Polêmica na academia paulista

Transcrevo, abaixo, matéria publicada na VEJA: http://veja.abril.com.br/160507/p_052.shtml.

Só faltou incluir a UNICAMP no artigo…

No final de março deste ano, os alunos da UNICAMP invadiram o prédio da Reitoria, tomaram o Gabinete do Reitor e as demais instalações da Reitoria, e, no dia seguinte, a sala do Conselho Universitário. Ficaram lá durante quase uma semana. O Reitor foi literalmente exilado. A Reitoria ganhou uma liminar de reintegração de posse e… professores da universidade foram à Justiça para pedir que a ordem de reintegração fosse revogada…

Havia reclamações específicas por parte dos alunos — mas sobre elas se sobrepôs a exigência de que o governador Serra cessasse a "intervenção" na universidade, revogando os decretos baixados desde o início do ano que afetam o ensino superior. A Reitoria, no início, disse que algumas exigências dos alunos não poderiam ser atendidas — e que essa posição era inegociável (e.g., exoneração da coordenadora da moradia estudantil). Depois cedeu tudo, concordando até com a saída da infeliz, cuja permanência havia sido considerada inegociável.

Como se vê, quando a Reitoria está invadida e nem o Reitor pode pôr os pés lá, a universidade facilmente abre mão de sua autonomia… Certamente, os alunos invasores não terão deixado de perceber isso. Na próxima invasão (e a da USP é a invasão seguinte, ainda que noutra universidade do sistema) aumentarão suas apostas.

Em Taipei, 12 de maio de 2007

—–

http://veja.abril.com.br/160507/p_052.shtml 

VEJA – Edição 2008 – 16 de maio de 2007

No caminho certo

O governador Serra enfrenta o atraso que ainda reina na USP

Camila Pereira

Vandalismo na invasão à reitoria: ação corporativa contra a transparência

O obscurantismo abomina o conhecimento. A queima de livros durante a Inquisição, a depredação, no ano passado, de um centro de pesquisas da companhia Aracruz por uma horda de 2 000 militantes teleguiada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Os exemplos atravessam eras e continentes. O obscurantismo pode tornar-se pior quando combinado com a praga do corporativismo. Foi o que ocorreu no último dia 3 na Universidade de São Paulo, a maior instituição de ensino superior e pesquisa do país. Um bando de 300 alunos invadiu o prédio da reitoria, depredou suas dependências e ocupou o gabinete da reitora Suely Vilela. Os manifestantes passaram a usar internet e telefone livremente para divulgar seu protesto, que, na última sexta- feira, já durava uma semana. Qual é a razão para tanto vandalismo? Entre reivindicações oportunistas, como a melhor conservação dos prédios da universidade, os depredadores de prédios públicos querem impedir que o governador José Serra exija mais transparência dos gastos das três universidades estaduais — além da USP, a Unesp e a Unicamp.

A queda-de-braço começou porque Serra resolveu incluir as contas das três universidades no Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios (Siafem). O sistema monitora a movimentação do caixa de órgãos públicos — ou seja, permite aos contribuintes acompanhar o uso de seu dinheiro e, aos administradores, avaliar a eficiência da gestão financeira. A medida, mais que salutar, foi vista como um ataque à autonomia universitária pelos sindicatos de professores e de funcionários da USP, as entidades que estão por trás da manifestação. Trata-se de uma desculpa esfarrapada. O Judiciário e o Legislativo, poderes independentes, também recebem recursos do governo estadual. E também estão no Siafem. Por que as universidades mereceriam tratamento diferenciado? "Em nome da autonomia, criou-se o mito no Brasil de que universidades estão acima de qualquer fiscalização", afirma o economista Gustavo Ioschpe. "É preciso mostrar como se gasta cada centavo."

No caso, não se trata de centavos: o orçamento executado da USP em 2005 foi de 1,9 bilhão de reais. O gasto anual por aluno anda na casa dos 12 000 dólares. Esse valor, em relação ao PIB per capita do estado de São Paulo, é quatro vezes maior do que o custo por estudante nas universidades dos ricos países da OCDE. A produtividade não acompanha esse gasto. Apesar da excelência nas áreas de pesquisa e pós-graduação, a USP ainda tem desempenho fraco em critérios acadêmicos importantes (veja o quadro). O governador Serra cumpre seu papel de administrador ao enfrentar esses problemas e resistir às pressões corporativas. Age com a autoridade de quem foi presidente da União Nacional dos Estudantes e teve longa carreira como professor em instituições como a própria Unicamp e Princeton, nos EUA. Não é ele quem quer destruir a autonomia da USP.

QUADRO

Alto Custo, Baixa Produtividade

* O custo anual de um aluno da USP é quatro vezes maior do que nas universidades dos países ricos

* Professores ou alunos da USP jamais ganharam um Prêmio Nobel. A Universidade de Buenos Aires tem cinco.

* Na USP o ensino é gratuito. Na Coréia do Sul, e até na China comunista, a universidade é paga.

* Quando se mede a repercussão da publicação de textos científicos, a USP fica em 266º lugar numa lista de 287 instituições. 

Educaçao no Norte e no Sul

Participei, na semana passada, de mais um encontro internacional sobre escolas inovadoras – em Seattle, WA, EUA. Representantes de todo mundo estavam presentes, especialmente do Norte: América do Norte (EUA, Canadá, México), da Europa (que também fica ao Norte), e do Norte da Ásia  (Japão, Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong). Coloco no Norte os países que estão acima do Equador. Havia, também, representantes do Sul, entre os quais Brasil, Chile e Austrália.

Dentro de menos de duas semanas parto, pelo quarto ano seguido, para Taiwan para uma série de conferências e palestras, exatamente sobre essa temática (escolas inovadoras). Farei até mesmo uma conferência no lançamento da Escola Inovadora de Kaoshiung, no sul da ilha.

Impressiona-me cada vez mais um problema que, ao tempo que me parece importante, é pouco percebido e até mesmo ignorado.

Alunos de escolas de Hong Kong, Taiwan, Cingapura e Coréia do Sul em geral se saem muito bem nos testes internacionais aplicados a alunos no final do Ensino Médio, como o PISA, da OCDE/OECD. Alunos da Finlândia se saem melhor ainda: em regra são os primeiros em todas as categorias (linguagem, matemática, ciências são as principais).

O problema que me impressiona é o seguinte: o alto nível de desempenho dos alunos desses países em testes internacionais coloca um sério risco para esses países: o de não contemplar seriamente a possibilidade de mudanças suficientemente radicais em seus sistemas educacionais. Quanto mais alto é o nível da qualidade atribuído a um dado sistema educacional, tanto menor é a disposição, por parte daqueles envolvidos nele, de contemplar mudanças radicais nesse sistema.

A questão é sempre: "If it ain’t broken, don’t try to fix it" – se não está quebrado, não tente consertar… No Brasil, país com mais tradição em futebol do que em engenharia ou "bricolage", se diz: "Em time que está ganhando não se mexe". Se qualquer equipamento ou sistema está funcionando bem, tentar consertá-lo é um risco muito grande: o sistema pode ficar pior… Quanto mais se percebe um sistema como próximo da perfeição, menos se sente a necessidade de mudá-lo radicalmente.

A menos que o sistema seja percebido como absolutamente perfeito, algo raro, sempre é possível mudá-lo – melhorá-lo, aperfeiçoá-lo. Mas a mudança, nesse caso, em regra não é radical: ela é "piecemeal", "incremental", aos pedacinhos, gradual… Karl Popper era defensor desse tipo de mudança na ordem social, que ele chamava de "piecemeal social engineering". Conservador que era, Popper era avesso a revoluções, embora admitisse mudanças que não colocassem em risco as conquistas já feitas.

Por que considero essa atitude um problema na área da educação para esses países (e também para qualquer país desenvolvido, como o restante da Europa Ocidental, os Estados Unidos e o Canadá)?

Antes de responder, para a área da educação, analisemos algumas outras áreas.
 
Houve época em que se entregava correspondência através do "Pony Express". Os melhores cavaleiros e os melhores cavalos eram usados nesse sistema. Mas o sistema tem um limite. É possível melhorá-lo um pouco, encontrando cavalos mais fortes e velozes e cavaleiros mais hábeis. Mas há um limite na capacidade de um e de outro: cavalos não conseguem correr além de uma certa velocidade. Quando se alcança esse limite, não adianta ficar perdendo tempo com pequenas e graduais melhorias no sistema: chegou a hora de recomeçar do zero.

Um outro exemplo é o barco a vela Clipper. Ele era quase perfeito – na realidade, perfeito, aos olhos de seus criadores. Mas ele tinha uma limitação séria: se não houvesse vento, ele não andava… Não fazia sentido tentar melhorá-lo aqui e ali, em pequenos aspectos. O que era necessário era um novo tipo de navio – que apareceu na forma do  barco / navio a vapor.

(Peguei esses dois exemplos de uma excelente palestra de John-West Burnham, no encontro mencionado).
 
No início do século XIX havia companhias poderosas que se especializavam na venda de gelo para refrigerar alimentos. Não havia refrigeradores elétricos e nem mesmo a gás. Os alimentos eram refrigerados numa com dois compartimentos com porta: embaixo se colocavam os alimentos, em cima se colocava gelo. Esses proto-refrigeradores eram denominados (com pouca criatividade) "ice boxes", caixas de gelo. Funcionavam bem – no inverno, quando havia gelo… No verão, eram um problema – mas um problema que o mercado logo se encarregou de resolver. Nos meses quentes, nos Estados Unidos, essas empresas iam até o norte do Canadá, às vezes próximo da Groelândia, e cortavam grandes blocos de gelo para trazê-los até os Estados Unidos e vendê-los para os possuidores de ice boxes. Toda uma tecnologia de extração do gelo, de isolamento térmico, e de transporte evolui ao redor desse comércio, que foi sendo aperfeiçoado ao longo do termo, a ponto de permitir às empresas que exploravam essa fatia do mercado a exportar gelo até para a Índia. Apenas metade dos blocos de gelo chegavam até lá, mas mesmo assim o empreendimento era lucrativo. Pequenas melhorias aqui e ali permitiam que o negócio florescesse e crescesse. Até, naturalmente, que surgiu a eletricidade e os refrigeradores elétricos que refrigeravam a gás. Os donos das empresas extratoras de gelo não acharam que esse outro negócio fosse matar o negócio deles. Mas matou – enquanto eles tentavam, desesperadamente, melhorar, ou aperfeiçoar, seus métodos de extração do gelo, de isolamento térmico, de transporte… E eles quebraram todos. Morreram, como empresas, porque não souberam mudar na hora certa.

