A desenvoltura com que o governo gasta o dinheiro alheio

O governo não gera ou produz riquezas. Todo o dinheiro de que dispõe é confiscado de nós, cidadãos, que pagamos tributos diversos: impostos (i.e., tributos não vinculados), taxas (i.e., tributos pagos em decorrência de uma prestação específica de serviços que afeta diretamente o usuário), e contribuições (tributos destinados a finalidades específicas determinadas por lei). Nenhum tostão vai para o caixa do governo (o Tesouro Nacional) sem que tenha passado antes pelo seu ou pelo meu bolso.

Isto sendo assim, seria de esperar que o governo tivesse um pouco de cerimônia em relação aos seus gastos. Afinal de contas, está gastando riquezas na criação ou geração das quais não teve absolutamente nenhuma participação, mas que simplesmente confiscou daqueles que a geraram ou produziram.

Deixo de lado, por um momento, os gastos do governo que beneficiam pessoas que são parte do governo, para me concentrar nos gastos que o governo faz em benefício próprio.

A temporada está aberta, neste ano eleitoral, para a concessão de aumentos para funcionários públicos. Este é um gasto do governo para consigo mesmo. O governo, e em especial os funcionários beneficiados, em geral pretendem que funcionários mais bem pagos prestam melhores serviços. Mentira. Os funcionários públicos recebem aumentos e continuam a funcionar (por isso são chamados de funcionários) como donos do mundo, sem nenhum sentido de responsabilidade para com os cidadãos. Ponha-se um imbecil qualquer atrás de um guichê de uma repartição pública e ele se acha um ser superior, investido de poderes, e no direito de espezinhar os que necessitam de sua atenção e de seus serviços. Adora fazê-lo esperar na fila, por exemplo, enquanto fofoca com os colegas de guichê, ou enquanto, como se fosse rei, se levanta e vai mijar no banheiro.

Mas há mais e mais sérios gastos do nosso confiscado dinheiro que é feito em benefício do próprio governo, vale dizer, dos ocupantes de cargos no governo. Por que o Lulla precisa de lençóis de linho ou setim, ou de toalhas de banho e roupão do mais caro algodão egípcio? Se o dinheiro gasto para comprar essas coisas fosse o dele, alguém acredita que ele o gastaria nesses luxos? Mesmo com todo o dinheiro que ele já amealhou depois que chegou à presidência, ou que repassou para o Lullinha, alguém acha que ele iria gastar essa grana toda em algodão egípcio?

O segredo todo em torno dos Cartões de Crédito Corporativos é apenas a ponta do iceberg dessa gastança toda. A imprensa acaba focando besteirinhas, como oito reais gastos num lanche barato na praia. O que é de admirar, nesse caso, é a pobreza de espírito de um ministro que paga oito reais com cartão!!! O buraco é bem mais em cima! Há gastos muito maiores, com coisas muitíssimo mais luxuosas do que uma tapioca. Por isso o governo trata os gastos como se fossem segredo de estado. Não são. Mas são explosivos, porque na hora que o povão descobrir que King Lulla está gastando dinheiro público com as coisas em que gasta, Deus sabe o que vai acontecer, tenha ou não o presidente o tão falado carisma.

E olhem que nem cheguei a falar da roubalheira…

É de esperar que quem não tem a menor cerimônia em gastar o dinheiro dos outros em proveito próprio não vá ter muita cerimônia quando se trata de gastar esse dinheiro em benefício de outrem. O governo dá aumentos para o Bolsa Família e para as demais bolsas com absoluta desfaçatez. Como se isso não bastasse, dá subsídios a torto e a direito para diversos grupos de interesse. E, por fim, resolve ajudar países da América Latina ou mesmo da África, como se nós fôssemos um país rico — e, mais significativamente, como se o dinheiro não saísse do seu e do meu bolso.

Comecei a refletir sobre filosofia política como um liberal. À medida que vejo o que acontece no Brasil, vou mais e mais me encaminhando para um libertarianismo quase anárquico.

Em São Paulo, 8 de Junho de 2008.

Educação compulsória e educação estatal

Não sou daqueles que, quando os filhos eram pequenos, se julgava dono deles. E nem de longe me considero dono de meus netos. Converso com eles, negocio com eles, como se fossem gente grande — mesmo com o Marcelo, que tem apenas três aninhos.

Se nunca me considerei dono de meus filhos e meus netos, rejeito, enfaticamente, qualquer tese que pressuponha, assuma, ou sugira que o Estado é dono dos meus filhos e tenha o direito (quanto mais o dever) de determinar se e como devem ser educados.

Considero a educação mais do que importante: ela é o processo mediante o qual nós, que nascemos incompetentes, inautônomos (dependentes) e irresponsáveis, nos tornamos, no devido tempo, adultos competentes, autônomos e responsáveis. Se não passarmos por esse processo, vamos crescer (crescer é um processo meramente biológico, que acontece de forma virtualmente automática, desde que sejamos alimentados) e nos tornar parasitas totalmente incompetentes, incapazes de assumir responsabilidade sobre nossa vida e nosso destino: ou alguém (o Estado?) cuidará de nós, ou morreremos à míngua.

Isso posto, pergunto: se nem mesmo nós, pais e avôs, nos consideramos donos de nossos filhos e netos, de onde surge a idéia de que o Estado tem o direito — ou, mais do que isso, o dever — de decidir que nossos filhos e netos devem ser educados dessa ou daquela maneira, nessa ou naquela instituição, durante no mínimo tantos anos (e a partir de determinada idade), de decidir quantas horas por semana ou por ano são sentenciados a permanecer na escola, de definir que coisas devem aprender na escola e como, de escolher quem deve ajudá-los a aprender, de punir os pais que desejam educar eles próprios seus filhos, fora das escolas autorizadas a funcionar pelo Estado?

A noção de uma educação pública, regulada e até mesmo oferecida pelo Estado, é, junto com a noção de uma saúde pública, o último resquício de um socialismo estatizante que, em tudo mais, está totalmente desmoralizado. Na realidade, a educação e a saúde públicas também estão totalmente desmoralizadas — só que a esquerda conseguiu convencer a população a acreditar que podem ser recuperadas, se investirmos mais recursos (isto é, se pagarmos ainda mais impostos) — haja vista a tentativa imoral de ressuscitar a CPMF com outro nome.

O estado socializante arrecada uma quantidade inacreditável de recursos para sustentar o anacronismo de uma educação e uma saúde pública, oferece à população educação e saúde de péssima qualidade, que obriga os cidadãos que tem recursos a pagar pela educação e pela saúde uma segunda vez em instituições privadas, e usa a má qualidade dos serviços que oferece para tentar persuadir os trouxas de que a qualidade deles só vai melhorar se desembolsarmos ainda mais dinheiro.

A escolarização não deve ser compulsória. O Estado não tem o direito, muito menos o dever, de obrigar quem quer que seja a colocar seus filhos na escola. E a educação não deve ser estatal. Isto quer dizer que, havendo escolas, o Estado não deve nem financiá-las nem administrá-las nem, muito menos, definir o que deverá ser ensinado nelas, por quanto tempo, de que forma, ou por quem.

O estado desastroso da educação pública neste país, que tenta doutrinar nossas crianças numa ideologia ultrapassada e já totalmente refutada pelos fatos, é resultado dessa interferência indevida do Estado na educação. As revistas VEJA e Época já denunciaram os livros que o governo compra para colocar nas escolas públicas (assim decretando que determinados autores se tornem sucesso de vendas do dia para a noite, e milionários, exclusivamente porque declamam em piloto automático o catecismo da esquerda).

