Linda

 

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Há um ano atrás, mais ou menos, passeando aqui pelos arredores do sítio, encontrei uma cadela, aparentemente abandonada, que acabara de ter cinco filhotes. Voltei lá algumas vezes e acabamos adotando dois dos cachorrinhos, uma fêmea e um macho. Minha cunhada, Denise, se apaixonou pela cachorrinha, a quem batizou de Linda. Chegamos até a levá-la para Campinas por um tempo, mas não deu certo, obrigando-nos a trazê-la de volta. O machinho, marrom, com cara de bravo, foi batizado de Bin Laden.

Como já disse aqui neste space, temos quase vinte cães aqui no sítio. Esse número aumentou sensivelmente de ontem para hoje. A Linda pariu, durante a noite, nada menos do que DOZE cachorrinhos. Um, coitadinho, já morreu. Talvez ela tenha deitado em cima dele, mãe inexperiente que é. Os outros estão lá, competindo pelas tetas dela. Provavelmente outros morrerão.

Mas o feito é inacreditável. Doze cachorrinhos de uma vez. O pai parece ser o Rex. Com tanto cachorro, é quase impossível acompanhar os cios e acasalamentos, por mais que se tente, com canis, áreas de isolamento, etc. Se a Linda tivesse permanecido na casa de Campinas, estaria virgem até agora – e, naturalmente, sem prole. (Não tenho conhecimento de nascimentos virginais entre cães… Na verdade, nem entre humanos.)

A vida e a morte são processos relativamente naturais no mundo extra-humano. Os cios, os acasalamentos e os nascimentos também são processos naturais e descomplicados. Mas não envolvem escolha. Nós, humanos, com nossas idéias e teorias, e com nossos valores e escolhas, complicamos bastante tudo isso.

Em Salto, 23 de Agosto de 2008

O amanhecer e o entardecer na roça

O desenvolvimento econômico, que tem na tecnologia o seu combustível, tem reduzido as diferenças, antes sensíveis e palpáveis, entre viver na cidade e viver na área rural. Hoje é possível viver confortavelmente na área rural, sem deixar de desfrutar da luz elétrica, da água encanada, da telefonia (fixa e móve), da televisão por satélite, e, com a popularização do uso de modems celulares, da Internet em banda larga.

Hoje cedo, por volta das 6 da manhã, abri a porta da sala aqui no meu sítio, em Salto, SP, e pude ver o sol nascer, lá depois do aeroporto de Itaici e de Viracopos, num cenário cheio de brumas, e acompanhado por uma sinfonia de pássaros. Siriemas, aqui bem pertinho, tentavam se integrar ao coral.

Fiquei lembrando daqueles programas antigos de rádio — "O Amanhecer na Roça", ou simplesmente "Manhã na Roça" — em que um apresentador com sotaque caipira só tocava música caipira: modas de viola, cateretês, etc. Hoje até a música caipira está rebatizada de sertaneja ou country.

Mas, com a tecnologia moderna, é possível desfrutar toda a beleza de um amanhecer na roça ouvindo, entretanto, todas aquelas músicas que eu mencionei no post anterior: a Sinfonia em Ré Menor, de Cesar Franck, ou Finlandia, de Sibelius, ou as aberturas de Tannhäuser e Lohengrin, ou mesmo de Tristan und Isolde, de Wagner, ou a Nona Sinfonia de Beethoven, ou Sonho de Amor, de Liszt, ou os  Noturnos, de Chopin…

Ontem à tardinha, quando o sol ameaçava se pôr, saí andar por aqui, em estradinhas de terras, atalhos por entre o mato, carreadores. Andando vi o sol se pôr e a noite chegar. Voltei pra casa estava já bem escuro. No processo todo fui acompanhado por um séquito de cães aqui do sítio (o número de cachorros aqui creio que chegou a dezoito ou dezenove: eram quinze, mas uma cadela deu cria a três — que já estão grandinhos — e um cachorro andante, magro e feio, pediu asilo aqui). Mas o mais bonito era a cantoria dos pássaros, enquanto havia luz. Quando foi ficando escuro, às vezes eu passava perto demais de uma árvore e os pássaros que nela se abrigavam revoavam assustados.

Voltei para casa, tirei os picões e carrapichos da roupa e do tênis, tomei um banho quente, liguei a TV e o computador, sentei-me na minha poltrona reclinável, girável e de balanço, e me esqueci que estava na roça, que a menos de vinte metros de onde eu estava havia plantações de beringela, de um lado, e de pimentão, do outro.

E fiquei pensando: por que o Rubem Alves e o Carlos Brandão preferem se enfiar no mato, mesmo, longe dos confortos da civilização que nos permitem unir o melhor da cidade e da zona rural?

Em Salto, 22 de Agosto de 2008

A visão religiosa do mundo – 2

Meu post “A visão religiosa do mundo” gerou em dois dias alguns comentários interessantes, que outros posts não geram em muito mais tempo… Não posso deixar de comentá-los.

Um comentário veio de Emília Eiko (emilia-livro.spaces.live.com); o outro, de Wanderley Navarro (wynavarro.spaces.live.com).

A Emília acha que a religião é um mal necessário. Há alguns liberais que acham o estado um mal necessário. Não acho que o estado, quando configurado corretamente, seja um mal — e o considero necessário. Quanto a religião, não a acho necessária — mas a considero um mal.

Sobre os aspectos supostamente positivos da religião, que, acredito, a tornem necessária, em seu ponto de vista, diz a Emília: “Quando tudo parece perdido, quando o fundo do poço está próximo, é na religião que conseguimos encontrar conforto. Uma prece, uma conversa com Deus, e o coração se aquieta.” Longe de mim negar que há horas em que tudo parece perdido e em que o fundo do poço parece próximo. Talvez a gênese, o “Sitz im Leben”, da religião esteja nesses momentos de “medo e esperança”, “fear and hope”, como o dizia David Hume. Nem que, nesses momentos, sentindo a nossa finitude e impotência, confortamo-nos imaginando que não estamos sós, que há alguém, infinito, todo-poderoso, maxi-benevolente, disposto a nos ouvir em prece e que pode nos ajudar… Não há a menor dúvida de que uma crença dessas nos conforta o coração.

Quanto ao fato de que a religião produz conforto, estou perfeitamente de acordo com a Emília. A questão é: que base evidencial existe para acreditar que a crença em Deus, admitidamente confortante, é verdadeira?

Uma vez assisti a uma entrevista de Billy Graham para Larry King, na CNN. Ao final da entrevista, os papéis se inverteram e o velho (e reconhecidamente simpático) Billy Graham (que tive o privilégio de conhecer em São Paulo no início da década de 60, quando eu era um menino de menos de vinte anos) perguntou ao entrevistador como estava o relacionamento dele com Deus (vindo de Billy Graham, sempre com D). Larry King deu uma resposta que considero exemplar. Disse ele mais ou menos o seguinte (cito de memória): “Gostaria de acreditar em Deus e acredito que as questões com que a religião lida, e que tenta responder, são extremamente importantes. O problema é que não consigo encontrar nenhuma evidência de que Deus existe e de que as respostas dadas pelas diversas religiões às questões que tentam responder sejam verdadeiras”. I couldn’t have said it better myself.

