China: comunismo, capitalismo, liberdade

Saio daqui a pouco aqui de Taiwan, a caminho de Tokyo. Mas não posso deixar de regsitrar mais uma coisa.

Economicamente, a China está abandonando o comunismo e se tornando capitalista. Política e culturalmente, porém, vai demorar bem mais.

Um dia desses li no jornal aqui de Taipei que um casal, na China, estava andando num parque quando, num impulso típico de namorados, um se virou para o outro e se abraçaram. A polícia imediatamente chegou, separou-os e os prendeu. Só um grande movimento de pressão pela Internet levou a polícia a liberá-los, sem acusá-los de crime — algum crime inventado pela burocracia que pode ser uma tão terrível ditadura quanto a pior das ditaduras mais típicas.

Agora há pouco está assistindo à CNN Asia. Mostraram o que, na China, se chama de Web Police. Se o usuário da Internet tenta navegar por sites proibidos, aparece uma tela com os iconozinhos de dois policiais: um homem e uma mulher. É uma indicação de que aquele site é "inapropriado". O conteúdo não é necessariamente pornográfico — embora possa ser. No mais das vezes é político.

Conversava ontem com uma amiga minha aqui de Taiwan sobre a situação econômica e política do país. Ela disse que, economicamente, Taiwan está sofrendo com a concorrência da China, que tem levado muitas indústrias para lá, em busca de salários mais baixos. Com isso, aumenta o desemprego aqui. Perguntei a ela se esse fato poderia contribuir para uma vitória política, nas próximas eleições, dos grupos favoráveis à reunificação com a China Continental. Muito difícil, disse ela. Por mais difícil que esteja a situação econômica, o povo, uma vez que sinta o gosto da liberdade, não quer perdê-la.

Amén.

Em Taiwan, despedindo-me, 2 de Setembro de 2007

Didi e o Criança Esperança

A carta abaixo transcrita vem sendo amplamente distribuída pela Internet. Ela é assinada por Eliane Sinhasique que, além de curiosamente se descrever como "Mantenedora Principal dos Dois Filhos que Pari", parece ser jornalista e publicitária.

A carta é daquelas que dificilmente deixam alguém indiferente. Ou você gosta e aplaude, ou detesta e parte para o ataque. ‘

Eu, naturalmente, gostei e aplaudi. Alguns de meus colegas na lista de discussão LivreMente não gostaram.

Vou comentar a carta, ressaltando os aspectos que me parecem positivos e discutindo o que me pareceu ser o aspecto mais criticado. 

Não gosto de gente me pedindo dinheiro (face-a-face, na rua ou no portão de casa, ou a distância, por telefone, carta ou e-mail) para alguma causa social — especialmente aqui no Brasil. Isto apesar de, filosoficamente, ser totalmente a favor que os problemas sociais sejam resolvidos pela iniciativa privada individual ou institucional. 

Eis as razões:

a) No Brasil (e em muitos outros países, hoje) o governo se propõe a resolver todos os problemas sociais com "políticas sociais". Para financiar essas políticas sociais, cobra uma quantidade astronômica de impostos (impostos diretos e indiretos, contribuições, provisórias e permanentes, taxas diversas) da gente. E, o que é pior, não resolve os problemas sociais, apesar das políticas sociais e do fantástico dinheiro arrecadado para financiá-las, por causa de incompetência ou, pior, ladroagem (dinheiro que "sai pelo ralo", como diz a autora da carta). Sou obrigado a pagar impostos e, portanto, a financiar os programas sociais do governo (e os espertinhos que ficam com a sacola aberta debaixo dos vários "ralos").

b) No caso da educação, em particular, como no da saúde, pago os impostos que financiam os sistemas públicos e pago sistemas particulares para meus filhos (no caso da educação) e para mim e para a minha família (no caso da saúde). Pago, portanto, duas vezes. Se os sistemas de educação e saúde do governo, que se pretendem universais (não apenas para os pobres) tivessem qualidade, eu poderia pelo menos me beneficiar deles. Mas isso não acontece. (Em estradas de qualidade, como as do Estado de São Paulo, não reclamo nem um pouco de pagar pedágio, porque a contrapartida do serviço com excelente nível de qualidade está ali. Só que isso só aconteceu em São Paulo depois da "privatização" das rodovias — privatização parcial, pois ainda há uma concessão do governo, há uma agência reguladora, a ARTESP, o governo estadual faz propaganda espúria sobre aquilo que é realização da iniciativa privada, etc.)

c) Há uma questão filosófica que se insere aqui. Não acredito que o bem-estar alheio seja um direito dos outros que se imponha a mim como um dever. Não acredito que o bem-estar do povo seja um direito que se imponha como um dever nem mesmo ao estado ou ao governo (como pretendem os defensores do "Estado do Bem-Estar Social" socializante). O bem-estar de cada um é responsabilidade sua e exclusivamente sua (ou, no caso de crianças pequenas, velhos ou inválidos dos que forem responsáveis por eles). Se alguém, em algum momento, precisar de ajuda, deve ficar claro que essa ajuda lhe vem (se vier) na forma de caridade, não de cumprimento de dever — e que o recipiente da caridade deve, no mínimo, demonstrar certa gratidão e se esforçar por não precisar da ajuda por muito tempo, porque ela não será permanente. A caridade governamental, travestida de cumprimento do dever, é basicamente permanente. Ela incentiva o recipiente a não se esforçar para sair da situação que lhe dá o suposto direito à ajuda.

d) Nesse quadro, não vou ajudar, através de programas de apelo mediático muito grande, como o Criança Esperança, e que são meio "chapa branca" (a UNICEF para mim é governo — se bem que internacional), que se encubra o fracasso do governo em resolver os problemas que ele afirma se responsabilidade sua solucionar. Imposto eu sou obrigado a pagar, não tem outro jeito. Contribuição voluntária, entretanto, não dou nenhuma mesmo.

e) Além do mais, trabalho com alguns programas sociais em ONGs e setores de Responsabilidade Social Corporativa de empresas que, sem o alarde do Criança Esperança, provavelmente fazem muito mais pela educação das crianças pobres.

f) Há algumas razões especiais para não dar para o Criança Esperança, em particular: o Renato Aragão e a Globo. Embora de vez em quando ache alguma graça nas palhaçadas do primeiro e admire alguns programas da segunda, no geral não gosto de nenhum dos dois. O espetáculo mediático que promovem acho de profundo mau gosto. Fico contente de que a Viviane Senna tenha parado de ir lá (espero que não tenha ido ao último show, a que eu não assisti). E, além do mais, o Criança Esperança virou um programa social permanente: todo ano a mesma ladainha de que há uma criança cuja formação depende de mim… E, por fim (neste item), acho desprezível essa atitude do Renato Aragão (e outros participantes no circo global) tentar constranger os possíveis doadores de dinheiro, fazendo-os sentir responsáveis e, se não atenderem ao apelo, culpados por uma vida desperdiçada. Enquanto o governo pretender ser o grande solucionador dos problemas sociais, o único responsável é ele. Que seja processado por descumprimento do seu dever — mas não venha o Renato tentar me fazer sentir culpado.

g) Por fim, se eu tiver algum dinheiro sobrando, depois do assalto do governo ao meu bolso, vou investi-lo na educação, na saúde e no bem estar dos meus — não nos de gente que eu nem conheço. (Esse é um ponto importante da carta). Meus filhos e netos eu sei que são esforçados, trabalham duríssimo, e, os filhos, cuidam muito bem dos netos. Merecem. Os outros, que se beneficiam de meus impostos e que se beneficiariam de minhas contribuições privadas, não tenho certeza. A grande vantagem da filantropia, isto é, da caridade privada, é que você pode escolher os seus beneficiários — e escolhe aqueles que você sabe que merecem. O que tem de malandro nessa terra…

h) Parte do "merecer" usado no parágrafo anterior é fazer um esforço real e sustentável para não precisar da ajuda alheia. Como disse atrás, a ajuda dos outros é caridade que se manifesta diante da necessidade alheia, não dever que satisfaz a um suposto direito.

Acho que é isso.  Está evidente porque gostei da carta e a elogiei.

O aspecto mais criticado da carta foi a seguinte afirmação da missivista:

"Você sabia que para pagar os impostos eu tenho que dizer não para quase tudo que meus filhos querem ou precisam? Meu filho de 12 anos quer praticar tênis e eu não posso pagar as aulas que são caras demais para nosso padrão de vida. Você acha isso justo? Acredito que não."

Um participante da discussão caiu de pau sobre a autora da carta porque estava qualificando de injusta a situação de não poder propiciar ao seu filho "Mauricinho" as "aulas de tênis" que ele queria… Argumentou ele que ela, se realmente não pode pagar pelas aulas de tênis, isto não se dá porque paga impostos, mas porque opta por gastar com outros supérfluos. Ninguém, exceto os podres de rico, teriam condições de custear tudo o que desejam comprar ou fazer.

Na discussão, o crítico da m
issivista tentou me convencer de que a carga tributária brasileira não é exagerada e que o único problema que ela apresenta é que não há uma prestação de serviços que corresponda a essa carga.

Começo pelo fim: a carga tributária brasileira é, sim, exageradíssima. Trabalhamos cinco de doze meses para pagar o governo. Que há países em que a carga é maior, deve haver (embora no Brasil o sistema tributário é tão irracional e complicado que sempre há algum impostinho mais que você paga sem saber). Mas isso não quer dizer que a nossa carga não seja exagerada. Claro que é — e se há outros países em que a carga é maior, lá a carga é mais exagerada ainda.

O problema não é apenas que inexiste no Brasil uma prestação de serviços que corresponda à carga tributária paga — embora isso seja, sem dúvida alguma, verdadeiro (e seria verdadeiro ainda que a carga tributária fosse metade do que é). O problema é que é impossível haver desenvolvimento econômico sustentável, para não falar em desenvolvimento social e humano, quando a gente tem de pagar 7/12 do que recebe para o governo, dinheiro esse que vai para sustentar um montão de parasistas e um bom número de ladrões.

Agora, chamar de "Mauricinho" um menino que quer aprender a jogar tênis ("por que não aprender futebol, que dá para aprender de graça?") é o cúmulo. É querer impor preferências pessoais sobre os outros.

E acho totalmente justo a missivista querer atender aos reclamos (ainda que pouco comuns) de seus paridos antes de atender, voluntariamente, por contribuições adicionais (extra-tributárias) aos reclamos dos paridos pelos outros. Afinal de contas, considero o egoísmo uma virtude, não um vício.

Em Taipei, 1 de Setembro de 2007

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Quinta, 23 de agosto de 2007.

Querido Didi,

Há alguns meses você vem me escrevendo pedindo uma doação mensal para enfrentar alguns problemas que comprometem o presente e o futuro de muitas crianças brasileiras. Eu não respondi aos seus apelos (apesar de ter gostado do lápis e das etiquetas com meu nome para colar nas correspondências).