A esquerda sempre defendeu, quando chegou ao poder, a tese de que as nossas crianças são propriedade do Estado, para serem transformados em bucha de canhão em suas guerras e revoluções ou para se tornar dóceis papagios que repetem o ideário esquerdista, ou, então, robôs que, incapazes de pensar por si próprios, cumprem as ordens de sua "vanguarda" e fazem greve, ou passeatas e demonstrações, ao ouvir o apito de seus líderes, por mais corruptos que sejam. 

Ou os brasileiros recuperam a guarda de seus filhos, impensadamente colocada nas mãos do Estado, e os educam foram da tutela do Estado, ou este país não tem futuro.

Em Campinas, 8 de Junho de 2008.

Sabedoria vs utopia

Li, recentemente, na Introdução de E. J. Payne à famosa obra de Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, publicada originalmente em 1790, que, segundo Burke, "sabedoria consiste, em grau não desprezível, em saber que quantidade de mal é preciso admitir e tolerar" (p.26 na edição do Liberty Fund). Ele invoca Montesquieu: "Il ne faut pas tout corriger" ("Não se deve tentar corrigir tudo"). E invoca também Hooker, que diz: "Both in civil and in ecclesiastical polity there are, and will be always, evils which no art of man can cure, breaches and leaks more than man’s art hath hands to stop" ("Em organizações civis e eclesiásticas sempre há, e haverá sempre, males que nenhuma arte humana conseguirá curar, falhas e rombos em maior número do que a arte humana conseguirá corrigir").

Essa tese me fez lembrar de uma oração famosa de Reinhold Niebuhr, oração que até uma atéia como Ayn Rand achava extremamente significativa (se, naturalmente, "imanentizada"). Dizia Niebuhr: "Ó Deus, dá-me coragem para mudar o que pode ser mudado, paciência para suportar o que não pode, e sabedoria para saber distinguir um do outro".

Em suma, tanto Burke (com Montesquieu e Hooker) como Niebuhr reconhecem que (a) há males e falhas na sociedade (algo, de resto, indiscutível), e que (b) é impossível eliminá-los todos. Em outras palavras, é parte inarredável de nosso destino, como seres humanos vivendo em sociedade, conviver com situações que consideramos erradas ou falhas, do ponto de visto moral (ou da justiça). Se formos sábios, dizem eles, reconheceremos que alguns desses males devem ser tolerados (Burke), que não é possível corrigir tudo (Montesquieu), que, por maior que seja a nossa "arte", não temos como curar todos os males e corrigir todas as falhas (Hooker), ou que há coisas que não podem ser mudadas e que devem, portanto, ser encaradas com resignação e paciência.

O ponto chave da questão é identificar esses males — ou, nas palavras de Niebuhr, saber distinguir entre o que pode (e, por conseguimente, se houver boas razões, deve) ser mudado e o que não pode ser mudado (por mais que desejemos que as coisas fossem diferentes).

Não resta dúvida de que há males em nossa sociedade que, embora considerados inarredáveis no passado, hoje estão virtualmente eliminados. A pesquisa médico-científica, por exemplo, eliminou muitos males que antes pareciam inevitáveis.

Quer isso dizer, porém, que devemos acreditar na nossa capacidade de, oportunamente, eliminar todos os males e, assim, conseqüentemente, construir utopias, como os céus do livro de Apocalipse, em que dos olhos de todos se eliminará toda lágrima?

A diferença entre o liberalismo, de um lado, e as esquerdas do outro, está, em grande medida, na resposta a essa questão.

Os liberais acham que, por maior que seja o progresso que tenhamos alcançado até aqui na melhoria das condições de vida em sociedade, sempre haverá "males" que será impossível eliminar sem causar males ainda maiores.

As esquerdas parecem achar que um mundo drasticamente diferente, igualitário, sem pobreza, sem sofrimento, e ainda livre, é possível.

Em Campinas, 8 de Junho de 2008

Consenso, paz e verdade

Li um dia desses em algum lugar uma frase que me pareceu lapidar: consensos podem contribuir para a paz, mas raramente nos levam mais próximos da verdade. A busca da verdade em geral leva a cotejos e confrontos, a análises e críticas impiedosas, que raramente contribuem para uma convivência pacífica.

Essa constatação simples pressupõe, de certo modo, uma série de questões importantes da filosofia da ciência do século XX.

Karl Popper, cuja obra Logik der Forschung, publicada originalmente em 1934 (e subseqüentemente traduzida para o Inglês como The Logic of Scientific Discovery, e para o Português como A Lógica da Pesquisa), mostrou que a busca da verdade se alicerça num racionalismo crítico — que é definido como uma tentativa séria e sistemática de refutar ou falsificar nossas próprias idéias e, naturalmente, as dos outros. Tentar refutar ou falsificar idéias é tentar encontros erros ou falhas nas pressuposições, nas premissas, nas evidências, e nos argumentos aduzidos em favor de uma tese (hipótese, teoria, ponto de vista, etc.).

Como a vida do próprio Popper atesta, "this is better said than done". Popper era extremamente zeloso de suas convicções, brigava até com amigos quando estes o criticavam, alienou seus melhores alunos por não admitir que realmente questionassem seus pontos de vista… Eu sei. Meu orientador de doutorado, William Warren Bartley III, foi orientadando dele, e, por algum tempo, seu discípulo amado – apenas para se tornar um inimigo quando publicou um artigo ousando criticar alguns aspectos da obra do mestre. (Depois se reconciliaram). Ou seja, a história de Popper atesta que sua receita para a busca da verdade (que eu considero a melhor receita que jamais se sugeriu) trouxe tudo menos paz em seu círculo acadêmico e de amigos.

Mas o fato de que sua receita trouxe conflito em vez de paz não a desmerece como tese sobre como se deve dar a busca da verdade. Pelo contrário, fortalece essa tese.

Há, na vida, aqueles que sacrificam a busca da verdade em favor da convivência, das amizades duradouras, das alianças políticas — ou seja, da paz. E há aqueles que privilegiam a busca da verdade, ainda que ela perturbe a paz, prejudique amizades históricas, os impeça de fazer alianças com aqueles de quem seriamente discordam.

A política, com "p" minúsculo me enoja. Não consigo engulir as alianças feitas só para produzir convivência pacífica. Hilary Clinton, que acabou com Barack Obama durante as primárias, agora o apóia e elogia. Mas não é preciso ir para outro país para encontrar exemplos dessa tendência. Basta olhar os aliados do PT, hoje – ou a aliança Serra – Quércia. Essas alianças mostram que a busca da verdade não tem lugar na política (com "p" minúsculo). Se era verdade (como Clinton dizia há dias) que Obama era incapaz e inexperiente para presidir os EUA, como é que ela agora recomenda que o seu eleitorado vote nele?

Uma boa parte do eleitorado de Clinton provavelmente não seguirá a sua sugestão. Pesquisa hoje revelada nos jornais brasileiros mostra que pelo menos 25% dos que votaram em Clinton nas primárias não vão transferir seus votos para Obama: ou vão votar em McCain, ou em algum candidato independente, ou simplesmente não vão comparecer às urnas (o voto nos EUA não é obrigatório). Fazem bem eles. Votando em McCain, ou simplesmente deixando de votar em Obama, estarão contribuindo mais para a sanidade política do país do que virando bandeira do dia para a noite.

