A oração de Jabez

Apesar de já ter lido a Bíblia inteira várias vezes e de ter estudado teologia por vários anos, nunca tinha prestado atenção a um trechinho de I Crônicas: o versículo 10 do capítulo IV. Ali, perdida no meio de uma genealogia (os descendentes de Judá), há uma pequena oração digna de nota. Minha irmã Priscila a transcreveu recentemente no Orkut dela. Eis a oração (numa mescla que faço de várias traduções para o Português e para o Inglês):

“Ah, que tu me abençoasses, ampliando os meus limites e sobre mim colocando a tua mão, para que o mal não me alcance e me machuque”.

A oração é bonita, curta e objetiva.

Em primeiro lugar, Jabez na realidade não ousa pedir: ele mais expressa um desejo do que pede. (Uma das traduções brasileiras traduz o começo da oração por “Oh! tomara que me abençoes”). Se eu fosse um exegeta ousado, sugeriria que talvez Jabez reconheça que não mereça a bênção que deseja receber…

Em segundo lugar, Jabez não se refere a uma bênção genérica: ele explicita o que deseja… Novamente, se eu fosse um exegeta ousado, diria que Jabez, mesmo reconhecendo que não merece a bênção que deseja, tem fé que sua oração vai ser atendida.

Jabez deseja, primeiro, que seus limites sejam expandidos. Expandir limites significa crescer, desenvolver-se. Crescimento e desenvolvimento são processos de mudança. Jabez quer mudar, quer que suas fronteiras se estendam e seus horizontes se ampliem…

Mas ele também deseja, em segundo lugar, que esse processo de mudança e expansão de limites seja, tanto quanto possível, sem dor…

Jabez parece saber que, quando mudamos, ainda que seja por decisão própria, refletida e consciente, problemas de vários tipos podem surgir.

Às vezes, nós mesmos temos dificuldades em lidar com as mudanças trazidas pela realização de nossos desejos e sonhos e enfrentamos problemas por causa disso. (Alguém já disse, com propriedade, que devemos ter muito cuidado com o que sonhamos, porque sonhos muitas vezes se tornam realidade…)

Outras vezes, são os outros que têm dificuldades em lidar com nossas mudanças, porque nem sempre gostam delas, sentem-se prejudicados – e, às vezes, até se revoltam, e procuram nos causar problemas.

Por isso Jabez pede a Deus que o proteja dos males que processos de mudança podem trazer – ou, pelo menos, que o mal não o alcance e machuque.

Sábio, o Jabez. E provavelmente feliz, porque, segundo consta, no próprio versículo, Deus concedeu a Jabez o que ele lhe pediu.

Em São Paulo, 26 de Dezembro de 2008

Natal: famílias, tradições, transições

Escrevo no dia de Natal – o dia mais tradicional do ano em países que se dizem cristãos (isto é, que pretendem seguir a tradição cristã – tradição essa que, como todos sabem, já passou por várias transições…).

No Natal as famílias aderem não só à tradição religiosa de comemorar o nascimento de Jesus, como a várias outras tradições: a de armar uma árvore enfeitada, a de iluminar as casas e os jardins, a de dar presentes, a de fazer, em família, uma ceia na véspera ou um almoço especial no dia (ou até mesmo os dois).

Essa última tradição (ceia na véspera e almoço no dia), em especial, embora muito cultivada, traz vários problemas de natureza logística para as famílias. Por exemplo: se a família envolve mais de uma geração de pessoas casadas, o que é comum, há o problema de definir onde, e com quem, se fará a ceia ou o almoço.

Um casal sem pais (digamos que os pais dele e dela já tenham morrido ou morem muito distante) e sem filhos não tem o problema. Os dois ceiam juntos – sozinhos ou, por escolha, com parentes ou amigos.

Esse mesmo casal, com filhos novos, também não tem maiores problemas: todos ceiam ou almoçam juntos.

Quando os filhos crescem e começam a namorar, porém, os problemas se iniciam. Um rapaz que está namorando pode, cavalheirescamente, querer passar a ceia de Natal com a família da namorada… – para desespero da mãe dele. Uma moça que está namorando provavelmente insistirá que o namorado ceie ou almoce com ela e os pais – algo que certamente causará alguns problemas para ele (com a família dele).

Os problemas mais sérios surgem, porém, quando, no caso de um casal, os pais de um e de outro estão ainda vivos – ou, deslocando o problema uma geração, os filhos do casal por sua vez se casam.

Analisemos o caso típico de um casal cujos pais, em ambos os casos, ainda estão vivos. Onde fazer a ceia ou o almoço de Natal? Na casa do próprio casal, na casa dos pais dele, ou na casa dos pais dela? São três candidatos para apenas dois eventos…

Nesse caso, o problema poderia ser facilmente resolvido (em teoria), fazendo a ceia ou o almoço na casa do casal de filhos, com a participação dos pais de ambos nos dois eventos. O problema é que, na prática, a teoria é outra. Os pais são mais velhos e, em geral, já firmaram uma determinada tradição para o dia – e não gostam de rompê-la. Nesse caso, o problema é em geral resolvido fazendo-se um compromisso: a ceia na casa dos pais de um na véspera e o almoço na casa dos pais do outro no dia de Natal – alternando-se o local a cada ano, se for necessário.

A situação se complica quando, no caso em pauta, o casal, cujos pais ainda estão vivos, tem, ao mesmo tempo, filhos casados. Os filhos, quando solteiros, provavelmente participavam da ceia ou do almoço na casa dos dois casais de avós, junto dos pais. Mas agora os filhos têm de lidar com a família do cônjuge, e o problema começa a ficar muito complicado. Tão mais complicado quanto maior é o número de filhos casados na família.

A equação é simples. Um casal tem dois filhos. Um se casa, o que era uma família vira duas. Quando os dois se casam, o que era uma família vira três… Ou seja: as famílias se complicam através de casamentos. E quanto mais filhos e, portanto, casamentos, cada vez mais difícil manter as tradições familiares. Casamentos, afinal, são momentos de transição, em que as famílias se multiplicam (por adição).

O problema de observância das tradições começa a ficar perto de insolúvel, entretanto, quando há separações e novos casamentos – e principalmente quando os separados não convivem.

Nesse caso, sofrem as tradições, sofrem as pessoas – e a razão principal é que as famílias ficaram extremamente complicadas. Mas famílias, como vimos, famílias sempre são complicadas, mesmo quando não há separações… Ou vejamos.

Quando um filho de um casal se casa, o que era uma família passa a ser duas famílias: a do casal original e a do filho. Aqui houve multiplicação de famílias (como vimos, por adição).

Quando um casal se separa e os dois se casam de novo, o que era uma família passa a ser duas famílias.  Aqui houve multiplicação de famílias – mas por divisão (se é que faz sentido falar em multiplicação por divisão).

Se o casal que se separa tinha filhos, os filhos agora fazem parte de duas famílias: a do pai e a da mãe, pois o pai e a mãe agora constituíram famílias distintas. Se, nos novos casamentos, cada um se casa com pessoas que já foram casadas e também tinham filhos, a questão vai ficando cada vez mais complicada…

Tente-se organizar ceias e almoços de Natal numa situação dessas… As transições tornam virtualmente impossível que as famílias mantenham as tradições, como as ceias e os almoços de Natal.

Em situações assim, novas tradições precisam ser iniciadas. Felizmente, o são. Ainda que seja preciso trazer até o Ano Novo no acerto.