Embora a Emília não traga à baila o assunto da imortalidade da alma, e/ou da ressurreição do corpo, não tenho a menor dúvida de que a crença de que a nossa morte não é o fim, de que há vida depois dela, seja porque a nossa alma é imortal, seja porque nossos corpos um dia serão ressuscitados, seja através de uma combinação dessas duas crenças (como acontece nas versões mais populares do cristianismo) — repetindo, não tenho a menor dúvida de que a crença de que a nossa morte não é o fim nos traz conforto, aquieta o nosso coração, reduz o nosso medo, e nos traz, em vez de medo, esperança… O doído da morte é saber que ela é o fim, que depois dela não há nada por vir, que, quando ela chegar, não veremos mais aqueles a quem amamos, não poderemos mais dar-lhes, ou deles receber, carinho e afeto, que não haverá mais como olhar-lhes nos olhos e nos deliciarmos com seu sorriso… O doído da morte é saber que ela é o fim, que, quando ela chegar, não teremos mais os abraços e os beijos dos filhos e dos netos… O doído da morte é saber que ela é o fim, que depois dela não poderemos mais assistir a belos filmes, ou ler belos livros, ou apreciar pinturas como as de Vermeer, ou ouvir músicas como a Sinfonia em Ré Menor, de Cesar Franck, ou Finlandia, de Sibelius, ou as aberturas de Tannhäuser e Lohengrin, ou mesmo de Tristan und Isolde, de Wagner, ou a Nona Sinfonia de Beethoven, ou Sonho de Amor, de Liszt, ou os  Noturnos, de Chopin… Isso tudo é muito doído. Por isso, é fácil acreditar quando nos prometem que ela não é o fim, mas, sim, apenas a passagem para um mundo melhor, em que continuaremos a usufruir e desfrutar todas essas coisas boas, mas em que de nossos olhos se eliminará toda lágrima…

Claro que eu gostaria de acreditar que isso é verdade. A questão é novamente é: que base evidencial existe para acreditar que a morte não é o fim, e que há uma vida futura?

Sobre os aspectos da religião que a tornam um mal, a Emília aponta para o fato de que a religião “pecadifica” o controle da natalidade, o divórcio, o aborto, a eutanásia, assim atrapalhando a nossa vida. Ela não usa o verbo “pecadificar” — sua linguagem é mais literária do que a minha. Eu não hesito em criar um neologismo: pecadificar um comportamento é transformar aquele comportamento em pecado, isto é, considerá-lo não só questionável do ponto de vista moral ou prudencial, mas, também uma ofensa contra deus (com d ou D) e, conseqüentemente, contra uma ordem cósmica eternamente estabelecida.

Concordo com ela aqui. Poderia citar outras questões, como, por exemplo, a crença de que é pecado fazer transfusão de sangue, ou transplantar órgãos de uma pessoa para outra, ou casar-se com alguém de uma religião diferente ou que pensa diferente de nós sobre religião…

[A propósito, Emília Eiko se refere a uma entrevista de Richard Lynn, publicada nos meios de comunicação recentemente, em que ele argumenta que ateus são mais inteligentes do que os não-ateus. Acho fraco o argumento. Mas como a Emília transcreve o artigo em seu SkyDrive, resolvi transcrevê-lo aqui também, ao final.]

A linha de argumentação da Emília me faz lembrar de Pascal e William James. Tanto um como o outro partem do pressuposto de que não há evidência de que Deus existe e de que há uma vida futura. Os dois, porém, acreditam que não haja evidência contrária à existência de Deus ou de uma vida futura. Numa situação assim, argumentam, é razoável “apostar” que Deus existe e que há uma vida futura.

O argumento de Pascal, um lógico, é mais fácil de entender. Visto não haver evidência nem a favor nem contra a crença na existência de Deus e numa vida futura, uma pessoa racional vai apostar que essas crenças são verdadeiras, pelo seguinte argumento:

a) Se eu creio que Deus existe e há uma vida futura, e Deus de fato existe e de fato há uma vida futura, eu terei felicidade suprema por toda a eternidade (I hit the jackpot);

b) Se eu creio que Deus existe e há uma vida futura, e Deus não existe e não há uma vida futura, eu não ganho nada, mas também não perco nada;

c) Se eu creio que Deus não existe e que não há uma vida futura, e Deus de fato não existe e de fato não há uma vida futura, eu não perco nada, mas também não ganho absolutamente nada;

d) Se eu creio que Deus não existe e que não há uma vida futura, e Deus existe e há uma vida futura, eu perco tudo o que tenho e vou fritar no inferno por toda a eternidade (ou seja, como diz minha filha, “tofu”);

Logo, uma pessoa racional aposta em “a” (na inexistência de evidência a favor ou contra essas crenças).

O argumento de William James, um psicólogo, não um lógico, é mais próxima da linha de argumentação de Emília Eiko. Não havendo evidência a favor ou contra, temos o direito epistêmico de acreditar naquilo que traz mais benefícios sociais. James não tinha dúvida de que uma sociedade em que se acredita em Deus e na vida futura é melhor do que uma em que não se acredita, porque as pessoas tenderão a levar mais a sério os preceitos morais (e mesmo os preceitos legais) dessa sociedade, porque sua violação traz não só sanções sociais (e legais), mas, também, a crença em sanções divinas, com conseqüências eternas.

(James não leva muito a sério os malefícios sociais da religião. Autores atuais enfatizam fortemente esses malefícios. Vide Richard Dawkins, The God Delusion [Houghton Miffllin, 2006], e Christopher Hitchens, God is NOT Great: How Religion Poisons Everything [Hachette, 2007]. Por outro lado, Dinesh D’Souza tenta rebatê-los, mostrando os benefícios sociais e culturais da religião, em especial do Cristianismo, em What’s so Great about Christianity [Regnery, 2007]. Eu diria que D’Souza mostra que a balança não pende tanto para o outro lado como Dawkins e Hitchens imaginam. Mas não chega perto de equilibrar os pratos).

A linha de argumentação de Wanderley Navarro toma um outro curso, que eu, pessoalmente, acho mais interessante. Em vez de tentar resumir seu ponto de vista, tomo a liberdade de citá-lo in totum:

“Eduardo Chaves,

Tenho seu site entre meus favoritos. Gosto de conhecer o ponto de vista de pessoas que podem pensar livremente. Sua opinião a respeito da visão religiosa do mundo teve o mérito de me animar a fazer o comentário a seguir.

Quando se fala em visão religiosa pensando numa determinada religião e nos seus rituais, corre-se o risco de empobrecer o assunto. Não restam dúvidas de que Deus, com D ou d, é o produto mais fácil de vender, não só nos nossos dias mas, também, ao longo de toda história. Os ídolos de barro, de ouro ou de conceitos persistem ao longo do caminho.O racionalismo (ou qualquer outro ismo) é apenas um deles.

O homem, ser no mundo, ao dar um sentido para sua vida, cria uma relação com este mesmo sentido. Essa relação (religião) é, no meu entender, a verdadeira dimensão religiosa do homem. A construção de um sentido da vida é também a construção de uma crença, um valor absoluto (um deus ou Deus) que nos serve de guia. Há, inclusive, os que acham mais importante não dar sentido algum a si mesmos. Há quem absolutize o relativo. Enfim, o vínculo entre o que se crê e o agir, eis a religião, entendida aqui no seu mais amplo sentido.

É interessante que um incrédulo, mesmo incrédulo, acredite num tal ser humano. Um conceito, uma crença, uma abstração, uma religião. Quem me garante que sejam todos igualmente humanos? Que seus atributos sejam os mesmos que os meus? Será que este conceito não deve ser atribuído apenas aos que, sábios e doutos, estudam, pensam, descrêem e dão certo

Não sei se o homem é um ser por acaso, uma reação química do nada com o nada. Não ouso afirmar que sou apenas o resultado de uma transa, com maior ou menor qualidade de mútuo consentimento entre um macho e uma fêmea. Nem me atrevo a dizer que não existe um sentido transcendente para a existência, nem para a minha nem para a dos outros. Não tenho esse direito. As evidências disponíveis não me permitem pontificar sobre o assunto nem estender minha conclusão para o resto da humanidade. A ciência mesmo, por mais elementos que tenha, não se pronuncia a respeito. Quanto a mim, prefiro ser aprendiz de humano e ficar atento ao mistério da vida. Estar aberto à pedagogia da existência. A incredulidade, assim como a idolatria, empobrecem muito nossa vida.

Afora o exposto acima, uma coisa temos em comum: o SPFC. Pode não ser nosso deus mas será, sem dúvida, o nosso santo.”

(http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!2162.entry#comment)

Confesso que tenho grande simpatia com alguns aspectos da posição do Wanderley Navarro.

O aspecto para mim mais instigante da crítica do Wanderley é sua acusação (feita de forma velada e delicada) de que eu, ao criticar a religião, estou me fundamentando em uma, a saber, em uma religião imanente e humanista, mais do homem (Homem?) aqui na Terra do que de Deus (deus?) lá no Céu (ou partout).