Em Campinas, 8 de Junho de 2008

Jennifer Tong

Estou voltando mais uma vez de Taiwan. Desta vez rodei bastante: Taipei, Sun Moon Lake, Taichung, Changhua, Hsinchu e Taipei de novo. Gostei muito de Sun Moon Lake — mas vou deixar para escrever sobre o local — a mais visitada atração turística de Taiwan — uma outra hora.

Aqui quero prestar uma homenagem a uma pessoa extremamente interessante que conheci: Jennifer Tong, “my personal tour guide” durante a viagem a Sun Moon Lake. No ano passado, quando visitei Hualien e o Taroco State Park, fui com um “personal tour guide”. Mas ele não falava muito bem o Inglês e, aqui entre nós, não tinha um papo interessante. Desta vez, porém, saí premiado. Esperava na frente do hotel The Tango, em Taipei, quando chegou uma senhora pequena, magrinha, com idade próxima da minha, com cabelo de trancinhas, como o cabelo de meninhas, só que coberto com um pano, ao estilo das camponesas que trabalham ao sol. Seus dentes, amarelados e todos fora de linha. Carregava apenas uma sacolinha de plástico e uma bolsa. Era minha guia. Atrasada quase meia hora. Minha primeira reação foi mais ou menos um “Ai, meu Deus, o que foi que me arrumaram desta vez?”… Mas quando ela falou comigo, desculpando-se pelo atraso, tive minha primeira surpresa: seu Inglês era perfeito, com um leve sotaque britânico… Entrei no taxi com ela e começamos a conversar — e foi surpresa atrás de surpresa…

Seu nome era Jennifer Tong.

Ainda no carro perguntei a ela onde havia aprendido o Inglês. Ela disse: “O senhor provavelmente não vai acreditar”. Eu lhe disse, naturalmente, que não imaginava por que não iria acreditar no que ela me dissesse… Mas eu estava errado. A história foi longa. Quando percebi que seria longa, perguntei a ela quanto tempo tínhamos para pegar o trem — ela havia chegado com cerca de meia hora de atraso. Ela me disse: “Temos várias opções. Não devemos nos estressar. Há um trem às 8h45, que acho que já perdemos. Mas há outro às 9h05, outros às 9h30… Não temos problema. Além disso, nosso roteiro e nossos horários somos nós que fazemos. Portanto, fique tranqüilo. Disse OK e continuei a ouvir a história dela. Nasceu em Taipei e, segundo me disse, nunca saiu de lá a não ser para uma rápida viagem a Cingapura, acompanhando uns comerciantes de flores. Só estudou Inglês no Ensino Médio, três anos — e o pai era seu professor. Aprendeu bastante com ele, me disse, mas o seu domínio da língua inglesa não vinha daí: vinha de uma vida anterior. Em uma prévia encarnação, me garantiu, havia vivido na Inglaterra — mais especificamente, em Cambridge.

Parou, tomou fôlego, e me perguntou: “O senhor acredita?”

O que é que um cético como eu diz numa hora dessas sem ser deselegante? Tentei sair pela tangente e lhe disse algo assim: “Não tenho razão nenhuma para duvidar de você e tenho certeza de que você acredita no que está me dizendo”. Mas ela não deixou por menos: “Mas o senhor acredita que aquilo que eu estou dizendo é verdade?” Não tive saída. Disse-lhe que não acreditava na reencarnação e que, portanto, achava muito difícil acreditar na história dela. “Mas, então”, continuou ela, “como o senhor explica o meu Inglês?”. Disse-lhe que não tinha a menor idéia de como explicar — mas que tinha de admitir que o Inglês era perfeito e tinha um leve sotaque britânico.

Ela continuou a sua história. A essas alturas já havíamos chegado à estação ferroviária, tomado o trem de alta velocidade, e estávamos cruzando a costa leste de Taiwan, rumo a Taichung.

Desde criança, continuou ela, sonhava com um determinado lugar. Explicou-me em detalhes o lugar, o estilo das casas, sua cor, as árvores, uma taverna, o dono da taverna, as bebidas que havia atrás do balcão, etc. Sempre tinha esse sonho. Quase toda noite. Tanto que contou o sonho para as amigas mais chegadas, que ficaram tão familiarizadas com o lugar virtual como ela mesma…

Um dia, me disse, uma amiga dessas amigas suas voi passear pela Inglaterra e, na volta, lhe disse: “Você tem de ver isso” — e lhe mostrou fotos de Cambridge, idênticas, nos mínimos detalhes, a tudo que ela via em seu sonho recorrente… Para Jennifer, não podia haver outra explicação: em vida anterior, havia sido vivido em Cambridge, e, por isso, conhecia tão bem a cidade, apesar de nunca ter estado lá. E por isso falava tão bem o Inglês, apesar de ter estudado pouco e de nunca ter vivido, ou mesmo ido passear, em países que falavam Inglês, exceto, naturalmente, Cingapura, onde se fala um Inglês bastante diferente do falado em Cambridge…

Como essa, houve outras histórias, sempre interessantes. O tempo passou rápido. Para tudo ela tinha uma explicação. E eu não tinha como verificar se as explicações eram verídicas — mas nem tinha interesse em fazê-lo. As histórias eram suficientemente interessantes em si mesmas, ainda que fictivas.

Em Chicago, 17 de Maio de 2008

Megalivrarias. shoppings, conjuntos de cinemas…

Por que é que livrarias, quando aumentaram de tamanho, se tornaram megalivrarias, enquanto os mercados se tornaram supermercados ou até mesmo hipermercados?

Pergunta boba que me ocorreu ontem quando visitei, pela primeira vez, a magnífica mega Livraria Cultura, inaugurada no Shopping Iguatemi Campinas no início de Abril (dia 9, pelo que fui informado), quando eu estava ainda no Vietnam. Ontem, apesar da chuva, decidi que iria conhecê-la. Por causa do feriado do Dia de Trabalho, o shopping estava insuportavelmente cheio. Os sete andares de estacionamentos cobertos estavam lotados e, assim, depois de perder uns 20 minutos tentando estacionar lá, resolvi estacionar a céu aberto, na chuva, lá perto do Restaurante Montana Grill, do Chitãozinho e Xororó.

Os corredores do shopping estavam intransitáveis e, inevitável, a Livraria Cultura superlotada. Estava linda — mas ainda com problemas de atendimento, de localização de livros, etc. Deixo ao Pedro Herz a sugestão de que mande imprimir um pequeno folheto — um mapinha — com a descrição de onde se localizam as várias áreas da livraria. Isso é necessário porque, como a do Conjunto Nacional, em São Paulo, a Cultura de Campinas ocupa três andares parcialmente vazados, com escadas. A decoração é de muito bom gosto e o acervo, enorme — destacando-se, para o meu gosto, os livros em língua estrangeira (Inglês, Francês e Espanhol).

Com a inauguração da Mega-Cultura, o Shopping Iguatemi Campinas, que já tem uma Mega-Saraiva, recentemente ampliada e redecorada para enfrentar a concorrência, se torna o melhor espaço que eu conheço para comprar livros, DVDs, CDs, etc. (A Cultura não vende computadores, software, videogames: a Mega-Saraiva, sim). Não sei de nenhum outro shopping no Brasil que possua uma Mega-Saraiva e uma Mega-Cultura — juntas, oferecem, creio eu, algo perto de cinco mil metros quadrados de espaço para os amantes do livro, filmes e músicas.

