A autobiografia como um processo de (re)construção do eu

Construímos nosso passado – e, John Locke estando certo, nossa identidade — a partir de fragmentos de lembranças perpetuados na memória – da mesma forma que o historiador constrói o passado a partir de fragmentos de evidência que o passado, ao não destruir, nos legou.

Se estou certo no meu post “Memória e Esperança”, nossa identidade também se constrói por aquilo que esperamos nos tornar – pelos nossos projetos de vida.

De um lado, nosso passado, de certo modo, nos condiciona – às vezes, nos condena. De outro lado, o futuro que desejamos alcançar nos puxa para a frente. Entre um e outro, construímos e reconnstruímos nosso eu, nossa identidade pessoal.

Já fiz algumas das seguintes perguntas…

Por que nos lembramos tão bem de algumas coisas, não raro distantes no tempo, e, às vezes, até desimportantes, e temos tanta dificuldade para lembrar outras, às vezes recentes e até mesmo importantes?

Por que traumas nos levam a perder a memória daquilo que os circundou? Quem passa por eles muitas vezes se lembra do que ocorreu antes, até determinado momento, e do que aconteceu depois, no momento em que, em regra, recobraram a consciência perdida.

Por que a memória é tão seletiva? Seria porque, inconscientemente, tentamos preservar apenas aquilo que se harmoniza com a identidade que queremos projetar, exibir ao mundo, com o nosso “eu público”,  nosso public self?

Seria verdade que tudo o que vimos, sentimos, pensamos está registrado na memória, mas que nosso poder de recuperação é limitado? Estaria mesmo o problema, não no nosso “banco de memórias”, o nosso  memory bank (tudo estaria gravado lá), mas com a nossa “máquina de recuperação”, a nossa retrieval machine? Poderia a hipnose, por exemplo, nos dar acesso a memórias que doutra forma ficariam para sempre inacessíveis, perdidas, como se não existissem? Existiriam outros métodos de “acesso direto à memória” (de direct memory access), sem precisar passar pelonosso  “sistema operacional” (nosso operating system) que tem uma máquina de recuperação (retrieval machine) com recursos muito limitados? Seriam as terapias psicanalíticas e as envolvendo hipnose, para não mencionar os métodos de reprogramação neurolíngüistica, formas aceitáveis de alterar aquilo de que nos lembramos e, assim, mudar nossa identidade e, conseqüentemente, nosso eu, nossa personalidade?

E se, no processo de escrever uma autobiografia, viermos a nos lembrar de coisas de que não nos lembrávamos, e a descobrir que algumas de nossas memórias eram inverídicas, estaremos nós mudando a nossa identidade no processo? Neste caso, a pessoa que termina de escrever a autobiografia não seria a mesma que começou a escrevê-la?

Caro leitor: não se desespere. Eu sou isso aí. Eu sou as coisas que aprendi a pensar e a fazer. Eu sou os problemas que um dia achei interessantes. Eu sou aquele que não consegue deixar de levantar essas questões que você bem pode achar idiotas.

Darcy Ribeiro, em suas Confissões, diz que, quando sua mãe estava morta, começou a cantar uma música de procissão, de que, em outras condições, nunca imaginaria que conseguisse lembrar: “Saiu de mim uma cantiga de procissão que eu não me lembraria nunca de que me lembrasse” (Confissões). A construção é canhestra: parece envolver a lembrança da lembrança, a memória da memória…

Darcy Ribeiro, na obra mencionada, também conta o caso de quando reencontrou um antigo diário e, ao lê-lo, percebeu quanta coisa havia acontecido em sua vida das quais não mais se lembrava, quanta coisa havia acontecido das quais as suas memórias atuais, quando confrontadas com o que dizia o diário, estavam totalmente equivocadas.

Doris Lessing também observa que, ao forçar a vinda para o consciente de memórias por muito tempo ilembradas, perguntava-se se realmente havia sido tão má — ou tão boa, ou tão ingênua — assim.

