notebooks de uso profissional pelo mesmo preço que os laptops educacionais estão sendo vendidos no Brasil. Moral da históia: vamos colocar máquinas de verdade nas mãos das crianças, equipadas com o mesmo software que está instalado nas máquinas dos adultos.

É por causa disso que defendo a tese de que, a despeito da importância do computador em si (i.e., desconectado) na educação, a Internet é uma contribuição muito mais significativa para a aprendizagem significativa das crianças: ela tornou possível que os alunos alcancem, com seus trabalhos, uma audiência real no mundo real. Foi a Internet que derrubou as paredes da sala de aula e os muros da escola.

É por causa disso que defendo a tese de que, na escola:

* o aluno deve lidar com problemas reais, que merecem ser resolvidos, e com questões reais, que merecem ser respondidas, algo que só pode ser feito quando a escola usa metodologia de aprendizagem (não de ensino!) que é focada em problemas e baseada em projetos;

* o aluno deve escolher os problemas que deseja tentar resolver e as questões que deseja tentar responder em função de seus interesses e de sua experiência (vide o filme e o livro Céu de Outubro / October Sky);

* o professor deve ser um mentor, um orientador, um facilitador, um avaliador inicial dos trabalhos do aluno, que o ajuda a desenvolver as competências e habilidades necessárias para resolver os problemas e responder as questões que se propõe;

* os trabalhos do aluno devem ser apresentados não só para o professor, mas, sim, para uma audiência mais ampla, que também vai muito além dos pais, e essa comunidade, composta por um público que inclui desde filósofos generalistas até profissionais especializados, deve participar da tarefa de analisar e avaliar esses trabalhos, criando um ambiente amplo de aprendizagem que pode ser caracterizado como uma verdadeira “sociedade aprendente”.

ET 1: O artigo original em que defendi essa tese tem o título de “O que é Software Educacional” e foi publicado em Janeiro de 1987 pela revista Info, que era editada pelo Jornal do Brasil: vide o texto em:

http://chaves.com.br/TEXTSELF/EDTECH/softedu.htm

ET 2: Publico hoje, dia 30 de Setembro, em homenagem ao nono aniversário de meu neto Gabriel. Gabriel: um beijo do vô.

Escrito em Ciudad de Guatemala, 28 de Setembro de 2008 e publicado aqui, a partir de São Paulo, no dia 30 de Setembro de 2008

Computadores e Educação

Texto meu, transcrito do blog de Simon Schwartzmann, no seguinte endereço:
 
 
April 06, 2007
 

Eduardo Chaves escreve:

Caro Simon,

Li com atenção as duas matérias sobre computadores e educação distribuídas na sua lista. Resolvi compartilhar com você a minha opinião, baseada em mais de vinte e cinco anos de envolvimento na área. É uma opinião, baseada em observações, leituras, discussões — não é resultado de pesquisa formal.

Parece-me evidente que a principal razão pela qual alunos, em geral, não se saem bem na escola não está no fato de que as escolas não fazem uso (bom ou mau) da tecnologia no ensino. Se isso é verdade, introduzir tecnologia na escola, ceteris paribus, claramente não vai resolver o problema da insuficiência ou da má qualidade da aprendizagem dos alunos.

Parece-me evidente que a principal razão pela qual alunos, em geral, não se saem bem na escola está no fato de que eles não vêem sentido em aprender aquilo que a escola procura lhes ensinar e não possuem a menor apreciação pela forma em que ela tenta fazer isso. Ou seja, a escola falha, do ponto de vista dos alunos, no conteúdo e na metodologia, no currículo e no método.