Em São Paulo, 25 de Dezembro de 2008

Identidade Pessoal e Mudanças [versão original de 2008]

Nossa identidade é aquilo que nos define como “eu” – que faz com que eu seja eu, e não você, e você seja você, e não eu…

À primeira vista a questão pode parecer simples – mas não é, não. Pelo contrário: é bastante complicada, e já ocupou horas preciosas da reflexão de grandes pensadores…

A questão pode, naturalmente, ser encarada de diversos pontos de vista.

Encarada do ponto de vista físico – ou biológico – a questão pode parecer mais simples do que de outros pontos de vista (psicológico, filosófico), mas mesmo aí vem se tornando cada vez mais complicada.

Dizem os entendidos que a impressão digital de uma pessoa é absolutamente única e permanece a mesma durante toda a vida dela. Com a ajuda de algumas informações complementares, a impressão digital poderia, portanto, ser usada para definir quem a pessoa é: ela é a versão mais idosa (e, esperamos, experiente) do nenê que nasceu no dia tal, a tantas horas, em tal lugar, de fulana de tal.

Mas dizem novamente os entendidos que as células de uma pessoa morrem e são substituídas por outras dentro de determinados períodos (relativamente curtos) de tempo. Assim sendo, ainda que eu tenha a mesma impressão digital do nenê Eduardo Oscar que nasceu em Lucélia, no dia 7 de Setembro de 1943, às 21h45, na Rua Amazonas s/n, de Edith de Campos, então já renomeada Edith de Campos Chaves (sendo Oscar Chaves o pai presumido), as células que aquele rechonchudo bebê tinha, há 65 anos, já morreram todas e foram substituídas por outras – e isso muito mais de uma vez. Por algum milagre biológico, a impressão digital continuou a mesma, mas, do ponto de vista físico e biológico, nada que aquele nenê tinha permanece em mim hoje…

Atualmente a coisa fica ainda mais complicada. Algumas pessoas trocam o seu coração pelo de outra pessoa; ou outros órgãos seus… Nada impede que uma pessoa, hoje, receba múltiplos transplantes de órgãos de uma mesma outra pessoa. No futuro, é possível que seja possível até mesmo transplantar o cérebro de um para outro (como Robert Heinlein já previu em I Will Fear No Evil / Não Temerei Mal Algum – livro que recomendo sem reservas no contexto desta discussão). Quando isso acontecer, se x recebe o transplante do coração, do cérebro, dos rins, e saiba Deus lá mais do que, de y, a pessoa resultante será x ou y – ou será uma mescla das duas? São os tribunais que vão resolver se ela continua x, ou y, ou passa a ser z? (Que as leis e os tribunais vão ter de enfrentar essa questão mais cedo do que se pensa, não há dúvida.)

A possibilidade de transplantes de cérebro levanta questões importantes, porque se acredita que o cérebro é a base física e biológica da memória… e a memória parece ser um componente essencial de nossa identidade pessoal.

Na verdade, John Locke, o grande filósofo britânico do século XVII (que, na minha opinião, é o segundo maior filósofo britânico de todos os tempos, e, portanto, da história, perdendo apenas para David Hume, meu santo padroeiro, mas ganhando de Bertrand Russell), uma vez defendeu a tese (em Essays Concerning Human Understanding) que a memória é o ÚNICO critério definidor de nossa identidade pessoal. Em um de seus famosos “experimentos mentais” (que ele gostava muito de fazer) ele postulou que se, num dado dia, um príncipe e um sapateiro acordassem com suas memórias totalmente trocadas, um teria se tornado o outro (e vice-versa): eles haveriam trocado de identidade pessoal. Entre outras mudanças, a pessoa que estivesse ocupando o corpo do (até ali) sapateiro passaria a estar apaixonado pela princesa (ou por quem quer que fosse que o príncipe estivesse apaixonado), e a pessoa que estivesse ocupando o corpo do (até ali) príncipe passaria a estar apaixonado pela mulher do sapateiro (ou por quem quer que fosse que o sapateiro estivesse apaixonado).

Ou seja, para Locke, a nossa identidade pessoal nada tem que ver com física ou biologia: ela é definida por fatores puramente mentais. Ou seja: cai na província da psicologia ou (como Locke preferia) da filosofia.

(Lembro-me, neste contexto, de um filme de 1991 com Harrison Ford, que tem o título original de “Regarding Henry”, em que Ford era um advogado mau caráter e muito chato. Sem que ele soubesse, a mulher dele havia optado por encontrar uma companhia menos cansativa. Mas ele recebeu um tiro durante um assalto e perdeu a memória: não se lembrava nem de quem era – e, num toque de realismo do filme, teve de reaprender a andar, a falar e a funcionar normalmente. A tese do filme é a de que ele, na verdade, virou outra pessoa: uma pessoa de com caráter, legal, interessante, por quem a mulher voltou a se apaixonar… [Vide http://www.imdb.com/title/tt0102768/]. Vide também o filme brasileiro “Se eu fosse você”, de 2006, em que os personagens – Tony Ramos e Glória Pires – trocam de identidade quando a mente de um passa a ocupar o corpo do outro, e vice-versa – ou seria o oposto: quando o corpo de um se apropria da mente do outro, e vice-versa. Curiosa e significativamente, a sinopse do filme no International Movie Data Base, afirma que os dois “trocaram de corpos” – “switched bodies”. No filme um dos personagens pergunta: se eu me jogar da janela, quem vai morrer, eu ou você? [Vide http://www.imdb.com/title/tt0448927/]. Está para sair, ou já saiu, “Se eu fosse você 2”. [Vide, para a seqüência, http://www.imdb.com/title/tt1099227/]).

É verdade que, como sugere Heinlein (com base no que diz a maioria dos cientistas), nossa memória tem o cérebro como sua base física e biológica – e, quiçá, como ele próprio sugere em seu famoso romance, até mesmo o restante de nosso sistema nervoso tenha algum papel nisso… Mas deixando de lado essa controvérsia científica, a sugestão de Locke parece fazer muito sentido: eu sou quem eu me lembro de ter sido… Ou, como prefere o Rubem Alves, eu sou o que fui… ou eu sou quem fui…

Exceto no caso de alguns dinossauros mentais, que preferem morrer e se fossilizar a mudar, nossas idéias mudam mais rapidamente que as células do nosso corpo… O grande desafio, como os filósofos gregos já sabiam, é descobrir a continuidade que subjaz à mudança… E a continuidade, Locke descobriu, é dada, no caso da identidade pessoal, pela memória! Quando a memória falta, perdemos a continuidade, e passamos a ser outro, como no caso do filme de Harrison Ford.

Voltei a pensar sobre essas coisas (sobre as quais penso há muito tempo e até mesmo já escrevi bastante aqui) porque, recentemente, um número razoável de pessoas tem me dito que mudei bastante – talvez até demais – e quer saber quem sou eu hoje: serei eu quem agora pareço ser ou seria aquilo que eu antes era o meu eu real??? Em suma: há continuidade por baixo da mudança, ou eu sou um caso de mudança de personalidade?

Pablo Neruda confessou que viveu. Eu confesso, sem nenhuma vergonha, que mudei – na realidade, estou ainda mudando. Porém, a questão de 64 mil dólares é: aquilo que sou agora é o que realmente sou, ou será que meu eu real é aquilo que eu antes era?

