SPFC termina o ano na frente e se distanciando

Rumo ao Tetra das Américas e ao Tetra Mundial – para combinar com o Tetra Brasileiro. Assim a gente bota já 12 estrelas na camisa e estamos conversados…

Em Campinas, 26 de Dezembro de 2006.

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Da Folha Online Esporte, 24/12/2006 – 11h03

Confira a lista completa do Ranking Folha do Futebol Nacional da Folha de S.Paulo

1º São Paulo – 856 pontos
2º Palmeiras – 778
3º Flamengo – 770
4º Corinthians – 680
5º Vasco – 668
6º Santos – 655
7º Cruzeiro – 640
8º Grêmio – 594
9º Internacional – 569
10º Fluminense – 532
11º Atlético-MG – 472
12º Botafogo – 426
13º Bahia – 408
14º Sport – 360
15º Paysandu – 359
16º Fortaleza – 328
17º Coritiba – 309
18º Ceará – 308
19º Atlético-PR – 245
20º Náutico – 241
21º Vitória – 240
22º Goiás – 214
23º Portuguesa – 98
24º Criciúma – 92
25º Bangu – 77
26º Guarani – 62
27º São Caetano – 60
28º Brasiliense – 37
29º Juventude – 31
30º Bragantino – 25
31º Paulista – 22
32º Santo André – 15

Critérios de pontuação – Torneio (campeão/vice)

Campeonato Estadual (SP/RJ) – 10/7
Campeonato Estadual (Outros estados) – 7/3
Campeonato Brasileiro – 25/15 Taça Brasil – 15/10
Torneio Roberto Gomes de Pedrosa – 15/10
Copa do Brasil – 15/10
Torneio Rio-São Paulo – 10/5
Outras Copas Regionais – 7/3
Copa dos Campeões – 7/3 Conmebol – 15/10
Libertadores – 35/20 Supercopa – 10/5
Mercosul – 10/5 Recopa – 5/-
Mundial Interclubes – 30/-
Mundial da Fifa – 40/25

Escolas presumidamente bem sucedidas

Há uma série de teses e pressupostos no Editorial da Folha de 24/12/2006, que transcrevo abaixo, de que discordo veementemente. Vou me ater às discordâncias essenciais. Sinto parecer um estraga-prazeres – no caso, um estraga-notícias supostamente boas.

Prefacio o que vou dizer ressaltando que é impossível determinar se os problemas que encontro no Editorial são falhas do próprio Editorial ou se vêm do estudo do UNICEF e do MEC. Espero que sejam do Editorial.


Primeira crítica:

Eis o que diz o primeiro parágrafo do Editorial:

"UM INTERESSANTE estudo co-assinado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo Ministério da Educação (MEC) identificou 33 escolas públicas estaduais e municipais de ensino fundamental que, além de apresentar boas notas em avaliações, tiveram um impacto positivo sobre o aprendizado das crianças."

Ou seja: os autores do Editorial (ou o UNICEF e o MEC) se regozijam por ter encontrado, na educação pública de nível fundamental brasileira, 33 escolas que "tiveram um impacto positivo sobre o aprendizado das crianças." Quantas escolas públicas desse nível há no Brasil? No final do Editorial se afirma que são 41 mil. Que percentual das escolas públicas existentes esse percentual representa? Pelas minhas contas, 0,08% (0,1% seriam 41 escolas, 1% seriam 410). As 33 escolas que, segundo o Editorial, oferecem "educação de qualidade" representam um percentual ínfimo quando se comparam as escolas ditas de qualidade com o total de escolas existentes no ensino público brasileiro. Achar uma escola pública em que os alunos aprendem agora é notícia no Brasil??? Onde estamos?!?!?!

O estudo não investigou todas as escolas? Se é esse o caso, quantas foram estudadas? Esse número pode fazer uma diferença tremenda. Se o estudo examinou, digamos, apenas 50 escolas, e 33 (dois terços, por aí: 66%) delas tiveram resultados considerados positivos, então temos razão para um Editorial. Mas não se diz qual o universo do qual essas 33 escolas estão sendo abstraídas. O Editorial é absolutamente omisso sobre esse dado extremamente importante.


Segunda crítica:

Afirma o Editorial:

"Não se trata mais de apurar médias, mas de saber por que, em determinados locais cuja população tem características socioculturais específicas, as escolas conseguem transmitir mais conhecimento a seus alunos em relação ao que era esperado."

A visão da educação que o Editorial adota é de que educar é "transmitir conhecimentos aos alunos". Embora muito difundida, essa visão não só está ultrapassada, como contradiz o entendimento de educação que subjaz aos próprios Parâmetros Curriculares de um dos resposáveis pelo estudo, o MEC, para os quais educar é, no fundo, um processo de formação de pessoas (indivíduos), cidadãos e profissionais — ou seja, um processo de desenvolvimento humano. Como bem disse Paulo Freire, a educação não esse processo de transferência bancária de conhecimentos de uma conta corrente, a do professor, para outra conta corrente, a do aluno. A educação é um processo permanente, que vai do nascimento à morte, de preparação para a vida, mas não uma vida que é mera sobrevida, mas uma vida que represente uma escolha consciente de um projeto de vida que lhe dê sentido e realize.

O objetivo da eduação e, a fortiori, da escola, não é encher a cabeça das crianças de informações e supostos conhecimentos (vide Edgar Morin, La Tête Bien Faite), mas sim ajudá-las a construir as suas competências e, através delas, a sua autonomia. E não se conhece nenhum caso de competência e autonomia "transferida" por um professor a um aluno. Competência e autonomia se constróem — e cada um tem de construir as suas (embora, como mais uma vez bem ressaltou Paulo Freire, ninguém faça isso sozinho).


Terceira crítica:

Afirma o Editorial:

"O desempenho na prova nacional realizada pelo MEC dos alunos da 8ª série . . . ficou 18% acima da média nacional em português e 17% em matemática".

Coerentemente com a visão ultrapassada da educação vem uma visão ultrapassada da avaliação do sucesso (ou "êxito", como o chama Editorial). Sucesso na escola, ou, como se pretende, sucesso na aprendizagem, é medido por uma prova nacional realizada pelo MEC. O que mede essa prova? Se os alunos assimilaram bem os "conhecimentos transmitidos" pelo professor? Se os tais conhecimentos ficaram na "conta bancária" das crianças o tempo suficiente para elas acertarem um número razoável de respostas às perguntas do MEC?

Como é que se avalia a construção de competências? Aluno x aprendeu a ler, diz a professora. Fácil de avaliar: traga o aluno aqui que eu vou lhe dar uns textos para ler e, depois, conversar com ele para ver se ele entendeu. Aluno x aprendeu a nadar. Traga-o aqui que quero vê-lo pular na piscina e sair nadando. Aprender a ler e aprender a nadar são processos de aquisição de competências, são processos mediante os quais alguém se torna capaz de fazer aquilo que não conseguia fazer antes. E a aquisição da competência se comprova fazendo… Fazendo aquilo em que consiste a referida competência, não fazendo uma prova. Boa nota em uma prova dessas que há por aí só comprova que o aluno adquiriu a competência de passar em prova daquele tipo, a competência de tirar nota.


Quarta crítica:

Diz o Editorial:

"As ‘receitas’ das 33 instituições selecionadas pelo Unicef e pelo MEC não são universalizáveis. Foi o caminho que aquela escola encontrou para resolver seu problema específico. Eventualmente, a solução servirá a outro colégio, mas não a todos."

Triste conclusão. O sucesso dessas escolas, se é que é de sucesso que se trata, se deve a combinações de variáveis que não podem ser replicadas. Elas são como aquela pizzaria que vende excelente pizza porque o pizzaiolo é um gênio. Mas ele, se tem uma receita, não a compartilha. Logo, só ele sabe fazer a pizza deliciosa. Tudo bem: pra quem pode ir lá comer a pizza, enquanto o pizzaiolo está vivo, ótimo. Mas depois, perdeu-se o know-how. Uma pizzaria dessas não dá para ser base de uma franquia que traga pizzas de qualidade, em escala, à população toda do país.

Sucesso ou êxito, no caso da educação pública brasileira, só pode ser declarado quando se encontrarem soluções para o problema da qualidade que sejam, sim, universalizáveis, que possam ser transferidos de uma escola para as demais. Caso contrário, o impacto é, estatisticamente falando, negligível


É isso. Por enquanto.