Será que o Wanderley está certo? A linha de argumentação é atraente e provocadora. O Padre Copplestone a utilizou num famoso debate contra Bertrand Russell na BBC (Third Programme), muitos anos atrás. Será que ateus são apenas religiosos com sinal trocado, que acreditam no Homem (com H), em vez de Deus? Em The Fountainhead, de Ayn Rand, Howard Roark, o supra-sumo do ateísmo, é chamado de religioso… 

Não creio que o Wanderley esteja certo.

Comecei minhas batalhas filosóficas, quando ainda cria ingenuamente em Deus, tentando refutar Hume, um ateu (na minha opinião — há quem discorde). Não consegui. No essencial, aceitei, no que diz respeito à religião, sua linha de argumentação. Mas nunca me esqueci de uma lição de Hume, que aprendi bem cedo: nunca devemos adotar o “entusiasmo” ao combater o “entusiasmo”. “Entusiasmo”, para ele, é algo que aqui se pode traduzir como um misto de dogmatismo cum fanatismo. Etimologicamente, pelo que consta, o “entusiasta” é aquele que se acredita possuído por Deus (o oposto, portanto, do endemoniado, com uma diferença: o entusiasta SE acredita possuído por Deus; o endemoniado é tido POR OUTROS como possuído pelo demônio). Menciono isso porque tomo especial cuidado para não ser acusado exatamente das mesmas falhas de que acuso meus adversários. Mas é exatamente disso que me acusa Wanderley Navarro.

Como disse, o Wanderley faz uma crítica velada e delicada. Seus argumentos contra mim se parecem com os que acabei de usar contra a Emília Eiko… Como crítico, Wanderley adota a postura do cético ou do agnóstico. “É interessante que um incrédulo, mesmo incrédulo, acredite num tal ser humano. Um conceito, uma crença, uma abstração, uma religião. Quem me garante que sejam todos igualmente humanos? Que seus atributos sejam os mesmos que os meus? Não sei se o homem é um ser por acaso, uma reação química do nada com o nada. Não ouso afirmar que sou apenas o resultado de uma transa, com maior ou menor qualidade de mútuo consentimento entre um macho e uma fêmea. Nem me atrevo a dizer que não existe um sentido transcendente para a existência, nem para a minha nem para a dos outros. Não tenho esse direito. As evidências disponíveis não me permitem pontificar sobre o assunto nem estender minha conclusão para o resto da humanidade. A ciência mesmo, por mais elementos que tenha, não se pronuncia a respeito.”

Note-se que o Wanderley não afirma que somos alguma coisa a mais do que o resultado apenas de uma transa (que ele negritou para impacto). Note-se que ele não afirma que nossa vida tenha sentido transcendente (que ele também negritou). Ele apenas “não ousa afirmar” que somos apenas resultado de uma transa nem “se atreve a dizer” que a vida tem sentido apenas imanente.

Ou seja, ele adota a postura do cético, do agnóstico: “Não tenho esse direito [de afirmar as teses positivas]. As evidências disponíveis não me permitem pontificar sobre o assunto nem estender minha conclusão para o resto da humanidade. A ciência mesmo, por mais elementos que tenha, não se pronuncia a respeito.”

No início de minha trajetória “não-religiosa” senti-me muito tentado a adotar uma postura cética e agnóstica. Custei um bocado a me admitir ateu, e não simplesmente cético e agnóstico. Nisso mais uma vez segui Hume. Quando Hume foi ser attaché cultural da Embaixada Britânica na França, assustou-se com os philosophes, que abertamente alardeavam o seu ateísmo. Para a sua personalidade sensível e delicada, moldada por um ceticismo mitigado, e que recomendava que não deveríamos adotar o entusiasmo no combate ao entusiasmo, o agnosticismo era a posição natural. Ele não queria, defendendo o ateísmo, estar aberto à acusação de que era tão religioso quanto aqueles a quem combatia — só que com o sinal trocado…

Novos tempos, velhas controvérsias.

Meu orientador de Doutorado, o saudoso William Warren Bartley, III, discípulo amado de Karl Popper, de quem foi orientando, foi, por um tempo, excomungado pelo grande filósofo por ousar criticá-lo exatamente numa questão semelhante. Popper, nos capítulos finais de The Open Society and its Enemies, defende uma posição filosófica que ele chama de “Critical Rationalism”. AO discutir, porém, o que justificava a aceitação dessa postura, Popper admitiu que nada a justificava. Tentar justificar o racionalismo, admitiu ele candidamente, já é pressupô-lo, porque toda tentativa de justificar alguma coisa já é um exercício racional. Logo, não há como justificar racionalmente a adoção do racionalismo, a razão como critério de aceitação ou rejeição de outras crenças. Esse procedimento nos envolveria numa falácia de petitio principii — a falácia de pressupor exatamente aquilo que se deseja provar. O racionalismo é um “comprometimento último” que alguns de nós fazemos — mas, como “ultimate commitment”, sua adoção é fundamentalmente irracional — ou no mínimo arracional.

Em seu livro The Retreat to Commitment, publicado originalmente e 1962, Bartley ousou criticar o mestre e foi temporariamente banido de sua convivência. O argumento de Bartley é simples. Primeiro, ele chamou atenção para o fato de que, em seu primeiro livro publicado, Logik der Forschung (The Logic of Scientific Discovery), que veio a público em Alemão em 1934, Popper mostrou que, no caso da ciência, o procedimento metodológico a adotar não é tentar provar (ou justificar) hipóteses e teorias, mas, sim, tentar refutá-las (ou falsificá-las). E tentativas de refutação e falsificação se fazem por apelo a evidências (fatos) e argumentos. Aquelas hipóteses e teorias que, depois de tentativas sérias e prolongadas de refutação ou falsificação, sobreviverem, merecem nossa aceitação — mas sempre de forma provisória e tentativa, pois elas podem vir a ser refutadas ou falsificadas no dia seguinte…

Até aí, nada que pudesse irritar Popper. Foi o segundo passo de Bartley que irritou Popper.

Em seu segundo passo, Bartley argumentou que Popper não havia aplicado à filosofia, e, portanto, a suas próprias idéias, a prescrição metodológica que havia feito para a ciência. O Racionalismo Crítico, diz Bartley, é uma teoria filosófica e, como tal, não deve ser aceito acriticamente (como se fosse um “ultimate commitment” — donde o título do seu livro). Ele deve ser proposto como uma teoria ou hipótese que, como as teorias e hipóteses científicas, deve se submeter a tentativas sérias e consistentes de refutação e falsificação. E, no caso da filosofia, a crítica se dá da mesma forma que se dá a tentativa de refutação e falsificação de teorias e hipóteses científicas: por apelo a evidências (fatos) e argumentos. Se, depois de ser assim criticado, o Racionalismo Crítico subsistir, temos boas razões para aceitá-lo — embora sempre de maneira provisória e tentativa.

O argumento de Bartley é sutil — sutil mas irrespondível. Daí a ira de Popper. A única coisa que Popper conseguiu dizer acerca desse argumento durante a briga dos dois é que ele próprio já o havia elaborado, e que Bartley simplesmente se apropriou do argumento, pois, como discípulo favorito, tinha acesso até a manuscritos ainda não publicados do mestre… Mas se o argumento era mesmo de Popper, por que este não o revelou na edição original de The Open Society, ou em suas várias reedições?

O argumento é sutil porque inverte o onus argumentandi, o dever de argumentar.

Popper, em The Open Society, aceita que é dever seu argumentar em justificação de seu Racionalismo Crítico — mas reconhece que não conseguirá, vendo-se forçado, portanto, a admitir o seu fracasso, dizendo, com todas a clareza, que a aceitação do racionalismo envolve, ela própria, um comprometimento último de natureza irracional ou pelo menos arracional.

Bartley, em The Retreat to Commitment, baseando-se, curiosamente, em premissas totalmente popperianas, se recusa a aceitar que seja dever de Popper, ou seu, ou de qualquer outra pessoa, argumentar em justificação do Racionalismo Crítico de Popper. Para ele, o Racionalismo Crítico proposto por Popper é uma teoria ou hipótese filosófica que foi colocada para discussão e, agora, cabe tentar refutá-lo ou falsificá-lo, por apelo a evidências (fatos) ou argumentos.