Durma-se com um barulho desses… A questão é difícil. Confesso que se eu não fosse um cara bastante opinionado, com convições firmes, eu estaria no momento passando por uma enorme crise de identidade. Mas, como sou teimoso, persisto em acreditar, mesmo quando confrontado com evidência em contrário, que eu continuo eu mesmo. Como disse YHWH no passado, eu sou o que sou. A despeito de evidências ao contrário. E acabou. Ponto final. Quem quiser discordar, que discorde – mas eu não posso discordar de mim mesmo.

E estou certo de que continuo o mesmo Eduardo Chaves que eu era porque, afinal de contas, apesar das mudanças que eu não nego nem contesto, mas francamente admito, eu me lembro de que sou o mesmo que fui. Eu me lembro de que vivia, desde minha mais tenra idade, com Oscar e Edith Chaves, e os chamava de pais… Eu me lembro de que meus pais tiveram outros filhos e que, portanto, eu tive – e tenho – irmãos: Flávio, primeiro, depois Priscila, depois Eliane. Eu me lembro de que vivi em Marialva e Maringá no Paraná, nos anos 40 e no começo dos anos 50, e de que me mudei para Santo André no começo de 1952. Eu me lembro de que estudei no Grupo Escolar “Prof José Augusto de Azevedo Antunes”, na Rua Senador Flaquer, em Santo André, e de que tive como professoras, no Primário, de 1952 a 1955, Donas Maria José Ferraz de Alvarenga, Judith Ramos Milaneze, Elídia Lopes Duarte e Mercedes da Silveira Lopes (depois Mercedes Lopes Ferraz, quando ela se casou). Lembro-me de que, junto com o quarto ano Primário, fiz dois meses de Curso de Admissão com a Carla Strambio (hoje minha colega tradutora juramentada). Lembro-me de que entrei no Colégio Estadual e Escola Normal “Dr Américo Brasiliense” em 1956 e lá fiquei até 1959, quando recebi o diploma (ou certificado, sei lá) do Ginásio, no Cine Tangará, em Santo André (e o Pedro Cia foi o paraninfo).

Não vou entediar o leitor com todos os fatos de que me lembro – e vou me calar sobre as pessoas que amei, ou sobre aquelas que quis ver mortas… Mas eu sou o que fui. Eu sou aquilo que me lembro de ter sido… Admito que a memória é seletiva (deixa coisas de fora) e até mesmo inventiva (traz pra dentro coisas que nunca aconteceram). Foi Mark Twain (se bem me lembro…) que disse, quando já velho, que é mentira que a nossa memória fica mais fraca quando a gente fica mais velho. A memória dele era tão boa, disse, que ele conseguia se lembrar até de coisas que nunca aconteceram…

De qualquer forma, mesmo admitindo que, excepcionalmente, deletamos uns fatos e inventamos outros, nossa memória é que nos faz ser, hoje, o que somos. Dando por pressuposto que a maior parte de nossas memórias é verídica, nós somos, hoje, o que somos, porque fomos o que fomos no passado – e nos lembramos disso!

Assim, eu sou quem eu sou hoje, apesar de todas as mudanças, porque me lembro de que, em determinados momentos, quis mudar… e, como acontece agora, mudei e continuo mudando – e me lembro também de que, em outros momentos, quis mudar e, por alguma razão, não mudei… E me lembro ainda de que, em relação a determinados aspectos (os físicos e biológicos, por exemplo), mudei sem necessariamente querer mudar…

Se eu não me lembrasse desses fatos, poderia fazer sentido afirmar que eu mudei recentemente de identidade (ou de personalidade). Mas eu me lembro do que eu era e sei o que eu sou, e sei que as mudanças recentes foram desejadas. E estou contente com o que hoje sou, ou estou me tornando – ainda que possa haver quem prefira que eu não tivesse mudado…

Desculpem-me os leitores se o meu post pode, em alguns aspectos, parecer enigmático ou mesmo ininteligível. Garanto-lhes que não é enigmático e que faz bastante sentido. Podem crer.

Em São Paulo, 22 de Dezembro de 2008. [NOTA de 9.1.2022: Há uma nova versão deste artigo, amplamente revista e ampliada, publicada em 9.1.2022, neste mesmo blog. Quem preferir a versão mais atualizada pode ir diretamente para ela no endereço: https://liberal.space/2022/01/09/identidade-pessoal-e-mudancas-versao-revista-de-2022/.%5D

Creacionismo vs evolucionismo na escola: o debate chega à grande imprensa brasileira

Finalmente chega à grande imprensa brasileira a controvérsia sobre creacionismo vs evolucionismo na educação escolar – a versão atual de um debate antigo que contrapunha a religião e a ciência. Como disse Paulo Ghiraldelli Jr, Deus e o Diabo começaram a disputar o ensino brasileiro.

Não tivemos ainda a nosso “Julgamento do Macaco” (“Scopes Trial”), mas poderemos tê-lo em breve. Só que com papéis invertidos. Vide adiante, após minha descrição do “Julgamento do Macaco” americano.

Nos Estados Unidos, em 1926, um professor secundário de Biologia (John Scopes) do Estado do Tennessee foi preso, processado e julgado por ensinar a evolução em sala de aula. O Estado do Tennessee havia aprovado uma lei – chamada de Butler Act – que proibia a escola pública do estado de “ensinar qualquer teoria que negasse a história da Criação Divina do homem como ensinada na Bíblia, e ensinasse, no lugar dela, que o homem descende de uma ordem inferior de animais”. Em outras palavras: a lei havia determinado que, na escola pública do estado, fosse ensinada apenas a visão creacionista da origem do universo (incluindo a origem vida e da consciência).

A União Americana de Direitos Civis (American Civil Liberties Union – ACLU) se comprometeu a defender qualquer professor que desafiasse a lei. John Scopes, da pequena cidade de Dayton, Tennessee, o fez e foi preso. A ACLU colocou ninguém menos do que Clarence Darrow, o mais famoso de todos os advogados na história americana, para defender Scopes. Como promotor convidado veio ninguém menos do que William Jennings Bryan, que já havia sido Chanceler (Secretary of State) dos EUA e três vezes candidato à presidência do país pelos Democratas (embora derrotado em todas elas). Ele havia sido também, mais de uma vez, presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos.

Há um belíssimo filme sobre esse julgamento, feito em 1960, sob o título de Inherit the Wind, com Spencer Tracy representando Clarence Darrow (chamado no filme de Henry Drumond) e Fredric March representando William Jennings Bryan (chamado no filme de Matthew Harrison Brady). Dick York (o marido da “Feiticeira”) representa John Scopes (chamado no filme de Bertram T Cates) e Gene Kelly representa um jornalista que cobria o julgamento. O filme é um clássico. Muitos críticos o consideram o filme de julgamento do século (século XX, naturalmente).

Para detalhes sobre o julgamento, ver o artigo sobre o julgamento na Wikipedia e, especialmente, o seguinte site (Scopes Trial Home Page), dentro do site maior “Famous Trials in American History”:

http://www.law.umkc.edu/faculty/projects/FTrials/scopes/scopes.htm 

No Brasil de 2009 pode ser que um professor venha a ser julgado, não por ensinar a evolução na escola pública, mas por se opor a que, na escola pública (ou mesmo na particular), seja ensinada apenas a visão evolucionista da origem do universo… Sinal dos tempos!

Não consigo ficar sem me envolver nesse debate…

A Folha de S. Paulo está se encarregando de promover a discussão do assunto. Na edição de 13/12/2008 ela mais uma vez traz algumas matérias sobre a questão.