Achei que as cartas não deveriam sem endereçadas a mim. Agora, novamente, você me escreve preocupado por eu não ter atendido as suas solicitações. Diante de sua insistência, me senti na obrigação de parar tudo e te escrever uma resposta.

Não foi por "algum" motivo que não fiz a doação em dinheiro solicitada por você. São vários os motivos que me levam a não participar de sua campanha altruísta (se eu quisesse poderia escrever umas dez páginas sobre esses motivos). Você diz, em sua última carta, que enquanto eu a estivesse lendo, uma criança estaria perdendo a chance de se desenvolver e aprender pela falta de investimentos em sua formação.

Didi, não tente me fazer sentir culpada. Essa jogada publicitária eu conheço muito bem. Esse tipo de texto apelativo pode funcionar com muitas pessoas mas, comigo não. Eu não sou ministra da educação, não ordeno as despesas das escolas e nem posso obrigar o filho do vizinho a freqüentar as salas de aula. A minha parte eu já venho fazendo desde os 11 anos quando comecei a trabalhar na roça para ajudar meus pais no sustento da família.

Trabalhei muito e, te garanto, trabalho não mata ninguém. Estudei na escola da zona rural, fiz supletivo, estudei à distância e muito antes de ser jornalista e publicitária eu já era uma micro empresária.

Didi, talvez você não tenha noção do quanto o Governo Federal tira do nosso suor para manter a saúde, a educação, a segurança e tudo o mais que o povo brasileiro precisa. Os impostos são muito altos! Sem falar dos impostos embutidos em cada alimento, em cada produto que preciso comprar para minha família.

Eu já pago pela educação duas vezes: pago pela educação na escola pública, através dos impostos, e na escola particular, mensalmente, porque a escola pública não atende com o ensino de qualidade que, acredito, meus dois filhos merecem. Não acho louvável recorrer à sociedade para resolver um problema que nem deveria existir pelo volume de dinheiro arrecadado em nome da educação e de tantos outros problemas sociais. O que está  acontecendo, meu caro Didi, é que os administradores, dessa dinheirama toda, não tem a educação como prioridade.

O dinheiro está saindo pelo ralo, estão jogando fora, ou aplicando muito mal. Para você ter uma idéia, na minha cidade, cada alimentação de um presidiário custa para os cofres públicos R$ 3,82 (três reais e oitenta e dois centavos) enquanto que a merenda de uma criança na escola pública custa R$ 0,20 (vinte centavos)! O governo precisa rever suas prioridades, você não concorda?

Você diz em sua carta que não dá para aceitar que um brasileiro se torne adulto sem compreender um texto simples ou conseguir fazer uma conta de matemática. Concordo com você. É por isso que sua carta não deveria ser endereçada à minha pessoa. Deveria se endereçada ao Presidente da República. Ele é "o cara". Ele tem a chave do cofre. Eu e mais milhares de pessoas só colocamos o dinheiro lá para que ele faça o que for necessário para melhorar a qualidade de vida das pessoas.

No último parágrafo da sua carta, mais uma vez, você joga a responsabilidade para cima de mim dizendo que as crianças precisam da "minha" doação, que a "minha" doação faz toda a diferença. Lamento discordar de você Didi. Com o valor da doação mínima, de R$ 15,00, eu posso comprar 12 quilos de arroz para alimentar minha família por um mês ou posso comprar pão para o café da manhã por 10 dias.

Didi, você pode até me chamar de muquirana, não me importo, mas R$ 15,00 eu não vou doar. Minha doação mensal já é muito grande. Se você não sabe, eu faço doações mensais de 27,5% de tudo o que ganho e posso te garantir que essa grana, se ficasse comigo, seria muito melhor aplicada na qualidade de vida da minha família.

Você sabia que para pagar os impostos eu tenho que dizer não para quase tudo que meus filhos querem ou precisam? Meu filho de 12 anos quer praticar tênis e eu não posso pagar as aulas que são caras demais para nosso padrão de vida. Você acha isso justo? Acredito que não. Você é um homem de bom senso e saberá entender os meus motivos para não colaborar com sua campanha pela educação brasileira.

Outra coisa Didi, mande uma carta para o Presidente pedindo para ele selecionar melhor os professores. Só escolher quem de fato tem vocação para o ensino. Melhorar os salários, desses profissionais, também funciona para que eles tomem gosto pela profissão e vistam, de fato, a camisa da educação.

Peça para ele, também, fazer escolas de horário integral, escolas em que as crianças possam além de ler, escrever e fazer contas, possam desenvolver dons artísticos, esportivos e habilidades profissionais. Dinheiro para isso tem sim! Diga para ele priorizar a educação e utilizar melhor os recursos.

Bem, você assina suas cartas com o pomposo título de Embaixador Especial do Unicef para Crianças  Brasileiras e eu vou me despedindo assinando…

Eliane Sinhasique
Mantenedora Principal dos Dois Filhos que Pari

P.S.: Não me mande outra carta pedindo dinheiro. Se você mandar, serei obrigada a ser mal educada
: vou rasgá-la antes de abrir. 

Diana: dez anos depois

Hoje é dia 31 de agosto (pelo menos aqui em Taipei já é). Faz dez anos que morreu Diana, a Princesa de Gales. Lembro-me perfeitamente de onde estava, e do que estava fazendo, quando soube (da mesma forma que me lembro perfeitamente de onde estava e do que estava fazendo quando soube que John Kennedy havia morrido). Estava em Poços de Caldas, numa suite do último andar do Hotel Carlton, com a Sueli, minha mulher. Ela já estava dormindo e eu lia e assistia à televisão quando veio a primeira edição extraordinária da Globo, comunicando o grave acidente. Não dormi mais aquela noite, os olhos alternando entre o livro que lia (não me lembro de qual era) e a tela do televisor.

Era impossível não gostar de Diana — da mesma forma que é  impossível gostar de Charles e Camilla. Ela era jovem, linda, sensível, apaixonada, e casou-se pensando que tudo no casamento iria ser como num conto de fadas, nunca imaginando que o sonho do marido era ser um tampão utilizado por Camilla… (Quanto mau gosto para demonstrar tesão… Será que Charles nunca leu um livro erótico realmente sensível?).

Não deu certo — e, estou convicto, não por culpa dela. Seus problemas pessoais, seus casos amorosos, são todos decorrentes da insensibilidade daquilo a que se dá o nome de Príncipe de Gales. Espero que nunca venha a ser rei — e que a Rainha Elizabeth encontre um jeito de fazer com que seu sucessor seja o filho mais velho de Diana, que, pelo menos fisicamente, parece com ela.

Hoje faz dez anos que ela morreu. Na CNN não se fala de outra coisa — discutindo-se até mesmo a possibilidade de que tivesse sido assassinada a mando da família real, que não suportaria ver a ex-sucessora ao trono casar-se com um maometano… Na minha memória fica, porém, aquela face linda e sensível. Camilla pode ter herdado Charles — mas nunca vai conseguir ter um olhar como tinha Diana.

Fica aqui minha homenagem.

Em Taipei, 31 de Agosto de 2007

Altruísmo como problema

Estou lendo um livro muito interessante, comprado na livraria Eslite, aqui em Taipei: No Two Alike: Human Nature and Human Individuality, de Judith Rich Harris. Estou gostando tanto que comprei, na Barnes & Noble online, o livro anterior dela: The Nurture Assumption: Why Children Turn out the Way they Do.

A psicologia evolucionária se baseia no princípio de que nossas características psíquicas se devem à luta pela sobrevivência e, em última instância, à sobrevivência do mais apto.

Se isso é verdade, há um problema a ser resolvido: o de ações aparentemente altruístas, a saber, ações em que alguém arrisca a sua vida, e, muitas vezes, a perde, para salvar a vida de outra pessoa ou ajudar outra pessoa. Morrer para salver a vida de outrem é, evidentemente, a coisa menos apta que se pode imaginar na luta pela sobrevivência. Como explicá-la, em termos do princípio básico da psicologia evolucionária?

Uma primeira tentativa de explicação é de que os atos aparentemente altruístas acontecem especialmente em relação a parentes, em especial aos filhos, e que eles, portanto, são explicáveis egoisticamente — no caso dos filhos, o egoísmo está (além dos aspectos afetivos) no interesse em preservar a continuidade do processo de transmissão de nossos genes.

Mas há muitos exemplos de pessoas que morrem tentando salvar totais estranhos. Como explicar esses casos?

A tentativa aqui precisa ser um pouco mais sofisticada. Mas o ponto básico é de que, ao ajudar estranhos em situações extremas, quem ajuda nunca espera perder a vida — embora deva contar com essa possibilidade. Esperando sobreviver, quem ajuda conta com a possibilidade de que, estando ele um dia em situação semelhante, alguém também se disporá a ajudá-lo… O ato aparentemente altruísta, assim, também se revela egoísta: ao ajudar os outros, ainda que estranhos, espero estar acumulando créditos que, um dia, se necessário, possam ser cobrados da conta corrente de boa vontade estabelecida junto aos semelhantes…

Clever.

Vale a pena ler o livro.

Em Taipei, 31 de Agosto de 2007

O reconhecimento da independência de Taiwan

O atual presidente de Taiwan (Republic of China – ROC) é Chen Shui-bian, do DPP (Democratic Progressive Party). Sua plataforma eleitoral (ele tomou posse pela primeira vez em 2001), pelo que consta, era (pelo menos de forma velada e mais ou menos ambígua) favorável à declaração formal da independência de Taiwan — algo que preocupava os Estados Unidos, que têm sido a força política e militar garantidora da paz nas relações entre China e Taiwan.

De 1949 até 1971 Taiwan era país-membro pleno das Nações Unidas, com o nome de Republic of China), tendo sido até mesmo membro do Conselho de Segurança. Durante esse período, a China Comunista (que, a partir da tomada do poder pelos comunistas, passou a se chamar People’s Republic of China — PRC) não era país-membro das Nações Unidas. 

Em 1949, quando da vitória dos comunistas, liderados por Mao Tse-Tung, na guerra revolucionária chinesa, o governo da situação da China, chefiado pelo Generalissimo Chiang Kai-Shek, líder do partido chamado de Kuomitang (KMT), fugiu, com seus aliados, para Taiwan (então conhecida como Ilha de Formosa), criando ali o que seria um governo chinês em exílio, com a promessa de que oportunamente reconquistaria o restante do território chinês.

Os Estados Unidos e a maoria dos demais países não-comunistas reconheceram o governo de Chiang Kai-Shek como o legítimo governo da China — não reconhecendo o governo de Mao Tse-Tung como legítimo.

É curioso registrar que, ao reconhecer Taiwan e não a China Continental como o país que legitimamente representava os chineses, os Estados Unidos endossaram o princípio da "one China" que tanto os comunistas como os nacionalistas defendiam. A diferença entre comunistas e nacionalistas é que, apesar de ambos defenderem a tese de que deveria haver uma só China, cada um pretendia ser o legítimo representante do povo chinês.    