Recentemente a Microsoft / Headquarters me pediu um parágrafo que justificasse os investimentos da empresa no uso da tecnologia na educação. Mandei-lhes o seguinte:

“For centuries school education has been content-centered: its focus has been on the delivery of content. Consequently, the important things have been the content (the curriculum), the deliverer of this content (the teacher), the method of delivery (teaching), and the assessment of content assimilation (evaluation). And yet, the world has undergone a profound revolution in the last sixty years. Information is now at our fingertips. Content today ought to be ‘pulled’, not ‘pushed’. In the wake of this revolution, it makes no longer sense for school education to focus on content delivery. Thus we have finally come to the point where school education can and ought to be learner-centric: its focus must be on helping each individual student learn as much as he can about things he needs to learn in order to define his life project and to transform this project into reality, so succeeding in the business of living. To learn is to become capable of doing things we were not able to do before – especially things that are important to us, because they have to do with what we expect out of life. There are many ways of learning: observation and reflection; research; access to observations, reflections and research of others; direct interaction with other people (including parents, teachers and peers). Technology can make all of these ways of learning incredibly more effective – especially when everyone has access to it anytime and anywhere. Today’s technology makes anytime, anywhere learning possible – thus helping people realize their full potential”.

Resumindo, o problema da escola não está na ausência de tecnologia: está no modelo de educação que ela adota. Ninguém engana os alunos por muito tempo. Se um conteúdo qualquer é percebido como irrelevante e a forma de transmiti-lo é vista como inadequada, usar tecnologia para transmiti-lo, ceteris paribus, não vai tornar o conteúdo menos irrelevante nem o ensino menos inadequado. O problema está no conteúdo e no ensino, não na tecnologia.

Altere-se o modelo — e a tecnologia “comes to life”.

Tenho visto inúmeros pesquisadores que, partindo do pressuposto (válido) de que jovens se interessam por tecnologia e têm facilidade para usá-la, se surpreendem diante do fato de que não há, da parte deles, maior interesse em fazer cursos a distância mediados pela tecnologia do que havia em fazer cursos convencionais. Usar a tecnologia para fazer algo que é percebido como irrelevante e chato não torna esse fazer relevante e agradável.

Note a matéria de sua primeira mensagem sobre o assunto (”Computers as pedagogical tools in Brazil: A pseudo-panel analysis”): “Computers and software have been gradually introduced as teaching tools in many countries”. Introduzidos como o quê? Como “ferramentas de ensino”… Como ferramentas de ensino, computadores (acrescentar “and software” é um primarismo) não vão ter mais sucesso do que o ensino do qual supostamente são ferramentas. Computadores são ferramentas de aprendizagem. Seu potencial está no fato de que nos permitem aprender de inúmeras maneiras, em qualquer lugar, em qualquer momento. Mas mesmo o computador, como ferramenta deaprendizagem, só será eficaz se houver algo que queiramos aprender, algo cujo aprendizado percebemos como importante para aquilo que queremos ser. Fora disso, acredito ser perda de tempo ficar discutindo a questão.

Transcrito aqui neste space em São Paulo, 18 de Setembro de 2008

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente
do seu jeito de sempre chegar,
Olhou-a de um jeito muito mais quente
do que sempre costumava olhar,
E não maldisse a vida tanto
quanto era seu jeito de sempre falar,
E nem deixou-a só num canto,
pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar…

E então ela se fez bonita
como há muito tempo não queria ousar,
Com seu vestido decotado
cheirando a guardado de tanto esperar,
Depois os dois deram-se os braços
como há muito tempo não se usava dar,
E, cheios de ternura e graça,
foram para a praça e começaram a se abraçar.

E ali dançaram tanta dança
que a vizinhança toda despertou,
E foi tanta felicidade
que toda cidade se iluminou,
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos
como não se ouvia mais,
Que o mundo compreendeu,
e o dia amanheceu em paz…

Esta magnífica canção de Chico Buarque e Vinícius de Morais vai ficar, por enquanto, como tema musical deste space.

Em São Paulo, sábado, 13 de Setembro de 2008

65 anos

No último domingo completei – e celebrei, em círculo limitado – 65 anos.

O Rubem Alves, que vai completar 75 em poucos dias disse, numa crônica a respeito (ainda não publicada), que essas idades não se celebram – lamentam-se. Discordo dele. Embora tenha uma série de coisas a lamentar, tenho bastante a celebrar.

Em 2003 fiz meu aniversário de 60 anos – e celebrei-o – em Salzburg, terra de Mozart, hospedado no Leopoldskron – um castelo do século XVII.