Como havia feito em edições anteriores, a Folha colocou o Mackenzie no foco da polêmica. Parece que as escolas de ensino básico do Mackenzie ensinam o criacionismo (aparantemente, ao lado do evolucionismo). A polêmica ficou mais delicada porque a filha do Ministro da Educação, Fernando Haddad, estuda na escola do Mackenzie em Brasília… (Boa propaganda para o Mackenzie, que tem a reputação de direitista, o fato de que a filha de um ministro de esquerda estuda lá…)

Transcrevo ao final deste post o texto das matérias da Folha em 13/12. Aqui, resumo minha opinião, de forma telegráfica, sobre essas matérias. 

a) Acho que escolas mantidas por instituições religiosas (pelo menos as cristãs) têm o direito de trazer a questão do criacionismo à baila. Iria até além: talvez até mais do que o direito, têm o dever de fazê-lo. Afinal de contas, a crença de que Deus criou o universo é essencial para as instituições que as mantêm, essas instituições investem bom dinheiro para ter uma escola diferente, não secular, e essas instituições, além do mais, não recebem dinheiro público. Ninguém coloca os filhos no Mackenzie sem saber que se trata de uma escola presbiteriana e que os presbiterianos são, em sua maioria absoluta, criacionistas. Quem não quer que os filhos fiquem expostos a essas visões de mundo, que coloque os filhos em uma escola privada de orientação não religiosa, ou então em escola pública. [Um liberal clássico radical como eu, defensor dos direitos de propriedade privada, não poderia pensar e argumentar diferentemente.]

b) Naturalmente, acho que essas escolas — escolas mantidas por instituições religiosas — devem também discutir teorias alternativas acerca da origem do universo (como as teorias evolucionistas). Afinal de contas, muita gente esclarecida aceita teorias alternativas ao criacionismo para a origem do universo e os alunos dessas escolas não podem simplesmente ignorar o fato.

c) Na verdade, acho que até mesmo as escolas públicas deveriam discutir a questão do criacionismo (junto de teorias alternativas). Afinal de contas, a maioria das pessoas (inclusive os pais dos alunos das escolas públicas) acredita em alguma versão do criacionismo e seria interessante que as escolas públicas não fizessem de conta que esse ponto de vista simplesmente inexiste, ou pretendessem que é uma doutrina puramente religiosa.

d) Concordo com alguns criacionistas quando afirmam que as questões que estão sendo discutidas não são puramente religiosas — embora também não sejam puramente científicas. Elas são, na realidade, meta-científicas. A própria visão evolucionista da origem do universo me parece muito mais filosófica do que propriamente científica. E acho ridícula a pretensão de alguns cientistas de que a ciência não envolve crenças e que o cientista lida apenas com fatos e teorias derivadas desses fatos. E mais ridícula ainda a pretensão de que fora da ciência não há conhecimento…

e) Se esse meu ponto de vista é correto, todo esse conjunto de questões — epistêmicas e metafísicas, relacionadas à origem do universo — deveria ser abordado no âmbito da filosofia, e não da ciência. Esta, talvez, seria uma das boas razões para se inserir a filosofia na escola de nível básico.

Não me parece defensável argumentar, contra a minha posição, que o criacionismo é uma crença e o evolucionismo, uma teoria.

Eu diria que tanto o criacionismo como o evolucionismo são teses ou hipóteses sobre como o universo (tudo o que existe, aí incluída a vida) surgiu.

Uma pessoa pode, em relação a qualquer tese ou hipótese, adotar uma das seguintes atitudes ou posturas:

a) aceitar a tese ou hipótese

b) rejeitar a tese ou hipótese

c) suspender o julgamento acerca da tese ou hipótese

A aceitação ou rejeição de uma tese ou hipótese pode se dar de duas formas:

* como uma questão de fé

* como uma questão de razão

Quando se trata de fé, em geral se dispensam argumentos e evidências. É preciso registrar que tanto a aceitação como a rejeição de uma tese ou hipótese pode se dar como um item de fé, pura e simples. Tanto o teísmo como o ateísmo, ou tanto o criacionismo como o evolucionismo, podem ser aceitos ou rejeitados como questões de fé.

Quando se trata de razão, argumentos e evidências são essenciais para a determinação da aceitação ou rejeição de uma tese ou hipótese. Parece-me inegável que tanto o teísmo como o ateísmo, ou tanto o criacionismo como o evolucionismo, podem ser encarados sob o prisma da razão (e não meramente da fé).

[Tomás de Aquino escreveu sua famosa Summa Theologica para os crentes — mas sua importante Summa Contra Gentiles foi escrita para tentar convencer os descrentes ou incréus da verdade das principais teses do Cristianismo exclusivamente com base na razão.]

A atitude ou postura "c" — suspensão de julgamento — é em geral adotada por pessoas que encaram uma tese ou hipótese sob o prisma da razão, mas concluem que os argumentos e evidências disponíveis não nos permitem tomar uma decisão acerca dela, seja aceitando-a, seja rejeitando-a.

Alguns pensadores — e Tertuliano talvez seja o mais conhecido deles — consideram que há lugar para a fé mesmo quando há fortes e contundentes argumentos contra uma tese ou hipótese. Tertuliano disse, acerca das principais afirmações do Cristianismo, que ele cria nelas porque eram absurdas (credo quia absurdum). Se essas teses ou hipóteses não fossem absurdas, isto é, totalmente destituídas de fundamentação racional (argumentos e evidencias), ele não precisaria ter fé: bastaria aceitá-las com base nos argumentos e evidências que as sustentariam nesse caso.

Outros pensadores — e aqui me lembro de Tomás de Aquino e Locke — parecem ter considerado que a fé é uma atitude ou postura que não contraria a razão mas que vai além dela. Não seria admissível, nesse caso, aceitar, como uma questão de fé, uma tese ou hipótese contra a qual há argumentos e evidências (contra rationem), mas seria admissível aceitar como uma questão de fé uma tese ou hipótese para a qual, sem que haja argumentos e evidências contrárias, não há argumentos e evidências suficientes a favor (supra rationem). Alguns autores chegaram até mesmo a falar em "fé racional", mas a maioria dos que aqui se situam se contentam em argumentar que a fé, num caso assim, não seria irracional.

Por fim, outros pensadores — e aqui me lembro de Pascal, o lógico e matemático francês, e de William James, o psicólogo e filósofo pragmatista americano — argumentaram, em especial acerca da existência de Deus, que, não havendo argumentos e evidências suficientes de um lado e de outro, ou havendo argumentos e evidências razoáveis e de igual peso dos dois lados, ainda assim é possível não suspender o julgamento (não ficar "em cima do muro").

Pascal argumentou, em Pensées, que a tese ou hipótese de que Deus existe é tal que argumentos e evidências existem tanto a favor como contra. Nesse caso, continuou ele, mesmo uma pessoa racional deverá apostar que Deus existe, porque: (I) SE ELE APOSTA QUE DEUS NÃO EXISTE E (A) Deus de fato não existe, ele não ganha nada; (B) e Deus de fato existe, ele perde tudo; (II) SE ELE APOSTA QUE DEUS EXISTE E (A) e Deus de fato não existe, ele não perde nada; (B) Deus de fato existe, ele ganha tudo.

