Open skies are not friendly skies…

Quando eu morei nos Estados Unidos, de 1967 a 1974, a United tinha uma propaganda na TV que convidava: "Fly the friendly skies of United". Eu era cliente fiel da PanAm naquela época. Mas a United me herdou, quando a PanAm faliu — porque comprou as rotas da PanAm para a América Latina, entre as quais as do Brasil.

Desde então, muita coisa mudou.

A PanAm voava direto para o Rio de Janeiro, a partir de New York e de Miami. Os passageiros destinados a São Paulo (então de "segunda classe"), tinham de fazer imigração e alfândega no Rio e pegar um vôo especial para São Paulo, que reunia os passageiros destinados a São Paulo dos dois vôos para o Brasil. Se um dos dois vôos atrasava, os passageiros do outro também eram penalizados.

São Paulo, no caso, era Congonhas, porque Guarulhos não existia ainda (thanks, Maluf!). Ou, então, Viracopos, que era usado por algumas companhias internacionais (SwissAir, por exemplo).

O serviço de bordo, porém, era fabuloso. Comida de muito boa qualidade, servida com aparelhagem de hotel de primeira classe, bebidas alcoólicas à vontade, mesmo na Econômica, atendimento impecável, aeromoças jovens e bonitas.

Muita coisa, como eu disse, mudou.

A United, inteligentemente, logo mudou seus vôos para São Paulo, assim que Guarulhos se tornou operacional. Os passageiros do Rio perderam a categoria de brasileiros privilegiados. Agora são eles que precisam esperar os passageiros do outro vôo para concluir sua viagem.

O destino dos vôos da United nos Estados Unidos também mudou. Ela abandonou Miami em favor de Chicago, seu hub principal nos Estados Unidos — e New York em favor de Washington. Há três anos começou a oferecer dois vôos diários de/para Washington, de Outubro a Abril. Este ano o segundo vôo começou a chegar/sair do Galeão, devolvendo aos cariocas parte do prestígio perdido.

O que mudou mais, porém, foi o serviço de bordo. Os passageiros de classe Econômica têm, agora, "uma jantinha" chinfrim, servida em aparelhagem de plástico, com guardanapo de papel. Bebida alcoólica é servida — 5 dólares por dose (inclusive por uma latinha de cerveja). E as aeromoças — agora incluem aeromoços — são uma desgraça em termos de aparência. Aerovelhas seria uma descrição mais apta. Não só velhas: feias, gordas — raramente atenciosas.

Na classe Executiva o serviço continua bom — mas as aeromoças são as mesmas… (Ah, que diferença da Asiana, que tomei de Seoul para cá: aeromoças coreanas jovens, lindas, atenciosas, sorridentes, aparentemente de bem bom a vida…).

Mas preciso justificar o título deste post. A edição asiática do International Herald Tribune de ontem (a versão impressa, que peguei na recepção do hotel, tem data de 4/4 — a edição online diz dia 3/4) traz uma notícia interessante.

Os Estados Unidos e a Europa celebraram um acordo — batizado de "Open Skies" — mediante o qual companhias americanas podem voar para qualquer cidade européia, e mesmo de uma cidade européia para outra, desde que em país diferente, e companhias européias podem voar para qualquer cidade americana — mas não de uma cidade americana para outra.

Por que a assimetria? Por que as companhias americanas agora podem voar, digamos, de Londres para Paris, mas as companhias européias não podem voar, digamos, de New York para San Francisco? Porque, segundo informa o jornal, os países europeus continuam sendo unidades políticas soberanas, não simplesmente estados de uma unidade política soberana, como é o caso dos estados americanos. Só político (ou filósofo) para inventar uma distinção escolástica dessas…

Parece que o acordo é meio precário: tem de ser revisto em 2010, e se qualquer das partes não estiver satisfeita, pode ser rescindido…

O jornal tece considerações interessantes sobre o acordo. Transcrevo o artigo, em Inglês, abaixo, para os interessados em mais detalhes. Embora fosse lógico esperar que tarifas fossem baixar com um acordo desses, parece que não vão, não, porque as companhias aéreas ("as aéreas", como prefere o idiota Manual de Redação da Folha) parecem já estar operando no limite.

"O problema fundamental", diz Anthony Concil, diretor de relações públicas da IATA, em Genebra, "é que os governos se metem demais nos negócios das companhias aéreas. A indústria tinha expectativa de que o acordo pudesse ser um marco decisivo de mudança nessa atitude, permitindo que as companhias aéreas conduzissem seus negócios como qualquer outra empresa. Mas o acordo não chegou a tanto" [citado do artigo transcrito adiante].

É isso. Como dizia o saudoso Ronald Reagan, o governo é sempre parte do problema — não da solução.

E nós, no Brasil, quando é que vamos permitir que "as aéreas" estrangeiras voem de uma cidade para outra no Brasil? A TAP, por exemplo, tem vários vôos para o Nordeste — mas não pode estendê-los para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília… Perdemos nós. Culpado? Nem precisa dizer.

Em Hanoi, 5 de abril de 2008 (já dia 5 também no Brasil)

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FREQUENT TRAVELER

‘Open skies’ not likely to mean lower fares

By Roger Collis

Published: April 3, 2008

The "open skies" pact reached between the United States and European Union – and which came into force on March 30 – should bring many benefits to travelers. Airlines will be free to serve any point-to-point trans-Atlantic route. More competition will bring more choice and hopefully better service. But with soaring fuel prices and economic gloom, and with airlines already offering the cheapest price options for years, don’t hold your breath for lower fares.

The pact does away with the bilateral treaties between the United States and EU states, allowing any European and U.S. airline to fly between any EU city and any city in the United States. But while it will allow any U.S. carrier to fly among European cities (though not city pairs in a country), EU carriers are not allowed to fly between two U.S. cities; the argument being that the United States is a sovereign state, whereas flights between, say, France and Spain are between two countries.

But open skies is a fragile agreement. The present "phase one" will automatically end if there is no agreement between U.S. and EU negotiators on "phase two" of the pact which is due to be in place by 2010. Under the terms of the interim pact, individual EU states have the power to withdraw flying rights to U.S. carriers if they are dissatisfied with progress, especially on the contentious issue of restrictions on airline ownership. Talks on phase two are due to start in May.

Giovanni Bisignani, director general of the International Air Transport Association, has warned governments that protectionist attitudes toward national flag carriers is "killing" the industry. "We have too much capacity; yields are down and we need to consolidate," Bisignani says. "The industry has lost $42 billion since 9/11. The first profit we made last year was $5.6 billion, which is one percent."

