Portugal e o Reino Unido

Estou em Londres, no aeroporto de Heathrow — por algumas horas.  

Há algumas coisas irônicas na vida… Eu viajo bastante. Sempre viajei muito, mas ultimamente tenho exagerado. Pelos meus cálculos, conheço mais de 45 países. Por cinco anos seguidos alcanço a categoria de passageiro Elite 1K da United, que me dá uma série de privilégios e mordomias.

Sou descendente de portugueses, tanto do lado paterno como do materno. E, durante o meu doutorado, me especializei no Iluminismo Britânico, estudando o Deísmo e filósofos como David Hume, sobre o qual acabei escrevendo minha tese de doutoramento.

No entanto, apesar das minhas tantas viagens, até este ano nunca havia colocado os pés em Portugal e no Reino Unido. Estive em Portugal durante 16 dias em Novembro. Hoje, estou aqui na Inglaterra – e, mesmo assim, apenas de passagem, no aeroporto de Heathrow. Mas coloquei os pés em solo britânico, por algumas horas (serão mais ou menos sete: cheguei às 5 da manhã e sairei ao meio-dia, com destino a São Paulo).

Sendo descendente de portugueses e tendo me concentrado na filosofia inglesa e escocesa do século XVIII, era-se de esperar que eu tivesse visitado Portugal e o Reino Unido antes dos meus vetustos 63 anos. No entanto, nunca antes deu certo. Este ano deu certo em relação a Portugal. Em relação ao Reino Unido, ainda realmente não deu — estou apenas no aeroporto.  

A ironia é que, nos últimos anos, tenho estado com freqüência em países da Ásia, continente que pouca coisa tinha que ver comigo. De 2004 para cá estive em Taiwan (três vezes, a quarta será em Maio de 2007), Hong Kong (duas vezes), Coréia do Sul, agora Malásia. Em Fevereiro de 2007 deverei ir à Cambódia, e, tudo dando certo, darei um pulo ao Vietnam, que, por razões históricas e biográficas, gostaria de conhecer. Antes, em 1984, estive na Coréia do Sul, em Hong Kong, na China, na Tailândia, na Índia… Por que é que os volteios da vida me permitiram visitar esses países, alguns mais de uma vez, antes de eu ficar conhecendo a terra de meus antepassados e antes de colocar os pés (por poucas horas) naqueles que são os meus antepassados intelectuais, ao qual devo muito de minha formação intelectual?

É difícil entender os vais-e-vens da vida.

Em Londres, 10 de dezembro de 2006

Igualdade

Os socialistas sempre tiveram uma utopia: um mundo igualitário. É verdade que nunca dizem exatamente o que entendem por “igualdade”: se, além da igualdade de direitos, que é a igualdade política, é preciso alcançar também igualdade social e igualdade econômica. Eles em geral tergiversam aqui. O mais das vezes dizem apenas que a igualdade de direitos, ou igualdade política, preconizada pelos liberais, é uma igualdade apenas “formal” (no que estão certos) – que eles chamam, pejorativamente, de “igualdade burguesa”.

Alguns socialistas, apesar de se referirem pejorativamente à igualdade preconizada pelos liberais, reconhecem que ela é importante, mas afirmam que é preciso ir além dela. Outros, porém, não raro estão dispostos a abrir mão dela, ao propor “tratamentos diferenciais e preferenciais” com o objetivo de chegar mais rapidamente à igualdade que, para eles, realmente importa: a igualdade social e, quem sabe, a econômica.

Na verdade, se a gente colocar um socialista contra a parede, ele provavelmente vai admitir que está disposto a abrir mão da igualdade “formal”, da igualdade de direitos, na busca da igualdade “substantiva”, que envolve aspectos sociais e econômicos.

Os liberais não têm, no estrito senso da palavra, uma utopia. Eles se contentam com algo que é bem mais modesto e, por causa disso, perfeitamente alcançável: um mundo em que todos sejam igualmente livres (no sentido de não serem coagidos por terceiros) e tenham iguais direitos fundamentais (à integridade pessoal, ou seja, à vida e à segurança; ao exercício de sua liberdade, ou seja, à expressão, à locomoção, à associação, ao estabelecimento de contratos, à busca da felicidade; e à propriedade daquilo que obtêm com o seu trabalho ou por meio de troca ou compra).

Os liberais reconhecem que um mundo como esse será, dado o fato inegável de que seres humanos são diferentes em seus talentos naturais, em sua capacidade de aprender, em sua motivação, em sua capacidade de perceber e aproveitar oportunidades, em sua capacidade de trabalho, e, naturalmente, em sua sorte, haverá desigualdades – especialmente desigualdades econômicas, mas, provavelmente, também desigualdades sociais. Mas essas desigualdades são, para ele, perfeitamente compatíveis com a igualdade de direitos.

Os liberais estão convencidos de que a igualdade sócio-econômica defendida pelos socialistas são pode ser alcançada, em teoria, de duas maneiras:

*        enriquecendo os mais pobres, de modo que todos fiquem igualmente ricos (ou remediados);

*        empobrecendo os mais ricos, de modo que todos fiquem igualmente pobres.

Embora os socialistas professem buscar a igualdade enriquecendo os mais pobres (dando-lhes dinheiro na forma de bolsas ou serviços públicos pelos quais não pagam), nunca conseguiram chegar à igualdade dessa forma — porque os ricos (ou, digamos, os que não dependem da caridade governamental) sempre conseguem ganhar mais dinheiro mais rapidamente.

Os socialistas só conseguiram alguma medida de igualdade sócio-econômica, pela força, tentaram empobrecer os ricos. Tomemos Cuba, por exemplo. Os socialistas conseguiram prender e matar alguns ricos. Mas a maioria teve como fugir. A maior parte dos ricos cubanos foi, no início da revolução comunista na ilha, Miami ou outros lugares. Continuam ricos até hoje, embora tenham deixado suas propriedades (fazendas, fábricas, negócios, casas, bens em geral) em Cuba.

Os socialistas que ficaram em Cuba, que não sabem gerar riqueza, não souberam o que fazer com os bens que o governo de Fidel Castro roubou (nacionalizando) dos ricos. Todo mundo que ficou em Cuba se tornou pobre — menos El Comandante, porque quem parte e reparte (distribuir riqueza não é isso?) e não fica com a maior parte…

 

Qual o segredo da eliminação da pobreza em Calcutá e em Shangai, por exemplo? É deixar os ricos ficarem ricos, porque eles, ao ficarem ricos, tiram uma multidão de pobres da pobreza.

Os socialistas, porque têm essa fixação pela desigualdade, não conseguem resolver o problema da pobreza: quem resolve o problema da pobreza é, ironicamente, os liberais capitalistas, que o fazem por meios privados, não através da ação governamental (políticas públicas).

Na verdade, os socialistas parecem ter um enorme desinteresse pela solução do problema da pobreza. Sempre argumentam que é preciso resolver o problema da desigualdade sócio-econômica – e  que o problema da pobreza seria resolvido resolvendo-se o problema da desigualdade sócio-econômica.

Como vimos, não se resolve o problema da pobreza assim. As tentativas de resolver o problema da desigualdade sócio-econômica que o socialismo tem patrocinado só conseguiram aumentar o número de pbores, porque só conseguem alcançar alguma medida de igualdade empobrecendo os ricos e fazendo, de todos, pobres..

É possível até especular que o desinteresse dos socialistas pela solução do problema da pobreza – que é um problema perfeitamente solucionável por caminhos liberais capitalistas – tem uma causa ulterior: insistir na solução do problema insolucionável da desigualdade, porque, com esse problema, sempre terão um campo de reivindicações enorme para suas ações.

A redução da pobreza pode se dar enquanto AUMENTA desigualdade. Aliás, em locais como Shangai e Calcutá, em que tem havido significativa redução da pobreza, essa redução se deu com o aumento da desigualdade. Todo mundo era pobre. Todo mundo melhorou de vida. Uns saíram da pobreza e ficaram remediados. Outros saíram da pobreza e ficaram milionários. Outros saíram da pobreza e ficaram multimilionários, bilionários. Uns poucos ficaram biliardários. Claramente aumentou a desigualdade — mas também reduziu-se a pobreza, chegando a ser eliminada a pobreza extrema. Quem viu Calcutá em 1984 e vê agora não tem a menor dúvida disso.