William James argumentou, em The Will to Believe, que, na ausência de argumentos e evidências contrários, é legítimo aceitar, ou mesmo defender, a crença em Deus por motivos pragmáticos (ou psicológicos [essa crença faz as pessoas se sentirem confortadas], ou sociológicos [essa crença faz as pessoas se comportarem de forma mais moralmente adequada]).

É bom salientar que, em especial nos séculos XVII e XVIII, a tese ou hipótese do desígnio inteligente para explicar a existência do universo (tese ou hipótese hoje reformulada como a tese ou hipótese do desígnio inteligente) era considerada do prisma eminentemente racional. O próprio Newton a aceitava com base em argumentos e evidências que lhe pareciam suficientemente fortes, talvez até mesmo contundentes. É verdade que, ao longo do século XVIII, David Hume (em especial em Dialogues Concerning Natural Religion) submeteu esses argumentos e evidências a uma crítica devastadora, tornando difícil, hoje, aceitar os argumentos e evidências que Newton apresentou sem lidar com a crítica de Hume.

Para finalizar, a expressão "ensinar x" (criacionismo ou evolucionismo) é ambígua. Ela pode significar:

a) Ensinar uma tese ou hipótese como se ela fosse verdade final e consumada (qualquer que seja a natureza da tese ou hipótese — até teses ou hipóteses tipicamente científicas podem ser ensinadas dessa forma)

b) Discutir, debater, analisar os méritos e deméritos epistêmicos de uma tese ou hipótese que pretende explicar determinado fenômeno.

Acho errado ensinar qualquer coisa no sentido “a”, seja a coisa ensinada religião, ciência, política ou qualquer outra coisa. 

Acho que ensinar no sentido “b” seja a única abordagem defensável em relação a qualquer assunto: religião, ciência, ou seja lá o que for.

O Ministério da Educação mais uma vez derrapa… Ele tomou posição no debate relativo ao ensino do criacionismo nas escolas do país afirmando que o criacionismo não deve ser apresentado em aulas de ciências, como fazem alguns colégios privados, em geral confessionais (ligados a uma crença religiosa), mas, sim, em aulas de religião…

Eis o que diz o MEC: 

"A nossa posição é objetiva: criacionismo pode e deve ser discutido nas aulas de religião, como visão teológica, nunca nas aulas de ciências", afirmou à Folha a secretária da Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar.

A menos que me engane redondamente, não creio que a briga dos criacionistas seja no sentido de que o criacionista seja ensinado como ciência nas aulas de ciências… O MEC se equivoca.

A briga dos criacionistas é no sentido de que, se o evolucionismo é ensinado como verdade, eles têm o direito de ensinar o criacionismo da mesma forma.

Naturalmente, criacionistas mais moderados estão plenamente dispostos a aceitar que tanto o evolucionismo como o criacionismo sejam discutidos e debatidos, os méritos e deméritos epistêmicos de cada um deles sendo analisado como teses ou hipóteses alternativas que pretendem explicar o mesmo fenôm
eno – uma, do ponto de vista da ciência, a outra, do ponto de vista da religião.

Congratulo Paulo Ghiraldelli por ter, no debate que está sendo realizado na lista EduTec.Net, enfatizado um elemento bastante importante em dois parágrafos, que cito (omitindo a parte final  do segundo parágrafo):

"Com isso, todo mundo poderá fornecer sua narrativa. Ah! Sim, sei sei. Os religiosos irão dizer: "ah! mas então nós vamos contar a história, que admite versões, e a ciência vai contar a verdade? Assim não vale". Ora, mas se o religioso pensa assim, que o evolucionismo, só porque está na aula de "ciências", deve ser tomado como verdade e o criacionismo, por estar na aula de religião, deve ser tomado como uma "parábola", um "mito" ou uma "versão", ele próprio, religioso, está conferindo à ciência um poder que ele, se fosse um religioso culto, não daria. A aula de ciências também lida com versões – por isso seria mais justo e honesto que pudéssemos falar em neolamarckismo nas aulas de ciências tanto quanto falamos de darwinismo."

"Todavia, podemos ser mais honestos ainda. Podemos ser justos. Então, recuperaríamos os transversalistas. Tiraríamos esse pessoal da quarentena e fundaríamos com eles espaços intermediários na grade curricular. Nesses espaços, poderíamos discutir, por exemplo, as inúmeras formulações filosófico-religiosas que acoplam teorias evolucionistas e religião. Na Igreja Católica, por exemplo, existe uma série de versões do projeto criacionista em que o projeto evolucionista é absorvido e respeitado, integrado mesmo. . . . "

Volto a falar eu…

Discordo um pouco do termo "narrativa" para se referir ao que, na realidade, é muito mais do que uma narrativa, se o termo é usado no sentido comum. Trata-se de teses, antíteses e sínteses apresentadas, em geral, com argumentos e evidências de razoável sofisticação. Mas, de resto, concordo plenamente.

Eis os textos da Folha de 13/12/2008:

Folha de S. Paulo
13 de dezembro de 2008

MEC diz que criacionismo não é tema para aula de ciências

Material didático do Mackenzie e Pueri Domus traz visão teológica no ensino fundamental

Segundo modelo, que se opõe à teoria da evolução desenvolvida por Charles Darwin, o Universo foi criado por um ser superior

FÁBIO TAKAHASHI

DA REPORTAGEM LOCAL

TALITA BEDINELLI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O Ministério da Educação tomou posição no debate relativo ao ensino do criacionismo nas escolas do país. Para o MEC, o modelo não deve ser apresentado em aulas de ciências, como fazem alguns colégios privados, em geral confessionais (ligados a uma crença religiosa).

"A nossa posição é objetiva: criacionismo pode e deve ser discutido nas aulas de religião, como visão teológica, nunca nas aulas de ciências", afirmou à Folha a secretária da Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar.

Apesar do posicionamento, o MEC diz não poder interferir no conteúdo ensinado pelas escolas, pois elas têm autonomia.

Conforme informou o colunista da Folha Marcelo Leite no último dia 30, o colégio Mackenzie (presbiteriano) adotou neste ano apostilas que apresentam o criacionismo nas aulas de ciências nos anos iniciais do ensino fundamental.

Outras escolas, como as adventistas, por exemplo, praticam opção semelhante.

Teorias

Os criacionistas dizem que o Universo foi criado por um ser superior, assim como os seres vivos. Para eles, a vida é muito complexa para ter surgido sem intervenção sobrenatural.

Essa crença se opõe à teoria da evolução desenvolvida por Charles Darwin, presente nas diretrizes curriculares nacionais, segundo a qual todas as espécies provêm de um ancestral único -e, a partir dele, se diferenciaram, chegando à diversidade atual de seres vivos.

O entendimento do MEC é semelhante ao dos pesquisadores contrários ao criacionismo: o modelo não pode ser considerado teoria científica por não estar baseado em evidências (preceito tido como básico para se definir o que é ciência).

"[O ensino do criacionismo como ciência] é uma posição que consideramos incoerente com o ambiente de uma escola em que se busca o conhecimento científico e se incentiva a pesquisa", afirmou Pilar.

O presidente da Associação Brasileira de Pesquisa da Criação, Christiano da Silva Neto, tem entendimento diferente.

Para ele, como não há consenso sobre qual teoria está correta, "a maneira mais justa e honesta de lidar com a questão é apresentar ambos os modelos nas aulas de ciências, dando-se destaque aos pontos fortes e fracos de cada um".

Escolas

O criacionismo é ensinado no Colégio Presbiteriano Mackenzie desde 1870, quando a instituição foi fundada.