Em Salto, 26 de dezembro de 2006

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Folha de S. Paulo
24 de dezembro de 2006

Editorial

O segredo do êxito

Estudo de escolas com alunos carentes de bom desempenho mostra que ensino de qualidade pode superar obstáculo social

UM INTERESSANTE estudo co-assinado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo Ministério da Educação (MEC) identificou 33 escolas públicas estaduais e municipais de ensino fundamental que, além de apresentar boas notas em avaliações, tiveram um impacto positivo sobre o aprendizado das crianças.

Esse último aspecto – o de medir o peso da instituição escolar no desempenho de crianças e adolescentes – é uma inovação que aos poucos ganha terreno em pesquisas na área da educação. Não se trata mais de apurar médias, mas de saber por que, em determinados locais cuja população tem características socioculturais específicas, as escolas conseguem transmitir mais conhecimento a seus alunos em relação ao que era esperado.

De posse da lista das 33 instituições – todas atendem a clientelas carentes -, um grupo de técnicos visitou as escolas, procurando determinar os elementos que tinham em comum.

Suas conclusões não chegam a surpreender. As boas práticas encontradas reforçam o que especialistas vêm dizendo já há algum tempo. Os principais ingredientes para o sucesso incluem: professores capacitados e empenhados; alunos interessados e exigentes; projetos pedagógicos ligados ao cotidiano das crianças; conexões entre a escola e fontes produtoras de conhecimento como universidades; e o envolvimento dos pais e da comunidade no processo de aprendizado.

É claro que outros elementos, como salários e infra-estrutura, importam. Mas o trabalho, intitulado "Aprova Brasil – o direito de aprender", mostra que, em determinados casos, carências nessa área podem ser compensadas por uma feliz conjunção de liderança com criatividade.

Um exemplo é o da escola municipal Minas Gerais, do Rio de Janeiro. A instituição está instalada num prédio histórico. Não tem quadras nem equipamentos esportivos. As crianças, contudo, conseguem praticar atividades físicas porque a direção firmou parcerias com universidades e um quartel do entorno que emprestam suas instalações.

Outro caso notável é o de uma escola municipal em São Brás do Suaçuí (MG). Funciona em prédio cedido, não tem computador nem internet: conta com dois mimeógrafos a álcool e um aparelho de som. Mesmo assim, o desempenho na prova nacional realizada pelo MEC dos alunos da 8ª série -instados pelos mestres a relatar quantas horas dedicam ao estudo em casa- ficou 18% acima da média nacional em português e 17% em matemática.

As "receitas" das 33 instituições selecionadas pelo Unicef e pelo MEC não são universalizáveis. Foi o caminho que aquela escola encontrou para resolver seu problema específico. Eventualmente, a solução servirá a outro colégio, mas não a todos.

A mensagem que o "Aprova Brasil" procura transmitir é que as carências sociais não são obstáculo intransponível a uma educação de qualidade. Como fazer para que as mais de 41 mil escolas do país sigam o exemplo das 33 permanece um desafio.

Natal

Nesta data recebo muitos cartões de Natal. Felizmente, hoje, a maior parte deles virtual – embora alguns cartões físicos ainda pinguem de vez em quando. Confesso que, ainda que isso possa parecer rude, quase nunca os respondo e, no fim, deleto todos – ou jogo fora os que vieram pelo correio convencional ou por portador (exceto os que contêm alguma informação adicional, além da mensagem de Natal, como é o caso dos cartões de meu amigo Greg Butler, que são uma verdadeira newsletter das andanças da família no ano anterior).
 
Não sou muito de apreciar esses festejos de fim de ano. Não me interpretem mal: gosto de festejar – quando, naturalmente, há o que festejar. Quando o São Paulo ganhar o Campeonato Mundial pela quarta fez, espero que agora em 2007, certamente festejarei – mais do que se a Seleção Brasileira tivesse ganho o seu hexa. O que não aprecio são festejos regulares, artificiais, sem razão de ser, determinados por calendários, de data marcada. Como o Natal.
 
O que celebra o Natal?
 
O foco da celebração é a data (suposta) de nascimento de um judeu nascido na Palestina há cerca de dois mil anos. A Palestina, por sinal, já tinha problemas sérios naquela época: era ocupada pelos Romanos, e, pelo que consta, governada por um preposto romano, Herodes, de sobrenome Antipas, chegado em matar criancinhas indefesas (será por isso que o termo "antipático" tem o sentido que tem? Mas antipático é pouco para descrevê-lo: assassino sanguinário é o que ele era). Registra a história cristã que o nascimento do menino foi envolto em uma série de irregularidades. Ele era, pelo jeito, filho de mãe solteira, e nasceu em lugar absolutamente inóspito, em meio a animais. Consta que, apesar disso, ganhou presentes ricos, como ouro, incenso e mirra – e, ainda por cima, dados por reis e trazidos ali ao estábulo pelos próprios. Toda a história é bastante inverossímil, convenhamos. Reis raramente saem, em pessoa, dando presentes ricos para filhos de mães solteiras nascidos em manjedouras. Nem quando os filhos irregulares são deles.
 
Acreditam os que ainda hoje se dizem seus discípulos que o menino judeu era precoce – em algumas áreas, pelo menos (na área sexual, segundo o relato oficial, nem tanto – embora o relato oficioso lhe seja mais lisonjeiro). Aos doze anos, ao ir ao Templo em Jerusalém pela primeira vez, supostamente engajou sábios judeus ("doutores na lei") em uma discussão acalorada sobre alguma filigrana jurídica e os deixou encurralados, basbaques. Xeque-mate. Depois, porém, surpreendentemente, em vez de seguir o rabinato, carreira para a qual parecia ser eminentemente bem-dotado, enveredou-se por uma atividade braçal: foi ser carpinteiro, em sociedade com o padrasto – este sim, um santo. (A meu ver, o padrasto é o maior santo dessa história. Acreditou que a gravidez da noiva fosse miraculosa e a aceitou como virgem, mesmo depois do nascimento do filhote. Cuidou do filho que não era seu, educou-o, dentro de suas possibilidades, ensinou-lhe seu ofício, e, no devido tempo, ofereceu-lhe sociedade no negócio. Poucos pais fazem isso. Ele tem minha total simpatia.). Simpatias à parte, porém, mais uma história implausível, não é? Judeus em geral dedicam o primeiro filho para o rabinato, especialmente se o menino demonstra sinais precoces de brilhantismo intelectual. E, depois, escolhem uma noiva rica e não muito burra para ele. É assim que aprimoram a raça (pelo menos segundo o livro The Bell Curve). Nada disso, porém, aconteceu neste caso.  
 
Quando o jovem chegou às portas da meia-idade, lá por volta dos 30 anos, ainda na casa materna, sem ter chamado atenção sobre si próprio, com exceção do episódio da discussão no Templo, ele foi batizado, por um primo-segundo, um tipo estranho, cujo nascimento também havia sido envolto em algum mistério. Pois vejam. O presumido pai do primo, um sacerdote, pelo que consta estava já velhinho, não dando mais no couro. Mas a mulher dele, bem mais jovem, queria porque queria um filho. Só um milagre resolveria o problema. E, miraculosamente, o milagre aconteceu. Os detalhes não são esclarecidos no Evangelho, mas o milagre envolveu a presença de um anjo na história, o resultado sendo que a mulher do sacerdote acabou grávida do filho que tanto desejava. (Casar-se com mulher muito mais jovem em geral dá na nisso, sinto dizer. Mulher velha, casar-se com homem muito mais moço, também dá: a Suzana Vieira que o diga.). Mas voltemos à nossa história. Trinta e poucos anos depois de seu nascimento, esse filho milagroso, que era uma espécie de hippie do século primeiro, que andava pregando pelo deserto com uma voz estrondosa, vestido com vestes de pelos de camelo, e comendo gafanhotos e mel silvestre, batizou o primo também milagroso – e, pelo que consta, talvez para valorizar o próprio papel, declarou que o batizado era o cordeiro de Deus que iria tirar o pecado do mundo. É muito milagre pro meu gosto. Pelo jeito o pessoal de antigamente não acreditava que gente nascida de uma transa convencional pudesse ser grande coisa. Pra ser bom o cara tinha de nascer, milagrosamente, de virgem ou, então, numa época em que inexistia Viagra, também milagrosamente de homem sexualmente aposentado.
 