But cross-border airline mergers are impossible because countries, such as the United States, ban majority ownership of airlines by foreign firms.

"The fundamental problem is that governments are too involved in the airline business," said Anthony Concil, director of public relations at IATA in Geneva. "The airline industry had hoped that the agreement would be a watershed for change, that it would allow airlines to be run like any other business," he added, "but it clearly stopped short of that.

Could airline alliances be a device to get around the issue of ownership?

"There’s a big difference between partnerships and having a proper business," Concil said. "You only start to act like a real business when you have a common bottom line. There’s no doubt that mergers create better companies; it doesn’t necessarily mean that you give up your national identity; Air France and KLM, for instance. Swiss still serves Switzerland, even though it’s owned by Lufthansa. These entities are among the most profitable in the industry."

London is still the top destination for travelers among European cities, despite its being considered the dirtiest and the most expensive, according to a new annual survey by TripAdvisor of more than 1,100 travelers worldwide. Next most expensive cities were Paris and Rome; and the next dirtiest cities, Paris and Rome. The cleanest cities were Zurich, Copenhagen and Stockholm.

But London was voted best in Europe for public parks and nightlife. Paris, Barcelona and Amsterdam ranked high in both categories. And despite its high prices, London was runner-up to Paris, followed by Rome, for best shopping. Paris is perceived as the most romantic city, followed by Venice, and Rome. Brussels, Zurich and Warsaw are the most boring cities; Paris, London, and Moscow are cities with the "most unfriendly hosts," while Dublin, Amsterdam, and London are cities with the "most friendly and helpful locals."

The survey predicts a good year for European tourism; 65 percent of travelers said they were planning to travel to or within Europe in the next 12 months, nearly the same as last year. And despite the weak dollar, exactly half of U.S. respondents intend to visit Europe again this year.

Switzerland, Austria, Germany, Australia and Spain have the top five "most attractive environments for developing travel and tourism," according to the Travel & Tourism Competitiveness Report 2008, released by the World Economic Forum in Geneva. Britain, the United States, Sweden, Canada and France complete the top-10 list covering 130 countries.

A viagem para Hanoi: 48 horas

Contando da hora em que saí de casa, em Campinas, até a hora em que entrei no Sheraton Hotel, aqui em Hanoi (num subúrbio, fora do centro da cidade), minha viagem durou exatas 48 horas.

Dessas, 32 horas foram passadas no ar e 16 horas em traslados em terrra e esperas em aeroporto.

Saí de casa, em Campinas, às 14h do dia 2/4, quarta-feira, peguei o ônibus da Viação Caprioli para o Aeroporto de Guarulhos às 14h30, cheguei a Guarulhos às 16h30. O vôo 842 da United para Chicago saiu às 20h30, chegando a Chicago às 5h do dia seguinte — depois 10:30 de viagem. Esperei três horas para o vôo 137 da United para San Francisco, que saiu às 08h, hora local, e chegou a San Francisco 04:30 horas depois (10h30 hora local). O vôo 893 da United para Seoul saiu às 13h30, hora de San Francisco, e chegou ao Aeroporto Incheon, na Grande Seoul, 12 horas depois, às 17h30, hora de Seoul. O vôo United de Seoul para Hanoi (operado pela Asiana) saiu às 19h30, horário de Seoul, e chegou em Hanoi às 22h30, hora local, durando cinco horas. 

Para vocês entenderem os fusos horários, aqui vão eles — explicando que as cidades americanas de Chicago e San Francisco estão em Horário de Verão (DST) — as demais, em horário regular (STD). Pego como horário referência 7h em São Paulo, porque esse horário permite que todas as cidades envolvidas estejam no mesmo dia.

SÃO PAULO (STD)
0700
Duas horas na frente de Chicago, quatro horas na frente de San Francisco, dez horas atrás de Hanoi, doze horas atrás de Seoul, doze horas atrás de Tokyo

CHICAGO (DST)
0500
Duas horas na frente de San Francisco, duas horas atrás de São Paulo, doze horas atrás de Hanoi, quatorze horas atrás de Seoul, quatorze horas atrás de Tokyo

SAN FRANCISCO (DST))
0300
Duas horas atrás de Chicago, quatro horas atrás de São Paulo, quatorze horas atrás de Hanoi, dezesseis horas atrás de Seoul, dezesseis horas atrás de Tokyo

HANOI (STD)
1700
Duas horas atrás de Tokyo, duas horas atrás de Seoul, dez horas na frente de São Paulo, doze horas na frente de Chicago, quatorze horas na frente de San Francisco

TOKYO (STD)
1900
Dezesseis horas na frente de San Francisco, quatorze horas na frente de Chicago, dez horas na frente de São Paulo, duas horas na frente de Hanoi, zero hora em relação a Seoul

SEOUL (STD)
1900
Dezesseis horas na frente de San Francisco, quatorze horas na frente de Chicago, dez horas na frente de São Paulo, duas horas na frente de Hanoi, zero hora em relação a Tokyo

Como se pode constatar, fiquei 32 horas no ar:

10:30 de São Paulo a Chicago
04:30 de Chicago a San Francisco
12:00 de San Francisco a Seoul
05:00 de Seoul a Hanoi

Tempo de espera nos aeroportos, exceto o de São Paulo, foi mínimo para viagens desse tipo: 03:00 em Chicago, 03:00 em San Francisco e 02:00 em Seoul (total: 8 horas). As outras 8 horas correspondem ao tempo de traslado de Campinas a São Paulo e espera em São Paulo e ao tempo de traslado do aeroporto ao hotel em Hanoi.

Total de duração da viagem: 48 horas corridas, ou dois dias inteiros.

Toda a viagem transcorreu sem incidentes, sem atrasos, exatamente como planejado. Minha mala foi uma das primeiras a aparecer… Em São Paulo, tiveram de colocar duas etiquetas de bagagem nela, porque o máximo que uma etiqueta comporta é três vôos, e eu iria tomar quatro — como de fato tomei…

Parece um milagre, quando verifico que não consegui ir de Campinas ao Rio de Janeiro (como eu fui no dia 31/3) sem um atraso de uma hora na ida, pela TAM, e outro na volta, pela Gol. E há americano que ainda reclama da United…

O tempo em Hanoi, às 23h, quando cheguei, estava húmido, com a temperatura nos 20 graus centígrados. Havia uma neblina no ar. A estrada do aeroporto para o hotel estava virtualmente deserta, com apenas algumas motocicletas carregando enormes fardos de flores para o mercado — pareciam, de trás, mais Kombis do que motocicletas.