O liberalismo capitalista é o sistema mais eficaz para combater a pobreza – enquanto, admitidamente, promove a desigualdade. Isso só não vê quem não quer.

Os socialistas de vez em quando afirmam que o liberalismo não tem um sistema de distribuição de riquezas. Eu diria que o liberalismo tem, fundamentalmente, um sistema de geração de riquezas, mas esse sistema claramente envolve uma forma – absolutamente justa, diga-se de passagem – de distribuição de riquezas: quem é mais competente, é mais motivado, se esforça mais, trabalha mais ou melhor, tem mais sorte, acaba ganhando mais. Esse sistema, como eu disse, é justo: faz com que cada um receba o que lhe é devido (a cada um aquilo a que ele fez jus pelo seu trabalho). Esse é o sentido tradicional de justiça: a cada um o que é seu, a cada um aquilo a que ele fez jus. A chamada justiça social é um travesti de justiça: é um método sistemático de produzir injustiças exatamente contra os mais capazes.

Logo, é evidente que o liberalismo tem um sistema de riquezas: tanto que, no capitalismo, a riqueza é distribuída – e o é de forma justa. O capitalismo só não distribui riquezas de forma igual, porque nunca tentou nem tenta nem nunca vai tentar buscar a igualdade sócio-econômica. E, naturalmente, o capitalismo combate a forma injusta de distribuição de riquezas patrocinada pelos socialistas, que envolve tirar de quem tem, isto é, de quem tem competência para gerar riquezas, para dar aos que não têm, isto é, aos que não têm competência para gerar riquezas. Não é de admirar que em toda região em que o socialismo procura implantar seu sistema igualitário, o processo de geração de riqueza acaba sendo penalizado e, por fim, entra em crise, levando à escassez de bens. Basta olhar ao que acontece em Cuba há muito tempo e ao que aconteceu na antiga União Soviética e nos países da antiga Cortina de Ferro.

O capitalismo nem procura reduzir a desigualdade — certamente não através de ação governamental, política públicas, etc. Uma das poucas coisas mais ou menos certas que os socialistas afirmam acerca do liberalismo é que o aumento da desigualdade econômica é um problema ESTRUTURAL do capitalismo – faz parte de sua lógica. O liberalismo, entretanto, não busca a desigualdade: ele busca a geração livre e desimpedida de riquezas. Mas reconhece que a desigualdade econômica é, dadas as diferenças de capacidade, motivação, esforço e sorte existentes entre os seres humanos, inevitável, sempre que o processo de geração de riquezas é livre

Os socialistas afirmam, erroneamente, que para cada pessoa que fica milionária no liberalismo capitalista, são “produzidos” milhões de pobres. Isso não é verdade. Na realidade, é uma besteira de primeira linha. Ninguém “produz” pobres, a não ser o socialismo, que, além de não conseguir enriquecer os pobres, torna os ricos pobres através dos impedimentos que impõe ao processo produtivo livre e através do confisco que faz, mediante impostos e taxas, da renda dos que mais ganham, porque produzem mais ou melhor.

Bill Gates, por exemplo, ficou biliardário — e, no processo, fez milhares de milionários. A Microsoft tem sido a maior fábrica de milionários que o mundo já viu. E ninguém consegue provar que haja uma pessoa só que tenha ficado pobre (que não era pobre antes e ficou pobre) por causa de toda a riqueza gerada nesse processo.

Os socialistas não são capazes de dar o nome e os dados econômicos de UM PAÍS — basta UM — que tenha conseguido alcançar desenvolvimento econômico (geração de riquezas) e igualdade sócio-econômica (distribuição igualitária da riqueza gerada) ao mesmo tempo — ou seja, em que todo mundo ficou igualmente rico (ou, pelo menos, remediado) e não igualmente pobre — em decorrência de políticas socialistas, socializantes, estatistas, intervencionistas, etc. Não estou nem mesmo exigindo que isso tenha sido feito preservando-se as liberdades e os direitos individuais — porque sei que até mesmo a igualdade na pobreza alcançada em Cuba violou essas liberdades e esses direitos.

Em Londres, 10 de dezembro de 2006

Do meu jeito ("My way")

A vida de vez em quando dá umas porradas na gente, quando a gente menos espera. Minha irmã perdeu, recentemente, um atrás do outro, um cunhado e uma cunhada (não casados um com o  outro). Ficou, naturalmente, meio abalada – quem não ficaria? Conversando com ela no Messenger, mencionei uma de minhas canções favoritas: “My Way”, letra de Paul Anka (meio que versão do Francês para o Inglês), interpretação inigualável de Frank Sinatra. Enquanto conversávamos, resolvi traduzi-la para o Português.

Não sou poeta: não consigo traduzir em verso, com rimas e métricas. Mas o resultado, apesar de literariamente precário, é, pelo menos, parece-me, fiel ao original.

A letra da canção é uma lição de vida.

Em Agosto passado, quando estive em Perth, no Oeste da Austrália, fui convidado a participar de um talk show – uma entrevista longa, de uma hora, falando de tecnologia, educação, religião e a vida em geral – da ABC Radio da Austrália. A produção do show me contatou antes e me perguntou se eu tinha uma música favorita. Eles queriam começar o programa tocando a música. Indiquei “My Way”, com o Frank Sinatra. Começaram o programa assim – e me perguntaram, em seguida, por que eu havia escolhido essa música.

Respondi basicamente o seguinte:

Em primeiro lugar, porque que a canção é sobre “My Way” – não “The Way”. Não sou um relativista. Acredito que existam verdades e valores absolutes. Mas em relação ao tipo de vida que vamos viver, e como vamos viver, cada um de nós é soberano – e temos o direito até mesmo de cometer erros, às vezes até uns erros meio bestas. Não raro, é assim que a gente aprende. Seria ótimo se a gente pudesse aprender sempre com os erros dos outros, sem ter de cometer os próprios. Mas não é assim que é a vida. Karl Popper até mesmo sugeriu que quanto mais cedo cometêssemos nossos erros, tanto melhor – mas não nos deu nenhuma garantia de que, se os cometêssemos cedo, não iríamos cometê-los também mais tarde…

Em segundo lugar, porque a canção reconhece que somos responsáveis pela escolha não só do conteúdo de nossas vidas (o que ser, o que fazer, com quem nos relacionar), mas também da nossa maneira de ser, de nossa maneira de fazer as coisas, de nossa maneira de nos relacionar com os outros – enfim, de nosso estilo. Cada um, afinal, tem “seu jeito” – e esse jeito é, ou pode ser, objeto de nossa escolha.

Em terceiro lugar, porque a canção reconhece o fato de que, não importa quanto planejamento a gente faça (“chart our course”, “carefully plan each step”), às vezes as coisas não acontecem como as planejamos.  Não  raro, tentamos abocanhar mais do que conseguimos mastigar (“we bite off more than we can chew”)… Neses casos, a melhor coisa a fazer é cuspir aquilo que foi mordido mas está além de nossa capacidade de mastigar… 

Em quarto lugar, porque a canção reconhece que na vida há impoderáveis, há sorte e azar, há coisas como aquelas que Woody Allen traz à tona em seu lindo filme (com a não menos linda Scarlett Johansson) “Match Point”…

Em quinto lugar, porque a canção reconhece que a vida é feita de amores, de alegrias, de risos – mas também de perdas, de tristezas, de lágrimas… Mas quando esses maus momentos chegam, devemos procurer ficar de pé (“stand tall”) e enfrentá-los  (“take the blows”) – e fazer isso do nosso jeito.

Finalmente, em sexto lugar, por causa da mensagem final: o homem não tem nada, se não for dono de si mesmo. Quem se ajoelha, entrega o controle de sua vida a terceiros.