Os shoppings mais finos de Campinas ficam todos numa seqüência de uns poucos quilômetros ao longo do trecho urbano da Rodovia Dom Pedro I, que liga Campinas a Jacareí, ou, se preferem, que liga as rodovias dos Bandeirantes, Anhangüera, e, depois, a Fernão Dias, às rodovias Presidente Dutra e Governador Carvalho Pinto. Há o Iguatemi, o mais antigo, depois o Galleria Shopping (que também pertence à holding Iguatemi, e onde opera uma Minimega-Siciliano, agora comprada pela Saraiva), e o maior de todos, e mais recente, o Parque Dom Pedro Shopping (do grupo Sonae-Sierra, que, com seus 110 mil m2 e cerca de 380 lojas se jacta de ser "o maior centro de moda, cultura e lazer da América Latina"), com a Fnac (para a Fnac, dispensa-se o "mega", pois ela, desde quando criada em Paris, sempre existiu apenas em dimensões grandes, e vende telefones, câmeras, computadores, software, videogames, etc.).

Fico me lembrando da época em que era difícil achar livrarias bem abastecidas e com bom atendimento. Eu ia sempre à Livraria Ciências Humanas, em São Paulo, um muquifo no porão de um prédio na Sete de Abril, ou à Livraria Internacional, um outro muquifo em um andar alto na Líbero Badaró — ou, aqui em Campinas, a Livraria Pontes, do Reinaldo Pontes (que era um muquifinho, depois ampliado para três ou quatro andares "fininhos"). Depois, em São Paulo, surgiu a Brasiliense, na Barão de Itapetininga, de bom tamanho, mas ainda com um cara tradicional. Depois surgiu a rede de livrarias Siciliano, agora comprada pela Saraiva. A Saraiva, que era editora, abriu livrarias, também criou uma rede, depois criou as primeiras mega-lojas em Shoppings (seguindo o modelo da Borders e da Barnes & Noble, americanas, com coffee shop e tudo), torna-se agora, com a compra da rede Siciliano, a maior rede de livrarias no Brasil. A Cultura tem poucas lojas (mas está se expandindo — vide adiante o link para a entrevista de Pedro Herz), a Fnac, também, mas são lojas fabulosas, com as quais a Saraiva vai ter de concorrer pesado se quiser manter sua fatia de mercado. Vai ser interessante observar a concorrência das duas mega-livrarias no Shopping Iguatemi Campinas. Não invejo a sorte de meu amigo Eurípedes Avelino Menezes, gerente da Mega-Saraiva ali.

Enfim, para aqueles que, como eu, só contam entre seus vícios os livros, os DVDs e os CDs, Campinas está de parabéns com suas três mega-livrarias e sua minimega-Siciliano. Vamos ver o que a Saraiva resolve fazer com a Siciliano do Galeria, agora que comprou a rede. A Sicialiano era, originalmente, no Shopping Iguatemi. Quando a Saraiva apareceu com sua mega-loja, todas as demais livrarias, a Sicialiano inclusive, migraram para outros shoppings, a Siciliano indo para o simpático, mas pequeno, Galleria.

Deve haver alguma livraria no Campinas Shopping, que fica ao lado da Anhangüera e da Santos Dumont, quase do outro lado da cidade ("do lado pobre"), mas não sei qual é. Por causa da proximidade e riqueza de opções dos outros três shoppings mais próximos de mim, quase nunca vou ao Campinas Shopping, que é relativamente grande (dez cinemas, etc.).

Por falar em cinemas, os shoppings também mataram os cinemas que ficavam fora deles. O Iguatemi tem oito salas de cinema (CineMark) e está expandindo o setor (aparentemente criando mais duas). O Galleria tem, se não me engano, seis (CineSystem). O Parque Dom Pedro, exagerado como sempre, tem quinze (KinoPlex). O Shopping Campinas, dez (Box Cinemas). Só aí cerca de quarenta. Há mais alguns mini-shoppings na cidade que possuem algumas poucas salas também (Ouro Verde, na Rua Conceição; Jaraguá, na Avenida Brasil; Unimart, na Av. John Boyd Dunlop). O Ventura Mall, pequeno, pertinho de minha casa, não tem cinema. Mas ao todo, são quase cinqüenta salas de projeção dentro de shoppings. Ninguém, fora, consegue concorrer com tamanha variedade de opções.

Verifique os sites dos principais shoppings de Campinas:

Shopping Iguatemi Campinas (o mais chique e antigo):
http://www.iguatemicampinas.com.br/ 

Galleria Shopping (o mais simpático):
www.galleria.com.br/

Parque Dom Pedro Shopping (o maior):
http://www.parquedpedro.com.br/ 

Campinas Shopping (talvez o mais popular):
http://www.campinasshopping.com.br/ 

Verifique os sites das principais mega-livrarias:

Livraria Cultura:
http://livrariacultra.com.br/

Livraria Saraiva:
http://www.livrariasaraiva.com.br/ 

Livraria Siciliano:
http://www.siciliano.com.br/

Livraria Fnac:
http://www.fnac.com.br/

Ah, quase me esqueço! A Livraria Nobel também tem uma rede —
esta, de franquias. Meu amigo Nivaldo Cordeiro tem uma loja, no mini-shopping bem em frente ao Conjunto Nacional, em São Paulo, naquele prédio que pegou fogo há vários anos. E minha amiga Jurema Sampaio-Ralha me garante que há uma Livraria Nobel no Galleria Shopping, da qual realmente não me lembrava.

 

O site da Livraria Nobel é:

http://www.livrarianobel.com.br/

Por fim, verifique também a interessante entrevista de Pedro Herz, proprietário das Livrarias Culturas, dada ao UOL Business em Setembro de 2003, em que ele anuncia a intenção de criar uma nova mega-livraria por ano:

http://www1.uol.com.br/economia/business/entrevista20030912.shl

Em Campinas, 3 de Maio de 2008

A Interferência do Estado na Vida Privada: O Casamento

Li um artigo de capa interessante sobre o divórcio na revista semanal Newsweek que está nas bancas dos Estados Unidos esta semana. No que segue vou tecer algumas considerações sobre a interferência no estado na vida privada, especificamente, no casamento (e no seu término mediante o divórcio). O artigo da Newsweek serve apenas de pretexto (mas é interessante: recomendo a leitura, e espero que ele apareça na edição internacional que é vendida nas bancas brasileiras).

Antes de o divórcio ser legal no Brasil — foi parcialmente legalizado em 1977, em decorrência dos esforços do senador Nelson Carneiro e de um clima de opinião mais liberal — era complicado se separar legalmente do cônjuge e mais complicado ainda casar-se, legalmente, em novas núpcias, com outro. Para falar a verdade, o novo casamento, do ponto de vista legal, mais do que complicado, era impossível. Havia a instituição do desquite, que era uma dissolução da sociedade conjugal. Mas o desquite impedia que os desquitados se casassem de novo.