O pior é que o próprio batizado acreditou na profecia do primo, convenceu-se de que era o Messias e resolveu se tornar um pregador itinerante. Ele tinha voz mansa, diferentemente do seu primo. Considerava-se o filho primogênito de Deus, e, por isso, chamava Deus de pai e o tratava por "tu". (Nisso ele foi seguido pelos protestantes que até hoje tratam Deus de "tu". Os católicos, achando isso uma falta de respeito, mudaram a linguagem dele e tratam Deus de "vós" – o que, convenhamos, de certo modo, sendo um tratamento plural, reconhece o caráter uniplural da divindade cristã. Fim de parêntese.) Mas o nosso amigo (se ele me permite essa forma intimista de tratamento) andou em companhia que, admitamos, estava longe de ser considerada acima de qualquer crítica. Prostitutas, em mais de um momento, fizeram parte de sua entourage. A lenda preservada fora dos Evangelhos canônicos é insistente em afirmar que até teve um caso prolongado com uma delas (fato que o redime da alegada imprecocidade sexual) – uma vertente diz que ele até se casou com ele. De qualquer forma, ele causou um reboliço danado no Templo, em Jerusalém, dando chicotadas a torto e a direito nos ambulantes que tentavam ganhar a vida vendendo coisinhas aos fiéis. Não conquistou muitos amigos entre os pequenos empresários locais com esse gesto. Além disso, arrebanhou um grupo de discípulos meio arrebatados: um deles, antes um pescador, chegou a tirar a espada para matar um desafeto. O pregador itinerante, apesar da voz mansa, tinha uma mensagem meio subversiva, alegando que os últimos seriam os primeiros, que os pobres herdariam a terra, que seria preciso ter "fome e sede de justiça", etc. Com tanto problema, não é de admirar que tenha oportunamente sido preso, condenado (em rito mais ou menos sumário, como se faz em Cuba ainda hoje) e crucificado – depois de devidamente traído por um de seus discípulos, negado por aquele seu discípulo valentão e abandonado pelos demais. Isso tudo apesar de ele, de vez em quando, para despistar, designar-se "Filho do Homem", e não "Filho de Deus". (Aqui entre nós, o primo que o batizou também teve triste fim: a cabeça cortada e servida em uma bandeja à filha da mulher de Herodes. Se tivessem perguntado a mim, eu teria dito, do alto de minha experiência de sexagenário, que a coisa não iria dar certo. Deu no que deu.)
 
As histórias fantásticas, porém, continuaram. Depois de morto e sepultado, o corpo do crucificado desapareceu, deu sumiço. Acharam seu túmulo vaziozinho. Mas, apesar disso, a moça (se é que o termo é aplicável: trata-se daquela com a qual a história extra-canônica diz que ele teve um caso) disse que o havia visto vivinho da silva, depois de morto… e alguns dos seus discípulos também se convenceram de que o haviam re-encontrado numa estrada. Ainda hoje, seus seguidores acreditam que ele de fato ressuscitou dentre os mortos e, depois de alguns dias assombrando os desavisados, subiu aos céus onde está até o momento presente e de onde um dia há de voltar para julgar vivos e mortos. Faz dois mil anos que seus seguidores consideram essa volta iminente. Alguns dos seus seguidores acreditam até mesmo que sua mãe também subiu aos céus onde está até hoje, ao lado do filho, tendo, na verdade, enorme influência junto a ele. Muitos até mesmo acreditam que, conversando primeiro com ela, e pedindo para ela insistir junto ao filho famoso, vão conseguir graças especiais. (A propósito, os católicos acham que a mãe dele é virgem até hoje. Certamente é um record de virgindade: dois mil anos! E, o que é pior, sem perspectiva, posto que, segundo os católicos, a virgindade dela está condenada a ser perpétua. Eu acharia cruel condenar alguém à virgindade perpétua – mas, novamente, ninguém me consultou.)
 
Aqui entre nós, e para terminar: se alguém escrevesse um romance com tal enredo fantástico (Gabriel Garcia Marquez perde longe), você acreditaria que a história era verídica? Não tenho dúvida de que haveria gente que iria comprar o livro (compram até os livros mais fraquinhos do puxador de saco do Fidel), e de que Hollywood poderia até fazer um filme (como já fez vários), mas será que isso faria com que você acreditasse que a história era verídica?
 
Não estou sozinho nesse meu ceticismo. Um dos seus discípulos, lá no século II, reconheceu que a história era totalmente absurda. Mas disse: "credo quia absurdum" — "creio porque é absurdo"… Se a história não fosse absurda, raciocinou ele, não era preciso crer – bastava aceitá-la, racionalmente, como a gente aceita tantos outros fatos da história. Um grande filósofo escocês do século XVIII (na minha opinião o maior), que, como eu, era meio desconfiado de milagres, ressaltou que essa história é tão cheia de milagres que só com outro alguém consegue acreditar nela… Quase foi pra fogueira por dizer uma coisa dessas…
 
Pois bem: é o nascimento desse menino judeu, que, depois de morto e supostamente ressurreto, veio a se tornar globalizado, que o Natal comemora. Pergunto: exatamente o que há para comemorar nessa história?

Em todo caso, crendo ou não que haja o que comemorar, desejo a todos que tenham um Feliz Natal.

[Em tempo: Desculpas antecipadas aos meus amigos que se ofenderem. Como se dizia antigamente na Internet, "flames –> null"]. 

[NOTA acrescentada em Dezembro de 2007: O glorioso SPFC não ganhou sua quarta estrela mundial em 2007 — embora tenha sido Campeão Brasileiro, humilhando os concorrentes ao ficar mais de 15 pontos na frente do segundo colocado. Ganhou o Campeonato Mundial o Milan — na realidade, o Kaká, que é são-paulino… Festejei.]
 
Em Salto, 23 de Dezembro de 2006

Bem, minha bagagem chegou – em parte

Dez dias depois de eu chegar, parte de minha bagagem chegou — ainda falta uma mochila.
 
Estou contente de que a mala principal tenha chegado. Mas o serviço de bagagens do aeroporto de Heathrow em Londres e da British Airways é um completo desastre.
 
Durante mais de uma semana não conseguiram sequer localizar a mala que estava lá em Heathrow o tempo todo, devidamente etiquetada e identificada.
 
Quando a acharam e enviaram, eu a recebi totalmente molhada (por fora e por dentro) e num horário nada comercial: às vinte para as duas da madrugada.
 
Felizmente, embrulho em plástico livros e outras coisas que podem ser danificadas pela água, porque não é a primeira vez que recebo mala molhada. Mas os ternos e as demais roupas tiveram de ir para a lavanderia hoje, por estarem totalmente molhados.
 
Fica aqui o meu protesto.
 
Em Campinas, 20 de dezembro de 2006

Minha bagagem embarcada pelo jeito não embarcou…

Sempre que viajo para a Ásia comento, ao voltar, a minha surpresa de que tudo tenha dado tão certo. São, em geral, mais de 25 horas no ar, mais de 10 horas em traslados e esperas em aeroporto, e, chegando lá, sempre há alguém esperando, com uma plaquinha com meu nome, no hotel a reserva está feita direitinho, etc.
 
Ontem cheguei da Malásia, com uma hora de atraso – e minhas malas não chegaram. Na verdade, não chegaram as malas de quase 100 dos cerca de 350+ passageiros do Jumbo 747 da British Airways no vôo BA 235 de 10/12/2006.
 
O culpado certamente foi o Aeroporto de Heathrow, em Londres. Se apenas as minhas malas não houvessem chegado, poderia ter sido culpa da Malaysia Airlines, visto que quem as embarcou, em Kuala Lumpur, para transferência em London – Heathrow, foi a companhia da Malásia. Mas a maior parte dos passageiros que ficou sem malas embarcou originalmente em Londres. Logo, a culpa é da British Airways ou, mais provavelmente, do aeroporto de Heathrow.
 
Creio que nenhum dos passageiros tenha dúvida de que a culpa é dos absurdos procedimentos de segurança do aeroporto. Tudo lá estava caótico.
 
Primeiro, há a exigência de que cada passageiro carregue no máximo uma bagagem de mão. Nem sequer uma pequena bolsa de mulher, ou uma pequena capanga de homem, ou uma sacola com livros, muito menos uma maleta de computador, era permitida a bordo como segundo volume. Isso fez com que milhares de pessoas, que não tinham conhecimento desse procedimento, tivessem de despachar um volume na porta do avião ou, então, precisassem tentar enfiar tudo que tinham em mãos dentro de uma maleta só (que foi o que fiz). Isso explica a uma hora de atraso na partida.
 