O ano passado fiz meu aniversário de 64 anos voando sobre o  Pacífico, de Tóquio para os Estados Unidos. Não tive como celebrá-lo, a não ser escrevendo sobre a data. O dia 7 de Setembro de 2007 durou, para mim, 36 horas, por causa dos fusos horários.

Este ano o aniversário durou apenas as 24 horas regulares, mas elas foram bem vividas. Ele foi passado, também, em parte, viajando – mas de carro e em boa companhia. Estivemos de manhã em São José dos Campos, depois em Campos do Jordão, e, à noitinha, de novo em São José dos Campos, de onde voltamos para São Paulo.

Estou passando por uma série de turbulências em minha vida pessoal, mas o dia do aniversário foi tranqüilo e feliz, passado com quem eu escolhi e queria passá-lo. Ganhei até um bolinho na hora do almoço…

Hoje é 11 de Setembro – dia do atentado terrorista às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York – e dia do aniversário de minha – nossa – amiga Mary Grace Martins. Parabéns, Mary. Vamos jantar com ela.

Esta é a primeira mensagem que escrevo de São Paulo, cidade em que já trabalho há tempo e em que devo, doravante, também morar.

Em São Paulo, 11 de Setembro de 2008

Seattle: a beleza deste lugar

Conheço muitos lugares no mundocom incrível beleza natural: o Rio de Janeiro, visto do alto, e compreendendo a Baía da Guanabara, o Corcovado, e o Pão de Açúcar é um deles; San Francisco, do alto da Lombard Street, e compreendendo a Baía de San Francisco, Fisherman’s Wharf, Golden Gate Bridge, Alcatraz e Sausolito, é outro. Mas cada vez me convenço mais de que nenhum se compara com Seattle – especialmente a Seattle vista do alto de Bellevue, ali do morro em que está localizada a Forest Ridge School of the Sacred Heart. A vista compreende não só todo o skyline de Seattle, mas boa parte de Lake Washington, Murrow Bridge (na Rodovia 90), a ponte da Rodovia 520 (que leva até Redmond, sede da Microsoft). Se for possível chegar mais alto, em algum lugar privilegiado, é possível ver, além da cidade, a Puget Sound Bay e a Elliott Bay, e, em um dia limpo, como hoje, o majestoso Mount Rainier, já (ou ainda?) coberto de neve – apesar de nem o Outono haver ainda chegado…

Da janela do meu quarto aqui no Hyatt Regency em Bellevue também tenho uma vista impressionante: vejo um pedaço do Lake Washington, às margens do qual Bill Gates tem sua casa, e, atrás, um pôr do sol impressionante, cheio de avermelhados fortes, entremeados de amarelo e azul, com um ameaço de lua em cima e as luzinhas piscantes dos aviões que descem e sobem no aeroporto de Seattle – Tacoma (SeaTac), lá longe. Dá pra ver também as luzinhas dos carros cruzando a Murrow Bridge.

Bellevue, em 4 de Setembro de 2008 (no Brasil, já dia 5/9)

Filosofia

Há gente que pensa que filosofia é uma disciplina acadêmica e que filósofos são os especialistas que se dedicam a ela. Muitas vezes essa visão da filosofia e dos filósofos vem acompanhada da suposição de que o objeto próprio da filosofia é algo profundo, complicado, de difícil entendimento, talvez até mesmo um pouco esotérico, que apenas pessoas muito inteligentes, próximas de gênios, conseguem decifrar, discutir e, no extremo, produzir. (Em muitas livrarias menos sofisticadas já encontrei livros de filosofia misturados com outros tipos de livro, numa seção em geral intitulada assim: “Filosofia, Religião e Ocultismo”…

Não resta a menor dúvida de que há até mesmo filósofos que pensam nessa linha: que a filosofia tem um objeto específico e que seu conteúdo é tão complexo que só mesmos gênios como eles próprios conseguem navegar por ele — e se acham o máximo por (como crêem) conseguir fazê-lo. Muitos filósofos (especialmente os alemães) escrevem num estilo tão convoluto que ninguém consegue ter certeza de que os entendeu. E isso é confundido com profundidade até mesmo pelos próprios.

