A Verdade – Entre a Dúvida e a Certeza

Encontrei um twit no FaceBook hoje, já devidamente retuitado, aparentemente mais de uma vez, que me fez querer voltar a um tema sobre o qual já escrevi bastante aqui. O twit contém a seguinte frase de André Gide, em Inglês:

“Believe those who are seeking the truth; doubt those who find it.” (“Acredite naqueles que buscam a verdade; duvide daqueles que a encontram”).

A frase original, segundo me informa a WikiPedia, é: Croyez ceux qui cherchent la vérité, doutez de ceux qui la trouvent”, e foi retirada do livro Ainsi soit-il ou Les Jeux sont faits (André Gide, éd. Gallimard, Paris, 1952, p. 174).

Gosto de frases assim, porque elas parecem sugerir que procurar a verdade é mais meritório do que encontrá-la, que parece análoga a outra frase de que gosto, que afirma que a felicidade está no caminhar, mais do que no chegar ao destino…

Mas, confesso que,nessa questão fico meio dividido em meio às idéias de três filósofos (todos já falecidos) que admiro muito: David Hume, Karl Popper e Ayn Rand.

No caso do primeiro e mais antigo desses filósofos, David Hume (1711-1776), admiro muito a pessoa e as idéias. No caso dos outros dois, admiro mais as idéias do que as pessoas.

Karl Popper (1902-1994) provavelmente endossaria a frase de André Gide, sem tirar nem pôr. Foi ele que, em sua obra, defendeu aqueles que são humildes buscadores da verdade e criticou aqueles – os arrogantes – que se julgavam seus orgulhosos possuidores.

Que Popper, como pessoa, se comportasse como um orgulhoso possuidor da verdade, que não admitia a contestação nem de seus inimigos nem de seus discípulos, para mim não importa: aquilo que me interessa, no caso dele, são suas idéias, não sua biografia.

O que sobremaneira me interessa nas idéias de Popper é o seu falibilismo epistemológico. Exceto na lógica (incluindo a matemática), onde a verdade é plenamente encontrável porque, na realidade, a lógica define as regras do jogo racional, nossos julgamentos, pontos de vista, hipóteses, teorias, etc. devem, segundo ele, poder ser sempre refutadas ou falsificadas pela realidade. Se nossos julgamentos, etc. não forem refutáveis ou falsificáveis pela realidade, não dirão nada, não proibirão nenhum estado de coisas, serão vazios de conteúdo, totalmente vácuos – isto é, serão totalmente fajutos. Em outras palavras: a irrefutabilidade ou infalsificabilidade de nossos julgamentos, etc., longe de ser um mérito deles, é, para eles, um defeito epistemológico insanável – um pecado mortal no plano da epistemologia.

Essa tese me fascina – porque ela me permite voltar a fazer contato com as idéias do filósofo que, dentre todos, mais me fascina, como filósofo e como pessoa: David Hume, sobre cujas idéias escrevi minha tese de doutoramento em 1970-1972 (defesa: 8 de Agosto de 1972, University of Pittsburgh). As idéias de Hume eram céticas – e ele, como pessoa, se comportava com a humildade intelectual que um cético deve ter (afinal, ele afirma não saber nada – vai se orgulhar de quê?) e Popper diz ser essencial nos eternos buscadores da verdade.

Hume, porém, se considerava um cético mitigado, não radical – porque ele achava que a natureza humana era muito bem feita. Apesar de sermos capazes de conquistas racionais maravilhosas, somos, em última instância, movidos pelas emoções – pelas paixões violentas que movem alguns, ou, como ele preferia, pelos sentimentos brandos e calmos que devem mover os que humildemente buscam a verdade sem nunca encontrá-la. Segundo ele, a natureza colocou em nós (pelo menos na maioria de nós) uma tendência a nos inclinar para o bem e para o certo… Assim, nos comportamos da maneira certa, a maior parte do tempo, mesmo que tenhamos dúvidas racionais sobre se aquele comportamento é, de fato, correto… Sabemos, por exemplo, dizia ele, que a lei empírica que afirma que “se saltarmos da janela do terceiro andar de um prédio, vamos nos esborrachar lá embaixo” pode ser falsa, porque é, em princípio, refutável e falsificável pelos fatos, não sendo, portanto, necessariamente verdadeira. Mas nossa natureza humana é feita de tal forma que ninguém salta do terceiro andar confiando apenas na refutabilidade ou falsificabilidade da lei…

Assim, Hume é um cético que mantém a humildade dos buscadores da verdade que acreditam que nunca vão encontrá-la, daqueles que socraticamente afirmam saber que nada sabem, Mas, no fundo, ele se comporta como se houvesse coisas que ele sabe – e que ele, de alguma forma, sabe que sabe… Isso introduz uma contradição em sua obra? Creio que sim. Mas é admirável que ele a tenha admitido, tendo, conscientemente, se recusadoa se livrar dela. 

Popper chegou a afirmar, peremptoriamente, que a verdade existe e que é possível encontrá-la – mas em seguida qualificou sua afirmação dizendo que, no entanto, nunca teremos justificação bastante para afirmar que a encontramos…

Como Popper, Ayn Rand (1905-1982) não era humilde, como pessoa. Longe disso. Brigou com todo o mundo, excomungou discípulos que discordaram dela. Seu herdeiro intelectual só obteve o posto às custas de total servilismo intelectual e pessoal. Como Popper, suas idéias também apontam para a postura de quem busca a verdade. Mas diferentemente de Popper, ela acreditava (do ponto de vista epistemológico) ser perfeitamente possível encontrar ou alcançar a verdade. Na realidade, ela não tinha dúvida de que a havia encontrado… Sua busca da verdade, portanto, não era humilde… não era uma busca de quem sabe que não vai encontrá-la (como Hume), nem mesmo uma busca de quem temia que, se a encontrasse, não iria reconhecê-la como tal (como Popper). Epistemologicamente, ela era mais otimista do que Popper – e infinitamente mais otimista do que Hume…

Ou seja, em Ayn Rand temos, na pessoa, o orgulho de quem encontrou a verdade – e, portanto, não a busca mais. Segundo Gide, isso nos deveria fazer duvidar dela. Na obra de Ayn Rand ela procura nos mostrar por que estaria justificada em afirmar que havia encontrado a verdade. Tendo a concordar que ela está certa em tanta coisa, mas…

Com Popper e com Rand, e contra Hume, estou convicto de que a verdade existe e de que é possível aceder a ela. Mas, como disse, fico meio dividido entre, de um lado, a tese popperiana de que, mesmo que a verdade exista e seja encontrável, nunca poderemos ter certeza de tê-la encontrado, e, de outro lado, a tese randiana de que a verdade existe, é encontrável, e é possível ter certeza de que a encontramos (embora a justificativa dessa certeza seja extremamente complexa do ponto de visto filosófico).

Fico dividido, humeanamente, no meio: humildemente buscando a verdade, ao mesmo tempo duvidando, intelectualmente, de todas as verdades, mas com uma tendência forte a acreditar que algumas aspirantes à verdade estão bem mais próximas dela do que outras… A questão que não consegui resolver ainda é se essa tendência é, como afirmava Hume, simplesmente uma característica não-racional de minha natureza humana, ou se ela é,racional como pretende Rand – pelo menos em parte….

Talvez seja por isso que, mesmo quando julgo ter encontrado a verdade, procuro não ser arrogante – porque, quem sabe, eu estou errado e aquela besta arrogante ali do lado pode estar certa. 

Se o relato da coisa ficou meio confuso, talvez seja porque a coisa seja confusa em si, não havendo como desconfundi-la sem distorcer a realidade…

Em São Paulo, 18 de Novembro de 2009

A tuberculose do faraó e outros bichos

O besteirol que Antonio Cícero condena no artigo transcrito abaixo, publicado na Folha de hoje (14/11/2009), é antigo.

Na minha modesta opinião, a onda começou com o livro The Social Construction of Reality, de Peter L. Berger e Thomas Luckmann, publicado em 1966.

Esse pessoal quer sempre chamar a atenção: por isso dá nome um nome chamativo aos livros, ao qual, depois, acabam tendo de renunciar.

No caso de Berger & Luckmann, o nome do livro era (em Português) A Construção Social da Realidade. A impressão que se tem, ao ler o título, é de que entidades como a Terra, a Lua, o Sol, os minerais, os vegetais, a sociedade, os próprios seres humanos – a Realidade – são todos “socialmente construídas”. Ou seja, se não houvesse os seres humanos vivendo em sociedade, não haveria a Terra, a Lua, o Sol, etc.

Ao se ler o livro, fica-se a impressão de que os autores, embora pretendam estar falando da construção social da realidade, estão mostrando apenas, e se tanto, que a Realidade Social é construída. Mas isso acredito que ninguém conteste… A Realidade Social é dependente dos seres humanos vivendo em sociedade…

No artigo transcrito abaixo, Antonio Cícero discute algumas teses absurdas dessa anta que é Bruno Latour – autor de Vida de Laboratório: A Construção Social dos Fatos CientíficosSubseqüentemente ele renegou o sub-título do livro. Mas as teses principais do livro, não. E as teses do livro corroboram o sub-título que ele afirma ter renegado…

Enfim: O livro de Latour parece sugerir que não há fatos, que todos os fatos são socialmente construídos… Quando se vai ler o texto com atenção, se percebe que ele postula a construção social dos fatos científicos. Como a ciência é uma produção humana, e nós os humanos vivemos em sociedade, os fatos existiam antes, mas não como científicos… Funny. Como é que alguém se torna famoso dizendo esse besteirol???

Deliciem-se com o artigo de Antonio Cícero.

———-

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1411200926.htm

Folha de S. Paulo

Antonio Cicero

A tuberculose do faraó


Para o idealista Latour, natureza e realidade são o que cientistas decidem que sejam


POR OCASIÃO da morte de Lévi-Strauss, o antropólogo francês Philippe Descola, interrogado sobre "quem seriam os gênios de hoje", citou, em primeiro lugar, Bruno Latour. Mal pude crer no que li. A primeira coisa que me vem à mente, sempre que leio ou ouço o nome de Latour, é o título do excelente livro de Alan Sokal e Jean Bricmont, "Imposturas Intelectuais".

E, embora ele tenha merecido todo um capítulo nessa obra, esse título me vem à cabeça por outra razão: é que, anos atrás, caiu-me nas mãos um exemplar de um dos mais ridículos livros que já li: o "Jamais Fomos Modernos (Ensaio de Antropologia Simétrica)", de Latour, do qual me poupo -e ao leitor- de falar.

Estaria Descola sendo sarcástico? Não. Ele pretendia estar sério. Isso me pareceu lamentável, tratando-se do diretor do Laboratório de Antropologia Social do Collège de France. Entretanto, lembrei-me de duas teses de Latour que, de tão grotescas, chegam até a ser engraçadas. Uma é sobre os dinossauros; a outra, sobre Ramsés 2º. O leitor talvez já as conheça, pois não são novas. Mas, na dúvida, vou contar ao menos a que fala de Ramsés 2º.