(Esse procedimento não explica todo o atraso: o fato de a gente precisar tomar ônibus para chegar até o avião, um verdadeiro absurdo nos dias de hoje, explica o resto. No aeroporto de Lisboa acontece o mesmo. Mas lá há uma explicação plausível: a empresa portuguesa que construiu os fingers do aeroporto os contruiu verticalmente fixos. Eles, assim, não podem se ajustar à altura dos aviões modernos — aviões modernos aqui querendo dizer aviões de uns 40 anos, como os Boeing 747… Será que foi a mesma empresa portuguesa que construiu os fingers de London Heathrow? Pelo jeito…).
 
Segundo, há a proibição de carregar líqüidos na bagagem de mão. Essa proibição foi "relaxada" um pouco ultimamente: agora se admitem volumes de até 100 mil desde que colocados em um saco plástico transparente, resselável, etc. Nos locais de checagem de segurança, havia centenas de garrafinhas de água, refrigerantes, até remédios, tudo confiscado ou relutantemente abandonado pelo dono. Mais caos e demora.
 
Acredito que devem ter suspeitado alguma coisa num lote de malas que deveria ter vindo em nossa avião e, por isso, não embarcaram o lote todo. Só isso pode explicar a não chegada de tanta bagagem.
 
Uma vez mais, é o país europeu desenvolvido que decepciona, enquanto os países asiáticos fazem tudo direitinho, como manda o figurino.
 
(E não falo nem da feiura do aeroporto de Londres perto da beleza que são os aeroportos de Kuala Lumpur, Bangkok, Hong Kong, Taipei, Singapore, Seoul…) 
 
Felizmente me dei ao trabalho de colocar a minha mochila inteira dentro da maleta do computador. Ficou meio amassada, uma pena, mas não precisei despachar mais um volume — que, provavelmente, não teria chegado… E, uma vez dentro do avião, removi a mochila de dentro da maleta e carreguei as duas normalmente. Havia amplo espaço para armazenar as duas na upper deck do 747 – o lugar mais gostoso de voar, especialmente nos assentos junto à janela, que possuem bastante espaço lateral, no chão, para armazenar as coisas.
 
Em Campinas, 11 de dezembro de 2006

Anti-Americanismo

Já discuti este assunto aqui neste space, comentando um livro de Jean-François Revel. Trago-o de novo à baila a propósito de um outro livro.

Comprei, numa megalivraria de origem japonesa em Kuala Lumpur, no sábado, 9/12/2006, dia em que, à noite, saí de lá, um livro interessante, e que mereceria ser traduzido para o português: “Understanding Anti-Americanism: Its Origins and Impact, At Home and Abroad”, editado por Paul Hollander, que também faz uma grande introdução, e publicado por Ivan R. Dee, Chicago, 2004. (A propósito, nunca ouvi falar nessa editora. Uma das razões por que comprei o livro na hora, sem hesitar, foi a editora desconhecida. Editoras desconhecidas têm maior dificuldade para colocar seus livros nas livrarias e de conseguir que eles sejam traduzidos. Assim, é preciso aproveitar a chance: quando encontro um livro que parece interessante, compro-o na hora).

O editor, Paul Hollander, já havia escrito um livro sobre o assunto – mas antes de 11 de Setembro (Nine Eleven) – com o título: “Anti-Americanism: Critiques At Home and Abroad” (New York, 1992), que foi atualizado três anos depois e, curiosamente, saiu publicado, na edição revisada, com um título bastante diferente: “Anti-Americanism: Irrational and Rational” (New Brunswick, NJ, 1995).

Paul Hollander, que é um imigrante húngaro que fugiu do país quando os soviéticos invadiram a Hungria em 1956, indo, primeiro, para a Inglaterra, e, em 1959, para os Estados Unidos, onde fez pós-graduação e acabou se naturalizando americano, foi, durante muitos anos, professor de sociologia da Universidade de Masachussetts em Amherst, MA, estando agora aposentado, como Professor Emérito de Sociologia. 

Hollander faz questão de distinguir “anti-americanismo” de “crítica dos Estados Unidos”. Ele admite, sem problemas, que os Estados Unidos, como país, têm muito que pode e deve ser criticado, e que não há nada de excepcional no fato de que, tanto dentro como fora do país, essas críticas se expressem, até mesmo com certa veemência. O anti-americanismo de que trata o livro, porém, é algo diferente. Ele está muito mais próximo de um ódio generalizado dos Estados Unidos do que de uma crítica objetiva de aspectos isolados da política e da sociedade americana. Esse ódio tem raízes complexas, que o livro se propõe analisar. Algumas dessas raízes podem, no caso de um país ou uma região, envolver elementos geopolíticos, ideológicos, religiosos e até mesmo psicológicos – para mencionar apenas alguns. Os anti-americanos, no mais das vezes, querem a destruição dos Estados Unidos, não reconhecendo no país (na sociedade, na cultura, na economia) nada que o “redima”. Os anti-americanos se regozijaram, em 11 de Setembro, quando as Torres Gêmeas de Nova York foram destruídas, com a morte de mais de três mil pessoas inocentes – civis, não militares. Na verdade, a maioria deles se recusa a reconhecer que as pessoas que morreram eram inocentes: um americano é culpado, e, portanto, objeto legítimo de uma ação terrorista, simplesmente por ser americano. Os anti-americanos, alguns deles dentro dos Estados Unidos e cidadãos do país, se apressaram em afirmar, na seqüência a 11 de Setembro, que os Estados Unidos foram os principais responsáveis pelos ataques terroristas daquele dia, por causa de sua política externa, por causa da ação de seus militares, por causa do controle da economia mundial por parte de suas empresas, por parte da invasão das telas e livrarias do mundo pelos programas, filmes, revistas e livros americanos. Alguns anti-americanos não hesitaram em chamar de “contra-terrorismo” a ação dos terroristas em 11 de Setembro, chamando de “terroristas” as ações do governo e das empresas americanas no mundo. Não faltou quem dissesse, entre os anti-americanos, que Bush era uma ameaça maior para a paz do mundo do que Osama bin Laden ou Saddam Hussein, ou quem o tivesse comparado a Hitler e Stalin, ou, então, acusado os Estados Unidos de estarem no mesmo nível da Alemanha Nazista – ou até em nível pior, porque a Alemanha Nazista pelo menos tinha quem lhe pudesse resistir (a Inglaterra, os próprios Estados Unidos, a Rússia), enquanto os Estados Unidos, hoje, depois do colapso da União Soviética, são um poder político, militar, econômico e cultural sem concorrentes e, por isso, sem possibilidade de contestação e resistência.

O livro editado por Hollander é escrito a várias mãos, e cobre, na primeira parte, depois daintrodução do editor e de um capítulo sobre as raízes filosóficas do anti-americanismo, as raízes regionais do fenômeno, discutindo o anti-americanismo de extração francesa, britânica, alemã, russa (pós-comunista), árabe-islâmica, e latino-americana (com capítulos especiais sobre Cuba e a Nicarágua). Na segunda parte o livro tem como foco o “anti-americanismo doméstico”, surgido (não necessariamente sem influência estrangeira) nos próprios Estados Unidos. Aqui capítulos são dedicados aos problemas do racismo, do feminismo, do multiculturalismo, da chamada “educação para a diversidade e a tolerância”, do movimento pacifista, da esquerda política, e do conteúdo não só crítico, mas profundamente satírico, da cultura e da vida americana que se vê nos filmes e nos programas de televisão que os Estados Unidos distribuem para o mundo inteiro, e que são, na opinião do autor do capítulo, visões extremamente unilaterais e distorcidas da sociedade americana (em que aparecem, como regra, casais interraciais, casais de homossexuais, casais rotineiramente adúlteros ou insatisfeitos com seus casamentos ou relacionamentos, mães e pais solteiros ou divorciados, em que as pessoas ridicularizam os valores da classe média e da religião, etc.). A visão da sociedade e da vida americana que o cinema e a televisão dos Estados Unidos apresentam ao mundo não corresponde à realidade da sociedade e da vida americana.

Entre os múltiplos fatores que explicam o anti-americanismo há alguns que não podem ser esquecidos ou negligenciados, ainda que seu peso maior se dê em casos específicos de anti-americanismo.

