O desafio de uma linguagem objetiva

Não me parece difícil — muito menos impossível — usar linguagem objetiva: chamar as coisas pelo devido nome.

Quando vinha para São Paulo, hoje cedo, ouvi na CBN, no carro, uma entrevista do Heródoto Barbeiro com um juiz de direito do Rio Grande do Norte que andou escrevendo um artigo sobre o sistema prisional brasileiro.

A entrevista foi uma graça.

Primeiro, o juiz não chama preso de preso ou detento: preso, para ele, é sistematicamente "reeducando". Até o pobre do Heródoto entrou na dança se referindo aos presos.

Segundo, o juiz afirma peremptoriamente que não faltam vagas no nosso sistema prisional: há, isto sim, "excesso de reeducandos".

Terceiro, a causa da existência de "excesso de reeducandos" é que o sistema educacional está falhando na educação da população: por isso, os indivíduos cometem delitos e precisam ser reeducados.

Está certo que nosso sistema educacional (em especial o público) é ruim. Mas que sua ruindade seja a causa de tanto criminoso é algo que precisa ser provado.

Fiquei me lembrando das distorções que as ideologias políticas esquerdizantes — comprovando a tese de George Orwell de que, se se quer dominar a população, é preciso inventar uma nova língua ("Newspeak", Novilíngua).

Na Novilíngua da esquerda social-democrata americana, liberalismo não é o que os Pais Fundadores defendiam: liberais são eles, seguidores do "New Deal" de Franklin Delano Roosevelt. (Os liberais à antiga tiveram de se renomear de libertários).

Pouco se fala em justiça, propriamente dita, hoje. Fala-se em "justiça social" (que nada mais é do que injustiça que favorece os pobres).

Durante a Guerra Fria, os governos comunistas da Europa do Leste se denominavam "democráticos" — que era exatamente o que não eram.

Hoje, aqui no Brasil, o Lulla fala em "democratizar" a imprensa — que quer dizer exatamente o contrário: desdemocratizar a imprensa, retirar-lhe a liberdade de criticar o governo, colocá-la sob controle rígido. (Ela até pode ser livre para puxar o saco do governo e dos petistas).

E assim vai. É uma pouca vergonha.

Em São Paulo, 14 de Janeiro de 2008

Tecnologia: modem celular

Desde que comprei meu sítio, na zona rural de Salto, em 2001, minha maior frustração, ao estar lá, é não ter um acesso decente à Internet. O único acesso viável, até agora, era o discado. Depois que mandei trocar toda a fiação telefônica, desde a estrada até dentro da casa, colocando um conjunto de cinco pares trançados dentro de uma capa duplamente blindada, até com estanho, o meu acesso discado melhorou sensivelmente, ficando estável numa média de 45 Kbps. Antes de fazer isso, a média era cerca de 25-30 Kbps, e a conexão era instável. Quando chovia forte, o ruído na linha era tão grande que inviabilizava a conexão. Com a nova fiação e o acesso ilimitado por 29.90 via o serviço Internet Ilimitada da Telefónica, eu quebrava o galho — mas a solução não era satisfatória.

Quanto às possíveis alternativas…

1) A Telefónica não leva o Speedy até o sítio — apesar de o sítio estar a menos de 10 km do centro da cidade e a menos de 4 km de uma central da Telefónica, já na zona rural.

2) Nenhuma empresa de TV a cabo leva o seu cabo até a zona rural. Serviços de TV por assinatura via satélite, como a Sky, não oferecem acesso à Internet ainda.

3) Procurei encontrar alguém que me fornecesse acesso via rádio à Internet. Uma empresa de Salto oferece — mas só dentro da cidade (a antena deles está em cima do prédio mais alto da cidade, que fica num morrinho). De lá não há visada para o sítio e eles não têm dinheiro para colocar uma torre no rumo da Rodovia Santos Dumont ou da Rodovia do Açúcar, onde ficam as torres dos celulares (Claro, Vivo), de onde há visada até o sítio.

4) A Embratel oferece um serviço de acesso à Internet via satélite, mas a preços da Embratel estatal. A antena custa quase dois mil reais e o serviço mensal, para um acesso de 128 Kpbs, custa um horror.

5) Uma amiga, Jane Bottura, que também tem um sítio, só que em Itapetininga, me falou do modem celular — especificamente, do Vivo ZAP. Disse que tinha acesso por 99 reais mensais a uma velocidade razoável (mais ou menos 128 Kpbs). A vantagem é que o modem celular pode ser usado em qualquer local em que haja sinal da operadora, sem pagamento de roaming, etc.

6) Fui a uma loja da Vivo no Plaza Shopping de Itu, eles tinham o produto. O modem custava 299,00 e o preço do acesso ficava em 139,00 por mês, para acesso ilimitado tanto em tempo como em quantidade de dados transmitida. Resolvi comprar. Quando foram habilitar o modem (tem de ser habilitado como um telefone celular normal) me disseram que o sistema deles acusava que havia um problema com meu CPF. Tentei descobrir o que era, mas não consegui. Fui no SERASA nos dias seguintes, para ver se alguém havia colocado meu nome no SERASA. Lá o meu nome estava (está limpo). Lembrei-me então de que no início de 2007, quando estava trabalhando em São Paulo, descobri, ao tentar fazer uma compra a crédito, que meu nome estava no SERASA, colocado pela Vivo. Consegui descobrir, naquela época, depois de perder muito tempo, que se tratava de três contas não pagas, todas de Julho de 2002, de três celulares diferentes, todos aparentemente habilitados com meu CPF, na região de DDD 16 (região de Ribeirão Preto, São Carlos, etc). As três contas somadas, davam um valor de mais de 12.500,00 reais (sem contar juros, etc.). Disse à Vivo que nunca havia habilitado aqueles telefones. Pediram-me que lhes provasse, através de algum Boletim de Ocorrência, que os telefones haviam sido fraudulentamente habilitados com meu CPF. Disse à Vivo que só ficara sabendo desses telefones através deles, no início de 2007, quase cinco anos depois da data das contas vencidas e não pagas. Com muito custo, aceitaram que fizesse uma declaração de próprio punho, com firma reconhecida e perante testemunhas, de que os telefones não eram meus, que eu não os havia habilitado, etc. Fiz isso, entreguei, e depois de quase 60 dias (sic) meu nome foi retirado do SERASA. Tive de pagar a compra que estava querendo fazer com cartão de crédito. Aparentemente, porém, os fdps da Vivo tiraram meu nome do SERASA mas deixaram o meu CPF registrado no sistema deles. Enfim, não consegui comprar o maldito Zap da Vivo. Pior para eles, como se verá.