Fico imaginando qual teria sido a justificativa de quem criou essa instituição de permitir a dissolução legal do casamento mas de impedir que aqueles que tiveram seu casamento dissolvido se casassem de novo. Parece pura maldade, sadismo. Provavelmente a justificativa deve ser buscada nos livros de direito canônico da Igreja Católica, que, a despeito do que digam as leis do país, considera o casamento indissolúvel (num plano quase metafísico), de modo que um novo casamento, mesmo que admitido pela lei local, seria, para a igreja, sempre adúltero. (Lembram-se do Evangelho? Se alguém casou várias vezes nesta vida, com quem ficará casado na vida futura? Grande dilema para quem acredita na existência de uma outra vida depois desta…)

Houve tempo, aqui no Brasil, em que, para obter o desquite, uma das partes (a “insatisfeita”) tinha de provar que a outra havia faltado com seus deveres conjugais — ou por infidelidade [fato que, uma vez comprovado, não pode ser corrigido], ou por se recusar a manter relações sexuais [fato que, aparentemente, pode ser corrigido a qualquer momento pelo retorno ao cumprimento desse presumido “dever conjugal”], ou por violência doméstica, ou seja, maltratos físicos ou psicológicos que tornavam a continuidade da convivência no matrimônio inviável. Nessa época não havia a possibilidade de os cônjuges, consensualmente, concluírem que, tudo bem, foi bom enquanto durou, mas daqui para frente cada um de nós quer voltar a ser livre. O “desquite por mútuo consentimento” não existia ainda (veio, evidentemente, a existir depois).

Como não havia “desquite por mútuo consentimento”, a iniciativa do desquite era sempre, unilateralmente, de um dos cônjuges (o cônjuge “insatisfeito”, ou, digamos, mais insatisfeito), que “pedia” o desquite ao outro. A decisão de separar era, portanto, em geral, unilateral. O outro podia decidir conceder o desquite, admitindo a culpa, ou, então, negar a culpa, recusando-se a conceder o desquite, assim complicando a vida do parceiro insatisfeito. Todo desquite, nessa época, era judicial, mesmo que nem todos fossem exatamente litigiosos.

Quando, no Brasil, surgiu o “desquite por mútuo consentimento”, mediante simples decisão das partes, as coisas se simplificaram consideravelmente — embora a restrição ao segundo casamento houvesse sido mantida. Agora não era mais necessário provar que o outro cônjuge havia descumprido seus deveres conjugais caso ele (o outro cônjuge) se resignasse a não contestar o pedido. Mesmo que, na realidade, não houvesse consenso, e apenas um dos dois desejasse o desquite, a decisão do cônjuge não solicitante de não contestar o pedido do outro tornava o desquite consensual (ou “amigável”, como era geralmente chamado no dia-a-dia).

Se o cônjuge não solicitante decidisse contestar o pedido de desquite, isto é, não concordar com ele, o desquite só aconteceria de fosse litigioso. Neste caso, cada uma das partes tentaria convencer o juízo da justeza de seu pleito.

A propósito, informa a Folha de S. Paulo de hoje, 17/4: “O Parlamento português aprovou ontem (16/4), graças à maioria socialista da Casa, lei que permite o divórcio mesmo que não haja consentimento mútuo do casal. Com a nova lei será possível pedir o divórcio baseado em alegações de prática de violência doméstica, entre outros casos que, independentemente da culpa dos membros do casal, mostrem a ruptura do matrimônio”. Gozado: depois de instituído o divórcio consensual, o estado regulamenta o divórcio não-consensual…

No Brasil, a mudança constitucional de 1977 instituiu o divórcio consensual, com direito a um novo casamento — mas o tornou aplicável apenas uma vez… Além disso, o divórcio devia ser ser precedido do desquite (agora rebatizado de “separação judicial”, que continuava a ser tanto consensual como litigiosa), ou então da comprovação de uma separação de fato, e, adicionalmente, de um intervalo, fixado em lei, entre o decreto do desquite, ou o início da separação de fato, e o requerimento da conversão do desquite ou da separação de fato em divórcio. Felizmente a atual Constituição Federal veio a remover a maior parte desse besteirol.

Forneço esses detalhes para ilustrar os extremos da interferência do estado na vida privada. A questão que quero levantar é esta: por que o estado imagina ter o direito de se arvorar em árbitro ou, pelo menos, sancionador de decisões que são totalmente privadas, como é o caso da decisão de se casar ou de encerrar o vínculo matrimonial? Não deveria ser o casamento um contrato totalmente privado, já devidamente regulamentado no Código Civil junto com qualquer outro contrato? Neste caso, o contrato conteria provisões sobre as condições em que poderia ser dissolvido.

Quando alguém deseja contratar uma pessoa para trabalhar em sua casa, faz um contrato. Quando dois ou mais querem estabelecer uma sociedade para fins comerciais, fazem um contrato (que estipula em que condições um dos signatários pode sair, sem que a sociedade se dissolva, ou em que condições a sociedade pode ser dissolvida). Por que não podemos fazer contratos conjugais sem que o estado meta o bedelho?

Alega-se que, como o casamento pode produzir união de bens (total ou parcial) e pode produzir filhos, que se tornam herdeiros desses bens, o casamento é uma instituição social em que o estado deve interferir, regulamentando as condições em que pode ocorrer e em que pode ser dissolvido. O argumento não me convence nem um pouco. Sociedades comerciais também interferem com a propriedade e sua propriedade pode ser transmitida a herdeiros, e nem por isso se defende a tese de que devam ser regulamentadas pelo estado como o é o casamento (mesmo que, também aqui, o estado já tenha metido o seu indesejável bedelho em um grau considerável).

Por que o estado tem de defender a monogamia? Estive nos Estados Unidos há poucos dias e na televisão de lá não se fala em outra coisa além da eleição presidencial e do grupo polígamo que foi descoberto no Texas. Por que é que o estado tem o direito de considerar como crime um acordo perfeitamente aceitável entre as partes e do qual ninguém está reclamando (e, se vier a reclamar, pode fazê-lo com base na legislação de contratos e não numa legislação matrimonial específica?)

Por que o estado deve impedir que pessoas que claramente já são capazes de dar seu consentimento, mas estão abaixo de uma certa idade, se casem? A idade, no caso, parece ser hoje dezoito anos em quase todo lugar, mas já chegou a ser até mesmo 21 anos. Como, no episódio do Texas, aparentemente havia casos em que, com pleno consentimento dos pais, mas não do estado, moças menores de dezoito anos haviam se casado, e, o que é pior, se casado com quem já tinha esposa(s), agora os pais dessas moças menores estão todos perdendo a guarda de seus filhos (das próprias e de outros), porque haviam concordado com sua “exploração sexual” como menores”… Come on!

Quando pensamos em “estado mínimo” em geral o fazemos no contexto econômico, da interferência do estado na economia. Mas existe uma interferência do estado na vida privada, totalmente pessoal, que é mais indevida ainda.

Por que o estado deve ter o direito de determinar, como determinava no Brasil, que quem se casa uma vez não pode, ainda que se separe legalmente, contrair outro casamento legal?

Por que o estado deve ter o direito de determinar, como determina agora, que eu posso me casar e me separar quantas vezes quiser, desde que seja “em série”, e não “em paralelo”? Se, aqui no Brasil e nos Estados Unidos, em que aparentemente falta homem para tanta mulher, mais de uma mulher concorda em se casar com o mesmo homem, deve o estado ter o direito de decretar que isso é ilegal, taxando de criminosos os que assim procedem?

E se, na China, onde falta mulher para tanto homem (as razões são sobejamente conhecidas), mais de um homem concorda em se casar com a mesma mulher, por que o estado deveria ter o direito de decretar que isso é ilegal? Hoje, com exames de DNA, é perfeitamente possível determinar de quem são os filhos, nesta última hipótese. (Hoje é triste ver a tentativa de arrumar noivas taiwanesas e coreanas para os homens chineses condenados ao celibato por causa da cultura e da lei daquele país, que privilegia o filho homem e ao mesmo tempo fixa o teto de um filho só por casal).