O motorista que foi me apanhar no aeroporto veio o trajeto todo buzinando e dando sinal de luz. O pior é que parece necessário. Vários carros e alguns caminhões estavam dirigindo no meio das duas faixas de trânsito que iam na direção em que estávamos indo — e as motocicletas zanzavam um pouco, de lá pra cá. Acho que o motorista sabia o que estava fazendo.

O hotel é antigo, num parque, ao lado de um lago, meio fora da cidade. Apesar de antigo, está bem conservado. O quarto em que estou parece ter sido todo renovado.

Amanhã vou ver se ando um pouco. No domingo à tarde começa a chegar a minha turma. Eu precisava de um dia extra para descansar.

Em Hanoi, 5 de Abril de 2008 (no Brasil, ainda dia 4).

Que bicho complicado é o ser humano… – 2

[A seguir, uma troca de mensagens entre mim e Antonio Morales, na lista LivreMente. A mensagem dele é transcrita na íntegra com sua autorização.]

Caro Morales:

No mercado, tudo está a venda que os seus proprietários estejam dispostos a vender.

A noção de que eu posso vender o meu corpo reafirma a minha propriedade sobre ele. Não fosse ele minha propriedade, não poderia vendê-lo (na realidade, o termo "vender" aqui é inadequado: o certo seria "alugar", porque o/a prostituto/a que "vende" o corpo na realidade apenas o aluga momentaneamente, tão somente cede o direito de uso por alguns instantes).

Como liberal, defendo a liberdade de as pessoas se prostituirem porque afirmo o direito de o ser humano dispor do que é seu como melhor lhe aprouver. Reconheço-lhe até mesmo o direito de pôr fim à própria vida. Por que não iria lhe reconhecer o direito de prostituir-se?

Quando a gente tem um direito, cabe a cada um de nós decidir se o vai exercer o não. Com o direito, que sustenta a liberdade, vem a responsabilidade. É aí que entra a moralidade. Ela não existe sem responsabilidade que, por sua vez, não existe sem liberdade. Só se vende quem é livre para fazê-lo. Mas, também, só se vende quem, depois de analisar as condições propostas, decide que elas são aceitáveis.

Não vejo, Morales, em que o dinheiro atropele a resistência moral. O problema é que a capacidade de as pessoas resistirem, com base em considerações morais, a propostas financeiras como à do filme, é muito pequena. E essa capacidade é pequena porque nossa formação geral, inclusive moral, é fraca, quase ao ponto da nulidade.

Você parece preferir, à sociedade liberal, uma em que as pessoas não tenham a liberdade de se vender, de comercializar o próprio corpo. Tudo bem, numa sociedade assim talvez menos pessoas o vendessem — mas seria por mérito moral maior ou simplesmente por falta de oportunidade?

No filme, o dinheiro no fim não ficou com nenhum dos dois — ambos abriram mão dele. O problema não estava no dinheiro: estava na dificuldade de tomar decisões livres e responsáveis e conviver com elas.

Qualquer indivíduo pode, voluntariamente, vender-se ou até mesmo dar-se como escravo, temporária ou permanentemente. Corpo ou alma. Uma passagem do Evangelho me vem à mente: "Não temais aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma", algo assim. De certo modo concordo com o Evangelho:

acho a prostituição da alma (embora um direito, como a do corpo) mais moralmente condenável do que a prostituição do corpo.

Conheço várias pessoas que voluntariamente venderam sua mente ao Partido Comunista, ou a Marx, ou à Internacional Socialita, ou à Igreja, à TFP, ou seja lá a que outra organização. É um direito seu. Posso lastimar seu julgamento, mas não questiono seu direito.

Escravizam-se, voluntariamente, não só os que vendem o seu corpo, mas, também, os que entregam sua alma a terceiros, com ou sem pagamento… Os que deixam a igreja, o partido, ou o equivalente, determinar o que pensam, o que desejam, aquilo pelo que lutam, perdem a própria alma. E a sujeira da alma não se limpa com um simples banho bem tomado.

Uns, de mente e moral fraca, não têm a menor dificuldade de vir a pensar, desejar e agir da forma que a igreja, o partido, ou o equivalente determinam.

Outros, de mente mais forte, mas de moral fraca, prostituem sua mente ao defender a linha oficial da igreja, do partido, ou do equivalente, SEM ACREDITAR NELA…

Outros, de mente e de moral fortes, simplesmente se recusam a prostituir a própria mente: não a vendem, nem mesmo a alugam — nem, muito menos, dão de graça aquilo que é seu.

From: livremente@yahoogrupos.com.br – On Behalf Of Antonio Morales
Sent: Sunday, March 30, 2008 12:34
To: livremente@yahoogrupos.com.br
Subject: Re: [LivreMente] Que bicho complicado e’ o ser humano

Assisti todos os filmes que relacionou.

A temática é interessante. Seu comentário sobre Proposta Indecente é ótimo.

Só gostaria de acrescentar um aspecto que foi desprezado por você mas que considero ter bastante relevância.

Resguardado o aspecto de que os seres humanos são complexos, o fato é que eles são transformados em mercadoria numa sociedade em que tudo nisso se torna.

A resistência moral é atropelada pelo dinheiro e transformada em pó perante ele. Mas, claro, isso não impede que essa miséria moral destrua as pessoas e o relaciomento entre elas.

Tanto homens como mulheres podem ses vítimas desse processo, que, claro, os atinge de diferentes maneiras.

O que quero dizer que a questão moral é irrelevante para o mundo das mercadorias e suas imposições. Esse é o inferno que é criado todos os dias, com grandes ou pequenos dramas e que nos envolve impiedosamente.

antonio morales

Em Campinas, 30 de Março de 2008

Que bicho complicado é o ser humano… – 1

Apenas ontem à noite (na verdade, hoje de madrugada) assisti ao filme Indecent Proposal (Uma Proposta Indecente), com Demi Moore e Robert Redford. Lançado em 1993, o filme está fazendo quinze anos este ano. Não sei nem por que não havia visto o filme ainda. Talvez até o tenha na minha coleção de DVDs, que tem dezenas e dezenas de filmes não vistos mas em que eu achei que valia a pena investir. De qualquer forma, o filme valeu a pena.

Antes de começar a escrever, entrei na minha base de dados favorita: The International Movie Data Base (http://www.imdb.com) para ver detalhes sobre o filme e ler resenhas e comentários. O primeiro comentário que li tem como título “Repugnante” – e a tese é de que o filme é repugnante, por uma série de razões até bem elaboradas.