7) No dia 8 de Janeiro de 2008, estava no Shopping Dom Pedro, em Campinas, quando vi a loja da Vivo e resolvi entrar e conversar com eles mais uma vez… A outra loja era franquia, esta era uma enorme loja própria. Mas eles não tinham o Zap. Nem precisei contar o caso. Saí e passei em frente à Claro e resolvi pegar uma senha e perguntar se eles não tinhal algo semelhante (até o mês passado, não tinham). Esperei cerca de uma hora, mesmo com a senha especial de idoso, mas dei sorte. Quando falei com o atendente, ele me disse que a Claro havia acabado de lançar o produto, que já era 3G (embora "backward" compatível com GSM), que custava 99,00 reais pr mês (40,00 menos do que o da Vivo) para acesso ilimitado em todo território em que a Claro está presente, que a mensalidade seria gratuita no primeiro mês e com 50% de desconto nos outros dois, e que o modem seria de graça, porque eu já era cliente da Claro (meu celular é da Claro — que eu herdei porque era cliente da Tess). Comprei na hora. Levou 48 horas para ele ser habilitado, mas desde o dia 12 venho usando o dito cujo para teste o tempo todo – à velocidade de 236,8 Kbps aqui em Campinas (ainda apenas GSM). Hoje estou aqui em São Paulo, na Lumiar, e me conectei com o modem Claro — e quase caí da cadeira ou ver que o computador registra que a velocidade é 7,2 Mbps!!! Inacreditável. (O acesso via cabo na minha casa em Campinas é de 8 Mbps – o mais rápido que a Net oferece). Quando Campinas e Salto tiverem a tecnologia 3G, o que deve ser logo, o meu problema de acesso à Internet estará resolvido, pois o sinal da Claro é excelente em ambos os locais. (No sítio, a torre da Claro fica a cerca de 2 km de minha casa, bem no alto, perfeitamente visível de qualquer lugar dentro do sítio.)

Moral: há males que vêm para bem…

Em São Paulo, 14 de Janeiro de 2008

Ilha Bela – 4

Voltei hoje da Ilha Bela. Tinha hora marcada para 9h. No entanto, levantamo-nos mais cedo e às 8h estávamos na beira do canal. Embarcamos quase imediatamente, sem precisar pagar a hora marcada, que foi cancelada. O trânsito na estrada estava ótimo, de modo que o retorno foi muito diferente da ida.

Paramos para tomar café da manhã numa padaria em São Sebastião, porque não quisemos esperar o café na casa da Mary.

Ao passar por Caraguatatuba, resolvemos ir ver os nossos netos Gabriela e Felipe, que estavam com a mãe (Adriana) na casa da mãe dela, a Vera. Ficamos lá uns 45 minutos, brincamos um pouquinho com as crianças, e seguimos em frente.

Demos uma paradinha no Frango Assado da Carvalho Pinto, mas estava muito cheio para comer alguma coisa. Assim, fomos em frente e resolvemos entrar em Nazaré Paulista, para procurar um restaurante. Encontramos um restaurante familiar, com comida por peso, comemos alguma coisa, e partimos para a reta final até Campinas.

Chegamos em casa cerca de 13h30. Encerrado o passeio.

Em Campinas, 7 de Janeiro de 2008.

Ilha Bela – 3

Ontem 5 de Janeiro, passamos o dia inteiro na praia do Engenho, apesar de o tempo não estar prometendo, de manhã. :Até por volta das 13h era difícil dizer se o tempo iria se firmar ou não. Depois dessa hora, ficou bom — até com sol forte, em alguns momentos. A água sempre esteve quente.

Na praia, brincamos na água, o Gabriel e eu. O restante ficou na área (com exceção de uns cinco minutos em que a Sueli entrou na água). Comemos pastéis, de carne e de queijo, iscas de peixe, coisas assim. E tomamos cerveja e caipirinha.

À tardinha voltamos para casa. Cochilei um pouco. Mais tarde comemos um churrasquinho feito pelo Alexandre  (muito bom, por sinal) — e, daí, choveu forte, muito forte. Fechou o tempo de modo a tornar invisível a linda vista. Não dava pra ver nem a estação dos petroleiros. 

Ontem, exatamente por causa da ameaça de chuva, o dia esteve bem melhor do que anteontem: muito menos gente na praia e nas ruas. Cada vez mais me convenço de que estou me tornando gentófobo. Gosto de ficar quieto, sozinho, ou entào na companhia apenas de umas poucas pessoas que conheço e quero bem.

Meu outro genro, o Rubens, marido da Patrícia, chegou ontem dos Estados Unidos, onde estava com ela. Ela continua lá com o Marcelinho, por mais um tempo.

Hoje é Dia dos Reis. História improvável é a aquela de três reis levarem presentes valiosos ao menino que dormia na manjedoura… Mas há quem acredite.