Durante o governo do presidente Richard Nixon nos Estados Unidos (1969-74), quando Henry Kissinger era o seu Secretário de Estado (Chanceler, ou Ministro das Relações Exteriores), houve uma política de abertura dos Estados Unidos para com a China Continental. Kissinger foi à China várias vezes e o próprio Nixon fez uma visita histórica ao país asiático.

A partir desse momento, os Estados Unidos mudaram de posição e passaram a defender a tese das "Duas Chinas". Segundo essa tese, haveria dois países, a Republic of China (Taiwan) e People’s Repulbic of China (China Continental, comunista), que representavam o povo chinês, e, assim, passaram a defender a tese (não idêntica) de que a China Continental, comunista, também deveria fazer parte das Nações Unidas.

Os comunistas, porém, defendendo a tese da "Uma China", argumentavam que só passariam a fazer parte das Nações Unidas se a organização excluísse Taiwan do rol de seus membros, pois Taiwan não seria mais do que uma província rebelde sua. Em 1971 os Estados Unidos e as Nações Unidas capitularam e aceitaram a China como membro da organização, excluindo Taiwan. Aqui entre nós, uma vergonha.   

Como contrapartida, os Estados Unidos exigiram da China comunista que esta respeitasse a integridade de Taiwan, não invadindo a ilha nem a atacando militarmente.

Na realidade, como país autônomo, os Estados Unidos ainda continuaram a manter relações diplomáticas com Taiwan até 1979, quando cederam até mesmo nisso ao, através do "Taiwan Relations Act", fechar a sua Embaixada em Taiwan e proibir Taiwan de manter uma Embaixada nos Estados Unidos, atribuindo as responsabilidades de sua Embaixada em Taipei a uma organização não-governamental, o American Institute em Taiwan, e aceitando que as responsabilidades da Embaixada de Taiwan em Washington passassem a ser exercidas por um Escritório Econômico e Cultural. Os Estados Unidos continuaram a dar apoio comercial, financeiro e militar a Taiwan.

Com essa decisão, os Estados Unidos voltaram, de certo modo, a defender a tese da "Uma China", só que, agora, reconhecendo que o governo comunista de Beijing era o representante legítimo do país. No entanto, fez isso com certa ambigüidade, pois continuou a exigir que, na prática, a China Continental respeitasse a integridade de Taiwan (mesmo que Taiwan não fosse mais um país-membro das Nações Unidas).  

Assim, sem o apoio político dos Estados Unidos, Taiwan perdeu sua participação nas Nações Unidas e até mesmo a sua Embaixada em Washington — e a China passou a fazer parte do órgão e a manter uma Embaixada em Washington, sob os protestos de Taiwan, que não se conformou com a situação, mas teve de se resignar, por falta de força política (ou, melhor dizendo, por ter menor força política e poder de pressão do que a China).

Taiwan tem, porém, desde então, reivindicado seu lugar de volta nas Nações Unidas, questionando (na minha opinião corretamente) que seja apenas uma província da China. Taiwan abriu mão, porém, de defender a tese da "Uma China", acatando, na prática, a realidade de que a China Continental dificilmente será "reconquistada" por Taiwan. Na prática, agora, depois de os Estados Unidos haverem abandonado a tese, Taiwan defende a tese das "Duas Chinas"…

Como dito atrás, a política americana em relação a Taiwan tem sido extremamente ambígua. Os Estados Unidos não querem reconhecer que Taiwan seja apenas uma província da China — e, nisso, agradam a Taiwan e desagradam à China. Ao apoiar Taiwan até mesmo militarmente, vendendo-lhe armas, os Estados Unidos também agradam a Taiwan e desagradam à China. 

Por outro lado, o preço desse apoio é exigir de Taiwan que não perturbe o estável equilíbrio político da região, reivindicando, por exemplo, o reconhecimento (pelas Nações Unidas e pelos próprios Estados Unidos) de sua independência e autonomia política — isto é, de sua soberania como país e nação.

Como disse atrás, o atual presidente de Taiwan, Chen Shui-bian, tinha, quando candidato, uma plataforma que parecia ser favorável ao reconhecimento da independência de Taiwan, algo que era extremamente preocupante para os Estados Unidos.

Assim, provavelmente sob pressão dos Estados Unidos, Chen Shui-bian, em seu primeiro discurso de posse, em 20 de Maio de 2000, fez uma promessa, que passou a ser conhecida como "Os Quatro Nãos" ("The Four Noes"). Essa promessa era de que Taiwan se comprometia com as seguintes quatro diretrizes negativas (donde os Quatro Nãos), DESDE QUE a China não demonstrasse intenção de usar força militar contra o país. São essas as diretrizes: 

* Não declarar a independência de Taiwan

* Não alterar o nome do país de "The Republic of China" para "The Republic of Taiwan"

* Não incluir na Constituição de Taiwan a doutrina de que Taiwan é livre para manter relações diplomáticas com outros países

* Não promover referendos acerca da independência ou, alternativamente, acerca da reunificação com a China.

O presidente taiwanês fez uma promessa adicional, chamada, esquisitamente, de "O Um Sem" ("The One Without" — o nome inteiro das promessas sendo "The Four Noes and the One Without"). Segundo essa promessa, o presidente se comprometia a n
o abolir um conselho que havia em Taiwan chamado de Conselho Nacional de Unificação, nem as diretrizes aprovadas para esse conselho, chamdas de Diretrizes Nacionais de Unificação. O que se chama de Unificação aí seria a reunificação de Taiwan com a  China.

Bom, tendo prometido isso, o presidente taiwanês, sem formalmente abolir o Conselho, nunca convocou uma reunião dele. Formalmente, estava cumprindo a promessa. Na prática, é uma questão discutível.

Depois de assumir seu segundo mandato, Chen Shui-bian, provavelmente se sentindo fortalecido pela re-eleição, eliminou, em 27 de Fevereiro de 2006, o orçamento (já magro) do referido Conselho — colocando a pá de cal final nele. Houve protestos da China e dos Estados Unidos, naturalmente.

Chen Shui-bian se defendeu de forma ambígua, como sempre.

De um lado, insistiu que o Conselho não havia sido formalmente extinto. Deixar um órgão sem verba orçamentária não é, stricto sensu, extingui-lo formalmente. Como o Conselho não vinha se reunindo, não precisava de verba. (Mais recentemente o presidente admitiu que o corte das verbas equivale, na prática, a uma extinção).

De outro lado, o presidente não hesitou em lembrar os Estados Unidos de que a China vinha procurando, de várias maneiras, amedrontar Taiwan — militarmente ou não. Eis algumas medidas tomadas pelo governo da China Continental que Taiwan considerou como amedrontadoras: 

* Aprovou, em 2005, legislação que proíbe a secessão de suas províncias;

* Dispôs mísseis que apontam para Taiwan ao lado do Estreito de Taiwan;

* Realizou exercícios militares agressivamente ostensivos no Estreito de Taiwan.

Com a lembrança desses fatos (de resto, inegáveis) o presidente parecia estar afirmando que Taiwan não tinha mais a obrigação de cumprir "Os Quatro Nãos e o Um Sem"…

Os Estados Unidos, por seu lado, que já estavam preocupados com o fato de que Chen Shui-bian não repetiu a promessa em seu segundo discurso de posse, em 2004, começaram a demonstrar certa irritação com a "desorçamentação" do Conselho e insistiram que "apreciam muito o compromisso de Chen e o tomam muito seriamente" (sugerindo assim que, apesar de não ter sido repetida, a promessa do presidente continuava válida…).

Durma-se com um barulho desses.

Chen Shui-bian tem se mostrado um mestre da ambigüidade. Ele agora vem anunciando que fará um referendo nacional, não sobre a independência de Taiwan ou sua reunificação com a China, pois nesse caso estaria afrontando os Quatro Nãos, mas sobre a reinserção de Taiwan nas Nações Unidas.

A China tem protestado e os Estados Unidos (compreensível, embora não, em minha opinião, justificadamente), mais ainda. Vide o artigo sobre a questão em The China Post, jornal taiwanês, que transcrevo adiante. A última coisa que os Estados Unidos querem, no momento, é que a China invada Taiwan militarmente e os Estados Unidos sejam obrigados a intervir militarmente no conflito.

Embora, como disse, considere a posição dos Estados Unidos compreensível, dada uma história que não é possível mudar, dado o que me parece ter sido o erro político de 1971, acho-a indefensável sob qualquer outro aspecto que não o puramente pragmático.

Taiwan (como bem assinala Matt Rosenberg em artigo que também transcrevo abaixo) é um país de facto independente — e, é preciso acrescentar, democrático. Não depende da China em nenhum aspecto (sendo, na verdade, uma pequena potência econômica), tem sua Constituição, elege seu presidente e seus demais dirigentes, a mantém plenas relações diplomáticas com vários países, para crédito deles (apesar de serem todos eles pequenos e sem grande poder político ou de pressão nas Nações Unidas).

Como já disse, o Brasil, que tem tentando, sob o governo Lulla, demonstrar independência em relação aos Estados Unidos em sua política externa, vergonhosamente segue os Estados Unidos fielmente neste caso: não reconhece a independência e a autonomia de Taiwan, embora, como os Estados Unidos, acolham um Escritório Econômico Cultural do país, que faz as vezes de sua embaixada, em que fica na Av. Paulista, em São Paulo — onde eu obtenho meus vistos quando venho para cá. 

Está na hora de o Brasil rever essa política, mesmo que os Estados Unidos não o façam. Independente, Taiwan já é. Na prática, o Brasil já reconhece essa independência (como o fazem os Estados Unidos). Basta só ter coragem de reconhecer essa independência formal e publicamente.

Há um site de apoio à reinserção de Taiwan nas Nações Unidas no qual pode apoiar essa legítima pretensão:

http://www.gopetition.com/online/6889.html

Em Taiwan, 30 de Agosto de 2007

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APÊNDICES

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http://www.infoplease.com/spot/taiwantime1.html

Site: Infoplease

Taiwan Timeline

1988

Jan. 13

President Chaing Ching-kuo, the eldest son of Chiang kai-shek and former defense minister and premier, dies and is succeeded by Lee Teng-hui, the country’s first native-born president.

1991

Dec.

The ruling Kouomintang regime wins 71% of the vote in national elections and defeats the Democratic Progressive Party, which advocated Taiwan’s independence, in the battle for seats in Taiwan’s National Assembly.

1995

June 7–11

Taiwan president Lee Ten-hui visits the United States as an alumnus of Cornell University.

1996

March

China launches what it calls "military exercises" in the ocean near Taiwan on the eve of the country’s first free presidential elections. Taiwan and the U.S. consider the exercises an act of intimidation by China and the U.S. responds by sending a fleet of naval reinforcements to the area in what would be the biggest U.S. envoy in Asia since the Vietnam War. Incumbent President Lee wins the election, garnering 54% of the vote.

1997

July 1

Hong Kong, a former British colony, is reverted to Chinese rule.