Aqui está a letra traduzida para o Português:

Do Meu Jeito (My Way)

(P. Anka, J. Revaux, G. Thibault, C. Frankois)

Agora, o fim está próximo, chega a hora da última cortina.
Por isso, amigo, vou apresentar meu caso, do qual não tenho dúvidas.
Vivi uma vida plena, andei por tudo o que é caminho,
Mas, o que é mais importante, sempre fiz tudo do meu jeito.

Arrependimentos, tive alguns, mas poucos para merecer menção.
Eu fiz o que tinha de fazer, fui até o fim, sem exceção.
Planejei meus caminhos, e, neles, escolhi meus passos,
Mas, o que é mais importante, sempre fiz tudo do meu jeito.

Vezes houve, você sabe, quando abocanhei mais do que pude mastigar.
Mas é que, em caso de dúvida, nunca hesitei:
Sempre mordi primeiro, ainda que pra cuspir depois.
Enfrentei tudo, sempre continuei de pé, e fiz tudo do meu jeito!

Eu amei, ri, chorei – de tudo tive minha cota, até de derrotas…
Mas agora, que as lágrimas já secaram, acho tudo até divertido!
Pensar que eu fiz isso tudo, e, se eu posso dizer, sem modéstia,
Ah, não! modéstia não é comigo… Eu fiz tudo do meu jeito!

Pois o que é o homem, no fundo o que é que ele tem?
Se não for dono de si mesmo, ele é pobre, nada tem.
Dono para dizer o que pensa e sente, não as palavras de quem se ajoelha.
Os autos provam: levei porradas, sim, mas fiz tudo do meu jeito!


ORIGINAL:

(P. Anka, J. Revaux, G. Thibault, C. Frankois)

And now, the end is near, and so I face the final curtain
My friend, I’ll make it clear, I’ll state my case, of which I’m certain
I’ve lived a life that’s full I traveled each and every highway;
And more, much more than this, I did it my way

Regrets I had a few, but then, again, too few to mention
I did what I had to do and saw it through without exemption
I planned each charted course, each careful step along the byway
And more, much more than this, I did it my way

Yes, there were times, I’m sure you knew,
When I bit off more than I could chew
But through it all, when there was doubt I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall and did it my way

I’ve loved, I’ve laughed and cried, I’ve had my fill, my share of losing
And now, as tears subside, I find it all so amusing
To think I did all that And may I say, not in a shy way,
"Oh, no, oh, no, not me, I did it my way"

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught,
To say the things he truly feels, and not the words of one who kneels
The record shows I took the blows and did it my way!

Em Kuala Lumpur (já no aeroporto para ir embora), 9 de dezembro de 2006

Latitudes, longitudes, e itinerários sem sentido

Estou aprontando minha mala para voltar ao Brasil, depois de, basicamente, duas semanas em viagem. Saí do Brasil no domingo, dia 26/11, em direção a Kuala Lumpur, Malásia, e estou saindo daqui no sábado, dia 9/12. Aqui mesmo fiquei onze dias: os outros quatro passei viajando.

O trajeto de vinda foi complicado. Voei de São Paulo até Munique, pela Lufthansa, depois de Munique até Bangkok, e de Bangkok a Kuala Lumpur, pela Thai Air. A volta vai ser mais simples. Vou daqui até Londres, pela Malaysia Air, e de Londres a São Paulo, pela British Airways.

De qualquer maneira, o trajeto parece irracional.

São Paulo está basicamente no Trópico de Capricórnio (que seria latitude 23 30 00 S): sua latitude é 23 33 00 S e sua longitude 046 39 00 W.

Kuala Lumpur está basicamente no Equador (que seria latitude 0), que, no Brasil, passa um pouco acima de Belém do Pará. Sua latitude é 03 10 00 N e sua longitude 101 42 00 E.

Munique está bem acima do Trópico de Capricórnio (que seria latitude 23 30 00 N): sua latitude é 48 08 00 N e sua longitude 011 35 00 E.

Quando a Londres, sua latitude é 51 30 00 N e sua longitude 000 10 00 W.  

Entre São Paulo e Munique há, portanto, 71 graus de diferença em latitude, e entre São Paulo e Londres, 74.

A diferença entre São Paulo e Kuala Lumpur, em latitude, é de apenas 20 graus, Kuala Lumpur estando mais ao Norte. No entanto, para vir de São Paulo a Kuala Lumpur eu tive de ir “subir” 71 graus até Munique, e, depois, descer 45 de lá até Kuala Lumpur. Agora na volta o problema é ainda pior. Para ir de Kuala Lumpur a São Paulo, que estão apenas 20 graus de latitude à parte, eu tenho de “subir” 48 graus até Londres e, depois, descer 74 graus até São Paulo.

Não faz sentido. Em termos de trajeto, provavelmente faria mais sentido uma dessas duas hipóteses:

a) Ir, via leste, de São Paulo (latitude: 23 33 00 S / longitude: 046 39 00 W) até Johannesburg (latitude: 26 10 00 S / longitude 028 02 00 E) e de lá para Kuala Lumpur

b) Ir, via oeste, de São Paulo (latitude: 23 33 00 S / longitude: 046 39 00 W) até Sydney (latitude: 33 55 00 S / longitude 151 10 00 E) e de la para Kuala Lumpur

O problema é encontrar companhia aérea que faça esses trajetos.

Antes de terminar, sugiro os seguintes sites:

http://www.getty.edu/research/conducting_research/vocabularies/tgn/?find

Esse site fornece a latitude e a longitude de qualquer local do mundo.

http://www.phy6.org/stargaze/Slatlong.htm

Esse site explica, de forma bastante didática, os conceitos de latitude e longitude (bem como os “universal time” (“Greenwich Meridian Time”, ou GMT), “local time”, “time zone”, “International Date Line”, etc.

Recomendo que quem se interessa por essas coisas, como eu, visite esses dois sites: vai se divertir – e aprender um bocado.

Em Kuala Lumpur, 9 de dezembro de 2006

A Malásia

País interessante a Malásia. Talvez deva me restringir a falar em Kuala Lumpur, a capital, que é a única cidade que conheço. Dizem que o interior é muito menos desenvolvido – e que a parte do país que fica em Bornéu é quase só jungle. Mas vou falar em Malásia – a Malásia que eu estou vendo.

Olhando de minha janela, aqui no Traders’ Hotel, do lado do novo e magnífico Centro de Convenções da cidade (KLCC: Kuala Lumpur’s Convention Center), vejo as Petronas Towers – duas torres arredondadas, lindas, de 88 andares, e que formam, vistas do céu, um 88, visto que cada uma das torres tem uma torrinha menor, que forma a parte de cima de um oito… É uma das vistas urbanas mais lindas que já vi – estou colocando no space algumas fotos das torres, vistas de minha janela, para comprovar. O escritório da Microsoft aqui na Malásia é localizado lá, nos andares 29 e 30.

A parte central da cidade é linda – com uma parte moderna, magnífica, e uma parte tradicional, herdada do período em que a Inglaterra mandava aqui, que é uma mistura de arquitetura britânica com a arquitetura oriental.

Há gente que diz que a Malásia é um país desenvolvido, no que diz respeito ao hardware – mas subdesenvovlvido, no que concerne o software: a mentalidade, o “mindset”… Talvez seja verdade… O hardware é produto da influência ocidental. O software, porém, reflete uma mistura de influências, além da ocidental… O país é uma mistura de etnias (ou raças, como eles chamam aqui). Cerca de dois terços da população é, etnicamente, malaia. O restante se divide entre chineses, indianos, e o resto… A religião segue, de certo modo, as etnias. A maioria malaia é predominantemente muçulmana; os chineses são budistas, confucionistas, cristãos; os indianos são predominantes hindus. Salada mista total. Mas o islamismo é religião oficial do país – embora, dada a diversidade religiosa, o país não seja considerado uma nação islâmica. A diferença, reconheço, é sutil.

O islamismo daqui, porém, não parece ser o radical, fundamentalista. As mulheres muçulmunas, embora cubram a cabeça, não cobrem o rosto, nem se vestem, necessariamente, de preto, como acontece nas nações islâmicas conservadoras. Aqui elas em geral cumprimentam a gente com aperto de mão e parecem não ter traumas em tocar no braço dos homens. Para tirar fotografia com a gente, elas até ficam assim encostadas na gente, como a gente fica no Brasil.