Antes, observo que Latour é frequentemente classificado de "construtivista -ou melhor, construcionista- social". Isso não é surpreendente, já que seu livro "Vida de Laboratório", de 1979, escrito em parceria com o sociólogo inglês Steve Woolgar, tem como subtítulo "A Construção Social dos Fatos Científicos". Em 1986, porém, o subtítulo foi removido e Latour passou a recusar essa classificação.

Contudo, sua recusa diz mais respeito ao adjetivo "social" do que ao substantivo "construção", pois ele continua acreditando que os fatos científicos são construídos. Para o idealista Latour, em última análise, a natureza e a realidade são aquilo que cientistas decidem que sejam, e não algo que preexista à investigação científica.

Mas vamos à história. Em 1976, a múmia de Ramsés 2º, acometida por fungos e mofo, foi enviada à França para ser tratada. As fotos de sua chegada foram publicadas pela revista "Paris-Match", com a legenda: "Nossos cientistas socorrem Ramsés 2º, que adoeceu 3.000 anos após sua morte".

Ao ler essa legenda, Latour precipitadamente pensou que ela se referia a outro fato: o de que os cientistas, tendo examinado os restos mortais do faraó, haviam anunciado a descoberta de que ele morrera de tuberculose. "Profundo filósofo", escreveu então, "aquele que redigiu essa legenda admirável". Por que "profundo filósofo"?

Porque, ao contrário dos seres humanos que se guiam pelo bom senso, o autor dessa legenda teria "compreendido" que Ramsés 2º não poderia, no ano 1213 a.C., ter morrido de um bacilo que foi descoberto por Robert Koch somente em 1882…

Para o bom senso "grosseiro", é claro que o bacilo já existia muitíssimo antes de Koch o descobrir. Já para o "sutil" Latour, "antes de Koch, o bacilo não tem existência real. […] Os pesquisadores não se contentam com "des-cobrir’: eles produzem, fabricam, constroem". Assim, o bacilo da tuberculose foi "construído" na época moderna.

Mas, então, como é que ele pode ter causado a morte do faraó, em 1213 a.C.? "Afirmar, sem outras formalidades, que o faraó morreu de tuberculose", diz Latour, "significa cometer o pecado cardeal do historiador, o do anacronismo". Se fosse assim, seria anacronismo afirmar, "sem outras formalidades", que a lei da relatividade tivesse vigência antes de Einstein a demonstrar; ou que a lei da evolução das espécies vigorasse antes de ser enunciada por Darwin.

E quais são as "outras formalidades"? Suponho que consistam em fazer a ressalva de que, para nós, que vivemos depois de 1976, o faraó morreu de tuberculose, mas não para quem viveu antes de 1976. Ora, se isso quer dizer simplesmente que antes de 1976 não sabíamos que o faraó em 1213 a.C. morreu de tuberculose, então é uma verdade: mas não passa precisamente da verd
ade trivial que o bom senso já conhecia, de modo que, nesse caso, Latour nada diz de novo.

Se, por outro lado, quer dizer que, antes de 1976, o faraó, em 1213 a.C., não morrera de tuberculose, então é um disparate: é "nonsense", e é sem dúvida o que ele pensa, ao afirmar que, "antes de Koch, o bacilo não tem existência real".

Mas devemos reconhecer ao menos um mérito ao artigo de Latour sobre Ramsés 2º: ele inadvertidamente efetua uma redução ao absurdo não só das suas próprias teses mas de todo o construcionismo contemporâneo.

a.cicero@uol.com.br

———-

Em Salto, 14 de Novembro de 2009

Memory and Hope

Em um grupo de discussão de que participo, sobre John Wesley, o fundador do Metodismo, alguém perguntou: "O que seria de nós metodistas sem nossa história?"

Respondi assim, retomando algumas questões que já havia discutido neste space…

Estou convicto de que nossa identidade é produto de nossa memória e de nossa esperança… Memória e esperança. Um professor meu no Seminário Presbiteriano de Pittsburgh (Dietrich Ritschl) escreveu, nos anos 60, um livro chamado Memory and Hope, que trata dessa questão… A questão da tradição face à modernidade, do passado face ao futuro…

Tanto no plano institucional como no pessoal, somos, EM PARTE, o produto de nossa história, da vida que vivemos até aqui – na verdade, somos o produto de nossa memória de nossa história, de nossa memória da vida que vivemos. Isso me parece inegável. Por isso, é bom cultivar a memória de nossa história, de nossa vida, de nossas tradições — mesmo que essa memória seja seletiva e condicionada pelo nosso presente e pela nossa visão do futuro. O Rubem Alves uma vez respondeu à pergunta: "Você ainda é protestante?" dizendo: "Claro! Sou, porque fui…"

Mas o futuro também nos condiciona, tanto quanto, ou talvez ainda mais do que, o passado. Por isso, somos, também, EM PARTE, o produto de nossas esperanças, de nossos sonhos, de nossa visão do futuro, ou seja, aquilo que queremos ser. Não só somos o que fomos — também somos aquilo que desejamos ser… 

É nessa encruzilhada dialética da nossa memória (o passado) com nossa esperança (o futuro) que, no presente, construímos nossa vida e constantemente descontruímos e reconstruímos nossa identidade. Nossa liberdade (livre arbítrio) age aí: podemos decidir quanto do nosso passado vamos deixar influenciar nosso futuro – e quanto do nosso futuro vai orientar o nosso presente (e, talvez, até vai condicionar nossa memória do passado…).

Em São Paulo, 18 de Outubro de 2009.

Corrupção, a lei e a moralidade

A Folha de S. Paulo lança hoje, através do seu Caderno + (Mais), um debate interessante em cima da questão da corrupção.

O debate vai, naturalmente, além da questão da corrupção em si e de sua percepção pelos brasileiros, e envolve uma discussão interessante, não só de legislação anti-corrupção e de medidas jurídicas e políticas para impedir e punir a corrupção, mas, também, de questões morais e éticas importantes. Os textos, em seu conjunto, são um excelente livro-texto para um curso, de Ética.

Transcrevi alguns dos artigos aqui, abaixo, numa ordem diferente da em que apareceram no jornal. Começo com os que são mais genericamente filosóficos. Deixo para o fim os textos com menor densidade filosófica, mas que discutem questões interessantes, como, por exemplo:

  • O brasileiro admite ser menos corrupto do que é na realidade?
  • Os mais ricos admitem ser mais corruptos do que os mais pobres?
  • Ou será que os mais ricos admitem mais corrupção porque a praticam mais?).

Deixo de fora os textos que apenas mostram como tanta gente paga propina no Brasil, ou como é fácil, em São Paulo, tirar um documento totalmente falso para alguém que nunca existiu.

Pretendo, no futuro, a essa coletânea de textos para debater alguns dos temas temas.

Mas já levanto algumas questões:

a) Corrupção é algo que se dá exclusivamente na esfera público-governamental? Por exemplo:

  • Parece claramente ser corrupção quando um funcionário ou agente público deixa de levar o público em conta para privilegiar o privado, em interesse próprio?
  • Será também corrupção quando uma ONG usa dinheiro recebido do governo (ou mesmo recebido em doação de pessoas físicas e jurídicas privadas) para finalidades alheias àquelas para as qual foi o dinheiro foi solicitado?
  • Será também corrupção quando uma igreja usa o dinheiro de ofertas dadas incondicionalmente para, digamos, comprar um avião que vai ajudar os líderes a fazer o seu trabalho – ou para comprar uma rede de televisão que ajuda a expandir o alcance da igreja?
  • Será também corrupção quando um executivo desfalca a empresa (privada) que representa ou dirige, ou seria este caso  apenas um roubo comum cometido por alguém que estava em posição privilegiada?
  • Será, por fim, corrupção pagar alguém para guardar lugar para a gente na fila do INSS, ou passar em sinal vermelho tarde da noite quando a rua está deserta, ou rodar pelo acostamento em congestionamento?

b) Corrupção é um problema exclusivamente legal-jurídico-político ou é um problema também ético-moral? Certamente há muitas ações que consideramos moralmente erradas (e alguns gostariam de coibir pela lei) e outras que consideramos certas (e alguns gostariam de tornar legalmente obrigatórias), que nenhuma lei proíbe ou torna mandatórias. Mentir é uma ação geralmente considerada errada, do ponto de vista moral. Mas mentir, em condições normais, não é crime. Mentir só se torna crime naquelas situações (que envolvem o que normalmente se chama de “falsidade ideológica”) em que a lei exige que o cidadão diga a verdade. Um funcionário público que mente, com o intuito de enganar, para um jornalista está comentendo alguma sorte de corrupção? (Estou pressupondo que não haja nenhuma lei que exige que um funcionário público diga a verdade para a imprensa). É verdade que um Presidente da República que mente para o público, através da imprensa, e depois se constata que de fato mentiu, deliberadamente, pode perder a confiança do público – pelo menos de parte dele. Clinton mentiu até mesmo em juizo sobre Barbara Lewinsky. Mentira em juizo é perjúrio, e, portanto, crime. Mas se tivesse mentido apenas para os jornalistas, seria cabível considerá-lo corrupto e tentar impedi-lo de continuar no cargo?

c) O texto de Hélio Schwartsman levanta a questão dos principais tipos de teoria ética: deontologismo (com sua ênfase no dever) e conseqüencialismo (tipo de teoria do qual o utilitarismo é o principal expoente). O debate entre esses dois tipos de teoria pode ser discutido em resposta à seguinte pergunta: Há como considerar imoral uma ação que não faz mal a ninguém, que não tem nenhuma conseqüência nociva? Há como considerar imoral uma ação que apenas faz bem? Mentir para a  Gestapo, durante a Segunda Guerra, negando ter visto judeus na vizinhança (quando se sabe até mesmo onde eles estão), é imoral? Mentir para um doente terminal, dizendo que há esperança de cura (quando se sabe que não há), é imoral, se a conseqüência é benéfica para o paciente? Para o deontologista, como Kant, mentir é sempre errado, em quaisquer circunstâncias, porque estamos vinculados a um imperativo categório que nos impõe o dever de sempre dizer a verdade, irrespectivamente das circunstâncias… Para o conseqüencialista, são as conseqüencias que determinam o que é certo ou errado. Mas, nesse caso, uma ação que não faz mal a ninguém nunca pode ser considerada imoral.

Está posta a questão. Convido o debate.

Eis os textos da Folha.

———-

Folha de S. Paulo
4 de Outubro de 2009

Paradoxos morais

Complexidade inerente às escolhas éticas ajuda a entender por que brasileiros ao mesmo tempo se dizem ciosos das leis e reconhecem praticar desvios

HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

Setenta e quatro por cento dos brasileiros declaram sempre obedecer às leis, mesmo que isso possa custar-lhes uma boa oportunidade. Não obstante, 83% admitem já ter cometido pelo menos uma ação ilegítima, de um cardápio que traz desde sonegação de impostos até estacionar em fila dupla.

A conclusão mais óbvia é que há gente mentindo. Outra, menos flagrante e de maior interesse, é que o comportamento ético constitui uma característica que resiste a abordagens puramente racionais -daí nossa indisfarçável ambiguidade ao lidar com escolhas morais.

Numa simplificação grosseira da história da filosofia, existem duas matrizes de teorias éticas. A primeira, que podemos chamar de deontológica, tem como expoentes os sistemas de inspiração religiosa e Immanuel Kant (1724-1804).