E as máquinas de escrever? As empresas que lideraram o mercado de máquinas de escrever quando a tecnologia era mecânica perderam a liderança quando máquinas de escrever elétricas apareceram. As empresas que lideraram o mercado de máquinas de escrever elétricas perderam a liderança quando as máquinas de escrever eletrônicas (com "margaridas") apareceram. E as empresas que lideraram o mercado de máquinas de escrever eletrônicas não perceberam que os computadores pessoais iriam matar o seu negócio…

E a IBM? Era a maior fabricante de computadores de grande porte (os únicos que havia). Adaptou-se até bem quando o mercado se interessou por computadores de médio porte. Em 1977 apareceram os primeiros computadores pessoais, da Apple, da Radio Shack, da Commodore. A IBM achou que eram meros brinquedos, que não mereciam sua atenção – afinal de contas, ela detinha 75% do mercado de computadores e possuía mais de 400 mil empregados. Três anos depois, começou a ter dúvidas e resolveu fazer um microcomputador, lançado em 1981 – o IBM PC, que virou padrão. Esse computador, que virou sucesso nas mãos da Compaq e outros fabricantes que o clonaram, porque tinha projeto aberto, com partes de mercado, e um sistema operacional feito por outra empresa, a Microsoft, foi colocado no mercado pela IBM sem que ela acreditasse nele! Por não acreditar nele acabou criando concorrentes que quase a mataram: a Microsoft, a Intel, a Compaq, depois a Dell…  Por muitos anos a IBM ainda defendeu a tese de que o PC não seria nada mais do que um terminal inteligente para computadores de grande porte. Quando percebeu seu erro, quase quebrou. Fez "downsize", reduziu o tamanho; fez "reengineering", mudou de negócio… Acabou sobrevivendo, mas como uma empresa menor e totalmente diferente.

Que relevância tem tudo isso para a tese que enunciei no início?

A relevância é a seguinte, e pode ser expressa em duas teses: primeiro, o sucesso é, freqüentemente, o principal fator que impede as instituições de perceber que chegou a hora de mudar; segundo, a melhor hora de mudar é quando as coisas estão indo bem e a mudança pode ser planejada com calma e com cuidado.

Tenho conversado muito com educadores da Finlândia e da Ásia que estão começando a perceber que o sucesso de seus sistemas educacionais nos testes internacionais lhes dá uma sensação de segurança que, entretanto, é uma sensação de falsa segurança… Seus sistemas educacionais estão tendo desempenho superior na formação de pessoas – mas na formação de pessoas para uma realidade que está rapidamente desaparecendo! A Finlândia e a Ásia chegam às melhores posições num sistema educacional projetado e construído para a Segunda Onda (Toffler) – quando várias partes do mundo já fizeram avanços significativos na Terceira Onda! Os alunos desses países são inteligentes e disciplinados, fazem o que deles se espera, são bons no domínio da língua materna, talvez de uma língua estrangeira, são muito bons em matemática e ciências – quando o mercado começa a buscar gente que é criativa, que convive bem com ambigüidade, que está disposta a assumir riscos, que sabe se adaptar a mudanças, improvisar,ou "think out of the box,"que sabe negociar objetivos, resolver conflitos, trabalhar colaborativamente em equipes, administrar o tempo, liderar, motivar, inspirar… No momento em que a Finlândia e a Ásia chegam ao primeiro lugar no campeonato, alcançando níveis excepcionais de desempenho em linguagem, matemática, ciências, percebem que as regras do jogo mudaram…

E nós, no Brasil, dedicamos um enorme esforço para alcançar a Coréia do Sul… Convidamos educadores coreanos para vir ao Brasil nos explicar qual é o segredo… Quando os educadores coreanos mais progressistas estão tentanto aprender com o "jeitinho" brasileiro, com a improvisação brasileira, com a criatividade brasileira….

O sucesso, em um determinado estágio do desenvolvimento tecnolológico, não raro, é o maior obstáculo à percepção de que é necessário não só mudar, mas mudar radicalmente, reinventar o negócio, mudar os pressupostos…
 
Há países bem sucedidos que hoje começam a olhar para o Brasil – porque percebem que a melhor hora de mudar é quando as coisas vão indo bem e não querem que seu sucesso os anestesie quanto à necessidade de continuar mudando…

E nós, continuamos a olhar para trás, não para a frente, e ficamos tentando alcançar a Coréia, em vez de usar as nossas competências mais importantes e "leapfrog", dar um salto por cima de estágios que ainda não cumprimos – mas que não há mais porque devamos cumpri-los.

Em Salto, 28 de abril de 2007

Comunicado (novo)

Comunico que pedi, ontem, exoneração do cargo de Secretário Adjunto de Ensino Superior do Estado de São Paulo, e meu pedido foi atendido pelo Secretário Pinotti. A exoneração foi publicada no Diário Oficial do Estado de hoje, sábado, 28 de abril de 2007.

Tive várias razões para tomar essa decisão, das quais destaco duas. 

A principal delas é não deixar que a forte oposição ao meu nome por uma parte da comunidade da UNICAMP — capitaneada pela esquerda nazi-comunista que encontra seu último bastião de influência na universidade — se tornasse um obstáculo constante ao trabalho de meu amigo pessoal de 25 anos, o Secretário Pinotti, por quem tenho grande admiração (que, registre-se, só aumentou durante todo esse episódio). Não busquei o cargo e nunca tive apego a ele. Não sou político e nunca tive filiação partidária. Cargo de confiança no governo não faz parte de minha visão de carreira profissional. Três vezes antes, nos menos de quatro meses que fiquei no Governo, coloquei o cargo à disposição do Secretário, que se recusou a aceitá-lo. Desta vez, porém, insisti que aceitasse e ele o fez. Assim será possível testar a hipótese, aventada por lideranças da UNICAMP (e, aparentemente, assumida até pelo Painel da Folha de 30/3), de que a oposição da universidade à Secretaria de Ensino Superior e ao governo atual teria, hoje, como causa principal, minha presença no governo, no cargo de Secretário Adjunto da Secretaria. Os ingênuos que acreditem. A conferir..

Uma causa secundária é que venho trabalhando sem receber. A Secretaria da Fazenda concluiu que o que percebo como aposentadoria da UNICAMP impede que eu receba o que seria o meu salário pelo cargo de Secretário Adjunto sem ultrapassar o teto de vencimentos do serviço público do Estado. Trabalhar de graça até vai, quando a gente tem satisfação no que faz. Trabalhar de graça nas condições atuais, em que tenho de explicar, quinzenalmente, ao Secretário e ao Governador, o conteúdo de dossiês anônimos mentirosos contra mim e de acusações, devidamente identificadas, na fonte e nos mensageiros, mas igualmente mentirosas, não faz sentido. Tenho mais o que fazer.

Aos que, com otimismo, demonstraram esperanças, quando de minha nomeação, de que alguma coisa pudesse mudar no ensino superior público paulista, em especial na área de Educação a Distância, lamento dizer que não vai ser fácil.   

Aos amigos, agradeço as manifestações de confiança e apoio. 

Em Salto, 28 de abril de 2007 

Entrevista ao Site MiniWeb (2002)

Entrevista com Eduardo Chaves

Tema: Tecnologia aplicada a Educação – Por Arlete Embacher

Transcrito de:
http://www.miniweb.com.br/atualidade/entrevistas/eduardo_chaves/prof_eduardochaves.html

MINIWEB -O Sr. vem atuando na área de Tecnologia Aplicada à Educação há 20 anos, desde que, em 1981, enquanto Diretor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), o Sr. tomou a iniciativa pioneira de criar, dentro da Universidade, o Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED), primeiro núcleo de pesquisa verdadeiramente interdisciplinar a ser oficialmente criado nessa área dentro da Universidade brasileira. Miniweb pergunta: Como criador do NIED, como o Senhor avalia a evolução que o Núcleo teve dentro da Unicamp?

EDUARDO CHAVES: É difícil fazer o que você pede porque não venho acompanhando de perto o trabalho do NIED desde que deixei sua coordenação em 1986 para ir trabalhar na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, dirigindo o Centro de Informações Educacionais. Contudo, posso que garantir que, pela qualidade dos profissionais que ali trabalham (Armando e Ann Valente, Bete Brisola [que em priscas eras foi minha aluna!] e outros), a qualidade deve ser muito boa.

Creio estar em condições de fazer uma crítica, que não se aplica exclusivamente ao NIED mas a toda a área da Educação da UNICAMP: a de que existe nessa área um grande preconceito contra escolas particulares e a iniciativa privada em geral. Na minha opinião, uma Universidade, ainda que pública, não pode atender apenas as escolas públicas, como se não existissem escolas particulares. Outras áreas da UNICAMP (as engenharias e a física, por exemplo) não demonstram preconceito contra a iniciativa privada, mas na educação ele chega a ser gritante.

