Desemprego, Informática, Sorte e Azar

[O artiguinho abaixo foi escrito em 1995 (há cerca de doze anos, portanto, quando foi publicado aqui, em 2007) e foi publicado na época em vários jornais do interior paulista. Na ocasião eu era presidente de uma rede de franquias de escolas de informática. (O seu conteúdo, especialmente no final, deixa evidente o objetivo marketeiro do artigo…). Resolvi compartilhá-lo aqui porque seu conteúdo é parcialmente relevante para o site VMC que eu criei: visão, motivação e competência. (Esse site não existe mais. EC, 2020.)]

o O o

O sucesso dos outros, geralmente o atribuímos à sorte (o nosso próprio, em regra o vemos como produto de esforço, competência e conhecimento); pelo infortúnio próprio, geralmente culpamos o azar (comumente atribuindo a seus erros e falhas o fracasso dos outros)…

É inegável que sorte e/ou azar têm um papel importante em nossos sucessos e fracassos. No entanto, na maior parte das vezes, a sorte e o azar têm pouco que ver com, respectivamente, o sucesso dos outros e os fracassos  que nos vitimam. Vou procurar esclarecer esse assunto discutindo uma questão preocupante no momento atual no Brasil: o desemprego e o papel que a informática está desempenhando no processo.

Desemprego Conjuntural e Estrutural

Os economistas distinguem dois tipos de desemprego.

O desemprego conjuntural depende da conjuntura, isto é, da situação do momento. Ele é visto como decorrente de algo anormal que acontece num determinado momento (uma grande seca, chuva demais, recessão econômica, epidemias, etc.). Acredita-se que, passada a anormalidade, o nível de emprego também voltará ao normal.

O desemprego estrutural acontece em função de mudanças definitivas na própria estrutura da sociedade. A automação dos processos produtivos na indústria e nos serviços é uma mudança definitiva na forma de produzir bens e prestar serviços das sociedades modernas. Por isso, o desemprego que está sendo causado por essa automação está aqui para ficar. A única solução para quem ficou desempregado em função de mudanças estruturais na sociedade é se (re)qualificar ou (re)capacitar.

A Informática e a Automação Industrial

Até o início deste século, a maior parte das pessoas trabalhava na agricultura. Depois, a agricultura foi se automatizando e hoje, nos países desenvolvidos, apenas cerca de 2% das pessoas economicamente ativas trabalha na agricultura. Algo semelhante está acontecendo hoje na indústria. A força motriz da automação industrial, que no passado já foi mecânica e elétrica, é hoje eletrônica – mais precisamente, eletrônico-digital: o computador e seus periféricos e derivados. Analistas estimam que por volta do ano 2015 o percentual da força de trabalho dos Estados Unidos que estará atuando no setor industrial estará próximo dos 2% que hoje atuam no setor agrícola.

Essa enorme redução da força de trabalho na indústria não significa que os países em que isso está acontecendo deixarão de ser potências industriais. Os Estados Unidos, por exemplo, continuarão sendo uma potência industrial da mesma forma que continuaram sendo uma potência agrícola. O que diminuirá é o número de pessoas, em termos absolutos e relativos, que será necessário para gerar a produção. Isso significa que haverá sério desemprego estrutural no setor industrial americano nos próximos anos – como, de resto, vem acontecendo nos últimos trinta anos. E o que acontece lá, geralmente acontece aqui, logo depois.

No total, provavelmente aumentará a oferta de trabalho: os 95% da força de trabalho americana que não estarão nem na agricultura nem na indústria por volta do ano 2015 estarão trabalhando no setor de serviços: lidando com pessoas e com informações. (E aqui o computador é ainda mais importante do que na indústria!)

Pior cego, diz o ditado, é o que não quer ver. Em pleno limiar do século XXI, há pessoas que não vêem que o computador está roubando seu emprego e, por isso, não pensam em aprender a usar o computador. A única solução para quem está ficando desempregado em função de mudanças estruturais na sociedade está em mudanças no plano pessoal: (re)qualificar-se ou (re)capacitar-se. E a (re)qualificação ou (re)capacitação passa, hoje, necessariamente, pela informática. Se você trabalha com algum processo que vai ser automatizado através da informática, você tem três alternativas:

  • Ou você reaprende a realizar o processo usando o computador;
  • Ou você vai fazer alguma outra coisa (mas quase tudo hoje envolve o computador);
  • Ou, então, você vai ficar desempregado.

Não há outra alternativa. O bancário de hoje, por exemplo, ou ele aprende a lidar eficaz e eficientemente com o computador, ou muda de ramo (vai ser balconista ou atendente?), ou vai fatalmente ficar desempregado. Se não fizer nada, quando o desemprego chegar, vai dizer: “Que azar!”. E vai olhar para os que trabalham bem com o computador, e estão bem empregados, e dizer: “Caras de sorte, estes!”

Sorte e Azar

As oportunidades e os maus momentos passam diante de todos nós de forma basicamente igualitária. O que torna uns bem sucedidos e outros fracassados é o que eles fazem das oportunidades e dos maus momentos que passam diante deles: é a reação deles ao ambiente que os circunda e envolve.

Os bem sucedidos geralmente aproveitam as oportunidades, através de escolhas bem feitas e decisões bem tomadas e, porque estão sempre esperando por elas, ou, melhor, porque estão sempre procurando por elas e preparados para fazer uso delas quando as encontrarem, e não se deixam abalar pelos eventuais maus momentos. “Levantam, sacodem a poeira e dão a volta por cima”, ficando prontos para outra.

Os que fracassam geralmente não aproveitam as oportunidades, porque não as procuram, porque não estão esperando por elas quando elas de repente aparecem, e porque, se trombarem com elas, não estão preparados para delas fazer bom uso.

“Esperar”, disse Geraldo Vandré, “não é saber”. Em palavras inspiradas, ele sentenciou: “Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer”. Muitos, hoje, estão lendo e ouvindo notícias de desemprego, e esperando. Esperando o quê? A hora de chegar o azar.

Quem sabe, entretanto, não espera acontecer: toma a iniciativa e proativamente vai e faz. Mesmo uma grande jornada começa com um primeiro passo. O primeiro passo do “ir e fazer”, no momento, é aprender a usar o computador. Poucas coisas são tão certas quanto a predição de que, mais cedo ou mais tarde, você terá de usar um computador em seu trabalho – ou ficar desempregado (se for empregado), ou ficar sem a empresa (se for empresário). 

Portanto, vá e faça um bom curso de informática: você estará investindo no seu futuro e se preparando para ir atrás de sua sorte e agarrá-la pelos cabelos, quando a encontrar.