1998

June–July

U.S. President Bill Clinton visits mainland China. At a seminar to discuss China’s future Clinton embraces the "three no’s" policy: no "two Chinas", no independence for Taiwan, and no membership for Taiwan in international organizations that require statehood for membership.

1999

July

Taiwan President Lee says in a German radio interview that China and Taiwan should deal with each other on a "state-to-state" basis, implying that Taiwan is moving towards a formal declaration of independence. Chinese officials responds to Lee’s statement a day later, saying that it was "a monumental disaster."

Dec. 20

Macau, a former Portuguese territory on the Chinese coast is reverted to Chinese rule.

2000

Feb. 2

China protests the passage of the Taiwan Security Enhancement Act in the U.S. House of Representatives. The bill (approved 341 to 70) seeks more direct military communications between American and Taiwanese forces, expanded American training of Taiwan’s officers and an annual report on Taiwan’s security. Clinton Administration officials voice their disapproval of the bill as well, calling it dangerous to the security of the Taiwan Strait.

Feb. 21

China issues a White Paper warning more explicitly than before that Taiwan’s further heel dragging on reunification—let alone any declaration of independence–could force China to take "drastic measures."

Mar. 18

Taiwan holds its second free presidential elections in history. Voters elect pro-independence candidate Chen Shui-bian of the Democratic Progressive Party, ending more than 50 years of Nationalist rule of Taiwan. China states in response that it will be keeping a close eye on Chen and reiterates that "Taiwan independence, in whatever form will never be allowed.”

June 20

During his first news conference since being innaugurated on May 20, Taiwan President Chen Shui-bian invites Chinese President Jiang Zemin to join hands at a summit for peace. Chen says he was inspired by the historic agreement signed by North and South Korea on June 15 to work towards reunification. Chinese officals respond coldly to the invitation, re-iterating the country’s long-standing policy that Taiwan accept the "one China" principle before any talks can begin.

2001

April 24

President George W. Bush approves the largest package of arms sales to Taiwan in nearly a decade. China responds with a formal protest. White House officials stress that the sale is in response to recent Chinese military buildup in the area, and that it has nothing to do with a recent standoff over the detained crew of a U.S. Navy surveillance plane that collided with a Chinese fighter jet (Apr. 1). China’s ambassador warns that U.S.-China relations are "at a crossroads."

Oct. 20—21

China chooses not to invite Taiwan to the Asia-Pacific Economic Cooperation (APEC) meeting in Shanghai. A press conference before the event becomes a bickering match when a Chinese official prevents Taiwan’s representative from speaking.

Nov. 7

Taiwan eases restrictions for business that wish to invest in companies on mainland China. Although many businesses had already found loopholes in these 50-year-old policies, economists hope that the rollback will boost Taiwan’s slumping economy and speed up the integration of the economies of Taiwan and China, which are expected to join the World Trade Organization later this month.

Nov. 11

Representatives of the World Trade Organization make Taiwan an official member at a meeting in Doha, Qatar, one day after China is unanimously admitted.

Dec. 1

Parliamentary elections are held in Taiwan. The Democratic Progressive Party (DPP) wins enough seats to replace the Kuomintang (KMT) as the largest party in Taiwan’s legislature. KMT nationalists had controlled the legislature since it fled from mainland China to the island in 1949.

2003

Nov. 27

Taiwan’s parliament approves a bill allowing for national referendums.

Dec. 6

President Shui-bian announces plans for a March 20 referendum that would call on China to remove hundreds of missiles pointed at Taiwan and renounce intentions to use force against the island.

Dec. 8

China, alarmed that the referendum was a veiled call for Taiwan’s independence, condemns it as dangerously provocative. It reaffirms its "one China" policy, viewing Taiwan as a breakaway province that can never become independent.

Dec. 9

President Bush, anxious to maintain good relations with China, issues a sharp rebuke of Taiwan, urging it to maintain the "status quo" and abandon the referendum. Historically, the U.S. has pledged to defend Taiwan should it be attacked by China, but Washington is now angered by what it saw as Shui-ban’s needlessly provocative stance. One of Bush’s aids comments, the President "isn’t shopping around for another international crisis."

Dec. 10

Shui-bian stands firm, asserting that "referendum is a normal practice in democratic countries and is the basic right of the people which they cannot be deprived of." He insists that "Taiwan people have the right to say loudly that they oppose missiles and are for democracy."

Dec. 16

Taiwan’s national legislature approved two resolutions of varying severity, one calling on China not to deploy any more missiles aimed at Taiwan and the gradual removal of its existing missiles, the other demanding the immediate removal of the missiles.

2004

Jan. 16

Taiwan yields somewhat to U.S. pressure and tones down the scehduled referendum. Instead of demanding removal of the Chinese missiles aimed at Taiwan, voters will be asked whether Taiwan should arm itself with additional defensive weapons against China if China does not withdraw its missiles. The second referendum will ask whether Taiwan should have open negotiations with China. China, which considers any type of referendum concerning Taiwan-China relations threatening, is not reassured by the changes.

March 19

President Chen Sui-bian and Vice President Annette Lu survive an assassination attempt the day before presidential elections and voting on two controversial referenda. The elections pit incumbent Chen, a strong advocate of a more independent relationship with mainland China, against Lien Chan, whose stance is far more conciliatory.

March 29

Chen very narrowly won the election over Lien Chan, who demanded a recount. The referendum failed due to low response—although 80% of eligible voters turned out for the presidential election, only 45% voted in the referendum and 50% were needed.

May 18

Election officials announce the recount has been completed, although almost 40,000 ballots remain in dispute. About 23,000 of the ballots were cast for Chen, while 16,000 went to Lien Chan. Chen will be inaugurated on May 20 as planned, but the High Court must still rule on the disputed votes.

2005

Feb. 1

Frank Hsieh is sworn in as prime minister.

March

Tension between China and Taiwan intensifies, when China passes an anti-secession law that says the country can use force if Taiwan moves toward achieving independence. "The state shall employ non-peaceful means and other necessary measures to protect China’s sovereignty and territorial integrity," the legislation says. Taiwan president Chen Shui-bian calls the bill a "law of aggression."

April

Lien Chan, who heads the opposition Nationalist Party, traveled to China and met with President Hu Jintao. It was the first meeting between Nationalist and Communist Party leaders since 1949, when the defeated Nationalists retreated to Taiwan.

2006

Feb.

President Chen tested China in February 2006, when he announced that he was rescinding the National Unification Council, a group that was established in 1990 to deal with reunification issues with China. He stopped short of abolishing the council, saying, "Taiwan has no intention of changing the status quo."

June

Taiwan’s legislature initiated proceedings to oust President Chen because of allegations of corruption involving his family and senior administration officials, but the motion failed later that month.

2007

May

Prime Minister Su Tseng-chang resigns. President Chen Shui-bian appoints Chang Chun-hsiung as his successor.

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http://www.chinapost.com.tw/news/2007/08/29/120284/Push-for.htm

The China Post
29 August 2007

Push for United Nations entry’a mistake’: Negroponte

Wednesday, August 29, 2007 – The China Post staff and agencies

U.S. Deputy Secretary of State John Negroponte expressed the American opposition to President Chen Shui-bian’s push for holding a referendum on Taiwan’s U.N. membership bid under the name of Taiwan, calling the move "a mistake" that could affect regional stability and escalate tensions.

"We oppose the notion of that kind of a referendum because we see that as a step towards…a declaration of independence of Taiwan, towards an alteration of the status quo,"

Negroponte said Monday in an interview with the Hong Kong-based Phoenix TV.

The remarks were the harshest from a senior U.S. official since Chen expressed the wish early this year to hold an islandwide referendum on the government bid to rejoin the United Nations.

Over the weekend, Chen defiantly rejected again any U.S. intervention in the referendum move during a trip to Central America.

Washington has repeatedly warned Taiwan against making unilateral moves to change the fragile status quo in the Taiwan Strait, fearing a clash or a full-fledged war with China could soon involve the U.S.

"So when we talk about the situation in regard to Taiwan, we talk about Taiwan in the context of a great friendship. But when it comes to this issue of a referendum as to whether or not Taiwan join the United Nations in the name of Taiwan, we do have great concerns," Negroponte said.

"We consider (the Taiwan referendum) to be a mistake," Negroponte said. "This is a time for the authorities in Taiwan to behave in a responsible manner…not disturbing the situation across the Taiwan Strait."

In the interview with Phoenix Star TV, Negroponte was also asked whether the U.S. will downgrade its economic or military cooperation with Taiwan if Taiwan continues to push for the referendum.

"I wouldn’t want to get into that kind of a hypothetical discussion at this particular time. But what I would like to emphasize is that we believe it’s important to avoid any kind of provocative steps on the part of Taiwan," Negroponte replied.

Chen’s ruling Democratic Progressive Party (DPP) plans to hold a mass rally in southern Kaohsiung City on Sept. 15 to motivate the public to support the U.N. referendum as well as the party’s candidates in the upcoming legislative and presidential races.

To counter the DPP tactic to utilize the U.N. referendum issue in the forthcoming crucial elections, the opposition Kuomintang (KMT) is seeking a counterpart referendum to let people express their wishes without insisting on rejoining the U.N. under the name of Taiwan.

The KMT is also organizing a separate rally, also on Sept. 15, in Taichung City of central Taiwan to help defuse the push for "Taiwan independence" in DPP rallies.

Chen did not give an immediate response to Negroponte’s comments and advice.

But Minister of Foreign Affairs James Huang voiced regret about what he called the U.S.’s misinterpreting Chen’s referendum plan to join the U.N. in the name of Taiwan as a step promoting Taiwan independence or changing the status quo across the Taiwan Strait.

Huang made the remarks in Managua City, capital of Nicaragua, where he is accompanying President Chen on a state visit to the Central American country.

The foreign minister said he could not figure out why Negroponte made such remarks.

Holding a referendum is a purely domestic affair, a core value of democracy and the most democratic and peaceful way for the public to express its opinion, he said.

"Both Taiwan’s ruling and opposition camps are in favor of holding a referendum on Taiwan’s U.N. cause," he said.

Stressing that holding such a referendum is only meant to allow the public to directly express its desire for the country to participate in the U.N., Huang said the move will neither break the "four noes" pledges made by Chen in his 2000 and 2004 inauguration speeches nor contribute to a change in the cross-strait status quo.

"We regr
et the U.S. misinterpretation of our referendum plan," Huang added.

Ministry of Foreign Affairs (MOFA) spokesman Wang Chien-yeh said in Taipei that the U.N. referendum has nothing to do with changing the country’s official title or changing the status quo across the Taiwan Strait.

"Taiwan’s U.N. bid referendum plan is not a provocative move and does not target any particular side," Wang said, arguing that "it is only a method to allow the people to directly vote on the country’s participation in the U.N."

Stating that the government understands why the U.S. is concerned about Taiwan’s plan to hold a referendum on its U.N. bid, Wang expressed the hope that the U.S. could better understand the situation in Taiwan.

