Novas Formas de Aprender

NOTA INICIAL DO AUTOR:

O texto original deste artigo é:
“Novas Formas de Aprender: ‘Educação Orientada para o Desenvolvimento de Competências e Habilidades’ e ‘Currículo Centrado na Solução de Problemas'”
Vide, abaixo, a NOTA FINAL DO AUTOR.

As expressões que estão no título [original] deste texto fazem referência a uma proposta pedagógica inovadora. Seu caráter inovador se revela quando começamos a investigar o que é, exatamente, que uma “educação orientada para o desenvolvimento de competências e habilidades” e um “currículo centrado na solução de problemas” procuram substituir.

Nossa educação, hoje, e por um bom tempo, não tem sido orientada para o desenvolvimento de competências e habilidades nos alunos, mas, sim, para a absorção, por parte deles, de conteúdos informacionais: fatos, conceitos e procedimentos.

Os currículos utilizados nesse tipo de educação, por sua vez, são centrados, não na análise e na tentativa de solucionar problemas, mas em disciplinas, que são o respositório dos conteúdos informacionais mencionados, e que, em geral, são apresentadas aos alunos de forma abstrata, totalmente desvinculada dos problemas fundamentais que um dia levaram o ser humano a se interessar por esse tipo de questão.

Assim, a aprendizagem dos alunos é caracterizada como a absorção dos conteúdos informacionais das várias disciplinas que compõem o currículo, e espera-se que essa aprendizagem seja o resultado mais ou menos automático de um ensino que, o mais das vezes, não vai além da mera apresentação de parte dos conteúdos a serem absorvidos – a outra parte ficando por conta dos livros didáticos, cuja leitura também se espera que vá redundar em aprendizagem (i.e., na absorção dos conteúdos informacionais que foram lidos).

Quando se afirma que a escola precisa encontrar novas formas de ensino e aprendizagem, se deseja sobreviver os momentos difíceis que atravessa, não se tem em mente apenas aperfeiçoar as atuais formas de ensino e aprendizagem, torná-las mais eficientes e, ao mesmo tempo, como se fosse possível, mais agradáveis. O que se critica é o próprio modelo, ou o paradigma de educação que hoje impera. Conseqüentemente, é preciso “virar as coisas de ponta cabeça”, recomeçar do zero.

É interessante notar que o modelo ou paradigma de educação que hoje é hegemônico não possui fundamentação teórica ou justificativa séria. Quando as coisas são colocadas nestes termos, poucos são os que explicitamente endossam a tese de que educar é ensinar às crianças os fatos, os conceitos e, se for o caso, os procedimentos envolvidos nas várias disciplinas: estudos sociais ou, especificamente, história, geografia; ciências ou, especificamente, biologia, física, química; matemática; filosofia; língua materna; uma língua estrangeira. Esse modelo ou paradigma foi se infiltrando na escola, e acabou alcançando condição hegemônica, apenas porque é mais fácil de ser colocado em prática do que as alternativas. Na realidade, ele contradiz virtualmente tudo o que sabemos sobre o que é que motiva as crianças a aprender e como elas de fato aprendem.

Não se pode ignorar que antes de entrar na escola a criança aprende uma quantidade enorme de coisas:

  • aprende a diferenciar a suas impressões sensoriais e a identificar objetos e pessoas;
  • aprende a pegar e a manipular objetos;
  • aprende a ficar de pé e eventualmente a andar;
  • aprende a gostar de determinadas coisas e a não gostar de outras, desenvolvendo nítidas preferências;
  • aprende a responder adequadamente ao contato de terceiros (conhecidos ou estranhos);
  • aprende a identificar sons, em especialmente os sons da fala humana;
  • aprende primeiro a expressar o que deseja através de gestos e sinais, aprende a imitar gestos e sons e, eventualmente, aprende a falar;
  • aprende a se alimentar sozinha;
  • aprende a controlar sua bexiga e seus intestinos;
  • aprende que não deve fazer determinadas coisas;
  • aprende a demonstrar carinho e a agredir os outros, quando contrariada;
  • aprende eventualmente a identificar símbolos, desenhos, sons e mesmo palavras escritas com seus referentes;

e assim por diante.

Algumas crianças aprendem até mesmo a ler e a escrever virtualmente sozinhas. Outras crianças aprendem a se locomover, sem se perder, em espaços relativamente complexos – como um sítio, uma pequena cidade, ou, até mesmo, as ruas de uma grande cidade.

Registre-se, porque de fundamental importância, que nenhum desses aprendizados envolve a absorção pura e simples de informação – em todos eles o essencial é o desenvolvimento de competências e habilidades – sensório-cognitivas, psico-motoras, emocionais e sociais (interpessoais).

Registre-se ainda que em nenhum desses casos há um processo de ensino formal e institucionalizado: a criança aprende observando, imitando, e respondendo a intermitentes intervenções (estimulações ou provocações, no bom sentido) daqueles que compartilham o seu mundo.

Além do mais, aprender todas essas coisas dá grande prazer às crianças – sua curiosidade inata as torna automotivadas e em nenhum momento o aprendizado lhes parece doloroso ou entediante. Aprender é parte de sua vida – na verdade, a parte principal da sua vida. Brincar, para elas, é aprender, e aprender é brincar.

Por fim, ajudar as crianças a aprender essas coisas todas é um processo relativamente simples – até as pessoas mais simples, sem educação geral e sem formação especializada na área de pedagogia da pré-escola, conseguem ajudar a criança nesse processo alegre de aprendizado.

Se, ao entrar na escola, o aprendizado subitamente se torna aborrecido e mesmo sofrido para as crianças, isto parece ser muito mais por falha da escola do que das próprias crianças – pois nada fundamental se altera nelas, além do fato de que seu aprendizado agora deve se processar principalmente no ambiente organizado e estruturado da escola, que altera drasticamente a natureza do processo de aprendizagem.

  • Primeiro, na escola o aprender desvincula-se do brincar e se torna uma obrigação. Falando mais tecnicamente, na escola corta-se o vínculo anteriormente existente entre processos cognitivos e processos vitais – entre aprendizagem e vida, entre aprendizagem e experiência.
  • Segundo, o objeto do aprendizado escolar deixa de ser o desenvolvimento de competências e habilidades nos alunos para se tornar a absorção, por eles, de grandes quantidades de informação: fatos, conceitos, procedimentos.
  • Terceiro, o aprender deixa de ser, conseqüentemente, algo ativo, que a criança faz, para ir se tornando, mais e mais, um sub-produto esperado da ação do professor – algo que se espera que o professor faça, através do ensino. Espera-se que, através do ensino, o professor gere o aprendizado na criança. Desta forma, o aprendizado não é algo que a criança faz, mas algo que lhe é feito – algo que ela “sofre” (em mais de um sentido).
  • Quarto, a escola, além de, num procedimento totalmente artificioso, criar horas e locais específicos para a criança “aprender” determinadas coisas, gera na criança a idéia, extremamente nociva, de que aprender não é um processo natural, agradável e contínuo, que começa com o nascimento (ou antes) e termina apenas com a morte, mas, sim, algo artificial, difícil e doloroso, que, tendo começado quando a criança entra na escola, termina quando ela, com enorme alívio, deixa a escola, sendo o seu aprendizado (visto como resultado e não como processo) certificado através de um diploma.
  • Quinto, estipula-se que todos devam aprender as mesmas coisas, pelos mesmos métodos, nos mesmos ritmos e nos mesmos momentos – independentemente de seus interesses, de suas aptidões, de seu estilo cognitivo, de seu estado de espírito, etc.
  • Sexto, a escola pressupõe que as pessoas não são intrinsecamente inclinadas a aprender e que, portanto, precisam ser obrigadas a fazê-lo, para tanto construindo o processo de aprendizagem em cima de mecanismos artificiais de recompensas e punições que ajam como motivadores externos.
  • Sétimo, o modelo ou paradigma é ainda mais malévolo, pois a atenção da escola concentra-se nos eventuais “pontos fracos” das crianças, tendo em vista o objetivo (que a escola compartilha com a linha de montagem) de que todas as crianças estejam “padronizadas” (e, portanto, sejam intercambiáveis) ao final do processo. Assim, se uma criança gosta de escrever e sabe escrever bem, mas não gosta de matemática ou desenho, nem é muito competente nessas áreas, a escola a obriga a concentrar a atenção nas coisas que ela não gosta de fazer e a deixar de lado os seus interesses.

Esse modelo ou paradigma de educação mata a curiosidade natural das crianças e, em alguns casos, as marca de tal forma que ela fica traumatizada. (Traumas com matemática e com língua materna são comuns).

Como disse atrás, esse modelo ou paradigma de educação que hoje é hegemônico não possui fundamentação teórica ou justificativa séria – pelo contrário, ele contradiz virtualmente tudo o que sabemos sobre o que é que motiva as crianças a aprender e como elas de fato aprendem. Esse modelo ou paradigma foi se infiltrando na escola, e acabou alcançando condição de hegemonia, apenas porque é mais fácil de ser colocado em prática do que as alternativas.

É preciso que pessoas de fora da área pedagógica nos chamem a atenção para esse fato. Eis o que diz Peter Drucker, em As Novas Realidades:

“Instruir — mesmo no alto nível exigido por uma sociedade de trabalhadores intelectuais — é uma tarefa mais fácil do que transmitir aos estudantes o desejo de continuarem aprendendo e as habilidades e conhecimentos que necessitarão para fazê-lo. Até hoje nenhum sistema escolar se dispôs a enfrentar essa tarefa. . . . No entanto, nós sabemos como as pessoas aprendem a aprender: e já o sabemos há dois mil anos. O primeiro e mais sábio autor sobre a educação das crianças, o grande biógrafo e historiador grego Plutarco, explicou isso claramente em seu belo livrinho Paidea (“Formação das Crianças”), no primeiro século da era cristã. Basta tornar os alunos realizadores, basta concentr[ar] nos seus pontos positivos e nos seus talentos a fim de que eles possam se sobressair em tudo o que souberem fazer bem. Qualquer mestre de jovens artistas — músicos, atores, pintores — sabe disso; qualquer instrutor de jovens atletas também. Mas as escolas não o sabem e, ao invés, concentram-se nos pontos fracos e nas deficiências dos alunos. Quando um professor convoca os pais de um garoto de dez anos, ele geralmente começa dizendo: ‘O seu Joãozinho precisa estudar mais a tabuada; ele está muito atrasado’. Raramente o professor dirá: ‘A sua Maria deveria dedicar-se mais à redação para poder fazer melhor o que ela já faz bem’. Os professores — do primário à universidade — tendem a se concentrar mais nas deficiências dos alunos, e por bons motivos: ninguém pode prever o que uma criança de dez anos estará fazendo dez ou quinze anos mais tarde. Nessa fase não é possível sequer eliminar muitas opções. A escola tem que imbuir em seus alunos as habilidades básicas [de] que irão precisar em qualquer caminho que porventura escolham, pois em qualquer um eles terão que saber atuar. Mas um bom desempenho não pode fundamentar-se em deficiências, nem mesmo em deficiências corrigidas: o bom desempenho nasce somente dos pontos positivos, das qualidades, dos talentos. E esses as escolas tradicionalmente ignoram, ou consideram mais ou menos irrelevantes. Aquilo que um aluno tem de bom não é causa de problemas — e todas as escolas estão polarizadas nos problemas. Na sociedade instruída, os professores terão que aprender a dizer: ‘Quero ver o seu Joãozinho, ou a sua Maria, escrevendo muito mais; seu filho tem talento, e esse talento precisa ser desenvolvido e aperfeiçoado.’ . . . As novas tecnologias do ensino tornarão isso possível, além de praticamente forçarem escolas e professores a se concentrar nos pontos fortes e nos talentos dos alunos” [As Novas Realidades (tradução do Inglês de Carlos Afonso Malferrari (Livraria Pioneira Editora, São Paulo, SP, 1989), pp. 203-204].

Freqüentemente nós, educadores, que de certo modo vivemos dentro da escola, perdemos o ângulo de visão e o senso crítico e acabamos por crer que o que se exige são apenas pequenos ajustes aqui e ali, melhores livros didáticos, aparelhos de televisão e video-cassete em casa sala de aula e um laboratório de informática. Mas não, é o modelo ou paradigma de educação que está errado. John Keating, no filme A Sociedade dos Poetas Mortos, conseguiu romper com o modelo ou paradigma mandando os alunos rasgar seus livros didáticos, sair da sala de aula e ir para fora da escola – para aprender poesia – sem usar tecnologia alguma…

Quem está de fora, porém, não deixa de ver o perigo que o modelo ou paradigma de educação que se tornou hegemônico na escola representa para o desenvolvimento das crianças.

Samuel Butler, o grande autor de Erewhon, no século XIX, disse:

“Às vezes fico a imaginar porque é que que a escola não causa mais danos aos jovens, e como é que eles, em geral, acabam crescendo sensatos e bons, apesar das tentativas deliberadas da escola de distorcer e mesmo de impedir seu crescimento. Alguns, naturalmente, não conseguem escapar dos efeitos danosos da escola e sofrem até o fim de suas vidas por isso. Outros, porém, poucos danos parecem sofrer, e alguns até se safam sem dano algum. A resposta parece ser que o instinto natural dos jovens, na maior parte dos casos, se rebela de forma tão absoluta contra o que a escola tenta fazer com eles que, não importa o que tentem os professores, não conseguem que seus alunos os tomem realmente a sério”.

Karl Popper, que cita a passagem de Butler em seu livro A Sociedade Aberta e seus Inimigos, acrescenta:

“Tem se dito, e com muita verdade, que Platão foi o inventor de nossas escolas e universidades. Não conheço melhor argumento para uma visão otimista da humanidade, nem melhor prova de seu amor indestrutível pela verdade e pela decência, de sua originalidade e de sua saúde mental, do que o fato de que essa devastadora instituição não tenha sido capaz de arruiná-la totalmente”.

Comenta, com grande poder de percepção, Marshall McLuhan:

“Platão, em todo seu esforço de imaginar uma escola ideal, deixou de notar que Atenas era uma melhor escola do que qualquer universidade que ele conseguisse inventar” [Understanding Media: The Extensions of Man (McGraw-Hill Book Co., New York, NY, 1964), p.49]

Foi Platão que inventou – mas foi a sociedade industrial que aperfeiçoou. Eis o que diz Alvin Toffler:

“Educação de massa foi a máquina engenhosa construída pela sociedade industrial para produzir o tipo de adulto de que ela necessita, . . . um sistema que, em sua própria estrutura, simulava essa sociedade. O sistema não emergiu instantaneamente. Mesmo hoje ele ainda retém elementos da sociedade pré-industrial. Contudo, a idéia de agrupar grandes massas de estudantes (matéria-prima) para serem processados por professores (trabalhadores) em uma escola centralizada (fábrica) foi uma solução de gênio industrial. Toda a hierarquia administrativa da organização, à medida que foi aparecendo, seguia o modelo da burocracia industrial. A própria organização do conhecimento em disciplinas permanentes foi fundada em pressupostos industriais. As crianças marchavam de lugar em lugar e se assentavam em locais preestabelecidos. O sinal tocava para anunciar a hora de mudanças. A vida interna da escola assim se tornou um espelho antecipatório da sociedade industrial, uma introdução perfeita a ela. As características mais criticadas da educação hoje — sua regimentação, sua falta de individualidade, os sistemas rígidos de disposição física da sala de aula, de agrupamento das crianças por classes e séries, de notas, o papel autoritário do professor — são exatamente as características que fizeram da escola pública de massa um instrumento tão efetivo de adaptação à sociedade industrial.” [Future Shock (Random House / edição encadernada, New York, 1970, e Bantam Books / edição em brochura, New York, 1971), p.400 da edição em brochura; cf. pp.186, 272, 398-427, 447.]

Quanto se propõe que a educação seja orientada para o desenvolvimento de competências, o que se pretende é que o aprendizado escolar se organize não mais em função de conteúdos informacionais a serem transmitidos, mas, sim, em função de competências e habilidades que as crianças devem desenvolver em continuidade com as competências e habilidades que vinham desenvolvendo na vida pré-escolar.

Peter Drucker, no livro já mencionado, aponta a direção:

“Nós sabemos que diferentes pessoas aprendem de maneira diferente; sabemos que, na realidade, o [estilo de] aprendizado é tão pessoal quanto uma impressão digital. Não há duas pessoas que aprendam da mesma maneira. Cada um tem uma velocidade diferente, um ritmo diferente, um grau de atenção diferente. Se lhe for imposto um ritmo, uma velocidade, ou um grau de atenção estranho, haverá pouco ou nenhum aprendizado. Haverá apenas cansaço e resistência. Nós sabemos . . . que pessoas diferentes aprendem matérias diferentes de maneira diferente. A maioria de nós aprendeu a tabuada através da repetição e dos exercícios. Mas os matemáticos não ‘aprendem’ a tabuada: eles a ‘captam’, por assim dizer. Da mesma forma, os músicos não aprendem a ler uma partitura: eles a ‘percebem’. E nenhum atleta nato jamais teve que aprender como pegar uma bola. Algumas coisas de fato têm que ser ensinadas — e não apenas valores, percepções e significados. Um professor é necessário para identificar os pontos fortes do aluno e para direcionar um talento à sua realização. Nem mesmo um Mozart teria se tornado o grande gênio que foi sem seu pai que era um verdadeiro mestre. . . . A nova tecnologia . . . é uma tecnologia de aprendizagem, e não de ensino. . . . Não resta dúvida que grandes mudanças irão ocorrer nas escolas e na educação — a sociedade instruída irá exigi-las e as novas teorias e tecnologias de aprendizagem acabarão por efetivá-las” [pp.212,215].

Mais especificamente, quais seriam essas competências e habilidades?

A título ilustrativo, e sem pretensão de ser exaustivo, listo abaixo um conjunto de habilidades, agrupadas em diversas competências básicas, que me parecem fornecer a base para uma educação orientada para o desenvolvimento de competências e habilidades de crianças e de jovens até por volta dos dezoito anos.

I. Competência na Absorção da Informação

  1. Habilidade de bem utilizar os sentidos e de aprimorar a acuidade dos sentidos (aprender a perceber)
  2. Habilidade de entender e corretamente interpretar a linguagem corporal
  3. Habilidade de entender a linguagem verbal falada e escrita e desenvolvimento da capacidade de ler com compreensão e rapidez

II. Competência na Transmissão da Informação e na Comunicação

  1. Habilidade de se expressar bem em língua materna falada e escrita
  2. Habilidade de se expressar bem em língua estrangeira (em especial, no caso do Brasil, o Inglês e o Espanhol)
  3. Habilidade de se expressar bem através da linguagem não-verbal (especialmente a corporal)

III. Competência no Acesso à Informação

  1. Habilidade de buscar e pesquisar a informação em qualquer dos meios em que esteja armazenada
  2. Habilidade de memorizar a informação essencial e de uso constante
  3. Habilidade de organizar organizar e arquivar a informação e de localizar e recuperar com facilidade e rapidez a informação não memorizada

IV. Competência na Análise da Informação

  1. Habilidade de analisar criticamente e avaliar a informação textual, numérica, estatística, gráfica, sonora, e visual.
  2. Habilidade de raciocinar logicamente.
  3. Habilidade de perceber padrões, conformações, tendências, analogias, sutilezas, ironias, sarcasmos, humor, etc.

V. Competência Epistemológica, Ética e Estética

  1. Habilidade de diferenciar questões que envolvem o verdadeiro, o bom (certo) e o belo e de discernir critérios que adequadamente o verdadeiro do falso, o bom (certo) do mau (errado) e o belo do feio
  2. Habilidade de aplicar esses critérios no dia-a-dia e de agir e viver coerentemente com os seus princípios
  3. Habilidade de, a despeito dos desincentivos, apreciar o verdadeiro, o bom (certo) e o belo

VI. Competência na Compreensão

  1. Habilidade de compreender o funcionamento do mundo físico
  2. Habilidade de compreender o comportamento de seres vivos
  3. Habilidade de compreender o ser humano, no plano individual e social
  4. Habilidade de compreender as manifestações culturais do ser humano
  5. Habilidade de compreender o poder transformador dos sonhos e das utopias

VI. Competência no Relacionamento Interpessoal

  1. Habilidade de se relacionar bem com as pessoas
  2. Habilidade de negociar, de administrar pressões e de gerenciar conflitos
  3. Habilidade de controlar as emoções, gerenciar tensões e reduzir stress

VII. Competência no Plano Pessoal

  1. Habilidade de decidir com base em princípios e de agir, no momento oportuno, de acordo com as decisões tomadas
  2. Habilidade de solucionar problemas
  3. Habilidade de gerenciar mudanças

VIII. Competência no Gerenciamento de Longo Prazo da Vida

  1. Habilidade de planejar projetos de vida e as estratégias para alcançá-los
  2. Habilidade de administrar o tempo (distinguir o importante do urgente, e ambos do não-importante e/ou não-urgente, e priorizar as atividades)
  3. Habilidade de reconhecer os erros e de aprender com eles
  4. Habilidade de, quando convencido da justeza do curso de ação traçado, persistir nele, mesmo na face de adversidades

O que se propõe aqui é, de certo modo, um MBA em miniatura. Executivos hoje pagam mais de 50 mil dólares para desenvolver essas competências – porque a escola se dedica a obrigar os alunos a memorizar as listas dos faraós do Egito, os afluentes da margem esquerda do Amazonas, a tabela dos elementos.

Como é que se desenvolvem essas competências e essas habilidades?

É aqui que entra a noção de currículo – mas não um currículo centrado em disciplinas, como os que nos são familiares, mas, sim, um currículo centrado em problemas cuja resolução pode ser buscada através de projetos de interesse dos alunos.

É bastante evidente que as competências e habilidades listadas atrás podem ser desenvolvidas em projetos os mais variados que buscam soluções para problemas os mais diversos. Mas esses projetos não podem se restringir a atividades que se desenvolvem dentro das disciplinas tradicionais. Para que tenham impacto, é preciso que sejam interdisciplinares e que se relacionem com questões que sejam de interesse dos alunos.

Para que o desenvolvimento das competências e habilidades se dê de forma prazerosa e não impositiva, é indispensável que os projetos e, dentro deles, as atividades selecionados para promovê-las, estejam estreitamente relacionados com os interesses dos alunos.