Por que o estado deve ter o direito de determinar que pessoas do mesmo sexo não podem se casar legalmente?

Basta começar a pensar nessas coisas para se verificar o absurdo que é a interferência do estado na vida privada. Nos Estados Unidos houve tempo em que o estado se achava no direito de proibir relações sexuais em posições que não a missionária, e ainda hoje há estados que possuem leis que proíbem sexo oral ou anal mesmo dentro de um casamento legal e ainda que os envolvidos estejam perfeitamente de acordo em se engajarem nessas práticas. (Como sexo em geral é coisa bastante privada, raramente observada por terceiros, as práticas criminosas, nesse caso, em geral só se revelam quando há uma separação, em cujo caso um dos cônjuges, em regra a mulher, acusa o outro de havê-lo obrigado ou constrangido a praticar atos, por hipótese ilegais, contra a sua vontade.)

Enfim… Acredito que me tornei liberal, lá nos idos dos anos sessenta, mais em função dessas intervenções do estado na vida privada do que em decorrência das intervenções do estado na vida econômica (que, hoje não tenho dúvida, deveria também ser totalmente privada). Foi a leitura de “Da Liberdade”, de John Stuart Mill, que me levou a aderir ao liberalismo político. A adesão ao liberalismo econômico (capitalismo) veio um pouquinho mais tarde. E só um pouco mais tarde, lendo Ayn Rand e von Hayek, vim a ter plena consciência de que Mill tergiversou em muitos pontos em sua defesa do liberalismo. Tudo bem: mas minha dívida histórica para com ele permanece.

Campinas, em 17 de Abril de 2008 [com revisão e pequenas alterações em 5 de Maio de 2008]

Free flow of consciousness

São 20h, horário de Tóquio — 8h, horáro do Brasil. O dia é 15/4, terça-feira, o ano é 2008, em ambos os lugares. Estou no vôo UA 884 da United, que me leva de Tóquio para Chicago.

Desde criança me fascino com o fato de que o Brasil (Leste – São Paulo, Rio) e o Japão estão exatamente doze fusos horários a parte. São Paulo fica três horas atrás do horário do meridiano de Greenwich — ou GMT -03, GMT querendo dizer Greenwich Meridian Time. Tóquio fica nove horas na frente do horário do meridiano de Greenwich — ou GMT +09. Ao todo, doze fusos horários separam as duas cidades. Sempre achei curioso que, quando era meio-dia em São Paulo, já fosse meia-noite em Tóquio — ou seja, que quando estivéssemos almoçando em Santo André (cidade em que cresci, na Grande São Paulo) os toquianos já estivessem entrando num novo dia, provavelmente em pleno sono. No meu imaginário infantil a idéia se alimentava de que os japoneses eram o oposto de nós — idéia que, em seu extremo, resultava na imagem de que, se a gente cavasse um buraco suficientemente fundo na superfície da Terra na região de São Paulo, iria acabar saindo, no lado oposto, na região de Tóquio — imagem que não levava em conta o fato de que nós estávamos no Hemisfério Sul, Tóquio no Hemisfério Norte. Para o experimento dar certo o buraco teria de ser furado meio na diagonal…

Saí de Tóquio, em direção a Chicago, às 18h de hoje, 15/4 Vamos estar no ar por aproximadamente doze horas, e vou chegar a Chicago por volta das 16h do mesmo dia — duas horas antes do horário em que saí de Tóquio, porque Chicago está 14 horas atrás de Tóquio… Esse é o tipo de coisa que me fascina. Ou seja, vamos estar no ar durante doze horas, apenas para tirar parte da diferença, em fusos horários, que separa Chicago de Tóquio. Se estivéssemos indo de Tóquio para São Paulo, direto, e a viagem levasse as mesmas doze horas, chegaríamos exatamente no mesmo horário em que havíamos saído… Fascinante. Para onde teria ido o tempo que evaporou?

Saí de Hanói — que fica duas horas atrás de Tóquio — às 23h30 de ontem, 14/4, segunda-feira, em direção a Seoul, que está no mesmo fuso horário de Tóquio. O vôo era da Asiana, empresa aérea coreana que faz parte do sistema Star Alliance, liderado pela United. O embarque em Hanói  foi tranqüilo, porque com os cartões especiais de Frequent Flyer da United fomos direto para a frente da fila, o Les Foltos e eu. Depois de fazermos o check-in, ficamos na Sala VIP da Asiana em Hanói, até o horário de embarque. Pobrinha a sala VIP deles — mas tinha computadores e Internet de graça para quem quisesse usar.

A propósito, li na Newsweek desta semana (Edição Internacional com data de 14/4) que, enquanto os governos de alguns países (como a Arábia Saudita) censuram sites pornográficos da Internet, impedindo os seus cidadãos de visualizarem material com conteúdo sexual, digamos, explícito, o governo comunista do Vietnam censura sites cujo conteúdo político possa interferir com os seus propósitos. Aliás, vale a pena ler o artigo inteiro, que tem o curioso título de “Repression 2.0”. A tese principal é de que, nos tempos da Internet tradicional (a Internet 1.0), a repressão era menos sofisticada: sites eram simplesmente bloqueados. Às vezes extensões “top level” inteiras eram bloqueadas. Lembro-me de que, uma vez, quando estive em Perth, na Austrália, dando uma série de palestras a convite da Associação Australiana de Escolas Particulares, fiquei hospedado na Saint Hilda’s Anglican School for Girls, uma escola chiquérrima que tem um excelente apartamente para (professores) visitantes. Descobri, muito a contragosto, que, de dentro da escola, a extensão “top level” .br inteira era censurada para as alunas (não para os professores, descobri depois). Qualquer site que eu digitasse que terminasse em .br, como o site do UOL, por exemplo, me trazia uma mensagem na tela de que o acesso àquele site estava proibido. Só no dia seguinte, depois que eu reclamei, me deram uma senha de professor, que não tinha a restrição. Ou seja, professor podia até ver as meninas seminuas do Paparazzi — mas as aluninhas da escola, mulheres como as outras, não… Mas, voltando ao assunto do artigo da Newsweek. Na Internet 2.0 (a Internet dos webmails, dos sites de relacionamento, como o Orkut, é mais difícil fazer esse tipo de censura “no atacado”. O problema é sintonizar o filtro: restrinja-se demais o filtro e se impede o usuário de ver coisas perfeitamente inócuas até do ponto de vista do censor (como ler a Folha de S. Paulo de dentro de Saint Hulda’s); flexibilize-se demais o filtro e ele vai permitir que conteúdos considerados impróprios sejam exibidos. Censurar o Orkut inteiro porque há algum material impróprio lá dentro? Isso pode impedir os usuários de fazer bom uso do Orkut. Não censurar o Orkut? Os usuários, neste caso, poderão a aceder a materiais — de natureza sexual ou política — que o censor considera profundamente inconvenientes. A solução que os novos censores acharam, segundo o artigo da Newsweek, foi agir de forma mais sutil, não “no atacado”. Os censores hoje dão a impressão (nos países que praticam esse tipo de censura) de que eles lêem, ou pelo menos gravam, tudo o que se passa na Internet, de modo que se você entrar num site considerado impróprio, mais cedo ou mais tarde eles vão descobrir. Se os usuários acharem que os censores de fato fazem isso, eles nem precisam fazê-lo: os próprios usuários se censuram!!! Terrível, não? É COMO SE os censores governamentais — ou, o que seria equivalente, os pais, ou o cônjuge, ou os próprios filhos — estivessem sempre atrás da gente, observando, por cima do nosso ombro, o que a gente faz, escreve, lê na Internet… Quando a gente está absolutamente seguro de que ninguém está olhando, a gente faz coisas que nunca faria quando sabe — ou suspeita — que alguém está nos observando… É esse o princípio da “Repression 2.0”: dar a impressão de que os censores do governo, os censores da empresa, os censores do lar estão por todo lado e que tudo o que você faz é devidamente observado, classificado, registrado e arquivado para uso futuro. Um dia, quando você tiver algum problema com o governo (ou com seu chefe) ele pode lembrá-lo de que, você, sessentão, pai e avô, respeitado na comunidade, etc., andou bisbilhotando umas fotinhos inocentes da Britney Spears sem calcinha… Ou andou demonstrando interesse num vídeo do Alexandre Frota (antes da conversão) ou da Rita Cadillac. O princípio básico é o de que não é nem necessário montar toda uma estrutura para fazer esse tipo de censura: basta convencer os “súditos” de que você a possui — e eles próprios se encarregam de se censurar. O seu próprio superego faz o trabalho sujo dos censores.