Popper admitiu fracasso porque reconheceu que não conseguiria justificar o racionalismo sem, ele próprio, pressupô-lo (cometendo ele, portanto, a falácia do petitio principii).

Bartley, muito mais sagaz, não reconhece fracasso porque joga o onus argumentandi para quem quiser refutar ou falsificar o racionalismo. E fica apenas esperando… Quando alguém tentar refutar ou falsificar o racionalismo, terá de fazê-lo, forçosamente, através de evidências ou argumentos, ou seja, pressupondo a verdade do racionalismo, exatamente aquilo que deseja refutar ou falsificar — e Bartley daí mostrará que são os críticos do racionalismo que não conseguem criticá-lo sem pressupor a sua verdade, envolvendo-se, portanto, numa contradição.

Em outros palavras: Bartley não só foge do petitio principii como coloca os críticos do Racionalismo Crítico na iminência de demonstrar a necessidade de aceitá-lo exatamente ao tentar refutá-lo ou falsifícá-lo.

Por que recorri a esse enorme parêntese? Porque, embora tenha adquirido uma grande simpatia pelo ceticismo e o agnosticismo quando me degladiei com Hume, ao travar contato, através de Bartley, com Popper, convenci-me de que as hipóteses Deus e vida futura, além de nunca terem sido justificadas pelos que as propõem, já foram mais do que refutadas e falsificadas por fatos e argumentos. (A análise e avaliação desses fatos e argumentos vão além do escopo deste post, que já se estende demasiado). Diante disso, não se justifica manter, em relação a elas, uma postura supostamente neutra de cético ou agnóstico — como a que tenta manter Wanderley Navarro.

A crença em Deus e na vida futura é uma daquelas crenças que persiste através dos tempos apenas porque (para invocar o tese de Emília Eiko) apenas porque conforta e aquieta o coração — não por causa de evidências ou argumentos. A maior parte de nós, ou mesmo todos nós, em um momento ou outro, queremos acreditar em Deus — um pai que cuida de nós, que não deixa nem mesmo um só fio de cabelo cair de nossa cabeça sem que isso seja de sua vontade; um ser que, apesar de todo o seu trabalho mantendo o universo em operação e funcionamento, tira tempo para ouvir as criancinhas que pedem para que ele faça voltar o cachorrinho que fugiu, ou as adolescentes que pedem para que ele as ajude arrumar um namorado, ou os adultos que pedem para ele faça um pecador se arrepender… A maior parte de nós, ou mesmo todos nós, em um momento ou outro, queremos acreditar que há uma vida futura, melhor do que essa, na qual, entre outras coisas, vamos reencontrar entes queridos que já morreram, ou na qual daremos prosseguimento, num nível muito mais exaltado de felicidade, ao lado bom de nossa vida terrena…

Só esse fato, de que nós querermos acreditar nessas coisas, já deveria tornar essas crenças suspeitas. O verdadeiro ceticismo está em questionar e duvidar exatamente daquilo em que mais gostaríamos de acreditar — não em pretender isenção e neutralidade em relação a crenças já refutadas e falsificadas.

Conforta a vida das crianças acreditar na existência de fadas madrinhas e anjos da guarda. Eles parecem ser proteção suficiente contra suas contra-partidas, as bruxas e os lobos maus da vida.

Até certo ponto essa crença infantil não causa grande dano, nem dano permanente, se, no devido tempo, vier a ser abandonada.

O problema, com boa parte das pessoas, é que a religião continua a exercer em sua vida adulta o mesmo papel que as histórias infantis exerciam em sua vida de crianças.

A seguir, a entrevista mencionada.

——

Os ateus são mais inteligentes

O pesquisador britânico Richard Lynn dedicou mais de meio século à análise da inteligência humana. Nesse tempo, publicou quatro best-sellers e se tornou um dos maiores especialistas no assunto.

Nos últimos 20 anos, passou a investigar as relações entre raça, religião e inteligência. Ao publicar um trabalho na revista científica Nature, que sugeria que os homens são mais inteligentes, um grupo feminista o recepcionou em casa com o que ele chamou de salva de ovos. O mesmo aconteceu quando disse que os orientais são os mais inteligentes do planeta. “Faz parte do ofício de um cientista revelar o que as pessoas não estão prontas para receber”, diz. Ao analisar mais de 500 estudos, Lynn disse estar convencido da relação entre Q.I. alto e ateísmo. “Em cerca de 60% dos 137 países avaliados, os mais crentes são os de Q.I. menor”, disse. Seu trabalho será publicado em outubro na revista científica Intelligence.

Richard Lynn é professor emérito e chefe do Departamento de Psicologia da Universidade do Ulster, na Irlanda do Norte. Ph.D. pela Universidade de Cambridge, é um dos maiores especialistas em estudos de inteligência em raças e gêneros.

Publicou quatro livros sobre inteligência ligada à raça e ao sexo, entre eles Race Differences in Inteligence: an Evolutionary Analysis, e dezenas de artigos em revistas científicas, como a britânica Nature

ÉPOCA Por que o senhor diz que pessoas inteligentes não acreditam em Deus?

Richard Lynn – Os mais inteligentes são mais propensos a questionar dogmas religiosos. Em geral, o nível de educação também é maior entre as pessoas de Q.I. maior (um Q.I. médio varia de 91 a 110). Se a pessoa é mais estudada, ela tem acesso a teorias alternativas de criação do mundo. Por isso, entendo que um Q.I. alto levará à falta de religiosidade. O estudo que será publicado reuniu dados de diversas pesquisas científicas. E posso afirmar que é o mais completo sobre o assunto.

ÉPOCA Segundo seu estudo, há países em que a média de Q.I. é alta, assim como o número de pessoas religiosas.

Lynn – Sim, mas são exceções. A média da população dos Estados Unidos, por exemplo, tem Q.I. 98, alto para o padrão mundial, e ao mesmo tempo cerca de 90% das pessoas acreditam em Deus. A explicação é que houve um grande fluxo de imigrantes de países católicos, como México, o que ajuda a manter índices altos de religiosidade nas pesquisas. Mas, se tirarmos as imigrações ao longo dos últimos anos, a população americana teria um índice bem maior de ateus, parecido com o de países como Inglaterra (41,5%) e Alemanha (42%).

ÉPOCA Cuba é um país mais ateu que os Estados Unidos, mas o nível de Q.I. não é tão alto.

Lynn – Você tem razão. É outra exceção. Pela porcentagem de ateus (40%), o Q.I. (85) dos cubanos deveria ser mais alto que o dos americanos. Mas há também aí um fenômeno não natural que interferiu no resultado. Lá, o comunismo forçou a população a se converter. Houve uma propaganda forte contra a crença religiosa. Não se chegou ao ateísmo pela inteligência. A população cubana não se tornou atéia porque passou a questionar a religião. Foi uma imposição do sistema de governo.

ÉPOCA E o Brasil, como está?

Lynn – O Brasil segue a lógica, um porcentual baixíssimo de ateus (1%) e Q.I. mediano (87). É um país muito miscigenado e sofreu forte influência do catolicismo de Portugal e dos negros da África. Fica difícil mensurar a participação de cada raça no Q.I. atual. O que posso dizer é que a história do país se reflete em sua inteligência.

ÉPOCA O senhor quer dizer que a miscigenação influenciou nosso Q.I.?

Lynn – Sim, é uma hipótese em análise ainda. Os japoneses são os indivíduos que na média têm o maior Q.I. (105) entre as raças estudadas. É mais alto que o dos europeus e dos americanos. Em negros da África Subsaariana, o resultado foi 70. Em negros americanos, esse valor é maior (85). Isso pode ser explicado pelos 25% dos genes da raça branca que os negros americanos possuem.

ÉPOCA O senhor está sugerindo que índios, brancos e negros têm Q.I. diferente entre si?

Lynn – Exatamente. Isso se explica pela história da humanidade. Quando os primeiros humanos migraram da África para a Eurásia, eles encontraram dificuldade para sobreviver em temperaturas tão frias. Esse problema se tornou especialmente ruim na era do gelo. As plantas usadas como alimento não estavam mais disponíveis o ano inteiro, o que os obrigou a caçar, confeccionar armas e roupas e fazer fogo. Ao exercitar o cérebro na solução desses problemas, tornaram-se mais inteligentes. Há também uma mutação genética que teria acontecido entre asiáticos e dado uma vantagem competitiva a essa raça.