O conteúdo é abordado no sexto ano do fundamental -para crianças com idade por volta dos 11 anos-, assim como a teoria evolucionista.

Neste ano, no entanto, o colégio passou a adotar um novo material nos três primeiros anos do ensino fundamental. São apostilas com conteúdos didáticos convencionais, onde há a explicação criacionista, mas sem a teoria evolucionista.

Segundo o colégio, nessa idade (por volta dos oito anos) os alunos não estão preparados para aprender o darwinismo. O colégio anunciou que alterará o conteúdo das apostilas, abrandando o caráter religioso, mas manterá o criacionismo.

O Pueri Domus Escolas Associadas, uma rede laica que reúne 160 escolas no Brasil inteiro, algumas com orientação católica ou protestante, também apresenta o criacionismo nas aulas de ciências.

O conteúdo é exposto com o evolucionismo no oitavo ano do ensino fundamental das escolas. Para Lilio Alonso Paoliel-lo Júnior, diretor de conteúdo da rede associada, o objetivo é promover o debate.

"Negativo seria não deixar que a discussão acontecesse. É uma questão de posição pedagógica. O conteúdo é aceito por pais das escolas laicas e das religiosas", diz o diretor.

A visão também é defendida por Maria Lúcia Callegari, orientadora do colégio Santa Maria (zona sul de SP). "Quando falamos sobre o surgimento da vida, abordamos o criacionismo e o evolucionismo. Trabalhamos com pluralidade na ciência, para romper a idéia de uma verdade absoluta."

Na escola, o conteúdo é ensinado para os alunos do qu
into ano do ensino fundamental e, segundo ela, não há reclamação de pais por causa do conteúdo.

ENTREVISTA

Teorias devem ser dadas juntas, diz criacionista DA REPORTAGEM LOCAL

O presidente da Associação Brasileira de Pesquisa de Criação, Christiano da Silva Neto, afirma que, enquanto não houver consenso, tanto o evolucionismo quanto o criacionismo devem ser dados nas aulas de ciências.

FOLHA – O criacionismo deve ser ensinado nas aulas de ciências nas escolas?

CHRISTIANO DA SILVA NETO – Melhor seria perguntar: "Por que estudar as origens?". Todas as culturas demonstram interesse por isso. Conhecendo as origens das espécies, do Universo, pode-se explicar o que ocorre no presente.

Os cientistas evolucionistas entendem que seu modelo é o que corretamente explica as origens do Universo e da vida, enquanto os cientistas criacionistas entendem que o seu modelo é o correto.

FOLHA – O que o sr. acha de ensinar tanto o criacionismo quanto o evolucionismo?

SILVA NETO – Há muitos pontos dogmáticos, tanto no modelo evolucionista quanto no criacionista.

A grande maioria dos homens de ciência, hoje, é de evolucionistas, mas vem crescendo o número de cientistas criacionistas.

Enquanto o consenso não existir, a maneira mais justa e honesta de lidar com a questão é apresentar ambos os modelos nas aulas de ciências, dando destaque aos pontos fortes e fracos de cada um.

FOLHA – Para os críticos, criacionismo não é ciência.

SILVA NETO – É uma acusação injusta, derivada da falta de conhecimento. O criacionismo aponta para a existência de um agente externo ao Universo, que teria sido a sua causa. A ciência não tem, ao menos hoje, capacidade para investigar algo fora dos limites do Universo. Portanto, esse agente está fora dos limites da ciência.

ENTREVISTA

Ciência não usa crença como base, diz bióloga DA REPORTAGEM LOCAL

A bióloga Rute Maria Gonçalves de Andrade, diretora da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), diz que "de forma nenhuma" o criacionismo pode ser ensinado em aulas de ciências. Isso porque, afirma, "falta tudo" para que essa linha seja considerada ciência.

FOLHA – O criacionismo deve ser ensinado nas aulas de ciências nas escolas?

RUTE MARIA GONÇALVES DE ANDRADE – De forma nenhuma, pois não é conhecimento científico.

Ninguém pode fazer, por exemplo, um experimento para provar a existência de Deus. E fazer experimentos é uma das bases da ciência.

Na ciência, não se pode usar como base a crença. Não posso dizer que um animal está em extinção porque eu simplesmente creio nisso. Na ciência, tem de haver método, o que os criacionistas não conseguem fazer.

FOLHA – O que a sra. acha de escolas que ensinam, juntos, evolucionismo e criacionismo?

ANDRADE – Também acho errado. Claro que um aluno pode questionar sobre o criacionismo, mas o professor deve estar preparado para dizer que isso não é conhecimento científico.

FOLHA – Mas os criacionistas vêem falhas e criticam a teoria evolucionista.

ANDRADE – É um absurdo.

Obviamente a teoria da evolução ainda não se esgotou, mas o que foi descoberto até agora foi pautado por métodos científicos. Quando se publica em revista científica, a metodologia é rigorosa e os procedimentos devem ser passíveis de reprodução.

Para o criacionismo, falta tudo isso. Apresentar esse modelo aos alunos é um prejuízo, pois ele ficam impedidos de ver o que é o conhecimento científico.

Haddad reclamou de apostila, usada por sua filha DA REPORTAGEM LOCAL COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A polêmica acerca do ensino do criacionismo nas aulas de ciências envolveu pessoalmente o ministro da Educação, Fernando Haddad. A filha dele de nove anos estuda na unidade de Brasília do Mackenzie, que adotou o material -desenvolvido pela instituição- com conteúdos criacionistas.

Segundo a Folha apurou, no início do ano letivo, Haddad percebeu que o modelo estava presente no material didático da filha e, irritado, foi reclamar com a direção do colégio.

A escola confirma que um grupo de pais procurou a unidade, incluindo o ministro. Afirma, porém, que a principal reclamação era a falta de revisão do material, que possuía erros gramaticais.

As apostilas foram utilizadas por uma semana, no início do ano letivo. Após os protestos, foram retiradas de circulação e substituídas por livros didáticos comuns. O mesmo material, porém, continuou a ser utilizado em São Paulo.

"A unidade de São Paulo passou pela revisão, mas os livros não foram retirados porque eles preferiram fazer a errata. A sociedade de Brasília é mais exigente", diz a diretora do Mackenzie de Brasília, Sandra Maria de Paiva.

No ano que vem, as apostilas revisadas voltarão a ser usadas na unidade de Brasília. Mas a implementação será gradativa. Em 2009, só o primeiro ano do fundamental a utilizará. Em 2010, elas também serão usadas pelo segundo ano e assim sucessivamente, até que todas as séries tenham o material.

Pelo sistema, caso a filha do ministro, que irá para o terceiro ano, continue na escola, ela não estudará com as apostilas do sistema Mackenzie.

A Folha procurou o ministro, mas sua assessoria informou que ele está de férias.

Em São Paulo, 14 de Dezembro de 2008

SPFC: Tri/Hexa Campeão Brasileiro (6-3-3)

SPFC Hexa oficial

Da mesma forma que em 2006 e 2007, o São Paulo Futebol Clube é campeão brasileiro – pela terceira vez seguida e pela sexta vez alternatada. Embora possa ainda melhorar em desempenho no campo e fora dele, o tricolor é exemplo para os demais clubes de futebol brasileiros – que não lhe chegam perto. No ano que o SPFC reafirma, com sua conquista, a sua hegemonia no futebol brasileiro, o Corinthians faz o quê? Celebra seu retorno à primeira divisão do campeonato brasileiro.