Estive, no dia depois ao da minha chegada, no shopping tecnológica da cidade – uma estrutura de cerca de oito andares, onde só se vende tecnologia: Low Yat Plaza. Ali fiquei surpreso – era meu segundo dia no país – de ver mulheres muçulmanas (inclusive uma, com o rosto totalmente coberto) comprando computadores, discutindo características técnicas, configuração, preço, sozinhas, desacompanhadas. No dia seguinte, durante o congresso, a surpresa continuou – se bem que, a essas alturas, não deveria ser mais surpresa. Um mundaréu de professoras e diretoras de escolas, vestidas em roupas lindas, estampadas e coloridas (como diz um amigo meu, coloridas com todas as cores do zodíaco), carregando pastinhas de executivos, usando notebooks, falando em celulares… O moderno, numa roupagem tradicional.

Quando dei minha palestra, na abertura do congresso, olhei a audiência, de cima do “palco”, e vi cerca de 750 pessoas, a grande maioria mulheres, e a grande maioria delas muçulmanas, e fiquei maravilhado com o festival de vestimentas e cores. Um espetáculo visual de primeira.

Gosto de andar pelas cidades que visito. Aqui, porém, em cima do Equador, o calor torna virtualmente impossível um projeto desses. Ando de transporte público, portanto: metrô (subterrâneo, de superfície e elevado), monorails, trens de subúrbios… O sistema é excelente e funciona impecavelmente. Taxis aqui não são caros. Uma corrida de cerca de 20 minutos não chega a dois dólares. Os táxis, porém, não são muito novos, não… E, como em todo país subdesenvolvido, há taxista safado. Ao voltar do Low Yat Plaza, peguei um taxi e vi que ele ia saindo sem iniciar o taxímetro. Perguntei a ele (em Inglês – todo mundo aqui fala Inglês, herança do período colonial) se não iria ligar o taxímetro. Disse que não: a corrida seria 15 ringgits, fixos, porque era hora do rush. Eu disse a ele para parar, que iria descer… (A minha ida tinha ficado em cerca de 5 ringgits…). Ele parou, desci, acenei para outro taxi, antes de entrar perguntei se dali até o hotel em que estou seria pelo taxímetro, ele disse que sim, entrei e vim: a corrida ficou por 5 ringgits… Hoje fui até um “megashopping”, meio fora daqui. Peguei o transporte público até a estação central (chamada de “Sentral” aqui) lá peguei um taxi. Fiquei meio surpreso quando vi, ao chegar, que o taxímetro marcava 8,80 ringgits (mais ou menos 2,50 dólares): a corrida não parecia ter sido mais longa do que a corrida do hotel ao Low Yat Plaza. Paguei. Na volta, peguei outro taxi, o mesmo trajeto: o preço foi 4,40 ringgits. Conclusão: na ida, o motorista aprontou. Era de etnia indiana, muito falante e simpático… E ladrão. É o problema do software, a que fiz referência antes.

Enfim: estou gostando de minha estada aqui.

As livrarias, são magníficas – e 80%+ dos livros são em Inglês. Uma maravilha. Comprei, no domingo, numa livraria Border’s, que é anunciada como a maior do mundo, uma biografia de Sartre e de Beauvoior, chamada Tête-à-Tête. É uma biografia dos dois juntos, do relacionamento entre eles – que é um relacionamento que, de certa forma, me fascina. Já quase terminei de ler o livro, de mais de 300 páginas. Hoje comprei uma biografia de C. S. Lewis – que é biografado no lindo filme Shadowlands, em que Anthony Hopkins é um C. S. Lewis perfeito (segundo a minha imagem de C. S. Lewis) e Debra Winger é uma encantadora Joy Gresham – a divorciada com a qual ele acabou se casando, depois de já velho, e que ironicamente veio a morrer, logo depois de eles se casarem.

Comprei, também, no domingo, um livro de John Naisbitt, chamado Mindset… Excelente. Comprei porque abri o livro, aleatoriamente, exatamente num capítulo em que ele discutia a União Européia, e fiquei surpreso ao verificar que ele diz, acerca da União Européia, basicamente o que eu disse no meu artigo “A União Européia tem jeito?” (publicado aqui). Segundo ele, o sistema que os europeus montaram parece ter sido planejado para produzir o “declínio reciprocamente garantido” (“mutually assured decline”) de todos os participantes… Diz ele, no sumário do capítulo sobre a Europa: “A ‘Estátua da Europa’ tem dois corações e 25 cabeças. As 25 cabeças preparam uma mistura que contém ingredientes que não se misturam: tradição, ambição, liderança econômica, conflito. Os dois corações batem em ritmos diferentes, um buscando alcançar supremacia econômica, o outro tentando promover bem-estar social. Orgulhoso e ambicioso, cada coração quer estar certo. Mas para alcançar o seu objetivo, os dois corações têm de alcançar um compromisso – e nenhum deles está disposto a fazer isso. Minha experiência me leva a crer que a Europa provavelmente vai se tornar um parque temático histórico para americanos e asiáticos ricos, e não a região mais economicamente dinâmica do mundo, que é o que ela quer ser. Por causa do outro coração, não vai conseguir supremacia econômica, estando no caminho de um declínio que países membros reciprocamente se garantem” (p.213). É basicamente isso.

Ouço agora Billie Holiday, que canta “My Man”…

Em Kuala Lumpur, 5 de dezembro de 2006

É possível e defensável terceirizar a educação?

O que segue é, em parte, baseado no debate que travei na minha lista de discussão “4pilares” com interlocutores que criticavam algumas escolas e faculdades privadas por “terceirizarem” parte de suas atividades-fim, contratando, no caso de escolas de ensino básico, escolas de língua e de informática para ministrarem cursos de língua estrangeira e de informática a seus alunos, e, no caso de faculdades, contratando cooperativas de professores para evitar a contratação direta dos professores e, assim, os encargos sociais correspondentes.

Comecei por levantar a seguinte questão: para criticar uma pessoa ou instituição por “terceirizar”, em parte, suas atividades, é preciso, em primeiro lugar, definir quem é inerentemente responsável por aquelas atividades.

Em se tratando de atividades educacionais, propus a seguinte tese.

Se há um dever de educar (algo que reputo discutível – esclareço adiante), ele recai, em primeiro lugar, sobre a própria pessoa. Isso quer dizer que, havendo tal dever, a responsabilidade pela sua execução recai, em princípio, sobre cada pessoa – e o objeto de sua execução é a própria pessoa.  Cada um teria, nessa hipótese, o dever se se educar a si próprio.

Admito, naturalmente, uma exceção para essa regra: o caso de crianças pequenas, incapazes de assumirem, e até mesmo entenderem, esse dever.  No caso de crianças pequenas, o dever de educar é de seus pais, ou de quem lhes faça as vezes, e decorre das obrigações inerentes à ação de colocar um filho um mundo. Da mesma forma que quem gera um filho tem o dever de alimentá-lo e de cuidar dele, para garantir que sobreviva, tem, também, o dever de educá-lo, para que ele se desenvolva e se torne, um dia, uma pessoa autônoma e competente, capaz de cuidar de si próprio e de escolher, e transformar em realidade, se possível, o seu projeto de vida.

A partir de um certo momento, porém, a educacão dos filhos deixa de ser um dever dos pais e passa a ser um dever de cada para consigo mesmo. Qual é esse momento? É discutível, até certo ponto. Mas quando se trata de ensino superior, não tenho dúvida alguma que ele já tenha sido alcançado. Uma pessoa que entra uma faculdade tem por volta de, pelo menos, 18 anos. Já é, portanto, dona de seu nariz e seus pais não têm mais nenhum dever em relação à sua educação: eles participam do processo se ela concordar e se eles, pais, tiverem condições e disposição.