ÉPOCA O senhor chegou a alguma conclusão sobre a inteligência das raças?

Lynn – Sim. Os asiáticos são os mais inteligentes. Chineses, japoneses e coreanos têm o Q.I. mais alto (105) da humanidade. E isso acontece onde quer que esses indivíduos estejam, seja no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa ou em seu país de origem. Em seguida, vêm europeus (100) e nas últimas posições estão os aborígenes australianos (62) e os pigmeus do Congo (54).

“Os negros americanos são mais inteligentes que os africanos porque têm 25% de genes da raça branca”.

ÉPOCA Se fosse assim, seria mais fácil encontrar um gênio entre os japoneses ateus, não?

Lynn – Não. Os asiáticos têm Q.I. alto, mas são um grupo mais homogêneo. Há menos extremos positivos e negativos. Eu não diria que é mais fácil nem mais difícil. Na verdade, não sei. Os gênios aparecem em todos os povos, em todos os países, mas é difícil medi-los. E não é porque se é religioso que se é menos inteligente. Mas há uma tendência de encontrar Q.I. mais alto em pessoas não-religiosas. Em minha opinião, isso acontece porque a inteligência aprimorada leva ao questionamento da religião.

ÉPOCA Há outras habilidades relacionadas ao sucesso profissional e à felicidade, além do Q.I.?

Lynn – Os testes de Q.I. não devem ser tomados como a coisa mais importante da vida. Há muito de cultural nesses testes. E isso se reflete no mau desempenho de tribos rurais. Há também a tão alardeada inteligência emocional e uma série de características sociais que geram vantagem nos tempos modernos. Mas insisto que o Q.I. é um item fundamental para medir a inteligência de uma pessoa.

ÉPOCA Que outras conclusões podemos tirar a partir do teste de Q.I.?

Lynn – Inúmeras. É uma área de estudos muito produtiva hoje em dia. Acredita-se que pessoas com Q.I. elevado tenham menores índices de mortalidade e menos doenças genéticas. Aparentemente, há uma relação forte entre saúde e Q.I. alto. Os indivíduos mais inteligentes também apresentam menos risco de sofrer de depressão, estresse pós-traumático e esquizofrenia.

ÉPOCA Qual é seu Q.I.?

Lynn – Meu Q.I. é 145 (Lynn seria superdotado de acordo com a escala mais popular de Q.I. ). É um número alto, eu sei, mas não destoa entre os colegas da academia. Há Q.I.s mais altos que o meu na Academia de Ciências dos EUA. Mas lá também vale a regra. O número de ateus chega a 70%.

ÉPOCA Como o senhor vê o papel da religião na sociedade?

Lynn – A religião é um instinto, o homem primitivo tem crença religiosa e isso, por algumas razões, se manteve até hoje. Mas, acredito, somos capazes de superar isso com a razão.

Fonte: Revista Época / Luciana Vicária / 08.08.2008

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Em Salto, 22 de Agosto de 2008

Se tem de perder pra alguém, que seja para os EUA

Acabou a final do futebol feminino nas Olimpíadas. Pela segunda vez, o Brasil perde a medalha de ouro — para o mesmo time, o americano.

Sinto pelas meninas brasileiras. Torci para elas. Mas se tinham de perder para alguém, estou contente que tenha sido para as meninas americanas. Odiaria perder para as alemãs ou as argentinas. Não odeio perder para as americanas.

Sou brasileiro de nascimento. Também por sentimento. Mas os Estados Unidos são minha segunda pátria. Morei lá durante muito tempo, lá terminei meus estudos formais, obtendo o Mestrado e o Doutorado, lá tive meus dois primeiros empregos acadêmicos. Tenho uma filha, a Andrea, hoje com 35 anos,  anos, nascida lá. Na realidade, ela sempre morou lá, embora tenha também nacionalidade brasileira. Tenho duas netas nascidas lá, Olivia e Madeline, que também têm dupla nacionalidade. Minha filha fala Português, mas minhas netas, não. A comunicação com elas é, portanto, necessariamente em Inglês.

Além disso os Estados Unidos têm feito mais pelo futebol feminino do que qualquer outro país. Minha neta de seis anos joga futebol na escola, tem técnicos, aprende todos os fundamentos direitinho… E isso como parte das atividades escolares, em campos bem construídos e com todos os recursos necessários…

É isso. Parabéns às americanas pela medalha de ouro e parabéns às nossas valiosas meninas pela de prata.

Em Salto, 21 de Agosto de 2008

A visão religiosa do mundo – 1

Nenhum de nós pediu para nascer… Nascemos porque um homem e uma mulher, nossos pais, um dia transaram — de preferência, de comum acordo, ou, então, um forçando o outro; de preferência, com amor, mas também pode ter sido sem… Desse relacionamento nós surgimos.

Tendo nascido assim por causa de uma decisão às vezes mal tomada, às vezes tomada só por um de nossos pais, é legítimo perguntar: a vida tem algum sentido imanente (“imanente” aqui querendo dizer “além do(s) sentido(s) que nós mesmos procuramos imprimir a ela”)?

Alguns nascem em berço esplêndido: em lares ricos, de pessoas cultas, que vivem em locais em que se respira cultura sofisticada. Ali o acesso ao desenvolvimento das mais variadas competências e à construção dos mais sofisticados conhecimentos é relativamente fácil. Outros nascem em condições bem adversas: basta mudar o sinal das características anteriores para obter uma descrição apta dessa situação. Ainda outros, talvez a maioria, nascem em condições intermediárias: nem tão boas, nem tão ruins.

Sendo assim, é legítimo perguntar: por que isso acontece assim?

Depois de nascidos, uns (muitas vezes independentemente de sua origem) progridem, destacam-se dos demais, se tornam bem sucedidos: “dão certo”, como diz Viviane Senna (qualquer que seja o empreendimento pelo que optem). Outros (mais uma vez sem relação necessária com sua origem) não progridem, por vezes até andam para atrás, destacam-se com o sinal invertido: não pelo seu sucesso, mas pelo fracasso que persiste em visitá-los. “Dão errado”. Ou, como novamente diz a Viviane, tornam-se “seres humanos bonsai”: não se desenvolvem.

Sendo assim, é legítimo perguntar: por que isso acontece assim?

Três vezes eu disse: “é legítimo perguntar”. A essas perguntas, claramente genuínas e legítimas, o ser humano tem dado, ao longo de sua história, dois tipos de resposta.

Um tipo de resposta, o mais comum, parte do pressuposto de que a realidade (o cosmos, a vida em geral, a vida de cada um de nós) tem um sentido transcendente, isto é, que tem origem além ou fora dessa realidade.

O outro tipo de resposta, menos comum, por não ver justificativa no pressuposto do primeiro tipo de resposta, imprime, quando o faz, sentido apenas imanente à vida: a nossa vida só tem sentido quando nós mesmos conseguimos revesti-la de sentido.

O primeiro tipo de resposta é responsável pelo surgimento das religiões. O segundo tipo de resposta se encontra em casa na filosofia – em especial na filosofia de cunho mais naturalista, mais cético, mais racionalista, mais humanista.

O primeiro tipo de resposta parte do pressuposto de que a realidade (o cosmos, a vida, a nossa vida) tem uma finalidade metafísica (sobrenatural) que é lhe atribuída por um ser – ou conjunto de seres – cuja existência está fora dessa realidade, e que, portanto, a transcende (donde o sobrenatural), podendo ser que até mesmo um deles – o maior de todos – a tenha criado, dentro de seus desígnios freqüentemente considerados inescrutáveis. Tendências mais céticas, dentro desse primeiro tipo de resposta, relutam em reivindicar muito conhecimento desses desígnios. Tendências mais crédulas, porém, não hesitam em reivindicar conhecimento bastante significativo desses desígnios (que, no caso, não seriam tão inescrutáveis assim). Com base em supostas evidências de ordem e propósito encontradas na realidade, ou com base em supostas revelações de natureza genérica (feitas, pelo que se acredita, para todos os que se propuserem aceitá-las), os proponentes desse primeiro tipo de resposta acreditam ter resolvido, em grande parte, o mistério da vida humana (e até mesmo do universo como um todo). Dentre esses, uns chegam ao extremo de credulidade representado pela convicção de que não só conhecem esses supostos desígnios superiores (divinos), mas são capazes de influenciá-los através de sacrifícios, oferendas, preces e orações de vários tipos. No extremo da extremidade estão os que são capazes de se convencer (e, por incrível que pareça, de convencer os outros) de que têm canais privilegiados de comunicação permanente com os autores desses desígnios (os deuses): não só falam com eles em oração, mas ouvem respostas e comunicados específicos (profecias, leis, instruções, etc.) – através de idéias ou outras informações que repentinamente aparecem em suas cabeças, ou através de sonhos, ou através de mensageiros especiais (anjos, por exemplo), ou através de sinais que apenas eles são capazes de decodificar.