O diretor do filme, Adrian Lyne, também foi diretor de Infidelidade (com Diane Lane e Richard Gere), Lolita (com Swain e Jeremy Irons), feitos depois de Uma Proposta Indecente, e Atração Fatal (com Glenn Close e Michael Douglas) e 9 ½ Semanas de Amor (com Kim Bassinger e Mickey Rourke), feitos antes. Também é o diretor de Flashdance. Com exceção deste, os demais compartilham uma certa fascinação com os aspectos mais complicados da sexualidade humana – em especial com a questão da traição. Vi todos esses filmes – por isso é que não me conformo com não ter visto Uma Proposta Indecente antes.

O tema básico da história é a referida proposta, que se considera indecente, feita por um bilionário, representado por Robert Redford, para um casal simples (cuja mulher é representada por Demi Moore – o marido é representado por Woody Harrelson, que é daqueles atores que a gente já viu em vários filmes mas cujo desempenho nunca marcou o suficiente para a gente se lembrar de quais…). O enredo leva os principais envolvidos a uma situação em que Moore diz que nem tudo pode ser comprado. Redford pergunta o que é que não pode, e Moore retruca que as pessoas, por exemplo, não podem ser compradas: seu afeto, seus sentimentos, etc. O cenário está posto para a proposta dita indecente, que primeiro é formulada condicionalmente: “O que vocês diriam se alguém lhes oferecesse um milhão de dólares para poder passar a noite com Diana?” (Diana é a personagem representada por Moore). Ela imediatamente responde: “Eu o mandaria para o inferno”. Redford insiste que não ouviu a resposta do marido ainda. Este diz a mesma coisa. Redford força a barra, afirmando que é fácil dar essa resposta diante de uma proposta hipotética, mas que as coisas podem ser diferentes diante de uma proposta real – e faz a proposta concreta. Ambos insistem que a resposta seria a mesma. Mas ele lhes dá tempo para pensar. (O filme habilmente sugere que Redford não está tão interessado em Moore quanto em refutar a tese de que há coisas que é impossível comprar. Na realidade, está interessado nas duas).

À noite, na cama, nenhum dos dois consegue dormir. E resolvem conversar sobre a proposta. Argumentos vão e vêm entre os dois. É uma noite só, que, terminada, se encerra ali, não implica outros compromissos. Não se exige, por exemplo, envolvimento da mente nem do coração – só do corpo… E o corpo se lava depois e fica pronto para outra. O milhão de dólares, por outro lado, fica, e pode mudar suas vidas para sempre. Ele pergunta a ela se ela está interessada em aceitar a proposta. Ela responde que não está interessada, mas que a aceitaria – por ele, não por ela… Com o dinheiro eles poderiam comprar a casa que queriam, ele poderia se dedicar a fazer aquilo que realmente gosta de fazer (arquitetura), etc. A conversa progride. Concordam que, se a proposta for aceita, o acontecimento deve ser varrido da memória para sempre: nunca deverá ser mencionado, muito menos discutido. Terá de ser algo sobre o qual se passa uma borracha por inteiro. Conclusão da noite insone: a proposta foi aceita.

Não há maiores detalhes sobre a noite dos dois. O filme sabiamente passa por cima dos pequenos detalhes que poderiam parecer irresistíveis a um diretor menos competente. Moore é levada de helicóptero para um iate lindíssimo. Há breves diálogos. Ela está série, distante – e ele lhe assegura de que ela não deve ter medo, pois ele não a obrigará fazer nada que não queira…

Na cena seguinte ela está sendo “devolvida” para o marido.

Quem quebra primeiro é ele, o marido, não ela. Ele começa a se torturar. Será que ela está pensando nele? O que será que realmente fizeram, como andaram as coisas? Será que foi bom?

Ah, o ser humano, que bicho complicado somos. Em teoria, antes do fait accompli, tudo parecia simples: seria só uma noite de sexo, envolvendo apenas o corpo, sem que a mente e o coração participassem… Depois, apagar-se-ia tudo da memória, esquecer-se-ia tudo. Só ficaria o milhão de dólares.

Mas quem diz que esquecer é fácil, que se trata simplesmente de decidir esquecer e, pronto, está tudo esquecido? Se assim fosse, o perdão não seria necessário – porque para o esquecido não é necessário perdão: este é necessário para aquilo que, sem se esquecer, resolveu-se relevar, em função, quem sabe, de um bem supostamente maior.

Ao chegar em casa e constatar que a mulher está desligando o telefone, o marido imediatamente suspeita que ele estivesse falando com o bilionário, que continue mantendo contato com ele… O que antes não passava pela cabeça do marido – vasculhar a bolsa da mulher – agora é uma tentação. Da suspeita se passa para a desconfiança. E, no fundo, a insegurança alimenta tudo. Será que foi bom para ela, será que ela não gostaria de repetir a dose, agora sem milhão de dólares, sem nada? Será que não está repetindo neste exato momento?

Inferno, inferno puro. Parecia tudo tão simples, mas tudo se tornou tão complicado…

A mente humana, disse alguém, é o órgão sexual mais importante que temos… Para o homem, em especial. Uma mulher, imagina-se, pode dar um razoável prazer ao homem mesmo sem a participação de sua mente. Mas o homem, sem a efetiva participação de sua mente, nem funciona sexualmente, torna-se incapaz de dar prazer à mulher – ou de senti-lo, ele próprio. Mais do que isso: o sexo é, na realidade, uma atividade que, tanto para o homem como para a mulher, nunca é simplesmente corporal, algo puramente animal, que se pode ter, e depois esquecer, com a mesma naturalidade que se come um sanduíche e, saciada a fome, se esquece do que se comeu. Mas quando pretendemos não sê-lo, somos mais do que meros animais. Somos seres que se lembram, que imaginam coisas que não aconteceram mas poderiam ter acontecido, que se encucam não só com o real mas também com o imaginado, para quem, às vezes, o imaginado se torna mais importante do que o real – porque a realidade que a mente constrói não se deixa facilmente desmentir pelos fatos, visto que os fatos nunca são apenas fatos: eles são fatos em contexto, no bojo de um complexo de idéias… o ser humano é um bicho complicado exatamente por não ser (apenas) bicho…

Volto à perspectiva masculina, que é a privilegiada no filme. Na realidade, o leitor (ou será a leitora?) que considerou o filme repugnante sugere que o diretor parece achar que a traição pela mulher é fácil, visto que, no filme, Moore aparentemente não fica angustiada: é o marido que desaba, ele que não fez nada, a não ser consentir… “O diretor parece sugerir que é mais fácil ser quem tem o corpo vendido do que ser aquele que agencia” – é o comentário. O problema é que a perspectiva masculina aqui é essencial. Para a mulher, a proposta é uma evidência cabal de que ela é desejada e, portanto, valorizada. Aceitá-la, em si, não parece tão complicado. Para o homem, porém, a aceitação da proposta implica não só a idéia de que ele acabou de vender a mulher por uma soma de dinheiro, mas, também, a dúvida de que ela pode ter gostado, pode ter sentido prazer, pode ter achado o outro melhor do que ele próprio… Se a proposta valoriza a mulher, ela desvaloriza o marido, especialmente em seus próprios olhos. Na verdade, ela o destrói.