He said that MOFA will continue seeking to exchange views and step up communication with the United States on the referendum issue.

DPP lawmakers brushed aside U.S. opposition to the referendum, saying the U.S. is not qualified to be a world leader if it takes the same stand with China to oppose the referendum to join the U.N. in the name of Taiwan.

It is extremely important to demonstrate the will of the people, they said.

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http://en.wikipedia.org/wiki/Four_Noes_and_One_Without

The Wikipedia (English)

Four Noes and One Without

The Four Noes and One Without, also known as the Four Noes is a pledge by President of the Republic of China Chen Shui-bian made in his inauguration speech on 20 May 2000 concerning the political status of Taiwan. It has been an important part of cross-straits relations.

Provided that the People’s Republic of China has no intention to use military force against Taiwan, Chen’s administration promises not to do the following things (the "Four Noes"):

* declare Taiwanese independence,

* change the national title from "the Republic of China" to "the Republic of Taiwan",
* include the doctrine of special state-to-state relations in the Constitution of the Republic of China, or

* promote a referendum on unification or independence.

In addition, the "One Without" was that Chen pledged not to abolish the National Unification Council or the National Unification Guidelines though during his administration the National Unification Council has not met once. On February 27, 2006, the Council ceased to function in tandem with the elimination of its already meager budget. Chen said that his decision did not change the status quo in the Taiwan Strait, but instead returned sovereignty to the people of Taiwan.

The Four Noes and One Without have become an important part of ROC-U.S. relations. Several times, Chen has had to reassure the United States that the Four Noes and One Without policy has not been abolished and that he is not attempting to circumvent the pledge via some of the loopholes that have been suggested. The phrase that the United States used with regard is that the United States "appreciates Chen’s pledge and takes it very seriously."

Policy revision

On 27 February 2006, Chen dismantled the National Unification Council and Guidelines saying they "will cease functioning and the budget no longer be appropriated", effectively breaking the promises made in 2000 if ‘cease functioning’ is considered to be synonymous with ‘abolishing’.

However, as the People’s Republic of China has threatened to use military force against Taiwan by passing the Anti-Secession Law in March 2005 and continuing the buildup of missiles opposite the Taiwan Strait, the no intent of aggression provision may have long been violated. It is noteworthy that the 2004 referendum called by President Chen Shui-bian held in tandem with the presidential election used the ‘emergent threat’ stipulation in Taiwan’s Referendum Law, thereby implying the provision had already been breached by China’s imminent threat and missile buildup. Nevertheless, this move drew sharp rebuke from the United States, with the State Department insisting that the Taiwanese government clarify that the National Unification Council has not been abolished. However, in a TV interview days later, Chen stated that ‘ceasing to function’ is the same as having been ‘abolished’.

In the week prior, he told U.S. Congressman Rob Simmons (R-CT) that the Council and Guidelines were "absurd products of an absurd era." Chen has revealed he planned to draft a new constitution, which many conjectured would be pro-separatist, before he steps down in 2008.

The Four Noes and One Without policy was officially replaced by Four Wants and One Without policy in 2007, which is essentially the opposite of the original Four Noes and One Without policy.

Criticism

Koo Kwang-ming and other pro-independence leaders openly criticized that Chen, as president, is "not constitutionally authorized" and has "no legal power" to confine Taiwanese political future and freedom with the pledge. In addition, some of Chen’s supporters such as Vice-President Annette Lu have suggested that the pledge may have loopholes such as the definition of military force. Furthermore, while the pledge stated that Chen would not support a referendum, some have suggested that it does not exclude the possibility of a referendum occurring by citizen initiative. The possibility of loopholes has occasionally led to considerable unease in Beijing and in Washington, D.C.

Under strong objection from pro-independence leaders and his supporters, who threatened to walk out the inauguration ceremony immediately once the pledge was recited, Chen did not explicitly repeat this pledge in his 2004 inauguration speech after his re-election though he alluded to the pledge by stating that the assurances he had given in the 2000 inaugural address remained in effect, and he has stated many times that the pledge remains in effect.

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http://geography.about.com/cs/countries/a/numbercountries.htm

The Number of Countries in the World
From Matt Rosenberg,
Your Guide to Geography.
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May 9 2007

By Most Accounts, 194 is the Correct Answer

A very frequent geographical question is "How many countries are in the world?" Different numbers pop up when one inquires or reads about the number of countries in the world. Each source you use often yields a different answer. Ultimately, the best answer is that there are 194 countries in the world.

United Nations.

There are 192 members of the United Nations. Unfortunately, the number 192 is too often used to represent the number of countries in the world. Although this number represents almost all of the countries in the world, there is still one globally recognzed independent country, the Vatican City, that is independent and has chosen not to become a member of the U.N. so 192 is not the number of countries in the world.

U.S. Department of State

The United States’ State Department recognizes 193 independent countries around the world. Their list of 193 countries reflects the political agenda of the United States of America and its allies. Missing from the State Department’s list is one entity that may or may not be considered a country, depending on who you talk to.

The One Outsider

Taiwan meets the requirements of independent country or state status. However, due to political reasons, it fails to be recognized by the international community as independent. Nonetheless, it should be considered as independent.

Taiwan was actually a member of the United Nations (and even the Security Council) until 1971, when mainland China replaced Taiwan in the organization. Taiwan continues to press for full recognition by other countries, to become "part of the club" and fully recognized worldwide but China claims that Taiwan is simply a province of China.

Thus…

Your Guide considers there to be 194 countries in the world, which is probably the best current answer to the question, "How many countries are in the world?"

However…

Recognize that there are dozens of territories and colonies that are sometimes erroneously called "countries" but don’t count at all – they’re governed by other countries. Places commonly confused as being countries include Puerto Rico, Bermuda, Greenland, Palestine, Western Sahara, and even the components of the United Kingdom (such as Northern Ireland, Scotland, Wales, and England – they’re not fully independent countries, states, or nation-states).

"…Não sobra um, meu irmão…"

Todos nós sabemos como começa a frase (parte de um sambinha conhecido) cujo final é o título desta matéria.

Como este blog acompanhou as denúncias, no início das revelações feitas pelo ex-Deputado Roberto Jefferson, não posso deixar de registrar a importância histórica do dia de hoje: 28 de Agosto de 2007. Por coincidência, mais um dia de Agosto que ficará marcado na históriao da política brasileira: o dia em que os quarenta companheiros de Ali Babá foram formalmente transformados em réus.

Só faltou o próprio Ali Babá, como bem observou quem, ainda que por razões espúrias, tenha levantado o tapete que estava escondendo esta sujeira. 

O Supremo deu, com sua decisão, um certo alento ao brasileiro — e jogou um balde de água fria nos que esperavam que todos, ou a maioria, escaparia do processo.

São réus, não foram condenados ainda. Mas esse fato em si já é importante. Vão gastar milhões de reais (deles mesmos?) para se safar da condenação. Mas alguns inevitavelmente serão condenados.

Estão lá: José Dirceu, Luiz Gushiken, João Paulo Cunha, José Genoíno, Delúbio Soares, Sílvio Pereira, Professor Luizinho, e outros — até há pouco a mais fina flor do PT.

Mas, além dos "quarenta" da quadrilha estarem com processos abertos, são importantes alguns simbolismos. Há uma "Anita Leocádia" na lista… Ninguém perpetraria esse nome à filha se não fosse comunista. E há um que se orgulha de rotular com professor o seu apelido popular de Luizinho. Professor de quê seria ele, alguém sabe?

Transcrevo abaixo matéria do UOL Notícias, apenas colocando os nomes dos réus em ordem alfabética.

De Taiwan, mas atento.

Em Taichung, TW, 28 de Agosto de 2007

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Retirado do UOL – Últimas Notícias – http://noticias.uol.com.br/ultnot/2007/08/28/ult23u530.jhtm

28/08/2007 – 14h40

STF torna todos os 40 acusados do mensalão réus

Da redação

Em São Paulo*

OS RÉUS NO SUPREMO E OS CRIMES DE QUE SÃO ACUSADOS

O STF (Supremo Tribunal Federal) recebeu nesta terça-feira (28), por unanimidade, as denúncias de lavagem de dinheiro e evasão de divisas contra o publicitário Duda Mendonça e sua sócia, Zilmar Fernandes. Com a decisão, e depois de cinco dias de julgamento, o Supremo tornou réus em ação penal todos os 40 acusados de envolvimento no caso do ‘mensalão’ (suposto esquema de desvio de dinheiro público e de compra de apoio político no Congresso).

O Supremo também recebeu a denúncia de evasão de divisas contra Marcos Valério, Cristiano de Mello Paz, Ramon Hollerbach, Simone Vasconcelos, Geiza Dias, Kátia Rabello, José Roberto Salgado e Vinícius Samarane. Rogério Tolentino e Ayanna Tenório não responderão por este crime.

Lavagem e evasão

Duda e Zilmar são acusados de ter usado uma conta aberta no exterior em nome da empresa Dusseldorf exclusivamente para receber recursos das agências de publicidade de Marcos Valério como pagamento de serviços prestados ao PT nas eleições de 2002. No total, Duda teria recebido R$ 15,5 milhões de Marcos Valério, a maior parte (R$ 10,8 milhões) por meio da conta no exterior.

"Existem fortes indícios de que pessoas jurídicas foram usadas por Duda e Zilmar para encobrir atos ilícitos", declarou o ministro do STF Joaquim Barbosa, relator do processo no tribunal, ao ler o voto no qual aceitou a denúncia de evasão de divisas.

Segundo Barbosa, Marcos Valério teria feito 27 repasses de dinheiro ao exterior. Para transferir o dinheiro, disse o relator, as remessas foram feitas por meio de dirigentes do Banco Rural e de doleiros. "O próprio Marcos Valério confirmou esses repasses durante as investigações", disse.

Formação de quadrilha

Por maioria de votos, o STF também recebeu nesta terça a denúncia de formação de quadrilha contra o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Na segunda-feira, o Supremo já havia tornado Dirceu réu do crime de corrupção ativa. O mesmo não aconteceu com a denúncia de peculato, da qual o ex-ministro havia escapado na sexta-feira.

O tribunal também aceitou a denúncia de formação de quadrilha contra o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, o ex-presidente do partido José Genoino e o ex-secretário geral do partido Silvio Pereira. Este último tornou-se réu no processo pela primeira vez, tendo antes escapado das denúncias de peculato e corrupção ativa durante o julgamento.

Com exceção de Ricardo Lewandowski, os demais ministros do STF votaram a favor do recebimento da denúncia de formação de quadrilha contra Dirceu. Em relação a Delúbio e a Silvio Pereira, a decisão foi unânime. Os ministros Eros Grau e Ricardo Lewandowski rejeitaram a denúncia contra Genoino, que foi aceita pela maioria dos ministros.