Hoje o dia está bonito. Vamos ver o que faremos. Amanhã zarpamos de volta para casa — com hora marcada na balsa.

Em Ilha Bela, 6 de Janeiro de 2008.

Ilha Bela – 2

Ilha Bela é, para mim, um local em relação ao qual tenho sentimentos ambivalentes. Ao mesmo tempo que acho maravilhosa a paisagem natural, e até mesmo da paisagem arquitetônica, vir aqui mais de uma vez por ano, para quem mora em Campinas (ou mesmo em São Paulo), é algo que considero inimaginável. E olhem que mesmo uma vez por ano já é muito.

Primeiro, há a demora na vinda. De Campinas, tenho de percorrer toda a Rodovia Dom Pedro, mais um pedaço da Carvalho Pinto, mais a Tamoyos, mais a estrada que vai de Caraguatatuba até São Sebastião, para, em seguida, atravessar a balsa e tentar minha sorte dirigindo dentro de Ilha Bela. Quando vim, em plena Quinta-feira (saí de Campinas às 9h), tive de dirigir a 80 km/h em toda a Tamoyos, exceto onde havia uma congestionamento (um caminhão de bebidas havia tombado, bloqueando parcialmente a pista de descida): nesse trecho a velocidade foi de 10 km/h, se tanto. A Tamoyos tem uma pista em cada direção, na qual a velocidade máxima é 80 km/h, e algo chamado de pista auxiliar, que nada mais é do que um estreito acostamento em que criminalmente se permite que os motoristas dirijam à velocidade máxima de 60 km/h (criminalmente porque além da estrada ficar sem acostamento, a largura da pista mal comporta um automóivel pequeno). Como já peguei várias multas nos diversos radares da estrada, e tive minha Carteira de Habilitação suspensa, procuro observar os limites de velocidade. O problema é que sou um dos poucos que fazem isso. Isso significa que, dirigindo eu a 80 km/h, forma-se imediatamente uma fila de carros atrás de mim. Mudo para a pista "auxiliar" — mas daí tenho de reduzir a velocidade para 60 km/h e se torna quase impossível voltar para a outra pista num dia de tráfego intenso, a menos que faça como o motorista típico da Tamoyos:  ligue o sinal e simplesmente jogue o carro na frente de outro que vem vindo atrás, obrigando-o a frear bruscamente ou a, se puder, desviar para a pista contrária. A estrada de Caraguatatuba a São Sebastião tem velocidade máxima de 60 km/h e é cheia de trechos com quebra-malos em que a velocidade máxima se reduz para 30 km/h. Em São Sebastião, achar o fim da fila da balsa é como brincar num complexo labirinto: só um gênio do mal desenharia um itinerário mais louco. Todo mundo estava perdido. E, por fim, a espera para atravessar o canal: na Quinta-feira foi de um pouco mais de duas horas, durante as quais se fica sentado dentro do carro, com o motor funcionando para permitir que o ar condicionado impeça que se morra por calor. Contando o tempo em que paramos para tomar um café, no Recanto Santa Bárbara (km 22 da Tamoyos) e para tomar um lanche (já dentro de São Sebastião), levamos nada menos do que sete horas para chegar aqui onde estamos. Não sei qual é a distância, mas não creio que seja muito mais do que uns 210 km de Campinas para cá. Velocidade média de ponto a ponto (incluindo as indispensáveis paradas): 30 km/h. Como é que alguém agüenta passar por esse ritual duas vezes por semana (como minha filha) é algo que ultrapassa minha capacidade de entendimento.

Segundo, há a movimentação na própria Ilha, em especial nas férias, em feriados e (mesmo fora de temporada) nos fins de semana. A Ilha  tem poucas ruas, todas elas estreitíssimas, tortas, e mal calçadas. Nelas parecem inexistir leis de trânsito (só vendo para acreditar onde estacionam os carros), respeito por pedestres, etc. Tudo que é restaurante ou loja é cheio, é difícil andar na rua, é um desafio arrumar lugar nas praias (em geral minúsculas) é um desafio, tudo é caríssimo… Se a gente resolver ficar em casa (que seria a minha solução parcial para esse conjunto de problemas), ainda sim é necessário sair para buscar água e comida. Meu genro comprou uma moto para facilitar a locomoção pela Ilha. Mas mesmo relevando o risco que é andar de moto num ambiente como o descrito, a moto carrega apenas dois — e não é o transporte ideal para compras de supermercado.

Terceiro, há o jeito e a postura do ilhabelino típico — que não vou comentar, mas que, quem já viu, conhece.

Enfim, para mim, exceto quando estou vendo a paisagem daqui de cima do morro (que, como disse, é uma das mais lindas que já me foi dado conhecer), é difícil de imaginar que alguém considere vir aqui o supra-sumo do lazer. Um dia do meu sítio me descansa muito mais do que uma semana aqui. A paisagem lá, apesar de não tão exuberante (falta o mar), é muito bonita também. Mas a diferença na qualidade de vida está na densidade populacional, que no sítio é de, no máximo, uma pessoa por hectare, contando os caseiros…

Quem leu a minha crônica de ontem vai se surpreender com o tom desta. Mas é chocante o contraste entre o ambiente físico de Ilha Bela (sua paisagem e sua arquitetura) e seu ambiente humano nos espaços públicos — isto é, fora das residências.