Os chamados Temas Transversais que o Ministério da Educação vem procurando promover através dos Parâmetros Curriculares Nacionais são, na realidade, conjuntos de problemas, em geral de interesse de todos (sexo, droga, violência, saúde, consumo, etc.), que poderão eventualmente servir como novo eixo de ordenamento do currículo, que substituirá, tardiamente, o eixo disciplinar.

Nesse contexto, o professor deve agir, menos como especialista em conteúdo, e mais como pessoa de apoio que, não importa qual seja os interesses dos alunos, saiba relacionar esses interesses com o desenvolvimento de competências e habilidades como as descritas e saiba, sempre que necessário, fazer referência a conteúdos informacionais que possam ajudar no desenvolvimento do projeto.

Os conteúdos informacionais, assim situados, deixam de ser o objeto central da ação educacional e passam a ser instrumentos que podem ajudar no processo de solução de problemas que, por seu turno, levará ao desenvolvimento de competências e habilidades que, este sim, será o objeto final da ação educacional.

NOTA FINAL DO AUTOR:

Este texto foi escrito em 2000, como provocação para uma “Experiência de Aprendizagem Colaborativa” (EAC) que desenvolvi no Instituto Ayrton Senna. Ele foi o primeiro texto em que eu me revoltei frontalmente contra o currículo convencional, organizado na forma de uma grade de disciplinas acadêmicas divididas em séries ou doses homeopáticas de conhecimento a ser transmitido aos alunos.

Como escrevi, e continuo escrevendo, muito sobre esse assunto nos anos que se seguiram, acabei abandonando este texto na “cesta” do esquecimento…

Em, 8.3.2013, a pedido de uma amiga no Facebook, Beloni Cacique Braga, de Uberlândia, MG, fui procurar o original do texto. A Beloni encontrou uma citação de parte dele em um site (http://cefaprotga.blogspot.com.br/2008/03/competncias-e-habilidades.html) e me perguntou se o texto era meu mesmo e se eu tinha o texto completo, pois ela gostaria de lê-lo.

[NOTA de 8.3.2013 e 20.8.2023: O link acima está funcionando nesta data.]

Fui procurá-lo. De 2000 até hoje usei pelo menos uns dez notebooks diferentes e uns trinta discos rígidos externos para backup. Vários dos meus sites na Internet estão atualmente fora do ar, porque mudei de provedor e de tecnologia e não tive tempo ainda de reconstituir meus sites no novo provedor e com a nova tecnologia.

Assim, fui procurar na Internet, e achei o texto inteirinho, com os devidos créditos, em

http://www.serprofessoruniversitario.pro.br/módulos/ensino-e-aprendizagem/novas-formas-de-ensinar-e-aprender-“educação-orientada-para-competênci#.UTnN7qXxFDQ

[NOTA DE 8.3.2013: O estranho fim do link é esse mesmo. Verificado nesta data o link funcionou.]

[NOTA DE 20.8.2023: O link acima não está funcionando mais. Nem mesmo a sua primeira parte (http://www.serprofessoruniversitario.pro.br) funciona mais. Em qualquer dois casos, a tentativa de acesso gera a seguinte mensagem de erro: “Error establishing a database connection”.]

Li o texto [em 8.3.2013], e é o meu texto, mesmo. Copiei-o para colocar neste blog, corrigindo apenas uns dois errinhos de digitação.

O site “Ser Professor Universitário” esclareceu [e, 8.3.2013] que pegou o texto de:

http://infoutil.org/paideia/textos/TextoNovasFormasdeEnsinareAprender.htm

Este site “InfoÚtil” é meu, mesmo… Mas, neste momento, ele está fora do ar.

Devo esclarecer que endosso, ainda, todo o texto, apesar da passagem do tempo (de cerca de treze anos. [Em 8.3/2013]).

Só gostaria de observar que minha lista de competências e habilidades vem sendo aprimorada ao longo dos anos. Mas o que houve foi sua reorganização, com talvez um agrupamento de duas ou mais aqui ou ali, e o acréscimo de uma ou outra acolá. Considero todas as competências e habilidades listadas importantes, umas mais do que as outras, dependendo do contexto e do projeto de vida de quem se propõe a desenvolvê-las.

Texto transcrito aqui neste blog Liberal Space em São Paulo, 8.3.2013 de Março de 2013 (Dia Internacional da Mulher. Homenageio a minha).

[Pequena revisão do texto feita em Salto, 22.1.22].

[Outra pequena revisão do texto feita em Salto, 20.8.23].

[NOTA DE 20.8.2023] O texto vai fazer, em poucos dias, a contar da última data, 23 anos e meio de idade. Não creio que tenha envelhecido e se desatualizado nesses anos — embora possa e deva ser complementado, hoje, com discussões de Deschooling e Unschooling. Note-se e registre-se que, em minha opinião, Home Schooling não vai mudar grande coisa, SE for mantido o modelo e o paradigma de educação que usamos em Schooling (School Schooling).]

Críticas à Escola Tradicional

Sei que a maior parte das pessoas, contrário ao que Karl Popper recomenda, só lê aquilo que reforça o que elas já acreditam. Por isso, pronunciamentos como os abaixo podem ter passado despercebidos a alguns de vocês.

Esclareço que  “escola tradicional” é a que nós temos, quase sem exceção, na rede pública E privada. Mesmo as consideradas boas.

Transcrevo de meu blog http://escolalumiar.wordpress.com. Originalmente publicado em 20/09/2007.

A tese de que a escola tradicional ou é irrelevante para a educação das crianças, ou até mesmo nociva para o desenvolvimento delas, tem nobres antecedentes. Famosos luminares do século XIX a defenderam: Leon Tolstói, Samuel Butler, Charles Darwin e Mark Twain. No século XIX, Albert Einstein e Karl Popper, e Howard Gardner, entre outros, consideram a escola tradicional, mais do que obsoleta e irrelevante, nociva.

Eis o que disse Leon Tolstói:

“As crianças, em todos os lugares do mundo, são obrigadas, pela força, a freqüentar a escola. Na verdade, os pais são obrigados a enviar seus filhos à escola, seja pela severidade da lei, seja porque se lhes prometem vantagens, seja por uma retórica que os ludibria. Fora da escola, as pessoas, em geral, em todos os lugares do mundo, aprendem e estudam por vontade e iniciativa própria e consideram a educação como algo bom. Como é que isso se dá? A necessidade da educação é sentida por todos os homens. As pessoas adoram aprender, amam a educação e a buscam, da mesma forma que amam e buscam o ar que respiram. O governo e a sociedade têm enorme desejo de educar o povo. E, todavia, a despeito do uso da força, da persistência do governo e da sociedade, e de todas tentativas de ludibriar o povo a aceitar a importância da escola, as pessoas do povo constantemente manifestam insatisfação com a educação que lhes é fornecida na escola e só se submetem a ela pela força, quando a escolarização é tornada obrigatória. É possível provar a justeza do método atual de escolaridade compulsória? É difícil descobrir se há métodos melhores, porque até aqui as escolas nunca foram realmente livres. É verdade que no nível mais alto do processo de escolarização – a universidade – se tenta implantar um regime mais livre. Será que, talvez, nos níveis inferiores a escolarização deva ser realmente obrigatória? Será que, talvez, a experiência um dia ainda nos vá provar que escolas de freqüência compulsória são boas? Vamos examinar essas escolas, não pela consulta às tabelas estatísticas que nos são fornecidas, mas tentando descobrir o que elas realmente são e fazem e qual o seu real impacto sobre as crianças do povo. Quando voltamos nosso olhar para as escolas de freqüência obrigatória, é isto que a realidade nos mostra: as escolas se apresentam às crianças como uma instituição destinada a torturá-las – uma instituição em que elas são privadas de seu principal prazer e necessidade: a movimentação livre; em que obediência e silêncio são exigidos como condição de permanência; em que elas precisam de autorização especial para ‘sair um minutinho’ da sala de aula; em que qualquer ação errada é de pronto punida. Quanto aos resultados da ação da escola sobre as crianças do povo, se atentarmos para a realidade e não para as tabelas estatísticas, somos forçados a concluir: nove décimos da população escolar retiram da escola apenas um conhecimento mecânico da leitura e da escrita; por outro lado, saem da escola com uma aversão tão grande para com os caminhos do conhecimento que foram obrigados a trilhar que nunca mais na vida botam as mãos em um livro. A escola não apenas consegue inculcar nos alunos a aversão para com a educação, ela também os induz a praticar a hipocrisia e a trapaça, em decorrência da posição não-natural em que os coloca. A educação deve ser apenas uma busca de resposta às questões que a vida nos coloca. Mas a escola não só não permite que os alunos ali levantem questões que lhes interessam como se nega a tentar ajudar os alunos a responder as questões que a vida fora da escola os força a confrontar. Ela fica eternamente respondendo às mesmas questões – mas essas são questões que não são levantadas pela mente das crianças. Basta olhar para uma mesma criança, de um lado, em casa e na rua, e, de outro lado, na escola. Em casa e na rua você observa uma criança vivaz, curiosa, com um sorriso nos lábios, explorando e tentando aprender tudo, da mesma forma que explora e busca prazeres, expressando seus pensamentos em suas próprias palavras, com clareza e, freqüentemente, com força e eloqüência. Na escola, você observa um ser como que aposentado da vida, cansado e com uma expressão de fatiga, tédio, enfado e por vezes terror, repetindo palavras estranhas em uma língua estranha – um ser cuja alma, como num caracol, se esconde dentro da própria casa. Basta comparar essas duas condições em que podemos observar a criança para constatar, sem sombre de dúvida, qual delas é mais vantajosa para o seu desenvolvimento. A natureza compulsória da freqüência à escola impede que a criança ali se eduque.”

[Leon Tolstoi, “Sobre Educação Popular”, em Artigos Pedagógicos, 1862, traduzido do Russo para o Inglês por Leo Wiener (Dana Estes & Co., Boston, 1904), passagens retiradas das pp. 7-18 (ênfases foram acrescentadas). Citado apud Daniel Greenberg,  Announcing a New School: A Personal Account of the Beginnings of the Sudbury Valley School (The Sudbury Valley School Press, Framingham, MA, 1973, p. 175)].

Eis o que disse Samuel Butler:

“Fico às vezes imaginando como é que o mal causado pela escola às crianças e jovens não deixa, a maior parte das vezes, marcas mais claramente perceptíveis, e como é que moços e moças conseguem crescer tão sensatos e bons, a despeito das deliberadas tentativas feitas pela escola de entortar ou mesmo interromper o seu desenvolvimento. Alguns, sem dúvida, sofrem danos de tal monta que sentem seus efeitos até o fim da vida. Mas muitos parecem não se deixar afetar pela vida da escola e uns poucos até se saem bem. A razão disso me parece ser que o instinto natural dos jovens se rebela de forma tão absoluta contra a formação que recebem na escola que, não importa o que possam fazer os professores, nunca conseguem que seus alunos os levem suficientemente a sério”.

[Samuel Butler, em Erewhon, passagem citada por Karl Popper como moto de uma seção de “Replies to My Critics”, in The Philosophy of Karl Popper, org. por Paul Arthur Schilpp (Open Court, La Salle, IL, 1974), Vol. II, p. 1174 (ênfase acrescentada)]

Charles Darwin também fez comentários pouco lisonjeiros sobre sua educação escolar. Eis o que disse Darwin sobre um dos cursos que fez:

“Durante meu segundo ano em Edimburgo, freqüentei as aulas de Jameson sobre Geologia e Zoologia, mas elas eram incrivelmente enfadonhas. O único efeito que tiveram em mim foi a decisão de jamais ler um livro de Geologia em toda a minha vida, ou de estudar essa ciência de alguma forma”.

[Apud Dean Keith Simonton, A Origem do Gênio: Perspectivas Darwinianas sobre a Criatividade (Editora Record, Rio de Janeiro e São Paulo, 2002), tradução brasileira de Carlos Humberto Pimentel D. da Fonseca e Luiz Guilherme B. Chaves do original em Inglês Origins of Genius: Darwinian Perspectives on Creativity (Oxford University Press, Oxford, 1999), pp. 167-168, que por sua vez a retirou de F. Darwin, org., The Autobiography of Charles Darwin and Selected Letters(Dover, New York, 1958, originalmente publicado em 1892), p. 15]

Mark Twain, com o seu costumeiro e mordaz senso de humor, disse:

Jamais permiti que minhas atividades escolares interferissem na minha educação“.

[Apud Dean Keith Simonton, op.cit., p. 170, que, por sua vez, a retirou de C. T. Harnsberger, org., Everyone’s Mark Twain (Barnes, New York, 1972), p. 553 (ênfase acrescentada)]

Já no século XX, Albert Einstein foi ainda mais mordaz:

Na verdade, não passa de um milagre que os métodos modernos de instrução ainda não tenham estrangulado por completo a santa curiosidade da investigação; porque esta plantinha delicada, longe do estímulo, fica necessitando principalmente de liberdade; sem isso, ela vai por água abaixo, com certeza. É um erro muito grave pensar que o prazer de ver e procurar pode ser promovido por meio de coação e do sentido do dever”.

[Apud Dean Keith Simonton, op.cit., p. 167, que, por sua vez, a retirou de P. A. Schilpp, org., Albert Einsten: Philosopher-Scientist (Harper, New York, 1951), p. 17 (ênfase acrescentada)]

Eis o que diz Karl Popper, um dos maiores filósofos do século XX, se não o maior:

“Tem-se dito, e com verdade, que Platão foi o inventor tanto de nossas escolas secundárias como de nossas universidades. Não conheço melhor argumento para uma visão otimista da humanidade, nem melhor prova de seu amor indestrutível pela verdade e pela decência, de sua originalidade, de sua teimosia e de sua saúde, do que o fato de que esse devastador sistema educacional não tenha até hoje sido capaz de arruiná-la completamente“.

[The Open Society and Its Enemies, Vol. I: “The Spell of Plato” [Princeton University Press, Princeton, NJ, 1962, 1966, 1971], p. 136 (ênfase acrescentada)]

Eis o que diz Howard Gardner, o eminente professor de Harvard, criador do conceito de “múltiplas inteligências”:

“Frequentar a maioria das escolas de hoje realmente traz o risco de prejudicar as crianças. Seja qual for o significado que a instrução possa ter tido no passado, para a maioria das crianças de nossa sociedade ela já não tem nenhum significado. A maioria dos alunos (e, por falar nisso, a maioria dos pais e professores) não é capaz de dar razões realmente convincentes para freqüentar a escola. As razões não podem ser discernidas na própria experiência escolar, nem as pessoas acreditam que aquilo que se aprende na escola será realmente utilizado no futuro. Tentem justificar a equação quadrática ou as guerras napoleônicas para um aluno de ensino médio de uma cidade do interior – ou para seus pais. O mundo real aparece em outro lugar: nos meios de comunicação, no mercado de trabalho, e com excessiva frequência no submundo das drogas, violência e crime. Muito, se não a maior parte, do que acontece nas escolas acontece porque é assim que acontecia nas gerações anteriores, não porque nós tenhamos bases lógicas convincentes para mantê-lo hoje. A afirmação muito comum de que a escola é basicamente um lugar de custódia em vez de educação contém um traço de verdade”.

[Howard Gardner, Inteligências Múltiplas: A Teoria na Prática (Artes Médicas, Porto Alegre, 1995), tradução brasileira de Maria Adriana Veríssimo Veronese do original em Inglês Multiple Intelligences: The Theory in Practice (New York, Basic Books, 1993), p. 171. (Fiz pequenos ajustes na tradução, para melhorar a sua qualidade)]

Transcrito no meu blog da Escola Lumiar em Salto, 20 de Setembro de 2007

Transcrito aqui neste blog em São Paulo, 4 de Fevereiro de 2013.

Computadores: Máquinas de Ensinar ou Ferramentas para Aprender

[Escrevi este artigo em Campinas, terminando-o em 17 de agosto de 1983. Ele foi publicado em Em Aberto, Revista do INEP, MEC, Brasília, Outubro de 1983 (faz 30 anos este ano de 2013)]

Em relação à questão da utilização de computadores na educação, a exemplo do que tem acontecido em muitas outras situações, teses ou causas perfeitamente sensatas e defensáveis acabam por se inviabilizar quando alguns de seus mais ardorosos defensores fazem reivindicações totalmente inverossímeis a seu favor, fornecendo àqueles que se opõem a essas teses na direção oposta.

Ilustremos em relação à nossa questão.

Que trabalhadores não-qualificados, ou semi-qualificados, possam vir a perder seus empregos para sofisticados robôs ou para outros complexos sistemas de automação industrial sempre me pareceu uma real possibilidade. Que professores, porém, possam vir a perder os seus empregos decorrência da introdução, ainda que maciça, de computadores nas escolas tem sempre me parecido bastante implausível. Surpreendia-me, portanto, ver que os professores, ou seus porta-vozes, freqüentemente externavam este receio nas ocasiões em que se discutia a possibilidade de introduzir computadores nas escolas. Uma fábrica totalmente, ou quase inteiramente, automatizada, sem os trabalhadores não- ou semi-especializados, é algo perfeitamente imaginável. Uma escola, porém, totalmente sem professores, apenas com alunos sentados diante de terminais de vídeo, é algo que tenho sérias dificuldades em imaginar. Concluía, pois, que o receio não passava de paranóia de professor.

Minha surpresa foi grande, portanto, quando, ao ler um artigo sobre CAI (Computer-Assisted Instruction), em Creative Computing, encontrei as seguintes afirmações do autor, John Herriott:

“Há uma possibilidade bastante acentuada de que antes do final deste século os estudantes venham a receber toda a sua instrução através de computadores, sem, absolutamente, nenhum contato com professores vivos. Isto pode ser feito, e muito bem” (John Herriott, “CAI: A Philosophy of Education — and a System to Match”, in Creative Computing, vol. VIII, n° 4, April 1982, p.80).

Herriott não está sozinho. Clive Sinclair, o gênio por detrás do Sinclair, afirma:

“Chegará o dia em que os computadores ensinarão melhor do que seres humanos, porque computadores podem ser tão pacientes e muito afinados com as diferenças individuais. O computador substituirá não só a Encyclopaedia Britannica mas também a escola” (Clive Sinclair, apud “Viewpoint”, de Paul Kriwaczek, in Computing Today, vol. IV, n° 11, January 1983, p. 29).

Segundo Sinclair, portanto, junto com os professores as próprias escolas serão substituídas pelo computador. Charles Lecht, presidente da Advanced Computer Techniques Corporation, de New York, dá o fecho: “saibam que eu realmente acredito que máquinas podem fazer qualquer coisa (sic) melhor do que pessoa” (apud, ibid).

Ao ouvir estas visões do futuro que os profetas de um novo milênio nos apresentam , eu me pergunto se estes defensores da introdução de computadores nas escolas, ou mesmo da substituição da escola por computadores instrucionais, ajudam ou atrapalham a causa daqueles que, preocupados com a qualidade e a eficiência do ensino é ministrado em nossas escolas, investigam a melhor maneira de introduzir computadores no processo de aprendizagem.

Esta investigação, porém, tem que ser feita com plena consciência do fato de que a introdução de computadores nas escolas é, nem virá a ser, uma solução para todos os problemas pedagógicos que afligem a educação brasileira. O computador não é nenhuma panacéia — como não é nenhum monstro de sete cabeças: ele não vai nem acabrestar nem salvar a escola. Ele pode educar, ou então deseducar, dependendo da maneira em que for utilizado. Ele não é nenhum substituto para o uso da inteligência e da criatividade — e é por isso que alguém já disse, a meu ver com propriedade, que, se algum professor vier a perder seu emprego por causa da introdução de computadores na escola, este professor na verdade merecia ser substituído (se não necessariamente por uma máquina, pelo menos por outro professor que, fazendo valer sua inteligência e sua criatividade, tornasse inviável sua substituição por um computador.

Outra questão que deve ser mantida em mente ao investigarmos o tema que já está proposto para discussão é que já não é mais a hora de se cogitar da introdução ou não de computadores nas escolas. Esta questão já está decidida, e não é pelo MEC ou pela SEI — ela está decidida por um processo histórico que é irreversível, inclusive no Brasil. A questão que resta discutir é quem vai conduzir esta introdução e como ela será feita. Se os educadores não se propuserem a assumir esta introdução, e a conduzi-la, outros o farão, e os educadores, mais uma vez, ficarão na posição de meros observadores de um processo conduzido por quem tem iniciativa. Hoje muitos educadores lamentam o que é feito no país em matéria de tele-educação, por exemplo. Mas no momento, num passado que hoje nos parece remoto, em que poderiam ter se envolvido, não o fizeram (com raras e honrosas exceções), por uma série de razões. Hoje não têm o direito de lamentar. O mesmo acontecerá em relação à utilização de computadores na educação se a questão não for enfrentada com realismo, inteligência, e decisão.

Uma terceira questão preliminar, que precisa ser encarada de frente, é a que indaga se a introdução dos computadores nas escolas ajudará a aumentar ou a diminuir a distância entre as classes sociais. Novamente aqui, a resposta sensata deve realçar o fato de que a utilização de computadores nas escolas poderá acentuar ou diminuir a distância entre as classes sociais, dependendo da maneira em que for feita. Se o problema for deixado meramente à iniciativa das escolas, sem a interveniência do poder público, somente aquelas escolas que já atendem às classes mais altas é que se envolverão — e já estão envolvidas — com a introdução de computadores na educação. As escolas mais pobres, entre as quais se encontram, sem exceção, as públicas, ficaram a ver navios. Deixar a questão, portanto, meramente ao sabor das iniciativas particulares é condenar, mais uma vez, as escolas públicas a uma educação de categoria inferior. É necessário, portanto, que o poder público, na qualidade de regulador, intervenha para tentar igualar, na medida do possível, a situação. Pois o dilema que se coloca, nunca é demais repetir, não é se as escolas vão ou não introduzir o computador na educação, mas se somente as escolas particulares e abastadas o farão ou se todas terão alguma chance. A introdução é inevitável: cumpre, a meu ver, encontrar maneiras de entender o privilégio ao maior número possível de escolas e, conseqüentemente, de alunos.

Por outro lado, é sempre bom lembrar que, se não fizermos um esforço maciço para nos capacitar também nesta área, não resta a menor dúvida de que a distância entre os países desenvolvidos e o nosso país aumentará cada vez mais. Só isto, a meu ver, já justificaria um envolvimento e um investimento nesta área. Só isto já justifica o EDUCOM.