Aqui, são as ações e os princípios em que elas se fundam que importam. Regras como “não matarás” ou “não mentirás” valem incondicionalmente, seja porque estão amparadas por Deus, pelo imperativo categórico ou outra entidade abstrata.

No polo oposto está o consequencialismo, cujos grandes defensores incluem Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-73). Basicamente eles dizem que não existem princípios externos que possam validar ou invalidar nossos atos. A única forma de julgá-los é por meio das consequências que produzem: são boas as ações que engendram bons resultados.

É da condição humana flutuar entre essas duas matrizes, já que, tomadas em suas formas puras, ambas parecem incapazes de dar respostas razoáveis para nossas “necessidades sociais”. A impossibilidade de mentir em qualquer caso preconizada por Kant me levaria, por exemplo, a revelar para um assassino onde sua próxima vítima se esconde.

Já o consequencialismo me obrigaria a aceitar como moralmente válido o ato do médico que mata o sujeito saudável para, com seus órgãos, salvar a vida de cinco pacientes que necessitavam de transplantes.

Na tentativa de estabilizar um pouco a situação, diferentes filósofos combinaram em diferentes proporções elementos deontológicos e consequencialistas. Os resultados, entretanto, sempre podem ser reduzidos a novas aporias.

Instinto moral

Mais recentemente, estudos éticos vêm recebendo apoio de outras ciências, como a psicologia e a biologia evolutiva. É nessa categoria que entra o trabalho de Marc Hauser consubstanciado no livro “Moral Minds” (Mentes Morais).

A tese da obra de Hauser é que a faculdade moral é um “instinto”. Não chega a ser um código penal, mas um conjunto de princípios elementares, comuns a toda a humanidade -coisas como não matar, não casar com a filha etc.-, e maleáveis o bastante para comportar variações culturais.

Tal instinto pode ser modulado pelas emoções, como sugeria David Hume [1711-76], e pela razão, como queria Kant. Não matamos o motoboy que arranca o espelhinho de nosso carro tanto porque a maioria de nós tem repulsa ao assassinato (emoção) como também por temermos as consequências legais do gesto (razão).

É principalmente na série de experimentos mentais conhecidos como “problema do trem” que Hauser busca apoio empírico a suas ideias.

Vamos a dois exemplos: Denise é passageira de um trem cujo maquinista desmaiou. A locomotiva desembestada vai atropelar cinco pessoas que caminham sobre a linha. Ela tem a opção de fazer com que o comboio mude de trilhos e, assim, atinja um único passante. Ela deve acionar a alavanca?

Cerca de 90% dos mais de 60 mil voluntários que responderam ao questionário de Hauser cederam à razão utilitária e disseram que sim. É melhor perder uma vida do que cinco.

Hauser então coloca uma variante do problema. Frank está sobre uma ponte e avista um trem prestes a abalroar cinco alegres caminhantes. Ao lado dele está um sujeito imenso, que, lançado sobre os trilhos, teria corpo para parar a locomotiva, salvando os passantes. Frank deve atirar o gordão?

Aqui, a maioria (90%) responde que não, embora, em termos racionais, a situação seja a mesma: sacrificar uma vida inocente em troca de cinco.

Hauser sustenta que nosso “software” moral opera com parâmetros como tipo de ação (se pessoal ou impessoal, direta ou indireta), consequências negativas e positivas e, principalmente, a intencionalidade. No fundo, o que difere a ação de Denise da de Frank é que o sacrifício do passante solitário é uma espécie de efeito colateral (ainda que antevisto) de uma ação que visava a salvar cinco pessoas. Já atirar o gordão é um ato intencional, um homicídio, ainda que por um bem maior.

É claro que o interesse pessoal também entra na conta. Se os cinco passantes são membros de minha família, vou hesitar menos antes de atirar o sujeito ponte abaixo. De modo análogo, serei capaz de encontrar razões “racionais” para justificar pecadilhos, por exemplo, de elisão fiscal: já dou muito dinheiro para o governo e vai tudo para a corrupção.

Decididamente, não é fácil ser humano.

———-

Do quanto somos (im)perfeitos

Desconfiança generalizada em relação a a outras pessoas contrasta com o elevado padrão moral assumido individualmente pelos brasileiros

RENATO LESSA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Acrer em números, parece ser mais seguro emprestar seu carro a um amigo filiado ao PMDB do que a outro pertencente às hostes petistas. Com efeito, 93% dos respondentes simpáticos ao PMDB acham moralmente errado avançar um sinal de trânsito (ou furar um semáforo, o que vem a ser mais ou menos a mesma coisa). O escore petista limita-se tão somente a magros e preocupantes 71%.

Já os apoiantes do PSDB são os mais tolerantes no que diz respeito a fornecer dados inverídicos para a Receita Federal. Isso a despeito -ou a propósito, sabe-se lá- da fúria fiscalista que o consulado de seu partido impôs ao país, no século passado.

Para além do pitoresco -inevitável em qualquer tentativa de varredura de atitudes e opiniões em meio à população heteróclita-, há matéria para reflexão. Para já, gostaria de considerar os seguintes aspectos: a definição conceitual de corrupção, os marcadores de ética e moralidade, os perfis de admissibilidade quanto a práticas ilícitas e a distinção entre autopercepção e avaliação pública.

O que é corrupção

Para 43% dos respondentes, o termo refere-se a um conjunto de práticas fixadas na esfera pública. Para 21%, corrupção está associada a comportamentos individuais -levar vantagem, traição, deslealdade etc.

Um terceiro conjunto, de 19%, associa o conceito a “roubar bens/dinheiro”.

Quando questionados a respeito de que instituições concentram com maior ênfase práticas corruptas, os respondentes elegem os poderes Executivo e Legislativo, federal e estaduais. Há, contudo, alguma estratificação nessas respostas.

Quanto maior a escolaridade, maior a desconfiança institucional: o Poder Executivo federal é mencionado negativamente por 83% dos que possuem educação fundamental; aqueles com educação superior marcam 92%. A mesma progressão pode ser encontrada de acordo com variações da renda familiar e de classificação econômica.

Variações à parte, é possível dizer que a desconfiança é pesada e generalizada. Os campeões da pureza, tais como a Igreja Católica, as Forças Armadas e a imprensa, são julgados como corruptos por, respectivamente, 53%, 54% e 61% do total dos entrevistados.

Não é pouco. Ainda que algum viés de classe se manifeste na avaliação dos poderes públicos, a concentração das desconfianças gerais nesse âmbito parece reeditar o clássico juízo de Louis-Antoine-Léon Saint-Just: “Qualquer povo tem apenas um inimigo poderoso, e este é o governo”.

Marcadores de ética

Os entrevistados foram submetidos a uma bateria de 32 ações hipotéticas condenáveis [genéricas, acrescidas de cinco ações de políticos, policiais e outros servidores] para revelar a ordem de suas aversões éticas e morais. O resultado agregado da simulação é curioso: há um padrão generalizado de repulsa às ações hipotéticas, com algumas variações significativas.

Vejamos: os menos educados e mais pobres demonstram maior rigorismo moral em todos os quesitos. Trata-se de variação, contudo, que não agride a sensação de certa homogeneidade.

Há, ainda, marcadores mais finos. Dois deles podem ser licenciosamente designados como “kantianos”. O resultado não é de todo mau, mas um tanto desequilibrado: 74% concordam com a ideia de obediência à lei como algo superior ao interesse privado (adeptos de um imperativo categórico moral).

Já apenas 56% concordam com o diagnóstico de que as pessoas estão dispostas a “tirar vantagens” umas das outras (ou tomá-las como meios, e não como fins). O desenho revela assimetria entre autoavaliação e avaliação dos outros como sujeitos morais. A destacar, ainda, os mais velhos e a malta da classe D/E como antropologicamente mais otimistas.

Admissibilidade

Os entrevistados foram convidados a revelar admissibilidade -ou não- com relação a “práticas ilegítimas”. De forma mais agregada, 83% dos respondentes admitem tê-las cometido, em diferentes escalas de gravidade (leve, média e pesada).

Trata-se de aspecto importante, pois revela forte adesão ao “ilegítimo”, a despeito das respostas anteriores dotadas de maior rigorismo. Nada de errado com isso: não somos animais socráticos, para os quais o conhecimento do bem conduz necessariamente a seu cumprimento.

No entanto, há distinções importantes: quanto maiores os níveis de educação e de renda familiar e mais elevada a classificação econômica, maior a admissibilidade. Para uma imagem mais nítida, 93% dos que possuem educação superior admitem envolvimento; o escore cai para 74% para os que têm educação fundamental.

E mais: se tomarmos o envolvimento com práticas ilegítimas pesadas, os mais educados ganham dos menos educados por uma razão de 2,5; os de maior renda ganham dos de menor renda com uma razão de 4 e os de classe A/B ganham dos D/E por uma razão de 6,5.

Há algo aqui, ressalvada a insinceridade dos mais pobres.

Talvez uma pálida reedição de velha máxima de San Tiago Dantas, para horror dos demofóbicos: o povo enquanto povo é melhor do que a elite enquanto elite.

Assimetrias do mundo

Não ficamos de todo “mal na fita”. Mas há coisas curiosas. O alto padrão de admissibilidade evapora-se quando os entrevistados são submetidos a 39 perguntas sobre diversos ilícitos. O que emerge é uma população ordeira que, no pior dos casos, admite delitos leves: contrabando, compra de produtos piratas, colar em provas etc.

É espantoso ver que 94% dos respondentes jamais ofereceram dinheiro para agentes públicos que, para 87%, jamais o solicitaram. Assim como Nelson Rodrigues duvidava dos vídeos dos jogos, eu duvido desses números.

Mas, como disse, não ficamos mal na fita. Há uma generalizada e consistente presença de marcadores morais e éticos. A variabilidade não elimina a evidência de que o piso é alto. Cremos saber o que é a corrupção e onde e quando se apresenta. No mais, desconfiamos dos outros.

Com efeito, 82% das pessoas dizem não admitir mudar seu voto por dinheiro, embora 79% estejam certas de que os brasileiros em geral estão dispostos a fazê-lo. É evidente a assimetria, já antes apontada, entre autoavaliação ética e moral e expectativa do comportamento dos demais. Os “demais” -outras pessoas, o governo, os políticos etc.- parecem ser, afinal, sempre piores. Enfim, somos falíveis e desconfiados, pero no assustadores.


RENATO LESSA é professor de teoria e filosofia política no Iuperj e na Universidade Federal Fluminense e diretor-presidente do Instituto Ciência Hoje.

———-

Mais ricos assumem mais ilicitudes

Índices dos que estudaram mais e ganham mais são maiores do que números dos que têm menor escolaridade e renda

DA REDAÇÃO

Os mais ricos, mais escolarizados, mais jovens e os que moram nas regiões Norte e Centro-Oeste foram os que admitiram mais fortemente ter cometido alguma prática ilegítima, de acordo com a pesquisa Datafolha.