Mas prometi, na crônica de ontem, que relataria o meu dia. Levantei-me às seis ontem, escrevi a primeira crônica, e fiquei fuçando no computador (arrumando as coisas, porque não há Internet aqui na casa), até que o Gabriel acordou (por volta das 7h30, surpreendentemente cedo). Até que todo mundo se levantasse ficamos vendo fotos no computador, ouvindo as músicas do mp3 player dele, e batendo papo. Depois tomamos café e fomos para a praia do Engenho. Felizmente achamos um lugar bom, debaixo de um chapéu-de-sol, perto do bar e da água. Ficamos ali por volta de cinco horas, nadando (Gabriel e eu — as senhoras, a Sueli e a Tatiana, quase não entraram na água), tomando sorvete (ele), cerveja (eu e Sueli) e água de coco (Tatiana), comendo pasteizinhos, lula frita, etc. — tudo muito saudável. Depois voltamos para casa, brincamos na piscina mais um pouco, e almoçamos (embora eu estivesse satisfeito). Dormimos um pouco, porque ninguém é de ferro, acordamos, tomamos banho (como se não bastasse toda a água do mar e da piscina) e fomos para a Vila, comer pizza. Por incrível que pareça, entro no restaurante lotado e encontro a Paula, amiga de infância da minha filha mais nova, a Patrícia, esperando por sua pizza, junto ao marido e à filhinha. Coincidência. Depois do jantar, uma rápida andada pelo "espaço urbano", um cafezinho (mais um sorvete para o Gabriel), e volta para casa.

Nos interstícios das atividades descritas, achei tempo para arrumar o meu Quicken, que pretendo usar novamente, e que estava meio bagunçado, por causa de uso apenas esporádico.

E esta foi a manhã e a tarde do meu primeiro dia inteiro em Ilha Bela nestas férias de verão. Restam-me dois: hoje e amanhã. Segunda-feira, volto — espero que de forma não tão demorada: agendei a balsa para as 9h. Como vim na Quinta-feira, achei que não era necessário. Como viram, estava redondamente errado.

Em Ilha Bela, 5 de Janeiro de 2008.

Ilha Bela – 1

Sete horas da manhã.

Estou sentado numa cadeira semi-preguiçosa numa varanda, contemplando uma das mais lindas paisagens que a natureza tem a proporcionar. Do alto do Morro Ponta das Canas, em Ilha Bela, vejo, à esquerda, São Sebastião, bem à frente, o canal que separa Ilha Bela do continente, e, mais à direita, até perder de vista, Caraguatatuba e o que lhe fica ao Norte. O dia está razoavelmente claro, mas como é cedo, e o sol não apareceu ainda, há uma espécie de bruma matinal que me impede de ver além de Caraguá. Em dias claros e de sol, porém, é possível ver até Maresias.

Estou na casa dos sogros de minha filha Tatiana, Mary e Ernesto. O Ernesto faleceu no início deste ano — escrevi um artigo sobre isso aqui no blog. Mas a Mary agora parece estar bem: recobrou o bom ânimo e o excelente humor.

A casa fica quase no cocuruto do morro e tem uma vista de quase 180 graus. A vista da frente e do lado esquerdo ninguém nunca roubará. A do lado direito está sendo roubada em cerca de 30 graus, diria, por uma nova construção. Apesar da altura, consigo ouvir, a esta hora, o mar batendo nas pedras lá embaixo. Há um coral de passarinhos cantando. Acabei de ver um casal de beija-flores piruetando pelas flores, no seu balé matinal.

Não tenho acesso à Internet, aqui. Quando o Ernesto morreu, creio que pressupondo que não viriam aqui com tanta freqüência (ele e a Mary moravam aqui, para eles não era veraneio), cancelaram a linha de telefonia fixa, passando a depender apenas dos celulares. Com isso foi-se a Internet Ilimitada que o Ernesto usava. Hoje vou ter de ir à Vila para ver se encontro algum lugar que me dê acesso à rede. Vou estar aqui até segunda cedo e não agüento ficar desconectado tanto tempo.

Todos dormem ainda. O Gabriel, como de costume, foi dormir comigo e com a Sueli. Estava excitadíssimo com nossa chegada. Primeiro, quis nos mostrar suas recém-adquiridas competências de pescador. Ganhou da vó Mary uma vara de pescar de carretilha e está se aperfeiçoando na arte. Disse que já pescou vários peixes, especialmente a partir do pier da Vila. Ontem, porém, logo depois que chegamos, fomos à prainha privada do condomínio, onde, segundo ele, era possível pescar também. Mas a maré estava enchendo e, assim, quando ele jogava a linha (com isca de lula), a água logo trazia o anzol de volta à praia. A demonstração ficou para hoje. Ficou frustrado na hora, mas logo esqueceu. Afinal de contas, havia tanta coisa a fazer! Férias, para ele, são coisa séria (como deveriam ser para todo mundo).

Depois da prainha, Gabriel e eu ainda ficamos fazendo molecagens na piscina por um bom tempo. A água parecia artificialmente aquecida: estava bem para lá de morna. O Gabriel tem um projeto no momento, que é conseguir que eu aprenda a plantar bananeira na piscina. Nunca consegui e, provavelmente, não vai ser agora, mas ele não desiste. Planta algumas bananeiras para eu ver, me obriga a tentar mais uma vez, e, depois do meu fracasso, me corrige, e, muitas vezes, me imita, mostrando onde errei. Dizem os que estão de fora que a imitação é perfeita. Na realidade, quem olha de fora da piscina deve achar ridículo o meu desempenho (ou, como preferem alguns pseudo-sofisticados, a minha performance). Mas é divertido — e dá ao Gabriel um ar de superioridade totalmente merecido.

Após os exercícios na piscina, tomamos banho, tomamos lanche, e o Gabriel foi me mostrar o seu Livro de Records Guiness. Gosta é dos records mais extravagantes, como o do homem que conseguiu puxar um automóvel enganchado a suas pálpebras.