Ou vejamos alguns fatos, só à guisa de ilustração. A revista Creative Computing de Maio do corrente ano (1983) assinala o fato que a Inglaterra é o primeiro país do mundo a colocar um microcomputador (ou algum recurso computacional mais potente ) em todas as escolas secundária do país. Através de um projeto chamado “Micros nas Escolas” o Ministério da Industria permitiu que mais de 5.800 escolas secundárias viessem a receber em doação ou a adquirir microcomputadores. Enquanto isso, nos Estados Unidos, legislação aprovada no Estado da Califórnia levou um só fabricante — a Apple — a doar mais de 10.000 microcomputadores às escolas do Estado. No mesmo Estado da Califórnia já há cursos de formação de professores para atuar na área de utilização de computadores na educação — e a Universidade de Stanford, localizada no Vale do Silício, foi a primeira Universidade americana a criar um Mestrado em Computação Educacional, dirigido a professores que estejam interessados em aprender computação (especialmente programação) e a programadores que estejam interessados em aprender educação. O programa contém disciplinas nas áreas de computação, psicologia educacional, filosofia da educação, teoria do currículo, métodos de ensino e avaliação, etc. O objetivo fundamental é formar pessoal que possa escrever programas de alto nível técnico e de grande teor pedagógico e educacional. Para tanto, a Universidade de Stanford, em termos de recurso materiais, está excelentemente equipada: 17 computadores de grande porte, 343 minicomputadores, e literalmente centenas de microcomputadores e processadores de texto (dados retirados do jornal da Universidade, The Stanford Observer, de Fevereiro de 1983).

Diante de tudo isto, e diante da enorme lista de vicissitudes de que padece o ensino brasileiro, muitos poderão ser tentados a adotar a atitude que, já que nunca iremos poder chegar ao ponto de ter e fazer tudo isto, será que não seria melhor não fazer nada? Será que não seria melhor aguardar até que os problemas mais básicos fossem solucionados para então pensar na introdução de computadores nas escolas? Esta e a receita típica do inativismo pedagógico: já que não posso mudar tudo, é melhor deixar tudo como está. O problema é que, se o educador não o fizer, outros o farão, e dentro de pouco tempo teremos um “Info-Curso 2° Grau”, e depois um “Info-Curso 1° Grau”, e depois, quem sabe, um “Info-Curso” disfarçado de Vila Sésamo ou Sítio do Pica-Pau Amarelo, ou qualquer coisa equivalente — e os filhos dos educadores se deleitarão.

Mas depois deste preâmbulo exortativo, vamos à discussão do tema que me propus.

Computadores e Educação. Há várias maneiras de se entender este binômio. Deixando de lado a questão do ensino da Computação, propriamente dita, poderíamos classificar em três grupos principais as opiniões sobre como se deve entender o binômio em questão.

Em primeiro lugar há aqueles que, tendo em vista o fato de que computadores (e microcomputadores, em particular) acabaram por se constituir em um novo fenômeno tecnológico e social , acreditam que seja útil, indispensável mesmo, que as crianças venham a aprender alguns fatos básicos sobre os computadores e seu impacto na sociedade. Acreditam estes que as crianças de hoje devam estar preparadas para viver em uma sociedade altamente informatizada e que, portanto, devem ser introduzidas aos computadores o mais cedo possível, bem como vir a discutir as questões relativas ao impacto que a introdução maciça de computadores na vida moderna exerce sobre os indivíduos e os grupos e as relações sociais. É isto que normalmente se tem em mente quando se fala em “Computer Literacy”, ou “Computer Awareness”. Uma vantagem desta abordagem é que a questão (importante, por sinal) pode ser introduzida em vários lugares do currículo acadêmico, com abordagens as mais variadas, não sendo necessário criar uma disciplina ande o assunto seja estudado (embora no contexto fundamentalmente disciplinar em que nossas escolas atuam esta seja a normal). Áreas curriculares tradicionais como Ciências, Matemática, estudos Sociais, etc.; podem, cada uma de sua perspectiva introduzir o tópico aos alunos.

Em segundo lugar, há aqueles que acreditam que a principal, quiçá a única, possibilidade de utilização do computador na educação é como um instrumento para o ensino das matérias do currículo tradicional. Normalmente é isto que se tem em mente quando se fala em “Computer-Assisted (or Aided) Instruction” (CAI) : o computador é visto como um instrumento, uma ferramenta, que ajuda ou facilita o ensino de matemática tradicionais (como matemática, física, etc.; ou até mesmo aritmética, geometria, geografia, história).

Em terceiro lugar, há aqueles para quem as abordagens anteriores realmente deixam de apreciar o impacto fundamental que os computadores podem ter aprendizado da criança. Segundo estes, o pleno potencial pedagógico dos computadores só será explorado se os alunos aprenderem a programar (e não apenas aprenderem apenas fatos sobre o computador, ou fatos sobre outros assuntos através do computador ). advogados desta tese argumentam que a programação pode fornecer aos alunos habilidades que não seriam desenvolvidas de nenhuma outra maneira. Fala-se aqui, às vezes em “Computer-Assisted Learning” (CAL).

A maior disputa, atualmente, é entre os grupos que defendem a segunda e a terceira das posições esboçadas. Ninguém parece discordar de que aquilo que o primeiro grupo propõe é importante é deve ser incentivado. Muitos, porém, acham que não é suficiente — e discordam sobre o que deveria ser acrescentado. Acreditam estes também que a melhor maneira de se informar ou conscientizar sobre o computador é através do próprio computador, e que, portanto, os objetivos a que se acreditam os defensores da primeira tese poderiam ser igualmente atingidos por uma das outras duas abordagens.

Sendo assim, vou me concentrar na disputa entre os defensores das proposta resumidas em segundo e terceiro lugar. Fundamentalmente, a controvérsia maior ocorre entre os que defendem a utilização do computador basicamente como um instrumento de ensino e os que defendem a utilização do computador basicamente como uma ferramenta de aprendizagem (na verdade, de auto-aprendizagem).

Pode parecer que a questão não é tão fundamental assim é que tudo não passaria de uma questão de ênfase. Contudo, há aspectos importantes por detrás destas colocações. Vou resumir os principais aspectos destas duas colocações, sem pretender imparcialidade — minha preferência é claramente pela segunda — mas tentando ser justo e, na medida do possível, objetivo em minhas ponderações.

Cerca de 90% (ou até mais) dos chamados “programas educacionais” existentes no mercado refletem a primeira preocupação. São programas destinados a transmitir certas informações ou a desenvolver certas habilidades básicas, através do exercício, na prática, de tutoriais, etc. O computador funciona, neste caso, como se fosse um professor, uma máquina de ensinar: ele é um meio instrucional, ele instrui. A aprendizagem que ocorre é totalmente estruturada pelo programa, ou seja, pelo computador o computador que está em controle da situação. Ao aluno cabe responder perguntas que lhe são feitas, ou intervir quando solicitado. Sua postura acaba sendo fundamentalmente passiva: ele responde ou intervém quando solicitado, pelo computador, a fazê-lo.

O computador, neste contexto, é utilizado de uma maneira que meramente substitui ou duplica métodos educacionais tradicionais, sem que, em decorrência da utilização do computador, seja profundamente alterado o processo de aprendizagem. Isto faz com que o modelo aqui analisado, embora introduza o computador na educação, o faça sem maiores inovações, sem que haja uma transformação profunda em objetivos e métodos de ensino tradicionais.

A maior parte do que se faz em CAI nada mais é do que exercício, prática repetitiva. Transpõem-se, freqüentemente, textos para a tela, passa-se uma série de informações, e depois testa-se o aluno para ver se ele aprendeu (i.e. , memorizou ou compreendeu) o que lhe foi apresentado. Em caso positivo, o aluno recebe um certo reforço positivo, em caso contrário, alguma recomendação para estudar mais, etc. Ou então, em alguns casos, se pede ao aluno que leia algum texto em um livro, ou que assista alguma aula regular, e depois se testa, através do computador, o conhecimento assimilado. A única novidade, na verdade, em situações como estas, de resto bastante freqüentes, é a utilização de um medium novo — que é usado, porém, dentro de um contexto inteiramente tradicional. A meu ver, este tipo de utilização do computador é um desperdício de um recurso que potencialmente é muito rico.

Usar o computador para ensinar tabuada, ou aritmética elementar, nomes das capitais ou nomes de presidentes da república, etc. , é usar um equipamento de alto potencial pedagógico para promover objetivos educacionais bastante tradicionais e, a despeito do medium, através de métodos bastante condenados quando utilizados sem a auréola de novidade que o computador permite que eles assumam. Em conseqüência disto, os programas, ainda que tecnicamente bons (com uso de gráficos, simulações, etc.), acabam sendo instrucionalmente ingênuos, pobres do ponto de vista pedagógico. Estes programas não tomam nenhum risco, usando o computador quase como se fora apenas uma caixa de Skinner.

Mas se é este o caso, por que é que estes programas são tão difundidos? Há várias razões, que gostaria de ressaltar aqui.

Em primeiro lugar, este modelo de utilização do computador na educação introduz um medium novo mas, como já se mencionou, para alcançar objetivos educacionais tradicionais e através de métodos já de certo modo consagrados pela prática (exercício, repetição, etc.), mesmo que não pela teoria pedagógica. Assim, o computador não intimida tanto e vem preencher necessidades que, qualquer professor ou pai reconhece facilmente ( aprender tabuadas, geografia, fatos históricos, etc.). Esta uma das razões de sua popularidade.

Em segundo lugar, numa época em que testes de múltipla escolha padronizados acabam por se substituir no método de avaliação por excelência, este tipo de utilização do computador fornece aos alunos maneiras individualizadas de se exercitar, de praticar habilidades básicas, e de avaliar o seu progresso.

Em terceiro lugar, a popularidade deste tipo de utilização do computador na educação se explica pelo fato de que o conhecimento que se transmite aqui e o aprendizado que se espera são de contornos razoavelmente bem definidos e, conseqüentemente, permitem uma avaliação mais “objetiva” do progresso feito. Além disso, os programas que se encaixam nesta categoria não são tão difíceis de programar, existindo, inclusive, linguagens criadas especialmente para facilitar a tarefa de construção de programas de “instrução programada” (PILOT, por exemplo), bem como vários tipos de “pacotes” que permitem ao professor a construção, de maneira simples, de seu “courseware” — ou, “didacticiel”, como preferem os franceses.

A questão é se vamos utilizar a abordagem meramente porque ela é de implementação ou utilização mais fácil, ou porque ela não causa maiores transtornos ao processo educacional e à vida do professor, por se encaixar dentro de objetivos educacionais tradicionais e de métodos de ensino convencionais.

Pessoalmente, acredito que esta função digamos instrucional que o computador exerce é (embora até útil, em alguns contextos) uma de suas características menos interessantes. Sua função educacional mais importante o coloca em papel inteiramente aposto: não no de instrutor, mas no de aprendiz. A tarefa do aluno não é aprender do computador, mas ensiná-lo a realizar certas tarefas — programá-lo, enfim.

Aqui chegamos, portanto, à outra abordagem. Segundo esta abordagem, o computador é fundamentalmente uma poderosa ferramenta de aprendizagem que, bem utilizada, pode levar ao aprendizado não só de fatos importantes sobre o próprio computador bem como sobre outros conteúdos, mas, e mais importante, pode levar à aprendizagem de princípios, técnicas, habilidades que ajudarão o aluno em seu aprendizado subseqüente, que farão dele um melhor solucionador de problemas (não só necessariamente em relação ao conteúdo que está incidentalmente manipulando).

Neste modelo de utilização do computador na educação, a situação de aprendizagem não é previamente estruturada. Não há, necessariamente, um determinado conteúdo que tem que ser aprendido, determinadas perguntas que têm, cada uma delas, uma só resposta correta, cabendo ao aluno descobri-la. Ao aluno cabe, aqui, estruturar o próprio contexto em que sua aprendizagem vai ocorrer. Ele é encorajado a explorar, criar, inovar, dentro de situações de aprendizagem não previamente estruturadas. Parte-se do pressuposto de que o aprendizado que ocorre nestas situações é mais frutífero e mais duradouro. Ao aluno é permitido errar — se bem que muitas vezes não seja muito claro o que é erro — porque se acredita que erros são pedagogicamente importante. Ao aluno se permite levar adiante uma solução para um determinado problema, ainda que seja óbvio que a solução não vai funcionar, porque se reconhece o valor pedagógico dessa exploração. O aluno, longe de ser um mero observador que só reage quando solicitado, passa a ser um participante ativo no progresso de construção de sua própria aprendizagem.

Quando se escolhe esta segunda opção está se optando por muito mais do que simplesmente um outro métodos de utilização do computador na educação: está se optando por uma filosofia da educação diferente. Muitos educadores já mostraram os benefícios da educação que ocorre através do fazer, do explorar, do descobrir. O computador, propriamente utilizado, torna esta meta alcançável de uma maneira nunca antes possível. Nele, como bem assinalou Seymour Papert, em Mindstorms: Children, Computers, and Powerful Ideas, o concreto e o formal se encontram, permitindo possibilidades pedagógicas difíceis de imaginar sem o apoio do computador.

Nesta abordagem, alteram-se drasticamente os objetivos educacionais tradicionais e os métodos de ensino convencionais. Todo o processo educacional é visto de uma maneira totalmente revolucionária.

Exatamente por isto, não é fácil elaborar programas que levam a estes objetivos. O que se tem que fazer é criar linguagens, programas utilitários, que dêem ao usuário um número cada vez maior de recursos que permitam o desenvolvimento de sua aprendizagem. Exatamente por atuar no pressuposto de uma aprendizagem não previamente estruturada, este modelo impede que sejam desenvolvidos “pacotes” que são então distribuídos e consumidos. O que é necessário desenvolver é todo um conjunto de recursos, todo um ferramental para a aprendizagem. É isto que todo o conjunto de linguagens e recursos identificado com o nome LOGO procura fornecer.

Ao optar por esta abordagem não se está sucumbindo à tentação representada por aquilo que alguns já convencionaram chamar de síndrome dos testes e medidas: ensinar aquilo que é mais fácil ensinar, avaliar aquilo que é mais fácil testar. Não resta dúvida de que algumas coisas são importantes, mas difíceis de testar e avaliar; outras são fáceis de testar, mas talvez não tão importantes (pode se substituir a palavra testar por investigar, aqui, e o que está sendo dito se aplicaria também à pesquisa educacional). O importante é não sucumbir à tentação de promover a aprendizagem apenas daquilo que é fácil testar, deixando de lado a aprendizagem daquilo que é importante, para não dizer essencial, aprender.

Concluo, portanto, com uma reafirmação clara da tese de que toda criança deveria aprender a programar o computador. Isto obviamente não quer dizer que todas as crianças devem se tornar programadores profissionais. Quer dizer, isto sim, que aprender a programar o computador envolve aprendizados de vários tipos, ou vários aspectos de aprendizado. Em primeiro lugar, está o aprendizado requerido para dominar o próprio computador. Em segundo lugar, está o aprendizado de várias técnicas e estratégias para a solução de problemas. E em terceiro lugar está uma compreensão mais profunda do assunto de que se ocupa o programa: O conteúdo do programa.

Olhemos, brevemente, e à guisa de conclusão, a cada um desses aspectos.

Um certo sentido de mistério e até mesmo da mágica geralmente cerca o primeiro contato de alguém com o computador. Embora no íntimo se saiba que se trata apenas de uma máquina com circuitos, teclas, etc., há algo acerca do computador que o faz parecer não só quase vivo como inteligente. A primeira coisa que o aprendizado de programação ensina é que o computador só faz aquilo que você o ensina a fazer. como já disse alguém, o computador é um completo idiota, que, entretanto, tem uma excelente memória e executa ordens com incrível rapidez. No processo de aprender isto o aluno aprende que é ele quem manda, o cérebro que instrui é o dele — é ele, enfim que determina as regras do jogo.

A descoberta deste fato, juntamente com a descoberta do fato de que o computador não irá resolver nenhum problema que você não consiga resolver para ele, ajuda as crianças, além de tudo, a desenvolverem auto-confiança, a auto-confiança que vem do fato de que você é capaz de fazer uma máquina poderosa e até misteriosa obedecer as suas ordens. Esta sensação de auto-confiança e de domínio sobre a máquina é importante não só para os alunos que têm grau de auto-confiança baixo, mas também porque, em uma sociedade cada vez mais permeada pela tecnologia, é importante que as pessoas cresçam imbuídas de um sentido de que são elas que devem controlar as máquinas — não vice-versa . (Na instrução programada, quem é controlado por quem?).

Em segundo lugar, quem aprende a programar o computador desenvolve uma série de habilidade e estratégias para a solução de problemas — e problemas bastante reais.

Embora as pessoas aprendam a solucionar problemas e a desenvolver certas estratégias para fazê-lo, simplesmente vivendo suas vidas, parece ser terrivelmente difícil ensinar, na escola, métodos de solução de problemas. As razões desta dificuldade provavelmente estejam relacionadas com a diversidade das habilidades, dos conhecimentos e da compreensão exigindo para a solução de problemas bem como com a complexidade inerente na avaliação das estratégias utilizadas para a solução de problemas. As escolas preferem se concentrar em habilidades que podem ser identificadas, isoladas, e medidas, a se dedicar àquelas que são menos tangíveis e mais profundamente interrelacionadas. Novamente aqui temos a síndrome dos testes e medidas a que já se fez menção. Ensina-se o que se pode mais facilmente identificado, isolar e avaliar — e não o que é menos tangível, mais complexo, mais interligado, mas difícil de avaliar.

Computadores fornecem um contexto cheio de problemas excitantes e atraentes para as crianças e as desafiam a solucioná-los. Mesmo as tarefas mais simples de programação, aquelas voltadas para criança, como desenhar na tela, são suficientemente ricas e complexas para permitir o desenvolvimento de uma série de habilidade que ajudam na solução de problemas. Ao mesmo tempo há aspectos envolvidos nesta experiência que fazem com que a solução de problemas neste contexto seja mais fácil e mais facilmente inteligível do que no mundo real.

Ou vejamos. O computador, em primeiro lugar, torna possível dividir, com relativa facilidade, um problema em vários outros pequenos problemas. Esta estratégia é extremamente útil na solução de problemas que, de início, parecem demasiadamente complexos para serem solucionados. Em segundo lugar, ao se propor escrever um programa o aluno é forçado a fazer uma descrição explícita e formal do problema que ele irá resolver com aquele programa. isto em si já é algo bastante positivo. Mas o mérito não para aí. Diferentemente de uma descrição verbal ou descrita de alguma coisa, um programa de computador pode ser testado com facilidade, e seu resultado comparado com o esperado. Este processo contínuo de descrição do problema, proposta de uma solução, testagem da solução, revisão, é de enorme utilidade pedagógica. Ele leva o aluno a aprender de e através de seus erros — ou seja, numa tradição bastante Popperiana, ele reveste o erro de enorme significado pedagógico.

O terceiro tipo de aprendizado que decorre do estudo da programação é o do próprio conteúdo ou assunto sobre o qual se está programando. Todos os que ensinam já tiveram a experiência de que ao ensinar determinado assunto a gente freqüentemente aprende muito sobre o assunto. Em programação ocorre a mesma coisa: ao tentar fazer um programa que leve o computador a executar gráfico, ou música, o programador geralmente desenvolve uma compreensão ( e mesmo uma apreciação ) bem mais profunda desses conteúdos do que tinha antes. O mesmo se aplica a qualquer outro conteúdo.

Muitas pessoas imaginam que, porque computadores são máquinas, pessoas que aprendem desde muito cedo a manejar computadores venham a se tornar mais “mecânicas” em seu modo de pensar. Outros imaginam que pessoas que não tenham uma grande inclinação para a matemática nunca vão se tornar bons programadores. Muitos educadores, principalmente aqueles que trabalham com LOGO, têm chegado à conclusão de que o oposto, em ambos os casos, é que é o verdadeiro. Toda criança pode aprender a programar a ser relativamente bem sucedida no empreendimento, e o aprendizado de programação ajuda as crianças a desenvolverem tanto o lado lógico como o lado intuitivo de sua personalidade .

Estou convicto de que todas as crianças se beneficiarão, em maior ou menor grau, é verdade, se aprenderem a programar. Este aprendizado ajuda tanto crianças como adultos a desenvolverem habilidades e conhecimentos de que necessitam em uma sociedade tecnologicamente avançada. Ao mesmo tempo, estas pessoas experimentam uma sensação de poder criativo sobre seu ambiente, aprendendo, também, com maior profundidade, os assuntos que estiverem explorando.

Inserido aqui em São Paulo, 4 de Fevereiro de 2013

Eduardo Chaves

A Filosofia e a Educação no Mundo Antigo e Medieval

{Transcrevo aqui revisto e um pouco modificado, um artigo que escrevi, originalmente, em 2008, com base em materiais que havia redigido bem antes (no ano 2000), para servir de Introdução a um curso de História da Filosofia Moderna na UNICAMP. Eduardo Chaves [1]}

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Não pretendo, neste trabalho, abordar o tema elaborando uma crônica de eventos ou pessoas relevantes à educação na Antiguidade e na Idade Média.

Também não pretendo historiar o que pensaram sobre a educação eminentes autores do Mundo Antigo e Medieval.

Vou fazer algo, de um lado mais ambicioso, mas, de outro, menos trabalhoso: tentar capturar a essência da contribuição do período clássico e do período medieval para a educação de hoje.

Assim, não farei pesquisa histórica, no sentido estrito, nem exegese e crítica textual. Procurarei me situar no plano filosófico para procurar captar o que me parece ser o aspecto mais importante da contribuição de cada período para a educação.

A primeira parte enfocará a antigüidade clássica. A segunda, o período medieval.

Numa terceira parte, resumirei o que me parece ser a principal contribuição desses dois períodos, em seu conjunto, para algo que transcende a educação, embora seja extremamente importante para ela: a visão de mundo. A Antiguidade e a Idade Média estão de certo modo unidas em uma visão de mundo extremamente importante, e que serviu por muito tempo de alicerce para a cultura e o pensamento ocidental, e que, lamentavelmente, corre o risco de se esvair nos ceticismos e relativismos de nossa época que se pretende multicultural, na qual a razão, como padrão objetivo, perde lugar para modismos intelectuais admitidamente arbitrários.