Nessa época de debate sobre a China, o Tibet, os Jogos Olímpicos, consta que a governo chinês, com a colaboração das companhias de telefonia celular, de vez em quando envia uma mensagem sem remetente, totalmente anônima, a todos os usuários dos telefones, dizendo coisas como “Obedeça a lei”, “Siga as regras”… Está feito o serviço. O pobre usuário, que provavelmente aqui ou ali desobedeceu uma leizinha idiota, ou quebrou uma regrinha imbecil, fica matutando: os fdps sabem que eu fiz isso, por isso estão me mandando esse recado. E, assim, da vez seguinte em que a oportunidade se apresentar, ele não faz: seu superego o censura…

Mas voltemos à minha viagem de volta para o Brasil. O bom filho à casa torna.

O vôo de Hanói a Seoul levou apenas três horas e meia (na ida foram quase cinco horas) — e chegamos a Seoul às 5h (não se esqueçam de que Seoul está duas horas na frente de Hanói). Em Seoul, fomos direto para a Sala VIP da Asiana,  A sala estava quase vazia quando ali chegamos, Les Foltos e eu. Eu belisquei alguma coisinha, para servir de acompanhamento para um café do tipo Latte. Mas o Les, que, na minha opinião, está totalmente orientalizado, tomou chá com sopa de macarrão e verduras cozidas — isso antes das seis da manhã, pode? Entre as verduras cozidas havia repolho, couve-flor e outras coisas que só os orientais conseguem comer a essas horas da manhã. Ficamos na Sala VIP perto de seis horas, trabalhando nos nossos computadores. A sala tem uma rede wireless razoável — e gratuita. Um pouco antes das 11h rumamos para o portão 45 do interminável aeroporto de Incheon (Incheon está para Seoul como Guarulhos para São Paulo, em termos de localização dos respectivos aeroportos), de onde sairia o vôo da United para Tóquio, porque em Hanói só nos deram o cartão de embarque até Seoul: os demais cartões, disseram-nos, deveríamos obtê-los em Seoul (e de fato os obtivemos).

Como isso aqui é “free flow of consciousness”, é esquisito que o principal aeroporto de São Paulo tenha, como código internacional de identificação, GRU. Essas três letrinhas vêm, naturalmente, de Guarulhos (como CGH vem de Congonhas e VCP de Viracopos). Minha bagagem está etiquetada para GRU. Na verdade, a etiqueta indica que saí de HAN (Hanói), passei por ICN (Incheon / Seoul), passei por NRT (Narita / Tóquio) e vou passar por ORD (Ohare / Chicago, que tem como código ORD porque o aeroporto, quando era um mero campinho de aviação, no meio de uma plantação de hortaliças, se chamada Orchard…), antes de chegar a GRU.

De Seoul a Tóquio o vôo foi de mais ou menos duas horas e meia. Dormi a maior parte do tempo (só tirando um tempinho para comer uma salada).

Em Tóquio, onde chegamos por volta das 14h30, mais espera. Ficamos no Red Carpet Club da United. O Les saiu para Seattle às 16h e eu para Chicago às 18h.

O meu vôo de Tóquio para Chicago saiu duas horas depois de um outro vôo da United com o mesmo destino. Resultado: o meu vôo está totalmente vazio. Na classe Executiva deste Boeing 777 há 45 lugares, e apenas dez passageiros — cada um dono de um pequeno feudo. Pude deixar minha maleta de mão em cima da poltrona do lado, posso pegar o computador quando quiser, uma beleza. 

Tomei duas taças de vinho e comi uma salada. Dispensei o filé mignon que seria o prato principal: fui direto para a sobremesa, um bolo gelado de chocolate delicioso, acompanhado de Vinho do Porto.

E agora estou aqui, batendo papo — ou, como diz o caipira do interior de São Paulo, jogando prosa fora… Como disse, ninguém está sentado do meu lado, de modo que posso esparramar minha tralha por duas poltronas enormes. Ali estão, além da maleta do computador, a Newsweek e o Time (com o Papa na capa), fones de ouvido, kit com escova de dentes, etc.

Com todo o vinho tomado, estou com sono. Vou guardar o computador e depois volto.

Pronto, estou de volta. Dentro de duas horas chegaremos a Chicago. Dormi bastante e bem, ouvindo dois CDs de hinos religiosos que povoaram a minha infância. O nome da coleção de dois CDs é “Thomas Kincade’s 32 Country Gospel Classics”. Uma beleza, para quem gosta do gênero, como eu. O cognitivo (a cabeça) faz a gente deixar de ser religioso, mas o emocional (o coração) mantém, escondidinho em algum lugar recôndito, resquícios do tempo em que a gente foi religioso, e a gente continua a gostar de hinos cujas letras são simplesmente horrorosas. Ou seja, o coração tem seus cantinhos que a própria razão desconhece — ou simplesmente ignora, por considerá-los inofensivos.

A aeromoça já veio trazer aquelas toalhinhas quentes que servem para a gente fingir que lava a cara quando acorda num vôo longo… Dispensei o café da manhã (só aceitei um suco de tomate gelado) — não estou com fome. Além disso, ficarei na Sala VIP da United, onde há comida boa, e, depois, pegarei o vôo para o Brasil, em que haverá um bom jantar. Isto significa que devemos chegar mais cedo do que previsto em Chicago.

No momento ouço “Near the Cross” (“Junto à Cruz”, em Português), cantado por Eddie Arnold. É curioso como quase todo cantor americano mais convencional (isto é, excluídos os roqueiros da pesada) que se preza mais cedo ou mais tarde grava um disco de hinos — ou, no mínimo, de músicas de Natal. Elvis Presley, Frank Sinatra, Perri Como, George Whitakker, Doris Day, Barbara Streisand, Anne Murray (que é canadense), you name it, todos gravaram. Os do Presley são maravilhosos: creio que os tenha todos.

Estou cansado. Por mais confortável que seja a classe Executiva da United, uma viagem que mantém você no ar por cerca de 32 horas, ainda que em quatro segmentos, especialmente para quem vai fazer 65 anos esse ano.