É interessante como criança se interessa pelo macabro em uma determinada idade. Ontem ele me perguntou se eu conhecia a Praia da Caveira, que fica no outro lado da ilha (que dá para o mar aberto). Disse-lhe que não. Perguntou-me se sabia por que a praia se chamava "da Caveira". Tornei a dizer-lhe que não. Ele me explicou, então, que era porque um navio, há muito tempo, naufragou nas costas da Ilha, e todo mundo se afogou. Depois de algum tempo, começaram a aparecer na praia algumas caveiras, fato que acabou dando a ela o seu nome atual. Perguntei-lhe se ainda hoje seria possível encontrar caveiras por lá, e garantiu-me que não. Fiquei mais tranqüilo… É do outro lado da Ilha, mas nunca se sabe.

Depois da pesquisa no Livro de Records, deitamo-nos numa rede na varanda, ele ficou ouvindo o seu mp3, e eu fiquei fazendo massagem nos pés dele. Estava eu quase dormindo quando ele disse que precisávamos entrar, porque, caso contrário, as muriçocas nos jantariam em caso contrário (apesar do Off que havíamos passado em nossas pernas e braços). Entramos e continuamos o processo no quarto onde eu iria dormir (e de fato dormi). Acabamos dormindo ali.

Hoje não sei o que faremos. Estou por conta dele. O que ele decidir, depois de devidamente aprovado pelos pais dele, eu farei (com o devido consentimento conjugal…). Mais tarde relato.

Em Ilha Bela, 4 de Janeiro de 2008.

História do Comunismo nos Estados Unidos

Como mencionei em artigo anterior, li, nessas férias de fim de ano, The Secret World of American Communism, de Harvey Klehr, John Earl Haynes, e Fridrikh Igorevich Firsov. Fiz uma breve resenha do livro naquele artigo.

Procurando mais informação na Internet, descobri que aquele livro fazia parte da série Annals of Communism Series, publicada pela Yale University Press. O endereço do site da série é http://yalepress.yale.edu/yupbooks/SeriesPage.asp?Series=8 

Descobri também que os dois autores americanos do livro escreveram também um outro,  chamado The Soviet World of American Communism (este com Kyrill M. Anderson).

A seguir, um breve resumo de cada um desses livros, retirado do site da Yale University Press. 

The Secret World of American Communism

Harvey Klehr, John Earl Haynes, and Fridrikh Igorevich Firsov; Russian documents translated by Timothy D. Sergay

For the first time, the hidden world of American communism can be examined with the help of documents from the recently opened archives of the former Soviet Union. By interweaving narrative and documents, the authors of this book present a convincing new picture of the Communist Party of the United States of America (CPUSA), one of the most controversial organizations in American public life. Heated debates about whether the Communist Party harbored spies or engaged in espionage have surrounded the party from its inception. This authoritative book provides proof that the CPUSA was involved in various subversive activities. At the same time, it discloses fascinating details about the workings of the party and about the ordinary Americans and CPUSA leaders who participated in its clandestine activities.

The documents presented range from letters by Americans wishing to do international covert work for the Soviet Union to top secret memos between the head of Soviet foreign intelligence, the Comintern, and the CPUSA. They confirm that:

the Soviet Union heavily subsidized the CPUSA and that some prominent Americans laundered money for the Comintern;

the CPUSA maintained a covert espionage apparatus in the United States with direct ties to Soviet intelligence;

the testimony of former Communists concerning underground Communist activity in the United States can be substantiated;

American Communists working in government agencies stole documents and passed them to the CPUSA, which sent them on to Moscow;

the CPUSA played a role in atomic espionage;

and much more.

An engrossing narrative places the documents in their historical context and explains key figures, organizations, and events. Together the narrative and documents provide a revealing picture of American communism and convey the contradictory passions that drew so many Americans into the Communist movement and eventually tore that movement apart.

Harvey Klehr, the Samuel Candler Dobbs Professor of Politics at Emory University, is also the author of The Heyday of American Communism. John Earl Haynes is a specialist in twentieth-century American history at the Library of Congress. Fridrikh Igorevich Firsov is former head of the Comintern Archive at the Russian Center for the Preservation and Study of Documents of Recent History. All three are working on additional volumes about communism in America.

http://yalepress.yale.edu/yupbooks/book.asp?isbn=9780300068559

The Soviet World of American Communism

Harvey Klehr, John Earl Haynes, and Kyrill M. Anderson

Named an Outstanding Contemporary Book Finalist by the Templeton Honor Rolls for Education in a Free Society

The Secret World of American Communism (1995), filled with revelations about Communist party covert operations in the United States, created an international sensation. Now the American authors of that book, along with Soviet archivist Kyrill M. Anderson, offer a second volume of profound social, political, and historical importance.

Based on documents newly available from Russian archives, The Soviet World of American Communism conclusively demonstrates the continuous and intimate ties between the Communist Party of the United States of America (CPUSA) and Moscow. In a meticulous investigation of the personal, organizational, and financial links between the CPUSA and Soviet Communists, the authors find that Moscow maintained extensive control of the CPUSA, even of the American rank and file. The widely accepted view that the CPUSA was essentially an idealistic organization devoted to the pursuit of social justice must be radically revised, say the authors. Although individuals within the organization may not have been aware of Moscow’s influence, the leaders of the organization most definitely were.

The authors explain and annotate ninety-five documents, reproduced here in their entirety or in large part, and they quote from hundreds of others to reveal the actual workings of the American Communist party. They show that:

• the USSR covertly provided a large part of the CPUSA budget from the early 1920s to the end of the 1980s;

• Moscow issued orders, which the CPUSA obeyed, on issues ranging from what political decisions the American party should make to who should serve in the party leadership;

• the CPUSA endorsed Stalin’s purges and the persecution of Americans living in Russia.