MINIWEB – Em seu livro: Multimídia: Conceituação, Aplicações e Tecnologia (People-1992), o Sr. defende a tese de que as escolas não podem ficar à margem do desenvolvimento tecnológico que permeia o restante da sociedade, mas precisam urgentemente incorporar essa tecnologia ao processo de ensino e aprendizagem, mas de forma consciente e responsável. Miniweb pergunta: Como o senhor orientaria a incorporação da tecnologia nas escolas onde a necessidade faz-se de fato imprescindível face à sua clientela, como é o caso das escolas públicas?

EDUARDO CHAVES – Minha opinião a esse respeito vem evoluindo nesses mais de dez anos que se passaram desde a publicação de meu livro sobre Multimídia. Hoje estou mais preocupado com o fato de que as escolas atuais, tanto as públicas como as privadas, e quase sem exceção, se alicerçam numa visão de educação e do papel da escola que foi tornada totalmente ultrapassada e obsoleta pela evolução da sociedade. Na Sociedade da Informação, em que vivemos, em que a tecnologia desempenha um papel fundamental, não faz mais sentido ver a educação como um processo de transmissão de informações — a herança cultural da sociedade ou mesmo da humanidade — de uma geração para a outra. Essa herança está aí disponível em bilhões de livros e revistas, em outro tanto de discos e fitas, e online na Internet. Temos excesso, não carência de informações. Não faz mais sentido — e isso em decorrência da evolução social, na qual a tecnologia teve um papel preponderante — a escola tornar o problema de excesso de informação ainda mais grave, transmitindo mais informações aos alunos — informações não raro mais desatualizadas do que as que ele encontra nos meios de comunicação.

Diante desse quadro, simplesmente introduzir tecnologia na escola, mantendo essa visão da educação e do papel da escola, não resolve o problema e pode até piorá-lo. Se estamos indo na direção errada, mas estamos a pé, pode demorar muito para que encontremos um penhasco — e sempre conseguiremos parar, antes de cair. Se estamos indo na direção errada e recebemos tecnologia sofisticada para nos movimentar (como um carro de Formula 1), chegaremos muito mais rápido ao penhasco — e poderemos não conseguir parar o carro, encontrando desastre.

Assim, antes de pensarmos em introduzir tecnologia na escola, precisamos rever nossa visão da educação e reinventar a escola para que promova essa nova visão.

Não vou entrar em detalhes aqui, mas defendo uma visão de educação como desenvolvimento humano e concebo o papel da escola como uma contribuição para a construção, pelos alunos, de competências e habilidades que os capacitem a se desenvolver no máximo de suas potencialidades. Essa visão é promovida pelo Instituto Ayrton Senna e se deve, em última instância, ao trabalho de órgãos da ONU, como a UNESCO e o PNUD.

Só vale a pena discutir o papel da tecnologia na escola quando essas questões básicas e antecedentes estiverem adequadamente equacionadas — ou, no mínimo, dada a urgência, simultaneamente com o equacionamento dessas questões.

MINIWEB – O que é Mindware?

EDUARDO CHAVESMindware é o nome fantasia que adotei para a minha empresa (MindWare – EduTec.Net). É uma marca registrade de minha propriedade. 

Por que a escolhi?

Fala-se muito, em relação ao computador, que a tecnologia consiste de dois componentes básicos: hardware e software. O hardware é o equipamento em si e o software é o conjunto de instruções que o faz se comportar desta ou daquela maneira — o conjunto de programas que faz com que o hardware nos faça algo de útil.

Isto é correto — até aonde vai. Mas falta alguma coisa. O que é que esse conjunto de hardware e de software vai estar fazendo? Qual é a utilidade a que ele vai servir? Que problemas vai estar efetivamente resolvendo? Como pode ser ele utilizado como uma extensão de nossa capacidade de pensar e de resolver problemas? É aqui que criei o termo "Mindware". Alguns autores falam em "Peopleware" ou "Humanware". Mas como o que importa aqui, em relação ao ser humano, não é seu corpo (nesse caso teríamos "bodyware" ou "brainware"), mas, sim, a sua mente, o termo "Mindware" se refere a todo tipo de reflexão que visa a encontrar, para a tecnologia, utilizações que ampliem e estendam nossos poderes (certamente mentais) de resolução de problemas, permitindo que a tecnologia, em vez de ser uma solução em busca de problemas, nos ajude a efetivamente resolver os problemas que realmente temos. Em especial na educação.

No site da Mindware (mencionado abaixo) digo o seguinte sobre o conceito
"Mindware":

Mindware, entretanto, é bem mais do que tudo isso [hardware e software]: é a inteligência que permite que o ser humano aprenda, pense, imagine coisas e depois as crie. Entre as coisas que o ser humano inventou (imaginou e criou) estão ferramentas que estendem sua força física, sua habilidade locomotora, sua capacidade sensorial, e mesmo, como no caso do computador, seus poderes mentais. (É bom que não nos esqueçamos de que, a menos que sejamos anjos, não há mindware sem bodyware, e especialmente sem brainware…).

Por aí se vê que mindware não é um componente do computador: é um componente do ser humano que criou e que usa o computador. Sem mindware, não teria sido criado o computador; sem mindware, ele não pode ser colocado a bom uso — especialmente na educação.

A finalidade da Mindware (agora a empresa) é ajudar as pessoas a usar bem o computador. Por isso, a Mindware é educação, a Mindware é treinamento, a Mindware é sinônimo da inteligência que nos permite usar o computador para aprender e para a pensar crítica e criativamente.

Por isso, escolhi como moto para a Mindware: ‘Mais importante do que aprender informática é usar a informática para aprender’.

MINIWEB – Como Consultor do Instituto Ayrton Senna no Programa "Sua Escola a 2000 por Hora", o Sr. Publicou um artigo sobre: "Educação Orientada para Competências" e "Currículo Centrado em Problemas". O Sr poderia falar para os internautas da Miniweb sobre o papel do professor em uma Educação orientada para competências e, ainda, sobre a importância dos Parâmetros Curriculares Nacionais em um currículo centrado em problemas.

EDUARDO CHAVES – Um Currículo Centrado em Problemas é um currículo voltado para o construção das competências e habilidades requeridas para resolver esses problemas. Esse currículo deve ser desenvolvido através de uma metodologia que hoje se denomina de Pedagogia de Projetos de Aprendizagem. Darei, a seguir, algumas características dessa metodologia, extraídas de um livro que estou terminando para o Instituto Ayrton Senna.

A proposta de que a aprendizagem escolar se faça predominantemente por projetos de aprendizagem – a pedagogia de projetos – procura se pautar pelos seguintes princípios:

· A pedagogia de projetos de aprendizagem vê a educação, e, portanto, a aprendizagem como o principal mecanismo pelo qual o ser humano projeta e constrói a sua própria vida, e, portanto, como algo que lhe é natural e intrinsecamente motivador, procurando, assim, evitar que a criança seja vista como um ser essencialmente refratário à aprendizagem, que precisa, por isso, ser obrigado a aprender através de mecanismos artificiais de recompensas e punições que agem como motivadores externos;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem incentiva a criança a explorar e a investigar seus interesses – as coisas que ela gosta de fazer e que gostaria de aprender – e atribui ao professor a responsabilidade de encontrar maneiras de, a partir desses interesses, tornar a atividade da criança útil no desenvolvimento das competências e habilidades básicas necessárias para que ela se torne capaz de sonhar seus próprios sonhos e transformá-los em realidade, procurando, assim, evitar que a criança seja obrigada a deixar de lado seus interesses, sua imaginação e sua criatividade ao entrar na escola;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem procura evitar que a aprendizagem se torne algo passivo, e, por conseguinte, desinteressante, abrindo o maior espaço possível para o envolvimento ativo da criança, não só na concepção e na elaboração dos seus projetos de aprendizagem, mas também na sua implementação e avaliação, pois esse envolvimento não só a motiva (por estar relacionada com seus interesses) como torna a sua aprendizagem ativa e significativa – um real fazer mais do que um mero assimilar de informações;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem procura, assim, estabelecer uma estreita relação entre a aprendizagem que acontece na escola e a vida e a experiência da criança, reconstituindo o vínculo entre seus processos cognitivos e seus processos vitais, pois os projetos que ela escolhe partem, inevitavelmente, de questões relacionadas à sua vida e à sua experiência que lhe parecem importantes e sobre as quais ela se interessa em aprender mais;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem rejeita a noção de que todas as crianças devam aprender as mesmas coisas, pelos mesmos métodos, nos mesmos ritmos e nos mesmos momentos – independentemente de seus interesses, de suas aptidões, de seu estilo cognitivo, de seu estado de espírito, etc.;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem não concentra, portanto, a atenção nos eventuais "pontos fracos" da criança, com o objetivo (que a escola tradicional compartilha com a linha de montagem da fábrica) de que todas as crianças estejam "padronizadas" (e, portanto, sejam intercambiáveis) ao final do processo de educação escolar, mas procura valorizar os interesses, as aptidões e os dons naturais de cada criança – ou seja, os seus pontos fortes;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem busca, portanto, evitar que o objetivo do aprendizado escolar seja definido como a absorção, pela criança, de grandes quantidades de informação (fatos, conceitos, procedimentos, valores), e que o aprender da criança seja visto como o sub-produto esperado da ação do professor (algo que se espera que o professor faça, através do ensino, e que a criança apenas "sofre", em mais de um sentido), procurando caracterizar esse aprendizado como algo ativo, que a criança faz, à medida que desenvolve as competências e
habilidades que a tornam capaz de sonhar seus próprios sonhos e de transformá-los em realidade;

· A pedagogia de projetos de aprendizagem procura evitar que o aprender seja um procedimento totalmente artificial, difícil e doloroso, que começa quando a criança entra na escola e termina quando ela, com enorme alívio, deixa a escola, e se torne o que deve ser, a saber, um processo natural, agradável e contínuo, que começa muito antes de ela entrar na escola (com o nascimento, ou mesmo antes) e termina apenas com a morte, sendo o tempo de permanência da criança na escola apenas um momento privilegiado de sua vida em que ela pode se dedicar, total e exclusivamente, à tarefa de projetar o restante de sua vida e de se capacitar para construí-la.