Antes de entrar na discussão do tema, porém, gostaria de propor a tese geral que pretendo defender.

A grande contribuição do mundo antigo para a educação foi no plano conceitual – propondo um referencial teórico que fornece um interessante enquadramento para a educação ainda hoje.

Essa contribuição inclui tanto uma visão extremamente criativa e frutífera do que é a educação (conceito de educação) como sugestões interessantes sobre como, em linhas gerais, essa educação deve se dar (metodologia).

A grande contribuição do mundo medieval para a educação, por outro lado, deu-se no plano da prática pedagógica – e continua a ser extremamente relevante nos dias de hoje.

Mais especificamente, o que de mais importante a Idade Média nos legou foi uma proposta curricular para a Educação Fundamental (o chamado Trivium) e uma metodologia de aprendizagem (conhecida como Escolasticismo).

I. O Mundo Antigo e a Educação

Quando falo em Mundo Antigo, tenho em mente a Antiguidade Clássica — o mundo em que predominaram, primeiro, os Gregos e, depois, os Romanos. Esse mundo tem limites cronológicos difíceis de precisar, mas vou estipular, mais ou menos arbitrariamente, que o Mundo Antigo cobre desde a época em que se presume que Homero tenha vivido (por volta do século VIII ou VII antes de Cristo) até o fim oficial do Império Romano (final do século IV de nossa era, com o Imperador Teodósio). A influência do Império Romano demorou muito tempo para desaparecer, mas a data é útil, porque permite caracterizar como a Antigüidade Clássica um período que dura perto de um milênio. (A Idade Média, como veremos, também vai durar perto de um milênio).

Os períodos mais importantes dentro do milênio clássico são: no caso da Grécia, os séculos V e IV antes de Cristo – época de Sócrates, Platão e Aristóteles; no caso de Roma, o último século antes de Cristo e os dois primeiros da nossa era talvez sejam os mais importantes – época de Cícero, Sêneca, Lucrécio, Marco Aurélio, etc.

Considerar como se fosse uma unidade um período histórico relativamente curto até mesmo dentro de um espaço geográfico pequeno e bem delimitado, e com cultura relativamente homogênea – como, por exemplo, o século XVIII na França – já é problemático. Muito mais problemático ainda é tomar como se fosse uma unidade um período de cerca de mil anos, que abrange espaços geográficos amplos e não bem delimitados, que foi local de origem e de disseminação de duas culturas diferentes, embora com sobreposições significativas: a grega e a romana. Dentro de cada uma dessas culturas já é difícil encontrar significativa unidade de ponto de vista entre dois pensadores. Além disso, alguns dos autores desse período escreveram sobre a educação, e, às vezes, as ênfases principais do que disseram contradizem as idéias aqui apresentadas e são inaceitáveis hoje. Outros, por sua vez, nem tocaram explicitamente no assunto. Mas, ainda assim, acredito ser possível chegar a dois ou três pontos de vista que são essenciais – e que permanecem relevantes até hoje. Esses são os pontos de vista que sobreviveram no tempo, sem perder sua importância e relevância.

A. A Visão da Educação

Parece-me que a noção de paideia – aquilo que os alemães do século XIX vieram a chamar de Bildung – está no centro da visão clássica da educação. Embora o termo “paideia” seja geralmente traduzido por educação, e, de vez em quando, até por instrução, talvez a melhor tradução do termo seja, hoje, formação (embora, diferentemente de instrução, educação também seja uma tradução aceitável).

Paideia é o processo mediante o qual um ser pequeno, incompetente, dependente, incapaz de assumir responsabilidade pela sua vida, se torna um adulto competente, autônomo, responsável, capaz de definir seu destino e de controlar sua vida para que o destino visado se torne realidade. Paideia é o processo mediante o qual o homem transforma seu potencial em atualidade, em que ele se realiza como pessoa (individual e única), como cidadão (membro de um grupo), como criador e artífice de seu próprio destino. Paideia é o processo mediante o qual a essência se transforma em existência e o homem encontra sua natureza verdadeira. Paideia é o processo mediante o qual o homem se dá a forma de humano – donde, formação.

Dentro dessa visão, não é um homem que dá a forma de humano ao outro. Cada um se forma, cada um se dá a forma humana – mas, admitidamente, não sozinho, em isolamento. Embora essa formação seja mais auto-formação do que hetero-formação, ela não acontece em isolamento. Cada um se forma à medida em que, interagindo com os demais, se torna capaz de se apropriar dos sentidos existentes na cultura que lhe permitem ressignificar o mundo — e sua própria vida. É nesse processo que as pessoas se tornam competentes, autônomas e responsáveis. Um mundo ressignificado é um mundo recriado por mim: é o meu mundo, o local em que existo, vivo, faço planos, defino projetos de vida — e os vivo.

A vida humana deve ser, para a maior parte dos pensadores desse período, orientada por fins. A teleologia era, em especial para os gregos, uma característica não só de humanos e da vida humana, mas, também, da própria natureza. Não só os humanos devem ter fins – as próprias coisas os têm. A singularidade do ser humano está no fato de que ele pode, curiosamente, diferentemente dos demais seres, tentar renegar o seu fim natural…

Para vários dos pensadores desse período, em especial dentre os gregos, com destaque especial para Aristóteles, o fim natural do homem é a busca de sua própria felicidade.

Hoje em dia, no clima relativista que impera, se argumentaria que cada um entende a felicidade como bem quer: “Liberdade”, por exemplo, “é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser…”, dizia o jingle da US Top de uns 45 anos atrás. Consequentemente a noção de felicidade, como o fim da vida, não parece ajudar muito… Falta-lhe, pelo que parece, objetividade.

É aqui que os gregos recorrem a uma noção fundamental, que, infelizmente, parece totalmente perdida nos dias de hoje: cada tipo de coisa tem uma natureza própria – e é essa natureza que condiciona a descoberta e determinação de seu fim.

O ser humano tem uma natureza – mas também a têm os diferentes tipos de animais, de plantas, de coisas. A natureza da videira é diferente da natureza da oliveira. É verdade que é parte da natureza de ambas ser plantas frutíferas. Por isso, o fim de uma e de outra tem alguma coisa em comum, em um nível de abstração mais genérico: produzir os frutos que são coerentes com a sua natureza. Mas, num nível de abstração mais específico, a natureza da videira é claramente diferente da natureza da oliveira. Conseqüentemente, o fim da videira é diferente do fim da oliveira: o daquela é produzir uvas, o desta, olivas. No mundo natural não se dá o caso de, num determinado momento, videiras decidirem que vão produzir olivas e oliveiras, uvas. As coisas no mundo natural obedecem à sua natureza e, assim, sempre operam para alcançar seu fim. Essa operação é automática: não é uma ação, que depende de consciência, intenção e tomada de decisão.

O caso dos humanos, porém, é mais complicado. Humanos têm uma natureza: são animais racionais. Isto é, são animais, mas são animais de um tipo especial: racionais. Como animais, têm corpos e, assim, participam do mundo natural, como tantos outros animais. Como estes, nascem, precisam se alimentar, reproduzem-se, morrem. Compartilham com as plantas alguns desses processos. Compartilham com as coisas não vivas que habitam este mundo outros processos.

Mas como animais racionais participam de um mundo superior, das idéias e das formas, um mundo que é conhecido apenas por outros seres racionais – que em geral são incorpóreos, como deuses. A nossa mente é, como se fosse, uma centelha divina que habita a nossa animalidade e deve com ela se reconciliar, fazendo com que sejamos um ser único, que tem uma natureza híbrida, animal e racional, mas unida, fazendo parte, assim, de dois mundos: o natural e o mental, o corpóreo e o incorpóreo, o animal e o divino.

Embora alguns dos antigos, como por exemplo Platão, tendessem a privilegiar o lado de nossa natureza considerado divino e a depreciar o lado animal, e, assim, a elevar a mente e a rebaixar o corpo, para a maioria deles mente e corpo devem se unir e reconciliar, o ideal sendo mens sana in corpore sano – uma mente sã num corpo são. Não é rebaixando ou mortificando o corpo que se fortalece a mente. Pelo contrário: esta só se fortalece num corpo sadio e forte (não debilitado).

Aristóteles, por exemplo, incorpora melhor a tendência greco-romana de valorizar o corpo tanto quanto a mente. A saúde do corpo é vista como essencial para a saúde da mente – mas não era apenas a saúde do corpo que era por ele valorizada: a sua beleza também. É por isso que a arte greco-romana desse período, na parte em que representa o corpo humano, contém alguns das mais belas representações da figura humana jamais produzidas.

Além disso, o corpo é também visto como fonte de prazer. A noção de prazer é admitidamente complexa, porque o prazer freqüentemente contém componentes eminentemente mentais. Do ponto de vista meramente corporal o sexo forçado – o estupro – é virtualmente indiferenciável do sexo livremente consentido. A revulsão que um traz e o prazer que envolve o outro são componentes muito mais mentais do que propriamente físicos. No entanto, é forçoso admitir que sem o corpo não haveria esse tipo de prazer.

É verdade que, quando o prazer é focado no corpo, e dissociado da mente, temos uma distorção – a tentativa de separar, ou desreconciliar, mente e corpo. Essa distorção é bem representada pelas bacanais romanas. Mas é forçoso reconhecer que essa tendência é uma distorção e, como tal, rejeitada pelos principais filósofos da antigüidade. Mais importante, talvez, nesse contexto, se bem que criticável do ponto de vista hoje aceito, é a preferência sexual que os homens gregos tinham por seus congêneres mais novos – os mancebos. A pederastia praticada nas escolas (academias, liceus) decorria do fato de que a maioria dos homens gregos acreditava que as mulheres eram apenas meio humanas, algo entre o homem e os animais. O verdadeiro prazer sexual de um homem, segundo essa visão, não advinha de sua relação sexual com uma mulher, um ser que considerava inferior, com a qual mantinha relações sexuais apenas para finalidades procriadoras. O prazer sexual verdadeiro advinha de seu relacionamento sexual com outro homem — alguém com quem podia manter uma conversação interessante, de igual para igual… Apesar da ideia absurda da inferioridade feminina, essa atitude prova que, para os gregos, o corporal, sem o mental, não traz o prazer a que os humanos têm direito e que, pela sua natureza, têm razão de esperar.

Sexo puramente corporal, dentro dessa visão, é antinatural, contrário à natureza humana. Mas, por outro lado, e contrariando a visão que se atribui a Platão, de que o amor pode ser “platônico” (não envolver sexo), o amor sem sexo seria igualmente antinatural — contrário à natureza do ser humano. (Dentre os filósofos contemporâneos Ayn Rand, que é fundamentalmente aristotélica, é a que mais enfaticamente tem batido nessa tecla. Basta ler seus romances para encontrar comprovação. Amor platônico é, para ela, tão depravado quanto o sexo sem amor.)

A ideia de que somos animais racionais, corpo e mente, de que nosso fim é a felicidade, e de que o prazer é parte legítima da felicidade é uma contribuição especialmente positiva que nos deixa a antigüidade – especialmente diante da tendência cristã, surgida posteriormente e exacerbada na Idade Média, de flagelar e mortificar o corpo (com açoite, jejum, abstinência), para enfraquecê-lo e, assim, supunha-se, fortalecer a mente (locus, entre outras coisas, da espiritualidade).

Mas voltemos à educação…

A paideia, com sua concepção de formação integral, é ainda mais rica. A formação integral deve abranger a mente e o corpo, como acabamos de ver. Mas a mente humana não é algo simples. Para os gregos a mente humana possuía pelo menos cinco componentes, ou “faculdades”: pensar, valorar (atribuir valor), sentir, decidir e fazer. É por isso que os gregos, quando falavam da mente, falavam, alternadamente, de pensamento, valoração, emoção, decisão (vontade) e ação.

A formação integral exigida pela paideia precisa, pois, envolver, não apenas os aspectos cognitivos da pessoa, mas também os seus aspectos valorativos, emocionais, volitivos — ou “deciditivos” – e ativos.

A união desses vários aspectos da mente nos permite também imaginar estados de coisas que não existem, desejá-los, e criá-los no plano virtual, que é uma realidade criada pela mente, onde a arte e a sensibilidade encontram seu lugar. A arte é a tentativa de recriar a realidade, ou criar uma realidade virtual, que se conforme aos valores do artista. A finalidade desse exercício é não só permitir que a sensibilidade do artista fale com a sensibilidade dos que admiram a sua obra, mas, também, mostrar possibilidades de vida – potenciais de vida – que os circundantes e conterrâneos não conseguem perceber por si sós.

Além do mais, o ser humano é, para os antigos, um ser gregário, que vive em grupos que, num determinado contexto histórico e geográfico, formam a sociedade daquele tempo e lugar. Isto sendo assim, a formação integral também exige preparo para as relações interpessoais, para o respeito aos direitos dos outros, para o trato das questões morais que regulam a nossa vida.

A filosofia política surgiu entre os gregos e prosperou entre os romanos. Suas perguntas básicas são: Qual a melhor maneira de organizar a nossa vida em sociedade? Qual a função do estado? Quais as leis que devem regular o nosso comportamento? Através de que critérios devemos avaliar as leis da sociedade? Serão esses critérios meramente utilitários ou existem critérios objetivos – um direito natural – que nos permite avaliar o direito positivo? Obviamente, todas essas questões devem fazer parte do processo de formação de qualquer pessoa.

Concluindo essa seção, resumo:

a)   A antigüidade clássica nos legou a idéia de que a educação, entendida como formação, é um processo de desenvolvimento humano, que se dá traduzindo potenciais em atualidades, transformando seres incompetentes, inautônomos, irresponsáveis, em seres competentes, autônomos e responsáveis, capazes de definir seu próprio projeto de vida e transformá-lo em realidade;

b)   A antigüidade clássica também nos legou a idéia de que a formação deve ser integral: abranger não só a mente, como o corpo, e, no caso da mente, incluir o plano cognitivo, valorativo, afetivo (ou emocional), volitivo (ou “deciditivo”), ativo e interpessoal (social).

B. A Forma de Aprender (Metodologia)

Durante milênios os processos de formação foram tipicamente orais – até porque a escrita é uma invenção (tecnologia) relativamente recente, quando comparada com a linguagem oral. Na verdade, nos séculos que imediatamente antecederam a Antigüidade Clássica a fala chegou próximo de tornar-se uma arte. A Odisséia e a Ilíada de Homero foram, inicialmente e por muito tempo depois, transmitidas oralmente (por declamação). Entre os gregos, o teatro, a retórica, a dialética e especialmente a lógica se tornaram objeto do mais sério estudo, mesmo antes da invenção da escrita. Se a fala, em si, já era uma tecnologia, i.e., uma técnica inventada pelo homem para melhor descrever a realidade e se comunicar com outros seres humanos, a declamação, o teatro, a retórica, a dialética e a lógica foram tecnologias assessoriais da fala, que permitiram que o ser humano usasse a fala de forma mais eficaz – em especial nos processos formativos (nas conversas, nas discussões, nos debates).

Talvez a melhor ilustração da filosofia da educação que corresponde a essa fase que está no limiar do nosso período esteja na filosofia de Sócrates – que foi construída quando essa fase já estava chegando ao fim, sendo, portanto, talvez, o seu “Canto de Cisne”. Sócrates já viveu no limiar da importante transição de uma cultura predominantemente oral para uma cultura que iria colocar cada vez mais importância na escrita.

Sócrates é admirável não só como filósofo, mas também como educador. Para ele, a melhor forma de formar (ou educar) é a interação oral, o diálogo, a conversa pessoal, o debate, a discussão racional, em que um diz uma coisa e ou outro analisa e questiona o que foi dito, apresentando contra-evidências, contra-exemplos e críticas, sugerindo alternativas, provocando seu interlocutor a continuar.

Esse método foi tradicionalmente chamado de “maiêutica” – palavra que vem do termo grego que quer dizer “parteira”. Para Sócrates o formador é, como se fosse, uma parteira para o conhecimento do aluno. Quem dá à luz (constrói?) o conhecimento, quem aprende, é o aluno – mas o formador ajuda, apóia, facilita.

No Teeteto [2], Sócrates explica a seu interlocutor que ele era filho de uma parteira, Fenarete, e que, como sua mãe, ele próprio é um parteiro. Sua mãe ajudava as mulheres a dar à luz seus filhos; ele ajuda os homens a dar à luz suas idéias.

Sócrates leva a analogia adiante, explicando que as parteiras, em geral, são mulheres que já passaram, elas mesmas, da idade em que poderiam parir seus filhos – por isso ajudam as outras. De igual modo, ele, Sócrates, já teria passado da idade em que poderia dar à luz idéias próprias – ficando na posição de quem agora só pode ajudar os outros a conceber e dar à luz as suas…

Mas Sócrates aponta também para um contraste importante entre sua função e a das parteiras:

“A tarefa das parteiras é importante – mas não tão importante quanto à minha; pois as mulheres não trazem ao mundo crianças verdadeiras numa hora, falsificadas noutra. Se o fizessem, a arte de diferenciar as crianças verdadeiras das falsificadas seria o ápice da arte da parteira. . . . A minha arte, conquanto em muitos aspectos semelhante à das parteiras, envolve cuidar da mente, não do corpo. O triunfo de minha arte está no exame exaustivo do pensamento que a mente de um jovem traz ao mundo para determinar se é uma concepção verdadeira – ou um ídolo falso. Como as parteiras, sou estéril; e a crítica que me fazem – de que faço perguntas que não consigo, eu mesmo, responder – é muito justa. A razão disso é que os deuses me compelem a ser parteira – mas não me permitem parir. E, por isso, eu mesmo não sou sábio, nem tenho nada a mostrar que seja invenção ou descoberta minha – mas aqueles que conversam comigo se beneficiam… É claro que não aprendem nada de mim; as muitas idéias que apresentam são geradas por eles próprios – eu só os ajudo a trazê-las ao mundo…” [3]

(Será que textos recentes sobre Construtivismo, que parecem sugerir que as raízes mais remotas desse movimento se reportam a Piaget, conseguiriam dar uma idéia mais precisa e sucinta de suas teses fundamentais do que esse parágrafo de Platão?)

É interessante que, segundo os relatos que Platão nos legou acerca de Sócrates, este não ia atrás de seus interlocutores, dizendo: “Venha aqui que eu tenho algo para lhe ensinar”. Ele ficava esperando que as pessoas tivessem questões, perguntas, dúvidas e viessem até ele – daí ele procurava ajudá-las, à sua moda.

Digamos que (juntando pedaços de alguns diálogos socráticos), um jovem viesse até Sócrates e dissesse:

“Mestre, o que é a justiça? Quando é que agimos de forma justa?”

Sócrates nunca dava uma resposta direta à pergunta. Ele fazia outra pergunta ao seu interlocutor:

“O que você acha que é a justiça?”

O jovem tentava:

“Ser justo é fazer o que é certo”.

“Ótimo”, dizia Sócrates. “Mas o que quer dizer ‘fazer o que é certo?’. Quando é que fazemos o que é certo, e quando é que fazemos o que é errado?”

O jovem tentava mais uma vez:

“Creio, Mestre, que faz o que é certo aquele que executa a vontade de Deus, aquilo que Deus manda, e faz o que é errado aquele que desobedece a Deus”.

Sócrates continuava:

“Interessante sua resposta. Mas responda-me isso: Você acha que um curso de ação se torna certo porque Deus nos manda segui-lo, ou será que Deus nos manda segui-lo porque é o curso certo de ação?  O que você acha?”

E a conversa ia por aí em frente. Através de perguntas bem feitas, Sócrates ia ajudando seus interlocutores a dar à luz uma compreensão mais adequada do que significava ser justo e agir corretamente. Ele nunca dizia. Ele nunca ensinava. Ele ajudava o aluno a pensar por si só, a aprender, a se tornar um aprendente autônomo.

Sócrates não usava nenhuma tecnologia além de sua fala. Não seguia um currículo –  eram as questões dos alunos que lhe colocavam a pauta da conversa. Ele não tinha material didático – era contra materiais escritos (nunca escreveu nada – como Jesus Cristo também não). Não fazia prova para seus alunos, porque ao longo da conversa ele percebia que, ou o aluno tinha entendido (parido a idéia), ou a conversa (o trabalho de parto) não havia ainda terminado. Além disso, a conversa dele não tinha lugar numa escola, mas sim na praça – no lugar em que as pessoas vivem.

Notem bem: um educador sem currículos, sem conteúdos predeterminados, sem materiais didáticos, que não ensinava, que não transmitia informações, que não avaliava se os alunos haviam assimilado o que ele tentara lhes transmitir, porque ele nada tentava lhes transmitir (no sentido em que usamos o termo). E que não usava nem a parca tecnologia da escrita já disponível então. E que era interativo e dialógico, e que ficava o mais próximo possível de seus alunos, onde estes viviam.

Sócrates valorizava o diálogo – o diálogo entre pessoas que se colocavam num mesmo patamar, não o suposto diálogo entre quem sabe e quem não sabe, entre quem tem o conhecimento e quem o recebe passivamente.

No parto, a mãe faz todo o trabalho. É ela que é ativa. É ela quem trabalha (donde a expressão “trabalho de parto”). A parteira ajuda, apóia, orienta, auxilia, facilita. Na filosofia da educação socrática, quem deve trabalhar são os alunos, não o mestre-parteiro. Quem deve estar ativo e procurar construir suas próprias competências e seu próprio conhecimento são os alunos. São eles os protagonistas da história. O mestre-parteiro fica nos bastidores, apoiando, orientando, ajudando, facilitando, fazendo uma massagem motivadora, quando necessária ou recomendável, passando uma pomada quase milagrosa quando o cansaço nos dá cãibras e nos causa dor, incentivando aqui, desafiando ali, provocando acolá. A educação se processa é na troca, na conversa, no diálogo.

A definição do método mais adequado para o processo formativo se faz dentro da “matética”, não dentro da didática [4].

C. A Tecnologia

A filosofia da educação de Sócrates, como vimos, foi construída quando a tecnologia da fala começava a ser complementada com a tecnologia da escrita alfabética [5].

Depois da invenção da fala, o passo tecnológico mais significativo, na área relevante para a educação, foi o da invenção da escrita alfabética, muitos milênios depois. A escrita é uma tecnologia que nos permite, num primeiro momento, registrar a fala, para que outros possam receber as palavras que a distância e/ou o tempo os impede de escutar. Hoje em dia há tecnologias que gravam a fala em si, ou que a levam a locais remotos, mas antes da invenção de fonógrafos, telefones e de outros meios de telecomunicação sonoros, tínhamos de depender da escrita para levar a fala codificada a locais remotos. Com a escrita temos comunicação verbal remota ou a distância [6].