Indiscutível a superioridade do SPFC. Parabéns ao Muricy, técnico de primeira, ao Rogério, capitão e goleador inigualável, e a todos os demais jogadores, que contribuíram de forma decisiva para a conquista.

O gol mais lindo da temporada? O de Dagoberto, contra o Internacional de Porto Alegre.

Avante, SPFC. “Tu és forte, tu és grande, dentre os grandes és o primeiro”.

São Paulo, em 8 de Dezembro de 2008

O novo Windows Live Space

O ambiente maior – Windows Live Space — em que se situa este space particular, vem mudando, e mudando drasticamente. Live Spaces está virando um ambiente de relacionamento. Quem não notou faria bem em prestar atenção. A área de “amigos” está bem mais enriquecida, a área de fotos agora permite marcações, a área de transferência de arquivos (SkyDrive) está bem mais fácil de operar…

Vale a pena conferir.

Em São Paulo, 5 de Dezembro de 2008

Entre filósofos (comme il faut)

Estou residindo em São Paulo faz três meses. Meu bairro é a Chácara Klabin. É um bairro relativamente novo, cheio de prédios de apartamentos e serviços de primeira necessidade: farmácias, padarias, lanchonetes, barzinhos, vídeo-locadoras, cabeleireiros, postos de gasolina (e, naturalmente, motéis). Há, também, aqui do lado, um enorme Extra, um Leroy Merlin, e um Laboratório Delboni Ariemo.

Mas o bairro, hoje bonito, era uma favela algum tempo atrás. Foi o Maluf (sempre ele!) que o reclamou para os donos (a família Klabin), relocando os moradores para a COHAB do Itaquera. De novo de posse do terreno, a família fez bom uso dele. Originalmente, tudo isso era uma chácara — donde o nome do  bairro, que é parte da Vila Mariana. A linha 2 (verde) do metrô (que vai do Ipiranga até a Vila Madalena, correndo debaixo de parte da Vergueiro, da Bernardino de Campos, da Paulista e da Doutor Arnaldo) passa por aqui. Meu apartamento fica mais ou menos eqüidistante das estações Chácara Klabin e Imigrantes, numa paralela à Av. Prefeito Fábio Prado, que cruza a Vergueiro. 

O que mais atraiu no bairro, além da tranqüilidade, foi o fato de que as ruas e as praças têm o nome de filósofos (ou cientistas que contribuíram para o desenvolvimento da filosofia). A Drogaria São Paulo fica na Rua David Hume – escrevi minha tese de doutoramento sobre ele, e já o comentei neste space mais de uma vez. Meu apartamento fica quase ao lado da Praça Kant – e, mais abaixo, há a Praça Giordano Bruno. Quando venho da Vila Mariana, saio da Vergueiro na Rua Voltaire – outro de meus favoritos. Além destes, há a Rua Malabranche, a Rua Montesquieu, a Rua Diderot, a Rua Rousseau, a Rua Pico de la Mirandola, e, provavelmente, outras.

Não é interessante? Em meio a tantos filósofos, sinto-me (modéstia à parte) em casa.

ET: A Faculdade de Educação da UNICAMP, onde trabalhei por 34 anos, ministrando disciplinas de Filosofia da Educação, Filosofia Política e Teoria do Conhecimento, fica na Av. Bertrand Russell – que, por sinal, escreveu bastante sobre essas três áreas da filosofia.

Em São Paulo, 5 de Dezembro de 2008

Quatro anos deste space

Hoje este space completa seu quarto aniversário. Foi em 2 de Dezembro de 2004 que o criei. Estava em Redmond, perto de Seattle, WA, nos Estados Unidos, numa reunião de uma semana com o Puget Sound Center, ONG que criou o programa Peer Coaching, usado pela iniciativa Partners in Learning, da Microsoft, de cujo Conselho Consultivo Internacional eu tenho a honra de participar desde o início de 2003. Na ocasião, Ana Teresa Ralston, da Microsoft Brasil, também participava da reunião.

Recebi, durante a reunião, um e-mail de Márcia Teixeira, também da Microsoft, me informando da criação do Spaces – hoje Windows Live Spaces. Imediatamente criei o meu – e o resultado está aí. Quase mil fotos e centenas de textos.

Comemoro aqui comigo, e com os leitores interessados em participar, o aniversário.

Em São Paulo, 2 de Dezembro de 2008

Educação: conceito, modelos, paradigmas – II

George Scharffenberger uma vez disse (num encontro preparatório do World Economic Forum em Brasília) que há três formas de encarar o uso de tecnologia (concebida de forma genérica) na escola—o que ele chamou de “os três ‘S’":

a) Para sustentar (apoiar) o que já se faz (uso conservador)

b) Para suplementar (enriquecer) o que já se faz (uso reformador)

c) Para subverter o que se faz — e introduzir uma nova forma de fazer as coisas (uso transformador ou, se preferirem, revolucionário).

Até certo ponto, a escolha de como usar a tecnologia na escola depende do professor. Se ele considera o que já faz bastante bom, provavelmente vai usar a tecnologia de forma conservadora, isto é, para sustentar e apoiar aquilo que já faz; se ele está convicto que deve melhorar o que faz, mas sem mudar de paradigma, provavelmente vai usar a tecnologia de forma reformadora, suplementando e enriquecendo o que faz; e se ele estiver insatisfeito com o que faz, provavelmente vai procurar usar a tecnologia para deixar para trás o que já faz e encontrar uma nova forma de fazer as coisas, trocando o paradigma.

Ilustro.

A livraria do centro da cidade um dia operava quase sem tecnologia alguma. O estoque era gerenciado em fichas de papel, a contabilidade feita em papel (com a ajuda, talvez, de máquinas manuais ou elétricas de calcular). Quando os microcomputadores se tornaram populares, provavelmente a tecnologia foi usada de forma conservadora: para gerenciar o estoque, fazer a contabilidade, manter o cadastro dos empregados, etc. Com o tempo, a tecnologia começou a ser usada de forma reformadora: a livraria colocou um site na Internet e começou a vender livros para o país inteiro. Por fim, inventou-se a livraria virtual: a Amazon Books transformou, revolucionou o mercado livreiro. E não teria conseguido fazê-lo sem o uso criativo e inovador da tecnologia.

Disse atrás que até certo ponto, a escolha de como usar a tecnologia na escola depende do professor. Enfatizo: "até certo ponto". Ferramentas são ferramentas, e ferramentas são feitas em geral fazer alguma coisa razoavelmente específica. Embora um martelo possa ser usado até para matar alguém, ele em geral serve para fixar ou arrancar um prego. Para fazer coisas razoavelmente diferentes de fixar ou arrancar um prego, precisamos de outras ferramentas. (O computador, em si, é uma notável exceção: embora criado para mastigar números, tornou-se uma ferramenta aberta e versátil que se encaixa em quase qualquer atividade — até o romance).

Há ferramentas interessantes, mas apenas para certas finalidades. PowerPoint é um caso desses: é ótimo como apoio a apresentações feitas ao vivo e em tempo real. Mas não ajuda muito na elaboração de apresentações que possam ser usadas como módulos no Ensino a Distância (considero o Ensino a Distância apenas uma das modalidades da Educação a Distância). Outras ferramentas vão além de PowerPoint e o complementam de forma interessante – esse é o caso de Teaching Mate. Mas tanto PowerPoint como Teaching Mate são ferramentas de apresentação, ao vivo ou no Ensino a Distância. Ou seja: são ferramentas dentro do paradigma convencional da educação. É muito difícil imaginar essas duas ferramentas sendo usadas para fazer algo radicalmente diferente daquilo que se concebe como educação no paradigma tradicional: apresentar informações aos alunos (e testá-los para verificar se as assimilaram).