Como é evidente, do último parágrafo, este artigo não nega a existência e a importância do acaso, a saber, da sorte e do azar. Ele ressalta a importância de não só esperar, mas procurar a sorte. E a importância de estar preparado para o azar, quando ele aparecer.

Escrito em 1995, em Campinas; transcrito aqui no blog Liberal Space em Washington, 7 de Setembro de 2007 (esperando o avião para São Paulo); revisado minimamente em Salto, em 23 de Dezembro de 2020, quando o publiquei também no meu blog Chaves Space.

"When I'm sixty four"

Paul McCartney escreveu essa canção (letra abaixo) quando ele tinha mais ou menos 15 anos e os Beatles ainda eram conhecidos como The Quarrymen. No devido tempo (1967, quarenta anos atrás) os Beatles a gravaram no album "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band". (Dados retirados de interessante site http://www.songfacts.com/detail.php?id=126).
 
McCartney fez 64 anos no dia 18 de Junho de 2006 – há um ano e pouco. Eu estou fazendo hoje… Pela primeira vez estou comemorando (?) meu aniversário literalmente no ar — voando entre Tokyo e Washington no vôo United 804. Em Washington, depois de alguma espera, pegarei o vôo United 861 para São Paulo.

Dei-me conta há pouco de que há uma grande vantagem no fato de estar passando meu aniversário no ar entre Tokyo, Washington e São Paulo. Washington está 13 horas atrás de Tokyo e nós, em São Paulo, 12. Para mim, o dia do meu aniversário começou à zero hora de hoje, dia 7/9, horário de Tokyo. Mas ele só terminará ao meio dia de amanhã, 8/9, também horário de Tokyo. Isso porque há essas bendidas 12 horas de diferença entre Tokyo e São Paulo. À zero hora de amanhã, horário de São Paulo, estarei no avião indo de Washington a São Paulo. Quando for zero hora do dia 8/9 em São Paulo será meio-dia do dia 8 em Tokyo, o que significará que terei tido um dia de aniversário de nada menos do que 36 horas!!! Quem mais pode se dar a um luxo desses???  Literalmente um dia e meio de aniversário!!!

(Saí de Tokyo às 16h, hora local. Voarei 12 horas e 30 minutos e chegarei a Washington às 15h30, hora local — ou seja, 12 horas e 30 minutos depois, mas meia-hora antes, por causa das 13 horas de diferença do fuso horário).

Mas voltando à música de Paul McCartney, a letra é muito interessante. Para um menino de 15 anos, é bastante perceptiva. Naquela idade ele deve ter achado que 64 provavelmente era o máximo da velhice que era possível imaginar…

Mas mesmo assim fico pensando: por que escolheu 64 e não 65, ou 60, ou 70? Por outro lado, 64 é um número bonito, corresponde a 2 elevando a 6, é divisível por 2, por 4, por 8, por 16, e por 32, é o quadrado de 8 e o cubo de 4… Mas não acho que ele tenha escolhido 64 por causa dessas belezas matemáticas do número… 

De qualquer maneira, Paul McCartney imaginava que ele estaria perdendo o cabelo quando chegasse aos 64 anos. Será que perdeu algum? Creio que não. Nem eu. Tenho ainda uma senhora cabeleira: nem uma pequena entrada para mostrar a idade. Os cabelos estão grisalhos, mas continuam lá…

McCartney também que, se "ela" topasse, aos domingos eles estariam mexendo no jardim, removendo os matinhos… coisa que eu, de minha parte, não me lembro de jamais ter feito na minha própria casa. Fiz isso apenas na casa dos outros.

(Trabalhei como jardineiro, na universidade e na casa de um professor, quando era aluno de pós-graduação em Pittsburgh. Enquanto trabalho de tempo parcial e de férias, não era dos piores. Houve outros trabalhos, alguns bem piores do que jardinagem, como, por exemplo, catar papel no gramado, com um baldinho e um cabo de vassoura com um prego na ponta; ou então limpar chãos, paredes e banheiros dos dormitórios. Outros trabalhos que realizei com regularidade, enquanto estudava, foram cortar a grama com um trator, dirigir a camionete da escola, dirigir o Cadillac de um professor inválido, ajudar na biblioteca… Mas esses eram trabalhos de qualidade. Gostava de fazê-los. Bons tempos!).

Enfim, estou aqui, completando meus 64 anos, ao lado de um monte de gente, mas sozinho, num avião da United, companhia que já me levou para tanto lugar do mundo. O site da United diz que eu já voei cerca de 750 mil milhas com a companhia. Se somar a essas as milhas da PanAm, companhia da qual a United comprou as rotas da América do Sul, e na qual eu já tinha um status alto como Frequent Flyer, provavelmente estou perto de ter voado um milhão de milhas com as duas companhias.

Já contei em algum lugar que meu primeiro vôo foi em 1947, quando tinha três anos e meio de idade, na companhia Aerolíneas Natal, depois comprada pela PanAir do Brasil, de saudosa memória nesses tempos de Varig, de TAM, de Gol. Não me lembro a data exata. De qualquer forma, está fazendo, neste ano de 2007, sessenta anos que eu voei pela primeira vez. Depois de 1947 creio que só fui voar ao ir para os Estados Unidos, vinte anos depois, em 1967. Mas daí não parei mais. Tenho tido sorte. Nunca tive um acidente ou ameaça de acidente. O único susto foi a arremetida que mencionei há dias, quando chegava a San Francisco nesta viagem ainda não terminada.

Hoje o vôo esteve ameaçado de cancelamento por causa do tufão que passou por Tokyo ontem durante a tarde e na noite passada. Hoje, quando acordei, por volta das 5h, chovia muito, havia um vento infernal, e o céu estava carregadíssimo. Depois limpou. Quando vim para o aeroporto, às 12h30, o vento havia parado e o céu estava limpo. Felizmente.

Mas estou consciente de que divago, deixando o meu pensamento correr de cá para lá, para a frente e para trás, ao sabor das associações de idéia. Talvez por estar aqui confortavelmente sentado na Executiva da United, tomando um bom vinho, "wasting away". Coisa de gente de 64 anos que, não havendo remédio para o envelhecimento, procura envelhecer com uma certa medida de dignidade.

[ET: É a segunda vez em menos de cinco anos que a Microsoft me impede de passar o meu aniversário em casa. Em 2003 passei o meu sexagésimo aniversário no Castelo Leopoldskron, em Salzburg, na Áustria, numa reunião de uma semana sobre Inclusão Digital. Meu amigo Michael Furdyk, que esteve comigo em Tokyo, durante a última semana, estava lá também. A reunião aqui de Tokyo foi dos "Advisories Boards" do programa "Partners in Learning" na Ásia. Os membros do "International Advisory Board" foram convidados e participaram de um painel, hoje cedo.]