Em se tratando de criança pequena, até, digamos, 18 anos, no máximo, o dever de educá-la é, claramente, dos pais. Se estes a colocam na escola, já estão terceirizando para a escola, em parte, a execução de um dever seu. Ao escolher uma escola para seus filhos, e delegar para ela o dever de educá-los, os pais, tácita ou explicitamente, autorizam a escola a escolher quais serão os professores que elas alocarão a cada grupo de crianças, qual método utilizarão na educação delas, de quais recursos se valerão (por exemplo, que livros, didáticos ou não, serão usados no processo), etc. Assumindo que nenhuma cláusula do contrato da escola com os pais seja quebrada, nem nenhuma lei seja violada no processo, nada impede a escola de, através de um novo processo de terceirização, sub-delegar a uma outra escola, ainda que não formal (escola de línguas, escola de informática), a execução de parte das atividades que ela se obrigou a executar no processo de educar as crianças cuja educação lhe foi confiada pelos pais.

Isso se aplica tanto a escolas privadas como a escolas públicas. Os pais pagam à escola para fazer o que eles deveriam fazer: pagam diretamente, no caso da escola particular, ou indiretamente, via governo (impostos).

No tocante ao ensino superior, há uma terceirização, para uma instituição (faculdade, universidade), da prestação de um serviço que a pessoa deveria prestar para si mesma. Algo parecido com o exemplo seguinte (mas mais importante). Digamos que eu tenha o dever de me manter limpo diariamente: por isso, tomo banho todos os dias. Se não gosto de me lavar, ou, por alguma razão, estou impedido de fazê-lo (por estar, imaginemos, paralizado na cama), terceirizo a prestação desse serviço que devo a mim mesmo: pago um(a) enfermeiro/a para me dar banho (ou conto novamente com a boa vontade de familiares ou de outras pessoas).

Quem terceiriza, para uma faculdade, a execução do dever que ele presumivelmente tem de educar-se, dificilmente pode invocar o direito de terceirizar e o fato da terceirização, em si, para contestar a ação da faculdade de terceirizar para uma cooperativa de professores a execução de parte de suas atividades.

Como se vê, poucas atividades são tão terceirizadas, e sub-terceirizadas, como a educação.

A esquerda não tem nada contra a terceirização em si – só quer que ela seja feita exclusivamente para o governo (no caso, para a escola pública). Aquilo que parece ser uma campanha anti-terceirização por parte da esquerda é, na verdade, uma campanha a favor da terceirização, por parte das pessoas para o governo, de cuidados básicos que, presumivelmente, elas devem tomar para consigo mesmas. A área da saúde é outro exemplo claro. Cada um deve cuidar de sua própria saúde. Se não tem condições de executar os serviços necessários para manter-se sadia, a pessoa pode terceirizar para indivíduos (médicos e enfermeiros) ou para instituições (clínicas, ambulatórios, laboratórios e hospitais) esses cuidados. Não há nenhuma razão por que a terceirização para o governo (clínicas, ambulatórios, laboratórios e hospitais públicos) seja menos criticável do que a terceirização para institutuições do setor privado. Quem defende a terceirização para o setor público não pode usar o direito de terceirizar e o fato da terceirização para criticar instituições privadas que sub-terceirizam parte de suas atividades.

Voltando para o caso da educação, quem critica a terceirização, por parte de escolas e faculdades privadas, de parte de suas atividades para outras instituições (escolas de língua e de informática, cooperativas de professores, etc.), em geral argumenta com base no fato de que o dever de educar não é das próprias pessoas para consigo mesmas, mas, na melhor das hipóteses, da sociedade para com os indivíduos, ou, na pior das hipóteses, do estado para com a sociedade ou os cidadãos.

Eu não acredito que existam argumentos defensáveis que justifiquem essa atribuição do dever de educar à sociedade ou, ainda muito menos, ao estado.

Só concordaria com a afirmação de que a educação é tarefa da sociedade no sentido de que todo indivíduo, quer viva em sociedade ou não, presumivelmente tem o dever de se educar (i.e., de se desenvolver, como pessoa) – e, como visto, que os pais têm dever o dever de educar seus filhos, enquanto eles não são capazes de assumir controle de suas próprias vidas.

Nunca vi, em nenhum lugar, uma defesa convincente da tese de que a educação seja tarefa do estado – muito menos da tese de que seja tarefa exclusivamente do estado, como defende a esquerda, quando propõe que a educação seja monopólio estatal.

Não faz o menor sentido propor que a educação seja monopólio estatal. A educação de crianças pequenas é, claramente, direito dos pais. O ser humano precisa de educação do momento em que nasce até o momento em que morre. Não faz o menor sentido confiar a educação de um recém-nascido ao estado (embora isso já tenha sido proposto pelos comunistas).

Mas o que a esquerda geralmente deseja é que a educação escolar seja  monopólio estatal. Mas muito menos faz sentido essa tese mais restrita. Por que deveria o estado se responsabilizar, com exclusividade, pela educação escolar? Não há nenhum argumento – embora toda vez que há uma constituinte ou a elaboração de uma Lei de Diretrizes e Bases da Educação a esquerda retome a bandeira do monopólio da escola pelo estado.

Durante as discussões acerca dos artigos relacionados à educação na última constituinte, a esquerda tentou tudo o que pode para fazer passar sua tese do monopólio, pelo estado, da educação escolar. Perdeu. Ainda assim, é comum encontrar em publicações esquerdistas a enunciação da tese de que a escola privada é uma “concessão” do estado. Não é. A escola privada existe por direito definido pela Constituição Brasileira.

Numa clara tentativa de confundir a questão, a esquerda tem tentado argumentar que “a educação por uma única pessoa, ou o autodidatismo, é destinada ao fracasso”.

Em primeiro lugar, é mister indagar, dos que defendem essa categórica afirmação, em que se baseiam para fazê-la? Em pesquisas de terceiros? Em experiência própria?

Em segundo lugar, essa tese confunde (ou mistura intencionalmente, quem sabe com a intenção de confundir) duas coisas:

a) De um lado, o dever, em si, pela educação.

b) De outro lado, a forma em que esse dever deva se exercer (i.e., o processo da educação).

Eu afirmo que esse dever é, no caso de adultos, de uma pessoa só, da própria pessoa, e, no caso de crianças pequenas, dos seus pais – ou dos que lhes façam as vezes. Ou seja, no caso de adultos, o dever é de uma pessoa, e, no caso de crianças pequenas, de, basicamente, duas.

No entanto, essa afirmação não implica a tese de que cada um, adulto, deva se educar sozinho, ou que, no caso dos pais, eles não possam, desejando, recorrer à escola ou a outros terceiros, no processo de educar seus filhos pequenos!

Se o autodidatismo é, ou não, uma atitude ineficaz, não vem ao caso, aqui – mas é algo que estou disposto a discutir em outros contextos. Mas ninguém jamais propôs que as pessoas se eduquem a si próprias sozinhas. A questão é definir de quem é o dever, ou a responsabilidade, pela educação. No tocante à forma de exercer esse dever (i.e., o processo educacional), não questiono, nem jamais questionei, em momento algum, o direito de os pais (no caso de filhos pequenos) ou a própria pessoa (no caso de adultos) terceirizarem a execução de seu dever.

(Voltando a comparar a questão educacional com a questão da saúde, também acho que os pais têm o dever de cuidar da saúde de seus filhos pequenos – mas nem por isso acho que eles devam fazer isso sozinhos, sem buscar auxílio de médicos, clínicas, hospitais). 

Alguns, da esquerda, têm procurado defender duas teses subsidiárias acerca da educação:

a) que a terceirização se aplique apenas a empresas, não a pessoas;

b) que a terceirização se aplique apenas a atividades-meio, não a atividades-fim.

Primeiro, essa pode ser uma opinião sua, que eu respeito — apesar de dela discordar. Mas ela não me parece ser justificada pela autoridade a que você recorre. O que diz o Houaiss é o seguinte (e copio e colo o que você transcreveu):

Numa discussão recente um representante da esquerda invocou o Houaiss para argumentar a favor da primeira tese. Mas o próprio Houaiss, em uma de suas definições de “terceirização”, lhe refutou a argumentação. Diz o Houaiss:

"Terceirização: . . . 2. contratação de terceiros, por parte de uma empresa, para a realização de atividades ger. não essenciais, visando à racionalização de custos, à economia de recursos e à desburocratização administrativa"

A palavrinha "ger.", aqui incluída, quer dizer "geralmente". Ou seja, Houaiss admite que, em regra, as empresas terceirizam a execução de suas atividades-meio (segurança, alimentação, limpeza, processamento de dados), para poder se concentrar nas atividades-fim – mas não exclui a possibilidade de que elas possam terceirizar, em algumas situações, até mesmo suas atividades-fim.