Tradicionalmente, quando ainda eram cartesianos, os filósofos (e teólogos) franceses tinham fama de serem extremamente claros e distintos (seguindo a máxima de mestre Cartesius de que devemos buscar idéias claras e distintas). Quando eu estava no seminário, contava-se a piada de que Karl Barth, talvez o mais famóso teólogo do século XX, suíco, que escrevia em alemão, e que produziu uma monumental e incomparável obra, chamada Dogmática da Igreja (Kirchliche Dogmatik), em dez grossos volumes, com estilo extremamente — como direi? — denso, recebeu, um dia, uma cópia da tradução para o francês dessa gigantesca obra. Ao lê-la, sentiu-se forçado a escrever para o tradutor para agradecer-lhe o trabalho cuidadoso, acrescentando que, ao ler a tradução, havia conseguido entender um monte de coisas que não tinha entendido quando escreveu o original… Bom… hoje em dia os filósofos franceses, com uma honrosa exceção aqui e ali, não são mais cartesianos, e sua prosa se afastou totalmente dos ditames de Descartes.

Lembro-me de que, assim que cheguei à UNICAMP, em 1974, fui convidado para ser membro (felizmente suplente) da  banca de Doutorado de um professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Como recém-chegado na Universidade, e um dos poucos membros do corpo docente de então com Ph.D. em Filosofia, não tive como recusar — mas me arrependi profundamente ao pegar a tese. A começar pelo título: “A Voz do Intervalo”. Que diabo é a voz do intervalo, perguntei-me… (A tese, vim descobrir depois, versava sobre o silêncio, que é o que existe nos intervalos da comunicação). O principal autor discutido no trabalho era Merleau Ponty, famoso filósofo francês, da estirpe acadêmica. Quando passei do título para o corpo da tese, a coisa ficou pior. Não entendi quase nada. Apelei para o Rubem Alves, que era membro (titular) da banca. Perguntei a ele se ele havia entendido a tese. Também não havia. Ganhei algum consolo do fato, porque pelo menos o problema não estava apenas comigo. Mas pensei que, talvez, a dificuldade no entendimento da tese se devesse ao fato de que tanto eu como o Rubem havíamos estudado nos Estados Unidos, não na Europa… Ou que nós dois fôssemos de origem presbiteriana… Ou, então, que nós dois havíamos vindo para a filosofia a partir da teologia… Algo assim. À defesa compareceram todos os membros titulares da banca, de modo que fui poupado do constrangimento de argüir alguém sobre um trabalho que eu não havia entendido. Mas o que realmente me consolou, na defesa, foi algo que disse o Michel Debrun, estrela filosófica do departamento, não só de formação francesa, mas francês ele próprio, com um terrível (no sentido de forte, não de feio) sotaque que nunca perdeu (talvez porque o achasse charmoso). O Michel observou que a gente normalmente lê trabalhos acadêmicos (como teses) sobre grandes filósofos para conseguir entendê-los melhor, mas que, no caso, ele tinha tido de voltar a ler Merleau Ponty para fazer se conseguia entender a tese…

Os filósofos que eu realmente admiro — Sócrates, Hume, Russell, Popper, Ayn Rand, todos  mortos, infelizmente — não foram desse tipo. Com exceção de Russel e Popper, os outros três não foram acadêmicos: nunca trabalharam numa universidade (ou equivalente). E todos eles compartilharam algumas características importantes.

Primeiro, para esses filósofos, a filosofia não tem um objeto específico próprio: o filósofo reflete sobre qualquer coisa que lhe pareça interessante, complicada, digna de esclarecimento. Reflete, enfim, sobre o mundo, a vida, a cultura, em qualquer uma de suas múltiplas manifestações, altas ou baixas, nobres ou comezinhas. Filósofos são tipicamente generalistas. Em geral interessam-se por tudo: o universo, a vida, o humano, e, dentro do humano, pela ciência, pela religião, pelo mito, pela arte, pela política, pelo senso comum, pela superstição, pelas crendices populares… Os Ensaios Morais, Políticos, e Literários de Hume tratam de tudo… Popper chegou dizer que a especialização talvez seja um pecado apenas venial no cientista, mas, no filósofo, é um pecado claramente mortal…