No ar, em cima do Pacífico, num longo 7 de Setembro de 2007

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When I’m 64

Paul McCartney

When I get older, losing my hair,
Many years from now,
Will you still be sending me a Valentine,
Birthday greetings, a bottle of wine?
If I’d been out till quarter to three,
Would you lock the door?

Will you still need me,
Will you still feed me,
When I’m sixty four?

You’ll be older too!
And, if you say the word,
I could stay with you!

I could be handy, mending a fuse
When your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside…
Sunday mornings go for a ride…
Doing the garden, digging the weeds…
Who could ask for more?

Will you still need me,
Will you still feed me,
When I’m sixty four?

Every summer we can rent a cottage
In the isle of Wight,
if it’s not too dear…
We shall scrimp and save,
Grandchildren on your knee,
Vera, Chuck and Dave.

Send me a postcard, drop me a line,
Stating point of view.
Indicate precisely w
hat you mean to say.
Yours sincerely, wasting away,
Give me an answer, fill in a form,
Mine for evermore.

Will you still need me,
Will you still feed me,
When I’m sixty four?

VMC – Visão, Motivação e Competência

A chave do sucesso está contida nestas três palavras:

  • Visão
  • Motivação
  • Competência

VMC.

Visão é a descrição daquilo que se deseja alcançar – na vida pessoal ou profissional ou no plano institucional. A visão começa com uma idéia mestra que vai sendo elaborada. A elaboração da idéia a torna mais precisa e detalhada. Para se tornar uma visão, contudo, a idéia, uma vez elaborada, precisa se tornar visualizável.

Motivação é a força motriz que impele uma pessoa a realizar sua visão. Para mover uma pessoa a agir, e a continuar a agir na face de obstáculos e resistências (persistência, resiliência), sua visão tem de se tornar uma verdadeira paixão,

Competência, por fim, é o conjunto de capacidades que permitem transformar uma visão em realidade. Competência não se esgota numa capacidade: é um conjunto delas, como, por exemplo, a capacidade de planejar, organizar-se, buscar recursos (materiais, financeiros, pessoais), administrar o tempo e as prioridades, avaliar o processo, fazer correções de rumo, etc.

Sem visão, não saberemos para onde ir.

Sem motivação, mesmo que saibamos para onde queremos ir, não conseguiremos nos mover para chegar lá.

Sem competência, porém, não adiante ter visão e motivação. Mas a competência, sem a visão e a motivação, é uma ferramenta que fica encostada, sem uso.

Acabei de registrar o domínio mvc.vc na Internet. A extensão "vc" é de Saint Vincent and the Grenadines. Espero colocar no site que ficará hospedado nesse domínio materiais referentes a essa tríade: visão, motivação e competência.

Em Tokyo, 5 de Setembro de 2007  

Hotéis japoneses e a tecnologia de higienização pessoal

Eu juro que eu havia prometido a mim mesmo não escrever sobre isso, mas não resisto — embora, tenho certeza, alguns de meus leitores possam julgar o assunto de gosto duvidoso, quando não de profundo mau-gosto. Trata-se das privadas dos hotéis japoneses — em especial a do Four Seasons em que estou hospedado e que, portanto, conheço de primeira mão (mão?).

O banheiro é dividido em três  saletinhas: uma tem a pia, outra tem o chuveiro e a banheira, e a última tem o vaso sanitário. Quando entrei nessa última, levei um susto: o vaso sanitário era de uma complexidade inacreditável, cheio de caninhos e fios, e, ao lado, com um painel complicado, cheio de botões. O painel contém texto em Japonês, mas tem uns iconezinhos que são uma gracinha (Hebe: desculpe o plágio!). Na parede, ao lado, há uma explicação em Inglês sobre o uso do painel e de toda a aparelhagem. (E há um aviso: apesar de este vaso sanitário ter inúmeras funções automatizadas, a descarga não é automática: por favor aperta a alavanca à esquerda depois de usar). 

Em primeiro lugar, há uma advertência: não tente operar o painel sem estar sentado no vaso sanitário. Creio que a razão é evidente: você pode levar um banho.

Em segundo lugar, há um aviso: o assento é aquecido, mas a temperatura é suave ("gentle") — e, portanto não há risco de a gente queimar a bunda. (Já que decidi escrever sobre o assunto, não vou ficar falando em nádegas, região glútea, etc., porque isso é absoluta frescuragem a que nem mesmo a fresca Folha de S. Paulo recorre mais).

Em terceiro lugar, e muito sabiamente, o primeiro botão é "Cancel/Stop" — ele cancela ou interrompe a operação de qualquer um dos outros três botões. Assim, se algo der errado, a solução está ali à mão, logo no primeiro botão.

Finalmente — acredito que fiz suspense suficiente — aqui vai uma breve descrição da operação dos demais botões (do segundo ao quarto).

O segundo botão lança um jato de água morna e relativamente forte bem na direção da parte do corpo usada, tanto por homens como por mulheres, para o que a criativa gíria brasileira chama de "Número Dois". (Tudo bom, gente, eu poderia ser mais explícito, mas até eu tenho cá meus limites). O jato de água (le jet d’eau, como diriam os franceses) continua até que você aperte o botão número um. (Aqui entre nós, o iconezinho que ilustra esse botão, o segundo, é bem descritivo: é uma bundinha bonitinha (mas estilizada) se equilibrando em cima de algo parecido com um mini-chafariz. Os mais chegados ao bom-tom que me desculpem, mas tirei até uma foto do iconezinho, tão gracioso ele é.)

O terceiro botão faz mais ou menos a mesma coisa, mas com um jato de água mais suave ("gentle") — sempre aquecido. Creio que sirva para enxaguar. (A privada não tem um quadrinho com FAQs).

O interessante é o quarto e último botão — que tem o nome de "Bidet". Quando você o aperta, vem um novo jato de água forte e morno, mas agora numa direção diferente, um pouco mais para a frente. Concluí que a maior parte dos homens dificilmente vai usar esse botão, a menos que deseje massagear a próstata… O iconezinho desse botão também é gracioso: é uma mulherzinha flutuando em cima do chafarizinho. Sabe-se que é uma mulherzinha porque o cabelo é comprido, preso num rabinho-de-cavalo: a mulherzinha do ícone, como boa parte das mulheres japonesas, nao tem quase nenhum seio.