MINIWEB – Qual o papel do professor nessa metodologia?

O papel dos professores, no contexto da metodologia de projetos de aprendizagem se assemelha mais ao de um orientador de estudos do que ao de ensinante, podendo até mesmo ser comparado, mutatis mutandis, com o papel de um orientador de estudos de pós-graduação.

Isso quer dizer que os professores deverão acompanhar a elaboração, a implementação e a avaliação dos projetos de aprendizagem dos alunos, procurando garantir, nesse processo, pelo menos o seguinte:

. Que os alunos consigam aprender e fazer aquilo que se propõe aprender e fazer em seus projetos;

. Que os alunos encontrem encontrem as informações necessárias para o desenvolvimento de seus projetos;

. Que os alunos desenvolvam, em cada projeto, competências e habilidades básicas importantes para o seu desenvolvimento como ser humano, dentro dos princípios organizadores dos Quatro Pilares.

Dessas três funções, a terceira é certamente a mais importante.

Todo projeto precisa ser planejado, redigido, colocado em linguagem e formato adequado, apresentado a outras pessoas (em forma escrita ou oral), defendido, especialmente se recursos escassos são necessários para sua implementação, e assim por diante. Nesse processo, os alunos podem desenvolver várias competências e habilidades importantes, nas áreas de planejamento, organização, coordenação, comunicação, argumentação, e outras. Por exemplo: os alunos deverão aprender a expor suas idéias com clareza (comunicação oral, lógica), a colocá-las em linguagem e formato adequado (comunicação escrita), a apresentá-los em público de forma persuasiva e convincente (retórica), a defender o uso de recursos comuns na sua implementação (lógica), a criar um site para o projeto (comunicação, domínio de tecnologia), a buscar informações e conhecimentos necessários para sua implementação (pesquisa), a planejar as atividades dentro do tempo disponível e a cumprir cronogramas (administração do tempo), a abrir mão de outras atividades desejáveis para concluir o projeto, conforme prioridades definidas (administração de prioridades), etc.

Essas competências e habilidades lhes serão muito mais importantes, em sua vida, do que as informações específicas que vierem a obter em decorrência da execução de seu projeto. É aqui que se situa a competência de pensar criticamente, com suas habilidades de analisar informações, verificar suas credenciais epistemológicas, separar o joio do trigo, discernir quais informações são relevantes para a ação, saber levá-las em consideração no momento de decidir, e assim por diante.

Se os alunos vão estar usando tecnologia para o planejamento e a execução de seus projetos (e quem duvida que o farão?), em uma aprendizagem verdadeiramente ativa, é inconcebível que os seus orientadores não tenham familiaridade com esse recurso. Basta dizer isso.

MINIWEB – O Sr. acredita nas Comunidades Virtuais como um espaço de crescimento pessoal para os indivíduos?

EDUARDO CHAVES – Acho que as Comunidades Virtuais são o melhor espaço disponível hoje em dia para o crescimento das pessoas. De longe.

MINIWEB – No aprendizado colaborativo, como o que acontece em EAD, Grupos de Discussão, e outros eventos online, o que se deve priorizar para que eles sejam bem sucedidos?

EDUARDO CHAVES – O aprendizado colaborativo parte do pressuposto — correto — que aprendemos melhor quando aprendemos aquilo que nos interessa através de um processo de troca de idéias, diálogo, discussão e crítica com outras pessoas que têm interesses semelhantes. O que se deve priorizar, portanto, para que esse aprendizado seja bem sucedido, são quatro coisas :

a) Temas que correspondam aos interesses (perguntas, dúvidas, problemas) de um bom número de pessoas;

b) Um bom número de pessoas interessadas em aprender através da discussão dessas questões;

c) Mecanismos de interação amistosos, fáceis de usar, que motivem e incentivem os participantes a se comunicar, em vez de se tornar obstáculos à comunicação;

d) Um coordenador ou animador da discussão — ou mais de um — que funcione como verdadeiro "pastor" dessa "comunidade virtual" — para usar uma imagem que me foi passada pelo Rev. Wilson Azevedo, ele próprio não só pastor presbiteriano de uma igreja convencional como um dos melhores pastores de comunidades virtuais de aprendizagem que conheço. Uma outra excelente pastora que conheço é a Profa. Lenise Garcia, da UnB. Procuro seguir nos seus passos.

MINIWEB– O Senhor pretende criar uma nova lista de discussão do tipo do EduTec.Net?

Na verdade, já criei… Estou com uma lista nova, desde o início de Agosto, patrocinada pelo Instituto Ayrton Senna. Chama-se 4pilares e discute o desenvolvimento de competências e habilidades como parte do processo de educação como desenvolvimento humano. Ela é aberta ao público em geral. Para entrar nela, basta ir ao site do Instituto Ayrton Senna (http://www.escola2000.org.br) e clicar na opção Grupos de Discussão, selecionando a opção 4pilares. Essa lista tem um site próprio em http://escola2000.net/4pilares/.

Estamos no momento com cerca de 80 participantes apenas, mas excelentes — e o número vem crescendo regularmente. [Cerca de mil participantes em 2007 – e a lista não é mais patrocinada pelo Instituto Ayrton Senna. EC]

Para saber mais sobre Prof.Eduardo Chaves acesse:

Entrevista com o Professor Eduardo Chaves. Professor de Filosofia, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP. Diretor, Mindware Editora, Tecnologia Educacional e Consultoria, Campinas, SP, Brazil. Presidente, Associação Alumni/ae do Instituto José Manuel da Conceição, São Paulo, SP, Brazil. Membro do Conselho Diretor, Aliança Francesa de Campinas, Campinas, SP, escola pertencente à Alliance Française Mondiale. Consultor do Instituto Ayrton Senna no Programa "Sua Escola a 2000 por Hora.

SINOPSE
Entrevista com a Prof. Eduardo Chaves.

Citações
"Antes de pensarmos em introduzir tecnologia na escola, precisamos rever nossa visão da educação e reinventar a escola para que promova essa nova visão. "

Prof. Eduardo Chaves

*

"Na minha opinião, uma Universidade, ainda que pública, não pode atender apenas as escolas públicas, como se não existissem escolas particulares."

Prof. Eduardo Chaves

*

"As Comunidades Virtuais são o melhor espaço disponível hoje em dia para o crescimento das pessoas."

Prof. Eduardo Chaves

Thelminha

A novela Páginas da Vida termina esta semana. Parece incrível que, ao chegar ao fim, o destaque da história tenha se tornado Grazi Massafera no papel da doce Thelminha. Esta é sua primeira novela, ela entrou tarde na trama, seu papel era de uma doméstica, e ela foi posta a atuar junto de algumas das maiores cobras da televisão e a contracenar diretamente com o principal galã da história. Ela enfrentou o desafio com coragem, humildade e competência, e saiu-se extremamente bem. Apesar de a novela contar com vários colírios para os olhos masculinos, confesso que fico esperando as cenas de Grazi – e não sou o único.
 
O curioso é que o autor da novela foi ajustando a trama para adequá-la à recepção extremamente favorável de Thelminha por parte dos telespectadores. Sinopses antigas sugeriam que Thelminha iria ser tão malandra quanto sua irmã, mas que seria mais bem sucedida no esforço de conquistar o galã da novela. A história evoluiu de tal maneira, porém, que Thelminha o conquistou sem malandragens, só pelo seu jeito de ser — chegando virgem e "invicta" ao final da novela. Isso em si é pouco comum — na vida e especialmente em novela. Do jeito que são as coisas hoje em dia, Manuel Carlos foi, curiosa e paradoxalmente, ousado ao criar um personagem feminino tão atraente que não pula na cama imediatamente com o homem a quem ama (como não o havia feito com o noivo, de quem gosta mas a quem claramente não ama). Se defeito houve na trama foi na caracterização do triste Dorival… Ele poderia ter sido feito um pouco mais atraente, para não tornar a atração de Thelminha por Jorge tão inevitável…
 
Em São Paulo, 28 de fevereiro de 2007 
 
Eis um texto da Revista Época que confirma o que digo (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG76418-6014-457,00.html):
 
NESTE CARNAVAL, O SAMBA VAI SAIR (LÁ-LÁ- Laiáááááá…) procurando Grazi. Já faz algum tempo que as musas da Sapucaí não são apenas "as mais bonitas entre as cabrochas desta ala", como cantava Chico Buarque em "Quem Te Viu, Quem Te Vê", exaltação às beldades das escolas. Nos últimos tempos, são as estrelas de televisão que têm sido as rainhas do Carnaval. Em 2003, Deborah Secco e Juliana Paes explodiram na novela Celebridade interpretando as loucas pela fama Darlene e Jacqueline Joy. No ano seguinte, a fama veio mesmo – na Sapucaí. Deborah "Darlene" foi a rainha da bateria da Grande Rio e Juliana "Joy" iniciou seu reinado à frente dos ritmistas da Viradouro. Neste ano, a presença mais esperada na passarela do samba volta a ser a da principal estrela da telenovela na atualidade. Grazielli Massafera é a favorita não apenas dos leitores de ÉPOCA – ela venceu a enquete promovida pelo site da revista sobre quem seria a musa do Carnaval, deixando as medalhas de prata e bronze com Juliana Paes e Viviane Araújo. Ela é também a preferida dos telespectadores da novela das 8 da TV Globo, Páginas da Vida. Quando sua personagem, a ingênua Thelminha, aparece em cena, a audiência aumenta. Isso ocorreu, por exemplo, na cena em que a mocinha deu o primeiro beijo no galã Jorge, interpretado por Thiago Lacerda. O ibope subiu para 50 pontos, três a mais que a média da novela. Ciente dessas oscilações, o autor Manoel Carlos aumentou o papel de Thelminha na novela.