Um primeiro desses fatores é ideológico. A esquerda, no mundo inteiro, ficou órfã com a queda fragorosa do comunismo na União Soviética e no Leste Europeu. Os Estados Unidos sempre foram o grande inimigo da União Soviética e do comunismo no mundo, combatendo-o uma e outro dentro e fora de suas fronteiras, sem hesitar em usar meios militares, como aconteceu nas guerras da Coréia e do Vietnam. Era de esperar, portanto, que com a vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria, o ódio que a esquerda tinha ao país aumentasse – afinal de contas, os Estados Unidos, através de uma estratégia bem elaborada daquele que a esquerda insiste em chamar de o primeiro cowboy presidente (o segundo seria o Bush), derrotaram a pátria do socialismo comunista, na verdade, sem precisar fazer grande esforço naquele momento específico. É verdade que se pode dizer que a União Soviética se auto-destruiu, caiu de podridão interna – e isso seria, em parte, verdadeiro. Mas não resta dúvida, por mais que a esquerda tente negar, que Ronald Reagan elevou a aposta na Guerra Fria a tal ponto que a União Soviética não tinha como pagar para ver: precisou retirar seu time de campo. E, ao perceber a fraqueza da pátria do socialismo comunista, os demais países comunistas, com exceção de Cuba e da Coréia do Norte, rejeitaram o comunismo e abraçaram princípios liberais na economia e, em parte, na política (a China sendo a exceção: liberalizou-se na economia, mas nem tanto na política).

A vitória dos Estados Unidos provocou enorme frustração e sentimento de fracasso nas esquerdas – sensações que facilmemente se transformaram, no mundo inteiro, em ressentimento para com o vencedor da Guerra Fria. A estratégia de luta da esquerda, derrotada por completo, se alterou, embora pouco e de forma não muito sutil. Agora o foco principal não é mais criticar os Estados Unidos por serem um país liberal-capitalista (hoje, quem não é?), mas, sim, criticar a globalização econômica e cultura liderada pelos Estados Unidos, a posição do governo americano em relação ao ambiente (especialmente sua recusa do Protocolo de Kioto), as ações militares em que os Estados Unidos se envolveram no combate ao terrorismo, seu unilateralismo, que implica rejeição dos multilateralismos patrocinados pela ONU e pela União Européia, etc.

Uma nova pauta de reclamações – mas, no fundo, essa pauta é alimentada pela frustração e pelo ressentimento dos órfãos do comunismo pela vitória retumbante dos Estados Unidos na Guerra Fria, e por ter o país vindo a ocupar, virtualmente sem contestação significativa, posição de liderança na vida política, militar, econômica e cultural do mundo atual.

Um segundo desses fatores é – por falta de melhor termo – a inveja. Já escrevi um longo artigo sobre a inveja, no início da década de noventa, e aqui volto ao tema. Só que, anteriormente, discuti a inveja como um fator importante na busca do igualitarismo e da chamada justiça social – bem como da crítica dos que são bem sucedidos, que raramente recebem o crédito devido para esse sucesso, que, o mais das vezes, é atribuído a exploração, corrupção, quando não a roubo descarado. Aqui a questão da inveja se aplica a nações e regiões, não a indivíduos – embora o princípio seja o mesmo, porque a inveja é sempre expressa por indivíduos (nações e regiões, evidentemente, não falam, a não ser através da boca dos indivíduos que as compõem). Esse fator – a inveja – parece ser um componente importante do anti-americanismo latino-americano atual.

A América Latina é um bloco de países que abrange a maior parte da América do Sul (só se excetuando as Guianas), a América Central como um todo, boa parte do Caribe, e o México, na América do Norte. Territorial e populacionalmente esse bloco é extremamente significativo: representa bem mais território e muito mais gente do que a União Européia – com a vantagem cultural de falar basicamente duas línguas, o espanhol e o português, línguas essas que são indicativas da hegemonia que a Espanha e Portugal exerceram sobre a região. Apesar de ter um bloco tão significativo, territorial e populacionalmente, e de ter tido sua colonização por países europeus iniciada antes da colonização do restante da América do Norte, a América Latina, como um bloco regional, continua a ser um país sub-desenvolvido do Terceiro Mundo, tanto econômica quanto politicamente, enquanto os Estados Unidos são hoje uma potência hegemônica militarmente e a maior potência do mundo em termos políticos, econômicos, e culturais.

Dificilmente os latinoamericanos vão achar a causa desse desempenho inferior em si mesmos. A tendência é colocar a culpa pelos seus males nos Estados Unidos, que viraram bode expiatório para tudo que de mau e ruim acontece na região (e no mundo). Se há um golpe militar na América Latina que interrompe um governo que os latinoamericanos identificam como de esquerda, ou como nacionalista, ou como anti-americano, a culpa é sempre do governo americano e da CIA. Vejam-se as ladainhas sobre o papel da CIA no golpe militar brasileiro e na queda do governo Allende no Chile. Numa atitude que, ironicamente, parece admitir que os latinoamericanos são totalmente incapazes de, por si só, realizar até mesmo golpes de estado que encerram governos não desejados pelas lideranças ou até mesmo pela maioria da população, os latinoamericanos, especialmente os de esquerda, que já possuem propensão ideológica para o anti-americanismo, acusam o governo americano de intervenção, em geral através da CIA. A atribuição da causa de seus males, de seus problemas, e de seus fracassos ao “grande irmão do Norte” (agora visto mais como “Big Brother” do que como realmente “hermano”) leva boa parte dos latino-americanos – as esquerdas, os intelectuais, os artistas, a mídia – a promover, ativamente, um anti-americanismo de invejosos e despeitados.

Por fim, um terceiro desses fatores é a religião. Os Estados Unidos talvez sejam o último país, no Ocidente que um dia foi cristão, em que a religião cristã ainda tem um papel importante na vida social e na vida pública (razão pela qual os europeus, em regra, ridicularizam o país, chamando-o de culturalmente primitivo, fundamentalista, etc.). Fora do Ocidente e do mundo islâmico, Israel é o único outro país em que a religião desempenha um papel importante na vida social e na vida pública. Também é verdade, porém, que, sem contradição, tanto os Estados Unidos como Israel também são países seculares e não teocracias, e, do ponto de vista científico, tecnológico e econômico, extremamente bem sucedidos. Assim sendo, ambos representam uma grande ameaça para o mundo árabe-islâmico, ameaça decorrente do fato de que os Estados Unidos são, aparentemente, o último reduto do Cristianismo e Israel do Judaísmo – as duas grandes religiões que concorrem com o Islamismo. Isso explica porque o ódio dos árabes-islâmicos aos Estados Unidos vai de mãos dadas com seu ódio a Israel.

Além disso, mesmo sem entrar nos problemas geopolíticos que colocam árabes-islâmicos, de um lado, e americanos e israelenses de outro, o caráter moderno e secular dos dois países aparece como a maior ameaça para a visão predominantemente religiosa e teocrática do mundo dos países islâmicos, em especial no mundo árabe. (Não se dá o mesmo na Malásia, por exemplo, país do qual estou retornando para o Brasil, que é islâmico mas é moderno e, até certo ponto, secular – a lei islâmica cobre aspectos da conduta, mas há uma lei secular que regula os demais – e profundamente comprometido com a adoção do modelo de produção, da arquitetura, da tecnologia e de um sem número de outros aspectos da cultura ocidental, vale dizer, predominantemente americana). Assim, o anti-americanismo árabe-islâmico tem componentes geopolíticos, sem dúvida, mas também religiosos e culturais.

Enfim, vale a pena ler o livro. Gostaria de ter tempo de traduzi-lo eu mesmo para o português. Mas aos 63 anos [escrito em 2006] a gente tem de definir cuidadosamente as prioridades: há outros que podem fazer isso, quem sabe até melhor. Talvez este artiguinho os motive.

Em cima do Oceano Atlântico, viajando de Londres para São Paulo, 10 de dezembro de 2006 [em três horas mais devemos estar chegando a Guarulhos]. 