Segundo, eles sempre tinham, como interlocutores, pessoas comuns, não outros filósofos. Sócrates nem escrever escreveu: ele conversava — na praça — com qualquer um que viesse a ele com alguma pergunta, dúvida, problema, ou perplexidade… Às vezes era um jovem, ainda molecote, outras vezes um escravo… Hume, muito cedo em sua vida, tentou escrever para outros filósofos: foi um fracasso. Desistiu e passou a escrever para as pessoas comuns. Tornou-se o maior filósofo da língua inglesa, ever. Russell seguiu trajetória semelhante. Sendo, porém, acadêmico, escreveu mais para outros filósofos do que Hume o fez. Mas seus grandes escritos são populares — ou, então, “impopulares”, como ele próprio os descreveu em um livro chamado Unpopular Essays, porque tratava de temas considerados tabus e de um jeito que parecia meio irreverente. Por causa de sua ironia e irreverência, Russell é chamado de Hume do Século XX. Ayn Rand escreveu filosofia principalmente em romances destinados ao mais amplo público: livros que já venderam literalmente milhões de cópias.

Terceiro, sua linguagem era simples, clara, precisa — sem ambigüidades, obscuridades, vaguezas… Quasem nunca usavam termos técnicos ou jargões. Qualquer um conseguia entendê-los — algo importante quando o seu interlocutor é a pessoa comum…

Quarto, para eles, a filosofia consiste, não em conteúdo específico, que seria o seu objeto próprio, mas em fazer perguntas de um certo tipo sobre qualquer coisa ou assunto. O povo de atenas provavelmente achava que Sócrates, sendo um filósofo, era uma pessoa a quem deviam se dirigir quando tinham perguntas, dúvidas, problemas, perplexidades que queriam ver respondidas, sanadas, resolvidos, esclarecidas. Provavelmente tinham um choque ao conversar com ele: ele não só não respondia a nenhuma pergunta, não sanava nenhuma dúvida, não resolvia nenhum problema, não esclarecia nenhuma perplexidade, como, em geral, fazia perguntas ao interlocutor, tornava as suas perplexidades ainda mais profundas, ampliava a dimensão dos problemas que tinham…

[Se você tem dúvida acerca do que é uma perplexidade, considere a seguinte. Se eu chegar para você e lhe disser: “Preste atenção: o que eu estou lhe dizendo agora é mentira”, o que eu disse é verdadeiro ou falso? Se for verdadeiro, é falso, porque o que eu disse foi que o que eu estava dizendo era falso; se for falso, é verdadeiro, porque eu disse, falsamente, que o que estava dizendo era falso — logo, é verdadeiro. E daí? Como saímos dessa???]

Quinto, que tipo de pergunta faziam esses filósofos? Essas perguntas eram todas epistêmicas (se vocês me permitem usar esse jargãozinho filosófico aqui). Episteme é conhecimento, em grego. Perguntas epistêmicas são perguntas deste tipo:

  • Por que você acha isso?
  • Em que evidências ou argumentos você se baseia para afirmar isso?
  • Será que o que você está dizendo é verdade?
  • Existem verdades absolutas ou toda verdade é relativa?
  • Mas o que significa chamar uma afirmação de verdadeira?
  • Há diferença entre conhecimento e opinião? Se há, no que consiste?
  • O que você entende por x? (onde x é um conceito qualquer usado pelo interlocutor).
  • Mas, nesse caso, como se explica isso?

E por aí ia a conversa… Interminável.

Muitas pessoas criticam a filosofia porque, segundo acham, nela não há progresso, como aparentemente existe na ciência. Na ciência o progresso se mede pelos problemas resolvidos, pelas previsões acertadas, pelas conquistas alcançadas sobre o mundo natural. A ciência evolui rapidamente. Na área científica, procura-se sempre ler os trabalhos mais recentes. Um livro escrito há 50 anos ninguém mais lê, porque certamente está ultrapassado. Mas na filosofia, lemos hoje Platão e Aristóteles, que escreveram há mais de dois mil anos, Agostinho e Aquino, que escreveram na Idade Média, Descartes e Locke, que escreveram no início da era moderna, Hume e Kant, que escreveram durante o Iluminismo — e lemos todos eles como se fossem nossos contemporâneos. Aprendemos muito ainda com eles, sentimos o mesmo prazer ao lê-los — ou, talvez, prazer ainda maior — que sentiam os seus contemporâneos. A razão possivelmente está neste fato: sua maior contribuição não está nas respostas que deram, mas nas perguntas que levantaram; não nos problemas que resolveram, mas naqueles que propuseram; não nas perplexidades que elucidaram, mas naquelas que nos legaram e que nos desafiam até hoje…