Segundo o relator Barbosa, não restaram dúvidas na denúncia do procurador-geral Antonio Fernando de Souza de que Dirceu foi o "principal articulador da engrenagem do esquema, garantindo-lhe o sucesso". "Ele (Dirceu) tinha o domínio funcional de toda a sistemática de transferência ilegal de recursos a parlamentares", salientou o relator.

Também por formação de quadrilha, o STF decidiu abrir processo nesta terça contra Marcos Valério, Cristiano de Mello Paz, Ramon Hollerbach, Rogério Tolentino, Simone Vasconcelos, Geiza Dias, Kátia Rabello, José Roberto Salgado, Ayanna Tenório e Vinícius Samarane.

Falsidade ideológica

O tribunal não recebeu a denúncia de falsidade ideológica contra Marcos Valério hoje pela manhã. Segundo o relator, o argumento da procuradoria de que o publicitário deixou formalmente, em 1999, o quadro social da empresa SMP&B e, a partir de então, utilizava sua mulher, Renilda, como testa-de-ferro nas negociações, não se sustenta, uma vez que Marcos Valério continuou atuando na empresa por meio de procuração lícita.

Entre os ministros, Carlos Ayres Britto foi o único a aceitar a denúncia. "A verdade sempre se dá num contexto. E é nisso que sustento que o fato de ter se retirado da empresa representa o crime, e não mera coincidência. A exclusão dele mascara uma realidade", afirmou ao fazer seu voto, que foi vencido pelos demais ministros.

Todos réus

O Supremo tornou todos os 40 acusados no esquema do mensalão réus no inquérito. Na segunda-feira, o STF havia autorizado a abertura de processo contra políticos e membros dos partidos da base aliada do governo Lula — PP, ex-PL, PTB e PMDB.

Na sexta-feira, o STF recebeu denúncia contra o ex-ministro de Comunicação e Gestão Estratégica da Presidência da República Luiz Gushiken, que vai responder a processo por peculato, e também contra o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e peculato.

No mesmo dia
, os ministros aceitaram por unanimidade as denúncias contra o deputado federal Paulo Rocha (PT-PA), sua assessora parlamentar Anita Leocádia, o ex-deputado federal João Magno (PT-MG), o ex-deputado Professor Luizinho (PT-SP), o ex-ministro dos Transportes e atual prefeito de Uberaba (MG) Anderson Adauto e contra seu ex-chefe de gabinete, José Luiz Alves, por lavagem de dinheiro.

"Antes de mais nada, é preciso que os cidadãos desta República tenham direito a um governo honesto, tenham direito a legisladores probos, administradores honestos e a juízes incorruptíveis. O resultado do julgamento vai traduzir essa mensagem: ninguém, ninguém, está acima das leis da República", disse depois da sessão de segunda-feira o ministro Celso de Mello, mais antigo membro do tribunal.

O ministro Marco Aurélio Mello calcula que o STF levará dois anos e meio para julgar a ação penal do mensalão.

Matéria atualizada às 18h45

OS RÉUS NO SUPREMO E OS CRIMES DE QUE SÃO ACUSADOS

Anderson Adauto (ex-ministro dos Transportes) – lavagem de dinheiro e corrupção ativa

Anita Leocádia (assessora parlamentar) – lavagem de dinheiro

Antônio Lamas (ex-tesoureiro do PL) – lavagem de dinheiro e formação de quadrilha

Ayanna Tenório – (ex-vice-presidente do B. Rural) – gestão fraudulenta de instituição financeira, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha

Bispo Rodrigues (ex-deputado federal do PL-RJ) – corrupção passiva e lavagem de dinheiro

Breno Fischberg (empresário) – formação de quadrilha e lavagem de dinheiro

Carlos Alberto Quaglia (empresário) – formação de quadrilha e lavagem de dinheiro

Cristiano Paz (publicitário) – corrupção ativa, peculato, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e evasão de divisas

Delúbio Soares (ex-tesoureiro do PT) – corrupção ativa e formação de quadrilha

Duda Mendonça (publicitário) – lavagem de dinheiro e evasão de divisas

Emerson Palmieri (ex-tesoureiro do PTB) – corrupção passiva e lavagem de dinheiro

Enivaldo Quadrado (empresário) – formação de quadrilha e lavagem de dinheiro

Geiza Dias (ex-auxiliar da diretoria das empresas de Valério) – lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e evasão de divisas

Henrique Pizzolato (ex-diretor do BB) – peculato (2x), corrupção passiva e lavagem de dinheiro

Jacinto Lamas (ex-tesoureiro do PL) – corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha

João Cláudio Genu (ex-assessor do PP) – corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha

João Magno (ex-deputado federal PT-MG) – lavagem de dinheiro

João Paulo Cunha (deputado federal pelo PT-SP) – corrupção passiva, lavagem de dinheiro e peculato

José Borba (ex-deputado federal pelo PMDB-PR) – corrupção passiva

José Dirceu (ex-ministro da Casa Civil) – corrupção ativa e formação de quadrilha

José Genoino (ex-presidente do PT) – corrupção ativa e formação de quadrilha

José Janene (ex-deputado federal, PP-PR) – corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha

José Luiz Alves (ex-assessor de Anderson Adauto) – lavagem de dinheiro

José Roberto Salgado (ex-vice-presidente do B. Rural) – gestão fraudulenta de instituição financeira, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão de divisas

Kátia Rabello (ex-presidente do B. Rural) – gestão fraudulenta de instituição financeira, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão de divisas

Luiz Gushiken (ex-ministro) – peculato

Marcos Valério (publicitário) – corrupção ativa, peculato, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e evasão de divisas

Paulo Rocha (deputado federal PT-PA) – lavagem de dinheiro

Pedro Corrêa (ex-deputado federal, PP-PE) – corrupção corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha

Pedro Henry (deputado federal, PP-MT) – corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha

Professor Luizinho (ex-deputado federal PT-SP) – lavagem de dinheiro

Ramon Hollerbach (publicitário) – corrupção ativa, peculato, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e evasão de divisas

Roberto Jefferson (ex-deputado federal pelo PTB-RJ) – corrupção passiva e lavagem de dinheiro

Rogério Tolentino (advogado) – lavagem de dinheiro e formação de quadrilha

Romeu Queiroz (ex-deputado federal pelo PTB-MG) – corrupção passiva e lavagem de dinheiro

Silvio Pereira (ex-secretário geral do PT) – formação de quadrilha

Simone Vasconcelos (ex-diretora da SMPB) – lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e evasão de divisas

Valdemar Costa Neto (deputado federal pelo PR-SP) – corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha

Vinícius Samarane (ex-diretor do B. Rural) – gestão fraudulenta de instituição financeira, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão de divisas

Zilmar Fernandes (sócia de Duda Mendonça) – lavagem de dinheiro e evasão de divisas

AS PENAS

Corrupção ativa: prisão de 2 a 12 anos e multa

Corrupção passiva: prisão de 2 a 12 anos e multa

Peculato (específico de servidor público ou de quem se relaciona com ele): prisão de 2 a 12 anos e multa

Falsidade ideológica: prisão de 1 a 5 anos e multa

Lavagem de dinheiro: prisão de 3 a 10 anos e multa

Evasão de divisas: prisão de 2 a 6 anos e multa

Formação de quadrilha: prisão de 1 a 3 anos

[As penas podem ser agravadas pela repetição do crime. Alguns dos réus são acusados dezenas de vezes pelo mesmo crime neste inquérito. ]

Taiwan: engraxates, tocos de cigarro no chão, maus espíritos e outras amenidades

No domingo, quando visitei Taroko State Park, as trilhas estavam bem molhadas. Havia chuvido até por volta de 9h da manhã, e, além disso, as pedras da montanha vertem água por muito tempo, depois que chove. Assim, inevitavelmente sujei os meus sapatos.

Quando chegamos de volta à estação ferroviária, perguntei ao meu guia se haveria algum engraxate na estação para me limpar os sapatos. "Xi, ele disse… vai ser difícil. Mas vou procurar". Não encontrou. E me explicou a razão — mas, no fundo, eu já pressentia qual era a explicação.

Limpar os sapatos dos outros em locais públicos é uma daquelas atividades que não pode custar muito caro — porque, se custar, as pessoas em geral não recorrem a ela. O preço razoável, em quase todo lugar desenvolvido ou semi-desenvolvido, fica entre três e cinco dólares americanos ou euros. Algo que custa no máximo cerca de seis ou sete reais. É razoável pagar isso. Mas dificilmente alguém estaria disposto a pagar, digamos, vinte dólares, ou quarenta reais, por um "shoe shine". O teto do preço que pode ser cobrado, portanto, determina que apenas pessoas bastante pobres se dispõem a entrar nessa ocupação, ainda que temporariamente. Em sociedades desenvolvidas, ou em elevado processo de desenvolvimento, as pessoas, ainda que com pouca qualificação profissional, conseguem um emprego que pague melhor e/ou tenha um status social mais alto em alguma outra atividade. Assim, somem os engraxates. Como aqui.

Isso explica porque não há mendigos e pedintes nas ruas. Antes de pedir, eles seriam encaminhados para o exercício da profissão de engraxate… É mais digno, na cultura local, ganhar uns trocados limpando sapatos do que pedindo esmola. Mas, como não há mendigos e pedintes, não há engraxates.

Algumas sociedades desenvolvidas recorrem a imigrantes para esses serviços: nos Estados Unidos, latinos dos países mais pobres (os negros pobres em geral são orgulhosos e se recusam a exercer a profissão — ou o fazem de forma inadequada: um minuto e meio uma engraxada de três dólares, pela qual eles esperam guardar os dois dólares de troco); na Suiça, portugueses; na Alemanha, turcos. E assim por diante.

Esses países tradicionalmente desenvolvidos têm políticas de imigração que gerenciam o fluxo de imigrantes, em especial nos períodos de maior demanda (alta temporada turística, no caso da Suiça, época da colheita, no Sul dos Estados Unidos). Taiwan parece não ter essas políticas até agora (que eu saiba). Vai precisar ter, mas não sentiu a necessidade ainda. É complicado entrar no país. Para brasileiros, por exemplo, exige-se, para a obtenção de visto de entrada, mesmo como turista, cópia da declaração de Imposto de Renda, comprovação de emprego, três últimos holleriths, carta convite, passagem de volta, etc. Tudo para garantir que você não permanecerá aqui depois de expirado o período de permanência autorizado. E se dá o visto para apenas uma entrada, a menos que você consiga provar que precisa de mais de uma. 

Por isso, não há engraxates em Taiwan. Eles ainda não deixam entrar os imigrantes mais pobres que estariam disposto a fazer o trabalho por aquilo que seria razoável cobrar.

Sinal de desenvolvimento econômico.

Mas vi, aqui, também, sinais de desenvolvimento cultural.

O formulário de solicitação de visto explicita, em letras muito bem visíveis, que o crime de porte de droga em Taiwan é punível com a morte. Simples. Alguém se arriscaria a entrar num país desses com drogas na mala ou na bolsa? Um ou outro doido de vez em quando arrisca — mas acaba sendo preso, condenado e executado. Os inimigos da pena de morte que me desculpem, mas é muito difícil achar usuários de drogas aqui — e muito mais difícil ainda achar os traficantes.