As pessoas têm memórias umas das outras. Às vezes essas memórias são negativas. Um dia, entretanto, algo acontece e as pessoas começam a ver os mesmos fatos sob uma outra luz – e as memórias se alteram. A negatividade das memórias iniciais talvez tenha feito a pessoa soterrar no subconsciente algumas memórias que possuissem uma “dissonância cognitiva” com as memórias privilegiadas — porque essas memórias colidiam com a imagem que queriam manter da outra pessoa. De repente, algo acontece, e torna-se possível abrir um canal com o passado que permite que as boas memórias fluam de novo. O passado se reconstrói. Será uma construção do passado mais fiel do que a anterior? Serão ambas legítimas, fotografias de diferentes momentos do nosso being-in-motion?

Por que tudo tem de ser tão complicado?

Faz 18 anos que tive a idéia de escrever minha autobiografia. Nunca imaginei escrever uma autobiografia muito amarrada, com antecedentes, começo, meio e… bem, o fim não seria eu a escrever. Imaginei assim uma série de auto-retratos escritos – Retratos de Mim Mesmo. Cada um revelaria um pouco de mim, o meu eu de uma certa perspectiva em um determinado momento. Imaginei que pudesse me tornar um van Gogh da escrita, cheio de auto-retratos.

A ideia foi surgindo naturalmente a partir do momento em que coloquei meu site pessoal na Internet, em Setembro de 1995. Naquele mês eu completei 52 anos. (Rousseau começou a preparar suas Confissões quando tinha 54 anos). Escrevi ali um primeiro esboço autobiográfico, e gradativamente fui acrescentanto material, revelando mais e mais de mim mesmo.

Em 19 de fevereiro de 1997, numa passagem escrita depois de ler alguns comentários que alguém fez sobre o meu site, afirmei:

“Que bom que você gostou do meu site particular. Há momentos em que acho que, no meu arremedo de autobiografia, acabei me despindo demais, fazendo quase que um strip tease da alma…  Se o resultado ficou de certa forma parecido comigo, deu certo. Mas seja lá qual for o resultado, eu gostei de tentar capturar em palavras um monte de coisas até aqui apenas vividas. Quem sabe ainda escrevo uma autobiografia pra valer, talvez apenas para consumo próprio?”

Interessante… Desde então meu “arremedo de autobiografia” já foi reescrito algumas vezes. Não só acrescentei coisas: por vezes, retirei coisas, mudei coisas que estavam escritas para que recebessem uma nova ênfase. Nesses dezoito anos, de 1995 para cá, me separei, divorciei, casei de novo, voltei para a igreja da qual me havia afastado, pensava eu definitivamente, em 1972.

Quando decidi escrever essa minha autobiografia aos pedaços iniciei uma busca por mim mesmo: buscava pedaços de mim mesmo perdidos por esse mundo afora. Muita gente fez parte do meu passado – todos aqueles com quem interagi. E eles podem se lembrar de incidentes de minha vida dos quais eu não mais me lembro – pedaços de mim mesmo que eu perdi. Quando encontramos pessoas com quem convivemos bastante (por exemplo, na escola), mas que não vemos há muito tempo, em geral tem lugar uma “hora da nostalgia”: um lembra algo que os demais já esqueceram, outro acrescenta um detalhe, ou o corrige…

Com minha decisão, minha interação com o meu passado alcançou níveis de obsessão. Cartas, diários, livros, artigos – não só meus, mas dos outros com os quais interagi – tudo isso passou a ser parte de uma busca interminável por pistas que pudesse vir a reacender uma nova trilha de memórias que me me viesse a me permitir encontrar pedaços de mim mesmo que eu já havia soterrado em meu inconsciente!

Minha decisão de investir no site do Instituto “José Manuel da Conceição”, onde estudei de 1961 a 1963, fez parte dessa busca. Tenho textos velhos, escritos a mão ou datilografados, fotografias pequenas, em branco e preto, em que é difícil reconhecer a face das pessoas. . .