Grazi roubou a cena encarnando, na TV, uma fantasia cara aos brasileiros. Ela é a "namoradinha", o tipo consagrado nos anos 70 por Regina Duarte em papéis como a Ritinha de Irmãos Coragem (1970) ou a Patrícia de Minha Doce Namorada (1972). "Grazi é a mais nova namoradinha do Brasil", diz Mauro Alencar, pesquisador da Universidade de São Paulo e um dos maiores estudiosos da telenovela no Brasil. Para Alencar, que escreve um livro justamente sobre o assunto, ser "namoradinha" é mais que encarnar a mocinha "do bem", destinada a derrotar a megera e ficar com o galã no final. "Uma das características principais desse tipo de personagem, claro, é a pureza. Mas não é a pureza da virgindade. Tem mais a ver com a inexperiência com a vida. Mesmo que as personagens de Regina Duarte não fossem virgens de fato, eram recatadas, ou por serem da roça, ou por conta de uma decepção amorosa", afirma Alencar. Assim é a Thelminha de Páginas da Vida. Ela é uma moça do interior de um tipo que não existe mais no interior – que, com a internet, a riqueza derivada do agronegócio e toda uma cultura simbolizada pelos rodeios e festas do peão, é muito diferente do lugar bucólico retratado na Vila de Coroado de Irmãos Coragem. Thelminha cativa tanto por seu jeito fora de moda – potencializado pelo contraste com uma irmã esfuziante, vivida por Danielle Winits – quanto por ressuscitar um tipo que andava sumido desde os tempos de Regina Duarte.

O auge da "namoradinha" foi nos anos 70, quando várias atrizes seguiram o modelo de Regina Duarte (veja o quadro na sequência da matéria). Mauro Alencar cita Eva Wilma (Mulheres de Areia, 1975), Lucélia Santos (Escrava Isaura, 1977) e Glória Pires (Cabocla, 1979). "Nesse período, a que chegou mais perto foi a Carolina de A Moreninha, vivida por Nívea Maria", diz o estudioso. A "namoradinha" começou a entrar em declínio quando Regina Duarte decidiu que sua carreira precisava de um novo rumo e partiu para um papel radicalmente diferente – a divorciada que vai à luta em Malu Mulher. Nos anos 80 e 90, várias atrizes reivindicaram o título, mas os tempos eram outros. À Lurdinha de Anos Dourados, vivida por Malu Mader, faltava a "pureza" de que fala Alencar – embora a personagem fosse virgem no começo da trama. Nenhuma atriz foi mais comparada a Regina Duarte que Adriana Esteves quando ela despontou para o estrelato, vivendo a Patrícia de Meu Bem, Meu Mal (1991). Mas a determinação com a qual ela perseguia o amor do galã Ricardo, homem mais velho vivido por José Mayer, não combinava com o figurino. "Namoradinhas" como Regina Duarte nos anos 70 não vão atrás – esperam que o homem venha até elas. A Thelminha de Grazi é exatamente assim. Com o ar de quem não entende os códigos do amor numa cidade grande, ela parece clamar por um galã que a ensine. É um tipo recorrente na ficção desde que o escritor irlandês George Bernard Shaw o inventou, no começo do século XX, na peça Pigmalião – que inspiraria a mais conhecida versão cinematográfica do personagem, a deliciosa Audrey Hepburn de My Fair Lady. A "namoradinha" é a versão brasileira desse arquétipo literário e cinematográfico.

Grazi já está no imaginário romântico. Agora, ela precisa entrar no imaginário do samba. Com a batucada ao fundo, suspiros e sorrisos de moça recatada ficam em segundo plano. O que conta são atributos mais, por assim dizer, firmes. Para consegui-los, Grazi se esforça. Nos últimos dois meses, a atriz de 1,73 metro de altura e 58 quilos distribuídos em um corpo longilíneo fez mais de 30 sessões de 75 minutos de malhação pesada. O objetivo: aumentar as pernas e o bumbum, principais alvos das câmeras de toda musa no Sambódromo e de um complexo da própria atriz. "Ah, eu sou só ajeitadinha. Tenho as pernas finas e sou desbundada", diz Grazi. Seu cotidiano dos últimos tempos inclui agachamento para as coxas e exercícios com caneleiras de 12 quilos para reforçar o bumbum, além de abdominais para secar a barriga. "Os últimos dias serão para dar uma secada na barriguinha", diz o personal trainer Marcello Barbosa, responsável também por esculpir o corpo da apresentadora Angélica.

Na disputa entre musas não basta ser bonita ou sexy. Para tomar de Juliana Paes o título de Rainha do Carnaval – a morena desfila novamente neste ano na favorita Viradouro -, Grazi enfrenta ainda aulas de samba com as passistas de sua escola, a Grande Rio, vice-campeã do Carnaval do ano passado. "Só não dá pra rebolar que nem elas. Você já viu? Elas têm alguma coisa no quadril que é só delas", afirmou Grazi durante um dos ensaios. O esforço está agradando. O presidente da escola, Jayder Soares, deu de presente à atriz um colar de ouro, rubis e brilhantes com a forma do símbolo da escola.

A trajetória de Grazi é admirável também porque, entre todos os candidatos a ator que passaram pelo programa Big Brother Brasil, ela é provavelmente a mais bem-sucedida. Em 2004, Grazi comemorava o terceiro lugar num concurso de miss, depois de ter sido babá e manicure em Jacarezinho, no interior do Paraná. Escolhida para o Big Brother de 2005, ela chegou à final, vencida pelo professor baiano Jean Wyllys. Foi no BBB que conheceu Alan Passos, seu "namorido (namorado-marido)", na definição da atriz. "No começo, ela era só famosa por ser famosa. Mas conseguiu manter a visibilidade depois do BBB", afirma o publicitário Lula Vieira. Depois do BBB, Grazi tornou-se uma espécie de total-flex da publicidade, fazendo todo tipo de comercial, sem se preocupar com a imagem (por falar em imagem, o fato de ter posado nua para a revista Playboy estranhamente não interferiu em sua aura de pureza). Mas a fama cresceu, e hoje ela é alvo de disputas ferrenhas. De acordo com a legislação, Grazi só poderá aparecer em comercial de cerveja aos 25 anos, idade que completará em junho. Mesmo assim, a cervejaria Itaipava, patrocinadora da Grande Rio, e a Brahma, dona do camarote mais famoso do Carnaval, já disputam a jovem.

Grazi vive hoje numa casa no Recreio dos Bandeirantes, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, com o "namorido" Alan e Carolina, uma fêmea de golden retriever. "Eu sou musa do meu negão", diz Grazi. Dele, dos leitores de ÉPOCA, dos telespectadores de Páginas da Vida, da torcida do Flamengo – e, se calhar, da do Vasco também. A nova namoradinha do Brasil prepara a fantasia em tons de ouro com que pretende desfilar na Grande Rio. Assim vestida, a musa do Carnaval poderia também ser musa de Chico Buarque:

Todo ano eu lhe fazia
Uma cabrocha de alta classe
De dourado eu lhe vestia
Para que o povo admirasse.

Não parece que "Quem Te Viu (no Big Brother) Quem Te Vê (na Sapucaí)" foi feita para ela?

MindTools: As Ferramentas da Mente

MindTools – Ferramentas da Mente… As três funções principais da mente são pensar, sentir, decidir. Pensamento, sentimento e vontade são as três faculdades da mente – para usar a linguagem da filosofia clássica.
 
Se é isso que a mente faz, quais são as ferramentas com as quais ela pensa, sente e decide?
 
As duas principais são a lógica e a linguagem. Não é fácil dizer qual das duas é mais básica, porque elas se interpenetram e, às vezes, até parecem se confundir. Mas eu considero a lógica a ferramenta mais básica, mais fundamental. Podemos ter várias linguagens – mas, a despeito dos marxistas, que falam em uma suposta lógica dialética, temos apenas uma lógica. Mas não é só por isso. O tipo de linguagem que nós, humanos, temos é conceitual: uma linguagem que, exceto no caso de nomes próprios, se refere a conceitos, não a coisas ou objetos. E um conceito é uma entidade lógica, como veremos a seguir.  
 
Comecemos, portanto, por ela: a lógica.
 
A lógica opera em duas dimensões: a dimensão dos conceitos e a dimensão dos enunciados (ou das proposições). Falemos primeiro da dimensão dos conceitos.
A matéria prima bruta sobre a qual a mente opera são as sensações sensoriais. Estamos, constantemente, sendo submetidos à uma quantidade enorme de sensações visuais, auditivas, olfativas, gustativas, táteis: uma multidão de imagens, sons, cheiros, gostos, impressões táteis (interessante, mas não parecemos ter um nome pronto para o objeto de nossas sensações táteis). Percebemos, no entanto, apenas algumas dessas sensações. O nível da percepção já permite um primeiro processamento das sensações. Mas os nossos "perceitos" (aquilo que percebemos) é sempre particular e concreto. São os perceitos a matéria prima processada da operação seguinte, mais importante: com base nas similaridades que percebemos nos diversos perceitos, construímos conceitos. Enquanto perceitos são particulares e concretos, conceitos são gerais e abstratos. Quantos objetos particulares e concretos que têm quatro patas, são peludos, e latem nós já percebemos? Milhares. Em geral os percebemos ao mesmo tempo que recebemos uma quantidade enorme de outras impressões sensoriais: o pano de fundo em que se encontram esses cachorros. Mas "isolamos" desse pano de fundo as impressões sensoriais correspondentes aos objetos particulares e singulares que chamamos de cachorros. Esse objeto isolado é o que eu chamo de um perceito. Com base em vários perceitos que possuem, entre si, determinadas semelhanças, construímos o conceito de cachorro. O conceito é geral e abstrato. Ele não se confunde com nenhum cachorro particular e concreto que já vimos – mas se aplica a todos eles. Construímos conceito através de um processo de abstração, integração e diferenciação. Em outro artigo discutiremos isso.
 