Mas não é preciso ir tão longe.

Crimes (sic) como jogar papel de bala, chicletes ou qualquer outra sujeira na rua têm penalidades altas — e, por vezes, incorrem na penalidade adicional de perda do emprego (fato que tem um estigma social muito forte). Passar a mão numa moça ou encostar-se nela dentro do metrô, também é crime sério.

Desenvolvimento cultural.

Mas a lei já fez o seu trabalho e esses costumes saíram da tradição cultural. Sábado, cedo, quando eu esperava o guia na porta do hotel, vi um senhor, de uns 70 anos, bem vestido e digno, vindo pela rua. Ele viu um toco de cigarro, abaixo-se e pegou-o. Mas à frente, havia outro. Fez a mesma coisa. Carregou os dois tocos de cigarro consigo até encontrar uma lixeira, quando se livrou deles. Alguém havia violado a lei, jogando os tocos de cigarro no chão, provavelmente durante a noite. O ilustre cidadão assumiu a responsabilidade de deixar a rua limpa como ela deveria ter permanecido.

Desenvolvimento cultural ainda mais sofisticado do que o mero cumprimento de uma lei que pune severamente.

Ontem, antes de eu sair para Tainan, percebi uma estranha movimentação na frente do hotel em Taipei (The Tango). Funcionários de todos os escalões, até da cozinha, estavam reunidos na calçada, havia uma mesa com comidas, bebidas, incenso, bandeirolas, bem como um latão em que algo pegava fogo. Perguntei à recepcionista que havia ficado no balcão o que era aquilo. Ela deu um sorrizinho meio sem graça e disse que ontem era o dia de afugentar os maus espíritos na tradição chinesa. Eles usam incenso, porque os maus espíritos não gostam do cheiro bom do incenso. Eles disponibilizam comida e bebida para os espíritos maus, porque estes, apesar de maus, gostam de comer e beber bem. E a lata com coisas queimando, perguntei? Ali se queimava um dinheiro falso: era um jeito de dar uma graninha aos maus espíritos para eles ficarem longe até o ano seguinte. Se os maus espíritos não vierem pegar a comida e a bebida, perguntei, o que vocês fazem com ela?  Daí a gente come, ela me disse com um sorrisinho malandro…

Fiquei pensando com os meus botões… Se a gente conseguisse afugentar os maus espíritos da política brasileira com incenso e dinheiro falso seria uma beleza, não? Mas os espíritos maus brasileiros gostam de cheiros bons (especialmente no corpo de uma mulher) e de dinheiro verdadeiro, do bom, de preferência de origem estrangeira — e tudo por baixo do pano, nada aberto assim na calçada… Se a gente conseguisse exorcizar esses maus espíritos, quem sabe a gente conseguiria também, com o tempo, o desenvolvimento cultural e o conseqüente desenvolvimento econômico de nosso estuprado país?  

 Em Taipei, 28 de Agosto de 2007

Meu "Personal Tour Guide"

O nome de família dele é Mr. Hsu — pronunciado Mr. Shu. Descobri há algum tempo que o "h" antes do "s" em Chinês transliterado para caracteres latinos tem o mesmo som que teria se estivesse depois do "s". Mr. Shu, portanto, é como soa o seu nome — mas se escreve Mr. Hsu. Chung-Hsiang é o seu primeiro nome, ou nome dado. O segundo componente desse nome, mais uma vez, se pronuncia "Shiang". Ele foi, ontem e hoje (continuará sendo até daqui umas três horas), meu Personal Tour Guide. 

Sujeito simpático. O Inglês dele é razoável — a pronúncia, bem ruim. Mas tem bom vocabulário e entende bem o que lhe digo. Pessoalmente, é um cara legal. Bom, legal entre termos: para Personal Tour Guide está mais do que bom (da mesma forma que a Mônica Veloso, segundo o Zé Simão, depois que ele a viu pelada na Playboy, para o Renan, está mais do que boa).

Explico-me. Ele é, afinal de contas, um Tour Guide. Incorporou isso em sua essência humana. Trabalha para uma companhia de turismo, faz cinco anos. E leva a sério o seu trabalho. Tem 59 anos e é aposentado de um trabalho industrial como engenheiro de computação". Começou a trabalhar com turismo depois de se aposentar.  

Quando foi me apanhar no hotel ontem às 6h50 da manhã, carregava duas mochilas. Numa tinha coisas pessoas (afinal de contas, poderia ter de dormir em Hualien, se eu optasse por ficar mais um dia, como optei) e na outra tinha mapas e mais mapas e informações sobre pontos de interesse em Hualien e redondezas que ele compilou para mim, usando a Internet. Carregava também quatro garrafas de água, duas para ele e duas para mim. Já tinha as passagens do trem nas mãos e, como descobri depois, já tinha feito as reservas nos restaurantes onde comeríamos e no hotel em que eventualmente ficaríamos. Profissional ao extremo.

Ontem, cansei-me um pouco, com o roteiro e o calor — e a experiência do almoço não foi muito positiva, como já relatei (a comida, na verdade, estava, para o meu gosto, perto do insuportável). Assim quando, antes de rumar para o hotel, por volta das 18h30, ele queria ir direto para o restaurante, disse a ele que não estava com fome, estava cansado, e preferiria ir direto para o hotel. Ele não se conformou. A reserva no restaurante, segundo ele, já estava feita e paga por sua companhia: como poderia eu não ir? Disse a ele que havia viajado durante 45 horas nos dois dias anteriores, estava cansado, e preferiria ir para o hotel e ficar sem jantar. Só concordou porque não havia outro jeito. Afinal de contas, eu era o cliente a quem ele tinha de atender bem — caso contrário eu poderia reclamar para a Microsoft, que era a contratante, e ele estaria mal. Comprometeu-se, no entanto, a me levar a comida numa quentinha. Disse que não era preciso — mas ele insistiu e eu concordei. Felizmente, quem não concordou, fiquei sabendo mais tarde, foi o restaurante… Livrei-me de ter de jogar fora comida que, para os outros, seria muito boa.

Finalmente, fiquei livre dele para o dia, tirei uma soneca, acordei, escrevi meus blogs, dormi, acordei hoje cedo, tomei café e fui para o lobby trabalhar no computador, porque a Internet, no quarto, ainda estava kaput.

Hoje cedo, estava chovendo — relativamente forte. Às 9h nos encontramos no lobby. Ele havia comprado dois guarda-chuvas. Descobri que iríamos à praia (para ver e fotografar, não para entrar na água, felizmente). Eu indaguei se a praia seria um bom programa para uma manhã de chuva… Ele me respondeu, de uma forma inapelável: dia de chuva é que é melhor, pois há menos gente. Dito e feito: havia bem menos gente do que nós dois, simplesmente não havia ninguém mais. A praia era do mesmo tipo das outras que mencionei: em vez de areia branca e fina tem uma espécie de cascalho cinza meio grosseiro. Mas era bonita. O duro foi tirar fotografia com uma mão, segurando o guarda-chuva com a outra. Fiquei aliviado que não havia nenhum turista e, especialmente, nenhum nativo da cidade ali na praia. Se houvesse, iria pensar que éramos doidos de andar pela praia na chuva, totalmente vestidos, e com o guarda-chuva aberto…

Depois fomos para o Taroko State Park, o parque nacional mais famoso de Taiwan, pelo jeito, e que fica na cordilheira central que corta Taiwan de norte a sul. Felizmente a chuva parou e o tempo limpou rápido, porque o lugar é realmente lindo. Saindo do nível do mar, em pouco tempo se chega a picos muito altos. Os mais altos da cordilheira têm perto de 4 mil metros — mil metros mais altos do que o nosso Pico da Neblina, escondido lá perto da Venezuela.

O que mais me impressinou na montanha do parque foram as formações rochosas. A montanha é toda de rocha. E, dentre as rochas, a mais impressionante é o mármore. Fomos por uma estrada que segue ao longo de um rio, e o leito do rio parece ser totalmente de mármore, de várias cores. Uma coisa impressionante. A montanha está tombada: ninguém pode explorar mais o mármore que está ali, mas fico imaginando a riqueza que está ali à vista de todos. O canyon pelo que corre o rio parece ter sido cavado, como se fosse a golpes de picareta, por um terremoto em tempos imemoriais.

O parque é muito bem infra-estruturado. Há museus, lojas, banheiros muito bons, local para explicações às crianças acerca das rochas, da vegetação, do meio-ambiente, brincadeiras, etc. Mr. Hsu me comprou três DVDs: um sobre Taiwan, outro sobre Taipei e, finalmente, um sobre o Taroko State Park. Ele realmente leva o seu trabalho a sério.

Quando chegou cerca de quatro horas, ele ainda queria me mostrar mais algumas coisas (vilas aborígenes, etc.), mas eu disse a ele que "enough was enough". Ele custou a se conformar: ele ganha para ser tour guide e quer mostrar tudo o que conhece. Agora, aqui na estação de trem (lotadíssima), veio me dizer que iria comprar um lanche para eu comer no trem, porque iríamos chegar a Taipei só às 19h30. Disse a ele que era totalmente desnecessário, porque havia comido bem no almoço (o que foi verdade — falo disso já-já). Ele insistiu. Que tal um snack? Disse a ele que uma barra de chocolate seria OK. Saiu para procurar. Vi que comprou uma caixa de chocolate.

Mas preciso falar do almoço. Almoçamos num restaurante, na entrada do parque, administrado por aborígines e com comida mais no estilo dos aborígines do que dos aqui chamados "chineses étnicos" (os taiwaneses, eles próprios). Gostei bem mais do que da comida de ontem. Havia arroz, lula (calamare) frita, bambu cozido, "soy sauce", para tempero, e a infalível sopa (hoje de ostras — que não comi). Só, mas (tirante a sopa, que não provei, apesar de ter insistido três vezes) bom. A lula estava deliciosa, especialmente com o molho de soja, e os brotos de bambu estavam muito bons mesmos. Será que a gente acha pra comprar no Brasil e sabe como preparar?

Agora já estou no trem e ele está abrindo a caixa de chocolate. Quando saímos da van em que nos movimentamos ontem e hoje o dia inteiro, ele me observou que seria de bom tom dar uma gorjeta ao motorista, que dirigiu tão bem e foi tão cortês (e que era aborígine). Perguntei quanto seria razoável e ele me sugeriu 200 dólares taiwaneses (algo equivalente mais ou menos 6,50 dólares americanos). Dei o que ele sugeriu e o motorista pareceu ficar muito agradecido.