Assim a vida passa, a gente fica mais velho, hopefully wiser, e fica mais interessado em avaliar o que passou antes – o que fui, o que sou, o que tenho ainda a chance de ser. Naquele momento, aos 52 anos, nunca imaginaria que pudesse vir a me casar de novo, a voltar a ser membro de uma igreja…

Normalmente, lembro-me apenas de pequenos trechos de minha vida. Com esforço, e a ajuda de outros, tento pegar uma agulha e alinhavar os pedaços soltos, na esperança de que eles se conectem em algo que pareça autobiografia. Por isso o meu interesse atual em reencontrar velhos amigos, reatar velhos contatos, amarrar as pontas dos fios que me ligam a pessoas que conheci faz muito tempo, para que os tecidos não desfiem mais do que já desfiaram pelo desgaste natural do tempo.

Dezoito anos depois, hoje, em 2013, a obsessão diminuiu um pouco. Mas não despareceu de todo. Tanto que estou aqui escrevendo esses artigos. Tanto que tenho me envolvido de cabeça na discussão das biografias não autorizadas.

Sei o quanto a nossa memória distorce os fatos, reconstrói lembranças. Pode até, como disse Mark Twain, construir memórias ex nihilo, construir um passado que nunca foi.

Por isso, sou totalmente a favor de biografias não autorizadas. Elas fornecem uma contrapartida necessária para aspectos fictícios do nosso eu.

Em São Paulo, 29 de Outubro de 2013

Memória e Esperança

No artigo anterior mencionei John Locke, que afirma que aquilo que fui – ou melhor, aquilo que me  lembro acerca do que fui – condiciona o que sou: é a chave de minha identidade pessoal.

(Rubem Alves, quando responde “Sou, porque fui”, à pergunta se ainda é protestante, parece concordar com essa tese lockeana. Eu próprio já me manifestei de acordo com essa ideia).

Aqui gostaria de sugerir uma visão diferente: aquilo que eu quero ser – em outras palavras: a minha esperança – me condiciona mais do que aquilo que eu fui, ou aquilo que eu me lembro acerca do que fui – em outras palavras, a minha memória.

Aquilo que eu quero ser – a minha esperança – é a minha memória projetada para o futuro, é a memória que eu vou querer ter daqui a algum tempo.

Consta que Ayrton Senna, antes das corridas, se concentrava correndo, em sua mente, a corrida que em poucos minutos iria correr na pista. Ele se via acelerando, ultrapassando adversários, ganhando a bandeirada de chegada. Era isso que o ajudava a fazer do que era, num momento, a sua esperança, no momento seguinte, a sua memória. Ele “remembered forward”.

A contrapartida de “forward remembering” é “backward hoping”. Há um samba, acho que interpretado pela Beth Carvalho, parece que chamado “Foi Mangueira que chegou”, que diz: “Nossos barracos são castelos na nossa imaginação”. Fico pensando se isso não é verdade também na nossa memória. Imaginamos castelos onde de fato só existiram barraquinhos. Se, um dia, alguma coisa precipitar o reconhecimento de que foi só um barraco, vamos rejeitar o fato para ficar com o castelo da esperança voltada para trás. Este é um exemplo de “backward hoping”. Projeta-se no passado aquilo que se deseja para o futuro.

Nós somos, portanto, não apenas o que fomos, mas, também, o que esperamos (porque queremos, desejamos) ser.

Memory and Hope”. Este é o título de um livro antigo (mais de quarenta anos?) de um dos mais importantes professores que eu tive, Dietrich Ritschl (neto do famoso teólogo Albrecht Ritschl, que viveu no século XIX). Tanto quanto eu saiba, foi ele que cunhou as expressões “forward remembering” e “backward hoping”.

Em São Paulo, 29 de Outubro de 2013

Memória, Verdade e Autobiografias

Se John Locke está certo, nossa identidade pessoal é inseparavelmente ligada às nossas memórias. Se temos amnésia completa, deixamos de ser quem éramos. Se (por algum milagre, divino ou científico) viermos a possuir um conjunto de memórias diferentes, passamos a ser uma outra pessoa.