Tudo isso muito interessante. A temática, como é óbvio, me atrai.

No livro The Fountainhead, de Ayn Rand (A Nascente, em Português), Dominique Francon, num dado momento casada com Peter Keating, que ela drespreza, decide vender seu corpo a Gail Wynand, também um milionário, em troca de um contrato para o marido que ele despreza. A decisão de Dominique, no livro, representa uma tentativa (de resto fútil) de acabar com a própria auto-estima. Mas o marido tem de concordar – e, como no filme, concorda. Também, como no filme, o negócio destrói o marido, não ela (nem aquele a quem ela se vendeu). Vale a pena comparar o tratamento dado ao problema por Ayn Rand.

Em Campinas, 31 de março de 2008

Um Nintendo Wii para o Gabriel

Faz um bocado de tempo que o meu neto Gabriel vem pedindo um videogame Nintendo Wii.  Se não me engano sua mãe lhe prometeu um para o aniversário do ano passado (30/09). Depois, para o Natal. O problema é que está muito difícil encontrar o tal jogo. A demanda é tão grande que o fabricante não consegue produzir os videogames em tempo — estão em falta no mercado.

Esta semana, aqui onde mora minha filha, fui a uma enorme loja do Walmart: haviam recebido dois, no dia anterior, que desapareceram em poucos minutos. Não iriam receber mais até a semana que vem.

Finalmente, ontem, a Sueli achou na Internet uma empresa da California que estava vendendo o bendito jogo — num "bundle" que incluía vários jogos (e elevava o preço). Descobrimos isso era já de tardinha, na sexta-feira. Verifiquei, e tinham o videogame em estoque. Mas para que chegasse a tempo — vamos embora na segunda — teria de pagar por entrega no dia seguinte até às 10h30 da manhã, além de uma taxa especial porque o dia seguinte seria sábado. Paguei — ficou bem mais caro do que se o tivéssemos encontrado no Walmart. Mas ficou menos da metade do preço que custa na Saraiva Megastore.

Mas o mais surpreendente foi que a loja deu um código para acompanhar o processo — inclusive a entrega pela UPS (United Parcel Service).

O jogo foi entregue pela loja à UPS às 13h56, horário da California, 16h56, horário daqui. Foi colocado no avião em Long Beach, CA, às 19h42, 22h42, horário daqui. Chegou em Louisville, Kentucky, às 2h07 — há no mesmo horário daqui — e saiu de lá às 5h05. Foi entregue no aeroporto de Cleveland, aqui perto, às 6h09. Às 10h31h foi entregue aqui em casa — o um minuto de atraso se pode atribuir à neve na rua… Absolutamente fantástico o feito de logística envolvido numa entrega dessas. Em menos de dezoito horas o produto saiu da loja que o vendeu, do outro lado do país, e chegou aqui às minhas mãos.

Depois de verificar que tudo estava em ordem, liguei para o Gabriel, que estava em Ilha Bela, para lhe contar. Ficou, como seria de esperar, elétrico. Fico contente com a alegria dele. Mas a mim me impressiona mais a eficiência da logística americana.

Em Cortland, 22 de Março de 2008

Bobaginhas – para não dizer que não falei da lua e da neve…

Hoje é quinta-feira aqui em Cortland. Ontem à tarde, por volta do horário do jantar (comemos um linguado [flounder] delicioso que minha filha preparou), começou a nevar. Logo o chão ficou coberto com mais ou menos uma polegada (2,5 cm) de neve. Mais tarde (fiquei fuçando meu novo notebook até por volta de uma hora da manhã) parou de nevar e o céu limpou, permitindo-me ver a lua, que estava linda. Creio que, se não era cheia,  estava apenas um dia distante de sê-lo — ou de tê-lo sido (o Português soa meio esquisito, de vez em quando). Hoje cedo, a neve continua no chão — embora provavelmente vá se derreter logo, porque o dia está limpo e o sol já aparece forte. A temperatura, porém, não vai passar de um grau centígrado. Agora está menos dois — e o Google me diz que ficará entre uma mínima de menos seis (que provavelmente já ocorreu) e um grau. Um grau de temperatura máxima soa até esquisito.

Visto que este texto lida com bobaginhas, ontem estive na Best Buy e acabei comprando alguns "pen drives" para colocar num porta-retrato digital que dei para a Sueli (minha mulher, para quem não sabe) de presente de aniversário (que foi no dia 13/3). Isso, em si, não seria digno de tanta nota, visto que é algo inteiramente privado (embora eu freqüentemente trate o privado como público mais do que o público como privado, como fazem os políticos). O digno de nota é que paguei 7,99 dólares por pen drive de 1 GB. Quando eles saíram cheguei a pagar 150 dólares por um. Agora, nem oito dólares. Os de 8 GB já estão custando cerca de quarenta dólares. Na mesma linha, também comprei um disco rígido de 2,5 polegadas, USB, externo, por 150 dólares. Já cheguei a pagar mais de 500 dólares por um disco de 5 MB (sic). Já cheguei pagar cinco mil dólares por um notebook — hoje paguei dois mil por um incrivelmente mais potente. Minha filha comprou um notebook com processador Intel Core 2 Duo de 5540, 3 GB de memória, disco rígido de 250 GB, por menos de 750 dólares — cerca de 1.275 reais. Em 1994 eu paguei cinco mil dólares em Campinas por uma linha telefônica comercial da antiga Telesp, que hoje não vale nada: pedi para desligá-la há dias (depois conto a história).

Comecei dizendo que iria falar sobre bobaginhas. Algumas desses coisas não são bobaginhas: são até importantes…

Em Cortland, totalmente nevada, 20 de Março de 2008

Igualdade

É fácil endossar certos princípios quando eles ficam num nível de generalidade ou abstração que deixa questões específicas ou de detalhe de lado.