Os aeroportos com maior tráfego de passageiros no mundo

Os aeroportos com maior tráfego de passageiros no mundo, em 2005, foram, segundo a Wikipedia, os seguintes:
 
2005 final statistics

Rank Airport Country Location Code
(IATA/ICAO)
Total
Passengers
2004
Rank
Change
1. Hartsfield-Jackson Atlanta International Airport United States Atlanta, Georgia, United States ATL/KATL 85,907,423 1 +2.8%
2. O’Hare International Airport United States Chicago, Illinois, United States ORD/KORD 76,510,003 2 +1.3%
3. London Heathrow Airport United Kingdom Hayes, Greater London, United Kingdom LHR/EGLL 67,915,403 3 +0.8%
4. Tokyo International Airport (Haneda) Japan Ota, Tokyo, Japan HND/RJTT 63,282,219 4 +1.6%
5. Los Angeles International Airport United States Los Angeles, California, United States LAX/KLAX 61,489,398 5 +1.3%
6. Dallas-Fort Worth International Airport United States Dallas/Fort Worth, Texas, United States DFW/KDFW 59,176,265 6 -0.4%
7. Charles De Gaulle International Airport France Roissy, Tremblay-en-France, France CDG/LFPG 53,798,308 7 +5.0%
8. Frankfurt International Airport Germany Frankfurt, Hesse, Germany FRA/EDDF 52,219,412 8 +2.2%
9. Amsterdam Schiphol Airport Netherlands Haarlemmermeer, North Holland, The Netherlands AMS/EHAM 44,163,098 9 +3.8%
10. McCarran International Airport United States Las Vegas, Nevada, United States LAS/KLAS 43,989,982 11 (+1) +6.0%
11. Denver International Airport United States Denver, Colorado, United States DEN/KDEN 43,387,513 10 (-1) +2.6%
12. Barajas International Airport Spain Madrid, Spain MAD/LEMD 41,940,059 13 (+1) +8.4%
13. John F. Kennedy International Airport United States New York City, New York, United States JFK/KJFK 41,885,104 15 (+2) +8.9%
14. Sky Harbor International Airport United States Phoenix, Arizona, United States PHX/KPHX 41,213,754 12 (-2) +4.3%
15. Beijing Capital International Airport People's Republic of China Chaoyang, Beijing, People’s Republic of China PEK/ZBAA 41,004,008 20 (+5) +17.5%
16. Hong Kong International Airport Hong Kong Chek Lap Kok, New Territories, Hong Kong, People’s Republic of China HKG/VHHH 40,269,847 17 (+1) +9.7%
17. George Bush (Houston) Intercontinental Airport United States Houston, Texas, United States IAH/KIAH 39,684,640 18 (+1) +8.7%
18. Don Mueang International Airport (Old Bangkok Int’l) Thailand Bangkok, Thailand DMK/VTBD 38,985,043 14 (-4) +2.7%
19. Minneapolis-Saint Paul International Airport United States Minneapolis/Saint Paul, Minnesota, United States MSP/KMSP 37,604,373 16 (-3) +2.4%
20. Detroit Metropolitan Wayne County Airport United States Detroit, Michigan, United States DTW/KDTW 36,389,294 19 (-1) +3.2%
21. Orlando McCoy International Airport United States Orlando, Florida, United States MCO/KMCO 34,128,048 24 (+3) +8.4%
22 Newark Liberty International Airport United States Newark, New Jersey, United States EWR/KEWR 33,999,990 22 +3.3%
23. San Francisco International Airport United States San Francisco, California, United States SFO/KSFO 33,394,225 21 (-2) +2.3%
24. London Gatwick Airport United Kingdom West Sussex, United Kingdom LGW/EGKK 32,784,330 23 (-1) +4.2%
25. Singapore Changi Airport Singapore Changi, East Region, Singapore SIN/WSSS 32,430,856 26 (+1) +6.8%
26. Philadelphia International Airport United States Philadelphia, Pennsylvania, United States PHL/KPHL 31,495,385 30 (+4) +10.5%
27. Narita International Airport Japan Narita, Chiba, Japan NRT/RJAA 31,451,274 25 (-2) +1.3%
28. Miami International Airport United States Miami, Florida, United States MIA/KMIA 31,008,453 27 (-1) +2.8%
29. Toronto Pearson International Airport Canada Toronto, Ontario, Canada YYZ/CYYZ 29,914,750 28 (-1) +4.5%
30. Seattle-Tacoma International Airport United States Seattle, Washington, United States SEA/KSEA 29,289,026 N/A +1.7%
 
 
No Brasil, segundo dados da Infraero, os aeroportos que tiveram maior tráfego de passageiros em 2005 foram:
 
01. Congonhas / São Paulo: 17.147.628
02. Cumbica / São Paulo: 15.834.797
03. Brasília: 9.426.569
04. Galeão / Rio de Janeiro: 8.657.139
 
Se Congonhas e Cumbica fossem um aeroporto só, estaria entre os trinta de maior tráfego de passageiros no mundo…
 
Em Londres, 10 de dezembro de 2006

Voltando a falar da Europa e a Internet

Num dos meus artigos no meu blog de viagem escrevi sobre a Internet, os Estados Unidos e a Europa. Para contextualizar, transcrevo o artigo abaixo.
 
O que me fez lembrar do artigo foi o fato de que nos aeroportos asiáticos em que tenho estado nos últimos tempos (Tóquio, Hong Kong, Taiwan, Seoul, Bangkok, Kuala Lumpur) o acesso à Internet, nas salas VIP, é gratuito, bom e desburocratizado.
 
Nesta viagem parei no aeroporto de Munique e, hoje, aqui no aerporto de Londres (Heathrow). Em ambos os casos, as salas VIP da Lufthansa e de British Airways cobram o acesso à Internet.
 
Não é o fim da picada???
 
Em Londres, 10 de dezembro de 2006.
 
[Artigo anterior, transcrito]

Venho refletindo, nesses últimos dias, por força das circunstâncias, sobre as diferenças entre a Europa e os Estados Unidos.

Primeiro, no tocante a hotéis. Aqui na Europa tenho visto hotéis europeus tradicionais de primeira linha, caríssimos, hotéis de cadeias americanas tradicionais (Hilton, Sheraton, Marriott), hotéis da cadeia Accor, européia, e mais recente (Novotel, Sofitel, Mercure, Ibis), e hotéis mais baratos, locais, fora de cadeia.

As duas primeiras categorias têm preço que me parece exorbitante. Embora quando viage a serviço da Microsoft, fique sempre em hotéis das duas primeiras categorias (substituindo-se, na primeira categoria, “europeus” pelo adjetivo correspondente ao país em que há a reunião), quando se está viajando a lazer, durante 50 dias, não dá pra pagar de 250 a 400 Euros por dia.

As linhas Novotel e Sofitel da Rede Accor também são caras, em algumas cidades. Chequei o preço do Novotel Les Halles em Paris, e a diária era de 392 Euros. Fora de cogitação, apesar de ser um bom hotel e de ter uma localização mais do que privilegiada: nobilérrima.

Como é difícil confiar nos hotéis locais, fora de cadeia, a menos que a gente tenha conhecimento pessoal da qualidade deles, sobram as linhas Mercure e Ibis da Rede Hotel.

Minha opinião dos hotéis Ibis é de neles não falta quase nada – mas não tem nada mais do que o estritamente necessário. Normalmente são baratos – embora em Praga, uma cidade de hotéis caros, tenha pago 120 Euros por noite no Ibis Praha Old Town: que fica na entrada da Cidade Velha, na Praça da República. Em Viena, também fiquei num Ibis, a 15 minutos a pé do centrinho, e junto de uma estação do metrô: excelente – melhor do que  o de Praga, embora o preço tenha sido 77 Euros por dia.

Fiquei satisfeito tanto em Praga como em Viena – embora em Praga a Internet fosse um desastre. Sobre isso, porém, falarei adiante.

Aqui em Salzburg – cidade também conhecida pelo alto preço de seus hotéis – não havia Ibis disponíveis. Os poucos que há são fora da cidade. Optei pelo Mercure, a 144 Euros por dia. Chegando aqui, constatei que o hotel era novo. Mas aí começaram as surpresas desagradáveis. Primeiro, não havia Internet nos quartos – nem pagas (apesar de os dois Ibis anteriores, que são hotéis de uma linha mais barata do que a Mercure, terem). Segunda surpresa desagradável: o quarto não tinha ar condicionado. Fui reclamar. Disseram-me que minha reserva havia sido para um quarto padrão. Retorqui afirmando que, naturalmente que sim… O problema, porém, disse-lhes, não estava com a minha reserva, mas com o que eles entendem por quarto padrão num hotel que cobra 144 Euros por dia… Disse-lhes que em Praga, que, para eles, é cidade do segundo mundo, o Ibis, que é um hotel de linha inferior ao Mercure, tinha ar condicionado… Depois de muita briga, extraí deles a admissão de que alguns quartos possuíam ar condicionado, mas eles não eram padrão – eram quartos “Confort”, que custavam 15 Euros por pessoa por dia de upgrade…  Como àquelas alturas não dava para achar um outro hotel, e a temperatura estava fria, resolvi ficar com o que já tinha – exceto pela ausência do ar condicionado, o quarto é grande, confortável, tem TV de cristal líquido, etc. e não é longe do centrinho velho.