Bom, acho que consegui descrever essa importante tecnologia de higiene pessoal sem descambar para a grosseria ou o mau-gosto. Pelo menos, espero.

Como diria o outro, só japonês mesmo para inventar uma coisa dessas…

[Em tempo 1: Escolhi, como Categoria para esse artigo, "Health and Wellness". Pareceu-me a categoria mais próxima…]

[Em tempo 2: Se a casa da Lisa Belkin, que escreveu o artigo que transcrevi na matéria anterior, tivesse essa importante tecnologia japonesa, ela não precisaria ter roubado o rolo de papel higiênico de sua empresa, roubo que, pelo jeito, a deixou tão traumatizada que, no artigo, prometeu nunca mais fazer isso…]

[Em tempo 3: Meu amigo Julio de Angelis descobriu o site dessa importante tecnologia: http://www.washlet.com. Os modelos exibidos lá são ainda mais sofisticados. E o site é um barato: não deixem de ver/ouvir os depoimentos!]

Em Tokyo, 4 de Setembro de 2007

Os pequenos roubos de cada dia no emprego (e nas viagens?)

Interessante o artigo de Lisa Belkin, transcrito abaixo, publicado, primeiro no The New York Times, depois no International Herald Tribune, onde eu o encontrei. O artigo trata de pequenos roubos (“pilfering”) que empregados e funcionários fazem regularmente no emprego (especialmente no escritório – no chão da fábrica é, aparentemente, mais difícil, havendo, em alguns casos, revista ou detetor de mercadorias retiradas sem autorização). Nada muito valioso ou grande: geralmente pequenos materiais de consumo, como caixinhas de clips ou de grampos, post-its, cadernos, lápis, canetas, cartuchos de tinta para a impressora, etc. Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra, disse Jesus, em situação não exatamente idêntica mas comparável.

O artigo de Lisa Belkin chama a atenção para vários aspectos curiosos, dos quais destaco cinco.

1) Antes, quando a gente era obrigado a manter horas de trabalho relativamente rígidas, pegar algo do trabalho em vez de sair e comprar poderia significar um ganho para a companhia: o que ela perdia com o material era compensado pela não ausência do empregado do local do trabalho. Lisa Belkin menciona um caso dela mesma (verdadeiro ou criado para dar efeito ao artigo). Um dia, estava sem papel higiênico em casa. Mercadoria essencial, convenhamos. Ela tinha um trabalho importante a fazer. Se saísse para comprar o papel higiênico antes de fechar-se a loja em que comprava essas coisas, não terminaria o trabalho. Logo, surripiar um rolo de papel higiênico era no interesse da firma, não era? Embora o ato pudesse ter um componente moral questionável, do ponto da racionalidade administrativa ele representava um investimento correto do tempo dela, não é verdade? Clever.

2) Hoje, quando boa parte dos funcionários dos escritórios trabalha em regime de “flextime” ou mesmo de “home office” parcial, a coisa muda um pouco de figura. Se eu estou em minha casa, fazendo serviço da firma, uso o meu telefone residencial ou o celular cuja a conta a firma paga? Se imprimo um relatório grande na minha impressora pessoal, não tenho eu o direito de trazer o papel e o toner do escritório? Afinal de contas, estou trabalhando para a firma — e o estou fazendo sem comprar aluguel de meu escritório doméstico, sem cobrar o gasto proporcionalmente maior com eletricidade, água, e telefone, sem cobrar uma parcela do acesso em banda larga à Internet que é pago por mim… As coisas ficaram um pouco mais complicadas, do ponto de vista, digamos, gerencial — embora do ponto de vista moral elas talvez não sejam muito diferentes do caso anteriormente descrito (no item 1).

De qualquer maneira, é forçoso reconhecer que o raciocínio descrito no item 2, se legítimo, pode ser estendido. Se o trabalho que faço em casa é para a empresa, e por isso posso levar para casa papel e toner de impressora para imprimir os relatórios, o que é que me impede de levar o notebook e a impressora da empresa para casa também? Note-se que algumas empresas cedem, hoje em dia, aos empregados, para uso profissional, um notebook, e admitem que eles os levam para casa à noite e nos fins de semana, no pressuposto de que continuarão a trabalhar para a companhia. Quando saem da empresa, porém, têm a obrigação de devolvê-lo. (A menos que, como relata Lisa Belkin, eles façam um Boletim de Ocorrência de que o equipamento foi roubado ou perdido, sem que isso realmente tenha acontecido. Neste caso, porém, comprovada a fraude, o resultado pode ser cadeia).

Mas o que é que distingue, do ponto de vista moral e mesmo legal, o caso descrito no item 2 do sua aplicação “mais ampla”? É apenas o valor da coisa roubada?

3) As instituições empregadoras (não são só empresas: ONGs e órgãos governamentais sofrem do mesmo problema) sabem que os empregados levam para casa um monte de miudezas. Intervêm, em geral, apenas quando o objeto surripiado é material permanente, patrimoniado, e, portanto, uma providência se torna mandatória. (No Brasil, porém, uma tesoura é material permanente…). Em relação ao resto, fazem de conta que não vêem. O problema é que essas coisinhas pequenas, quando levadas para casa regularmente por milhões de empregados ou funcionários, passam a adquirir significado financeiro. Lisa Belkin relata um relatório relativo à NASA que mostra que, durante uma década, seus empregados surripiaram bens no valor total de nada menos do que 94 milhões de dólares. A estimativa é de que, em todas as instituições empregadoras, nos Estados Unidos, o valor total dos bens “pilferados” chega a 14 bilhões de dólares anuais!

E o problema não é só financeiro: ele afeta a cultura organizacional. Ao não agir contra os pequenos roubos, o empregador passa a mensagem aos empregados de que a empresa é tolerante com esses pecadilhos — mas os empregados recebem a mensagem de que, se tolerante nestes, talvez também nos maiores, e o resultado é a institucionalização de uma cultura organizacional em que o roubo, em geral, é tolerado. Todos nós temos visto no que dá isso.

4) O artigo destaca, por fim, que os roubos acontecem, não porque as pessoas têm grande necessidade dos produtos ou não os podem adquirir com seus recursos. Eles acontecem porque a coisa está ali, é uma coisa necessária ou gostosa de ter, e — por que não? — a empresa tem tanto daquilo e não vai sentir falta.