(A propósito, a restrição imposta por Houaiss, de que a terceirização se faça “visando à racionalização de custos, à economia de recursos e à desburocratização administrativa”, não justifica: a terceirização pode ser feita por qualquer razão – embora as mencionadas estejam entre as principais).

As próprias empresas discutem, definem e redefinem o que é sua atividade-fim e quais são suas atividades-meio. Se a gente perguntar a qualquer pessoas, qual é o negócio da Nike, é provável que a resposta seja que se trata de um fabricante de tênis. No entanto, no gerenciamento estratégico da empresa, a fabricação dos tênis, em si, é terceirizada (em grande parte para empresas daqui da Malásia, onde me encontro no momento). A Nike aparentemente concluiu que deveria concentrar suas energias no design, no marketing e nas vendas de tênis (e, naturalmente, no gerenciamento do processo de terceirização da fabricação. A qualquer momento, porém, ela pode mudar de opinião e criar suas próprias fábricas. Das duas uma: ou a Nike terceiriza atividades-fim, ou o que é atividade-fim e o que atividade-meio não é fixado de uma vez para todo o sempre para uma determinada empresa. 

Por fim, é forçoso reconhecer que, embora a discussão da terceirização tenha se originado no contexto empresarial, a língua é viva e continua a evoluir. Na nossa língua viva de cada dia, porém, o termo já tem significado mais amplo e hoje se aplica não só a empresas, mas a governos, organizações não-empresariais e, sem dúvida, como vimos fazendo, a pessoas.

Terceirizar hoje significa "delegar, por qualquer razão, a terceiros, em condições negociadas, a execução de atividades e deveres que são de responsabilidade de uma determinada pessoa, física ou jurídica."

Em Kuala Lumpur, 3 de dezembro de 2006.

Segundo aniversário dos meus spaces

Hoje, 2 de dezembro de 2006, comemora-se o segundo aniversário dos meus spaces. Exatamente neste mês dia no ano de 2004 eu estava em Redmond, WA, EUA, com minha amiga Ana Teresa Ralston, então Gerente de Educação da Microsoft Brasil (hoje Gerente Sênior), avaliando o programa “Peer Coaching”, cujos direitos de distribuição junto à sua rede de subsidiárias a Microsoft Corporation havia adquirido alguns meses antes. Estávamos no Puget Sound Center, organizacão que desenvolveu “Peer Coaching”, ouvindo as apresentações de Les Foltos, principalmente responsável pelo seu desenvolvimento, quando a Márcia Teixeira, então Gerente Sênior de Educação da Microsoft Brasil (hoje Gerente Geral de Ensino Superior de Educação na América Latina), me perguntou se eu conhecia o (então) MSN Spaces (hoje Live Spaces). Não conhecia. Fui investigar. Achei interessante o conceito, cadastrei-me no site, criei meu primeiro space e naquele dia mesmo escrevi minhas primeiras contribuições – curtinhas. Nos dias seguintes continuei a escrever, acrescentei fotos, e o resultado está aqui.

O meu space original, “Espaço Liberal: Blog de Eduardo Chaves” gerou dois filhotes este ano. Primeiro foi o “Diário de Bordo e Album de Fotografias”, que cobriu minha peregrinação, com minha mulher, durante 52 dias, pela Europa, do fim de setembro até a segunda quinzena de novembro. Depois veio o “Chaves-PT: Blog do Município do Concelho de Chaves, Portugal”, que homenageia aquela que provavelmente foi a cidade de meus antepassados que, saindo de Portugal, foram parar no Brasil.

Ao todo, contando os três spaces, foram 240 artigos nesses dois anos. O “Espaço Liberal” teve 94 artigos publicados no primeiro ano e 68 neste, encerrado ontem. Mas incluo no segundo ano os 77 artigos do space de viagem e o único, solitário, artigo do “Chaves-PT”, perfazendo 146 artigos no segundo ano. Com um pouco mais de trabalho, poderei chegar a um artigo a cada dois dias no ano que hoje se inicia.

Os meus spaces têm sido honrados com a visita e os comentários de amigos e de desconhecidos. É incrível a visibilidade que uma ferramenta como essa proporciona.

Estou, no momento, em Kuala Lumpur, Malásia. Hoje é o encerramento de um congresso do qual vim participar como Opening Keynote Speaker. Uma grande honra para mim. Falei (no dia 30, quinta-feira) sobre “Dealing with Educational Change: The Challenge to the School” para uma platéia de cerca de 750 professores da rede pública da Malásia.

Agradeço àqueles que têm prestigiado esse aspecto do meu trabalho.

Em Kuala Lumpur, 2 de dezembro de 2006

De caras, línguas, e estereótipos

Vivendo num país como o Brasil, e viajando como eu viajo, essas coisas não deveriam me chamar a atenção. Mas chamam.

Ontem à noite (era de manhã aí no Brasil) estava esperando, em Bangkok,  na Tailândia, o avião da Thai Air que me levaria (como de fato me trouxe) para Kuala Lumpur, na Malásia, quando ouvi, atrás de mim, dois senhores conversando animadamente em (presumo) tailandês ou malásio (digo presumo, porque apesar de viajar muito aqui para a Ásia, não consigo diferenciar o som de uma língua oriental da outra). Pareciam estar apreciando a conversa, riam, pareciam brincar um com o outro. Olhei e eis que vi dois homens bastante altos (1,85 m pra cima), coisa incomum aqui, um loiro e o outro moreno, de cerca de 45-50 anos, ambos de camiseta, bermuda e tênis (algo incomum para homens nessa faixa etária). Fiquei surpreso. Pela cara (e pelo jeito) dos dois, deveriam estar falando inglês. Ver dois homens, com essa cara e esse jeito, falando uma língua oriental fluente e animadamente, pareceu incongruente.

Mas daí pensei… Se um estrangeiro visse, aí no Brasil, duas pessoas, com cara de japonês, como Shigeaki Ueki ou o Yoshiaki Nakano falando português fluente e animadamente, também acharia estranho – mas eu não deveria, pois se trata de um ex-ministro do governo federal e um ex-secretário do Estado de São Paulo…

Nem sempre a cara combina com a língua.

Na minha recente viagem pela Europa, em que fiquei 52 dias vagando por diversos países europeus, os últimos dezesseis em Portugal, surpreendia-me ouvindo o português em países como a República Tcheca, a Áustria, a Alemanha. Já na Suiça é comum ouvir o português nas ruas, porque há muito português migrante lá. Só o conhecimento disse já fazia não parecer tão surpreendente ouvir o português ali. Quando cheguei a Portugal, no início houve uma certa surpresa. Como na piada, a reação foi: “Que diabo de língua estão esses estrangeiros todos a falar que consigo entender tudo?” Mas logo a surpresa passou e me senti como se estivesse no Brasil.

Já num país como a Malásia, em que me encontro agora, será realmente uma surpresa – dessas de parar as pessoas, ainda que totalmente desconhecidas, para falar “oi” – se encontrar gente falando português: é incomum ouvir o português aqui, e estamos tão longe do Brasil…

O interessante – e impressionante –  é que e como o cérebro humano rapidamente se adapta em suas “expectativas” – e coisas que, num contexto não surpreendem, noutro passam a surpreender, e vice-versa. É essa característica, porém, que nos faz desenvolver estereótipos.