Por falar nisso, vou comentar rapidamente o sistema que tenho (em Excel) para me lembrar de tomar todos os meus remédios na hora certa. Tomo cinco remédios de manhã, dois na hora do almoço, e cinco de novo na hora do jantar. Doze comprimidos, ao todo. Quando viajo e atravesso vários fusos horários, tenho de fazer uma tabelinha que me diz quando devo tomar cada conjunto de remédios. Há várias soluções para o problema, mas optei por manter o horário do Brasil. Como a maioria dos países da Ásia está cerca de 12 horas, mais ou menos duas, do Brasil, simplesmente inverto a hora de tomar os remédios: os que tomaria na hora do café da manhã tomo no jantar; os que tomaria na hora do almoço, tomo antes de ir dormir; e os que tomaria na hora do jantar, tomo ao me levantar. Funciona bem. O problema maior é a hora de tomar os remédios em trânsito, quando estou indo de um lugar para outro. Tomei há pouco os remédios da hora do almoço — porque já estou operando no fuso horário de Chicago, que, no momento, está só duas horas atrás do de São Paulo. Um coisinha dessas dá trabalho, quando você sai da rotina.

Antes de terminar, lembrei-me de uma notícia curiosa que li no International Herald Tribune, Edição Ásia, enquanto estava em Seoul. Em algum lugar do mundo em que mudanças de sexo são legalmente permitidas, uma mulher, que nunca havia se sentido confortável no seu corpo de mulher, conseguiu permissão para mudar legalmente de sexo e sofrer os procedimentos médicos, cirúrgicos e medicamentosos, necessários para adequar seu corpo à sua nova identidade legal. Ou seja, legalmente virou homem, mudando de nome e de sexo (que os politicamente corretos preferem chamar de gênero, porque não gostam de falar de sexo). Tomou hormônios, cresceu barba e bigode, removeu cirurgicamente os seios, etc. E, como de certo modo pareceria inevitável, se casou (legalmente — estamos falando de um país prafrentex) com uma mulher. Passado algum tempo, quiseram ter um filho. A lei e a medicina podem ir até certo ponto, mas não conseguem (hoje) fazer com que um homem construído de um corpo de mulher consiga engravidar a esposa (Dani: uso o termo aqui apenas por falta de maiores recursos lingüísticos, dado o contexto). Resultado, optaram por comprar esperma de um banco de esperma para que a esposa pudesse ser impregnada artificialmente. Na hora de fazer isso, descobriram que ela tinha um problema e não poderia ficar grávida. Solução? Foram verificar se o corpo do marido, a despeito da barba e do bigode, e da falta dos seios, ainda teria condições de ser impregnado artificialmente — e tinha, pois o útero não havia sido removido e, aparentemente, estava em pleno funcionamento. Resultado: hoje quem passar pela cidadezinha onde mora o casal pode ser que veja um distinto senhor, de terno, barba e bigode, tremendamente grávido, ao lado de sua mulher magrinha e esbelta. Ironias do mundo moderno.

Estamos chegando.

ET: Chego aos Estados Unidos ao mesmo tempo que o Papa.

No ar, entre Tóquio e Chicago, 15 de Abril de 2008

O Campeonato Paulista

Sei muito bem que o importante não é como as finais do Campeonato Paulista começam, mas, sim, como terminam. Mas antes começarem assim, com vitória da Ponte Preta e do São Paulo, este totalmente estropiado, sem elenco, com gente machucada, suspensa, etc., do que de outro jeito. Agora Guaratinguetá e Palmeiras terão de lutar contra o prejuizo. Espero que Ponte Preta e São Paulo façam a final. Assim, se o São Paulo perder, não ficarei tão triste, porque um time de Campinas terá ganho.

E falem o que quiserem do Adriano, ele está garantindo o time na frente — com o Rogério garantindo na defesa.

Avante, São Paulo.

Em Hanoi, 14 de Abril de 2008

Good-bye, Hanoi

Daqui umas doze horas estarei voando, espero, daqui de Hanoi para Seoul — de onde irei para Chicago e, em seguida, para São Paulo. Finalmente, home, depois de onze dias aqui em Hanoi e mais dois em viagem.

Para ser franco, detestei a cidade. Não fosse o cruzeiro pela Ha Long Bay, a viagem teria sido uma desgraça total do ponto de vista turístico.

Sempre me gabei do fato de que, precisando, seria capaz de morar em qualquer lugar do mundo (dos que eu conheço). Não tenho, por exemplo, dificuldade de me imaginar morando em Cingapura, ou Seoul, ou Taipei, ou Hong Kong, ou até mesmo na em grande parte muçulmana Kuala Lumpur. Mas aqui em Hanoi encontrei o meu limite.

Não consegui sair na rua andando aqui — exceto ao redor do hotel. Não teria coragem de atravessar uma rua movimentada. Saí de taxi ou ônibus especial várias vezes, mas o que vi simplesmente confirmou a minha decisão de não sair andando — e olhem que adoro andar: em Janeiro, em Seoul, com um frio de rachar, andei pelas ruas, zanzando de lá para cá, durante cerca de seis horas, conhecendo as vizinhanças, tirando fotos. Aqui, como se dizia antigamente, neca de piribitibas. A viagem de taxi até Ha Long foi um tormento: parecia que um ônibus ou um caminhão ia passar por cima da gente a qualquer momento. Nosso motorista era calmo e competente, mas mesmo assim foram quase quatro horas de sobressaltos. Chegando no barco, encontramos um colega de cruzeiro, americano, com o crânio todo remendado: o chofer do taxi dele, dias antes, havia dormido no volante, saído da estrada e arrebentado o carro numa árvore.

Além do mais, a cidade é feia, não tem comércio senão do tipo de mercado de rua, feira livre… Não soube de nenhum shopping agradável por aqui que atraia turistas.

Restaurantes, até que há bons. Mas chegar lá é um problema. Nos últimos dias comi aqui no hotel mesmo, onde há um excelente restaurante (The Hemispheres), com comida de primeira e não tão cara. Comi três dias seguidas o mesmo prato: salmão grelhado com arroz frito com legumes. Imbatível. Mas a melhor coisa foi não ter de sair à rua para jantar.

Meu amigo Les Foltos é mais aventuroso do que eu. Ontem e hoje saiu durante o dia. Ontem foi visitar o famoso “Hanoi Hilton”, que nada mais é do que uma cadeia onde os franceses prendiam os vietnamitas e onde estes, depois, prendiam os americanos. Coisa deprimento. Só um americano meio de esquerda com a consciência ainda meio molestada pela guerra do Vietnam pode querer ir lá. De lá andou pelas ruas, comprando camisas de seda em lojas populares locais. Hoje, saiu de novo. Corajoso. Dou a minha mão à palmatória: eu nesse aspecto sou covarde. Prefiro ficar aqui no quarto trabalhando, vendo TV, beliscando um salgadinho, tomando uma cerveja (Carlsberg, da Dinamarca — excelente).

Nada da minha antipatia se deve ao fato de que o país é (ainda) comunista. Apesar de a economia ser em grande parte capitalista, o regime político é comunista. Vejamos até quando.

Enfim, estou contente de voltar para casa. No mês que vem (daqui a três semanas) estarei me sentindo bem melhor em Taiwan, onde me sinto em casa.

Em Hanoi, 14 de Abril de 2008