Muitas vezes são os executivos da empresa que dão à luz verdade para esse procedimento. Muitos compram livros com recursos da empresa e os levam para casa. Outros assinam revistas de interesse com recursos da empresa e indicam que devem ser entregues em casa… (Há pouco tempo estive no governo do Estado de São Paulo e a Imprensa Oficial prepara, para os executivos do governo, um excelente clipping diário, que inclui o fim de semana e um volume especial por semana com as revistas semanais. Custa caro. Como os Secretários de Estado e outros executivos do governo estadual em geral chegam meio tarde ao serviço, e gostam de chegar lá já tendo lido as notícias relevantes, a Imprensa Oficial se dispõe a enviar o clipping para a casa deles, por serviço de entrega. Isso é legítimo ou não? Vide item 5).

Aqui entra o famoso cartão de crédito corporativo, tão abusado pelos mais altos escalões de nosso governo. O cartão de crédito pode ser usado para pagar um almoço com um cliente, naturalmente, ou para cobrir despesas de alimentação quando o executivo está viajando. Mas e se o executivo não está viajando nem está almoçando com cliente — está almoçando sozinho ou com a mulher (namorada, seja o que for)? Será que ele se lembra de que aquele almoço não deve ser pago com o cartão de crédito corporativo?

E os gastos com o automóvel cedido pela empresa? Ele deve ser usado em contextos relacionados ao trabalho, não é? Mas e uma saída à noite, para jantar com os amigos? Vale ir com o carro, a empresa pagando o combustível? E quando o carro vem acompanhado de um chofer?

5) Diante dessas complexidades, tem-se sugerido, como mostra o artigo, que mais necessárias do que medidas que impeçam esses procedimentos são medidas que criem um ambiente de transparência: é preciso ficar muitíssimo claro o que os empregados ou funcionários podem ou não podem fazer e quais são as penalidades por não cumprirem as normas.

No caso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, mencionado por mim atrás, há transparência: é o próprio órgão oficial do Estado que prepara o clipping que pergunta se o recipiente quer recebê-lo no trabalho ou, sem custo adicional, em casa. Ao permitir isso, é evidente que o governo sanciona o procedimento de receber em casa algo que é pago com seus recursos.

o O o

Por fim, quero tratar, até por força das circunstâncias, de uma situação semelhante.

Hotéis de qualidade disponibilizam no quartos, para uso de seus clientes, um monte de “amenidades”. Antigamente eram apenas sabonetes e vidrinhos de shampoo e condicionador. Hoje em dia há loção para as mãos e para o corpo (Occitane, aqui no Four Seasons de Tokyo), escovas de dente (duas), aparelho de barbear, pente e escova de cabelo, material para lustrar os sapatos, touca de banho, cotonetes, lixa de unha, algodão para tirar maquiagem, e até fivelas para o cabelo e elásticos para rabos-de-cavalo e marias-chiquinhas. É lícito botar na mala e levar para casa o material que você não usa no quarto? A maior parte dos visitantes ocasionais a esses hotéis não tem o menor escrúpulo em fazer isso: o hotel colocou as coisas lá para eu usar, argumentam, eu não usei ali mas tenho o direito de levar para casa… (Os viajantes regulares e freqüentes raramente fazem isso — precisariam de um armário especial em casa para estocar todo o material).

É verdade que levar um vidrinho de loção Occitane é diferente de levar uma toalha de banho ou um roupão. No caso da toalha e do roupão o hotel claramente os fornece para uso no quarto, e a maioria dos hotéis até tem aviso de que, caso você tenha ficado tão atraído pelas toalhas e roupões que resolva ficar com eles, o hotel os vende, por um preço razoável (evitando, assim, que você enfrente a situação constrangedora de ser pego com material alheio ao fazer o checkout).

Há material nessas questões para um interessante curso de ética pessoal e corporativa, não há?

A seguir, o artigo que provocou essas considerações.

Em Tokyo, 4 de Setembro de 2007

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http://www.iht.com/articles/2007/09/03/business/workcol04.php

 

http://www.iht.com/articles/2007/09/03/business/workcol04.php?page=2

International Herald Tribune

September 3, 2007

THE WORKPLACE

Corporate pilfering leads to reassessment of company values

By Lisa Belkin

NEW YORK: Years ago, back before children and bulk shopping, back when running out of something meant a separate errand, I stole a roll of toilet tissue from the office restroom. It was in the company’s interest that I stay longer rather than race out before the shops closed, I reasoned. It wasn’t stealing. It was a strategic investment of my time.

I have periodically thought of that moment with embarrassment. Who on earth steals toilet paper? Then, last month, the Government Accountability Office released a report estimating that NASA employees had stolen $94 million in office supplies and equipment over the last decade. One thief appropriated an office laptop as his own by declaring the machine lost. It had been thrown from the International Space Station, he explained, apparently with a straight face, and burned up in the Earth’s atmosphere.

In any workplace in America, at any moment of the day, someone is probably “borrowing” something, a loss to business of about $14 billion a year, according to the National Retail Federation. Studies find that 20 percent to 65 percent of employees admit to various degrees of supply theft at work, depending upon how the question is asked, and that those who earn the most money are most likely to be the culprits, meaning this is not really about need.

“Employees have been dipping into supplies for years,” said Vicki Donlan, a writer who specializes in the subject of business leadership. What has changed, she said, is that there is a new rationalization out there for the dipping: the portable nature of work. Home has become an extension of work, and we spend more time at work than we do at home. So if I am finishing that report on my home computer, doesn’t it make sense that my employer provide the paper for the printer? The Aeron chair?

One of the favorite stories I have collected on this subject over the years was about the office manager who filled his car with the five-gallon jugs from the water cooler, to care for his tropical fish. He then returned the empty containers.

The new laxity about what’s mine and what’s not creates a need for businesses to clarify the rules and “give employees an opportunity to be honest about their pilfering,” Donlan said.

Her belief that what is needed is transparency, not cabinet padlocks, is shared by Dov Seidman, the chief executive and founder of LRN, a company that helps employers create ethical business environments. Seidman is the author of “How: Why How We Do Anything Means Everything … in Business (and in Life),” and he is less concerned that employees are taking supplies than that they are doing it surreptitiously.

Small transgressions are like broken windows, he said, in that not paying attention to the little things sends a message that the company will tolerate larger missteps. The solution may be as simple as not classifying minor thefts as transgressions in the first place, he said. Being open about paper clips and pencils can create an atmosphere that is open in other ways, he said.

How much borrowing is too much borrowing is one of those “shared values” that come to shape a corporate culture, Seidman said. (For the record, no one I interviewed for this article suggested that taking laptops or furniture was in remotely the same realm as taking everyday office supplies.)

The poisonous potential of pilfering is underlined by the fact that it is so often a result of anger. Even if employees don’t think they’re angry, said Armand DiMele, who runs the DiMele Center for Psychotherapy and Counseling in Manhattan, they probably are.