Igualdade, por exemplo, implica o quê? Igualdade material ou substantiva, isto é, igualdade de condições (inclusive financeiras)? Ou igualdade formal, isto é, igualdade diante da lei, igualdade de direitos?

O liberalismo (ou, a direita, como preferem alguns) certamente considera a liberdade o bem maior — mas está convicto de que nenhum sistema funciona direito se há liberdade apenas para alguns. Por isso, o liberalismo defende igual liberdade para todos — e, portanto, defende a igualdade, num certo sentido do termo. Mas essa igualdade é formal: igualdade diante da lei, igualdade de direitos. Na verdade, o liberalismo acredita que não há liberdade sem igualdade nesse sentido.

A busca da igualdade material ou substantiva, que caracteriza a esquerda, é repudiada pelo liberalismo exatamente porque o liberalismo acredita que a busca dessa igualdade não pode se dar sem violar a igualdade formal, sem violar a igualdade de direitos.

Por exemplo: para melhorar o nível de renda dos pobres, o governo tem de tratar a população desigualmente (do ponto de vista formal), beneficiando uns às custas dos outros; para melhorar o nível social e econômico dos negros, o governo tem de tratar a população desigualmente (do ponto de vista formal), privilegiando uns em detrimento dos outros, como, por exemplo, no caso das cotas para acesso à universidade.

Assim sendo, o liberalismo repudia a busca da igualdade (material) exatamente porque ela não pode ser alcançada sem violar a igualdade (formal).

Em Cortland, 18 de Março de 2008

Transações econômicas

Uma transação econômica tem lugar quando (em princípio) dois agentes decidem se engajar numa operação de troca ou compra-e-venda. Numa sociedade livre, a decisão de se engajar nesse tipo de operação também é livre (não-proibida, não-obrigatória, enfim, não coagida) e decorre da percepção dos agentes de que o resultado da operação é no seu interesse.

Transações econômicas numa sociedade livre são, portanto, a prova viva de que o mercado não funciona como uma instituição de “soma zero”, em que, se um sai ganhando, o outro necessariamente sai perdendo. O mercado numa sociedade livre permite que o resultado de uma transação econômica seja no interesse das partes que nela se engajam: ambas (supondo-se que sejam duas) saem ganhando, nenhuma sai perdendo. Se não fosse esse o caso, não haveria transações econômicas. Se o meu interesse é mais bem atendido se eu permanecer na situação atual, sem fazer qualquer troca, sem comprar ou vender, eu simplesmente não me engajo em uma transação econômica. Por que o faria?

Embora a economia livre preconizada pelo liberalismo seja geralmente denominada, hoje em dia, “de mercado”, é evidente que transações econômicas acontecem também em sociedades não totalmente livres, ou não muito livres, ou até mesmo em sociedades não-livres de todo. Isso significa que não se deve considerar o mercado como equivalente de mercado livre: o mercado é o espaço institucional onde transações econômicas têm lugar – e ele pode ser mais ou menos livre. O liberalismo defende a tese de que o mercado deve ser livre – totalmente livre, sem coações de qualquer tipo. Ou seja, no mercado livre, ninguém deve ser probido de fazer qualquer transação econômica nem obrigado a fazê-la – e os termos da transações econômicas são livremente escolhidos entre as partes, sem qualquer coação.

Numa sociedade democrática a única instituição que tem condições de legalmente coagir os potenciais agentes econômicos, impedindos-os de agir, obrigando-os a agir, ou ditando os termos em que é permissível realizar as transações econômicas, é o governo. Na democracia liberal se defende a tese de que o governo não deve ter esse direito: o governo é impedido (em geral pela Constituição) de interferir na esfera das transações econômicas. Mas há sistemas políticos, como a chamada democracia social, em que esse impedimento não existe e o governo tem, portanto, liberdade de interferir nas transações econômicas de terceiros. Na realidade, a democracia social foi construída em cima da tese de que a intervenção governamental nas transações econômicas pode ser benéfica – não necessariamente para as duas partes envolvidas, mas, em geral, supostamente, para “a parte mais fraca”, ou, como freqüentemente se pretende, para “a sociedade como um todo”.

É evidente que uma intervenção governamental feita com a intenção de beneficiar “a parte mais fraca”, ou “a sociedade como um todo”, pode, no prazo médio ou longo, não produzir os resultados desejados ou até mesmo produzir resultados opostos aos desejados. É por isso que, em economia, é comum se referir às “conseqüências não desejadas” de ações (as chamadas políticas públicas, por exemplo) feitas com boas intenções.

Citemos alguns exemplos, de resto sobejamente conhecidos.

No tempo do nefasto, e indevidamente famoso “Plano Cruzado”, o governo tabelou (entre outras coisas) o preço da carne bovina – com a intenção de beneficiar os consumidores, em especial os mais pobres. A intenção era fazer com que até os mais pobres pudessem ter carne bovina na mesa. Ao fazer isso, o governo evidentemente interferiu nas transações econômicas dos indivíduos. Quem tinha boi no pasto com a intenção de vendê-lo para abate não teve mais a liberdade de cobrar, pelo boi, o preço que considerava justo – porque o preço ficou tabelado. O que aconteceu? A oferta de bois para abate foi reduzida – a ponto de claramente prejudicar o abastecimento. Isso significou que, apesar de o preço na carne nos açougues e supermercados estar tabelado, não havia carne para comprar – e os mais pobres continuaram sem carne.

Pior do que isso, medidas governamentais como essa ajudam a produzir o chamado “mercado negro”, ou o eufemisticamente chamado “mercado paralelo”. Para os clientes de maior poder aquisitivo o açougueiro revela que pode arrumar a carne desejada – mas “com ágio”. O chamado “ágio”, no caso, não é realmente ágio: é a diferença entre o que seria o preço livre e o preço tabelado. Os mais ricos pagavam a diferença e obtinham a carne. Os mais pobres, em benefício dos quais a medida foi tomada, continuavam sem carne. Neste caso, a intenção de beneficiá-los, redundou em fracasso e a medida teve de, oportunamente, ser abandonada.

A mesma coisa aconteceu com o tabelamento de automóveis: o consumidor, para obter seu carro, precisava pagar “ágio”, isto é, pagar “por fora”.