Harvey Klehr is Andrew W. Mellon Professor of Politics and History at Emory University. John Earl Haynes is 20th Century Political Historian at the Library of Congress. Kyrill M. Anderson is director of the Russian Center for the Preservation and Study of Documents of Recent History (RTsKhIDNI).

http://yalepress.yale.edu/yupbooks/book.asp?isbn=9780300071504

Em Campinas, 3 de Janeiro de 2008

Nós, os latinos, somos tribais?

A leitura do último livro de Isabel Allende, La Summa de los Días, a que fiz referência num artigo de ontem, revela Isabel como uma chefe tribal — que quer ter ao seu redor (aos seus pés?) marido, filhos, genros, noras, netos, ex-genros, ex-noras, filhos do casamento anterior do marido e seus cônjuges, amigos e amigas, psicoterapeutas, contadores e outros prestadores de serviços. Se puder juntar pais, avós, tios e primos à tribo, tanto melhor.

Embora vivendo há anos nos Estados Unidos, Isabel detesta o costume americano (e até certo ponto da Europa do Norte), segundo o qual os filhos saem de casa para ir freqüentar a universidade, ali se emancipam, e, ao se formar, estejam já casados ou não, passam a viver separados (e, de preferência, longe) dos pais. Prefere a bagunça latina em que filhos continuam morando com os pais depois de casados, ou os visitam diariamente, em cujo caso deixam os seus filhos freqüentemente ao cuidado dos avós — ainda que os avós sejam pessoas importantes, ocupadas, cheias de compromissos, como é o caso de Isabel Allende. E em que ela, como chefe da tribo, matriarca do clã, se mete na vida de todos, dá conselhos, oferece emprego às noras, arruma namorada para o filho (quando a mulher dele o deixa para viver com a noiva do pseudo-enteado de Isabel — pseudo porque ele era filho da primeira mulher do segundo marido de Isabel com um marido posterior ao que agora é marido de Isabel — capisco?), e assim vai.

Fiquei pensando nessa idéia de que nós, latinos, somos tribais… Seria esse tipo de tribalismo um sinal de sub-desenvolvimento? Ou seria uma forma superior de vida social?

Vivo aqui no Brasil de forma meio tribal — e a Sueli, minha mulher, é sem dúvida a chefe da tribo, a matriarca do clã. Os filhos se reúnem com freqüência em casa, em Campinas ou em Salto, há pelo menos um neto ou uma neta com a gente com razoável freqüência, os filhos casados não permitem que se desmanchem os seus quartos na minha casa, deixam em minha casa roupas suas, caixas com presentes de casamento, roupas e brinquedos das crianças, pacotes de fraldas, chupetas, mamadeiras, danoninhos, bolachas, etc. O Natal sempre passamos juntos (este ano foi exceção). Muitas vezes passam conosco o Natal também os filhos de casamentos posteriores do ex-marido da Sueli, o Toninho: Hidalgo e Luana (filhos da Neusa), e até mesmo o Thiago (filho da Sandra), que ainda mora com ele em Vitória, mas estuda em São Carlos.

E minha mulher, talqualmente Isabel Allende, se mete na vida de todos — com seu relutante consentimento.

Há uma exceção, que sempre me intrigou. O meu sogro, depois de separado de minha sogra, no início dos anos setenta, teve uma filha, Lisiane (apelidada de Pedrita, porque quando pequenina usava o cabelo no estilo do da boneca Pedrita, então famosa), que teria, hoje, quase a mesma idade da Patrícia, minha filha mais nova (a Patríca é de 1975 e a Lisiane, de 1977). Teria, porque morreu, neste ano de 2007, aos trinta anos, aparentemente de ataque cardíaco. Por uns anos, depois da morte do meu sogro (já faz muito tempo), trouxemos a Lisiane para passar  tempos aqui em casa, e nos dávamos relativamente bem com a Marlene Durau, sua mãe. A Lisiane era meio-irmã da Sueli, mas parecia mais meio-irmã da Patrícia — até nas rivalidades e ciumeiras. Num determinado momento, porém, quando a Lisiane tinha, creio, cerca de sete ou oito anos, a Sueli cortou relações com as duas e não quis mais saber de vê-las. Até hoje não entendi direito por quê. Como é de esperar, o assunto é meio tabu — mais ainda agora, que a Lisiane morreu. Mas deixemos esse assunto de lado. Só esta referência já deve me criar problemas…

A Andrea, minha filha que mora nos Estados Unidos, teria uma vida diferente se a Maria Luiza, sua mãe, não morasse pertinho dela, formando uma tribozinha própria. Neste Natal e Ano Novo estavam na casa da Andrea, além da família dela (Rick, Olivia e Madeline), a Patrícia, minha filha menor, com o Rubens, seu marido, e o Marcelo, filho deles e, naturalmente, meu neto, a Maria Luiza e o Elton (marido dela), a Teresinha, irmã da Maria Luiza, e o José Lázaro, marido dela, o Francisco, a mulher e os filhos (ele um colombiano que trabalha para a Maria Luiza)… Ou seja, uma tribo de proporções razoáveis…

É verdade que o Natal é uma das datas em que mesmo os americanos mais arredios se reúnem. A outra é o Dia de Ação de Graças, que aqui no Brasil não pegou. Mas a casa da Andrea está virando um ponto de encontro, a sugerir que ela esteja em linha para ser, no futuro, a matriarca do sub-clã americano da família.

Para mim não causa surpresa que sejamos assim, nós os latinos. O que me surpreende mais é me dar conta de que a cola que mantém as nossas tribos geralmente é feminina.

Que isso é bom, especialmente depois que vêm os netos, não tenho dúvidas. Não consigo imaginar minha vida sem os netos por perto, vendo-os com freqüência (mas em dosagens controladas). Mas, se é tão evidentemente bom, por que os países desenvolvidos em geral adotam um costume diferente? 