Dos entrevistados, 83% reconheceram ter cometido alguma irregularidade. Destes, 7% assumiram ter cometido 11 ou mais das 37 propostas na pesquisa e foram classificados como infratores graves ou pesados; 28% disseram ter cometido entre cinco e dez atos ilegítimos e são infratores médios; 49% reconheceram quatro ou menos atos desse porte e são os infratores leves.

Entre os mais ricos, 97% reconheceram ter cometidos atos ilegítimos, sendo, desses, 17% infratores graves, 42% médios e 37% leves. Entre os mais pobres, 76% afirmaram ter praticado ilicitudes, sendo 4% graves, 19% médias e 54% leves. O reconhecimento de infrações aumenta conforme cresce o rendimento do declarante. Entre os que ganham de 2 a 5 salários mínimos, a taxa é de 87% e, entre os que ganham de 5 a 10 mínimos, é de 95%.

Na estratificação por escolaridade, a admissão de ilicitudes chega a 93% entre os de nível superior, a 91% entre os de nível médio e a 74% entre os que têm o ensino fundamental.

Os jovens são os que mais assumem suas infrações: 93% entre 16 e 24 anos, 91% entre 25 e 34 anos, 82% entre 35 e 44 anos, 80% entre 45 e 59 anos e 59% entre os mais velhos.

No Norte/Centro-Oeste, a taxa é de 90%, contra 85% no Sudeste, 81% no Nordeste e 77% no Sul. Nas capitais, as taxas ficam em 87%, contra 81% no interior.

Por religião, os espíritas são os que assumem mais erros (97%), contra 82% dos evangélicos e 81% dos católicos. Entre os que se dizem sem religião, 92% admitiram ter cometido infrações. Neste grupo, estão os que mais assumiram faltas pesadas, com taxa de 12%.

Na divisão por sexo, 86% dos homens admitiram faltas, contra 80% das mulheres; 11% deles assumem faltas graves, contra 3% delas.

A taxa dos que admitem ilicitudes entre os que estão empregados ou trabalham é de 87%, 12 pontos acima dos 75% que estão desempregados ou não trabalham.

———-

A Escandinávia é aqui

Capacidade de discernimento e alta “consciência ética” reveladas pela pesquisa não dão ao brasileiro o benefício da dúvida, “apenas o peso da responsabilidade”, diz antropóloga

LÍVIA BARBOSA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Corrupção não é apenas tema de política, de polícia e de Justiça. É, também, um tema de cultura no sentido antropológico do termo. Diz respeito aos limites e às fronteiras classificatórias que as diferentes sociedades estabelecem entre as ações humanas e suas respectivas avaliações sobre estas. Isso nos leva diretamente a questões de moral e ética, pois ambas implicam teorizações e julgamentos sobre formas de se comportar.

A pesquisa Datafolha apresenta um vasto panorama do que nós, brasileiros, pensamos sobre corrupção e comportamentos éticos e moralmente corretos, além do que afirmamos fazer em diferentes situações.

O que de imediato nos salta à vista, a partir das respostas dadas, é a clareza que os brasileiros possuem sobre o que é ético e moralmente correto e sobre o que vem a ser corrupção. Apesar das profundas desigualdades econômicas e sociais que transpassam nossa sociedade, os brasileiros de diferentes faixas etárias, de gênero e de renda, níveis de escolaridade e filiações partidárias pensam igual e “corretamente” a respeito desses temas. Em um total de 37 perguntas, que variam entre pagar para obter uma carteira de motorista até oferecer uma caixinha por fora, passando por falsificação de documentos, 18 alcançaram taxas de pelo menos 90% de respostas iguais entre todos os grupos, algumas atingindo a marca de 97%; 13 ficaram entre 80% e 89% de concordância e 6 tiveram respostas que variaram entre 63% e 79%.

Deve-se ressaltar que essas taxas correspondem a respostas “absolutamente certas” do ponto de vista ético e moral no contexto cultural das sociedades contemporâneas e estabelecem uma clara distinção entre o público e o privado, classificando como “errada” a transgressão destas fronteiras.

As perguntas que obtiveram as porcentagens mais baixas tratam de “infrações” que podem ser consideradas “leves”, tais como comprar ingresso de cambistas e baixar música da internet, sinalizando para uma hierarquia moral entre os diferentes tipos de comportamento.

Quando os entrevistados são instados a responder sobre o próprio comportamento, em 39 questões, o quadro não se altera. Por exemplo, 94% dos respondentes afirmam que nunca falsificaram carteira de estudante para pagar meia-entrada, 70% nunca avançaram o sinal vermelho e 83% nunca pararam o carro em fila dupla.

Respostas “absolutamente certas”, proclamaria entusiasticamente qualquer apresentador de programa de TV de perguntas e respostas.

Contradição

Os dados sugerem a seguinte conclusão: ou vivemos na Escandinávia e não sabíamos e, portanto, devemos comemorar; ou o que fazemos na prática corresponde pouco ao que dizemos que fazemos e pensamos que deveria ser feito.

Consideremos os seguintes dados, entre outros que poderiam ser apresentados: a sonegação pode chegar a até R$ 200 bilhões anuais, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário; por causa da pirataria, 2 milhões de empregos formais deixam de ser criados, segundo a Frente Parlamentar contra a Pirataria; o Brasil está no 72º lugar entre 180 países em termos de corrupção, de acordo com a Transparência Internacional; ocorreram nada menos do que 225 escândalos políticos desde a década de 1980, todos devidamente esquecidos e arquivados no nosso imaginário e talvez na Justiça. Evidentemente, portanto, não estamos na Escandinávia.

Sobra-nos, assim, a espinhosa opção de admitirmos que nosso comportamento concreto conflita com as representações que fazemos de nós mesmos. Como, segundo as respostas dadas, sabemos discernir com clareza o que é ou não corrupção, o que é ética e moralmente correto independentemente do nosso grau de escolaridade, renda, de gênero e partido político, não temos sequer o benefício da dúvida, apenas o peso da responsabilidade.

Responsabilidade sobre o que fazemos e quem escolhemos para nos representar, que só aumenta quando imaginamos que políticos, servidores públicos e policiais -as figuras que mais povoam o imaginário da corrupção- não nasceram de chocadeira, não caíram de paraquedas em suas funções nem são de outro planeta.

Ao contrário, representam uma parte do que somos e provavelmente como muitos de nós se comportariam caso estivessem naquela posição, relativizando o próprio comportamento, transformando corrupção em favor, neutralizando a impessoalidade no trato da coisa pública e a meritocracia em favor do nepotismo.

Para quem pensa que corrupção e falta de ética são preocupações menores, não custa lembrar que elas matam como arma de fogo. É verdade que o sangue não escorre nas filas do INSS como no asfalto das grandes cidades.

As vidas se apagam silenciosamente e o branco do colarinho não traz as marcas do crime cometido. Mesmo liberados, por nossas autoridades máximas, a nos comportar como aqueles pegos com dólares na cueca e com caixa dois, com a justificativa de que “todos fazem”, isso em nada diminui nossas contradições nem nossa responsabilidade.


LÍVIA BARBOSA é antropóloga, diretora de pesquisa da ESPM e autora de “O Jeitinho Brasileiro” (ed. Campus).

———-

Corrupção é epidemia global

Levantamentos indicam percepção de ilícitos semelhante em outros países e sensação de que políticas públicas fracassam no combate à prática, que pode ser minimizada, mas não abolida

MARCOS FERNANDES
GONÇALVES DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA

É comum, no Brasil, as pessoas acharem que o país está entre os mais corruptos do mundo ou até mesmo, no nível do puro senso comum, que o Brasil “é o país mais corrupto do mundo”. Há também uma sensação disseminada de que nossas instituições são corruptas. A falta de informação sobre o tema, combinada com certa dose de ceticismo, baseado este, infelizmente, em ocorrências reais e lamentáveis na história recente, levam o brasileiro a acreditar em tais mitos.

Todavia, temos que lidar com fatos, com dados empíricos para trabalhar qualquer questão social e política. O que os dados e pesquisas, então, indicam sobre a corrupção, sua percepção e seus aparentes danos sobre as instituições em outros países? Mostram que neste quesito não estamos sós e a verdade está lá fora, qual seja, a corrupção é uma epidemia social.

Existem várias fontes de dados confiáveis para fazer uma avaliação de corrupção comparada entre países.

Duas delas são o “Barômetro da Corrupção Global” (GCB), desenvolvido anualmente pela Transparência Internacional (TI, ONG transnacional de combate à corrupção), e o Banco Mundial, com o banco de dados de governança e ações anticorrupção.

A primeira fonte de dados é desenvolvida com base em amostras estatisticamente robustas, confiáveis, de pessoas comuns, que relataram suas percepções e experiências com corrupção numa amostra atual de 73.132 indivíduos, envolvendo 69 países diversos em termos de nível de desenvolvimento, por exemplo Rússia, Dinamarca, Estados Unidos, Turquia, Islândia, Croácia, Líbano, Uganda, Argentina e Paquistão.

A segunda está calcada em pesquisas mais aprofundadas que relacionam reforma do Estado, governo eletrônico, estruturas de governança e impactos da corrupção.

Observa-se que a cobrança de propinas, especialmente associadas à “pequena corrupção” (suborno de servidores como policial, contínuo e fiscal, com quantias pequenas), é endêmica nos países estudados. Há dados que indicam um aumento da cobrança de propinas pequenas em 10% com relação a pesquisas passadas.

Há ainda uma percepção generalizada de que as políticas de combate à corrupção realmente não funcionam.

Esse ponto é importante, pois relata indiretamente uma descrença na lei, nas instituições formais do Estado e nos aparelhos de controle e fiscalização (e de investigação e punição).

Descrédito

É significativo a este respeito o caso da Coreia do Sul, onde 81% da amostra da população não acredita nas políticas de combate à corrupção em todos os níveis, da pequena corrupção à “grande corrupção”, aquela ligada ao financiamento de campanhas, partidos políticos e ao poder político de fato. O caso argentino é semelhante: 81% não acreditam que se farão políticas de combate à corrupção. Em Israel, 87% não acreditam nas ações de governo para o combate à corrupção.

Esses dados possuem um viés, é claro. Nesses países, recentes escândalos de corrupção podem ter moldado a percepção e as crenças das pessoas.

Mas os dados são consistentes ao longo dos anos.

Em segundo lugar, a crise de 2008 aparentemente aumentou a desconfiança nas corporações. De fato, desde a fraude da [companhia norte-americana] Enron, prenúncio de uma crise moral do capitalismo, a confiança das pessoas, em vários países, nas corporações (as principais instituições do capitalismo) despencou.

Há um dado novo revelado pelo GCB 2009: os indivíduos entrevistados declaram em massa que, como consumidores, dariam um “prêmio” para empresas de boa conduta. Aparentemente, a tendência de o consumidor rastrear a cadeia de produção considerando aspectos sociais e de sustentabilidade chega, digamos, à “sustentabilidade moral”.

Em terceiro lugar, as percepções sobre as instituições formais (partidos, Estado, polícia etc.) continuam negativas e isso é devidamente quantificado. Aqui a questão é interessante, pois o Brasil não é tão diferente de outros países, sejam mais ricos ou pobres, desenvolvidos ou subdesenvolvidos ou emergentes de grande porte (Índia e Rússia -não há dados para a China).