A lógica dos conceitos trata dos processos através do qual construímos conceitos. Mas conceitos são entidades estáticas. Para que possamos afirmar coisas acerca do mundo em que vivemos, e acerca de nós mesmos, precisamos ir além deles, combinando-os em enunciados ou proposições. "O cachorro de meu neto é um labrador de cor de caramelo". Enunciados ou proposições são afirmações que fazemos acerca do mundo. Sua característica básica é ter de ser ou verdadeira ou falsa – uma das duas, mas não ambas as coisas. Todo enunciado é ou verdadeiro ou falso. Não há enunciado que seja verdadeiro e falso – da mesma forma que não há enunciado que não seja nem verdadeiro nem falso. Por isso, os três axiomas básicos da lógica dos enunciados ou das proposições são:
 
a) Todo enunciado é ou verdadeiro ou falso – não há uma terceira possibilidade (tertium non datur). Esse é o axioma do terceiro excluído.
 
b) Nenhum enunciado é verdadeiro e falso – tem de ser apenas um dos dois. Esse é o axioma da não contradição.
 
c) Se um enunciado é verdadeiro, ele será verdadeiro sempre, e se é falso, será falso sempre. Não há como um enunciado ser verdadeiro agora e falso amanhã, ou vice-versa. Esse é o axioma da identidade.
 
Alguns, que nunca lidaram com lógica pode achar esses axiomas triviais – e de certo modo eles assim o parecem, em parte porque estão tão implantados em nossa mente que parecem óbvios.  Outros podem achar esses enunciados absurdos – especialmente o terceiro.
Em outros artigos lidarei com essas questões. Aqui quero ir direto ao meu ponto final. Conceitos, apesar de entidades lógicas, recebem nomes, que são entidades lingüísticas. E enunciados ou proposições, que também são entidades lógicas, são expressos através de sentenças, frases, orações, que também são entidades lingüísticas.
 
O pensamento, porém, apesar sempre expresso numa linguagem particular e concreta, é uma entidade lógica. E, de igual forma, o sentimento e a decisão.
 
As ferramentas principais da mente são, portanto, a lógica e a linguagem.
 
Uma observação final.
 
Os medievais, quando pensavam em educação, pensavam em um processo de aprendizagem que envolvia três conjuntos de aprenderes básicos (ou o desenvolvimento de três competências básicas): a lógica, a linguagem e a retórica (o Trivium). A retórica é a capacidade de usar a linguagem para evocar emoções e sentimentos, suscitar a ação. Muitos confundem a retórica com a lógica. A função desta é convencer racionalmente; a da retórica é mexer com as "molas propulsoras" de nossas ações, que são as nossas emoções. Uma retórica sem lógica é vazia. Mas uma lógica sem retórica pode ser ineficaz para nos levar a agir.
 
Em Campinas, 27 de fevereiro de 2007

Administração do Tempo – Entrevista para Revista é Domingo (2007)

[Entrevista dada por e-mail para Vanessa Olivier, da revista É Domingo, de Sorocaba. As perguntas estão em negrito, depois da palavra “Pergunta”. Há várias outras matérias sobre esse tema aqui neste blog.]

Pergunta: Como organizar o tempo na vida pessoal, conseguindo um equilíbrio entre trabalho, família, lazer?

Interessei-me pelo tema porque, há uns 15 ou 16 anos, andava assoberbado pelas demandas do  trabalho – era professor da UNICAMP, consultor de empresas, consultor de escolas, estava casado, tinha mulher e quatro filhos, etc. Lazer, nem se pensava. Férias eu não tirava. Nos meses de férias escolares o normal era a mulher ir parar a praia com os filhos e eu ficar em casa trabalhando. Fora das férias, trazia diariamente trabalho para fazer em casa à noite. A maior parte das pessoas conhece bem o problema. Mas, por outro lado, li, naquela ocasião, que o presidente de uma grande empresa multinacional havia saído de férias por 30 dias, e ido para Ushuaia, na Terra do Fogo, e que lá esquecia totalmente do seu trabalho. Queria apenas divertir-se e descansar. Perguntei-me: como é que pode? como é que ele consegue?

Fui estudar a questão e percebi, primeiro, que não há solução fácil ou mágica. A vida contemporânea é complexa mesmo e faz inúmeras demandas sobre o nosso tempo. Mas, em segundo lugar, descobri que, embora não fosse coisa fácil, nem que envolvesse mágica, havia uma série de medidas que podiam nos ajudar a assumir controle de nossa vida – porque é disso, em última instância, que se trata.

A primeira medida é ganhar clareza sobre como gastamos o nosso tempo – fazendo um acompanhamento detalhado dos nossos dias durante um certo período.

A segunda medida é analisar cuidadosamente esses dados, classificando-os entre “Importantes e Urgentes”, “Importantes mas não Urgentes”, “Não-Importantes mas Urgentes” e “Não-Importantes e Não-Urgentes”.

A terceira medida é imediatamente deixar de fazer o que não é nem importante nem urgente. Não é difícil entender o bom senso dessa medida. O difícil é decidir o que é que não é nem importante nem urgente. Ler jornais e revistas semanais de cabo a rabo, navegar sem rumo pela Internet, checar os e-mails duzentas vezes por dia, arranjar os ícones de Windows na tela, brigar demoradamente com a atendente da operadora de telefone por causa de um erro de cinco reais na conta, etc. – nada disso é, pareceu-me então, nem importante, nem urgente. Ganhei preciosos minutos por dia e por semana deixando de fazer isso.

A quarta medida é lidar com o que é urgente mas não é importante. Como as coisas aqui são urgentes, não é possível simplesmente deixar de fazê-las. A solução mais costumeira é delegá-las. Uma secretária, um assistente, um estagiário, um office boy, uma empregada doméstica – ou mesmo o cônjuge ou os filhos – podem assumir muitas dessas tarefas, alguns de forma remunerada, outros como encargos familiares. O problema é que muita gente é incapaz de delegar. Por alguma razão, acredita que só ele é capaz de fazer, e fazer bem, as coisas que é urgente fazer. Conheço um grande advogado que não delega para estagiários nem mesmo a tarefa de ir ao Fórum para lá acompanhar o andamento de processos. Segundo alega, uma vez fez isso e perdeu um prazo importante porque o estagiário bobeou. Mas nunca iremos conseguir administrar o tempo se não soubermos delegar – e lidar com eventuais problemas à medida que aconteçam. A incapacidade de delegar é o primeiro dos inimigos da boa administração do tempo.

Isso resolvido, temos de lidar, como quinta medida, com o que realmente vale a pena: as coisas importantes. É aqui que entra a questão do foco, hoje muito discutida.

Algumas das tarefas importantes são também urgentes: se não pudermos delegá-las a quem possa realizá-las bem, temos de nos dedicar a elas imediatamente e fazê-las o mais rápido possível. Sem relaxo, mas, também, sem perfeccionismo. Se a incapacidade de delegar é o primeiro inimigo da boa administração do tempo, o perfeccionismo é o segundo inimigo. A pressa, dizem, é inimiga da perfeição. Mas a busca da perfeição, embora necessária nas artes e no esporte, é inimiga da gestão eficaz do tempo. O artista e o esportista só conseguem chegar perto da perfeição porque são focados exclusivamente numa só área da vida – deixam tudo o mais de lado. Nós, pobres mortais, que não podemos fazer isso, tempos de abrir mão da busca da perfeição  – sem, porém, abrir mão de certos padrões de qualidade.

Outras coisas importantes não são tão urgentes, ou assim nos parecem. A nossa tendência aqui é procrastinar – empurrá-las com a barriga. A procrastinação é o terceiro grande inimigo da boa administração do tempo. Ter tempo de qualidade com a família é importante para você? Priorize isso. Abra mão, se necessário, de outras coisas menos importantes. Tenha foco. Cuidar de sua saúde, exercitar-se, ter lazer, é importante para você? Priorize isso. Tenha foco. Nada faz com que algo importante seja focado e se torne também prioritário e urgente como um grande susto com a saúde: um infarto, por exemplo. Sei do que falo nesta questão – embora às vezes me pegue me comportando como se não soubesse…

Pergunta: Qual são as conseqüências para quem não consegue tempo para a saúde, para o lazer, para a família?

Um infarto, por exemplo, como acabo de mencionar… Ou o cônjuge encontrar alguém que lhe dê mais tempo e atenção… Ou perceber que os filhos cresceram e você não notou, e, hoje, é quase um estranho em suas vidas… Ninguém conscientemente deseja essas coisas. Mas, frequentemente, nos comportamos não só como se não nos importássemos, mas até mesmo como se as desejássemos!

Pergunta: No que isso pode prejudicar no mundo dos negócios?

Uma pessoa de negócio com problemas de saúde ou com problemas familiares não tem condições de apresentar o mesmo desempenho que apresentaria se a saúde estivesse 100% e tudo estivesse bem com o cônjuge e os filhos.

Pergunta: Quais são as principais barreiras encontradas pelas pessoas que não conseguem administrar sua agenda? E como elas podem rompê-las?

Já as listei: incapacidade de delegar, perfeccionismo, procrastinação. É possível adquirir novos hábitos nessas áreas – mas não é fácil: exige determinação, paciência e persistência. Sempre vai haver recaídas – mas não podemos usá-las como justificativa para voltar aos velhos hábitos.

Pergunta: O que é preciso saber para conseguir sucesso na vida profissional e pessoal?