Bom, encerro aqui este capítulo sobre Hualien. Foi uma experiência interessante. Hoje tirei inúmeras fotos. Não me conformo que hoje cedo, ao tr
ansferir para o computador as fotos tiradas ontem, eu, destraídamente, as apaguei todas e, depois, dei um Undo que não funcionou. Perdi todas. Quase duzentas. Lamento principalmente as fotos do templo budista da Mestre Cheng Yen e as do festival aborígine (sobre o qual não cheguei a comentar, mas foi bonito). É isso. Fazer as coisas distraídamente dá nisso.

Em Hualien (o finzinho no trem de volta a Taipei),  26 de Agosto de 2007

Elevadores

O elevador aqui do hotel tem uma placa que diz: "Máximo de 15 pessoas ou 1000 kg"…

Para ter 15 pessoas com o total de 1000 kg, cada uma teria de pesar menos de 70 kg — algo não muito difícil aqui em Taiwan, onde as pessoas são pequenas e, em geral, magras. Nos  Estados Unidos, porém…

Mas quando desci agora há pouco, havia nove pessoas no elevador, das quais eu era, digamos, o maiorzinho — e não consegui ver como seria possível acomodar 15 ali…

Esses avisos de elevador sempre me causaram espécie. No Brasil, eles têm um aviso de que você é obrigado a verificar se o elevador está mesmo no andar, antes de entrar no elevador. Em apoio, cita-se a exigência de uma lei.

Estranha lei, essa.

Primeiro, porque não dá para entrar no elevador se ele não estiver no andar: na pior das hipóteses, você entra no poço.

Segundo, se você não cumprir a lei, qual  será a penalidade em que você incorre?

Em Hualien, TW, 27 de agosto de 2007

A formosa Taiwan (Formosa)

Faz mais de 50 anos que Taiwan existe, como uma realidade política inegável. O país é apenas dois anos mais novo do que as Nações Unidas, que, hipocritamente, insistem em negar-lhe o reconhecimento.

A China insiste que Taiwan é parte dela. Os britânicos já lhe cederam Hong Kong e os portugueses, Macau. Mas a China não está contente: quer Taiwan também. E como a China é uma potência, segundo vários critérios, populacionais e econômicos, quase todo mundo tem medo de ofender a ela — e, assim, vota contra as várias iniciativas que Taiwan tem feito para conseguir direito de cidadania na ONU.

Não tenho dúvida de que, não fossem os Estados Unidos, com sua força política, econômica e principalmente militar, Taiwan já seria parte da China — talvez uma parte meio qualificada, como Hong Kong e Macau (os chineses do continente precisam de visto para ir até Hong Kong e Macau). Não fossem os mesmos Estados Unidos, talvez Cingapura já tivesse se tornado parte da China também, ou, talvez, da Malásia, que está mais próxima.

Admiro os Estados Unidos por não permitirem isso (embora em 1971 os Estados Unidos, para agradar a China, tenha consentido que Taiwan ficasse fora das Nações Unidas, para poder endossar a entrada na China na organização, visto que a China só entrava se Taiwan fosse removida). Taiwan é um país independente da China há mais de meio século. Culturalmente, embora fale chinês, tornou-se uma cultura capitalista muito antes de a China. É uma potência econômica (e até mesmo militar). Só falta obter reconhecimento de sua realidade política autônoma e independente.

Vejam os artigos abaixo, de Matt Rosenberg, retirados de

http://geography.about.com/cs/politicalgeog/a/statenation.htm

http://geography.about.com/od/politicalgeography/a/taiwancountry.htm

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Country, State, and Nation: Definining an Independent Country

From Matt Rosenberg,
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While the terms country, state, and nation are often used interchangeably, there is a difference.

A State (note the capital "S") is a self-governing political entity. The term State can be used interchangeably with country.

A nation, however, is a tightly-knit group of people which share a common culture. A nation-state is a nation which has the same borders as a State.

States and Independent Countries

Let’s start with what defines a State or an independent country. An independent State:

  • Has space or territory which has internationally recognized boundaries (boundary disputes are OK).
  • Has people who live there on an ongoing basis.
  • Has economic activity and an organized economy. A country regulates foreign and domestic trade and issues money.
  • Has the power of social engineering, such as education.
  • Has a transportation system for moving goods and people.
  • Has a government which provides public services and police power.
  • Has sovereignty. No other State should have power over the country’s territory.
  • Has external recognition. A country has been "voted into the club" by other countries.

There are currently 192 independent countries or States around the world. Territories of countries or individual parts of a country are not countries in their own right.

Examples of entities that are not countries include: Hong Kong, Bermuda, Greenland, Puerto Rico, and most notably the constituent parts of the United Kingdom. (Northern Ireland, Wales, Scotland, and England are not countries.) [EC: Veja abaixo a discussão do caso de Taiwan].

A "state" (with a lower-case "s") is usually a division of a federal State (such as the states of the United States of America).

Nations and Nation-States

Nations are culturally homogeneous groups of people, larger than a single tribe or community, which share a common language, institutions, religion, and historical experience.

When a nation of people have a State or country of their own, it is called a nation-state. Places like France, Egypt, Germany, Japan, and New Zealand are excellent examples of nation-states. There are some States which have two nations, such as Canada and Belgium. Even with its multicultural society, the United States is also referred to as a nation-state because of the shared American "culture."

There are nations without States. For example, the Kurds are stateless people.

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Is Taiwan a Country? On Which of the Eight Criteria Does it Fail?

From Matt Rosenberg,
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There are eight accepted criteria used to determine whether a place is an independent country (also known as a State with a capital "s") or not.

Let us examine these eight criteria in regard to Taiwan, an island (approximately the size of the U.S. states of Maryland and Delaware combined) located across the Taiwan Strait from mainland China (the People’s Republic of China).

Taiwan developed into its modern situation following the Communist victory on the mainland in 1949 when two million Chinese Nationalists fled to Taiwan and established a government for all of China on the island. From that point and until 1971, Taiwan was recognized as "China" in the United Nations.

Mainland China’s position on Taiwan is that there is only one China and that Taiwan is part of China; the People’s Republic of China is awaiting reunification of the island and mainland. However, Taiwan claims independence as a distinct State. We will now determine which is the case.

1. Has space or territory that has internationally recognized boundaries (boundary disputes are OK).

Somewhat. Due to political pressure from mainland China, the United States and most other significant nations recognize one China and thus include the boundaries of Taiwan as being part of the boundaries of China.

2. Has people who live there on an ongoing basis.

Absolutely! Taiwan is home to almost 23 million people, making it the 48th largest "county" in the world, with a population slightly smaller than North Korea but larger than Romania.

3. Has economic activity and an organized economy. A country regulates foreign and domestic trade and issues money.

Absolutely! Taiwan is an economic powerhouse – it’s one of the four economic tigers of Southeast Asia. Its GDP per capita is among the top 30 of the world. Taiwan has its own currency, the new Taiwan dollar.

4. Has the power of social engineering, such as education.

Absolutely! Education is compulsory and Taiwan has more than 150 institutions of higher learning. Taiwan is home to the Palace Museum, which houses over 650,000 pieces of Chinese bronze, jade, calligraphy, painting, and porcelain.

5. Has a transportation system for moving goods and people.

Absolutely! Taiwan has an extensive internal and external transportation network that consists of roads, highways, pipelines, railroads, airports, and sea ports. Taiwan can ship goods, there’s no question about that!

6. Has a government that provides public services and police power.

Absolutely! Taiwan has multiple branches of military – Army, Navy (including Marine Corps), Air Force, Coast Guard Administration, Armed Forces Reserve Command, Combined Service Forces Command, and Armed Forces Police Command. There are almost 400,000 active duty members of the military and the country spends about 15-16% of its budget on defense.

Taiwan’s main threat is from mainland China, which has approved an anti-secession law that allows a military attack on Taiwan to prevent the island from seeking independence. Additionally, the United States sells Taiwan military equipment and may defend Taiwan under the Taiwan Relations Act.

7. Has sovereignty. No other State should have power over the country’s territory.

Mostly. While Taiwan has maintained its own control over the island from Taipei since 1949, China still claims to have control over Taiwan.

8. Has external recognition. A country has been "voted into the club" by other countries.

Somewhat. Since China claims Taiwan as its provoince, the international community does not want to contradict China on this matter. Thus, Taiwan is not a member of the United Nations. Plus, only 25 countries (as of early 2007) recognize Taiwan as an independent country and they recognize it as the "only" China. Due to this political pressure from China, Taiwan does not maintain an embassy in the United States and the United States (among most other countries) has not recognized Taiwan since January 1, 1979.

However, many countries have set up unofficial organizations to carry out commercial and other relations with Taiwan. Taiwan is represented in 122 countries unofficially. Taiwan maintains contact with the United States through two through an unofficial instrumentalities – American Institute in Taiwan and the Taipei Economic and Cultural Representative Office.

In addition, Taiwain issues globally recognized passports that allow its citizens to travel internationally. Taiwan also is a member of the International Olympic Committee and this sends its own team to the Olympic Games.

Recently, Taiwan has lobbied strongly for admission into international organizations such as the United Nations, which mainland China opposes.

Therefore, Taiwan only meets five of the eight criteria fully. Another three criteria are met in some respects due to mainland China’s stance on the issue.

In conclusion, despite the controversy surrounding the island of Taiwan, its status should be considered as a de facto independent country of the world.

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Os vinte e poucos países que reconhecem Taiwan como um país autônomo e independente e mantêm relações diplomáticas com o país são todos pequenos e pouco significativos no cenário mundial. Vejam a lista deles — lista meio desatualizada, pois ali constam 24, quando os países hoje chegam, pelo que sei, a 27) na Wikipedia, no seguinte endereço: 

http://en.wikipedia.org/wiki/Political_status_of_Taiwan

Para seu crédito, o Vaticano está entre os países que reconhecem a autonomia e independência de Taiwan.

Quem não o reconhece o faz por motivos que não são nem ideológicos: são puramente pragmáticos (Realpolitk). Não querem incorrer na ira da China e na conseqüente (possível mas improvável) perda de negócios com a mega-potência econômica asiática.

O Brasil não reconhece Taiwan como país. Acho uma vergonha. Mas Taiwan tem um "Escritório Econômico e Cultural" em São Paulo, na Av. Paulista (do mesmo tipo do que mantém nos Estados Unidos), onde eu obtenho meus vistos de entrada no país.

Se a nossa diplomacia valesse alguma coisa, Taiwan já teria sido reconhecida como uma nação autônoma e independente.

Por fim, existe a questão: quando Taiwan se tornar politicamente reconhecida como um país autônomo e independente, como vai se chamar? Simplesmente Taiwan, como muitos (inclusive eu próprio, no dia-a-dia) chamam o país hoje? Republic of China (ROC), que é o nome semi-oficial (a companhia aérea oficial de Taiwan se chama "China Airlines"…)? Chinese Taipei, como querem os chineses? Ou simplesmente Formosa? Apesar de, no dia-a-dia, referir-me ao país como Taiwan, se eu pudesse votar certamente votaria em Formosa. Melhor ainda: Formosa Taiwan…

Em Hualien, TW, 25 de Agosto de 2007