“Anybody who’s in a position of being an employee has some sense that somebody up there is more powerful,” he said, “and that breeds resentment.”

Theft certainly seems to increase during times of tension. Angela Hult watched it happen at First Interstate Bank in Portland, Oregon, after it was acquired by Wells Fargo a decade ago.

The merger brought layoffs, said Hult, who is no longer with the bank, and “as executives received their pink slips, a lot of artwork, office supplies, computers and even small pieces of furniture began to disappear.

DiMele said that a little stealing can be good for a workplace.

“There is an advantage to being stolen from,” he said. “If you steal from me, I own you. Unconsciously, if I’m using a Post-it that I stole from my boss, I someh
ow still have my boss on my mind.”

Which puts my toilet tissue caper in a whole new light. Believe me, I will never do that again.

A tecnologia, a escrita, o cálculo…

Transcrevo, a seguir, uma mensagem que escrevi dia 19 de Abril de 1999 na minha lista de discussão EduTec.Net (encerrada em Setembro de 2002). Redescobri-a por acaso, dando uma busca no Windows Live Search em outro assunto de interesse meu. Achei que vale a pena transcrevê-la aqui no meu Space. Aqui vai:

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From: Eduardo O C Chaves chaves@mindware.com.br
To: edutec@mindware.com.br edutec@mindware.com.br
Date: Monday, April 19, 1999 12:54 AM
Subject: Escrita como tecnologia

Comprei recentemente um livro interessante: Writing Space: The Computer, Hyptertext, and the History of Writing, de Jay David Bolter.

Eis uma passagem particularmente interessante:

"Escrever com caneta e papel não é mais natural, ou menos tecnológico, do que escrever com teclado e vídeo num computador. É verdade que um computador é mais complicado e mais frágil do que uma caneta. Mas não podemos nos isolar da tecnologia e reverter para os métodos de escrever mais antigos. Além disso, a produção de canetas e papel hoje também requer um processo sofisticado de manufatura: sem eletricidade, organização industrial, e redes de transporte e distribuição, não teríamos, hoje, suprimentos adequados de canetas e papel, os materiais necessários para a escrita antes do computador. De qualquer forma, não é a complexidade dos materiais que importa tanto: mais importante é o estado de mente técnico, que é comum a todos os métodos de escrever." (p.37).

Esta passagem, que eu não havia lido antes, se liga a algo que disse na palestra que dei em Uberaba, a convite da Iolanda [EC: Esses dados eram facilmente inteligíveis no contexto da lista na época]. No debate, uma aluna argumentou que a calculadora e o computador estão prejudicando a educação das crianças, porque estão fazendo com que estas deixem de fazer (e, em breve, de aprender a fazer) contas com lápis e papel e passem a fazê-las na calculadora (ou no computador). Minha resposta a ela foi de que fazer conta com lápis e papel não é uma forma natural de fazer contas: é uma forma de fazer contas (dividir, por exemplo) que usa tecnologia — não só o lápis e o papel, mas o método de dispor os números, a técnica de concentrar na parte do dividendo que é divisível pelo divisor e temporariamente ignorar o resto, etc. O método mais natural de fazer contas seria o de fazer contas mentalmente — mas nem esse é natural, porque precisamos inventar técnicas e macetes para conseguir lidar com grandes números mentalmente — e nem todos, de fato muito poucos, conseguem fazer isso. Assim, se nada temos contra o uso de lápis e papel na aritmética, por que objetar à calculadora ou ao computador? Porque no caso de lápis e papel usamos algoritmos? Mas a maior parte das pessoas aprende a aplicar o algoritmo automaticamente, sem necessariamente entendê-lo. Por que, então, não usar simplesmente a calculadora ou o computador?

No meu último livro [EC: escrito para o MEC, em 1988] argumento que mesmo a arte de falar, a linguagem em si, é tecnologia. O uso de conceitos envolve processos mentais sofisticados e complexos, faz uso de regras. Conseguir se comunicar pela linguagem é dominar métodos e técnicas de comunicação sofisticados — como todo mundo que aprende uma língua estrangeira descobre. O fato de que falamos nossa língua materna desde pequeninos nos oculta o fato de que estamos usando uma tecnologia sofisticada.

Lutam em vão os que se posicionam contra o desenvolvimento tecnológico. Sócrates lutou contra a escrita. Em vão. Ainda bem que perdeu — caso contrário, não teríamos acesso ao que ele pensou e disse, apesar de ele próprio ter-se recusado a colocar esses pensamentos no papel, através da escrita. Ainda bem que Platão o fez por ele e para nós.

O ser humano é um animal que inventa técnicas e métodos, cria artefatos, constrói mecanismos (devices, gadgets). Não fosse isto, estaríamos ainda antes da idade da pedra, dando grunhidos, como os primatas que, segundo dizem, nos antecederam, e que vieram a ser dominados, na briga pela sobrevivência do mais apto, quando um deles descobriu (segundo 2001: Odisséia do Espaço) que batendo com um osso em outro osso, era fácil quebrá-lo, criando assim uma ferramenta para quebrar a cabeça do inimigo. Duro, brutal, mas provavelmente verdadeiro.

Continuamos a inventar ferramentas para matar os inimigos e os que nos ameaçam. O duro é que, embora tenhamos aperfeiçoado enormemente nossa tecnologia, não tenhamos conseguido aperfeiçoar nossos valores e, conseqüentemente, nossa moralidade. Nesse sentido, concordo com o Antonio Carlos [EC: Novamente, a referência era inteligível no contexto original]. O problema básico é de valores — e dentro dos valores, dos valores morais, cuja descoberta e elaboração é função da ética. 

Eduardo Chaves (eduardo@chaves.com.br)

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Os temas continuam relevantes.

Em Tokyo, 4 de Setembro de 2007

35 anos depois

Em outro artigo celebrei os 40 anos de minha ida para os Estados Unidos para estudar — no dia 19 de Agosto de 1967.