Na Índia, por exemplo, 58% da população considera os políticos entre os agentes públicos mais corruptos.

As pesquisas do Banco Mundial apontam para o mesmo problema: a corrupção mina a crença nas instituições formais. As pesquisas e estudos de caso mostram soluções para o problema. Mas as soluções devem se basear em premissas básicas sobre o comportamento humano.

Pesquisas em neuroeconomia, neuroética, ética experimental e psicologia moral indicam que, infelizmente, na média, as pessoas corroboram o ditado: “Todo mundo tem seu preço”.

O desenho prático de qualquer política de combate à corrupção deve levar em conta o que as ciências comportamentais têm a dizer sobre nós mesmos e como as regras devem ser construídas para que o jogo social se desenrole de forma a minimizar algo que sempre existiu: a corrupção.


MARCOS FERNANDES GONÇALVES DA SILVA é economista e coordenador do Centro de Estudos dos Processos de Decisão da Fundação Getulio Vargas.

———-

Em Salto, 4 de Outubro de 2009

O que faz de um objeto uma obra de arte?

Interessante a resposta de Jorge Coli na Folha de hoje (04/10/2009):

“Quem decide que uma pintura, uma escultura, um copo d’água é arte?

O artista, se tem algum reconhecimento, ou seja, se alguém acreditar que ele possui esse poder transformador.

O crítico, que celebra e convence, ou que despreza e condena (a fórmula negativa mais forte, a única que de fato anula o feitiço, se alguém acreditar nela, está claro, é: "Isso não é arte". Muito usada, em escritos e em conversas, de preferência num tom de superioridade, por críticos seguros de si, contentes de vestirem a casaca e a cartola do mágico).

As galerias, os museus, que aceitam tal ou qual obra e recusam outras.

O mercado, que gradua seus valores segundo a intensidade das crenças.”

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0410200912.htm 

Pretendo voltar ao tema…

Mas me lembro desde já de algo relevante. Ayn Rand, que tinha idéias muito bem definidas sobre arte, não poupava a suposta arte que habita nossos museus de (assim chamada) arte moderna. Criou em uma de suas newsletters uma seção de horrores. Numa das edições contou que havia desaparecido de um museu uma famosa peça. Ninguém imaginava o que pudesse ter acontecido, pois as portas não estavam arrombadas, nem havia qualquer outro indício de roubo. Desesperada, a Polícia perguntou ao janitor que limpava o museu à noite se ele não havia visto a peça desaparecida. “Vi, sim”, disse ele… “E joguei fora. Pensei que era lixo…”

Isso sugere que o fato de uma objeto estar numa galeria ou num museu não garante que é obra de arte… Tampouco o garante o fato de algum louco estar disposto a pagar milhões de dólares pelo objeto. Sobrariam, como critérios sugeridos pelo Jorge Coli, o próprio artista e o crítico. 

Eu me pergunto: e a coisa em si, o objeto que se pretende seja arte? Sua natureza ou suas características não têm nada que ver com essa questão???

Tudo isso me faz lembrar também de uma famosa controvérsia de meu querido Monteiro Lobato com… quem mesmo??? 🙂 Tem gente que fica arrepiada só de eu mencionar Lobato nesse contexto…

Em Salto, 4 de Outubro de 2009.

A vida (ou um protesto contra os deuses falsificados)

Fazia semanas que não escrevia nada aqui, até que algumas notícias sobre o Vice-Presidente José de Alencar me fizeram quebrar o silêncio.

O silêncio não era só decorrente de falta de inspiração. No último mês, às vezes até tive inspiração. Tenho uns dois posts na seção Drafts/Rascunhos para provar…

O que me aborrece é a encheção de saco depois que eu escrevo algo. Sinto-me como se vivesse no campus de uma universidade americana politicamente correta – PC de A a Z. Qualquer coisa que eu escrevo aborrece ou irrita a alguém, que se julga visado, atingido, provocado, ultrajado. Por isso, concordei em deixar os frutos de minhas inspiração na seção Drafts/Rascunhos, esperando por dias menos hostis…

Não que eu, no passado, tenha dado bola para reclamações e encheções de saco. Não. Nunca dei. O problema é que agora estou envolvido em um processo prolongado e irritante de separação e tudo que eu escrevo pode ser usado contra mim na Justiça… “Eis, Meritíssimo, como o autor (ou réu) é insensível, egoísta, …”.

Confesso: enche o saco. Quando não é a ex, são os filhos, tentando preservar a ex… Quando não é nem a ex nem os filhos, são os ex-colegas da UNICAMP (que Deus se  apiade deles – tenho certeza de que não sabem conjugar o verbo “apiedar-se”, por isso o uso aqui). 

A vida por vezes é complicada… Não queria ter ex-nada. Queria poder escrever quando me vem a inspiração…

Arre!!!

Mas achei algo que me interessa e que, acredito (posso estar errado), não vai ofender ninguém.

Acabei de ler na VEJA de 12 de Agosto (amanhã!), nas fls. 148-151, algo interessante sobre o acaso. É isso mesmo, sobre o acaso, a chance, o aleatório, o não determinado, o imprevisível.

Diz o artigo ali disponibilizado (termo horrível, mas vá lá) que a Apple, fabricante do invencível iPod, teve de fazer um ajuste no seu popular produto. Como todos sabem, o iPod, da mesma forma que qualquer outro tocador de músicas em formato mp3, dá ao usuário a opção de ouvir suas músicas em ordem (?) aleatória. Ordem aleatória, convenhamos, é desordem – é nenhuma ordem. É a seqüência, bem… a seqüência que vier…

Acontece que, quando você ouve suas músicas em (des)ordem aleatória, pode muito bem dar-se o caso de você, não importa quantas músicas tenha no seu aparelhinho, ouvir a mesma música duas vezes quase em seguida – ou até mesmo exatamente em seguida.

Ora, os usuários do iPod protestaram. Se eu ouço a mesma – notem bem: A MESMA – música duas vezes em seguida, ou quase em seguida, essa porcaria não pode estar tocando as músicas aleatoriamente… Afinal de contas, eu tenho quatro mil mp3s nessa porcaria, não é possível que eu ouça, no modo aleatório, a mesma música duas vezes em seguida, – ou quase.

(Confesso que minha tendência seria me referir ao iPod como essa b… – mas dessa vez seria a minha mulher a protestar contra o meu uso de profanidade (vale dizer, palavrão – no caso, palavrinho) – e, convenhamos, as considerações da mulher da gente têm muito peso…)

Enfim… Diante dos protestos, a Apple decidiu mudar o algoritmo, de modo a evitar que, num processo aleatório, a mesma música fosse tocada duas vezes em seguida, ou quase em seguida, antes que todas as outras fossem tocadas…

Como diz o artigo da VEJA: “A Apple … reprogramou os aparelhos [iPods] para evitar repetições”.

Que vergonha, Steve Jobs!!! Se você tivesse sempre sucumbido à pressão popular a gente não teria hoje Macs, iPods, iTouchs, iPhones.

Como você mesmo reconheceu, os iPods e iTouchs agora operam, no modo aleatório, de forma menos aleatória do que deveria ser o caso, apenas para que possam parecer mais aleatórios… Ou seja: você permitiu que seus brinquedos abandonassem a verdadeira aleatoridade apenas para que pudessem parecer (falsamente) mais aleatórios.

Ou seja: você abandonou a realidade pela aparência – e assim, no meu livro, se tornou um fake.

Contra isso, o meu protesto, ainda que solitário. E olhe que eu até gostava de você…

Convenhamos… A vida é muito menos aleatória do que imaginamos. Isso não quer dizer que há mais ordem nas coisas do que nós imaginamos. Quer dizer, isto sim, que há menos desordem (caos) nas coisas do que nós imaginamos.

Azar dos que propõem teorias da complexidade e do caos. A ordem é mais natural do que parece…

Mas a turba não se conforma com isso… Pressiona os deuses terrenos (a saber, os Steve Jobs da vida) para que tornem a vida menos aleatória do que o não terreno a fez… E os deuses terrenos, talvez por vaidade, sucumbem à pressão, e tentam se fazer mais deuses do que o próprio. E assim se mostram apenas deuses falsificados…

Em São Paulo, 11 de Agosto de 2009.

Problemas e transdisciplinaridade

A divisão entre filosofia e ciência, bem como a divisão da filosofia em áreas especializadas, ou da ciência em várias ciências específicas (ou do conhecimento em várias disciplinas), não reflete, necessariamente, distinções existentes na realidade.

Os problemas que confrontamos não se encaixam naturalmente como filosóficos ou científicos, ou, ainda que possam ser chamados de, digamos, científicos, não vêm rotulados como físicos, ou químicos, ou biológicos, ou humanos.

Nós os dividimos nessas várias categorias por conveniência.

Houve tempo (na época de Aristóteles, por exemplo) em que o filósofo tratava do que hoje chamamos de filosofia, ciência, etc. Mesmo no século XVIII a ciência ainda era chamada de filosofia natural – e o que chamamos hoje de filosofia era chamada de filosofia moral.

Logo, a maior parte dos problemas que nos confrontam são, para usar as categorias de hoje, transdisciplinares. É só aplicando a eles categorias artificiais que os “disciplinamos”. Não me parece necessário conhecer toda a filosofia ou toda a ciência, ou todas as disciplinas, para reconhecer um problema como trandisciplinar.

Em São Paulo, 20 de Maio de 2009

Suicídio e eutanásia a pedido vs eutanásia não solicitada, infanticídio e aborto

Refletindo sobre o último post que publiquei, decidi, além de colocar a questão em discussão, “colocar a minha cara para bater”, como em geral se diz, me posicionando – ou, pelo menos, procurando me posicionar.

É desnecessário dizer que a questão é sem dúvida complicada. Para tentar resolvê-la, precisamos procurar ou criar princípios gerais defensáveis que norteiem a nossa convicção e, se for o caso, a nossa decisão.

o O o

Eis alguns comentários iniciais que a colocação da questão em discussão provocou em sites ou áreas de sites sob o meu controle:

Minha amiga Jurema Sampaio disse no Facebook:

“Essas questões de cultura X direitos humanitários são tão delicadas, né? Eu realmente não saberia defender nem um, nem outro lado da questão com consistência… Particularmente e por motivos totalmente pessoais eu sou a favor da vida!”

Eva Alves, comentou aqui neste space:

“Muito complexa tal questão. Eu votaria pelo o amor. Liberdade!!! Que utopia…”

Alguém que assina Fabiana, escrevendo sob o username de Gustavo Lopes Cardoso, comentou aqui neste space:

“Para mim, que tenho um filho com hidrocefalia de 9 anos, e que no período de 24 de Janeiro de 2008 a Janeiro de 2009 passou por 12 (doze) cirurgias no cérebro, essa reação de tirar a criança do hospital é inaceitável. Eles querem que todos nasçam perfeitos. É perfeição tirar a vida de uma criança? O que é entendido sobre perfeição?”

o O o

PRIMEIRO PRINCÍPIO

Bem, concordando com a Jurema, eu também sou, em princípio, a favor da vida. Só que meu posicionamento a favor da vida não é absoluto e radical: ele vem com qualificações, que vou procurar esclarecer ao longo deste post. Essas qualificações são necessárias porque sou radicalmente a favor da liberdade pessoal, discordando, portanto, da Eva Alves de que a liberdade seja uma utopia (embora reconhecendo que seja muito difícil ser radicalmente livre). E, discordando um pouco da Fabiana, eu gostaria que todos nascessem perfeitos – entendendo “perfeitos” como “perfeitamente normais”. Mais sobre isso adiante.