É curioso que, na Europa, são os países latinos do Sul (especialmente Itália, Espanha e Portugal) que ainda preservam um pouco do espírito tribalista. Mas, até bem pouco tempo, eles estavam entre os países menos desenvolvidos do ponto de vista econômico…

Em Campinas, 2 de Janeiro de 2008

As férias do fim de ano – 2

A segunda grande atividade minha nessas férias de fim de ano foi a leitura de coisas que o trabalho não vinha me deixando ler. Coisa séria (mas não urgente) e coisa simplesmente prazerosa.

Do lado sério, li The Secret World of American Communism, de Harvey Klehr, John Earl Haynes e Fridrikh Igorevich Firsov (Yale University Press, 1995). Um catatau, cheio de análises interessantes e de documentos mais interessantes ainda.

Por décadas historiadores e jornalistas identificados com a esquerda americana (o mais das vezes esquerda "light", social-democrata, alinhada com o Partido Democrata) demonizaram o movimento de "caça aos comunistas escondidos no governo americano", movimento esse que acabou ficando conhecido como McCarthysmo, em decorrência do papel proeminente (e, por vezes, meio desastrado) nele representado pelo Senador Joseph McCarthy.

Segundo os historiadores e jornalistas de esquerda, não havia comunistas escondidos no governo americano, muito menos operando como informantes e espiões para a União Soviética. Julius e Ethel Rosenberg, condenados e executados por passarem segredos atômicos para a União Soviética, teriam sido vítimas de uma caça às bruxas injustificada. Alger Hiss, alto funcionário do Departamento de Estado (Relações Exteriores) dos Estados Unidos, acusado de pertencer a um círculo de espiões trabalhando sob ordem da União Soviética, foi condenado por perjúrio, com base principalmente no testemunho e nos documentos amealhados por Whitakker Chambers — vilipendiado pela esquerda. Relatos e depoimentos de ex-comunistas, que revelavam até mesmo os nomes dos agentes, como é o caso de Elizabeth Bentley, nunca foram levados a sério pela esquerda americana — pelo contrário, eram objeto de tentativas de desmoralização.

Bem, tudo isso é história, hoje. Com a gradativa liberação (de 1990 para cá) dos arquivos secretos da União Soviética, e com o trabalho sério do Russian Center for the Preservation and Study of Documents of Recent History, existe, hoje, farta documentação que comprova, além de qualquer dúvida, que, entre outros, os Rosenberg e Alger Hiss eram culpados, como haviam sido acusados, e que centenas de outros membros do Partido Comunista dos Estados Unidos, operando em missões naturalmente secretas, eram informantes e espiões a soldo da União Soviética, e que, apesar de (em muitos casos) serem cidadãos americanos, dedicam lealdade primeira ao governo soviético, traindo vergonhosamente a sua pátria.

O mais interessante é que os acusados sempre negaram — até mesmo que eram membros do PC americano (que, ressalte-se, nunca foi considerado ilegal naquele país). Agora se pode manusear documentos que comprovam, além de qualquer dúvida, que havia boa razão para McCarthy dizer que o governo americano estava cheio de quintas-colunas comunistas, que trabalhavam contra os Estados Unidos e a favor da União Soviética — a maioria dos quais havia entrado para o governo durante os diversos governos de Franklin Roosevelt.

Bom esse foi um dos livros que li nos últimos dez dias.

Um outro livro sério que li foi Lições de Guerra – Vencendo as Batalhas de sua Carreira, de Danilo Talanskas, presidente da Elevadores Otis do Brasil. Ouvi uma entrevista do autor para o Heródoto Barbeiro na CBN e comprei o livro. O estilo é auto-ajuda, mas o livro é interessante. Discute as lições que a estratégia de guerra podem nos ensinar na gestão de nossa vida — em especial de nossa vida profissional.

O que me chamou a atenção na entrevista do autor foi sua classificação das competências que todos devemos ter: competências de natureza pessoal, competências de natureza relacional (especialmente necessárias hoje para o trabalho em equipe), e competências de natureza executiva (relacionadas à ação, especialmente ao empreendedorismo, mesmo no caso de empregados). Essas três categorias me fizeram imediatamente lembrar dos Quatro Pilares da Educação do Relatório Jacques Delors da UNESCO: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer, aprender a conhecer. Faltou esse último pilar no livro de Danilo Talanskas, mas o livro é muito útil no contexto pedagógico, e não apenas como material de auto-ajuda.

Por fim, li La Suma de los Días, de Isabel Allende — delicioso, como todos os livros dela. Este livro é claramente autobiográfico, traçando a história da vida de Isabel Allende e sua família de 1993 para cá — 1993 sendo o ano em que morreu sua filha Paula. Na realidade, o livro é uma série de cartas de Isabel para Paula, narrando o que tem acontecido com a família. Gostoso de ler, sensível, triste às vezes, divertido outras, esse livro, vindo na seqüência de uma grande obra, faz de Isabel Allende uma série candidata latinoamericana ao Prêmio Nobel da Literatura. Ainda gostaria que Mario Vargas Llosa recebesse o prêmio antes dela, por ser mais velho e ter uma clara militância política liberal, mas ela também está a merecer o prêmio (a despeito de ser parente de Salvador Allende…).

Além das leituras, assisti a uma série de filmes em DVD — mas sobre eles não vou falar. Em minha mensagem de fim de ano comentei um deles: a biografia de Sylvia Plath. Mas assisti a vários outros, também muito bons.

Bons livros e bons filmes para 2008! Que seria de nós sem eles??? 

Em Salto, 1º de Janeiro de 2008.  