Esqueci de celebrar, entretanto, outra data importante. No dia 8 de Agosto deste ano fez 35 anos que eu defendi minha tese de doutoramento na University of Pittsburgh. O ano foi, naturalmente, 1972. O tema foi David Hume e sua crítica da epistemologia, da ética e da estética. Minha tese básica era de que David Hume (1711-1776, escocês de boa estirpe) tentou arrasar com todos os fundamentos da filosofia tradicional, começando com sua teoria do conhecimento, passando por ética racional e sua estética objetiva. Ao fazer isso, destruiu também sua metafísica e tornou inverossímil a visão de mundo e a religião do período pré-moderno. Kant, argumentei, tentou responder a Hume nesses três quesitos, a fim de ressuscitar (ou reinventar, numa nova base) a metafísica e até a religião. Publicou até mesmo um livrinho chamado "Religião no Âmbito da Razão Pura". Mas, argumentei para concluir, Kant fracassou. Ao destruir a visão racionalista do mundo que caracterizava a filosofia clássica e mesmo a medieval (Tomás de Aquino, como Aristóteles, era um grande empirista-racionalista), Hume abriu as portas a todo tipo de fideísmo e irracionalismo — e, naturalmente, a essa excrescência que é o chamado pós-modernismo hoje. Ser racionalista, hoje, como Popper bem percebeu, exige, em primeiro lugar, lidar seriamente com Hume.

Enfim… No último dia 8 fez 35 anos que defendi essa tese. Nunca a publiquei porque não estava muito satisfeito com sua forma: entre outros problemas tinha 615 páginas! Mas vim retrabalhando (e publicando) pedaços dela. Faz mais de quinze anos que, um dia, quando estava em Genebra (Genève), resolvi re-escrever o trabalho, com um âmbito mais âmbulo e um apelo mais popular, com o título "Em Defesa da Razão". Não terminei ainda, e, na realidade, duvido que venha a ter tempo para fazê-lo. As coisas urgentes da vida atropelam as importantes.

Meu orientador foi William Warren Bartley, III, infelizmente já falecido (1990)

(Vide http://en.wikipedia.org/wiki/William_Warren_Bartley)

Bartley, por sua vez, foi orientando de Popper, na London School of Economics. Foi também o discípulo amado de Popper, a quem este legou a tarefa de cuidar de sua herança intelectual. Infelizmente morreu antes de terminar o hercúleo trabalho — que vem sendo continuando por sua companheiro Stephen Kresge. Bartley também se tornou o testamenteiro intelectual de Hayek — e, como no caso de Popper, não terminou a tarefa, que continua a ser exercida também pelo Steve.

De minha banca de doutoramento participaram Wilfrid Sellars (talvez o maior filósofico americano da época). Quebrando o protocolo, que indica que o orientador deve sair da sala para chemar o candidato quando a banca termina de deliberar, foi Sellars que foi me buscar e, no caminho, fez o sinal típico de sucesso segurando uma mão na outra acima e do lado da cabeça. Fiquei muito orgulhoso de ele ter sido parte da banca. Além de uma honra, foi um privilégio: ele raramente concordava em fazer parte de bancas, especialmente quando a tese passava de seiscentas páginas…

Bartley não só foi meu orientador e amigo como arrumou o meu primeiro emprego nos Estados Unidos. Em 1972 ele estava em seu último ano em Pittsburgh, apesar de ser professor titular estável ("tenured"). Havia certado, naquele ano, sua transferência para a California State University, em Hayward (perto de San Francisco), onde seria a estrela do Departamento de Filosofia, como Theodore Roszak (The Making of a Counter-Culture, 1969) era do Departamento de História.

(Vide http://en.wikipedia.org/wiki/Theodore_Roszak_(scholar))

Bem, Bartley conseguiu me levar junto com ele para Hayward, num "appointment" de um ano. Bartley fico apenas um ano em Hayward e foi para a muito mais prestigiada University of California, em Berkeley, do lado de Hwyard.

Durante o ano que fiquei em Hayward nasceu minha filha Andrea e arrumei um outro emprego, para o ano seguinte, no Pomona College, em Claremont, perto de Los Angeles. Também um "appointment" por um ano.

Ao longo do ano que estive em Claremont me convenci de que o cenário estava mudando drástica e rapidamente no Ensino Superior americano. Até 1972 cada Ph.D. tinha, em geral, pelo menos três ofertas de emprego. A partir desse ano, caiu verticalmente o número de alunos nas universidades e as novas vagas deixaram de existir — na verdade, muitas das antigas foram terminadas.

Soube disse lendo jornais e conversando com colegas. Diante desse quadro, resolvi voltar para o Brasil. A UNICAMP estava interessada em mim — o contato havia sido feito pelo meu primo Anello Sanvido Filho, que estudava Química na UNICAMP. Assim, resolvi voltar para o Brasil em 1974.

Não me arrependi. O tempo mostrou que a decisão foi sábia e tomada na hora certa. Na hora não sabia e tive dúvidas.  

Em Taipei comprei um livro sobre o Ensino Superior Americano (A History of American Higher Education), de John R. Thelin (The Johns Hopkins University Press, 2004). Eis o que ele diz, nas páginas 331-332.

"By 1972 the end of a fifteen-year hiring boom had left the academic profession with reduced mobility and little leverage in their power to influence institutional decisions. The academic job market had dried up  in all but a few fields. Whereas in 1965 a new Ph.D. from a major university usually received three or four tenure-track job offers, by 1972 there often were no job vacancies posted. It was not unusual for a tenure-track faculty vacancy to attract hundreds of qualified applications. . . . The hiring boom of the 1960s had saturated most institutions, with little prospect for vacancies for years to come. . . . At the same time that the national job market for academics was reaching saturation, the expanded number of Ph.D.-granting programs were tooled up to assure a constant flow of new Ph.D.’s into the academic market fro years to come. What would have been a marvelous solution to higher education’s needs in 1960 had become the millstone of a gluted market in 1980".

Na verdade, ainda fiz uma última tentativa de ficar em Pomona. A posição de diretor do Oldenborg Center for the Study of Modern Languages havia ficado vaga e o cargo era interessante (vinha como uma casa e um joint appointment no Departmento de Filosofia). Havia mais de uma centena de candidatos. No fim ficou entre mim e uma mulher. Um dia o Deão da escola me chamou e me deu a má notícia: eles teriam de contratar a mulher, embora eu fosse o candidato mais bem qualificado, pois precisavam ter mais mulheres em posição de direção e no corpo docente. Acabei sendo vítima da maldita ação afirmativa… Tempos depois me senti meio vingado quando minha grande amiga, Patricia Gleason, que conheci em 1977 em San Francisco, tornou-se diretora do Centro. (Curioso, os anos terminados em "7" aparecem muito nessas minhas memórias).

O ser preterido na escolha como diretor do Oldenborg Center confirmou minha decisão de voltar para o Brasil, que estava em negociação. No dia 6 de junho de 1974 peguei o avião (Braniff) no aeroporto de Los Angeles para, via Lima, vir até Campinas. Cheguei em Viracopos. Em quatro meses eu estaria separado de minha (primeira) mulher e casado (juntado) com a atual (que nasceu em 1947!). A linda família que tenho hoje é, em parte, resultado da decisão de voltar para o Brasil no início de 1974 (e 74 é 47 de trás para frente…).