O segundo tipo de resposta não vê fundamento para esses edifícios teóricos: consideram-nos castelos construídos no ar. Os que a adotam não conseguem encontrar evidência que comprove que esses edifícios teóricos – admitidamente belos – sejam mais do que mitos e literatura. Com base na evidência disponível, argumentam que tudo indica que não nascemos com nenhuma finalidade metafísica atribuída a nós por um ente transcendente e sobrenatural. Propõem, em lugar da resposta do primeiro grupo, que o único sentido que a vida possui é aquele que nós mesmos atribuímos a ela – reconhecendo que alguns não conseguem lhe atribuir nenhum.

Em regra os proponentes do segundo tipo de resposta acreditam que os proponentes do primeiro tipo se iludem, são vãos e pretensiosos, e que, a despeito de suas profissões de humildade, têm mania de grandeza, pois se julgam tão importantes a ponto de acreditar que a divindade não só faz macro-gestão do universo, mas micro-gere a sua vida (não permitindo, por exemplo, que nem mesmo um fio de cabelo caia de sua cabeça sem a intervenção divina), monitorando em micro-detalhes o que acontece em sua vida, ouvindo-lhes os reclamos, dando-lhes informações privativas sobre assuntos de interesse, protegendo-lhes os bens (inclusive humanos: cônjuge, filhos). E eles são agentes dessa micro-gestão. Delegados divinos, imaginam-se.

Por isso, investem tudo de sentido religioso, cósmico, eterno. As coisas mais miúdas e comezinhas da vida assumem sentido religioso. Proíbe-se que se coma isso ou aquilo. Fazem-se jejuns, às vezes prolongados. O faquir indiano dos jejuns — acrescentando a cama de pregos. Proíbe-se que se vista assim ou assado. Mulheres muçulmanas cobrem até o rosto em público. Proíbe-se que, em determinados dias (sextas-feiras, sábados ou domingos), se faça qualquer coisa que não seja religiosa. Considera-se impura a mulher durante o seu ciclo menstrual. Paulo, no Novo Testamento, exorta as mulheres: “E vós, mulheres, obedecei a vossos maridos…”

Por falar nisso, um casamento, dentro dessa visão não é um simples arranjo (contrato entre duas pessoas) que procura viabilizar a consecução de seus objetivos comuns, tornando-as mais felizes. O casamento é sacralizado, sacramentado, investido de sentido religioso, cósmico, eterno, místico: não um acordo terreno (um contrato) que pode ser revogado de comum acordo ou mesmo unilateralmente, dando-se causa, mas uma aliança feita nos céus, para todo sempre (inclusive para uma suposta vida futura que estaria por vir, depois desta – o “porvir”). Romper unilateralmente o contrato matrimonial, nesse caso, não é apenas trair a confiança do cônjuge: é pecar contra a ordem divinamente estabelecida, é ofender a Deus, é (a menos que Deus [sic] perdoe) condenar-se ao eterno fogo do inferno. Pior: é mostrar-se aberto para questionar as demais pedras do edifício – algo a ser coibido de toda e qualquer maneira.

A religião procura dar um sentido favorável e positivo (para o crente) a tudo o que acontece — investindo tudo de uma aura sobrenatural. As coisas vão indo mal e você está, digamos, no fim da fila nesta vida? Ah, mas os últimos serão os primeiros! O incrédulo enriquece e o crente permanece pobre? Ah, mas é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Alguns são pobres de espírito? Ah, mas também deles é o reino dos céus — que, pelo jeito, é o reino dos pobres em matéria e em espírito. Ao exigir o sacrifício, ao exigir que o bem de outrem seja colocado antes do bem próprio, que é a essência do altruísmo, a religião leva as pessoas a tentarem se regozijar com a felicidade alheia e a se conformarem com o quinhão que (segundo imaginam) lhes cabe na vida, tentando fazer da necessidade uma virtude.

Aos que adquirem algum poder sobre outras pessoas dentro dessa visão de mundo convém manter essa visão a todo custo,  muitas vezes quando nem mesmo acreditam mais nela – pois seu poder sobre os outros advém desse referencial teórico. Conheço dezenas de padres e pastores que não acreditam no que pregam — mas continuam ali, por causa do poder sobre a vida de outras pessoas que o ofício, e, por vezes, algum carisma, lhes outorgam. Vide a passagem sobre o Grande Inquisidor, no magnífico livro de Dostoievsky, Irmãos Karamazov.

A visão religiosa do mundo é mais do que simplesmente falsa: é, em muitos aspectos, perniciosa. Alguém enfrenta problemas típicos dos problemas que todo mundo enfrenta, cedo ou tarde? É o demônio agindo, ou é um mal-espírito que se apossou da pessoa (as vezes pela instrumentação de um “anjo de luz”): é preciso exorcizá-lo. Se bem sucedido o exorcismo, o espírito mau fica sem ter para onde ir e é obrigado a buscar guarida numa manada de porcos… A religião é anti-vida. Privilegiando um mundo futuro, reduz a importância deste. Privilegiando a vida eterna, reduz a importância desta vida curta e mortal — mas tão importante, por ser a única que temos. Ao afirmar que a morte é o portal de entrada para o paraíso, a religião reduz o impacto e o significado da morte, relativiza-a. Para quem não é religioso a morte é importante porque é o fim — e, como tal, precisa ser levada a sério. Para os não religiosos a morte é verdadeiramente final — não é a porta de entrada para o paraíso. Terroristas religiosos muçulmanos se explodem em nome da religião, matando dezenas ao seu redor, trazendo destruição, porque acreditam que, assim fazendo, vão direto ao paraíso, para desfrutar, de imediato, dos encantos de setenta e duas virgens. Dá pra crer?

Alguns religiosos vão dizer que condenam os terroristas que autoexplodem. Infelizmente, operam sob os mesmos princípios que eles.

Parece que nada é tão absurdo que não possa se tornar artigo de fé de uma religião ou outra.

[Continuo, quando eu estiver inspirado].

Em Campinas, 19 de Agosto de 2008 

19 de Agosto

Sempre me lembro desta data.

Foi neste dia, em 1967, quarenta e um anos atrás, que viajei pela primeira vez aos Estados Unidos. Já fiz referência ao fato em anos anteriores aqui neste Space. Faço-a novamente.

Vim de Santo André para Campinas de trem, no dia 19. Saí de Viracopos, à noite, pela PanAm. Parei no Rio (no antigo aeroporto do Galeão) e, de lá, o vôo seguiu nonstop até Nova York (aeroporto JFK). Em Nova York peguei outro avião, se não me engano da TWA (TransWorld Airlines, defunta como a PanAm) e fui para Pittsburgh — onde me esperava o casal William Eichleay, com a filha de 13 anos (linda – sentava-se sobre uma perna, deixando à vista a calcinha), que me hospedaram durante quase dez dias antes de eu ir morar no dormitório do Seminário (Pittsburgh Theological Seminary). As aulas começavam apenas no dia seguinte ao Labor Day — que acontece na primeira segunda-feira de Setembro.

Foi um momento decisivo na minha vida.