Quando estava na estação ferroviária Heidelberg, na Alemanha, esperando para pegar o trem que nos levaria a Zurique e, depois, para Genebra, deixei a minha mulher sozinha para ir ao banheiro (lateral: preço de acesso ao banheiro da estação, 1 Euro). Quando voltei, ela estava toda surpresa. Mostrou-me um senhor assim de uns 65-70 anos, alto, simpático, de bigode, usando terno… Disse-me: “Está vendo aquele senhor ali? Há dois minutos estava beijando na boca um outro senhor,  da mesma idade, tão distinto como ele, que partiu… Ficou aqui jogando acenando e jogando beijinhos para o outro…” Ela achou incrível. É a quebra dos estereótipos que o cérebro constrói. Ver velhinhos apaixonados já é incomum – do mesmo sexo, então, é raro…

Na Suiça ou na França também vi um “casal de duas moças”, bonitas, distintas, bem vestidas, se beijando na boca. Nada escandaloso: tudo muito discreto, assim como faz um casal hétero em público. Também chamou a minha atenção. O mesmo estereótipo, agora não com homens idosos, mas com mulheres jovens.

Em Kuala Lumpur, 29 de novembro de 2006 (ainda 28/11 no Brasil)

Multiculturalismo, interculturalidade e relativismo

Estou lendo um livro interessante, de Roberto Carneiro, ex-ministro da Educação de Portugal e integrante da comissão que elaborou o famoso Relatório Jacques Delors para a UNESCO, que foi publicado como “Educação: Um Tesouro a Descobrir”. Em inglês o título, curiosamente, é “Learning: A Treasure Within”. Valeria a pena fazer um artigo discutindo as sutis diferenças entre essas duas versões do título do relatório. Quem saiba eu o escreva um dia.

Apesar de conter muita coisa com que concordo sem reservas, o livro “unescamente”, contém certas teses que tenho dificuldade de aceitar.

Explico-me.

Não tenho nada contra quem combate, como o faz Roberto Carneiro, de um lado,  o fanatismo, o dogmatismo, o sectarismo, e, de outro lado, a xenofobia, o racismo, o etnismo, o nacionalismo, a intolerância (vide p.75). Muito pelo contrário. Esses dois combates são faces diferentes de uma mesma moeda. Quem é fanático, dogmático, sectário acerca de suas próprias crenças em geral é intolerante de quem é diferente de si, ou porque pertença a outra raça, etnia ou nação, ou porque tenha outra cultura (língua, religião, costumes, etc.) ou porque simplesmente pense de forma diferente sobre questões que o fanático, dogmático, sectário considera importantes.

Não só nada tenho contra quem assume esses dois combates como eu próprio tenho, ao longo de minha vida, me juntado a esse combate, em especial na esfera política e religiosa.

Isso é uma coisa.

Outra coisa é combater esse combate, como o faz Roberto Carneiro, em nome do multiculturalismo e da interculturalidade.

É inegável que existem inúmeras culturas no mundo – de macroculturas (como as chamadas “cultura ocidental”, “cultura européia”, “cultura islâmica”, “cultura asiática”, ou, voltando no tempo, “cultura clássica”, “cultura medieval”) e microculturas (como a cultura de uma pequena tribo indígena ou até mesmo o que se chamou de “a cultura pariense da margem esquerda do Sena” na época de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir). E não resta a menor dúvida de que essas diferem umas das outras em múltiplos aspectos, alguns essenciais e importantes, outros secundários.  Não há como fugir desse fato – e fato é o que isso é. Ao descrever isso não se faço nenhuma valoração, nem positiva, nem negativa.

Por outro lado, é possível atribuir uma valoração – negativa ou positiva – a esse fato. Muitos fanáticos, dogmáticos e sectários valorizam, positivamente, de tal forma a sua própria raça, etnia, nação, cultura (macro ou micro) que se sentem obrigados a valorizar, negativamente, outras raças, etnias, nações e culturas. Essa valorização negativa, quando alcança um grau extremo, leva os fanáticos, dogmáticos, sectários a ter pavor de tudo o que é diferente deles (xenofobia) e a se propor a destruir o que é diferente deles.

Roberto Carneiro é um admirador da diversidade e um defensor da diferença. Refere-se ao fenômeno que acabei de descrever de forma lírica, quase idílica. Segundo ele, a educação precisa promover uma “consciência intercultural” que, entre outras coisas, deve “realizar a vontade indómita de ‘descobrir’ o outro” e “cultivar o fascínio perante o diferente” (p.71). “Com efeito”, diz ele, “a erecção de uma cultura de direitos humanos é indivisível do respeito por toda a trama da variedade humana” (p. 66).  Ele assim defende uma “Educação para a Tolerância e a Interdependência”, que propugna “o desenvolvimento pessoal de um sentimento de estima pela humanidade, de apreço pela sua aventura coletiva e de valoração [positiva] de suas diversas culturas como expressão inestimável dos dramas de vida de cada povo” (p. 70). Ele se define como um combatente na luta contra “o monismo cultural” e contra qualquer idéia de “supremacia cultural”. Essa luta, diz ele, “apresenta-se como uma prioridade educacional incortonável”, o que o leva a propor “uma genuína e duradora Educação Intercultural para Todos” (p. 70).

Dispenso-me de fazer outras citações.

Roberto Carneiro, no entanto, não quer se deixar caracaterizar como um “relativista” (vide pp. 65, 73). Afirma ele: “Mas se o fanatismo cego é condenável, do mesmo modo e a título igualmente vigoroso, é de denunciar o reino do relativismo” (p. 65). Por quê? Porque “o progresso humano [sic] demanda âncoras axiológicas de referência sem as quais ele não tem possibilidade de se direccionar nem de adquirir sentido” (p. 65). Por isso, “o pluralismo não [pode ser] sinónimo de relativismo” (p. 73).

É louvável a tentativa de defender o multiculturalismo e, ao mesmo tempo, tentar combater o relativismo. Mas é aqui que Roberto Carneiro começa a se complicar.

Como Roberto Carneiro, sou contra o relativismo. E sou contra, basicamente, pelas mesmas razões. Concordo com ele que exista o que ele chama de “progresso humano”. Também concordo com ele que, para que não podemos acreditar na existência do “progresso humano” a menos que também acreditemos na existência de “âncoras axiológicas de referência”, pois sem elas a noção de progresso humano não faz sentido (progresso em relação a que critérios?). E concordo com ele, por fim, que a crença na existência do “progresso humano” e das tais “âncoras axiológicas de referência” é incompatível com a crença no relativismo.

Minha discordância básica das teses de Roberto Carneiro está no fato de que, no meu entender, a crença na existência do “progresso humano” e das tais “âncoras axiológicas de referência” é incompatível também com a defesa do multiculturalismo e da interculturalidade.

Aqui é preciso fazer dois “caveats”: o primeiro, para discutir a questão da diversidade, da diferença; o segundo para discutir com mais precisão o conceito de relativismo.

Não tenho a menor dúvida de que em inúmeros aspectos a diversidade e a diferença são extremamente positivas. Não tenho dúvida de que, contemplando a totalidade do ponto de vista estético, o mundo é muito mais rico (e, por conseguinte, mais belo) porque existem diversas espécies vegetais e animais, e porque, no tocante a seres humanos, existem mulheres e homens, e existem mulheres e homens de diferentes cores, tamanhos, aparências, etc. Contemplando uma área da cultura, como a música, não tenho dúvida de que o mundo é muito mais rico (e, por conseguinte, mais belo) porque existem diferentes tipos de música: a clássica, a popular “chique” (estilo Jobim, no caso brasileiro), a popular do “povão” (ainda, no caso brasileiro, caipira, sertaneja, brega, forró, etc.), a das diferentes regiões do mundo (o fado português e o yoodle tirolês, por exemplo, que tive o privilégio de observar de perto recentemente), e assim por diante.

Não há razão para combater essa diversidade e diferença – muito pelo contrário: há todas as razões possíveis e imagináveis para promovê-la. E digo isso sem cair no relativismo de dizer que todos esses tipos de beleza física ou musical se equiparam, e que não há um que seja mais belo do que o outro.

Mas mudemos de registro.