A maior parte das questões que a gente encontra na obra desses grandes filósofos talvez seja, num sentido duro do termo, insolucionável, porque são multifacetados, nuanceadas, cheias de consideração de valor…

Todos filosofamos — e o fazemos o tempo todo. Não só os chamados filósofos acadêmicos, profissionais.

Filosofamos quando ficamos agoniados tentando escolher um curso de conduta dentre dois ou mais possíveis — e nenhum deles é claramente certo ou errado… Ficamos pesando considerações de um lado e de outro. Às vezes queremos fazer algo — mas o que queremos fazer traz conseqüências que não gostaríamos de gerar. Queremos o antecedente, mas não o conseqüente… Mas isso muitas vezes é como tentar fazer um omelete sem quebrar os ovos..

Filosofamos quando somos assaltados por dúvidas acerca de crenças que consideramos importantes… Será que Deus existe mesmo? Se existe, porque também há tanto sofrimento causado por desastres naturais? Será que somos realmente livres, ou será que somos determinados pela nossa carga genética e pelos condicionantes do ambiente?

Filosofamos quando nos perguntamos qual a base de nossos julgamentos morais… Quando dizemos que uma ação é imoral, ou exigiu coragem moral, o que exatamente estamos dizendo? E com base em quê? Considerações de fato, valores, sentimentos???

Filosofamos quando nos perguntamos se a beleza existe nas coisas ou “no olho de quem vê”… Quando especulamos sobre o que é a arte, quando concluímos que muita coisa que passa por obra de arte não passa de lixo.

E aí vai…

Mas estudar filosofia ou aprender filosofia não é aprender o que pensaram esses e outros filósofos: é aprender a pensar como eles, a fazer perguntas, a propor problemas, a levantar perplexidades. E, como tudo, a gente aprende a filosofar, filosofando… lidando com problemas, desafios, dilemas… Aprender filosofia é, acima de tudo, aprender a filosofar.

Estudar filosofia como um conjunto de idéias mortas, de interesse apenas histórico, sem aprender a filosofar, sem aprender a dialogar com os filósofos da história como se eles estivessem vivos ao nosso lado, quem sabe na “agora” de Atenas, é uma grande chatice.

Em Bellevue, 2 de Setembro de 2008

O Sentido da Vida

Fazia muito tempo que eu estava procurando duas passagens de Karl Raymund Popper que tratam da questão que dá título a este post: “The Meaning of Life”. Custei a achar. Mas hoje, finalmente, eu as achei.

A primeira é uma passagem contida em um ensaio chamado “Emancipation through Knowledge”, publicado no livro In Search of a Better World. (Routledge, London, 1992). O ensaio trata, entre outras coisas, das expressões “O Sentido da Vida” e “O Sentido da História”.

Diz Popper (tradução minha do Inglês):

“O termo ‘sentido’ sofre de uma importante ambiguidade, em ambas as expressões [‘sentido da vida’ e ‘sentido da história’].

A expressão ‘sentido da vida’ é algumas vezes usada para sugerir que a vida humana tem um sentido, frequentemente obscuro, ou mesmo oculto, certamente profundo, que nos caberia descobrir.

Mas a expressão pode também ser entendida de forma diferente. Neste entendimento, o sentido da vida não é algo profundo, abaixo da superfície, obscuro ou oculto, e que nos cabe descobrir, mas, isto sim, um sentido com que nós mesmos dotamos a nossa vida.

Podemos dotar a nossa vida com sentido através de nosso trabalho, de nossa conduta, do nosso jeito de encarar e viver o dia-a-dia, das atitudes que adotamos em relação aos nossos parentes, amigos, aos que nos estão próximos, ao mundo inteiro. . . .