As férias do fim de ano – 1

Neste primeiro dia de 2008 escrevo sentado na rede — uma rede velha, de casal, que comprei no centro de Fortaleza em Julho de 2003, e que é minha rede favorita. Não é fácil equilibrar o notebook entre as pernas — especialmente porque quero também que a rede tenha um balanço mínimo… Mas a paisagem compensa — e o canto dos pássaros é um presente adicional.

Dia 20/12 foi o dia de minha última reunião de trabalho do ano. Desde então tenho ficado aqui no sítio. Assumi solenemente um compromisso comigo mesmo de não fazer nada que se caracterize como trabalho até o dia 7/1. Tenho conseguido honrar até aqui o compromisso assumido. De hoje até 6/1 vai ser fácil: amanhã vou para Ilha Bela, para estar com minha filha Tatiana e meu neto Gabriel.

O que eu fiz nesses dias todos além de dormir, nadar e andar por aí?

A primeira grande tarefa foi organizar, tanto quanto possível, minhas fotos digitais. (Neste mensagem só vou falar dessa tarefa — em outra falarei de minhas leituras).

Já tive quatro câmeras digitais (incluindo a atual). A primeira, comprada no início de 1999, é uma Mavica, linda, daquelas que usavam disquetes de 3 1/4" para armazenar as fotos. Ela conseguia armazenar uma média de vinte fotos com resolução de 640×480 num disquete. Cada disquete, uma vez cheio, era copiado no disco rígido do computador. Tenho, dela, 323 disquetes com fotos, ou seja, perto de 6.500 fotos digitais. Ainda guardo a câmera, mas está, naturalmente, aposentada. ‘

Em 2003 comprei uma Sony Cybershot P72, de 3.2 megapixels. Usei-a um bocado. Era bem mais fácil de usar do que a Mavica, porque não era necessário trocar de disquetes a cada vinte fotos. Ela usava, como armazenamento, um cartãozinho (memory stick)da própria Sony. Veio com um de 128MB, que eu prontamente substituí por um de 1GB. Tenho perto de 3.500 fotos dessa máquina. Ainda guardo essa câmera também, devida museificada. (Na verdade, não jogo nada fora, em geral não vendo os objetos de uso pessoal de algum valor que foram meus, e raramente dou minhas coisas de presente).

Em Junho de 2004, ao participar de uma oficina sobre Digital Story Telling na Universidade de Virginia, aquela que foi fundada por Thomas Jefferson, ganhou uma Canon CP200, também de 3.2 megapixels, de meu amigo Glen Bull, que conduzia a oficina. Ela é uma câmera lindinha, pequena, fácil de usar, que adota, como dispositivo de armazenamento, um SD Card (SD=Secure Digital). Era tão fácil carregar essa câmera para baixo e para cima e tão fácil tirar as fotos, que exagerei: tirei foto de tudo quanto é coisa e gente. Tenho mais de 6.500 fotos tiradas nela. Hoje essa câmera pertence ao meu neto Gabriel, que está se tornando um exímio fotógrafo digital.

Finalmente, em Julho de 2005 comprei uma Sony Cybershot P200, de 7.2 megapixels, que é a câmera que uso até hoje. Já tirei mais de 23.500 fotos com ela. Mas a características de que mais gosto nela é a capacidade de fazer filmes de excelente qualidade, na resolução 640×480 (que, para filme, é razoável), sem precisar quebrá-los em pedacinhos de trinta segundos, coisa assim, como várias outras câmeras. Ela vai tirando o filme enquanto houver espaço no Memory Stick Pro que ela usa para armazenamento. Uso cartões de 1 GB, que armazenam filmes de até cerca de dez minutos. Nada mal. Virei um camera man com ela — ou, melhor dizendo, um cinematógrafo.

Somando tudo, dá cerca de quarenta mil fotos, só de minhas câmeras. Tenho diretórios reservados às câmeras da Sueli e de cada um dos filhos, bem como à câmera do Gabriel, da minha cunhada, da minha "filha adotiva" Camila… E tenho as fotos tiradas em eventos da Microsoft, do Instituto Ayrton Senna, da Escola Lumiar, e de palestras independentes que dou… E fotos velhas da família, escaneadas por mim (sou meio preguiçoso pra fazer isso) e pelo meu primo Anello (o maior escaneador de fotos velhas da família). E fotos que parentes e amigos me enviam. E assim vai. É foto para não acabar mais. Vocês imaginam o trabalhão que deu colocá-las todas, de forma organizada, em um um disco rígido portátil (USB) de 200 GB.

Para visualizar a fotos uso o Microsoft Digital Suite Photo Library, edição 2006. É eficiente, faz o que programas desse tipo devem fazer. Cria thumbnails de fotos em discos externos (o que alguns programas se recusam a fazer, insistindo em importar as fotos para o disco rígido local) e funciona bem com o Microsoft Digital Suite Photo Editor, que, com ele, compõe a Microsoft Digital Suite Photo Suite.

Foi um trabalho penoso, mas agradável. Descobri fotos que tinha que não me lembrava mais de que havia tirado. Centenas de fotos de cada neto, fotos das cidades mais bonitas que visitei depois de ter essas câmeras (Santiago, Bogotá, Buenos Aires, Caracas, Quito, Panama City, San Jose, San Juan, Victoria, Vancouver, Seattle, Phoenix, Charlottesville, Praga, Cesky Krumlov, Vienna, Salzburg, Innsbruck, Heidelberg, Augsburg, Genève, Paris, Versailles, Avignon, Strasbourg, Lisboa, Porto, Chaves, Taipei, Taichung, Kaohsiung, Hualien, Hong Kong, Macao, Seoul, Kuala Lumpur, Tokyo…).

Bom, foi assim que passei parte de minhas férias.

Salto, em 1º de Janeiro de 2008.