Diferentes culturas têm diferentes valores e costumes. Alguns países islâmicos praticam, nas meninas, quando se tornam púberes, a clitoridectomia e a infibulação. A clitoridectomia é a remoção do clitóris e de boa parte dos lábios vaginais. A infibulação é a costura da abertura vaginal (deixando apenas uma pequena passagem para a urina e sangue mentrual). A razão dessa prática está em evitar, pela costura da abertura vaginal, que a menina tenha relações sexuais até que seja adquirida (sic), comprovadamente virgem, pelo seu marido. A razão da clitoridectomia está em evitar que a menina-moça possa associar o sexo com o prazer, e, assim, venha a desejar ter relações sexuais. Na verdade, o procedimento, feito em condições que estão longe de se comparar com as oferecidas pelos hospitais Alberto Einstein e o Sírio Libanês, em geral associa, na mente da menina-moça, o sexo com dor e sofrimento. Quando ela casa e o seu marido a disvirgina (em geral sem qualquer carinho ou preocupação com o bem-estar ou sofrimento dela), seu órgão sexual é, via de regra, dilacerado – o que acentua a associação do sexo com dor e sofrimento e a desincentiva de procurar sexo fora do casamento.

O que diria Roberto Carneiro sobre essa manifestação da diversidade e da diferença? Diria ele que a “educação intercultural” deve “cultivar o fascínio” perante essa diferença cultural? Diria ele que a “educação intercultural” deve promover “apreço” por essa “expressão inestimável dos dramas de vida” daquelas meninas? Diria ele que “a educação para a tolerância” deve ser tolerante para com essas práticas?

Houve época – e ainda há partes do mundo em que essas épocas se mantêm – em que seres humanos rotineiramente praticavam estupro, tortura, até canibalismo. Aqueles que, como Roberto Carneiro e eu, acreditam que tem havido “progresso humano”, e que essas práticas foram abandonadas porque elas conflitam com “âncoras axiológicas de referência” que vieram a ser amplamente aceitas.

Mas se realmente houve progresso – e eu não tenho dúvida de que houve – Roberto Carneiro deve responder a algumas perguntas. O que ele sobre essa manifestação da diversidade e da diferença? Diria ele que a “educação intercultural” deve “cultivar o fascínio” perante culturas desse tipo? Diria ele que a “educação intercultural” deve promover “apreço” por essa “expressão inestimável dos dramas de vida” vividos pelas vítimas dessas práticas? Diria ele que “a educação para a tolerância” deve ser tolerante para com essas práticas?

Essas mesmas “âncoras axiológicas de referência” hoje condenam terroristas que, em nome do fanatismo, do dogmatismo e do sectarismo que Roberto Carneiro pretende combater, se fazem de bombas humanas para matar civis inocentes que são de outra raça, ou de outra etnia, ou de outra nação, ou de outra religião, ou de outra língua, ou de outra…

Se queremos que a humanidade continue a progredir, devemos perguntar a Roberto Carneira o que devemos fazer em relação, não só a essas práticas, mas às culturas que as incentivam, apóiam, aplaudem e defendem. O que dirá ele? Dirá ele que a “educação intercultural” deve “cultivar o fascínio” perante práticas culturas desse tipo e as culturas que as incentivam, apóiam, aplaudem e defendem? Dirá ele que a “educação intercultural” deve promover “apreço” por essa “expressão inestimável dos dramas de vida” vividos pelas vítimas dessas práticas? Dirá ele que “a educação para a tolerância” deve ser tolerante para com essas práticas?

Se realmente temos “âncoras axiológicas de referência” e achamos que elas são importantes e essenciais para o “progresso humano”, não podemos defender o multiculturalismo, a interculturalidade, “cultivar o fascínio” e promover “apreço” por culturas diferentes, independentemente de seu respeito às nossas “âncoras axiológicas de referência”. Se realmente temos “âncoras axiológicas de referência” não podemos ter receio de avaliar culturas, de dizer que umas são superiores a outras, do ponto de vista moral, de hierarquizá-las em relação ao respeito que demonstram pelas nossas “âncoras axiológicas de referência”. Isso quer dizer que o multiculturalismo e a interculturalidade são posturas teóricas não só erradas, mas nocivas e perniciosas, porque nos deixam incapazes de criticar e condenar as práticas culturas mencionadas e as culturas e pessoas que as promovem, apóiam, aplaudem e defendem.

Apesar de as críticas que Roberto Carneiro faz à educação tradicional, sua proposta positiva de uma “educação intercultural”, uma “educação para a tolerância e a interdependência”, é fundamentalmente errada.

Roberto Carneiro afirma (e já citei): “Com efeito”, diz ele, “a erecção de uma cultura de direitos humanos é indivsível do respeito por toda a trama da variedade humana” (p. 66).  Errado. “A erecção de uma cultura de direitos humanos é indivisível do respeito por” nossas “âncoras axiológicas de referência”.

No ar, voando em cima do Afganistão (o mesmo do Talibã, que apedrejava mulheres adúlteras e cortava a mão de quem roubava uma fruta), a caminho da Malásia (a mesma que, contraditoriamente, é condenada pelos multiculturalistas por permitir o trabalho infantil), 28 de novembro de 2006 (ainda 27, no Brasil)

Em tempo: Cerca de doze horas atrás voava por cima de Genebra, a caminho de Munique. O avião da Lufthansa dava acesso à Internet. Lá de cima escrevi a meu amigo Joaquim Brasil Fontes Júnior dizendo que estava voando por cima de Genebra, olhando Lac Léman (Lake Geneva) – ele me respondeu em menos de cinco minutos, dizendo: “Sobrevoas a civilização”. Não tenho dúvida de que o que ele disse doze horas é verdade. A frase “sobrevoas a civilização”, se dita agora, não seria verdade. Na verdade, as duas proposições, embora consistam exatamente das mesmas palavras, são distintas. Uma afirma que a Suiça é um exemplo de civilização; a outra afirma que o Afganistão é um exemplo de civilização. A primeira proposição é verdadeira; a segunda, infelizmente, não.

O Episódio Emir Sader

A condenação em Primeira Instância de Emir Sader por difamação e injúria – na verdade, calúnia – do Senador Jorge Bornhausen já prestou um grande serviço à causa da seriedade intelectual no Brasil. Ainda que a sentença de Primeira Instância venha a ser abrandada ou mesmo invalidada em instância superior, algo que espero que não aconteça, o susto que Emir Sader, em particular, e a esquerda, em geral, tomaram com o veredito judicial já valeu. Li um artigo recente do Emir Sader, escrito depois da sentença, e o tom é outro: até parece uma pessoa séria escrevendo. Seus artigos, antes da sentença, eram, em geral, na linha daquele que provocou o processo: no mínimo, destemperados – no máximo, cheio de inverdades, chavões, e acusações contra tudo que não é a esquerda mais retrógrada.

Devemos todos agradecer ao Senador Bornhausen a providência que tomou de processar Emir Sader. E devemos todos agradecer ao juiz que prolatou a sentença, por ter tido a coragem  de provocar a ira da auto-denominada intelectualidade – de esquerda, naturalmente.

A esquerda, em especial a brasileira, não consegue falar sobre ninguém que se situe, no espectro político, à direita do centro sem acumular vitupérios. Como é de esperar, “a esquerda” é expressão de conotação valorativa extremamente positiva no discurso esquerdista. Os que estão “à esquerda” são os bons. “A direita”, por outro lado, é uma expressão pejorativa no discurso da esquerda. Os que estão “à direita” se situam no “eixo do mal” (no qual piamente acreditam, tanto quanto o Bush). A esquerda não consegue usar a expressão “a direita” sem conotação valorativa, de forma neutra, apenas para descrever uma tendência política alternativa. Não. Para ela a direita é sempre retrógrada, conservadora, desumana, autoritária, quando não fascista.

Tenho certeza de que, daqui para a frente, quando os esquerdistas forem escrever sobre pessoas que eles consideram de direita, vão pensar duas vezes antes de dizer a primeira coisa que lhes vêm à cabeça (mesmo que sabidamente falsa e caluniosa), antes de enfileirar vitupérios contra aqueles que se situam em posições diferentes no espectro político.

Se isso acontecer, como tenho certeza que irá acontecer, o mérito é do Senador Bornhausen e do Sua Excelência, o juiz que prolatou a sentença. Saibamos ser gratos a eles – no exato momento em que a esquerda procura demonizá-los e fazer, de Emir Sader, uma vítima.

Em Campinas, 18 de outubro de 2006.