O salário mínimo é outra forma em que o governo intervêm nas transações econômicas dos indivíduos. Qualquer pessoa jurídica ou física que queira contratar um empregado está obrigada a respeitar o salário mínimo. Isso quer dizer que alguém, que poderia pagar, digamos, 250 reais por mês para uma empregada doméstica, pode resolver não contratá-la se o salário mínimo é de 400 reais mensais. Com a diferença de 150 reais mensais compra, em um ano, uma máquina de lavar roupa e um aspirador de pó, por exemplo. Resultado: a potencial empregada doméstica, que poderia obter um emprego por 250 reais por mês, fica desempregada. Neste caso, a intenção de beneficiar os mais pobres acabou por prejudicá-los. Os bastante ricos provavelmente já pagavam, para seus empregados domésticos, mais do que o salário mínimo exige. Mas a classe média baixa, que poderia estar empregando os realmente pobres em suas residências, deixa de fazê-lo – e, com isso, a medida, tomada com boas intenções, contribui para o aumento do desemprego dos mais pobres.

Em Cortland, 17 de Março de 2008

Sobre a chamada Inclusão / Exclusão

Termos entram em voga e saem de voga. Certamente os termos "inclusão" e "exclusão estão em plena voga. Fala-se a toda hora e em todo lugar de inclusão e exclusão, incluídos e excluídos.

A categoria mais ampla de inclusão / exclusão parece ser a social: os socialmente excluídos seriam os pobres, os que sem educação formal, os sem poder (ou "desempoderados", outro termo da moda, junto com o seu correlato "empoderados" — os substantivos sendo empoderamento e desempoderamento, que traduzem mal o Inglês "empowerment" e "disempowerment"). Os socialmente incluídos seriam os outros: os que têm dinheiro e educação e, assim, participam do "jogo do poder" (são "empoderados").

Outra categoria, menor, é a da inclusão / exclusão digital: os digitalmente excluídos seriam os que não têm acesso ao mundo digital ou, tendo acesso, não sabem o que fazer com esse acesso para melhorar a qualidade de sua vida. Os digitalmente incluídos seriam os outros: nós, os que temos acesso a esse maravilhoso mundo digital e conseguimos até ganhar a vida explorando-o (no bom sentido). Há os que alegam que, hoje, a inclusão digital é chave para a inclusão social — sem aquela, esta seria virtualmente impossível. Talvez seja.

Mas eu quero falar aqui é de inclusão / exclusão de outro tipo. Talvez essa seja a área em que os dois termos originalmente apareceram. Falo da área dos deficientes em geral — daqueles que a consciência das pessoas politicamente corretas resolveu chamar denominar de "pessoas com necessidades especiais". Os mais exagerados em seu corretismo político os chamam de "differently abled" — pessoas com habilidades diferentes, ou diferenciadas. Tudo eufemismo para descrever o triste fato de que algumas pessoas, por falha da natureza, ou por acidente de percurso, carecem de recursos (de algum tipo ou de outro) que as demais pessoas (as "normais" — termo, hoje, quase de opróbrio, têm): ou não vêem, ou não ouvem, ou não têm algum membro, ou têm alguma outra disfunção física, ou, por fim, ficam significativamente abaixo da média em capacidade mental — ou "inteligência" (outro termo, hoje, problemático).

Os defensores da inclusão (no sentido aqui contemplado) têm lutado, com unhas e dentes, contra o preconceito para com os deficientes e para que todos nós, os não-deficientes, nos coloquemos no lugar dos que não têm tanta sorte quanto nós e têm diversos tipos de problemas para fazer as coisas corriqueiras da vida: andar de cadeira de rodas em ruas ou edifícios sem rampas, para os que usam cadeira de rodas, ou a estudar, para os cegos e surdos, etc. Nisso estão absolutamente corretos. Nada do que vou dizer no que segue pretende questionar isso.

Também não quero nem de longe duvidar do fato de que pessoas, por exemplo, com deficiência mental podem ter até mesmo um superávit de outras características humanas extremamente positivas.

O que quero questionar é a tese, apaixonadamente defendida por alguns proponentes da inclusão dos deficientes, de que estes não são, afinal de contas, deficientes — ou, alternativamente, de que, tendo em vista o (suposto) fato de que todos nós somos deficientes em algum aspecto, os chamados deficientes não são realmente deficientes: simplesmente são diferentes, ou possuem habilidades diferentes ou diferenciadas ("differently abled").

Estou convicto de que os que assim agem prestam um desserviço à causa dos deficientes — e vou tentar explicar por quê.

Não resta dúvida de que existem grandes diferenças individuais entre os seres humanos. Uns são muito altos, outros muito baixos, a maioria fica entre os dois extremos; uns são mais claros, outros mais escuros; uns são mais robustos ou gordos, outros mais franzinos ou magros; etc. Também não tenho dúvida de que a mesma diversidade que existe nas características físicas prevalece nas características mentais. Não acredito que nossa mente seja uma "tabula rasa" e que todas as diferenças mentais se devam ao ambiente. Estou convicto de que, da mesma forma que uns são mais altos, claros, fortes e outros mais baixos, escuros e franzinos (em todas as combinações possíveis), alguns são mais bem dotados do que outros em características como inteligência, motivação, ambição, capacidade de relacionamento interpessoal, etc.

Reconhecer o fato da diversidade física e mental do ser humano, entretanto, não nos obriga a aceitar a tese de que a normalidade inexiste. É verdade que, em determinadas áreas, o conceito de normalidade é um conceito estatístico, e, portanto, tem limites (contornos demarcatórios) fluidos, porosos, e, por causa disso, flexíveis. Dizer de alguém que ele tem inteligência normal é afirmar que sua inteligência, como medida por testes de inteligência, recai dentro de certos limites intermediários. Exclui-se, nesse caso, tanto a possibilidade de que ele seja "retardado" (abaixo da linha demarcatória da normalidade) como a possibilidade de que seja um "gênio" (acima da linha demarcatória da normalidade). É verdade que há problemas com esse discurso: questiona-se se os chamados testes de inteligência realmente medem inteligência; há discussões homéricas sobre  quanto da inteligência, assim medida, seria devido a fatores genéticos e quanto a fatores ambientais; há toda uma discussão relacionada sobre a questão da "educabilidade da inteligência", ou seja, da possibilidade de melhorar a inteligência das pessoas através da educação, etc.