Para fazer uma educação diferente precisamos de ferramentas diferentes. Se aprendemos em comunicação, interação e colaboração, como diz Paulo Freire, precisamos de ferramentas pedagógicas que facilitem a comunicação, a interação, e a colaboração (não de ferramentas voltadas simplesmente para transmitir ou apresentar informações).

Nossos professores, em regra, não estão muito interessados em transformar o que fazem — e alguns que estão, muita vezes, não sabem como. Mas acho incoerente pregar a necessidade de mudança transformadora, que quebra paradigma, e, no entanto, colocar nas mãos dos professores ferramentas que sustentam e reforçam o paradigma que se deseja substituir.

Não é questão do que vem antes: a mudança do professor ou a tecnologia inovadora. As duas coisas devem vir juntas.

O professor insatisfeito com sua prática convenciona, e que deseja transformá-la, comumente se frustra com tecnologia que apenas sustenta e reforça a prática convencional. A tecnologia apresentada ontem não me parece "sub-ótima" — SE aquilo que realmente queremos é transformar, ou seja, melhorar, radical e qualitativamente, a educação, e isso porque ela sustenta e reforça a prática tradicional e deixa o professor com a impressão de que ele está inovando só porque está usando um notebook e um projetor de multimídia — ou, no caso de Ensino a Distância, a Internet.

As duas coisas têm de vir juntas: uma pedagogia inovadora e uma tecnologia que a facilita e incentiva.

E, na minha opinião, não podemos esperar que esses poços de reacionarismo que são as Faculdades de Educação se transformem antes, porque não o farão. Temos de começar com o pessoal que já está no campo, com a mão na massa, apresentando-lhes idéias novas e ferrmentas inovadoras, tudo junto. E torcer para que o tempo e a geração digital acabem com as Faculdades de Educação.

Em São Paulo, 27 de Novembro de 2008

Educação: conceito, modelos, paradigmas – I

Acho incrível quão difícil é, para a maioria das pessoas, pensar a educação de forma diferente da convencional.

Em geral, as pessoas conscientemente adotam ou tacitamente pressupõem um conceito de educação segundo o qual:

* Educar é entregar ("deliver") aos alunos um pacote de informações (às vezes honorificamente chamadas de conhecimentos ou saberes);

* Ensinar é o processo (método?) pelo qual quem está de posse desse pacote (o professor) o transfere a quem supostamente teria necessidade dele (o aluno);

* Aprender é ação mediante a qual o aluno se apossa desse pacote de informações;

* Avaliar a aprendizagem é o processo pelo qual se afere se o aluno de fato se apossou do pacote de informações.

Faz bem mais de cem anos que um monte de gente importante — Dewey, Tolstoi, mais recentemente Paulo Freire, Piaget — vem questionando esse conceito de educação e os modelos e paradigmas embutidos nele. Educar, dizem esses críticos, não é entregar informações, não é transferir conhecimentos…

Aquilo que esse modelo chama de conhecimentos ou saberes (o conteúdo a ser entregue ou transferido) nada mais é do que conjuntos de informações, organizados convencionalmente em disciplinas acadêmicas. O currículo escolar é, assim, um conjunto de disciplinas: língua materna, matemática, ciências (biologia, física, química), estudos sociais (história, geografia, etc.), artes, etc. O professor é especialista em uma área disciplinar e sua identidade profissional é a de ensinante: ele apresenta aos seus alunos as informações de sua disciplina de forma segmentada e organizada, dosada segundo o que se pressupõe ser o nível de desenvolvimento intelectual dos alunos. Os alunos prestam atenção ao que o professor diz, fazem anotações e complementam as informações a eles entregues com outras que se encontram em livros didáticos. Fazem isso, não porque considerem as informações que lhes são passadas interessantes ou úteis, mas porque vão ter de fazer testes, provas, exames que têm como objetivo determinar se, e em que medida, absorveram aquilo que lhes foi passado.

Um outro modelo, entretanto, é possível, e vem sendo proposto de forma contínua e coerente nos últimos cento e cinqüenta anos.

Segundo esse paradigma (chamado de novo, mas já centenário), a educação é um processo de desenvolvimento humano, que tem lugar de dentro para fora mais do que de fora para dentro… Nascemos sem saber fazer nada (incompetentes) e, por isso, dependentes e incapazes de assumir responsabilidade pela nossa vida. Mas nascemos com uma incrível capacidade de aprender. E aprender não é assimilar informações: é tornar-se capaz de fazer o que antes não conseguíamos fazer: aprender é construir / expandir capacidades, desenvolver competências e habilidades.

O foco do aprender, nesse caso, são fazeres, mais do que saberes (conhecimentos, informações, propriamente ditos) — ou, se se preferir, saber-fazeres. E a gente aprende a fazer (fica sabendo como fazer) vendo os outros fazer e tentando fazer nós mesmos. Aprender é algo prático e ativo.

A melhor forma de aprender, dentro desse paradigma, é resolvendo problemas. A metodologia de projetos, na realidade, é uma metodologia que nos permite aprender coisas importantes no processo de resolver problemas que nos interessam, que são importantes para nós.

O currículo, neste caso, é uma matriz de competências: listas organizadas e coerentes daquilo que se espera que as pessoas saibam fazer no tipo de sociedade em que a educação está acontecendo. Na Idade Média não era necessário saber ler e escrever — hoje é indispensável; há trinta anos não era necessário saber lidar com tecnologia sofisticada — hoje é indispensável. E assim vai.

Os nossos aprenderes mais significativos não acontecem porque alguém nos ensinou da forma que normalmente se ensina alguma coisa na sala de aula convencional. Aprendemos a reconhecer fisionomias, a entender a fala, a falar, a andar, a correr, a nadar, etc. sem que ninguém nos ensine. Aprendemos uns com os outros, em colaboração. Como dizia Paulo Freire, ninguém educa ninguém — mas ninguém se educa sozinho. Aprendemos, dizia ele, "em comunhão, mediatizados pelo mundo". Ou seja, aprendemos uns com os outros no contexto da vida.

Se a escola quer ser um ambiente de aprendizagem significativo, ela tem de se parecer cada vez mais com a vida — em vez de ser o gueto em que ela se tornou. Nesse gueto, o que se aprende tem pouca relação com a vida, só sendo útil dentro do próprio contexto escolar.

O professor, dentro desse novo paradigma, não é ensinante: é facilitador da aprendizagem, orientador, mentor, coach, tutor…

A avaliação, dentro desse modelo, não se faz por testes, provas, exames, mas sim com base em observações, interações, diálogos com os múltiplos agentes envolvidos no processo — inclusive com o próprio aprendente. 

Por que é que, mais de cem anos depois de todas essas idéias terem emergido e sido difundidas, o paradigma tradicional da educação ainda está tão enraizado nas pessoas — a ponto de palestras inteiras serem feitas sem que se dê a menor indicação de que um outro paradigma é possível, existe, e, na realidade, parece bem mais promissor do que o convencional?

Em São Paulo, 27 de Novembro de 2008