Assim, a busca pelo sentido da vida não é uma busca por algo que está lá, independente de nós, mas, sim, uma busca por uma forma de vida que seja capaz de dotar a nossa vida de sentido e significado.” (pp. 138-139). 

A segunda, e mais importante, é uma passagem do ensaio “How I See Philosophy”, publicado no mesmo livro In Search of a Better World. O ensaio tem o curioso subtítulo de “Stolen from Fritz Waismann and from one of the first men to land on the Moon” – “Roubado de Fritz Waismann e de um dos primeiros homens a pousar na Lua”.

Eis a parte final do ensaio de Popper, traduzida do Inglês por mim:

“Talvez os leitores permitam que eu termine este ensaio com algumas considerações filosóficas de teor claramente não-acadêmico.

Atribui-se a um dos astronautas envolvidos na primeira visita à Lua a afirmação, simples e sábia, que eu cito de memória: ‘Vi alguns planetas durante a minha vida, mas fico com a Terra, qualquer que seja a alternativa’.

Acredito que essa afirmação reflita não só profunda sabedoria, mas sabedoria profundamente filosófica.

Não sabemos como é que viemos parar e viver neste lindo pequeno planeta. Nem por que é que existe aqui algo como a vida, que permite que esse planeja seja considerado tão lindo. Mas aqui estamos. E temos motivo de sobra para nos perguntar por quê – mas também para sermos gratos pelo fato de que, qualquer que seja a razão, é aqui que nós estamos.

O fato de estarmos aqui e de sermos capazes de fazer essas perguntas talvez seja a coisa mais próxima de um milagre a que jamais cheguemos.

Pois tudo o que a ciência nos pode dizer é que o universo é quase vazio de matéria. E que, onde há matéria, ela está, em sua maior parte, em um estado caótico, turbulento, inabitável, invivível. Pode ser que haja outros planetas em que a vida floresça. Contudo, se pegarmos aleatoriamente um lugar qualquer no universo, a probabilidade (calculada com base na nosso dúbio conhecimento atual da cosmologia) é zero, ou muito próxima de zero, de que encontremos ali alguma forma de vida.

A vida, portanto, tem valor por ser algo extremamente raro.

Esse valor se torna incrivelmente precioso quando nos damos conta de que a vida não só é rara no universo, mas também é altamente precária: podemos perder essa coisa rara e preciosa a qualquer momento, às vezes em uma fração de segundo.

Em geral nos esquecemos disso, e tratamos a vida, até mesmo a nossa, como algo extremamente comum e barato – talvez porque nunca pensemos sobre o assunto. Ou, talvez, porque nesta linda Terra em que nos foi dado morar exista vida em demasia…

Todos os seres humanos são filósofos, porque, de uma forma ou de outra, cada um de nós assume uma atitude particular para com a vida e a morte. Há aqueles que pensam que a vida não tem valor porque, afinal, ela tem fim… Não percebem que um argumento semelhante pode ser construído com o sinal oposto: se fôssemos imortais, se a vida não tivesse fim, ela não teria valor… É, em grande medida, o fato de que nós, a qualquer momento, podemos perdê-la, e de que certamente a perderemos, definitivamente, um dia, que nos faz perceber quão valiosa a vida é.” [Ênfases acrescentadas em todos os casos.]

Seria terrível presunção acrescentar qualquer coisa a essa segunda passagem. Talvez seja uma das passagens filosóficas mais belas que ja li. 

Mas juntando as duas passagens, concluo o seguinte. Cabe a cada um de nós dotar a sua vida de sentido e significado. Ninguém fará isso por nós. É importante fazer isso porque nossa vida é preciosa, posto que rara, no universo – e extremamente precária, pois podemos perdê-la com facilidade, a qualquer momento, mediante uma variedade incrível de causas. Cada um dia que passa é um dia menos que temos para viver. Ou damos sentido à nossa vida – ou ela é um grande desperdício de um recurso precioso, raro, e, por isso, tão valioso.

ET:  Os interessados neste assunto podem ler também O Sentido da Vida  –  Uma Atualização, no meu blog  Chaves Space, no URL  https://chaves.space/2019/09/06/o-sentido-da-vida-uma-atualizacao/, escrito e publicado em  6 de Setembro de 2019. Esse contextualiza algumas das mudanças mencionadas no último parágrafo, abaixo.