Estou convicto de que deva haver, no caso de seres humanos, uma presunção em favor da vida. (Essa presunção a meu ver não deve existir, a meu ver, no caso de animais criados para serem abatidos e servir de alimentação para os seres humanos e no caso de animais que podem nos fazer mal ou incomodar bastante, como cobras, escorpiões, ratos, baratas, mosquitos e pernilongos. Para mim o ser humano está numa categoria à parte).

Mas essa presunção pela vida é algo semelhante à presunção pela inocência em alguém acusado de um crime. Até que julgado, mesmo alguém preso em flagrante ou “com a boca na botija” deve ser presumido inocente. Mas depois do julgamento, essa presunção pode ser derrotada. No caso da vida, acho que há circunstâncias em que a presunção, depois de exame cuidadoso, pode ser derrotada, e que concluamos que, naquele caso, a morte é preferível. Esse eu designaria como o meu primeiro princípio: ele afirma o direito de o ser humano, dentro de sua liberdade, optar por encerrar a sua vida. 

SEGUNDO PRINCÍPIO

Meu segundo princípio elabora sobre o anterior, considerando que questões como essa – envolvidas em casos de suicídio e eutanásia – são questões extrememente pessoais, a serem enfrentadas e decididas pelos indivíduos que são sujeitos da questão, com base em seus princípios, seus valores e seus critérios de decisão. Isso quer dizer que essas questões não devem ser resolvidas por terceiros, isto é, pela família, pelo grupo social, etc. com apelo a valores culturais compartilhados. É o indivíduo que decide se vai se matar. A eutanásia é uma forma de suicídio assistido, que tem lugar quando a pessoa que quer se suicidar não tem condições de fazê-lo sozinha.

A BUSCA POR UM TERCEIRO PRINCÍPIO

Meu terceiro princípio vai além e tem de ser buscado no contexto em que os sujeitos da questão não têm condições de analisar a questão e tomar uma decisão. Isto se dá quando se trata de pessoas que estão em coma profundo (em geral há muito tempo e sem perspectiva de voltarem a viver normalmente), bem como no caso de doentes mentais graves que se tornaram incapazes de decidir, no caso de crianças, e, naturalmente, no caso de fetos humanos, que são seres vivos que ainda ainda nem nasceram. (A questão do momento em que o óvulo fecundado se torna um ser humano é parte do problema a ser resolvido nessa questão).

O caso da indiazinha relatado pelo UOL, em reportagem transcrita em meu post anterior, parece-me ser desse tipo.  A reportagem e os entrevistados falam em infanticídio. Mas creio que se trata, na realidade, de uma eutanásia não solicitada, que, se realizada, resultará, naturalmente, na morte intencional da criança, e, portanto, de alguma forma, em infanticídio. Mas distingo claramente esse caso, em que, parece-me, se trata de uma eutanásia praticada em alguém que não tem condições de decidir e que, pelo que tudo indica, não tem condições de sobreviver normalmente, de casos como os que acontecem na China em que crianças absolutamente normais são colocadas à morte, ou abandonadas para que morram, apenas porque são, digamos, do sexo errado, isto é, do sexo geralmente não desejado pelos pais naquela cultura, que é o feminino. (Não uso o termo “gênero” para me referir a pessoas: para mim, pessoas têm sexo; quem tem gênero são palavras).

Que princípio invocar aqui nesse caso ou em casos como esse? Qual seria meu terceiro princípio? Confesso que encontro dificuldades aqui que não encontro no caso dos outros dois princípios já enunciados. Mas não vou, por causa disso, deixar de procurar um princípio…

Primeira Observação

Em primeiro lugar, estou convicto de que devemos fazer uma distinção entre:

(a) casos de pessoas, adultos ou crianças, portadores de problemas (“imperfeições” de fabricação ou adquiridas), em geral físicos, mas admitindo a possibilidade de que também sejam mentais, em relação às quais (pessoas) a melhor opinião do dia nos garante que elas não têm condições de viver (ou voltar a viver) uma “vida normal”; e

(b) casos (a regra em abortos, mas que se aplica também a infanticídio) em que fetos e crianças absolutamente normais são condenados à morte ou impedidos de viver apenas porque não são desejados.

Esta primeira observação apenas enfatiza a necessidade de fazer essa distinção e de lidar com cada caso [(a) e (b)] separadamente.

Antes de ir adiante e lidar, separadamente, com (a) e com (b), quero fazer dois comentários sobre a terminologia que usei nessa primeira observação que acabei de fazer:

Primeiro. Coloquei o termo “imperfeições” entre aspas para tentar me safar das críticas. Havia usado inicialmente o termo “defeitos”, mas, depois de comentário da Silvana, optei por usar “imperfeições”, para discutir a questão da “perfeição”.  Estou perfeitamente consciente de que as aspas e a troca de “defeitos” por “imperfeições” talvez não sejam suficientes e as críticas venham de qualquer jeito. Solicito, porém, que procuremos discutir a questões desarmados e, se possível, desapaixonados, embora reconheça que isso seja difícil.

Segundo. Também coloquei a expressão “vida normal” entre aspas por causa da notória dificuldade de definir o que seja uma vida normal. A nossa vida neste planeta teria sido muito mais pobre se algumas pessoas (em geral artistas) que estavam muito longe do padrão de normalidade tivessem tido suas vidas ceifadas por estarem fora da curva da normalidade (em especial na área mental).

Segunda Observação

Em segundo lugar, vou tratar, aqui nesta Segunda Obseervação, de apenas parte daquilo que foi previsto sob (a), na Primeira Observação. Nas demais observações tratarei do restante. Aqui nesta Segunda Observação elaborarei um esboço do que poderia ser o Terceiro Princípio.

Estou disposto a admitir que, no caso de pessoas (adultos ou crianças, bem como de fetos, não prejulgando se são pessoas) portadoras de problemas de natureza física que afetam a sua consciência, em relação às quais a melhor opinião do dia nos garante que não têm condições de viver uma vida normal e consciente, terceiros por elas responsáveis tenham o direito de decidir que devam ser objeto de eutanásia (não solicitada, evidentemente) ou aborto.

Estou me referindo aqui a casos de pessoas que estão em coma profundo considerado, pela melhor opinião do dia, irreversível, ou de crianças anencéfalas, ou de fetos com problemas congênitos que inviabilizem uma vida normal e consciente.

Talvez o caso da indiazinha coberto na reportagem do UOL se encaixe aqui. Não sei suficiente sobre ele. Se se encaixar, eu estaria disposto a admitir que os pais da menina tomem essa difícil decisão – e que a lei os proteja de acusações de ação criminosa.

Terceira Observação

Em terceiro lugar, reluto em admitir o princípio esboçado na Segunda Observação a casos de fetos com problemas físicos sérios, detectados antes do nascimento, mas que não impeçam a sua vida consciente depois do nascimento (como muitos dos casos das vítimas de Talidomida), e a casos de fetos com problemas mentais (incluindo a Síndrome de Down), também detectados antes do nascimento, que podem prejudicar a vida consciente normal depois do nascimento mas não impedi-la de todo.

Apenas para esclarecer, nestes casos a opção a discutir seria o aborto, não a eutanásia.

Quarta Observação

Não admito, de forma alguma, a aplicação do princípio esboçado na Segunda Observação a pessoas que perderam, ou nunca tiveram, alguns de seus membros ou alguns dos seus órgãos do sentidos.

Por mais lamentáveis que sejam essas situações elas são claramente distintas.

Apenas para esclarecer, nestes casos a opção a discutir seria tanto a eutanásia como o aborto, dependendo do caso.

Quinta Observação

Em quinto lugar, reluto (ainda mais do que no caso da Terceira Observação) em aplicar o princípio esboçado na Segunda Observação a casos de gravidezes não desejadas em que o feto não apresenta nenhum problema.

(A opção a discutir aqui seria o aborto, não a eutanásia.)

Sexta Observação

Em sexto lugar, recuso-me totalmente a aplicar o princípio esboçado na Terceira Observação a casos como os que acontecem na China em que uma criança perfeitamente normal e já nascida é abandonada para morrer ou mesmo ativamente assassinada simplesmente porque é, digamos, do sexo considerado errado. Para mim, aqui se passou do limite do discutível.

Sétima Observação

Em sétimo lugar, e por fim, nos casos em que afirmei relutar em admitir a aplicação do princípio esboçado na Terceira Observação (mas não nos casos em que afirmei me recusar a admitir a aplicação desse princípio), eu me recusaria a condenar as pessoas encarregadas de tomar a decisão, respeitando plenamente uma decisão diferente da minha. Na realidade, apesar de dizer que reluto em admitir a aplicação do princípio esboçado nesses casos, declarei essa relutância em teoria, sem estar confrontado com um caso real e concreto em que a decisão caberia a mim, e, por isso, devo respeitar a dificuldade daqueles que têm de tomar essa decisão.

o O o

Acho que, por enquanto, é isso…

Em São Paulo, 18 de Abril de 2009

Dogmatismo e Doutrinação

Embora esteja perfeitamente ciente das dificuldades envolvidas no empreendimento, não hesito em defender a tese de que a pessoa dogmática (no sentido em que venho usando a expressão neste meu blog Liberal Space) em geral foi doutrinada em algum momento de seu desenvolvimento – e não conseguiu, posteriormente, se livrar dos efeitos perniciosos da doutrinação.

Uma das dificuldades na defesa dessa tese está nos próprios conceitos envolvidos: dogmatismo e doutrinação.

Nos últimos posts (e em diversos outros, anteriores) venho discutindo o conceito de dogmatismo – relacionando-o com os conceitos de verdade, orgulho e intolerância.

Agora vou discutir um pouco o conceito de doutrinação, usando, para isso, material que elaborei a partir de 1975, quando comecei a pesquisar a questão da Educação vs Doutrinação na UNICAMP. Essa foi minha primeira área de pesquisa na UNICAMP, o que mostra, pelo menos, a persistência de alguns interesses meus…

Tem havido muita controvérsia, nos últimos tempos, em relação ao conceito de doutrinação. Não vou, aqui, tentar solucionar todas as disputas e divergências: vou apenas me situar dentro da controvérsia, apresentando e defendendo um conceito de doutrinação e mostrando como o conceito de doutrinação aqui caracterizado se relaciona com o meu conceito de educação.

Não tenho nenhuma dúvida, hoje, de que a educação é um processo amplo de desenvolvimento humano que abrange não só a dimensão cognitiva das pessoas mas também sua dimensão física ou psico-motora, ativa ou empreendedora, afetiva ou emocional, social ou interpessoal, moral ou ética, e, até mesmo, sua espiritual. Pode ter até faltado alguma dimensão aqui, mas, se faltou, a sua ausência dificilmente afetará o curso da argumentação.