Iria completar 24 anos dias depois. No ano anterior, tinha tido razões de sobra para concluir que os meus sonhos estavam todos condenados e que o mundo estava por desabar sobre minha cabeça. Em Agosto (Agosto… sempre Agosto) de 1966 fui expulso do Seminário Teológico Presbiteriano de Campinas. Estava em meu terceiro ano. Era excelente aluno. Modéstia à parte, havia quebrado tudo o que era record nas médias do Seminário. Mostrava grande habilidade especialmente em filosofia e em línguas, nestas, em especial em Grego e Latim. Em Grego fechei três semestres puxados de estudos, com aulas diárias, com a média de 99,81. Eu não tinha dúvida, naquela época, de que meu futuro estava na vida acadêmica. Imaginava-me em alguns anos professor de Exegese do Novo Testamento, ou de Teologia do Novo Testamento, ali mesmo, no próprio seminário, na Av. Brasil em Campinas. Mas veio a bordoada. Perdi a bolsa de estudos do Presbitério Paulistano. Precisava viver: em três dias arrumei emprego na Bosch, no bairro da Boa Vista, em Campinas. (Incidentalmente, em 7 de Agosto [!] de 1924, 42 anos antes, quase no dia, minha mãe havia nascido numa fazenda ali mesmo naquele bairro da Boa Vista). Na Bosch, fui analista de custos. A atividade não era de todo maçante naqueles dias anteriores ao computador porque se exigia bastante raciocínio e cálculo — e eu gostava disso. Mas a função não tinha nenhum futuro para alguém como eu. Parecia fim de jogo.

Mas outras portas se abriram. Ganhei bolsa para ir estudar em Pittsburgh e, por isso, o Agosto seguinte, que hoje comemoro, trazia grandes promessas. Quase todas cumpridas.

Em 8 de Agosto de 1972, cinco anos depois desse Agosto de 1967, defendi meu doutorado na Universidade de Pittsburgh, sob a orientação do grande mestre que foi William Warren Bartley III — falecido jovem.

Mais um Agosto.

Um ano antes, em Agosto de 1971, tive problemas pessoais que quase resultaram na minha separação de minha primeira mulher – e resultaram na perda de um grande amigo. Mas os problemas conjugais foram equacionados de forma satisfatória por um tempo (até num outro Agosto, dali três anos), e pude voltar minha atenção para a tese, que concluí em Maio do ano seguinte (1972) e defendi no dia que indiquei. (A propósito, no dia 11 de Agosto de 1971 assisti ao filme Summer of 42 pela primeira vez.)

Em Agosto (!) de 1972 me mudei de Pittsburgh, na Pennsylvania, para Hayward, na Californa, do outro lado do país, na Baía de San Francisco, juntinho da cidade, para assumir meu primeiro emprego, como Professor de Filosofia na California State University de Hayward. As aulas começariam, como sempre, no dia seguinte ao Labor Day. No intervalo, aluguei um apartamento em Castro Valley (20928 Wilbeam Avenue), ali pertinho. Logo em seguida foi concebida minha filha Andrea, que veio a nascer em 25 de Junho de 1973 e que teve, no endereço que acabei de dar, sua primeira casa.

Em Agosto (!) de 1974 comecei a dar aulas na UNICAMP. Meu contrato só saiu em Maio do ano seguinte, mas foi retroativo a 1/7/1974. Mas a primeira aula que dei na UNICAMP foi em Agosto de 1974 — na disciplina Filosofia da Educação I, que ficou sob minha responsabilidade durante 32 anos. Era a primeira turma de Pedagogia da UNICAMP. De vez em quando ainda encontro alunas daquela primeira turma — agora todas formadas, algumas com Doutorado e dando aula na UNICAMP…

Ainda em Agosto de 1974 dei uma palestra na Faculdade de Educação da UNICAMP sobre o tema "Pesquisa em Filosofia da Educação: A Questão da Doutrinação". Foi nessa palestra que o olhar intenso da Sueli, então assistente de pesquisa na área de Psicologia Genética (Piaget) da universidade, despertou minha atenção. Apenas dois meses depois estávamos vivendo juntos, embora ambos, em Agosto, ainda estivéssemos casados e morando com os respectivos cônjuges.

Trinta anos depois, em 2004, dei uma palestra, em Agosto, na primeira edição do evento TecEduc@tion, em São Paulo. O evento aconteceu de 25 a 27 do mês.

Agostos e Agostos que se empilham em cima de mim.

Aproximo-me do mês de Agosto sempre com alguma trepidação: um misto de expectativa e apreensão. Talvez um resquício de superstição num racionalista ateu. Tenho um pressentimento de que, qualquer ano desses, um mês de Agosto me leva — como aquele bom Agosto de 1967 me levou. Só que, desta vez, para sempre. Sem me dar a chance completar mais um ano dali a uns dias.

Em Campinas, 19 de Agosto de 2008.

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis morreu em 29 de Setembro de 1908. Este ano celebra-se o centenário de sua morte, portanto. Para comemorar a data comprei ontem a obra completa dele, em três volumos, impressos, em edição bonita, de papel do tipo bíblia, disponível, com quase 60% de desconto, na Livraria Cultura de Campinas. O preço de tabela passava dos seiscentos reais. O preço pago ficou em 250 — com a opção de pagamento em cinco parcelas. Uma pechincha. Sendo obra completa, a edição traz, naturalmente, os livros, os contos, as contribuições para jornais, as poesias. Tudo. Cerca de 3.500 páginas de referência para a literatura e para a língua portuguesa.

Comecei lendo o conto, em forma epistolar, "Confissões de uma Viúva Moça". Delicioso. Recomendo "highly", como dizem os americanos. Foi publicado como folhetim, segundo consta de maio a julho de 1865, no Jornal das Famílias, então editado por B.-L. Garnier, editor de nome ilustre. O conto não veio assinado por Machado, mas simplesmente por J.

O conto é polêmico, a começar pelo pseudônimo usado — ou, antes ainda, pela razão que levou Machado a recorrer a um pseudônimo. Outro aspecto polêmico está na expressão "viúva moça", que, em meados do século XIX, segundo alguns, visava a atrair leitores de motivos menos puros… Como diz um deles, "não eram incomuns viúvas moças naqueles tempos em que as pessoas morriam cedo. Mas o que importa a mais é que elas tinham liberdade de dispor de si mesmas, não desfrutada pelas moças solteiras" (citação de John Gledson, em Machado de Assis, Contos: Uma Antologia. Seleção Introdução e Notas de John Gledson, Companhia das Letras, São Paulo, 1996, vol. I, p.22; apud Lúcia Granja, "Novas Confissões sobre um Conto Polêmico", disponível na Internet no seguinte URL: http://www.machadodeassis.net/download/Novas Confissões sobre um conto polêmico de Machado de Assis.pdf – consultado hoje, 19/08/2008). É interessante notar que meses antes ele já havia publicado, desta vez sob o próprio nome, um outro conto sobre o tema, com o título "Casada e Viúva" — que, talvez, seja tão sugestivo provocador quanto o título do conto subseqüente. (Este título faz lembrar a chamada sobre a Viúva Porcina, na novela Roque Santeiro, de Dias Gomes: "A viúva que foi, sem nunca ter sido"…)

Machado sabe alimentar a curiosidade de leitores de motivos talvez não tão puros, como eu próprio. Na primeira carta, a viúva disse à sua amiga, destinatária da carta, que preferia fazer suas confissões por cartas e não "por boca", porque, nesta hipótese, "talvez corasse de ti". Lindo fraseado — e promessa de que as confissões serão de fazer corar (está bem — corado de século XIX pode não significar nada hoje). "Deste modo", diz a viúva, "o coração abre-se melhor e a vergonha não vem tolher a palavra nos lábios". Machado sabe atiçar a curiosidade do leitor.

Talvez orquestrado para aumentar circulação do jornal, surgiu um debate, em que um tal de Caturra insinuou que o que estava por vir no que ele chamou de "romancito" em fascículos, atentaria contra os costumes. Machado (isto é, J.) rebateu no número seguinte do jornal, enfatizando que "o autor das Confissões respeita, mais que ninguém, a castidade dos costumes". Dificilmente um debate desses, alimentado nos números seguintes do jornal, deixaria de trazer mais leitores para o períódico.