Em Campinas, 30 de Agosto de 2008, 15h45. [Olhando em retrospectiva, este foi o último artigo que escrevi enquanto morei em Campinas, SP. No dia seguinte, 31.8.2008, fui para São Paulo, à noite naquele dia viajei para os Estados Unidos (Bellevue, Redmond), lá chegando no dia seguinte, 1.9.2008, em tempo para celebrar o aniversário de meu grande amigo Les Foltos. Só saí de Seattle no dia 5.9, chegando em São Paulo no dia seguinte, 6.9, véspera do meu aniversário de 65 anos. Não voltei a residir em Campinas. Fiquei morando em São Paulo, agora com a Paloma Epprecht Machado Campos Chaves, a partir de 6.9.2008. Quase matamos os parentes e amigos de susto, mas é a vida… Embora tivéssemos residência secundária no sítio de Salto, residência essa que, a partir de 11.12.2015, passou a ser nossa residência primária e permanente (embora tenhamos continuado a manter, agora como secundária, uma residência de São Paulo). Fiz pequenas correções neste artigo em Salto, em 14 de Junho de 2021 e agora em 30 de Agosto de 2021.] 

Por que nos emocionamos?

Acabei de receber, numa lista (Rede Liberal), enviado pelo Embaixador José Osvaldo de Meira Penna, do alto de seus noventa e tantos anos, um conjunto de slides, com fundo musical, sobre Paraty.

Ele pode ser visto no seguinte URL (que, como gentileza aos meus leitores fiéis, eu disponibilizo):

http://www.infoutil.org/paraty.pps  

Mas o que me intriga é o seguinte… O que leva uma pessa, que já viveu perto de cem anos de vida, se emocionar com um conjunto de fotos, acompanhada de um fundo musical, a ponto de se dar ao trabalho de enviá-lo a seus amigos???

Se você encarar a vida da perspectiva de quem tem hoje dezoito anos, quem tem cinqüenta anos está praticamente morto. Provavelmente esse pessoal se pergunta: será que gente de 50 anos ainda sente emoções??? Ou ainda transa???

E, no entanto, aqui está o Embaixador, com mais de noventa anos, gastando o seu cada vez mais precioso tempo, e demonstrando mais emoção do que provavelmente existe na maioria das transas dos jovens de hoje, para enviar um conjunto de slides, com fundo musical, que é, num certo plano, um verdadeiro orgasmo — um orgasmo espiritual, talvez?

Em Campinas, 30 de Agosto de 2008

O ciúme

Há uma canção linda chamada "O ciúme", de Caetano Veloso…

Eis a letra:

Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia…
Tudo esbarra embriagado de seu lume.
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia.
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme…

O ciúme lançou sua flecha preta,
E se viu ferido justo na garganta
Quem, nem alegre, nem triste, nem poeta,
Entre Petrolina e Juazeiro canta… 

Velho Chico, vens de Minas,
De onde o oculto do mistério se escondeu…
Sei que o levas, todo em ti, não me ensinas,
E eu sou só, eu só, eu só, eu…

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde,
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas, na voz que canta tudo ainda arde…
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê?

Tanta gente canta, tanta gente cala,
Tantas almas esticadas no curtume…
Sobre toda estrada, sobre toda sala,
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme…

Vejam três lindas interpretações dessa canção no YouTube:

* Gal e Caetano:

http://br.youtube.com/watch?v=z33oNmI9FG4

* Maria Bethânia, cada vez mais linda com seus cabelos grisalhos:

http://br.youtube.com/watch?v=V43n8N_GBdY&NR=1

* Ricardo Vignini, com viola caipira:

http://br.youtube.com/watch?v=z3IeiPuriqo&NR=1

Pena não ter a versão com Pena Branca e Xavantinho… Se alguém souber onde posso encontrá-la, ficarei imensamente grato se entrarem em contato comigo (tenho-a em mp3).

[Ana Maria, obrigado… How can I ever thank you?]

Em Campinas, 30 de Agosto de 2008