Quando se trata de educação, dentro dessa visão, mesmo que nos restrinjamos à dimensão estritamente cognitiva do processo, o foco está no desenvolvimento de competências e habilidades de natureza cognitiva (pensar, raciocinar, argumentar, imaginar, etc.), não na tentativa de incutir ou inculcar na pessoa pontos de vista específicos, com o objetivo de que se tornem crenças suas.

Quando falo em doutrinação, porém, o escopo é bem mais restrito. Aqui não se trata do desenvolvimento do ser humano em suas múltiplas dimensões, nem mesmo de seu desenvolvimento na dimensão cognitiva: trata-se, simplesmente, de um processo que visa conseguir que a pessoa venha a adotar determinados pontos de vista, isto é, que venha a acreditar neles – mais (e pior) ainda: que venha a acreditar neles de forma inabalável, não importa que evidências e argumentos possam existir ou vir a aparecer…

O principal objeto da doutrinação são, portanto, pontos de vista, ideologias, visões políticas ou religiosas do mundo, etc. – ou seja, aquilo que se convencionou chamar de doutrinas. Explicarei adiante por que digo “principal objeto da doutrinação”: faço-o porque estou convicto de que até mesmo teorias científicas podem ser objeto de doutrinação.

Atitudes, hábitos, sentimentos, etc., por outro lado, claramente não podem ser objetos de doutrinação. Parece-me absurdo dizer que alguém foi doutrinado a adotar uma atitude passiva diante da violência, por exemplo, ou a tomar banho diariamente, ou a assumir um sentimento de solidariedade com os desvalidos, ou qualquer coisa desse tipo. Alguém pode ter sido condicionado a adotar uma atitude passiva diante da violência, ou a banhar-se diariamente, ou a sentir-se solidário, mas condicionamento e doutrinação não são a mesma coisa. Condicionamento tem que haver com comportamento, atitudes, hábitos, sentimentos. Doutrinação tem que haver com pontos de vista, ideologias, visões políticas ou religiosas do mundo, etc. (ou, excepcionalmente, com teorias – até mesmo científicas).

Alguém pode, portanto, ser doutrinado no ponto de vista de que se deva tomar uma atitude passiva diante da violência – mas isto já é outra coisa: estamos lidando, agora, com um ponto de vista e não com uma atitude (embora a atitude possa vir a decorrer do ponto de vista). Não há, por exemplo, garantia de que quem acredite que se deva tomar uma atitude passiva diante da violência venha a assumir esta atitude quando confrontado com a violência: há sempre a possibilidade de que haja incoerência entre o pensamento e comportamento de uma pessoa, e já os gregos nos alertavam acerca da “akrasia”, ou fraqueza da vontade.

Parece haver pouca dúvida, portanto, de que o objeto da doutrinação são pontos de vista, ideologias, visões políticas ou religiosas do mundo, etc., excluindo-se da esfera da doutrinação até mesmo competências e habilidades cognitivas ou intelectuais.

Uma segunda consideração geral que devo fazer acerca do conceito de doutrinação é a de que, muito embora a educação possa ocorrer de modo não-intencional, a doutrinação parece ser sempre intencional. Além disso, a educação pode ocorrer, e freqüentemente ocorre, em situações que não envolvem ensino: seu vínculo é com a aprendizagem, não necessariamente com o ensino, e não há dúvida de que pode haver, e freqüentemente há, aprendizagens que não são decorrentes do ensino. A doutrinação, porém, parece sempre ocorrer em situações, mesmo fora da escola, que podem ser caracterizadas como de ensino: alguém supostamente sabe alguma coisa (acredita em alguma coisa) e quer transmitir esse suposto saber a outra pessoa, para que esta também o adote.

Na mesma linha, parece-me fazer bastante sentido dizer que alguém educou-se, isto é, aprendeu determinadas coisas, ou desenvolver determinadas competências e habilidades, não me parece fazer o menor sentido afirmar que alguém doutrinou-se: sempre optamos por dizer que alguém foi doutrinado.

Feitas essas colocações preliminares, estou em condições de conceituar, mais precisamente, a doutrinação: doutrinação é o processo através do qual uma pessoa ensina a outra determinados pontos de vista, ideologias, visões políticas e religiosas de mundo, etc., com a intenção de que esses pontos de vista (etc.) se tornem crenças, isto é, sejam aceitos pela pessoa que é objeto do processo doutrinatório – até mesmo não obstante evidências e argumentos que possam existir ou vir a aparecer. (No caso da doutrinação, a “vítima” é sempre objeto, nunca sujeito, do processo).

Isso posto, passo a discutir rapidamente os três critérios de doutrinação que têm sido sugeridos na literatura pedagógica: conteúdos, métodos, intenções e conseqüências.

Desde que, como acabei de observar, doutrinação tem que haver apenas com pontos de vista, ideologias, visões de mundo, etc., a tese de que o critério que permite demarcar a doutrinação da educação é o conteúdo, isto é, o objeto específico do processo, faz certo sentido.

Por outro lado, também faz sentido a tese de que a educação faz uso de métodos abertos e liberais, em que se propõem, analisam e discutem livremente idéias e abordagens alternativas e se faz um exame crítico e rigoroso dos fundamentos epistemológicos das idéias e abordagens em questão, com a expectativa de que a escolha cabe a quem está se educando, enquanto a doutrinação, posto que tem por objetivo conseguir que a pessoa aceite (acredite em) determinados pontos de vista, ideologias, visões de mundo, etc., faz uso de métodos fechados e iliberais, em que, freqüentemente, se omitem abordagens e alternativas que podem conflitar com esse objetivo (ou, se elas são mencionadas, o são já com as “respostas” a elas previamente elaboradas e empacotadas…)

Mas, a meu ver, o que realmente distingue a educação da doutrinação é basicamente a intenção das pessoas que conduzem o processo.

Essa tese tem implicações importantes:

Primeiro, não são apenas pontos de vista, ideologias e visões de mundo que podem ser objeto de doutrinação: até mesmo teorias científicas podem sê-lo, se são ensinadas com a intenção de que sejam aceitas (cridas) como a verdade final, irrespectivamente de evidências e argumentos.

Segundo, até mesmo ideologias e visões políticas e religiosas do mundo podem fazer parte de um processo educativo, se a intenção é discuti-las, com o objetivo de compreendê-las, com base nas evidências e argumentos que levaram determinadas pessoas a propô-las um dia – e não simplesmente conseguir que sejam aceitas (cridas).

Isto quer dizer que não há conteúdos que estejam inevitavelmente fadados a serem objeto de doutrinação, como sugerem alguns, embora alguns conteúdos sejam, talvez, mais preferidos por doutrinadores do que outros. Com esta tomada de posição me contraponho àqueles que afirmam que em áreas como religião, moralidade, e política não há como evitar a doutrinação e que em áreas como a física e a astronomia não faz sentido falar-se em doutrinação, pois os que assim afirmam privilegiam o conteúdo como critério básico e fundamental de diferenciação entre educação e doutrinação. Dada minha conceituação de educação e doutrinação, tanto podem a religião, a moralidade e a política fazer parte de um processo verdadeiramente educacional, como podem a física e a astronomia fazer parte de um processo tipicamente doutrinacional, como bem mostram algumas pesquisas recentes na área da história e sociologia da ciência, notadamente o trabalho de Thomas S. Kuhn.

Por fim, é evidente que seja de esperar que as consequências do processo educacional e doutrinacional sejam diferentes. Em condições normais, é de esperar que a educação, se bem sucedida, resulte numa mente e numa atitude aberta, enquanto a doutrinação resulte numa mente e numa atitude fechada, visto que seu objetivo é a pura e simples aceitação de pontos de vista, ideologias, visão de mundo, teorias, etc.

É de esperar, consequentemente, que, em decorrência da educação, as crianças (ou as pessoas, em geral, porque adultos também continuam permanente a se educar) venham a ter uma mente e uma atitude mais aberta e flexível, que se preocupe com a análise e o exame das evidências e dos argumentos, condicionando sua aceitação ou não de determinados pontos de vista, ideologias, visões de mundo, ou mesmo teorias científicas, a esse exame das evidências e dos argumentos. Também é de esperar que, em decorrência da doutrinação, as crianças (ou as pessoas em geral, porque adulto também pode ser doutrinado, como os partidos políticos e as igrejas muito bem sabem) venham a ter uma mente mais fechada, uma atitude mais dogmática e menos crítica, um apego mais emocional do que evidencial às suas convicções, pois lhe foi ensinado preocupar-se mais com certas doutrinas ou teorias do que com a análise crítica, isenta de preconceitos, das evidências e dos argumentos que podem dar, ou não, sustentação a essas doutrinas e teorias.

É de esperar que a pessoa doutrinada acabe por assumir a seguinte atitude: “É nisto que acredito: vamos ver agora se encontro alguma evidência ou argumento para fundamentar minhas crenças”. Com essa atitude, é possível que suas razões para aceitar suas crenças não passem de racionalizações.

Concluo, portanto, chamando a atenção para o fato de que a educação é um processo que tem por objetivo a expansão de capacidades, a ampliação de horizontes, a abertura da mente, o incentivo à livre opção dos alunos, após análise e exame críticos das evidências e dos argumentos, enquanto a doutrinação é um processo que tem por objetivo a transmissão e mera aceitação de pontos de vista, ideologias, visões de mundo, teorias, etc., a redução de horizontes, a limitação de opções (frequentemente a uma só), o fechamento da mente, o “desprivilegiamento” das evidências e dos argumentos em favor da crença, o foco na persuasão e não no livre exame.

Assim, na educação busca-se, humildemente, a verdade, através do estudo e do exame das evidências e dos argumentos, enquanto na doutrinação quem ensina coloca-se na posição do orgulhoso possuidor da verdade – e espera que o doutrinado venha a adotar uma postura semelhante…

Desde que, na busca da verdade, não se pode negligenciar nenhum aspecto da evidência ou do argumento que possa ser relevante, a educação é tolerante, pois mesmo as críticas e a evidência negativa – diria mesmo que principalmente essas – podem contribuir para que nos aproximemos da verdade. Na medida, porém, em que a verdade já é considerada uma possessão, não há mais por que busca-la, por que tolerar pontos de vista alternativos e conflitantes, pois na medida em que esses divergem da “verdade” só podem ser errôneos ou falsos, e quem os propõe só pode ser ignorante ou mal-itencionado.

Daí a conexão, já mostrada nos posts anteriores, entre a crença na posse da verdade e a intolerância, mesmo a repressão, de pontos de vista divergentes, que ocorre quando há doutrinação.

Invertendo um pouco o foto, poderia dizer, num espírito popperiano, que a educação se preocupa muito mais em dar ao indivíduo condições de não ser facilmente persuadido, de evitar o erro, a falsidade, e, assim, aproximar-se, cada vez mais, da verdade, enquanto a doutrinação se preocupa muito mais com a persuasão, com a transmissão de crenças que se supõem verdadeiras (ou, mesmo, em alguns casos piores de doutrinação, crenças em que o próprio doutrinador não acredita, mas que, por algum motivo, deseja incutir nos outros – vide a triste figura do Grande Inquisidor em Irmãos Karamazov).