Em Tokyo, 3 de Setembro de 2007.

Hotéis, tecnologia e serviços

É difícil imaginar o que mais os hotéis de qualidade vão inventar, em termos de tecnologia nos apartamentos, para atrair clientes.

Em Taipei o hotel em que fiquei — The Tango — é relativamente pequeno, não tem uma recepção enorme, como os hotéis tradicionais, mas é dedicado a "Business Travellers": tem um quarto excepcional e um serviço de primeiríssima qualidade.

No quarto há uma TV de plasma de 42", acoplada a aparelho de DVD (que toca qualquer coisa), rádio FM, etc., tudo no melhor som estéreo e controlado (como as luzes do quarto) por um só controle remoto. No banheiro há um chuveiro delicioso e um jacuzzi incomparável — com uma TV de cristal líqüido de 21" bem onde ficam os seus pés — com controles embutidos na parede. Dá para ficar horas ali se deliciando com o banho massageador e assistindo à TV. (A programação em Inglês das redes de televisão asiáticas precisa melhorar, porém. Mas em geral há CNN, Fox News, BBC News, ESPN, etc.).

Em Taichung fiquei num hotel novo, o The One, de 46 andares, também dedicado a "Business Travellers". Além de ter tudo o que o The Tango tem, possui um computador à disposição no quarto, impressora (com uma boa porção de papel), material de escritório de todo tipo (grampeador, furador, clips, régua, borracha), O televisor é Sony de 54", plasma HDTV. No TV também há um televisor, menor.

Aqui em Tóquio estou no Four Seasons – Chinzen-so. Este é um hotel tradicional, não é um hotel de executivos. Fica no meio de um jardim privativo que é um verdadeiro "pulmão verde" nesta cidade "selva de pedras" (desculpem os dois lugares comuns…). Mas o quarto é de cair o queixo. Na cabeceira da cama, controla-se tudo, inclusive a abertura e o fechamento das cortinas. Mas o imbatível é o "Home Theater", com televisor de plasma, DVD player, CD/CD-ROM player, Minidisc recorder (sic), e, o maior luxo, um cabo disponível, conectado ao sistema, para você conectar seu MP3 player / iPod. Estou ouvindo minhas músicas (Anne Murray, agora), em maravilhoso estéreo ambiente, sem precisar ficar com fones enfiados nos ouvidos. Há até uma tomada para você deixar o MP3 player / iPod carregando enquanto ele toca, para que não fique descarregado quando você tiver de sair.

Há mais. Pela rede local do hotel posso não só enviar faxes como documentos para serem impressos e encadernados no Business Center — por um preço… bem: esqueçamos o preço (quando uma lata de cerveja Kirin, japonesa, custa 900 yens, ou oito dólares e pedradinha, no Mini-Bar do quarto, quanto você esperaria pagar pela impressão e encadernação de um documento de vinte páginas?)

Daqui a pouco vou sair e ir até Akihabara, o bairro das lojas de eletrônicos. Vou de metrô, apesar de ter de fazer uma transferência. O taxi, segundo a linda Concierge, fica em cerca de 3.000 / 3.500 yens — por perto de trinta dólares (e a distância é a de cinco estações do metrô, apesar da transferência). Amanhã vou, com o meu grupo (funcionários da Microsoft), visitar a cervejaria Kirim. Espero compensar lá o preço que paguei ontem pela cerveja que tomei aqui no quarto…

ET: Anne Murray canta agora "Brige over Troubed Waters". Faz-me lembrar Simon and Garfunkel, famosíssimos quando fui para os Estados Unidos em 1967, quarenta anos atrás.

Em Tokyo, 3 de Setembro de 2007

Cultura asiática

Mesmo depois de ter estado na Ásia uma vintena de vezes, em diversos países (China, Hong Kong, Macao, Taiwan, Korea, Malaysia, Singapore, Thalland, India, Japan), ainda me surpreendo com algumas características da cultura asiática.

Antes de sair do hotel (estou na lounge da Singapore Airlines, no aeroporto de Taipei) vi, na CNN Asia, a chegada (menos dois, assassinados) dos coreanos que foram feitos reféns do Taliban. Eles deram uma entrevista coletiva ao chegar em Seoul.

Até aí, nada de estranho. O que me causou espécie for ver vários deles pedir desculpas ao país por ter se colocado na posição de permitir o embaraço e o constrangimento de terem sido feitos reféns — e de pedir desculpas ao país pelo incômodo e o trabalho (e, pelo jeito, o dinheiro) necessários para libertá-los. Alguns se comprometeram a trabalhar ainda mais para o país para compensar o tempo e o trabalho gastos na sua libertação.

Os reféns se envergonharam do trabalho que deram ao país — em especial ao governo. E ficaram envergonhados não porque tivessem feito algo que merecesse censura, mas, simplesmente, porque, por descuido ou desatenção, colocaram-se na posição de se deixarem apanhar pelos seqüestradores.

Fiquei pasmo.

No Brasil, milhões de cidadãos dão mais trabalho ao governo e mais ônus aos seus compatriotas não fazendo nada. E ninguém fica constrangido ou envergonhado, muito menos disposto a trabalhar mais para o país para compensar o tempo e o dinheiro gasto com eles. Na verdade, no Brasil há gente dispensando trabalho para não perder uma bolsa não sei o quê.

Fiquei imaginando qual teria sido a reação dos reféns se fossem brasileiros.

Em Taipei, 2 de Setembro de 2007

September 2

No incomparável romance de Ayn Rand, Atlas Shrugged (Quem é John Galt?, em Português), a data September 2 desempenha um papel importante. Ela aparece várias vezes na história. Um dos personagens inicialmente vê a data num imenso calendário que fica num prédio alto em New York, e sua sensação é de que o calendário está profetizando: "Your days are numbered" (Seus dias estão contados).

No romance, os dias que estão contados são os da civilização socializante que dominava os Estados Unidos naquela época (indefinida).

Estamos precisando de um calendário desses para nos dar a esperança e a sensação que os dias da cultura socializante, na China, na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, também está com os dias contados.

Como na China, a economia mundial se liberalizou, tornou-se (em grande medida) capitalista. Mas a política e a cultura levarão muito mais tempo e muito mais trabalho. O socialismo comunista, especialmente em sua versão gramsciana, aparelhou o estado, a mídia, a educação. Dificilmente sairá de lá sem uma revolta (espero que apenas cultural) de proporções gigantescas.

Em Taipei, 2 de Setembro de 2007