Mas estou dizendo isso para ressaltar que os Estados Unidos, além dos hotéis de primeira linha, de cadeia ou não, têm inúmeras cadeias de segunda e terceira linha bastante confiáveis, por preços muito razoáveis. Tenho em mente as “Inns”, as “Suites”, os motéis (que lá são hotéis populares), como La Quinta Inn, Comfort Suite, Motel 6, Motel 8, etc. Nesses hotéis você tem todo conforto, por um preço razoabilíssimo. Só para dar um exemplo, fiquei recentemente em Orlando, com a Sueli e o meu neto Gabriel, nas Homewood Suites, pertencentes à cadeia Hilton. Por 75 Dólares (não Euros) por dia tínhamos um quarto enorme com duas camas de casal, uma sala bastante grande, uma cozinha com fogão, forno micro-ondas, geladeira de tamanho normal, mesa, sofás, televisão, etc. – mais café da manhã e o que eles chamam de Happy Hour à noitinha (que é mais um lanche que substitui o jantar – há comida bastante e variada, só não havendo bebidas alcoólicas). E, para culminar o pacote, havia acesso gratuito e de banda larga (wireless, wi-fi) à Internet. Isso você (tanto quanto eu saiba) não acha na Europa.

E o último assunto traz-me à outra questão: a Internet. Nos hotéis de Praga e Viena havia acesso wireless (wi-fi) no quarto – proporcionado pela companhia de telefonia celular T-Mobile, vinculada à Deutsche Telekom (e existente também nos Estados Unidos: meu celular americano é da T-Mobile). Mas o acesso no quarto era pago – e o preço era salgado: 9 Euros por uma hora, 15 Euros por três horas, e 18 Euros por 24 horas. Na recepção, porém, havia computadores com acesso gratuito à Internet. Na verdade, computadores em Praga, onde havia dois; em Viena, havia só um computador. (Em Praga eles não funcionavam direito, mas em Viena, era perfeito).

Problema adicional: fiz duas subscrições à Internet a partir do quarto, uma de uma hora, outra de três horas. A primeira funcionou. A segunda, quando havia usado por cerca de 70 minutos, abortou e não tive como fazê-la funcionar de novo. No dia seguinte falei com o rapaz da recepção e ele disse que eles não tinham nada que ver com isso, porque o serviço era da T-Mobile: deu-me o telefone e o e-mail da T-Mobile para eu reclamar. Vale a pena reclamar por 6 Euros??? Posteriormente vim a descobrir que o serviço da T-Mobile, se ele detecta que você ficou inativo por 15 minutos, ele se desliga. Por quê, não sei: se você está pagando, pode ficar inativo que o tempo passa… O problema era mais grave, porém, porque eu não estava realmente inativo: estava baixando mensagens da Internet para o Outlook. Ou seja, eu não estava navegando pela Web, mas meu computador estava fazendo download de mensagens. Aparentemente a T-Mobile européia acha que você está inativo se não está entrando e saindo de sites. Descobri, depois, que fazer downloads de arquivos conta como inatividade, se você não estiver ao mesmo tempo navegando pela Web. Absurdo.

A situação piorou aqui em Salzburg. Aqui não há acesso à Internet nos quartos – nem mesmo pago. Há, porém, no lobby do hotel, pelos mesmos preços. Problema: hoje cedo tentei, no lobby, às 7 da manhã, fazer acesso, e o servidor da T-Mobile reportava um erro de software. Não consegui.

Falei com a moça da recepção. Ela disse que não entendia nada disso – mas que eles tinham um computador disponível no “Business Center”, ao preço de 6 Euros por 20 minutos… É isso. Vocês leram certo: 6 Euros por 20 minutos, ou 18 Euros por hora. Ou seja, aqui em Salzburg, suprimiram os computadores com acesso gratuito à Internet na recepção e, em substituição, disponibilizaram um – um solitário computador – ao preço de 18 Euros por hora.

Surpresa: saindo do hotel, e virando a esquina, há o que chamamos aí no Brasil de LAN House, e que aqui é chamado de Internet Café (embora não tenha café) que dá excelente acesso à Internet por 2 Euros por hora. Se uma portinha simples consegue fazer isso, por que uma rede internacional de hotéis não consegue?

Comparando com os Estados Unidos, todas as grandes redes de hotel (Hilton, Sheraton, Marriott) oferecem acesso por cerca de 10 dólares por dia – ou seja, eles combram por um dia inteiro o preço que aqui na Europa se cobra, nos hotéis, por uma hora. Os hotéis de segunda linha, em geral não cobram absolutamente nada: a decisão é parte de sua estratégia de procurar roubar clientes das grandes cadeias de hotel, oferecendo-lhes serviços gratuitos pelos quais elas cobram. (Outro serviço mais e mais oferecido é café da manhã dito continental – sem ovo, bacon, etc. O café da manhã é cobrado nas grandes cadeias – recentemente paguei, na Austrália, 36 dólares por um café da manhã, tipo bufê – sortidíssimo, mas caríssimo.

Terceira questão a levantar, decorrente do que acabei de dizer. Aqui na Europa, todos os hotéis da rede Accor cobram por café da manhã: de 7 a 16 Euros por pessoa.

Tudo isso anda girando pela minha cabeça – especialmente a questão da Internet. A diferença entre as atitudes das pessoas para com computadores e a Internet é chocante. Nos Estados Unidos, na sala de espera de um aeroporto ou na estação de trem, você vê um monte de gente com os computadores ligados, assentados sobre as pernas, trabalhando – geralmente conectados à Internet por wi-fi ou até mesmo através de seus telefones celulares. Aqui, não… Nos Estados Unidos, você, hoje, não encontra um hotel, nem mesmo o mais chinfrim motel, sem acesso banda larga à Internet nos quartos. Aqui você tem um Mercure, cobrando 144 Euros por dia, em Salzburg, sem acesso à Internet nos quartos.

Está  certo que a Internet foi inventada pelos Estados Unidos – que são o país mais desenvolvido tecnologicamente do mundo. Mas a Europa, se quer competir para se tornar o bloco econômico e político mais importante do planeta, não pode se dar ao luxo de capengar na sua infraestrutura tecnológica – e, em parte por isso, acredito, cobrar esses preços absurdos pelo acesso à Internet em seus hotéis. Felizmente, há os Internets Cafés – onde a gente encontra homens de terno trabalhando… que deveria estar trabalhando em seus quartos de hotéis ou, quem sabe, em algum outro lugar que não lhes porporciona acesso decente e barato à Internet.

Devo falar sobre televisão? A televisão a que tenho acesso nos hotéis aqui é um lixo. Talvez pela competição com os Estados Unidos, nem mesmo a CNN Internacional oferecem regularmente. Só uns programas de auditório e entrevistas idiotas, ou uns filmes de terceira linha europeus. A televisão americana não é modelo a se invocar, mas nos hotéis você tem uma meia centena de canais, dentre os quais uns três ou quatro de notícias (CNN, Fox News, MSNBC, Bloomsberg), vários de filmes, outros de esportes, etc. Não é por falta de alternativa que você não assiste a nada.

Há uma coisa em que a Europa em geral sobressai: transporte público. Em Praga não usei, mas em Viena usei bastante o metrô. Em Salzburg não há metrô, mas há ônibus por todo lado. E Paris têm um dos melhores metrôs do mundo – certamente em abragência. As grandes cidades americanas têm metrôs, mas eles não têm a mesma cobertura que o metrô de Paris.

Enfim, levanto uma série de questões – mais à guisa de desabafo…

Em Salzburg, 6 de outubro de 2006

[Fim da transcrição]

A fauna interessante que habita as salas VIPs de aeroportos

Estou aqui na sala VIP da British Airways, em London Heathrow. Estou cansado de 13 horas de vôo, de Kuala Lumpur até aqui, e mais casado ainda de pensar que terei mais 12 horas de vôo daqui até São Paulo — onde chegarei perto das 22h e terei ainda de ir até Campinas.
 
Dada a canseira, não estou com disposição de trabalhar nuns textos sérios que me esperam… Prefiro ficar aqui observando as pessoas e escrevendo coisa light.
 
É estranha a fauna que habita as salas VIPs dos aeroportos.
 