Diante do que foi dito fica claro por que a doutrinação é indesejável e moralmente censurável. Quem doutrina não respeita a liberdade de pensamento e de escolha de seus alunos, procurando incutir crenças em suas mentes e não lhes dando condições de livremente analisar e examinar as evidências e os argumentos, decidindo, então, por si próprios; quem doutrina desrespeita os cânones de racionalidade e objetividade, tratando questões abertas como se fossem fechadas, questões incertas como se fossem certas, enunciados falsos ou não demonstrados como verdadeiros como se fossem verdades acima de qualquer suspeita.

É verdade que esta tomada de posição contra à doutrinação já implica, ao mesmo tempo, um comprometimento com certos valores e ideais básicos, como o da liberdade de pensamento e de escolha dos alunos (e de qualquer pessoa), o da racionalidade, etc. É importante que se reconheça isto para que não se incorra no erro de pensar que a adoção desses valores e ideais não precisa ser defensável, e, mais que isto, defendida, através da argumentação. Argumentos contra a adoção desses valores e ideais precisam ser cuidadosamente analisados para que, ao propor a tese da indesejabilidade e falta de apoio moral da doutrinação, não o façamos de modo a imitar os doutrinadores, isto é, tratando como fechada uma questão que é realmente aberta.

Quando a esquerda ainda não estava totalmente enraizada no poder, aqui no Brasil, admitiu, embora a contragosto, que nossa última Constituição, de 1988 (logo depois do Período Militar), em seu Art. 206, Incisos II e III, preconizasse que, na escola, houvesse “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber”, e que isso se desse em um contexto de “pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas”, tanto no caso de instituições públicas como até mesmo no caso de instituições privadas. (A Constituição Federal de 1988 não deu, portanto, nem mesmo a instituições educacionais confessionais, o direito de doutrinar na escola).

Agora que a esquerda se acha totalmente enraizada no poder, no nível federal, aqui no Brasil, já se acha à vontade para propor uma educação “partidária” — não, necessariamente, no sentido de uma educação que promove a agenda de um partido político, mas, sim, no sentido de uma educação que toma partido, que não explora, em um clima de liberdade, e num contexto de “pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas”, todas as ideias, mas que tenta impor ou incutir uma espécie de “catecismo” político. . .

Quem sabe em um dia em que um governo de direita, ou, pelo menos, liberal, volte ao poder, e proponha uma escola sem partidarismo, a esquerda venha novamente a admitir, como medo de ser obliterada no processo, a liberdade de aprender em um contexto de pluralidade de ideias.

Em São Paulo, 3 de Abril de 2009, com pequena revisão e o acréscimo de três parágrafos, no final, em 11 de Novembro de 2018.

NOTA de 11/11/2018:

Este artigo é parte de uma série de cinco artigos que começou há quase dez anos neste blog Liberal Space e que defende o Liberalismo Clássico e uma Educação Liberal, que leve o Liberalismo Clássico a sério, combatendo uma educação que não merece o nome, pois é mais doutrinação do que educação, que foi moldada para combater o Liberalismo Clássico e para promover uma educação de viés socialista, quando não comunistizante.

São estes os cinco artigos:

O mais antigo dos artigos, “Dogmatismo e Doutrinação“, foi publicado em 3/4/2009, há quase dez anos, no endereço https://liberal.space/2009/04/03/dogmatismo-e-doutrinacao/.

Em seguida, “‘Educação Sem Doutrinação’ e ‘Escolas Sem Partido’“, que foi publicado em 10/4/2010, no endereço https://liberal.space/2010/04/10/educacao-sem-doutrinacao-e-escolas-sem-partido/.

O terceiro artigo, “Doutrinação e Educação: A Esquerda Pretende Argumentar que Doutrinar não Passa de um Jeito ‘Crítico’ de Educar“, que foi publicado em 28/5/2016, no endereço https://liberal.space/2016/05/28/doutrinacao-e-educacao-a-esquerda-pretende-argumentar-que-doutrinar-nao-passa-de-um-jeito-critico-de-educar/.

O quarto artigo, “A Controvérsia Acerca do ‘Escola Sem Partido’ Continua: PL 867/2015“, publicado em 14/5/2018, no endereço https://liberal.space/2018/05/14/a-controversia-acerca-do-escola-sem-partido-continua/.

Por fim, o quinto artigo, “A Escola e a Liberdade”, publicado em 10/11/2018, no endereço https://liberal.space/2018/11/10/a-escola-e-a-liberdade/.

Eduardo CHAVES

Verdade, dogmatismo e intolerância (mais uma vez)

Nos últimos posts (e em alguns outros anteriores) tratei da questão da verdade: da sua busca (em geral humilde) e da crença (em geral orgulhosa) em sua posse.

A busca da verdade é em geral humilde porque só busca quem não possui – e não possuir algo tão importante quanto a verdade só pode produzir no despossuidor um sentimento de humildade.

A convicção de que se está de posse da verdade, entretanto, implica que a busca da verdade terminou, posto que ela foi encontrada. Se encontramos a verdade e estamos de posse dela, não há por que continuar a buscá-la.

Por isso, a crença na posse da verdade em geral gera o dogmatismo: se estou de posse da verdade, eu sei o que é a verdade. Assim, em vez de procurá-la, basta que eu a anuncie, repita, pregue…

O dogmatismo, por sua vez, acaba por engendrar o orgulho, em geral presunçoso: tanta gente procura a verdade e não a acha, e aqui estou eu de posse dela! Eu devo estar fazendo algo certo para merecê-la! A posse da verdade se dá, no entender do seu presumido possuidor, de uma de duas maneiras: ou porque ele, estando a procurar a verdade, encontrou-a, por seus próprios méritos, ou porque, sem que ele a procurasse, a verdade lhe foi por alguma razão revelada! Ambas as maneiras geram orgulho e presunção.

Se estou de posse da verdade, por que pretender humildade, por que não me orgulhar disso, por que não declarar aos quatro ventos que eu tenho a verdade e os outros, que de mim discordam, simplesmente estão errados (ou por ignorância, ou por ma fé, ou por teimosia)?

Por fim, o dogmatismo e o orgulho geram, o mais das vezes a intolerância: se estou de posse da verdade, por que perder tempo discutindo questões que já considero resolvidas? Por que, na verdade, tolerar o erro dos que discordam de mim? Se eu tiver como obrigar os outros a concordar comigo, que possuo a verdade, seja pelo uso da força, seja pelo uso da manipulação dissimulada, eu devo fazê-lo – é assim que raciocinam os dogmáticos.

Quando se está buscando a verdade, o erro até se justifica, porque, errando, podemos eventualmente chegar mais próximos da verdade (vide Popper, mencionado a este respeito no penúltimo post). Mas quando se acredita estar de posse da verdade, o erro deixa de ter papel importante: por que, então, tolerá-lo?

Assim, a crença na posse da verdade leva ao dogmatismo, ao orgulho, e, finalmente, à intolerância.

o O o

Ludwig Wittgenstein, em seu famoso livro de aforismos, Philosophical Investigations, sugeriu que os diferentes universos de discurso em que vivemos são incomensuráveis – i.e., não podem ser comparados e cotejados com outros. Isso porque, segundo ele, cada universo de discurso é, como se fosse, um “language game”, um jogo de linguagem com suas próprias regras. Dentro do jogo, é sempre possível discutir se uma regra foi violada ou não. Mas não é possível, de dentro de um jogo, avaliar as regras do outro – nem ficar fora de todo jogo e comparar um jogo com outro.

Assim, da mesma forma que não posso criticar o jogo de xadrez a partir do jogo de damas, muito menos a partir do jogo de ping pong, não posso criticar o jogo da religião a partir do jogo da ciência ou do jogo da filosofia… Cada jogo tem suas próprias regras, e cada um de nós pode jogar diferentes jogos em diferentes momentos – mas só pode jogar um jogo de cada vez. Quando estamos jogando um determinado jogo, ficamos presos – encasulados, engaiolados – dentro dele.

Discordo dessa visão de Wittsgenstein, porque estou convicto de que não só é possível criticar um universo de discurso a partir de outro, como também é possível alcançar um certo ponto neutro e objetivo a partir do qual posso comparar os méritos e deméritos relativos de dois ou mais universos de discurso. Abrir mão dessa convicção é abrir mão da possibilidade de a razão interferir em nossos juizos.

Creio que Wittgenstein, ao chamar os diferentes universos de discurso de jogos pré-julgou o relacionamento que eles têm, ou podem ter, uns com os outros. Além disso, jogos são atividades que são definidas arbitrariamente. Não têm uma relação com a realidade física ou social que possa ser analisada pela razão. Os universos de discurso têm – ou pretendem ter.

o O o

O que eu acho curioso, mas totalmente injustificado, no discurso dos dogmáticos é o fato de que, a partir de seu universo de discurso, sentem-se totalmente em liberdade para criticar outros universos de discurso. Um cristão evangélico, digamos da igreja Assembléia de Deus, não tem o menor problema em criticar diversas doutrinas da Igreja Católica que ele rejeita. Em geral tem argumentos prontos para criticar, por exemplo, as doutrinas da infalibilidade papal, da mediação de Maria e dos santos, etc. No entanto, em regra não tem o menor interesse em sequer conhecer quais as críticas que os católicos fazem a algumas doutrinas favoritas suas, como, por exemplo, a do batismo do Espírito Santo e a da glossolalia (falar em línguas estranhas). O católico, em geral, comporta-se de maneira semelhante em relação às outras variantes do Cristianismo.

Ou seja, para os dogmáticos, Wittgenstein está errado na medida em que é possível criticar um universo de linguagem (os das demais pessoas) a partir do próprio (o meu)… No entanto, os dogmáticos raramente se interessam em conhecer as críticas que os demais universos de linguagem fazem ao seu… Defendem, assim, uma análise crítica de uma mão só… – não uma discussão crítica de duas mãos!

o O o

Em Inglês há uma expressão interessante  “to think out of the box”: pensar fora da caixa – a caixa sendo as gaiolinhas que presentam os universos de discurso em que transitamos. A vida racional pressupõe e exige que sejamos capazes de fazer isso. Wittgenstein afirmou que isso é impossível – e, conseqüentemente, negou a possibilidade da operação da razão na avaliação de nossos universos de discurso. Para ele, a razão só opera dentro de um universo de discurso, ou language game – não entre eles.

A maior parte dos dogmáticos religiosos é wittgensteiniana nesse sentido… Dadas suas premissas, conseguem argumentar até de forma bastante racional. Mas são incapazes de analisar e avaliar racionalmente suas premissas. Se a premissa é a de que a Bíblia é a palavra inerrante de Deus e a única regra de fé e prática, raciocinam bem dentro da premissa, tentando compatibilizar textos bíblicos que parecem incompatíveis uns com os outros, tentando mostrar que são verdadeiros mesmo textos que claramente parecem falsos, tentando justificar a aceitação de textos que claramente parecem ter conotação ou conseqüências imorais… Mas não conseguem colocar suas premissas em cheque – muitas vezes recusando-se até mesmo a ler textos ou autores que poderiam levá-los a fazer isso… 

Por ora, é isso. Continuo depois.

Em São Paulo, 2 de Abrild de 2009