Gosto de listar os 8 P’s: Pensamento, Propósito, Paixão, Plano, Produção, Provisão, Postura, e Persistência. O sucesso só bem para quem sabe o que busca, para quem sabe aonde quer chegar. Essa a função do Pensamento: uma idéia norteadora que vai nos servir de bússola. Mas o Pensamento só não basta: é preciso que ele se transforme em um Propósito – e que esse Propósito seja perseguido com Paixão. Mas a Paixão não é substituto para a elaboração de um Plano de Ação racional para realizar o Propósito – e um Plano que seja verdadeiramente de Ação, certamente não pode ficar no papel: precisa ser posto em prática, transformado em ação. Essa é a função do que chamo de Produção. Mas para pôr o plano em ação é necessário fazer Provisão: buscar os recursos e os instrumentos requeridos pelo plano para que se transforme em realidade. Isso, no entanto, não se consegue sem Postura: adesão séria a princípios e valores que contribuam para o sucesso. Por fim, Persistência. Vai haver problemas e dificuldades, haverá horas em que ficaremos tentados a desistir… Mas os que são bem sucedidos são aqueles que, mesmo quando caem, “levantam-se, sacodem a poeira e dão a volta por cima”.

Pergunta: Por fim, qual é sua formação profissional e quais são suas especialidades.

Fiz curso de graduação em Teologia e Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em História (Mestrado) e Filosofia (Doutorado). Fui professor universitário durante 35 anos – 32 dos quais na UNICAMP, da qual me aposentei no final do ano passado (2006). Há cerca de 25 anos me enveredei pela área do uso da tecnologia na eficiência pessoal, no treinamento, na educação. Isso é hoje uma de minhas áreas de atuação profissional, como consultor. A Microsoft é minha principal cliente aqui. Desde janeiro deste ano  (2007) sou Secretário Adjunto de Ensino Superior do Governo do Estado de São Paulo. E, por fim, como já disse, sou casado, tenho quatro filhos e sete netos.

Em Campinas, 25 de fevereiro de 2007

Meet Joe Black — ou Komm, süsser Tod

David Hume, filósofo escocês do século XVIII, sobre o qual escrevi minha tese de doutoramento, escreveu uma vez um ensaio sobre milagres, em que (entre outras coisas) estabeleceu uma distinção entre eventos miraculosos (miracula) e eventos maravilhosos (mirabilia). Estes são eventos que raramente acontecem – mas que encontram, em nossa experiência pessoal, alguns exemplos. Se alguém que estava seriamente doente de repente sara, isso é, segundo Hume, um evento maravilhoso. Embora não com freqüência, a maior parte de nós já viu isso acontecer. Se, entretanto, alguém que estava morto e enterrado há três dias volta à nossa convivência, isso seria, segundo Hume, um milagre. Nenhum de nós (garante ele) jamais viu isso acontecer. Assim sendo, o evento, se acontecesse, contrariaria toda a nossa experiência pessoal – o que comprovaria o seu caráter miraculoso.

A questão principal a que se dedica o ensaio de Hume é se relatos de eventos miraculosos — o fato de serem relatos pressupõe que nós mesmos não os presenciamos — são críveis ou devem ser sumariamente desconsiderados. A resposta dele é que devem ser sumariamente desconsiderados. A única hipótese em que ele se dispõe a acreditar que um milagre relatado de fato aconteceu é se a possibilidade de que quem relatou estivesse enganado ou tentando enganar fosse ainda mais miraculosa do que o fato relatado.

Mas não vou entrar nessa questão. Fiz esse preâmbulo todo para dizer que geralmente não gosto de livros ou filmes que tratam de eventos miraculosos ou mesmo maravilhosos (na acepção Humeana). A exceção é Encontro Marcado (Meet Joe Black – 1998, direção impecável de Martin Brest), com Brad Pitt (no papel de Joe Black, a Morte), o incomparável Anthony Hopkins (no papel do empresário Bill Parrish) e uma das figuras femininas mais doces da tela: Claire Forlani (no papel de Susan Parrish). O restante dos atores está bem lançado mas tem papel claramente subsidiário.

O filme começa com duas momentos bem construídos.

No primeiro, Brad Pitt encontra Claire Forlani numa lanchonete. Parece um caso daqueles em que, num primeiro encontro, um raio fulmina os dois e os deixa fascinados um pelo outro. Mas eles se separam e, sem que ela saiba, ele é atropelado ao virar para trás no meio da rua para verificar se ela está olhando para ele. Atropelado e morto.

No segundo, Anthony Hopkins tem um infarto e é confrontado pela Morte – já encarnada em (no corpo de) Brad Pitt. Desejoso de aprender um pouco mais sobre a vida, a Morte tinha de assumir um corpo humano, e por isso assumiu o corpo do rapaz que havia morrido atropelado mais cedo no dia. Como seu guia e mentor, a Morte escolheu o infartante Anthony Hopkins e lhe propôs um acordo: postergaria a sua morte enquanto ela, Morte, conseguisse aprender e se divertir como ser humano – tarefas de que Anthony Hopkins, que havia vivido uma vida boa e bem sucedida (iria completar 65 anos em poucos dias), teria de se desincumbir. Quando decidisse que era a hora de levar Anthony Hopkins, não haveria discussão. Anthony Hopkins fechou o acordo – a alternativa seria morrer incontinenti.

Brad Pitt recebe o codinome de Joe Black a partir daquele momento e segue Anthony Hopkins para casa, onde é apresentado à família. O romance de Brad Pitt com a deslumbrante Claire Forlani, iniciado na lanchonete, quando o dono do corpo agora ocupado pela Morte ainda estava vivo, é inevitável. Mas toda a platéia, e, certamente, os dois protagonistas masculinos, sabem que o romance não tem futuro. Claire Forlani, naturalmente, não o sabe.

É essa a história. Como se vê, é uma história que envolve componentes no mínimo maravilhosos, na conceituação de Hume. Mas eu não me canso de ver o filme. Procurei fazer um pouco de auto-análise para entender por quê, e cheguei a duas principais razões:

Primeiro, porque assisti ao filme pela primeira vez logo depois de eu próprio ter tido um infarto. Há, portanto, um paralelo importante e vital (mortal?) entre a figura representada por Anthony Hopkins e eu: ambos estamos vivendo em tempo discricionariamente concedido (não me perguntem por quem) – uma prorrogação da duração normal do jogo, que já devia ter-se encerrado. Faz uma diferença enorme viver, digamos, de pleno direito, dentro dos noventa minutos, e viver em um tempo prorrogado, que pode durar mais ou menos, dependendo do arbítrio de um juiz que, na vida real, diferentemente do filme, a gente não encontra…

Segundo, Anthony Hopkins tem um relacionamento especial com a filha mais nova. É paixão de pai para filha – paixão correspondida. A preferência paterna pela caçula é impossível de esconder ou disfarçar – e ele não consegue nega-la para a filha mais velha, quando esta o confronta e lhe diz que o ama, mesmo sabendo de sua preferência pela outra filha. "Não faço questão de ser sua favorita", diz ela ao pai, "porque o importante para mim é que você é o meu favorito"… Os olhos dele se enchem de lágrimas (como os meus, aqui, relatando…) mas ele corajosamente não contesta a afirmação. Qualquer homem mais fraco sucumbiria à tentação de afirmar o igualitarismo naquela situação – não o personagem de Anthony Hopkins. Gosto de vivenciar (ainda que vicariamente) essas questões em que as pessoas não mascaram a realidade em nome de supostos ideais, mas a enfrentam, corajosamente, cara-a-cara, sustentando aquilo que pensam, que sentem, que são, por mais politicamente incorreto que isso possa parecer.

Por essas duas razões, e por uma série de outros detalhes, gosto muito do filme, a despeito de seu fundo maravilhoso ou até meio miraculoso. A prova de que o filme é bem feito está no fato de que eu me identifico com a paixão que Anthony Hopkins tem pela filha – não com o amor que Brad Pitt sente por Claire Forlani, amor esse que, ao final, quando Joe Black deixa de existir, virando novamente a Morte, agora não tão sinistra, mas até doce, faz a Morte ressuscitar o rapaz do qual havia roubado o corpo no início — e isso para não deixar a sua amada sozinha…

A morte de Bill Parrish no filme foi doce. Faz lembrar uma ária de Bach: "Komm, süsser Tod"…

Em Campinas, 21 de fevereiro de 2007

O avô paterno do meu neto Gabriel

 Faz mais de um mês que não escrevo – e volto para tocar num assunto triste…

O avô paterno do meu neto mais velho, o Gabriel, foi informado esta semana de que tem, no máximo, mais dois meses de vida. No dia do último aniversário do Gabriel, 30 de setembro, sentei-me ao lado dele na festa e conversamos o tempo todo. Estava bem. Sentia-se bem. Tinha excelente aparência. Aposentado, andava todo dia, comia sensatamente, e preocupava-se com a saúde. De repente, há pouquíssimo tempo, começou a sentir-se fraco, ninguém descobria o que tinha, até que, a semana passada, em operação feita para explorar a causa do problema, descobriu-se que tinha um câncer galopante e que o fim estava próximo.

Nos últimos dois dias está acontecendo uma corrida contra o tempo em que ele tenta colocar em dia aquilo que pode para facilitar a vida da mulher e dos filhos: contas bancárias, investimentos, escrituras, pequenos detalhes da vida que a gente nunca arruma porque nunca imagina que os dias da gente estão contados.

Seria melhor morrer de repente e deixar aos sobreviventes essas ingratas tarefas? Ou seria melhor ter uma agonia prolongada, como tempo suficiente para arranjar as coisas, sem necessidade de correr desesperadamente contra o tempo? Ou seria melhor ser imortal e nunca morrer?