A escrita foi, portanto, a primeira tecnologia que permitiu que a fala fosse congelada, perpetuada, e transmitida a distância. Com a escrita, deixou de ser necessário capturar a fala de alguém naquele instante passageiro e volátil antes que ela se dissipasse no espaço. A escrita tornou possível o registro da fala e a transmissão da fala para localidades distantes no espaço e remotas no tempo.

Na realidade, com o passar do tempo, a escrita acabou por criar um novo tipo de informação (registros e assentamentos de vários tipos, como escrituras, contratos, etc.) e um novo estilo de comunicação: a linguagem tipicamente escrita, que não é a mera transcrição da fala. Além disso, a escrita também criou um novo estilo de fala. O teatro, por exemplo, é a fala decodificada da escrita [7]. Alguém escreve a peça, ou o roteiro, e outros a representam, falando. Literalmente, não havia teatro antes da escrita – só improvisação (em maior ou menor grau). No teatro, portanto, a comunicação se dá em dois tempos: da fala imaginada pelo autor da peça para o texto escrito, e do texto escrito para a fala interpretada do ator. (Pressupõe-se, aqui, que ler uma peça não é equivalente a assistir a ela representada no teatro).

Muitos expressaram receio, quando a escrita se disseminou, de que ela fosse subverter a memória e, conseqüentemente a educação, até então calcada na memória e na fala, e de que ela fosse uma forma de comunicação essencialmente inferior à fala.

O primeiro a fazer isso foi, pelo que consta, Sócrates, que nunca escreveu nada. A julgar pelos relatos que dele e de suas idéias nos deixa Platão, isso não se deu por acaso: Sócrates, o defensor por excelência da fala, tinha preconceitos contra a escrita. Pelo menos é isto que fica claro no famoso diálogo Fedro.

No capítulo XXV de Fedro, Sócrates conta a seguinte história, que ele chama de mito, acerca da invenção da escrita, que ele atribui ao deus egípcio Teuto (a quem os Gregos chamavam de Hermes). Teuto, orgulhoso de sua principal invenção (ele também teria sido o inventor do número e do cálculo, da geometria e da astronomia), veio mostrá-la ao rei Tamos, que lhe perguntou qual a utilidade da invenção. Eis o que disse Teuto:

“Aqui, ó rei, está um conhecimento que melhorará a memória do povo egípcio e o fará mais sábio. Minha invenção é uma receita para a memória e um caminho para a sabedoria”.

A isso o rei ceticamente respondeu:

“Ó habilidoso Teuto, a um é dado criar artefatos, a outro julgar em que medida males e benefícios advêm deles para aqueles que os empregam. E assim acontece contigo: em virtude de teu apreço pela escrita, que é tua filha, não vês o seu verdadeiro efeito, que é o oposto daquele que dizes. Se os homens aprenderem a escrita, ela gerará o esquecimento em suas almas, pois eles deixarão de exercitar suas memórias, ficando na dependência do que está escrito. Assim, eles se lembrarão das coisas não por esforço próprio, vindo de dentro de si próprios, mas, sim, em função de apoios externos. O que você inventou não é uma receita para a memória, mas apenas um lembrete. Não é o verdadeiro caminho para a sabedoria que você oferece aos seus discípulos, mas apenas um simulacro, pois dizendo-lhes muitas coisas, sem ensiná-los, você fará com que pareçam saber muito, quando, em sua maior parte, nada sabem. E eles serão um fardo para seus companheiros, pois estarão cheios, não de sabedoria, mas da pretensão da sabedoria.” [8]

Ou seja: Sócrates fez uma importante advertência à vista do surgimento de uma tecnologia. Quando surge uma tecnologia, que nos ajuda a fazer alguma coisa nova, ou nos ajuda a fazer de uma forma nova alguma coisa que já fazíamos, a tendência é que desaprendamos de fazer as coisas velhas, ou de fazer as coisas da maneira antiga. A calculadora nos faz desaprender de fazer contas à moda antiga; o processador de texto nos faz desaprender de escrever bonito (a arte da caligrafia virou peça de museu; por um tempo, ainda ornamentava diplomas; com o surgimento de processadores de texto e impressoras a laser, nem esse uso arcaico sobreviveu).

II. A Idade Média e a Educação

Neste capítulo, analisarei a proposta curricular contida no Trivium Medieval e a metodologia da aprendizagem contida na Escolástica.

A. O Currículo Medieval: O Trivium

O Trivium envolvia o aprendizado da linguagem, da lógica e da retórica e era a base da Educação Fundamental na Idade Média. A ele se acrescentava o Quadrivium, que corresponderia mais ou menos à nossa educação de nível médio, e que envolvia o estudo da matemática, das ciências e das artes.

Aqui concentrarei a atenção em especial no Trivium.

a. A Linguagem

Estuda-se a Linguagem, não por pedantismo, mas porque a linguagem é o veículo através do qual o pensamento se expressa. É verdade que a correção da expressão lingüística não garante, por si só, que o pensamento nela veiculado seja de boa qualidade. Isso significa que é possível ter conteúdo sem qualidade em forma correta. Contudo, no caso de pensamento e linguagem, dificilmente ocorre o oposto: conteúdo de boa qualidade em forma inadequada. A relação existente entre pensamento e linguagem é tão íntima que uma linguagem inadequada dificilmente permite que se expresse um pensamento claro e preciso. Na realidade, a inadequação lingüística geralmente é sintomática de pensamento obscuro e impreciso, de confusão nos conceitos e enunciados (entidades lógicas) que subjazem aos termos e às orações (entidades lingüísticas).

Temos, como seres humanos, necessidade de comunicação constante com nossos semelhantes. Essa necessidade nos coloca diante de um imperativo: ou aprendemos a pensar com clareza e precisão e a comunicar esse pensamento de maneira correta, ou seremos deixados ou passados para trás por aqueles que o sabem. Embora, possivelmente, sempre vá haver semi-analfabetos, ou mesmo analfabetos, que alcançam uma certa medida de sucesso, o número destes tende a reduzir-se, no tipo de sociedade em que vivemos, ao nível do estatisticamente desprezível. Por isso, o estudo da linguagem é, geralmente, um primeiro e importante passo para quem deseja ser bem sucedido, pessoal e profissionalmente.

b. A Lógica

O segundo passo é estudar a estrutura Lógica do discurso, isto é, dos conceitos, enunciados e argumentos que subjazem à nossa linguagem. A lógica é que nos ajuda a pensar, a organizar e estruturar o pensamento, a  fazer inferências, a raciocinar. Sem ela, ainda que dominemos as ferramentas lingüísticas, nossa linguagem será vazia de conteúdo.

c. A Retórica

O terceiro passo é estudar as técnicas de persuasão e convencimento — aquilo que antigamente se chamava de Retórica. A lógica nos ajuda a organizar e estruturar o discurso. A retórica nos ajuda a apresentar o que temos a dizer de forma a persuadir e a convencer os outros — ou, pelo menos, a chamar sua atenção.

d. O Conjunto

Se em nossa Educação Fundamental (que hoje se estende por nove longos anos) conseguíssemos que nossos alunos se tornassem competentes no manejo da Linguagem (em especial na língua materna), no domínio das formas de pensar, raciocinar e tirar inferências (Lógica) e na arte de bem apresentar suas idéias, de modo a se comunicarem bem, serem persuasivos e convincentes (Retórica), nossa tarefa estaria mais do que desempenhada. Sobre essa base qualquer outro edifício pode ser facilmente construído.

B. A Metodologia da Escolástica

O que geralmente se chama de Escolasticismo é, na realidade, uma metodologia de aprendizagem, que consiste em:

  • tomar uma questão;
  • analisá-la com cuidado;
  • formular uma tese clara acerca da questão;
  • apresentar as melhores evidências e os argumentos mais fortes que dão sustentação a essa tese;
  • em seguida, formular a antítese, ou contra-tese, ou tese oposta;
  • buscar as melhores evidências e os argumentos mais fortes que possam lhe dar sustentação à antítese;
  • analisar e avaliar os dois lados da questão;
  • por fim, chegar a uma conclusão, que pode ser favorável à tese ou à antítese, ou que pode, ainda, ser uma síntese das duas.

Por detrás dessa metodologia está a convicção, tão bem representada por Sócrates, na Antigüidade, de que aprendemos através da interação, do diálogo, da conversa, do debate, da discussão racional, em que um diz uma coisa e ou outro analisa e questiona o que foi dito, apresentando contra-evidências, contra-exemplos e críticas, sugerindo alternativas, provocando seu interlocutor a continuar. A escolástica representou a institucionalização desse método.

III. O Contribuição Perene da Pré-Modernidade

Para entender a filosofia moderna – período que se sucedeu aos dois que acabei de analisar — é necessário entender a filosofia que a precedeu: a medieval e antiga – a Pré-Modernidade.

Embora haja consideráveis diferenças entre a filosofia antiga e a medieval, e mesmo entre as diversas correntes que constituíram uma e outra, é possível detectar uma certa tendência básica naquilo que poderíamos chamar de “filosofia pré-moderna”, e que engloba elementos básicos de uma e de outra.

Para a filosofia pré-moderna, em primeiro lugar, a existência daquilo que na filosofia moderna se convencionou chamar de “mundo exterior” (a realidade externa à nossa mente) não é um problema. Para ela, é pacífico que existe um mundo fora de nossa mente, que é objeto de nosso conhecimento. Isso não precisava ser demonstrado, porque não havia se tornado um problema.

Para a filosofia pré-moderna, em segundo lugar, a realidade contém objetos e fatos. Objetos são coisas e fatos são estados de coisas. Tanto objetos como estados de coisas existem, na realidade: eles são descobertos, não constituídos.

Além disso, e em terceiro lugar, para a filosofia pré-moderna o mundo exterior é objetivamente ordenado. A realidade não é composta meramente de objetos e fatos isolados uns dos outros. Objetos e fatos se vinculam uns aos outros, através de várias relações, dentre as quais a principal é a de causalidade.

A relação de causalidade, para a filosofia pré-moderna, existe objetivamente na realidade: um evento realmente causa o outro, e isto é um fato que pode ser constatado. A realidade não é composta apenas por “fatos atômicos” — evento a e evento b, por exemplo — mas também por fatos complexos — evento a causando evento b, por exemplo. A relação de causalidade, portanto, não é redutível à relação de contigüidade espaço-temporal, como diria Hume, já no período moderno (século XVIII).  Ela comporta também o nexo causal.

Isto significa que o mundo possui ordem, e que essa ordem existe independentemente do ser humano. Não é o ser humano que impõe ordem à realidade: esta já é ordenada, cumprindo ao ser humano apenas descobrir a ordem que já existe. É esse fato que possibilita o conhecimento.

A realidade, para a filosofia pré-moderna, portanto, contém fatos, atômicos e complexos. Esses fatos, como visto, são estados de coisas que existem, na realidade: são descobertos, não constituídos. Conquanto possam existir estados de coisas imaginários, fictícios, eles não devem ser descritos como “fatos imaginários”. Fatos são coisas reais.

Para a filosofia pré-moderna, em quarto lugar, a verdade é uma relação de correspondência ou adequação entre os juízos de um sujeito e os fatos que são objeto desses juízos. Se o juízo emitido por um sujeito corresponde aos fatos, é verdadeiro; se não existe essa correspondência entre o juízo emitido e a realidade, ele é falso. A realidade não é nem verdadeira nem falsa: ela simplesmente é. São nossos juízos acerca da realidade que podem ser verdadeiros ou falsos.

Para a filosofia pré-moderna, em quinto lugar, temos evidência da verdade ou não de nossos juízos através principalmente dos sentidos, pela percepção sensorial. E aquilo que nos é dado na percepção é nada mais nada menos do que a realidade, propriamente dita, os objetos e os fatos que compõem o mundo externo a nós. Embora seja notório que às vezes nos enganemos em nossa percepção, a essa constatação não se dá importância muito grande na filosofia pré-moderna.

Para a filosofia pré-moderna, em sexto lugar, é possível, partindo dos sentidos, descobrir fatos sobre a realidade que transcende os sentidos: a chamada realidade supra-sensível (ou o que comumente se chama de “sobrenatural”). Em geral, acreditava-se que era possível descobrir fatos acerca de Deus (por exemplo) pela chamada “via natural”, ou seja, apenas refletindo sobre os fatos descobertos pelos sentidos.

Para a filosofia pré-moderna, em sétimo lugar, o conhecimento é o conjunto de juízos verdadeiros e evidenciados nos fatos que compõem a realidade (sensível ou supra-sensível). Para que haja conhecimento é necessário que haja um sujeito, que conhece, e um objeto, que é conhecido.

A filosofia pré-moderna não duvida de que tenhamos conhecimento da realidade: ela é plenamente confiante no conhecimento humano. Na verdade a confiança é tanta que ela pode falar, sem embaraço, em milagres. No período pré-moderno não há maiores problemas no conceito de milagre. Um milagre é um evento que, se ocorrer, viola ou suspende a ordem objetiva existente na realidade. Para a filosofia pré-moderna, milagres, se de fato existem, acontecem no nível da realidade, e não apenas no nível de nosso conhecimento da realidade. Sua definição envolve referência ao plano ontológico e metafísico, não apenas epistemológico. Milagre não é apenas um nome para nossa ignorância da ordem (como diria Spinoza mais tarde): o milagre é uma violação ou suspensão da ordem objetiva existente na realidade. Por isso é que se acreditava que eles eram de sua importância: se de fato existem, eles provam alguma coisa. Falar em milagres, porém, não quer dizer acreditar neles. Se realmente acontecem ou não é outra questão. Nem todos os filósofos pré-modernos acreditavam que milagres aconteciam. Mas não tinham dificuldade com o conceito.

Para a filosofia pré-moderna, por fim, e em oitavo lugar, a pedagogia é o processo através do qual a criança é levada a conhecer e a descobrir fatos, é o processo de condução do sujeito ao objeto.

A filosofia moderna, iniciada por Descartes, e que encontrou seu ponto culminante em Kant e Hegel, passando pelos Racionalistas Continentais (Leibniz e Spinoza) e pelos Empiristas Britânicos (Locke, Berkeley e Hume), infelizmente veio a questionar todos esses oito pontos – e esse questionamento não redundou em progresso, mas, sim, em regressão.

A filosofia era considerada, pelos pré-modernos, como a mais perfeita expressão da racionalidade humana.

Na filosofia moderna, entretanto, a razão é freqüentemente utilizada para combater a razão. Dentro da filosofia moderna existe uma corrente irracionalista tão forte que, encontrou no século XX um terreno fértil para a sua propagação. É a razão que perdeu o rumo, e que tenta agora demonstrar sua própria fragilidade.

As principais armas do irracionalismo são o ceticismo e o relativismo.

O ceticismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento não existem. Só existem pontos de vista, opiniões, crenças, coisas desse tipo. Mas nada disso é verdade, nada disso merece o título de conhecimento. Os pontos de vista que adotamos (se é que adotamos algum) são tão inválidos quanto quaisquer outros.

O relativismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento existem, mas cada época, cada cultura, ou mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento. O relativismo, no fundo, afirma que tudo pode ser verdade, dependendo do contexto. Quaisquer outros pontos de vista são tão válidos quanto os que adotamos.

Note-se que tanto o ceticismo como o relativismo apelam para sentimentos nobres.

O ceticismo tem sido o principal crítico do dogmatismo e do fanatismo. Como a verdade e o conhecimento não existem, não devemos nos apegar aos nossos ponto de vista (caso os tenhamos): devemos reconhecer a falibilidade de nossas faculdades de conhecimento, e, portanto, evitar qualquer dogmatismo e fanatismo.

Da mesma forma, o ceticismo tem sido o maior defensor da tolerância. Devemos tolerar os pontos de vista dos outros, mesmo os que nos parecem os mais estapafúrdios, porque, embora careçam de fundamento, não estão em pior situação do que nossos próprios pontos de vista.

Igualmente, o ceticismo tem sido um proponente da modéstia, da humildade, da ausência de soberba, da ausência de arrogância: tudo o que sei, dizem Sócrates e o cético, é que nada sei.

Os céticos são simpáticos: haja vista Hume, talvez o filósofo mais simpático que já pôs os pés sobre a terra. Revestindo-se desse caráter nobre, o ceticismo conquista as pessoas — e espalha o irracionalismo.

O relativismo também é uma filosofia simpática.

O relativismo procura nos convencer as pessoas de que os pontos de vista de outras pessoas (ou as de outras épocas, ou de outras culturas) são tão válidos quanto os nossos próprios (ou quanto os pontos de vista de nossa própria época, ou de nossa própria cultura).

Isso é assim, afirma o relativismo, porque as idéias são geradas em determinados contextos, e adquirem validade somente a partir daquele contexto. É inválido, portanto, criticar um ponto de vista a partir de um contexto que não é o seu próprio.

Assim sendo, não é válido (por exemplo) criticar o budismo a partir do catolicismo romano, ou, na verdade, criticar qualquer religião, a partir de uma outra, ou mesmo a partir de um ponto de vista ateu. Todas religiões são boas, e até o ateísmo é uma forma de religião, às avessas, igualmente válida.

Por isso, também o relativismo propõe a rejeição do dogmatismo e do fanatismo e a adoção de uma postura tolerante. A arrogância, o sentimento de superioridade de nossos pontos de vista, a falta de empatia para com pontos de vista diferentes, tudo isso é pecado mortal para o relativismo.

Os relativistas também são, em regra, simpáticos. Muitos deles se embrenham por florestas quase virgens para estudar pontos de vista e costumes que os demais mortais poderiam considerar primitivos. Para o relativista, não há superior e inferior, quanto se trata de idéias, de pontos de vista, de cultura, enfim.

Revestindo-se desse caráter nobre, o relativismo também conquista as pessoas — e espalha o irracionalismo.

Na verdade, a maior parte das pessoas adota, hoje, um misto de ceticismo e relativismo, sem distinguir bem entre eles.

É por isso que o irracionalismo é hoje moda. Se a verdade e o conhecimento não existem, ou se tudo é verdade e conhecimento, então não há como ser racional. Por que adotar este — e não aquele — ponto de vista? Por que pronunciar este — e não aquele — ponto de vista? Porque preferir esta — e não aquela — obra de arte?

A filosofia pré-moderna (antiga e medieval) sabia como resolver essas questões. A filosofia moderna desaprendeu de fazer isso.

Ser racionalista é, hoje, ser alvo de críticas, mesmo de ridículo.

A nossa é uma época em que se tornou lugar comum afirmar que a verdade é relativa; em que amplamente se acredita que, se duas pessoas discordam, isso significa apenas que a verdade de uma é diferente da verdade da outra; em que cientistas defendem a tese de que as teorias científicas nada mais são do que “paradigmas” semelhantes a dogmas religiosos (em relação aos quais já é costume dizer que todos são bons, desde que adotados com sinceridade); em que teorias e filosofias políticas são vistas como nada mais do que ideologias em conflito, reflexos superestruturais de infra-estruturas econômicas alternativas, acerca das quais não cabe levantar a questão da verdade; em que a moralidade se tornou uma questão de gosto, levando até um homem da estatura moral de Bertrand Russell a afirmar que sua discordância básica com Hitler se reduzia ao fato de que ele não gostava do que Hitler fazia; em que as linhas demarcatórias entre a arte, de um lado, e, de outro, borrões, ferro velho, lixo e outras excrescências desapareceram, porque as pessoas têm medo de emitir um julgamento estético; em que interpretações de um texto, por mais intuitivas e estapafúrdias que sejam, são acolhidas com a mesma seriedade que as decorrentes de trabalho sério e rigoroso; em que auto-expressão se tornou sinônimo de criatividade; em que os contra-sugestionáveis são tidos como espíritos críticos; em que a noção de verdade, por fim, se admitida, é vista apenas em termos da coerência de um conjunto de enunciados, e não de sua correspondência com a realidade.

As chamadas “Leis da Lógica” – andar dos mais importantes do edifício filosófico da antigüidade grega — são hoje desprezadas. Essas leis são as seguintes:

  • Toda afirmação (inclusive teorias científicas, juízos morais e juízos estéticos), ou é verdadeira ou falsa (Lei do Terceiro Excluído);
  • Nenhuma afirmação, devidamente qualificada, é verdadeira num contexto (temporal, espacial, social, cultural, econômico) e falsa em outro (Lei da Não-Contradição);
  • O que é verdadeiro, é sempre verdadeiro; o que é falso, sempre falso (Lei da Identidade).

Também são desprezadas hoje teses metafísicas e epistemológicas fundamentais da filosofia pré-moderna, como, por exemplo:

  • A primazia da realidade sobre os conceitos. A realidade existe independentemente de nossa percepção e de qualquer conceito que possamos formar sobre ela. Através dos sentidos, o ser humano apreende a realidade, não a constrói (Realismo Metafísico);
  • A primazia dos conceitos sobre as palavras. É o pensamento que condiciona a linguagem, não vice-versa (Realismo Epistemológico).
  • A ciência é objetiva e racional (contra os proponentes da sociologia do conhecimento e da ciência);
  • Existe conhecimento ético: julgamentos morais são verdadeiros ou falsos, e não são meramente emoções e sentimentos disfarçados de conhecimento (contra emotivismo ético, etc.);
  • Existe objetividade na arte (contra expressionismo, etc.)

No período pré-moderno havia uma atitude de abertura para com a busca da verdade e uma convicção básica de que a racionalidade é a melhor arma nessa busca. Tanto essa atitude como essa convicção foram perdidas no período moderno. A maior contribuição que a educação atual pode dar ao nosso mundo é recuperar algumas tendências da educação e da visão de mundo da pré-modernidade.

Artigo escrito em 1 de Agosto de 2008, com base em notas preparadas para a ministração de uma disciplina de Introdução à Filosofia Antiga e Medieval.
Artigo revisado em 3 de Março de 2013


NOTAS

[1] Ph.D. em Filosofia pela University of Pittsburgh, 1972. Professor Titular de Filosofia Política e Filosofia da Educação da UNICAMP de 1974 a 2007, hoje aposentado. Atualmente, Professor Colaborador de Filosofia da Educação no Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Campus de Americana.