Caturra voltou à carga, criticando a "liberdade exagerada de imprensa" que permitia que um "romancito" como aquele fosse publicado justamente nas páginas de um jornal que se pretendia das famílias. Na seqüência do debate, orquestrado ou não, Machado de Assis interveio, em próprio nome, e assumiu a autoria do "romancito". (As referências ao debate são apud Lúcia Granja).

Em outro artigo sobre o conto disponível na Internet, "Provocações de uma viúva moça", Thomaz Pereira de Amorim Neto levanta uma outra questão interessante abordada pela obra. Eugênia — a missivista — chama o amor que sentia pelo misterioso personagem que despertou seu interesse, enquanto ela era ainda casada, de crime. "Era um crime, eu bem o via, bem o sentia", diz ela. Comenta Thomaz Pereira:

"Que crime é esse? A traição de um contrato social? Não acreditamos que seja isso. Em realidade, a leitura que propomos ao tentar reinserir as citações na própria questão do enredo do texto é: o crime é o distanciamento do dogma do matrimônio. A infidelidade, pois, seria um crime não contra o marido, mas contra Deus e, portanto, um pecado mortal. Mas, ao mesmo tempo, a força da paixão toma aqui um viés pagão, trágico, o que faz a
narradora se colocar na tensão de não citar nada além de gregos e bíblicos." (
http://www.idelberavelar.com/abralic/txt_25.pdf).

Esse dogma persiste até hoje — embora, felizmente, tenha saído do centro das preocupações da sociedade para ocupar-lhe a periferia.

Enfim.

Quem sabe eu terei, mais ou menos machadianamente, suscitado em mente curiosa o desejo de ler o conto. Se isso acontecer, terá valido o preço da coleção.

Em Campinas, 19 de Agosto de 2008

A pessoa, o seu corpo, e a existência de entes espirituais

Prestei atenção à forma em que os meios de comunicação — em especial a Rede Globo — se referiram à morte de Dorival Caymmi.

Em vários momentos a emissora noticiou que havia morrido o compositor e cantor Dorival Caymmi. Quanto a isso não parece ter havido dúvida: quem morreu foi Dorival Caymmi — a pessoa, o compositor e cantor. No entanto, a emissora anunciava em seguida que seu corpo seria enterrado no dia tal, a tais horas, em tal lugar.

Ou seja: morreu a pessoa — mas o que vai ser enterrado é apenas o seu corpo.

E o resto da pessoa, se resto há? O que acontece com ele?

Não tenho dúvida de que uma pessoa é composta, em algum sentido válido dos termos, de pelo menos duas partes: corpo e mente. Há os que acreditam que a pessoa tenha mais do que simplesmente corpo e mente: além do corpo, ela teria alma e espírito — não ficando claro onde ficaria a mente nesse complexo de partes que, em sua totalidade, comporiam a pessoa.

Também não tenho dúvida de que a mente, embora claramente distinta do corpo, morre com ele. Assim, não tenho problema nenhum em dizer "Morreu ontem no Rio de Janeiro o compositor e cantor Dorival Caymmi e ele [o Dorival Caymmi, morto, não apenas o seu corpo] será enterrado amanhã".

Quem acredita na existência da alma e/ou do espírito, em geral acredita que um deles seja imortal ou, pelo menos, capaz de sobreviver à morte da pessoa. Quem sabe, ambos. Na realidade, dentro dessa visão, é apenas o corpo que morre. A Rede Globo parece compartilhar dessa visão. Por isso afirma que é o corpo que é enterrado, não fazendo nenhuma tentativa de explicar onde é que o resto fica enquanto o corpo baixa à sepultura.

Não acredito que a pessoa humana tenha tantas partes, nem muito menos que algumas sejam de tal forma independentes do corpo que possam sobreviver à morte deste (porque quanto ao fato de que o corpo morre ninguém duvida — embora haja quem acredite que um dia será ressuscitado [de que jeito??? as partes de mim que já se decompuseram, depois de minha morte, e passaram a fazer parte de outros organismos, serão reconstituídas???]).

Quem acredita que almas ou espíritos permaneçam, depois da morte do corpo, desencarnados em algum lugar (almas ou espíritos desencarnados precisam de um lugar?), em geral não tem maiores dificuldades em acreditar que outros seres desencarnados (espíritos bons e espíritos maus) existam por aí, em algum lugar (?), e sejam capazes de nos influenciar de maneiras diversas.

Acho muito difícil acreditar nisso. Mas creio que até estaria disposto a acreditar se conseguisse acreditar que um deus incorpóreo e imaterial, totalmente espírito, não só imortal como eterno, sem princípio e sem fim, existe, criou o universo, criou a Terra, o Sol, a Lua, criou o que chamam de "nossos primeiros pais", continua não só a macro-gerir o universo, mas também a micro-gerir as nossas vidas, não deixando que sequer um fio de cabelo de nossa cabeça caia sem que ele o queira, imiscuindo-se nas pequenas coisas de nossa vida, interferindo com o que pensamos, sentimos, desejamos, queremos, fazemos, mesmo nos planos mais íntimos e pessoais, ouvindo preces, atendendo algumas, deixando de atender outras, à sua escolha…

Se conseguisse aceitar que esse tipo de ser existe, não teria maiores problemas em aceitar a existência de uma alma ou um espírito imortal — ou de espíritos, bons e maus, que ficam por aí tentando nos ajudar ou tentando azucrinar nossas vidas. Quem aceita o mais, não tem dificuldade em aceitar o menos.

Morreu Dorival Caymmi. E já foi enterrado. Exceto pela sua obra, e pelas lembrança que dele temos, Dorival Caymmi não existe mais. O mesmo se dará com todos nós.

Em Campinas, 18 de Agosto de 2008

The road less traveled by

Transcrevo, a partir de um e-mail de Robert Fendt acerca de Og Leme, com tradução do primeiro, os versos finais do poema de Robert Frost The Road not Taken:

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I —
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference

É com um suspiro que conto isto,
Tanto, tanto tempo já passado:
Duas estradas separavam-se num bosque e eu –
Eu segui pela menos viajada,
E isso fez toda a diferença.

São Paulo, em 5 de Agosto de 2008

A Lua da ciência ou a lua do imaginário?

Estou relando alguns relatos de projetos de aprendizagem dos alunos da Lumiar, e, a partir de um grupo de relatos, me surgiu a questão que dá titulo a este post. O que é mais importante estudar na escola: a Lua da ciência ou a lua do imaginário?

Por detrás dessa pergunta relativamente simples está o famoso confronto entre "as duas culturas": a científica e a literária. Antigamente não havia dúvida: a cultura literária (também chamada de humanística, ou, de forma equivocada, liberal) mandava na educação. Depois, com a presença cada vez mais forte da ciência na vida diária, com a proliferação da tecnologia, que dela depende, a cultura científica veio a ser considerada mais importante do que a literária (freqüentemente rotulada, de forma pejorativa, de bacharelesca, livresca, ornamental, etc.).

Os vestibulares das universidades hoje refletem esse razoável desprestígio da cultura literária — que valoriza o imaginário e, não raro, coloca em xeque o realismo científico. Carreiras científicas e tecnológicas são procuradas às vezes à razão de 50 alunos por vaga, em universidades e cursos de prestígio. Carreiras em letras e literatura, para não falar em filosofia e história, quase ficam sem candidatos suficientes, mesmo nas melhores universidades.

Longe de mim condenar os que buscam carreiras científicas e tecnológicas prestigiadas. Só quero fazer o lembrete de que a ciência é meio — e os fins serão dados por caminhos que não são científicos: por nossa filosofia, por nossos valores, por nossa imaginação. Einstein costumava dizer que vivemos em uma época de meios cada vez mais perfeitos e fins cada vez mais confusos. Estava certo ele. E a confusão nos fins ocorre porque a ciência quase que monopolizou a atenção de nossas escolas e universidades.

É preciso equilibrar as coisas. É importante estudar a Lua da ciência, o satélite da Terra, ao qual possivelmente poderemos todos viajar um dia. Mas também é importante entender por que a Lua atiça a nossa imaginação, e, especialmente quando cheia, nos faz sonhar, suspirar, e desejar a pessoa amada — ou, então sonhar e suspirar no desejo de ter uma pessoa amada…

Em Salto (lugar de Lua Cheia bonita), 3 de Agosto de 2008