Isso posto, parece-me indiscutível que, apesar das questões abertas que permanecem, e apesar de não haver consenso sobre onde estão os limites, a tese de que "todos somos deficientes intelectuais" é um absurdo. A tese representada pela expressão entre aspas é defendida em um artigo de Fábio Adiron que vem circulando pela Internet. Vide:

http://insanadiron.blogspot.com/2008/03/somos-todos-deficientes-intelectuais.html

Fábio Adiron é professor de teologia sistemática (protestante) e pai de um menino com Síndrome de Down — chamado Samuel. Diz ele (Fábio):

"Desde que o Samuel nasceu tentam me provar (ainda não me convenceram e, à medida que ele cresce, me convenço menos ainda) que existem algumas áreas do raciocínio que são problemáticas nas pessoas com deficiência intelectual: percepção, memória, abstração e capacidade de interpretação. Lendo e escrevendo eu descobri que não são as pessoas com deficiência que tem essa dificuldade. Somos todos nós.

Temos sérios problemas de percepção. Poucas vezes conseguimos notar que algo diferente está acontendo ao nosso redor. Quando percebemos o fato, não conseguimos ler suas entrelinhas, quando lemos as entrelinhas distorcemos tudo.

Dizem que o brasileiro é um povo sem memória. Tenho a impressão que essa não é uma exclusividade nacional. Com a desculpa da nostalgia voltamos a cometer os mesmos erros do passado. De um lado valorizamos a forma de viver do "nosso tempo" (nesse caso sempre algo da nossa infância e juventude) como se esse tempo não fosse o agora. Ressucitamos anacronismos e ainda
achamos bonito. Do outro lado, esquecemos totalmente a história , geralmente naquilo que ela teve de pior, até que seja tarde demais e o estrago já tenha sido feito…de novo.

Também descobri que o uso de metáforas, analogias, metonímias e outras figuras de linguagem são inviáveis. Ironia, então, nem pensar. Não sabemos ou não queremos exercitar nossa abstração. Isso dá trabalho e exige que se pare para pensar. Só conseguimos conviver com o que é concreto, visível, palpável ou compreensível de forma direta. Precisamos personificar conceitos, ou melhor, só personificar sem conceituar nada. Deve ser por isso que os reality-shows façam tanto sucesso, uma vez que não exigem nenhum esforço intelectual."

Não há a menor dúvida de que a capacidade de percepção, mémória, abstração, raciocínio, etc. difere de um ser humano para outro e admite, dentro da curva da normalidade, grande diferenciação. Também não há a menor dúvida de que, mesmo alguém que representa um sério caso de Síndrome de Down pode, com estimulação (i.e., educação) adequada fazer progressos significativos no seu desempenho intelectual, psico-motor e interpessoal. Tudo isso é concedido. Mas, para que possamos dar a esses deficientes o melhor atendimento possível, é preciso reconhecer que eles estão fora da curva da normalidade, e, portanto, possuem "necessidades especiais" que dificilmente serão contempladas se fizermos de conta que eles são normais, ou que todos nós somos anormais (ou, no caso, "deficientes intelectuais"). Pode ser que, em algumas atividades, o deficiente (no caso, o portador da Síndrome de Down) seja beneficiado pela "inclusão" — ou seja, pelo fato de receber o mesmo tratamento que os demais. Mas é possível (talvez mais do que isso, provável) que em outros casos ele se beneficie de uma "educação especial", dedicada especificamente às "necessidades especiais" que eles têm e os demais não têm — e, por conseguinte, "exclusiva".

Para não me estender demais, as dificuldades conceituais na definição da normalidade na área mental, em especial na que envolve a inteligência, absolutamente inexiste na área da integridade física. Se alguém tem ou não tem os dois braços, ou as duas pernas, não é uma questão estatística.

Pode-se tentar contra-argumentar com a questão da percepção sensorial: se alguém é cego ou surdo, ou não, seria uma questão estatística? Eu, por exemplo, uso óculos desde os oito anos de idade (e, provavelmente, deveria ter começado a usá-los bem antes, só não o fazendo por causa da teimosia de meu pai que achava que eu reclamava de que não enxergava a lousa na escola porque achava charmoso usar óculos…). Agora, que estou mais velho, há sons que não escuto facilmente (entre eles o do despertador de meu relógio de pulso). Mas essas minhas "deficiências" são, em parte, corrigíveis: a miopia pelo uso de óculos, por exemplo. A dificuldade para ouvir o alarme de meu relógio não prejudica em nada o meu desempenho nas tarefas que realizo — só me obriga a não depender de meu relógio para ser acordado de manhã. Além, disso, o fato de que alguns de nós não enxergamos ou ouvimos tão bem quanto a maioria não elimina o fato, nem reduz sua importância, de que algumas pessoas simplesmente não enxergam ou não ouvem absolutamente nada. É ridículo pretender que, porque eu tenho de usar óculos, ou minha mãe tem de usar aparelho de audição, a cegueira ou a surdez não sejam deficiências sérias que estão a exigir atenção especial e formas de educação muito especiais (e, por conseguinte, "exclusivas"). O braille e a linguagem de sinais certamente são linguagens — mas não são totalmente equivalentes às linguagens naturais. Pretender doutra forma é tentar mascarar a realidade.

Por fim, acho que a tentativa de ser politicamente correto, com seus eufemismos bobos, é uma bestagem terrível. As coisas devem ser chamadas pelo nome certo: ser cego, ou ser surdo, é uma deficiência, sim; ser portador de Sïndrome de Down é ser portador de uma deficiência, sim. Ninguém sai ganhando se a gente pretender que a realidade é diferente só porque a gente a rotula com outros termos. Da mesma forma que uma rosa continuaria a cheirar bem, mesmo que fosse chamada de uma forma diferente, uma deficiência continua a ser uma deficiência, ainda que a gente a chame de outra coisa.

Em Bellevue, 12 de março de 2008

Two ways of viewing work and educational practice

Tthere are two ways of viewing work:

  • Work is something you have to do, like it or not, to make money that will allow you not onlt to sustain yourself but also, and most importantly, do the things you really enjoy doing;
  • There are many things you really enjoy doing, and the best way to work is by getting people to pay you to do the things you would do anyway, even without pay.

Running the risk of oversimplifying the issue, I believe that there are two alternative, competing ways of viewing educational practice that are somehow analogous to these two ways of viewing work:

  • There are many things (information, knowledge, values, attitudes, skills, competencies) that you have to learn, like it or not, and the function of the teacher is to present these things to you and (in the case of teachers considered good) to look for ways of motivating you to learn them by trying to make learning them either fun and interesting or otherwise rewarding;
  • There are many things that you are interested in doing, and the function of the teacher is to find ways to get you to learn important things (competencies, skills, information, knowledge, values, attitudes) while you are doing the things in which you are interested.

Over Great Falls, Montana (United flight 755, from Chicago to Seattle), on the 11th of March of 2008, 8:00 Pacific Daylight Savings Time