[2]   Estou usando o texto traduzido para o Inglês  por Benjamin Jowett e publicado, sob o título Theatetus, em The Library of Liberal Arts, por The Bobbs-Merrill Co., Inc. (Chicago, 1949).

[3]   Theatetus, op.cit., pp.10-11.

[4]   Vide o meu site www.mathetics.net. O conceito de matética foi discutido por Seymour Papert em seu livro The Children’s Machine: Rethinking School in the Age of the Computer. New York: Basic Books. 1993. Há um resumo, elaborado por Susan Ehrenfeld, das idéias apresentadas no livro, em http://mathforum.org/~sarah/Discussion.Sessions/Papert.html.

[5]   Vide a esse respeito Eric A. Havelock, The Literate Revolution in Greece and Its Cultural Consequences (Princeton University Press, Princeton, 1982; tradução brasileira de Ordep José Serra, com o título A Revolução da Escrita na Grécia Moderna e Suas Conseqüências Culturais, publicada por Editora da UNESP e Paz e Terra, São Paulo e Rio de Janeiro, 1996). Cf. também Eric A. Havelock, The Muse Learns to Write: Reflections on Orality and Literacy from Antiquity to the Present (Yale University Press, New Haven and London, 1986).

[6]   Acrescento o qualificativo “verbal” porque é possível comunicar-se remotamente através de sinais não verbais, como, por exemplo, os de fumaça, usados em contextos de comunicação relativamente primitivos.

[7]   Walter Ong, em Oralidade e Cultura Escrita: A Tecnologia da Palavra (Campinas, Papirus, 1982, 1998; tradução do original Inglês por Enid Abreu Dobránszky), p.69, aponta para um importante fato, a saber, que numa cultura em que a escrita foi interiorizada a linguagem escrita afeta e modifica a  fala: “Indivíduos que interiorizaram  a escrita não apenas escrevem, mas também falam segundo os padrões da cultura escrita, isto é, organizam, em diferentes graus, até mesmo sua expressão oral em padrões de pensamento e padrões verbais que não conheceriam, a menos que soubessem escrever”.

[8]   Plato, Phaedrus (The Library of Liberal Arts, Bobbs-Merrill Company, Inc., Chicago, tradução do grego por R. Hackforth). Acerca dessa passagem ver “From Internet to Gutenberg”, magnífica conferência apresentada por Umberto Eco na Academia Italiana de Estudos Avançados na América, no dia 12 de Novembro de 1996, disponível na Internet no seguinte endereço: http://www.italynet.com/columbia/internet.htm.

Transcrito aqui em 3 Março de 2013, com base em um artigo escrito em 1 Agosto de 2008, e que, por sua vez, se baseou em material escrito em 2000. Revisado em 23/05/2016.

Mudança na Educação

É possível mudar a educação para chegar a uma visão da educação como a descrita na “segunda visão”, no post anterior? É possível construir escolas que “concretizem” a segunda visão?

1) Estou convicto de que, dadas as profundas, extensas, e radicais mudanças por que passou o mundo nos últimos 68 anos (desde o fim da Segunda Guerra), as mudanças na educação e na escola terão de ser radicais, não incrementais. Precisamos ter consciência cristalinamente clara disso. Mudanças incrementais (reformas) não vão funcionar. Só uma profunda transformação.

2) No entanto, dada a hegemonia do paradigma vigente (que é uma versão da primeira corrente), acho impossível que a mudança seja abrupta, rápida, revolucionária. Ela terá de ser gradual, mas com um claro sentido de direção, que, a meu ver, é o fornecido pela segunda corrente.

3) Haverá escolas ao final da mudança? Eu espero que não. Sou um defensor radical da visão illichiana de uma sociedade desescolarizada, em que todas as instituições são espaços de aprendizagem. Mas não tenho dúvida de que, no processo de transição, teremos forçosamente que trabalhar com escolas, mas tentando direciona-las para a inovação transformadora.

4) Há exemplos? Acho que poucos, mas sugestivos. Summerhill foi um exemplo. Sudbury, em Framingham, MA, outro. A Escola da Ponte, outro. A própria escola Lumiar, aqui no Brasil, outro.

Quem não conhece bem a experiência da Lumiar pode ter alguma ideia lendo o blog que criei enquanto era presidente do Instituto Lumiar e Paloma Chaves era Diretora Pedagógica desse mesmo instituto e das escolas. Vide:

http://escolalumiar.wordpress.com

Em São Paulo, 3 de Março de 2013

A Educação: Visão Sociológica e Visão Psicológica

Dizem os entendidos em etimologia que o termo “educar”, de onde vem “educação”, tem, possivelmente, duas origens no Latim: o verbo “educare” (palavra paroxítona) e o verbo “educere” (palavra proparoxítona, com o segundo “e” breve, e pronunciado, como dizem os entendidos, “edúquere”). [Compare-se, a esse respeito, o livro The Philosophy of Education: An Introduction, de Harry Schofield (George Allen & Unwin, London, 1972), p. 32. Confesso que foi neste livro que eu encontrei pela primeira vez a discussão dessa questão, isso em 1974, quando o comprei. Schofield denomina de formalista a visão de educação que se baseia em educare, e de naturalista a que se baseia em educere.] A UniOeste tem até uma “e-revista” — Revista de Educação — que se chama “Educere et Educare“].

Não sou linguista nem mesmo um conhecedor profundo do Latim (que, no entanto, estudei durante onze anos, na época em que o Latim é matéria obrigatória do currículo). Portanto, vou apenas relatar o que já li, sem botar a minha mão no fogo em relação à questão etimológica. Meu interesse está nas duas visões (ou “correntes”) que essa tese etimológica incorpora.

Entendo que o primeiro verbo seria mais relacionado com conduzir, liderar, levar para um destino… Viria de sua raiz a expressão que serve de mote aos paulistanos: “non ducor, duco“: “não sou conduzido, conduzo”. Também viria de sua razão o termo “duce“, “condutor”, “líder”, que Mussolini, na forma de “Il Duce“, aplicou a si mesmo.

Entendo que o segundo verbo seria mais relacionado com trazer para fora, extrair, dar à luz…

Independentemente da questão etimológica, reitero, temos aqui os elementos básicos de duas visões, ou correntes, ou paradigmas, ou “metaparadigmas” (coleções de paradigmas de menor amplitude) de educação.

A primeira visão seria mais orientada pela sociologia; a segunda, pela psicologia…

A. A Primeira Visão

A primeira corrente (mais orientada pela sociologia) vê a educação como um processo preservador (vale dizer: conservador), reprodutor, transmissor da cultura: das tradições, dos conhecimentos, dos valores, das habilidades. Seriam esses os “conteúdos socialmente construídos” de que tanto falam os marxistas e outros socializantes — para quem nada é produto do indivíduo em sua individualidade? Curioso que Émile Durkheim, que não era marxista, e que é considerado conservador, tem exatamente essa visão da relação entre a sociedade e o indivíduo.

Educar alguém (e o verbo é transitivo: x educa y) é inicia-lo, introduzi-lo, inseri-lo nessa cultura, para que ele a absorva e assimile.

A educação, portanto, faz parte de uma família de conceitos que inclui socialização, aculturação, inculcação de informações, conhecimentos, valores, e hábitos — até mesmo de ideias na forma de doutrinas: doutrinação.

Émile Durkheim, o príncipe dos sociólogos, deixou claro:

” A educação tem por função suscitar na criança:

a) um certo número de estados físicos e mentais que a sociedade considera como indispensáveis a todos os seus membros;

b) certos estados físicos e mentais, que o grupo social particular (casta, classe, família, profissão) considera igualmente indispensáveis a todos que o formam.

A sociedade, em seu conjunto, e cada grupo social que a constitui, determinam quais são esses ‘estados físicos e mentais'”.

(Vide http://www.ufrgs.br/tramse/pead/textos/durkheim.pdf).

A escola, como agente privilegiado da educação nas sociedades mais desenvolvidas, é, nesta visão, um agente socializador e aculturador. Ela age em nome da sociedade e dos seus diversos grupos sociais para “moldar” (colocar no molde), “formar” (dar forma, colocar na fôrma) as gerações mais novas, para que elas possam corresponder ao que as gerações mais velhas esperam delas.

Aprender, na escola, dentro dessa visão, é absorver e assimilar a cultura da sociedade, ser socializado, ser aculturado.

Avaliar a aprendizagem é medir se, e em que medida, essa absorção e assimilação se deu.

A ação da escola se pauta pelos interesses da sociedade e dos diversos grupos sociais que a constituem. Isso faz dela, nessa visão, uma uma instituição conservadora. (É por isso que sindicatos de professores estão entre os mais conservadores que existem, em qualquer lugar do mundo: em geral se opõem a qualquer tipo de mudança).

B. A Segunda Visão

A segunda corrente (de orientação mais psicológica) vê a educação de forma diferente. Ela vê a educação como um processo centrado na criança. Seu objetivo não é colocar a criança num molde ou numa fôrma, para que assuma a forma do molde ou da fôrma. Seu objetivo é ajudar a criança a descobrir os seus interesses e os seus talentos, aquilo que ela gosta de fazer e que sabe fazer bem — e, a partir daí, ajuda-la a desenvolver esses interesses e talentos e a definir um projeto de vida que, tanto quanto possível, integre seus interesses e seus talentos.

(Vide Sir Ken Robinson, O Elemento-Chave: Descubra onde a Paixão se Encontra com seu Talento e Maximize seu Potencial [Ediouro])

A escola, nessa visão, deve ser um ambiente privilegiado de aprendizagem que garanta à criança um espaço em que possa “praticar a liberdade”: explorar seus interesses, testar os seus talentos, sempre com a ajuda de profissionais que respeitam os seus direitos e a sua liberdade de aprender, e que a instigam, por vezes facilitam, outras vezes problematizam, mas sempre a apoiam, social, emocional e intelectualmente.

Educar, nesse contexto, não é algo que um faz sobre o outro: é algo que um faz com o outro. “Ninguém educa ninguém, tampouco alguém se educa sozinho: nós nos educamos uns aos outros…” (Paulo Freire).

Não importa se os interesses e talentos da criança são inatos ou se apenas aparecem muito cedo na interação da criança com seu meio. O que importa é que as crianças, muito cedo, exibem interesses e talentos próprios, quiçá em combinação única, e que é preciso respeita-los e ajuda-las a desenvolve-los.

Aprender, nessa visão, é desenvolver competências e habilidades, é se tornar capaz de fazer o que antes não se conseguia fazer.

Avaliar a aprendizagem é procurar determinar, pela observação, pela interação, pelo diálogo, em que medida as competências e habilidades estão sendo desenvolvidas, com vistas a aperfeiçoar o processo de desenvolvimento.

E os “conteúdos socialmente construídos”? Eles são “transversalizados” (ao contrário do que propõem os PCN, que foca os conteúdos disciplinares, tanto que seus volumes estão organizados por disciplinas, e sugerem que se transversalize o que importa: competências, habilidades, contexto, etc.). Recorre-se a eles sempre que se mostrarem relevantes ao desenvolvimento das competências e habilidades de as crianças precisam para definir e realizar seu projeto de vida.

C. Conclusão

É isso. Por enquanto.

À filosofia cabe tentar analisar, em discurso de ordem lógica superior (no nível meta), esses diversos discursos pedagógicos. Aqui eles foram apresentados em sua forma “ideal”. Boa parte dos autores e das pessoas mistura as duas correntes. Muitas vezes o resultado da mistura sacrifica a coerência.

Em São Paulo, 3 de Março de 2013

Mobilidade, Redes Sociais e Escola

Ontem à noite (22/11/2012) tive o privilégio e o prazer de participar de um debate sobre “Mobilidade, Redes Sociais e Educação”, nas dependências da Editora Moderna, com transmissão pela Internet (som e vídeo) pela Moderna TV. Ele fez parte das atividades finais do WebCurrículo 2012 da PUC-SP, que são coordenados por Renata Aquino (que agora também faz parte do quadro de colaboradores da Moderna).

Moderado por Neli Mengalli, da Secretaria de Estado da Educação, o debate envolveu (no presencial) apenas minha amiga Alice Carraturi, hoje do Grupo ABC, e a mim. Mas muitos participaram do debate de forma virtual: MSN, Skype, chat, e-mail, etc.  

Vou tentar sistematizar, aqui e agora, o que disse, ontem, de forma não tão sistemática.

Embora não tenha tido nenhuma influência na escolha do tema, gostei bastante dele, porque me permitiu encaixar algumas pecinhas do quebra-cabeça “tecnologia e escola” que tem me desafiado por mais de 30 anos (desde 1980, quando asumi a direção da Faculdade de Educação da UNICAMP e comecei a me envolver nos projetos de uso dos computadores na aprendizagem, coordenados pelos Profs. Fernando Curado, do Instituto de Computação, e Raymond Paul Shepard, meu colega da Faculdade de Educação).

Há tempo que brinco com uma ideia: a de que as pessoas (e até as instituições) em geral são razoavelmente boas para detectar quais são seus inimigos. Uma pessoa casada que entre numa festa com seu cônjuge em geral é capaz de identificar, em pouco tempo, de maneira quase intuitiva, quem ali pode representar uma ameaça ao seu relacionamento. Um liberal identifica socialistas por pouquíssimos sinais – e, talvez, vice-versa. Trazendo essa reflexão para o assunto tema do debate, professores e escolas identificam com surpreendente eficiência quais são seus principais inimigos, especialmente quando a questão é tecnologia. E mobilidade e redes sociais claramenten estão entre esses inimigos.

É desnecessário insistir que, ao falar em mobilidade e redes sociais, estamos tratando de realidades que, hoje, existem por causa das tecnologias digitais, centradas no computador, que começaram a surgir a partir da invenção do ENIAC, apresentado ao mundo em Fevereiro de 1946.

Então vejamos.

I.  A MOBILIDADE

O que é mobilidade?

No sentido em que o termo nos interessa aqui, mobilidade não é, pura e simplesmente, a capacidade de se mover de um lugar para outro, ou de se locomover. Isso, até certo ponto, nossas pernas, em bom estado de funcionamento, já tornam possível — e as tecnologias de transporte, envolvendo a bicicleta, a moto, o carro, o ônibus, o metrô, o trem, o navio, o avião, estendem e ampliam essa capacidade. Outros animais, como o cavalo, também fazem isso.

Mobilidade, no sentido em que o termo nos interessa aqui, é a capacidade de fazer algo a partir de qualquer lugar (anywhere), em qualquer momento (anytime). Ou seja, a capacidade de fazer algo independente de onde estamos e da hora (ou do dia). No caso da educação, mobilidade é “lifelong, anytime, anywhere learning“: a possibilidade de aprender sempre, a qualquer hora, em qualquer lugar, ao longo da vida toda. Ou a educação ubíqua, da hora em que a gente nasce até o momento da nossa morte, amém.

Essa mobilidade hoje é viabilizada pelas tecnologias digitais móveis, em especial os smart phones, os tablets e os notebooks — equipamentos que são todos parentes muito próximos uns dos outros e do computador digital.

Num passado remoto (digamos por volta de 1950, quando entrei na escola, a televisão chegou ao Brasil e nossa seleção perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai em pleno Maracanã), nossa mobilidade (no sentido definido) era mínima.

Para fazer um telefonema de Santo André (onde eu morava) para Campinas (onde minha avó materna morava) minha mãe tinha de se dirigir à Central da Companhia Telefônica Brasileira – CBT (e só havia uma central em Santo André), pedir à telefonista que fizesse uma ligação para a casa da minha avó (que, mais bem de vida, porque meu tio trabalhava na CBT, tinha telefone em casa), e esperar – às vezes mais de duas horas. Não havia micro ondas, os circuitos eram poucos, quase nada era automático, e a qualidade da comunicação, uma vez estabelecida, péssima, cheia de ruídos esquisitos. Naquela época era inconcebível – inimaginável mesmo – que pudéssemos fazer um telefonema para qualquer lugar do mundo enquanto andávamos pela rua (ou, pior, enquanto dirigíamos um carro – mas eu nem sabia dirigir então: pouca gente tinha carro naqueles anos que antecederam o governo JK).

Com a expansão da rede de telefonia (meu tio, Anello Sanvido, teve participação nesse processo, instalando estações de micro ondas na serra do Japi, na região de Cabreúva), e a consequente popularização dos telefones fixos, conseguimos uma linha em casa e, então, podíamos chamar minha avó a partir de casa, sem precisar ir ao centro de Santo André. Mas, inicialmente, ainda precisávamos usar os serviços da telefonista. Depois surgiu a “discagem direta” e, ainda depois, a “discagem direta à distância”, o famoso DDD que, como sigla, ainda está conosco até hoje. O DDI, “discagem indireta internacional”, só veio muito depois.

Mas o telefone fixo, apesar de ter facilitado muito a nossa vida, não nos deu mobilidade no sentido em que o termo está sendo usado aqui. Esta só chegou com o telefone móvel, aquilo que em Portugal se chama de telemóvel e aqui se chama de celular. Com ele, podemos não só fazer telefonemas para qualquer lugar do mundo (inclusive para telefones fixos) a partir de qualquer lugar (anywhere) e a qualquer momento (anytime), como também podemos, usando sua versão dita “esperta” ou “inteligente” (smart), e também a partir de qualquer lugar e a qualquer hora, enviar e receber mensagens instantâneas de texto, até mesmo mesmo com fotos, aceder à Internet, nos orientar no espaço (através do GPS), consultar endereços, fazer anotações (que são imediatamente sincronizadas com nosso computador principal), saber que horas são (o celular substituiu os relógios de pulso), ser notificados de eventos (o celular substituiu as agendas e os relógios despertadores),  ouvir música (ou rádio), tirar fotos (que são imediatamente enviadas para as redes sociais), baixar filmes e assistir a eles, etc.

O celular é a tecnologia digital símbolo da mobilidade.

Com tantos recursos, não é de surpreender que a maioria das escolas proíba seus alunos de usa-los dentro delas — ou mesmo de traze-los para dentro delas. Como disse atrás, os professores e as escolas são rápidos e eficientes para identificar seus inimigos… (Mas mais sobre isso adiante).

II. AS REDES SOCIAIS

Ontem no debate alguém disse (como Jesus um dia disse acerca dos pobres) que “as redes sociais sempre as tivemos conosco”. Sem dúvida. A família é uma rede social, a comunidade outra, e assim vai. O fenômeno que interessa aqui são as redes sociais possibilitadas e viabilizadas pela tecnologia digital, que nos permitem entrar em contato com pessoas de qualquer lugar do mundo e interagir, conversar, dialogar, discutir e colaborar com elas — além, naturalmente, de trocar informações, fotos, vídeos, etc.. Combinadas com as tecnologias digitais móveis, podemos fazer isso a partir de qualquer lugar e a qualquer hora…

O FaceBook disponível em um smartphone potente, como o iPhone ou seus concorrentes que usam Android ou Windows, é o símbolo desse tipo de rede social.

Novamente, não é de surpreender que a maior parte das escolas proíba seus alunos de usar o FaceBook dentro da escola a partir de seus celulares — que em regra também são proibidos. Nos computadores da escola disponíveis para os alunos o FaceBook não raro está bloqueado. Como disse antes, os professores e as escolas são fantásticos em sua capacidade de identificar seus inimigos…. (Ainda falarei mais sobre isso adiante).

III. A ESCOLA

O tema de debate era, em última instância, a educação. Parece-me não haver dúvida de que a mobilidade e as redes sociais são aliadas poderosas de alguns tipos de educação — como, por exemplo, dos vários tipos de educação não-formal, que têm lugar  fora da escola, através das interações diversas que mantemos uns com os outros. Mas não era esse tipo de educação que os organizadores do debate tinham em mente: eles estavam pensando na educação formal, isto é, na educação escolar — vale dizer, na escola. Por isso, nesta seção vou falar apenas dela.

Parece-me que, hoje, as pessoas, em geral, inclusive os professores, quando estão fora da escola, dão grande valor à mobilidade e à interação que as redes sociais viabilizam e facilitam.

Afinal de contas, no Brasil há mais telefones celulares do que gente. A mobilidade é uma das expressões da nossa liberdade. Mais do que isso: ela nos garante um espaço de liberdade totalmente nosso, próprio, privado… Por isso muita gente protege seus celulares com senhas complicadas e não gosta que os outros metam o bedelho neles. (Muitos gostam de, de vez em quando, vasculhar os celulares de seus namorados, amantes e cônjuges, para verificar se, na liberdade privada que os celulares lhes proporcionam, eles não violaram seus compromissos afetivos, um telefonema, um torpedo, um e-mail sendo o registro da indiscrição…).

No tocante às redes sociais, nada menos do que um bilhão de pessoas (ou seja, cerca de 15% dos habitantes do mundo) tem uma conta ativa em apenas numa delas, o FaceBook: isto é, mantêm ali um perfil e uma linha do tempo que são regularmente atualizados com informações, check-ins, fotos, vídeos, clips de vários tipos, relatórios de jantares e viagens, declarações de amor, etc. As redes sociais estendem e ampliam os limites do nosso mundo. Há gente que se apaixona por uma pessoa que encontrou no FaceBook, que mora do outro lado do mundo, e que, muitas vezes, tem uma língua materna totalmente diferente e uma cultura que… Deus me livre! (Peço desculpas aos multiculturalistas e outros relativistas…).

A escola, em contraste, simplesmente não gosta dos celulares (mobilidade) e do FaceBook (redes sociais). Por isso os proíbe dentro da escola, com pleno apoio dos professores. As razões para esse fato são muito simples e fáceis de compreender. Passo a resumi-las em seguida.

a) A Escola, a Mobilidade, e a Liberdade

A escola talvez seja, em nossa sociedade, a instituição menos sensível ao nosso deseja e à nossa necessidade (hoje imperiosos) de mobilidade — e menos sensível ao nosso desejo e à nossa necessidade de liberdade.

Primeiro, a escola é obrigatória numa faixa etária que cada vez se torna mais ampla. No início, a escola não era obrigatória. Depois ficou obrigatória dos sete aos dez anos. Depois, dos sete aos quatorze. Hoje, aqui no Brasil, dos seis aos quatorze. Há gente já lutando para que a obrigatoriedade se estenda dos seis aos dezessete, abrangendo todo o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. E há quem lute pela obrigatoriedade da Educação Infantil.