Em frente de mim há um senhor careca e barbudo, parecido com Alexander Solzhenitsyn, usando uma camisa de veludo vermelha, que olha para a tela do seu notebook Toshiba dele há mais de 20 minutos, sem digitar nada… Segura o queixo com as mãos, parece que está meditando, mas não escreve nada, não muda de tela… Tem um mouse roxo, horrível. Acho que  o mouse é tão feio que ele não se dispõe a utilizá-lo… O mouse se assenta sobre o seu joelho, abandonado…
 
Ao lado dele, em contraste, há um sujeito, com uma camisa marca Boss, cor-de-rosa, que digita feita um adoidado. O jeito com que ele digita me faz lembrar do meu neto Gabriel, que, quando fomos aos Estados Unidos, há dois anos, ficava nas Salas VIPs da United, digitando adoidado no laptop de brinquedo dele, fazendo de conta que estava escrevendo e-mails para a sua mãe, imitando as pessoas que ele observava… Antes de sairmos de casa aqui no Brasil ele me perguntou: "Vô, você vai levar o seu notebook?" Diante de minha resposta afirmativa, disse: "Então também vou levar o meu!" E levou. E usou, nas Salas VIP da United, mais do que eu. Começando já em São Paulo. 
 
Mais para trás dos dois, que se sentam bem na minha frente, um senhor meio gordo, de cabelos grisalhos, tem as mãos juntadas no peito e também parece meditar, tal qual um monge budista — mas na realidade dorme, como se fosse o meu amigo Ubiratan d’Ambrósio — com o qual até mesmo parece, agora que ocorreu lembrar do Bira. A única coisa que o diferencia de um monge budista é a postura. Os monges budistas se sentam eretos, não escarrapachados na poltrona como ele.  
 
Um moça loira (oxigenada? parece) brinca com o telefone celular dela. Já mudou de lugar várias vezes, tentando evitar o sol matinal de inverno que entra pelas enormes janelas da sala. O que será que ela tem de tão divertido na tela de um celular comum? Ou será que o celular dela é incomum? Não creio que seja. É incrível como adultos brincam desavergonhadamente em público com seus celulares. Jogam jogos. Mandam torpedos. Ou simplesmente ficam arranjando as coisas, mudando de ringtone, de papel de parede, de descanso de tela… Ou, então, vendo – ou tirando – fotos.
 
Mais do lado um senhor, com seus 45 anos, lê um pocket book. Não consigo daqui ver o título do livro, cuja capa é dourada. Parece estar realmente interessado na leitura. Não vê nada do que se passa ao seu lado, não come, não toma café. Outro senhor, ao lado dele, mastiga decuidadamente e olha para frente, aparentemente sem ver nada. Uma gordinha passa com uma xícara de chá e um pratinho cheio de guloseimas. Não é à toa que é gordinha… Que Deus a conserve. Não vai exigir muito esforço da parte dele: ela coopera bem. Um cara altão, loiro, vai pegar um pouco de água, com um andar decidido, como se pegar um copo de água fosse a coisa mais importante que alguém pudesse fazer na face da terra.
 
Por falar em copo de água, irrito-me, sobremaneira, com a nova mania de yuppie de carregar uma garrafinha de água para todo lugar e, a cada cinco ou dez minutos, dar um golinho… Parece que é inadmissível viajar sem a bendita garrafinha. Parece que se, não derem um golinho idiota de água a cada 5 ou 10 minutos, vão morrer desidratados… Queria saber quem foi o gênio de marketing que inventou essa moda. Deve estar ganhando milhões dos fabricantes de água. (E lá água tem fabricante??? Ou será que é só engarrafador?). Parece que é politicamente incorreto não carregar a maldita garrafinha e não tomar o bendito golinho de água. Arre!!!
 
Uma senhora oriental passa pelas mesas a cada dez minutos, mais ou menos, pegando os copos, as xícaras, os pratos que estão vazios… ou, então, os que foram abandonas meio cheios, ou até mesmo inteiramente cheios. Quando as pessoas não pagam pelo que comem, em geral pegam bem mais do que pretendem comer — e deixam resto. As churrascarias de rodízio já buscaram se precaver contra isso. Já vi em várias que, se você deixar um monte de carne no prato, ela será pesada e o seu valor será cobrado: o que você come, está incluído no preço básico; o que você pega e não come, você paga extra. Bem bolado. Só a plaquinha já funciona como condicionador do comportamento: não é preciso nem realmente cobrar.  
 
A loira se levantou. É alta, está com um vestido preto, e, nas costas do vestido, há um monte de cabelo loiro grudado. Parece que o cabelo dela está caindo — quem sabe é de tanto tingir. Ela foi até o rack de revistas e pegou uma revista chamada Hello!, que, pela capa, se parece muito com a Caras. Faz sentido.
 
Ouço, sem ver, uma criança que fala, sem parar, "miau, miau, miau" (ou será que, como os gatos anglofonos, ela está realmente dizendo "meow, meow, meow"???)… O gordo careca lá atrás nessa história que se cuide: esse gato ainda vai acabar comendo o mouse dele, se ele não cuidar… 
 
Uma senhora loira, que deve ter uns 50 anos, mas usa um cabelo de quem quer parecer que tem 20, fala ao celular, numa poltrona que acabou de ocupar… Não consigo entender porque mulheres maduras fazem essas coisas ridículas para parecer mocinhas. As mocinhas, fazem de tudo para parecer mais velhas. E as meninas tentam parecer mocinhas… Tenho para mim que as pessoas são muito mais bonitas assumindo a idade que têm do que tentando se fazer de mais novas, ou de mais velhas — afinal de contas, não enganam ninguém, em regra, não é mesmo? Ou você já pensou que uma coroa de 50 ou 60 ou é uma moçoila de 20 ou 25? Nem a Suzana Vieira é capaz de tamanho feito.
 
Vou parar, antes de falar (mais) besteira… O bom liberal tolera até aquilo que lhe parece ridículo e idiota. Mas não é obrigado a ficar calado, sem criticar… Right?
 
Em Londres, 10 de dezembro de 2006

Segurança nos aeroportos dos EUA, da Inglaterra e do resto do mundo

É chocante a diferença nos procedimentos de segurança dos Estados Unidos e da Inglaterra (aqui da Inglaterra falo apenas de Heathrow, que é o único que conheço) e os do resto do mundo.
 
Tomemos o Brasil como exemplo. No caso de companhias americanas, como a United, fazem uma série de perguntas pra você, há sorteios aleatórios de passageiros que são submetidos a vistoria das malas e revista pessoal, etc. Fui para a Malásia, desta vez, via Munique, num vôo da Lufthansa. Surpreendente a diferença. Nada de perguntas, tudo tranqüilo.
 
No aeroporto de Guarulhos, não é preciso tirar os notebooks das maletas para passar pelo raio X, não é preciso tirar os sapatos, nem o paletó ou casaco. Nos Estados Unidos e aqui em Londres, é preciso retirar os notebooks das maletas, tirar os sapatos, tirar o paletó ou o casaco, e, ainda assim, um monte de gente acaba tendo de se submeter a revista pessoal e a vistorial manual das malas (porque o raio X pode deixar passar alguma coisa).
 
Acho curioso isso, porque os Estados Unidos e a Inglaterra deveriam estar preocupados mais com quem chega do que com quem sai… Em geral os terroristas acabam entrando em aviões em outros países para tomarem controle deles quando estão chegando nos Estados Unidos ou na Inglaterra.
 
Ao embarcar, ontem à noite, em Kuala Lumpur, fui, porém, surpreendido duas vezes.
 
Na fila para passar na Imigração vi que o rapaz, na minha frente, tinha um passaporte brasileiro. Tentei falar com ele, e o cara não entendia uma palavra de português. Falei em inglês e perguntei a ele se ele não falava português. Ele respondeu dizendo que não, que era apenas neto de brasileiro. Achei meio estranho, mas ficou por isso.
 
Ao passar pela segurança, no portão de embarque, o guarda chamou outro e lhe passou meu passaporte. Este me chamou do lado e explicou que passaportes brasileiros andam sendo vendidos na Malásia por sete mil dólares e, depois, são falsificados, com nome e fotografia de outra pessoa. Pediu licença, muito delicadamente, e verificou cada página de meu passaporte com uma lupa. Passei no teste e ele me devolveu o passaporte.
 
Mas, imediatamente, me lembrei do fulano que havia visto com passaporte brasileiro mas que não falava nem entendia uma palavra de português… Mas ele não estava mais por ali. Pode ser que seu avô fosse mesmo brasileiro. Mas é uma história meio implausível.
 
Em Londres, 10 de dezembro de 2006.