Karl Popper disse, em algum lugar, com muita sabedoria, que é a morte que acaba por dar sentido à vida. A morte significa – para usar um truísmo sem par – o fim da vida. E é porque a vida tem fim, e, na verdade, pode terminar a qualquer instante, que é possível imprimir a ela algum sentido. Se não morrêssemos, se fôssemos indestrutíveis, não teríamos necessidade de valores. Precisamos de valores porque são eles que orientam as nossas escolhas, e a vida humana é feita de escolhas e opções – porque não é eterna. Na verdade, nossa natureza é tal que precisamos escolher, a cada momento, no mínimo se continuamos a viver ou se nos deixamos perecer. Se não agirmos, se não fizermos um esforço consciente para nos sustentar e nos manter vivos, morremos (a menos que outros nos sustentem e cuidem de nós – em cujo caso, não vivemos nós: tornamo-nos parasitas). Mas o que dá maior sentido e importância à vida é o fato inegável de que, mesmo que escolhamos viver, a vida tem um fim, que (a menos que conscientemente optemos por ele, pelo suicídio) independe de nós, e que pode nos sobrevir repentinamente, sem nenhuma decisão de nossa parte.

O menino do Rio de Janeiro que morreu aos seis anos, arrastado por um carro, e que agora ocupa os noticiários, teve sua vida ceifada abruptamente, sem que pudesse ter feito muitas escolhas ao longo de sua curta vida. Meu amigo Ernesto teve uma vida boa até aqui, cheia de realizações e prazeres. Teve um casal de filhos bem sucedidos na vida, tem um casal de netos lindos, um dos quais tenho a boa fortuna de compartilhar com ele. Viajou bastante, desfrutou a vida. Sabia apreciar a boa comida, o bom vinho. Tem uma casa linda no alto do morro da Ilha Bela, que oferece a vista mais deslumbrante que já me foi dado admirar. Tenho certeza de que ele daria essa casa e muito mais para ter algum tempo mais de vida – se tivesse a escolha.

Há quase cinco anos atrás, no dia, tive um infarto agudo do miocárdio. Era 1º de março de 2002. Estava aparentemente bem de saúde. Tinha resolvido uma série de pendências complicadas: processos na Justiça, decorrentes de brigas homéricas com ex-sócios e ex-amigos, que poderiam ter representado minha falência comercial e total desastre para minhas finanças pessoais e minha auto-estima. Havia, com parte do dinheiro resultante dos acordos, comprado um sítio aqui em Salto, onde me encontro agora – um sítio pequeno, mas lindo e delicioso, além de ser perto de casa. Achei que ia finalmente começar a viver, e quase morro. Fiquei dias na UTI. Meu prontuário (tenho xerox) registra que fui recebido no hospital em “condição crítica”. Sobrevivi, por obra e graça de atendimento competente, na UNICAMP e no UNICOR de Campinas. Vivo, como gosto de pensar, na prorrogação – talvez, sem saber, nos descontos, o juiz podendo apitar o fim do jogo a qualquer momento. E, é que é prorrogação, sei que pode terminar com o “gol de ouro” – e esse gol de ouro não será meu… No entanto, conto com a chance, tenho um monte de coisas desarrumadas na vida que, a menos que eu tome um pouco mais de juízo, ficarão para meus descendentes arrumar. . .

Nossas escolhas são livres, mas pagamos um preço por elas. Ayn Rand uma vez disse que somos livres para escolher como desejamos, mas não somos livres para evitar as conseqüências de nossas escolhas. Uma desatenção ao atravessar uma rua pode cobrar o seu preço de imediato. A escolha de fumar, ou de comer picanhas gordurosas, quando somos jovens, pode vir a cobrar seu preço 30 ou 40 anos depois. Para enriquecer mais rápido, optamos por estilos de vida estressantes. Tentamos de forma tão intensa ganhar a vida que não percebemos que a estamos perdendo no processo.

Nem de longe quero sugerir que meu amigo Ernesto colhe agora o fruto de decisões mal tomadas antes na vida. Mesmo que tomemos sempre decisões corretas, a vida tem um fim, que pode chegar mais cedo ou mais tarde. Esse, talvez, o sentido trágico da vida de que falava Unamuno. No meu caso, tenho perfeita consciência de que poderia ter vivido uma vida diferente e ter, quem sabe, me safado do infarto de 2002. Mas também tenho perfeita consciência de que poderia ter morrido em decorrência do infarto – tantos morrem! E me pergunto: por que eu consegui me safar, se não do infarto, de suas piores conseqüências? E me pergunto também: por que o menino do Rio de Janeiro não teve nenhuma chance na vida? Ou, então, por que o meu neto Guilherme morreu, uma semana depois de nascido, mas quase três meses antes da data em que deveria estar nascendo?

Não há resposta convincente para essas perguntas. Quem acredita em Deus atribui essas coisas todas à sua vontade (sua, no caso, dele – ou d’Ele, como eles gostam de escrever). Quem não acredita fica condenado a acreditar no destino – ou na sorte, que é a mesma coisa.

Comecei essa crônica falando do avô do Gabriel. Passo a falar dele. Como é que um menino inteligente, mas de apenas sete anos, lida com essas coisas? Há dias ele perguntou ao pai dele se o avô poderia morrer em decorrência da doença, e o pai lhe disse a verdade, que sim. Como é que uma criança processa essas coisas, lida com elas? Será que ele tem consciência de que eu já poderia ter ido – ou que, do jeito que são as coisas, poderei ainda ir antes do outro avô dele?  

Seria bom que a gente aprendesse lições das experiências que a vida nos traz e aprendesse a planejar a vida com cuidado, fazer escolhas certas. A vida não é eterna. Se o fosse, num sentido terreno, que eliminasse a possibilidade da morte (e não no sentido dos Evangelhos, em que a vida eterna só vem depois da morte), não precisaríamos fazer escolhas, tomar decisões… Poderíamos viver perigosamente, comer tudo o que quiséssemos, sem correr riscos. Se gostássemos de literatura e filosofia, poderíamos escolher estudar a primeira durante um século e a segunda durante o século seguinte – que diferença faz um século diante da eternidade? Escolher uma coisa não significaria, neste caso, necessariamente, abrir mão da outra. . . Se gostássemos de várias mulheres, de forma igual, poderíamos escolher viver com todas, com cada uma durante, digamos, cinco décadas (ou seria isso demais até mesmo diante da eternidade?) . . . Novamente, escolher uma coisa não significaria, neste caso, necessariamente, abrir mão da outra, mesmo mantendo uma fidelidade “serial” – fidelidade a cada uma de cada vez . . . Mas, feliz ou infelizmente, sei lá, a vida não é eterna. A vida que temos é essa, que tem fim e cujo fim é imprevisível, podendo ser apressado pelas escolhas que fazemos enquanto nos é dado escolher.

Que sentido teria a vida se as escolhas que fazemos não cobrassem seu preço – ou se a vida não tivesse fim, independentemente de nossas escolhas?

Em Salto, 17 de fevereiro de 2007

Acréscimo de 18 de fevereiro de 2007: menos de 24 horas depois de eu escrever e publicar esse texto, Ernest Wild, avô paterno do meu neto Gabriel, sogro de minha filha mais velha, e meu amigo, faleceu em São Paulo.

Aposentadoria e novo cargo

Comunico aos amigos que neste sábado, 13/1/2007, deverá ser publicada no Diário Oficial do Estado minha aposentadoria da UNICAMP, após 35 anos, 2 meses e 28 dias de serviço (contados até 31/12/2006).

Já há cerca de um ano que vinha tirando licenças prêmios e férias, antes de me aposentar. E antes disso tive um infarto e tirei licença saúde. Na verdade, sobraram-me 30 dias de férias, dos quais abri mão para poder me aposentador mais rapidamente.

A razão para a pressa é que fui nomeado pelo Governador José Serra, em 4/1/2007, Secretário de Estado Adjunto de Ensino Superior no Estado de São Paulo. Vou trabalhar com o Prof. José A. Pinotti, colega e amigo, com o qual já trabalhei aí na Reitoria da UNICAMP, de 1984 a 1986 (depois que deixei a Diretoria da FE), na Secretaria da Educação (1986-1987), onde fui Diretor do Centro de Informações Educacionais, e na Secretaria da Saúde (1987-1990), onde fui Diretor do Centro de Informações de Saúde.

A Secretaria de Estado de Ensino Superior foi criada agora e tem a tarefa de pensar a política de ensino superior do estado (questões, por exemplo, ligadas ao acesso/ingresso, à permanência ou evasão, à saída e à empregabilidade, etc. dos alunos de curso superior, em especial público.) Está no campo da missão da secretaria também a questão da eqüidade e como enfrentá-la: não parece justo que a universidade pública e gratuita seja freqüentada predominantemente por alunos mais ricos. O desenvolvimento da Educação a Distância nos níveis de Graduação e Pós-Graduação no Ensino Superior Público Paulista também está na missão da secretaria — e outras coisas mais. As três universidades estaduais paulistas (USP, UNICAMP e UNESP), bem como as Faculdades de Medicina de Marília e São José do Rio Preto, que são escolas isoladas mantidos pelo governo de São Paulo, passam a ficar vinculadas à secretaria. De igual modo o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas, que será doravante presidido pelo Secretário. Por fim, passa a ficar vinculada à Secretaria a Fundação Memorial da América Latina (onde trabalha mais um grande amigo, este de infância, o Eliézer Rizzo de Oliveira, marido da Evelyna).

Será um grande desafio, porque estamos começando do nada. Embora só venha oficialmente a tomar posse dia 15, depois da publicação da minha aposentadoria no DOE, já estou trabalhando, das 7h40 até 19h40, 12 horas por dia, desde o dia 2/1/2007 (fato que explica a minha ausência deste blog que me é tão importante). Fico em São Paulo, perto do Palácio dos Campos Elíseos, na Rua Guianazes.

Ganhei mais um e-mail, no processo, na Rede Executiva do Estado: eduardochaves@sp.gov.br. Mas os e-mails antigos continuarão a funcionar.

É isso, por enquanto.

Em São Paulo, 11 de janeiro de 2007