Além disso, o tempo de permanência diária na escola também tem aumentado. Quando eu frequentei a Escola Primária, no início da década de 50, eram três horas (das quais cerca de meia hora, no mínimo, se perdia com entrada, recreio e saída). Depois passou para quatro, para cinco… Há gente já lutando para que as crianças em idade escolar fiquem na escola nada menos do que o dia inteiro, em período integral — e que se reduza, na escola, o tempo que seria “desperdiçado”, isto é, ou passado fora da sala de aula ou, dentro da sala de aula, usado para qualquer outra coisa que não seja aula…

Mas isso não basta: há gente que acha que é preciso aumentar a quantidade dos dias letivos. Eles já foram 160, passaram para 180 e, depois, para 200, onde estão hoje… E há quem lute para que cheguem a 220, quem sabe 245 (para que a gente, segundo consta, ultrapasse o Japão…).

A escola está virando uma prisão com uma “sentença de doze anos” (título de um livro sobre a escola: The Twelve-Year Sentence) em que, diferentemente das prisões de regime aberto, as crianças só não vão dormir lá… E isso durante o período mais bonito de suas vidas, dos seis aos dezessete anos, em que elas estão no auge de sua energia, de sua curiosidade e de sua capacidade de aprender… Período em que poderiam estar fruindo a vida e, ao mesmo tempo,  aprendendo, fora da escola, uma enormidade de coisas que despertam sua curiosidade e o seu interesse e que lhes serão extremamente úteis no futuro!

E a escola acredita que os alunos, seus detentos, não têm absolutamente nada que contribuir para ela além de seus corpos e, espera ela, a atenção de suas mentes… Por isso não lhes dá nenhuma liberdade de decidir o que farão, uma vez dentro da escola, e o que aprenderão, durante seu tempo de confinamento…

A escola não admite nenhuma mobilidade e liberdade na aprendizagem de seus alunos. Se os alunos ficassem amarrados às carterias, com esparadrapo fechando suas bocas, muita escola acharia isso ótimo. (Muitos dirão que exagero aqui…). 

A escola determina que, para fazer o que ela quer que façamos e aprender o que ela deseja que aprendamos, saiamos de nossas casas, em horários às vezes madrugatícios, para ir até ela (da mesma forma que em 1950 tínhamos de sair de nossas casas para ir até a Central Telefônica para ligar para a avó), em horários rigidamente fixados (para alegria de muitos alunos, depois de dez minutos de atraso eles são proibidos de entrar). Quando o nosso tempo diário lá termina, somos colocados para fora (também para grande alívio dos alunos). Depois de passar um certo número de anos lá, também somos colocados para fora (graduamos ou somos jubilados, por exemplo).

Felizmente ninguém ainda inventou a moda de que, porque se admite, hoje, que a educação dura a vida inteira, a gente deva passar a vida inteira na escola…

E a escola não deixa os alunos, enquanto estão lá dentro, manter contato com o mundo exterior, com a vida que existe lá fora, através de seus celulares e das redes sociais.

b. A Escola, Estruturas Hierárquicas Piramidais e Redes Horizontais Flat

Se desconsiderarmos o Exército e a Igreja Católica, a escola (em especial a pública) talvez seja a estrutura organizacional mais hierárquica, numa forma piramidal, que temos no Brasil (quiçá no mundo): um ministro da Educação lá em cima; vinte e sete secretários estaduais da educação, um em cada unidade da Federação; diretores regionais (quase uma centena no Estado de São Paulo); diretores de escolas; professores. Paralelamente à cadeia de comando, propriamente dito, há órgãos ou pessoas com funções normativas ou de assessoria: um Conselho Nacional da Educação, vinte e sete Conselhos Estaduais da Educação, Conselhos Municipais da Educação (nem todos os municípios), e, dentro da escola, Coordenação Pedagógica (às vezes ramificada em várias).

Na sala de aula, o professor é a autoridade maior. Ali naquele pedaço do sistema ele manda.

Na extremidade, o aluno, que não apita nada sobre nada. Nem sobre que roupa ele usa para ir à escola nem sobre se pode ir ao banheiro da escola quando ele, digamos, está precisando (ou simplesmente querendo tomar um ar — num Congresso a gente muitas vezes sai da sala só para isso).

As redes são estruturas flat, achatadas, mais horizontais do que verticais. Embora uma rede social como o FaceBook tenha um comando, que define as características da rede e as normas para sua utilização, em princípio a participação na rede é livre: torna-se membro quem quer, e o membro escolhe ou aprova os seus contatos (chamados erroneamente de “amigos”) e interage com eles quando e como desejar. Há participantes que são muito seletivos em relação aos seus contatos, outros que são muito liberais, aceitando quase qualquer pessoa que queira participar de sua “rede pessoal de contatos”. Há participantes que postam muito e aqueles que raramente põe a cara na rede. Para cada postagem sua, você pode escolher quem vai recebe-la ou ve-la. Os relacionamentos são horizontais, não piramidais, não havendo cadeia de comando.

As redes sociais são, portanto, o oposto da escola, da mesma forma que a mobilidade também o é.

c. Enfim…

A mobilidade (através principalmente dos celulares) e as redes sociais (hoje usadas em boa parte através de celulares) estão aqui. Elas são nossa principal forma de contato com a tecnologia hoje em dia.

As escolas também estão aqui — e há bem mais tempo. Todos nós passamos por elas. Embora haja computadores (em geral desktops) na maior parte das escolas hoje, os celulares e as redes sociais ainda são em grande parte proibidos lá dentro.

É esse o quadro.

É bom que haja clareza sobre esse quadro: trata-se de uma batalha. Os professores e as escolas sabem disso. Sabem que, se a escola perder essa batalha, ela, apesar de sua ubiquidade, ficará com os dias contados. Pelo menos na forma em que hoje a conhecemos.

A maior parte dos professores e das escolas, embora saibam disso, não admitem publicamente que o sabem. Seu discurso público é de que é preciso admitir a tecnologia na escola “mas com calma e bom senso”. A virtude, dizem, está no meio: em deixar a tecnologia entrar na escola, mas no ritmo da escola e só até certo ponto, sendo direito e obrigação da escola regulamentar o seu uso para que ele não acabe por descaracterizar a escola.

Ana Teresa Ralston, ex-gerente de educação da Microsoft e diretora de tecnologia da Abril Educação, uma vez disse, numa discussão sobre tecnologia, redes sociais e a escola, que esta (a escola) tem uma estratégia terrivelmente eficiente: deixar que aquilo que inicialmente não é escola entre na escola, mas engolir o que é novo e diferente, digeri-lo, e regurgita-lo na forma de escola… Em outras palavras: a escola aparentemente não resiste, ela apenas domestica, remove as presas e as garras, amansa, torna o bicho inofensivo, incapaz de atacar…

Será que é disso que precisamos? De uma tecnologia domesticada e amansada? Ou será que precisamos de uma tecnologia que desafia e subverte, que sugere novos caminhos, que obriga a escola, esse resquício semi-fabril da Sociedade Industrial, a se reinventar?

IV. “HOW PEOPLE LEARN” (título de um livro: Como as Pessoas Aprendem)

A pressão cresce para que a sociedade como um todo se torne educativa em vez de simplesmente ampliar o raio de ação da escola: sociedade educativa e desescolarizada

Ivan Illich, em 1971, lançou o brado pela desescolarização da sociedade (Sociedade sem Escolas, talvez a maior crítica à institucionalização da educação em escolas) — em favor da ubiquidade de uma função educacional em todas a vida social…

Paulo Freire, amigo de Illich, nos alertou para o fato de que ninguém educa ninguém, mas tampouco alguém é capaz de se educar sozinho: todos nós nos educamos uns aos outros, disse ele, através da interação, da conversa, do diálogo, da discussão, com a mediatização do mundo (não da escola).

Pesquisadores altamente credenciados pesquisam e nos dizem “como as pessoas aprendem”. Em seu livro How People Learn John Bransford, hoje da Universidade do Estado de Washington, nos Estados Unidos (que fica pertinho da Microsoft), nos mostra como crianças aprendem: não através do ensino, mas vendo os outros fazer coisas que lhes parecem interessantes, decidindo tentar fazer essas coisas, tentando, falhando, tentando de novo, recebendo apoio e ajuda, tentando de novo até conseguir, e, em alguns casos, até alcançar o nível de “alto desempenho” (high performance). “Ninguém educa ninguém”. Ninguém precisa nos ensinar a aprender (um contrassenso). Nascemos sabendo como aprender. E nascemos sabendo que precisamos dos outros para aprender. Mas não precisamos que nos ensinem: precisamos que nos ajudem, apoiem, instiguem, facilitem às vezes, problematizem outras vezes, que sejam nossos coaches, nossos mentores, quem sabe de vez em quando nossos conselheiros e orientadores… Mas a aprendizagem é nossa, bem nossa, só nossa, não podemos deixar que continuem tentando a rouba-la de nós.

Por que precisamos nos educar?

Precisamos nos educar porque (diferentemente de algumas outras espécies animais) nós, humanos, nascemos basicamente inacabados, incompletos, totalmente incapazes de fazer qualquer coisa, a não ser aprender… Se alguém não cuidar da gente, por algum tempo, não sobrevivemos. Enquanto cuidam de nós, nós cuidamos de aprender, com aqueles nos rodeiam.

Aprender não é assimilar ou absorver informações e conhecimentos que nos são repassados ou transmitidos pelas gerações mais velhas. Aprender é construir capacidades, tornar-se capaz de fazer coisas que antes não conseguíamos fazer. Aprender é, em outras palavras, desenvolver competências e habilidades – é nos desenvolver a nós mesmos, com a ajuda dos semelhantes.

E para que nos educamos?

Educamo-nos para que não nos tornemos parasitas permanentes, dependendo o tempo todo dos outros, sejam eles os pais, a família ou o governo. Educamo-nos para nos tornar, primeiro independentes, mas, em última instância, livremente interdependentes. Aprendemos para alcançar nossa realização (vale dizer, felicidade, ou eudaimonia, como diziam os gregos) como pessoas, como profissionais, como cidadãos.

O foco da educação é o futuro, não o passado.

Para saber o que precisamos aprender é preciso definir aonde queremos chegar com o nosso desenvolvimento. Essa definição, felizmente, não é necessariamente feita pela natureza (como no caso de algumas espécies animais) nem pelos outros (a menos que os deixemos fazer isso por nós): ela é feita em grande medida por nós. Cada um deve decidir por si próprio (o que não quer dizer que seja sem ajuda, apoio, orientação e aconselhamento) qual é o seu projeto de vida, o que quer fazer de sua vida, qual é o seu futuro…

A definição do que devemos aprender depende dessa decisão prévia. É verdade que há algumas competências e habilidades que, numa sociedade complexa e desenvolvida como a nossa, todos devem desenvolver: dominar a língua materna, em sua forma oral e escrita, comunicar-se efetivamente com os outros, argumentar, ser capaz de defender os próprios pontos de vista e as linhas de ação escolhidas e convencer os outros de que são, conforme o caso,  verdadeiros, bons, dignos, justos, belos, sustentáveis…

E é preciso reconhecer que somos diferentes uns dos outros. Por isso, devemos aprender coisas diferentes, e devemos aprende-las em ritmos e de maneiras diferentes…

A camisa de força da escola que quer que todos aprendam a mesma coisa, na mesma idade, do mesmo jeito, se um dia funcionou na era industrial em que os parâmetros eram a padronização e a massificação (padronizar para massificar), não vai mais funcionar numa sociedade em que as pessoas são livres, podem fazer o que querem, onde e quando quiserem, interagindo com seus semelhantes e respeitando seus iguais direitos. Hoje o foco é  a personalização da educação — e a tecnologia pode nos ajudar a alcançar escala nessa personalização (ou “customização”), sem precisar recorrer à padronização e à massificação.

Nesse quadro, ou a escola se reinventa, ou ela, sempre acostumada a devorar, digerir e domesticar os desafios, desta vez será engolida por eles. Da mesma forma que os tutores pessoais privados foram um dia por ela engolidos.

 

Em São Paulo, 23 de Novembro de 2012.

Steve Jobs (1955-2011)

Post que publiquei no Blog das Editoras Ática e Scipione em 10 de Outubro de 2011, no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/steve-jobs.

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Talvez nem seja necessária uma justificativa para escrever sobre Steve Jobs, neste momento em que ele acaba de partir, num blog em que trato essencialmente de educação e tecnologia. Ainda assim, esboço uma justificativa: em seu ciclo inicial, a empresa que Jobs fundou considerou a educação o seu principal mercado – entre 1977 e 1984, por exemplo, o Apple II (principal produto da casa) provocou o surgimento de uma quantidade enorme de softwares educacionais. Ao longo de sua trajetória, a Apple fez parcerias com um grande número de Distritos Educacionais na Califórnia (onde estava sua sede) e em outros estados; implantou, ainda, descontos substantivos para professores e alunos (como, de resto, faz até hoje).

Apple Jobs Silhouette

Apple Crying

Fotos: Divulgação/Apple

Meu primeiro contato com um microcomputador remonta a estes tempos: conheci um Apple II por volta de 1979, através de um colega da Unicamp, especialista em Linguística Computacional (algo que eu nem sabia que existia). O equipamento em si me chamou a atenção, mas quando ele me demonstrou as aplicações da linguagem de programação ProLog (Programming in Language) para o aprendizado de Lógica, eu me encantei. Ali na hora tomei a decisão de comprar um equipamento daqueles quando pudesse… Até hoje, cerca de 30 anos depois, ainda guardo o meu clone brasileiro do aparelho, fabricado pela Unitron.

Depois travei contato com a linguagem de programação Logo, desenvolvida no MIT – Massachusetts Institute of Technology, por Seymour Papert, para uso na educação, em especial pelas crianças. Havia, para o Apple II, pelo menos duas implementações de Logo: a da LCSI – Logo Computer Systems International, chamada Apple Logo, de Toronto, e a da Terrapin Logo, de Cambridge (MA), que era, segundo constava, a implementação mais próxima das diretrizes de Papert.

Enfim, apenas estas breves linhas justificam minha decisão de escrever sobre Steve aqui. Mas há mais. Muito mais. Em seu discurso de paraninfo na Universidade de Stanford, em 12 de junho de 2005, Steve diz uma série de coisas importantes em que eu venho insistindo neste blog. Vou especificar algumas.

A primeira é que a escola às vezes atrapalha – e quando ajuda, frequentemente o faz sem querer. No discurso, Jobs diz que aos 17 anos foi enviado para a universidade (Reed College, uma instituição realmente cara), conforme promessa solene que seus pais adotivos fizeram à sua mãe biológica. O rapaz cursou apenas um semestre e desistiu. Ele explica:

“Depois de seis meses, eu não conseguia ver nenhum valor no que eu estava fazendo. Eu não tinha a menor ideia do que eu queria fazer com a minha vida nem de como a universidade poderia me ajudar a descobrir. E eu estava lá gastando toda a poupança que meus pais haviam feito durante sua vida inteira. Assim, decidi abandonar o curso na confiança de que as coisas de alguma forma iriam dar certo. Foi bastante assustador, na época, mas, olhando no retrovisor, aquela foi uma das melhores decisões que tomei em toda minha vida.”

Steve desistiu do curso, mas ficou durante um ano e meio rodando pelo campus universitário. Sem dinheiro, dormia em colchões no chão do quarto de seus amigos. Recolhia e devolvia garrafas para receber cinco centavos por cada uma, assim ganhando o dinheiro com o qual se alimentava (em geral, mal). No fim de semana andava mais de dez quilômetros para ir a um templo Hare Krishna para ganhar sua única refeição decente da semana.

O que fazia ele perambulando pelo campus?

“Tendo desistido da Universidade, eu não tinha a obrigação de frequentar as aulas de nenhum curso que não me interessava, e podia aparecer em aulas de cursos que pareciam interessantes. (…) Isso eu amava fazer. E muito daquilo em que tropecei enquanto seguia minha curiosidade e intuição, acabou por se tornar inestimável mais tarde em minha vida.”

Uma universidade sem dúvida é um lugar onde existem coisas interessantes. Às vezes é preciso procurar bastante, mas no final a gente geralmente acha. Steve achou. O quê? Um curso de caligrafia!

“O Reed College naquela época oferecia o que possivelmente era o melhor curso de caligrafia do país. Todos os posters existentes no campus, toda etiqueta de gaveta, tudo era maravilhosamente caligrafado à mão. Porque eu havia desistido do meu curso e não tinha de frequentar as aulas regulares, decidi fazer o curso de caligrafia para aprender a escrever de maneira assim tão linda. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre a variação no espaço entre diferentes combinações de letras – tudo aquilo que torna a melhor tipografia um lugar fantástico. Era lindo, histórico, artisticamente sutil de uma forma que a ciência não tem jeito de capturar. E eu achei tudo fascinante. Mas nada daquilo parecia, nem mesmo de longe, ter qualquer utilidade para minha vida.”

O belo e o útil… A caixa de brinquedos e a caixa de ferramentas de Rubem Alves. Aqui está a diferença que Edgar Morin apontou, entre a prosa, que nos permite dizer o que precisamos ou queremos dizer, e a poesia, que nos dá l

Só muito mais tarde Steve descobriu quão útil aquele curso de caligrafia lhe foi, quando descobriu a importância do design nos produtos da Apple: o design limpo (clean), simples, atraente, lindo mesmo, em que forma e função se integram. Foi por isso que decidiu dar uma interface gráfica ao Macintosh, com tipos gráficos na tela que faziam lembrar o seu curso de caligrafia, deixando para trás, definitivamente, aquelas letras feias com espaço fixo entre elas que apareciam na tela dos outros computadores. Assim, Reed College acabou sendo útil para Steve – embora sem querer…

Agora, a explicitação da segunda grande lição que Steve nos dá no seu discurso de paraninfo. Ele já havia mencionado que, no seu único semestre como aluno regular da Universidade, “não tinha a menor ideia do que eu queria fazer com a minha vida nem de como a universidade poderia me ajudar a descobrir”, mas adiante diz: “Eu tive sorte: descobri o que eu amava fazer cedo na vida. Woz [Steve Wozniak] e eu fundamos a Apple na garagem da casa dos meus pais quando eu tinha 20 anos”.

Três anos depois de perceber que não tinha a menor ideia do que queria fazer da vida, Steve descobriu que queria projetar computadores. E projetou. O primeiro (o Apple I) e o segundo (o Apple II) não foram lá uma beleza em termos de design, mas este último se tornou um sucesso, mesmo assim. Foi ele que me atraiu (também) para a área de informática.

A lição de Steve é que o sucesso eventualmente chega para quem ama o que faz. E que quanto mais cedo a gente descobre o que é que a gente ama fazer, maiores são as chances de sucesso. Como é que Steve descobriu o que é que ele amava fazer? Ele não nos diz.

Ele reconhece que, quando desistiu da universidade, o fez por si mesmo e por consideração aos pais: estava perdendo seu tempo ali e desperdiçando o dinheiro deles. Sentiu-se perdido. No entanto, não perdeu a confiança de que “as coisas de alguma forma iriam dar certo”. Sabia que em algum momento descobriria o que queria fazer da vida. “A fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de coisas que se não veem”, já dissera São Paulo.

Foi só em retrospectiva que Steve conseguiu “unir os pontos” e enxergar com clareza como sua vida posterior se ligou com aqueles acontecimentos dos seus 17, 18 anos.

“Ninguém é capaz de conectar os pontos do passado para o futuro. Mas é possível conectá-los do presente para o passado, olhando no retrovisor. Assim, lá atrás, você tem de confiar que os pontos vão de alguma forma se conectar no futuro. Você precisa confiar em algo – seu instinto, seu destino, seu carma, seja o que for. Esta maneira de ver as coisas nunca me deixou na mão, e fez toda a diferença em minha vida.”

Steve não nos conta como descobriu o que amava fazer na vida, mas nos revela onde está a chave do segredo.

Às vezes pode parecer que as coisas não vão dar certo. Em 1985, Steve foi mandado embora da companhia que ele mesmo havia criado. Parecia que um desastre havia acontecido no caminho de seu encontro com o seu destino.

“Eu não conseguia ver, então. Mas as coisas acabaram acontecendo de tal maneira que ter sido mandado embora da Apple foi a melhor coisa que jamais podia ter acontecido comigo. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser novamente um iniciante, agora menos certo acerca de tudo. Esse fato me libertou e me permitiu entrar num dos períodos mais criativos de minha vida.”

A insustentável leveza de ser capaz de começar de novo, sem o peso do passado. Mas, diz ele, não foi fácil:

“O remédio foi terrível, mas creio que o paciente precisava dele. Às vezes a vida acerta uma tijolada na cabeça da gente. Nunca perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me manteve em pé, disposto a continuar, foi o fato de que eu amava o que eu fazia. Você tem de encontrar o que você ama. Isso é verdade em relação ao seu trabalho, mas é verdade também em relação aos seus amores. Seu trabalho vai preencher um espaço grande de sua vida, e o único jeito de ficar satisfeito com o seu trabalho é fazendo aquilo que você considera um trabalho excelente. E o único jeito de fazer um trabalho excelente é amando o que você faz. Se você ainda não descobriu o que você ama fazer, continue procurando. Não se acomode. Como tudo o que diz respeito ao coração, você vai saber quando você encontrar aquilo que você ama fazer. E, como em qualquer relacionamento amoroso genuíno, as coisas só ficam melhores, a partir daí, com o passar do tempo. Assim sendo, continue a procurar, até que você ache. Não se acomode.”

É porque ele fazia o que amava fazer que Steve foi capaz de construir tantos produtos tão desejados por nós hoje. No entanto, em outro lugar, não no discurso de paraninfo, ele demonstra que o que o movia a fazer esses produtos não era um desejo altruísta de agradar o consumidor, nem mesmo o desejo egoísta de ganhar dinheiro: era a satisfação, talvez mais egoísta ainda, de saber que ele fez simplesmente o melhor que podia — e que podia fazer coisas da mais alta qualidade e beleza.

Eis o que disse, logo depois de lançar o Macintosh:

“Sabemos que o Mac vai vender zilhões, mas nós não o construímos para ninguém mais: nós o construímos para nós mesmos. Nós, que o construímos, seríamos o grupo que iria julgar e decidir se o Mac era fantástico ou não. Nós não iríamos sair de onde estávamos para fazer pesquisa de mercado. Nós simplesmente queríamos construir a melhor coisa que fôssemos capazes de construir.”

Em outras palavras, o Mac poderia ser um fracasso de mercado (como o Lisa, antes dele, o foi) – mas esse fato não os levaria a considerá-lo menos fantástico. Eis outra citação magnífica:

“Quando você é um carpinteiro fazendo uma linda cômoda, você não usa aglomerado na parte de trás, mesmo que aquela parte vá ficar grudada na parede e ninguém jamais a veja. Você sabe que a parte de trás da cômoda estará lá, em aglomerado. Para que você possa dormir bem à noite, a estética, a beleza, a qualidade têm de ser levadas ao extremo, em todos os aspectos”.

Termino com duas citações que me parecem ser as melhores de Steve, estas novamente retiradas do discurso de paraninfo:

“O tempo de sua vida é limitado. Por isso, não o desperdice vivendo uma vida ditada por terceiros. Não se deixe pegar na armadilha do dogma que lhe diz para viver com o resultado dos pensamentos de outrem. Não deixe que o barulho das opiniões dos outros abafe o som de sua própria voz interior. E, mais importante de tudo, tenha coragem para seguir a sua intuição, o seu coração. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário.”

A segunda citação nos dá uma pista acerca do que pode ter levado Steve a encarar a vida tão a sério e a descobrir, depois de sair da Universidade, aos 17 anos, mas antes dos 20 anos, o que queria fazer de sua vida.

“Quando eu tinha 17 anos, li uma citação que dizia algo assim: ‘Se você viver cada dia como se fosse o último dia de sua vida, um dia qualquer você certamente estará certo’. Essa citação causou profundo impacto sobre mim. Desde então, nos 33 anos que decorreram de lá para cá, eu me olho no espelho toda manhã e me pergunto: ‘Se hoje fosse o último dia da minha vida, eu iria querer fazer o que estou prestes a fazer hoje?’ E sempre que a resposta foi ‘não’ por um número demasiadamente grande de dias seguidos, eu soube que precisava mudar alguma coisa”.

Que bela lição de educação. Que bela lição de vida. Estou convicto de que Steve só conseguiu nos legar essas lições porque abandonou a universidade.

Em São Paulo, 10 de Outubro de 2011, transcrito aqui em 11 de Outubro de 2011

O Desafio da Formação do Professor na Sociedade da Informação

Post que publiquei no Blog das Editoras Ática e Scipione em 03 de Outubro de 2011, no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/o-desafio-da-formacao-do-professor-na-sociedade-da-informacao.

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No contexto atual da sociedade da informação – em que o professor não é um especialista em determinada área de conteúdo curricular, mas, sim, um facilitador da aprendizagem –, é possível questionar: pode alguém que não é um especialista em Física facilitar o aprendizado da Física, por exemplo?

1. A sociedade industrial, a divisão do trabalho e a especialização

A sociedade industrial surgiu, no fim do século 17 e início do século 18, com a divisão do trabalho. Adam Smith, em A Riqueza das Nações, publicado em 1776, deixa isso bastante claro. Com a divisão do trabalho foram inventadas as especialidades e, acompanhando-as, a figura do profissional especializado.

Até há cerca de cinquenta anos, éramos uma sociedade tipicamente de especialistas. Os generalistas eram mal vistos. Mesmo na filosofia, onde os profissionais em geral dão pitaco sobre toda e qualquer coisa, a especialização começou a surgir. O indivíduo não era mais filósofo, puro e simples. Ele passou a ser filósofo da ciência, da política, da religião… Na filosofia da ciência, subespecializações surgiram: filosofia das ciências naturais, filosofia das ciências humanas etc. Dentro da filosofia das ciências naturais, filosofia da física – quando não da mecânica quântica e de outras subáreas.

A situação ficou tão séria que o maior filósofo do século 20, Karl Popper, ele próprio um generalista inveterado (dentro e fora da filosofia), sentiu-se na obrigação de advertir que, em outras áreas, a especialização pode ser um pecado venial necessário e, portanto, desculpável, mas na filosofia é um pecado mortal, imperdoável como tal…

Na sociedade industrial o ideal (colocando a questão no plano caricatural) passou a ser saber cada vez mais sobre cada vez menos. Seus profissionais foram, aos poucos, se tornando ultraespecializados. Lembro-me de ter visto, na Unicamp, uma tese de uma aluna que se especializava em Letras (subespecialização Literatura, “sub-subespecialização” Literatura Brasileira) que tinha um título mais ou menos assim: “O uso da partícula ‘ora’ na prosa de Guimarães Rosa”. Tese mais especializada do que essa é difícil de imaginar.

2. A escola da sociedade industrial

Como mais que sabido, a escola moderna surgiu com a sociedade industrial. Inicialmente, ela era pequena e simples, seus cursos não duravam mais de cerca de quatro anos (Escola Primária ou Elementar) e os professores eram polivalentes. O professor polivalente é um profissional especializado, quando comparado com outros profissionais: o médico, o engenheiro, o advogado. Mas, dentro da área da educação, o professor polivalente é um generalista: ele cuida da alfabetização de seus alunos e, depois, da leitura, da escrita, do cálculo, dos estudos sociais, das ciências, das artes e até mesmo da educação física. Em alguns contextos pouco heterogêneos do ponto de vista religioso, esse professor se ocupava até mesmo da educação religiosa dos alunos.

À medida que a escola cresceu, o ensino diferenciou-se e as séries foram se estendendo além do nível primário. E, numa sociedade cada vez mais complexa, o professor começou a virar especialista. É verdade que, ainda hoje, o professor da Educação Infantil e das séries iniciais da Educação Fundamental é, em muitos contextos, polivalente: um generalista. Mas mesmo aí a especialização já coloca a sua cara. O professor alfabetizador se especializa em conseguir que a criança aprenda a ler e escrever. O professor de Matemática e Ciências se especializa em ajudar a criança adquirir as competências básicas dessas áreas. O professor de Estudos Sociais e Meio Ambiente faz o mesmo com suas áreas. Professores de Educação Artística e de Educação Física completam o quadro. São vários especialistas, ainda dentro da Educação Fundamental, onde havia antes apenas um professor polivalente e generalista.

3. A sociedade da informação

Hoje em dia, com o aparecimento da sociedade da informação, a figura do generalista está readquirindo prestígio. Algum nível de especialização parece inevitável, especialmente em profissões liberais como engenharia, medicina, direito. Dentro destas áreas, porém, a sociedade da informação começa a esperar que seus profissionais sejam cada vez mais polivalentes, vale dizer, generalistas. No trabalho empresarial, então, mais do que nunca.

Espera-se do profissional de marketing, por exemplo, que entenda dos produtos e do core business da empresa, do profissional de treinamento que entenda dos processos básicos para os quais precisa organizar formações, do profissional de vendas que entenda dos produtos e processos e, mais, que entenda de psicologia e de relações interpessoais. Aqueles que transitam com facilidade de uma área para outra da empresa são os mais credenciados a subir na escada do sucesso.

Nesse contexto, dados os condicionamentos que nos fazem esperar especialidades, caímos na tentação de definir especializações híbridas, bidisciplinares, ou multi ou pluridisciplinares: Engenharia Biomédica, Sociobiologia, Psicolinguística. Ou, ainda melhor, especializações transdisciplinares, que seriam especializações literalmente não especializadas.

4. A escola na sociedade da informação

A escola, como sempre, resiste a essas inovações. Os professores, na visão da educação tradicional, seriam, na melhor das hipóteses, biespecialistas: especialistas numa área de conteúdo curricular (Língua Portuguesa, Matemática, Ciências etc.) e especialistas na ciência (ou quem sabe arte) de transmitir a outrem o conteúdo de sua área de especialização: Pedagogia. (É por isso que professores são sempre professores de alguma coisa, e que se espera que eles tenham alguma formação pedagógica).

Há quem ache que alguns professores – os de Didática Geral, por exemplo – seriam uniespecialistas: sua especialidade seria a arte de ensinar ou transmitir conteúdos de qualquer natureza. Os professores de Didática Específica (Didática da Língua Portuguesa, Didática da Matemática, Didática da Física etc.) seriam, entretanto, biespecialistas. E os professores de Língua Portuguesa, Matemática, Física, idem: também biespecialistas.

No contexto atual da sociedade da informação – em que o professor não é um especialista em determinada área de conteúdo curricular, mas, sim, um facilitador da aprendizagem –, é possível perguntar: pode alguém que não é um especialista em Física facilitar o aprendizado da Física, por exemplo? Eu tendo a crer que sim, embora reconheça que a resposta a essa questão esteja longe de ser simples e dificilmente poderá ser discutida adequadamente aqui.

No centro de pesquisas da Microsoft em Redmond, nos Estados Unidos, encontrei por várias vezes um especialista em facilitação de interação em reuniões. Ele não era especializado em facilitar qualquer coisa – a aprendizagem, por exemplo –, mas era um genuíno expert em propiciar, ao longo de uma reunião, a discussão sobre qualquer assunto, ainda que fossem temas sobre os quais ele pouco ou mesmo nada entendia.

Todas vezes que o vi e fui (literalmente) vítima de sua ação implacável, ele mostrou-se altamente competente no processo de articular debates, inclusive quando a pauta soava bizantina. Ele se concentrava no processo: quem falava muito, quem falava pouco, quem ficava calado, quem queria controlar o fluxo ou a direção da discussão… E aplicava regras: nenhuma fala podia ultrapassar dois minutos, por exemplo; ou ninguém podia falar pela segunda vez até que todos tivessem contribuído ao menos uma vez; ou era preciso parar a discussão se alguém não tivesse entendido algum conceito ou afirmação proposta (a discussão, contudo, não era parada, nem a ordem do discurso alterada, simplesmente porque alguém discordara dos demais).

O professor do futuro será alguém assim? Um facilitador, um mediador, uma mistura de mentor e coach? Alguém que sabe ouvir, que sabe fazer perguntas (de esclarecimento e de sondagem, como diria meu amigo Les Foltos), que sabe argumentar, deixar de lado os acessórios e chegar direto ao essencial? Será ele o sujeito que, além de facilitar, também problematizará, questionará, levará os outros a pensar? Um maieuta? Uma parteira intelectual que ajuda os outros a conceber e a parir ideias, explicações, formas interessantes de ver o mundo?

As faculdades de Educação não têm a menor ideia do que está envolvido na formação de um professor diferente do tradicional – aquele biespecialista meio capenga, “3×1”, que cursa três anos de conteúdo em algum Instituto (Física, Química, Biologia, Matemática, Letras, Ciências Humanas) e, numa faculdade de Educação, um ano de matérias pedagógicas (Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia da Aprendizagem, Didática), de uma perspectiva, a maior parte das vezes, totalmente anacrônica e ineficiente para o ofício do professor (tradicional ou moderno).

Está na hora de pensarmos na formação do professor sob a ótica de um paradigma diferente: um professor para a sociedade da informação, cuja formação não seja, necessariamente, a de um especialista em alguma fração do currículo, mas aquela que lhe permita mediar e facilitar o desenvolvimento de competências por parte de seus alunos, ainda que ele próprio não as domine.

Em São Paulo, 3 de Outubro de 2011, transcrito aqui em 11 de Outubro de 2011

A Questão das Políticas Públicas na Educação

Post que publiquei em 14 de Setembro de 2011 no Blog das Editoras Ática e Scipione no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/a-questao-das-politicas-publicas-em-educacao.

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Erra quem afirma que “qualquer escola é melhor do que nenhuma escola”. Em tempos em que a sociedade sugere tantas formas de fazer política pública para a educação, por que não ousamos de fato transformá-la?

Lendo e ouvindo o que se escreve e diz sobre a educação no país, parece que chegamos a alguns consensos, ou quase-consensos, acerca da escola pública brasileira.

Primeiro, ela vai mal. Disso ninguém mais duvida (e está aí o último resultado do Enem para provar a afirmação). Segundo, é necessário fazer alguma coisa, urgentemente, para que sua qualidade melhore.

Terceiro, ela só vai melhorar se lhe destinarmos mais recursos e conseguirmos implantar “políticas públicas” adequadas que corrijam seus problemas mais graves. (“Políticas públicas” é a expressão-chave na qual todo discurso acaba chegando).

O problema, porém, é que, ao tentar melhorar a qualidade da escola pública brasileira, a maior parte das iniciativas, governamentais ou não, nacionais ou estrangeiras, tem buscado soluções de problemas segmentados e específicos que, mesmo que solucionados, não representarão necessariamente uma melhoria substantiva e significativa na qualidade da educação brasileira.

Ilustro com algumas políticas públicas desse tipo que têm sido sugeridas e, em alguns casos, até mesmo implementadas:

  • Políticas voltadas para o aumento do período de escolaridade obrigatória: era de 4 anos, passou a ser de 8, depois 9, e já se faz campanha para que seja de 12 anos e abranja o Ensino Fundamental e o Ensino Médio;
  • Políticas voltadas para o aumento do número mínimo de dias letivos: o ano escolar tinha 160 dias, passou a ser de 180, chegou a 200 e já se fala em aumentá-lo para 220;
  • Políticas voltadas para o aumento da duração dos turnos diários, chegando-se, no limite, à escola de tempo integral (que quase todo mundo parece considerar ideal);
  • Políticas voltadas para a garantia da presença e da permanência na escola da criança e do adolescente que, por alguma razão, estão fora dela;
  • Políticas voltadas para a redução da repetência e da evasão (ainda que se aplique a promoção automática);
  • Políticas voltadas à correção das defasagens idade/série;
  • Políticas voltadas à melhoria do salário dos professores ou à introdução de mecanismos de remuneração que privilegiem desempenho e mérito;
  • Políticas voltadas à extensão e melhoria da formação dos professores;
  • Políticas voltadas à introdução da tecnologia na escola e à implantação de programas de educação a distância (inclusive para a formação de professores).

Quando os políticos, a mídia ou a academia propõem essas medidas, raramente levantam questões pedagógicas básicas como, por exemplo:

  • A natureza da educação –> O que é educar?
  • A razão de ser da educação –> Por que educar?
  • O objetivo da educação –> Para que educar?
  • Os agentes da educação –> Quem educa?
  • A essência da aprendizagem –> O que é aprender?
  • O currículo –> O que as pessoas devem aprender?
  • A metodologia –> Como as pessoas aprendem?
  • A avaliação –> Como se afere se alguém aprendeu o que se propôs aprender ou o que se esperava que aprendesse?

No entanto, é a resposta a essas questões sobre a natureza, a razão de ser e o objetivo da educação e da aprendizagem que deve nortear, de forma tácita ou consciente, as decisões acerca da função da escola, do acesso a ela, da obrigatoriedade da permanência nela, ou acerca da formação do professor e da avaliação e remuneração do seu trabalho. Ou vejamos.

Políticas voltadas para garantir a presença e a permanência da criança na escola e aumentar seu tempo de permanência nela só fazem sentido se a experiência escolar for uma genuína experiência de aprendizagem. Há evidência incontestável, hoje, de que a mera permanência dos alunos na escola, ainda que em período integral e durante quase o ano inteiro, não produz, necessariamente, aprendizagem genuína daquilo que é essencial ou importante saber e saber fazer.

Na maior parte do tempo a experiência escolar é vista – pelo menos por suas vítimas, os alunos – como basicamente inútil (não serve para grande coisa) ou até mesmo desagradável (“chata” é o principal termo que se aplica à aula, que ainda hoje é a experiência pedagógica central no ambiente escolar). O resultado comprovado são crianças e adolescentes que passam oito anos na escola e não aprendem nem mesmo a ler e escrever decentemente na língua materna – quanto mais em língua estrangeira. As coisas interessantes que eventualmente aprendem, eles parecem aprender fora da escola.

(A situação me faz lembrar uma frase atribuída ao escritor norte-americano Mark Twain, que teria dito que nunca deixou que a escola interferisse na sua educação…).

Como ressaltei em 2003 em minha fala do congresso “Educação e Tecnologia para o Desenvolvimento Humano” (realizado pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com a Microsoft Brasil), não é qualquer escola que serve. Erra quem afirma – como um dia afirmou o Senador Cristovam Buarque, quando Ministro da Educação – que “qualquer escola é melhor do que nenhuma escola”.

A escola ruim, além de não fazer bem, causa muitos males, como, por exemplo:

  • Desperdício de recursos de quem a cria e mantém e perda de tempo de quem a freqüenta;
  • Diminuição da curiosidade e da vontade natural de aprender por parte dos alunos, que passam a ver a aprendizagem, a educação e a escola como coisas chatas, não desafiadoras, que nada têm a ver com as coisas boas e interessantes da vida;
  • Fracasso escolar de alunos que poderiam aprender muito e com prazer em uma escola diferente mas que, em decorrência da experiência escolar, concluem que a causa do fracasso está em si mesmos e não na inadequação da escola.

É por isso que políticas públicas voltadas para a solução de problemas segmentados, ou específicos, não resolvem o desafio da qualidade na educação – em especial na educação pública. Precisamos de uma abordagem sistêmica, que olhe para a educação como um todo, formal e não-formal, e que seja radical, isto é: tenha por objetivo uma transformação radical e não pequenas mudanças que podem melhorar um pouquinho aqui e ali, que podem reformar um ou outro aspecto mais grave ou urgente, mas não afetam o todo de forma significativa.

Esse tipo de transformação radical e profunda precisa buscar real inovação, o claramente novo. Não basta melhorar, reformar o que já existe. Precisamos de transformação, não de reforma. Precisamos, na verdade, de uma nova educação, não de uma melhora na educação que temos.

No fundo, todos nós sabemos que é verdade o que diz Jay Allard (ex-vice-presidente da Microsoft Corporation) na revista Business Week, edição de 4 de dezembro de 2006:

“Para mudar o mundo, precisamos imaginá-lo diferente do que é hoje. Se, nessa visão, usarmos muito do conhecimento e da experiência que nos trouxeram até aqui, terminaremos exatamente onde começamos… Para ter um resultado diferente, temos de olhar as coisas de uma perspectiva radicalmente diferente.”

Uma frase atribuída a um monte de gente famosa diz que o cúmulo da estupidez é continuar a fazer exatamente a mesma coisa e esperar que o resultado venha a ser significativamente diferente.

Cito um exemplo do que boa parte da sociedade propõe como mudança na educação: todo mundo diz que o professor precisa ser melhor formado e remunerado porque ele é e continuará a ser o portão de entrada para a educação para a maioria das pessoas. Mas será que isso, ainda que verdade no passado, continuará a ser verdade no futuro? Quem garante que a escola do futuro, transformada, terá professores como os conhecemos? Na realidade, quem garante que a educação do futuro terá escolas como as que conhecemos hoje?

Ivan Illich vinha, já há muito tempo, insistindo na desescolarização da sociedade, como já falamos neste blog. E ele propôs isso muito antes de a tecnologia transformar a nossa sociedade em uma sociedade da informação, do conhecimento, da aprendizagem – na verdade, em uma sociedade aprendente (learning society). John Holt, amigo de Illich, escreveu em Freedom and Beyond:

“As pessoas, mesmo as crianças, são educadas muito mais por toda a sociedade em que vivem e pela qualidade geral da vida dessa sociedade do que por aquilo que lhes sucede na escola”.

Por que, então, a gente não ousa transformar o que passa por educação e reinventar a escola? Cito um exemplo agora de fora da área da educação, envolvendo o mercado livreiro, Jeff Bezos e a Amazon. Neste setor sim tem ocorrido uma real mudança de paradigma.

  • Os livros impressos, como os conhecemos, existem há cerca de 550 anos num mercado que era, até há pouco tempo, bastante estável.
  • Livrarias físicas eram a principal forma de distribuição dos livros aos usuários finais, e, por muito tempo, funcionário com pouca ou mesmo nenhuma tecnologia (usando cadernos e fichas para controle de estoque, cadernos ou simples máquinas de calcular ou caixas registradoras para controle de vendas e fluxo de caixa, folhas de cálculo para contabilidade e, se fosse o caso, folha de pagamento.
  • A chegada de tecnologia básica (computadores com planilhas eletrônicas ou programas comerciais integrados) permitiu que o livreiro continuasse a fazer a mesma coisa que já fazia, só que, agora, com pequenos ganhos de eficiência – uso conservador da tecnologia.
  • A chegada de tecnologia ainda básica, mas com acesso à internet, permitiu que o livreiro criasse um site para a livraria e que anunciasse seus livros nele, assim aumentando o alcance de sua comunicação e propaganda – uso levemente reformador da tecnologia.
  • A chegada de tecnologia um pouco mais avançada permitiu que o livreiro passasse a vender livros também online, acrescentando um subsite de venda ao site da livraria – uso bem mais reformador da tecnologia que estendeu o escopo do negócio, posto que qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode comprar um livro no site. Entra Jeff Bezos em cena e cria uma livraria que não tem estoque, só tem catálogo, e que, na realidade, intermedeia a venda de livros para o comprador-leitor.
  • O desenvolvimento de tecnologia relativamente sofisticada permitiu que Jeff Bezos passasse a criar perfis altamente sofisticados dos seus clientes – uso de tecnologia (banco de dados com ferramentas analíticas sofisticadas) que leva o uso reformador da tecnologia no ambiente livreiro ao seu limite.
  • Tecnologias mais sofisticadas permitem a criação e a comercialização de livros eletrônicos e de leitores de livros eletrônicos – uso agora criativo, inovador e transformador da tecnologia, que revoluciona o mercado livreiro e deixa editores e livreiros tradicionais, para não falar em fabricantes de computadores, em polvorosa.

Por que não conseguimos fazer uma transformação desse tipo na educação? Por que não conseguimos reinventar a escola como Jeff Bezos reinventou o mercado livreiro?

Eu sugiro que, para transformar a escola atual em um ambiente de aprendizagem digno do nome, é preciso repensar, de forma drástica e radical, o que entendemos por educação e dar respostas verdadeiramente inovadoras a questões como “Por que educar?”, “Para que educar?”, “Como educar?”

Somente dessa forma seremos capazes de “integrar políticas” voltadas para a educação – esta entendida como desenvolvimento humano – e apresentar soluções sistêmicas que, aplicadas, melhorem substantivamente a experiência de aprendizagem de nossas crianças, adolescentes e jovens (na realidade, de todas as pessoas).

Em São Paulo, 14 de Setembro de 2011, transcrito aqui em 11 de Outubro de 2011