Se é assim que a coisa se passa, é preciso levantar uma questão importante: somos, não o que realmente fomos, mas, sim, o que nos lembramos ter sido.

O problema está no fato de que, como todos bem sabemos, nossa memória está longe de ser perfeita. Na realidade, é grandemente falha. Não nos lembramos, freqüentemente, de coisas que acabaram de acontecer. Olhamos um número na lista telefônica e, ao começar discá-lo, já não nos lembramos mais dele inteiro. Não nos lembramos de onde colocamos coisas importantes. Esquecêmo-nos do aniversário e de datas importantes de pessoas que nos são caras. Esquecêmo-nos de compromissos importantes.

Além de falha, no sentido de que não nos lembramos de coisas que de fato aconteceram, nossa memória também é pouco confiável, no sentido de que freqüentemente nos lembramos de coisas que não aconteceram, ou que não foram bem assim como nos lembramos dela. Tanto é que, freqüentemente, juramos que algo aconteceu assim – até sermos convencidos de que estamos errados por evidência contrária. A psicanálise nos relata casos impressionantes de pessoas que, tendo reprimido a memória de um acontecimento traumático, criaram, por assim dizer, uma “memória substituta”, inverídicamas menos desagradável. Voltaire, numa frase célebre, dizia que nunca tinha contado nenhuma mentira, mas que havia inventado muitas verdades… E Mark Twain se orgulhava, na velhice, de ainda ter uma memória tão boa que se lembrava até de coisas que nunca haviam acontecido…

Isso quer dizer que tanto há coisas que de fato aconteceram, das quais não nos lembramos, como há coisas de que imaginamos nos lembrar que realmente não aconteceram, ou não aconteceram do jeito que acreditamos.

Esses fatos nos colocam diante de questões interessantes, em relação a autobiografias.

Primeiro, como é que eu sei que não estou me esquecendo de experiências importantes do meu passado, que, se lembradas, poderiam, de alguma forma redefinir minha identidade?

Doris Lessing, em sua autobiografia, discute o problema:

“Assim que você começa a escrever, a pergunta se interpõe, insistente: Por que motivo você se lembra disso e não daquilo? Por que se lembra mais dos detalhes de uma determinada semana, de um mês transcorrido há muitos anos, e, depois, negrume total, vazio? Como sabe que aquilo de que se lembra é mais importante do que aquilo de que não se lembra?” (Debaixo da Minha Pele: Primeiro Volume da Minha Autobiografia, até 1949, Companhia das Letras, São Paulo, 1997; original: Under My Skin: Volume One of my Autobiography, to 1949, 1994; tradução de Beth Vieira, pp. 21-22.)

Segundo, como é que eu sei que as coisas de que acredito me lembrar realmente ocorreram, ou ocorreram do jeito que eu me lembro? A possibilidade de que haja memórias inverídicas – ou porque honestamente nos lembramos mal ou errado do que aconteceu, ou porque intencionalmente falsificamos a memória, convencendo-nos a nós mesmos de que alguma coisa realmente aconteceu, ou aconteceu de um jeito, quando ela não aconteceu, ou não aconteceu daquele jeito – coloca em xeque nossas lembranças. Assim, a tentativa formal e deliberada de reconstruir o passado, usando as memórias de outras pessoas ou evidências externas, é uma forma de testar a veracidade daquilo de que nos lembramos, de examinar os fundamentos de nossa identidade pessoal. É verdade que, em casos de repressão, nos convencemos de que algo não aconteceu, ou não aconteceu de um determinado jeito, quando realmente aconteceu, ou aconteceu de modo diverso. Se os psicólogos estão certos, a repressão não fica totalmente impune: aquilo que foi reprimido reaparece de outras formas, causando problemas psicológicos de vários tipos.

Doris Lessing, como mencionado, discute o problema em sua autobiografia, e se diz comprometida a dizer a verdade, a apresentar um relato verdadeiro do que foi sua vida –pelo menos tão verdadeiro quanto ela possa aquilatar.

A questão da verdade na reconstrução de nosso passado é essencial, em especial no caso de autobiografias. Mas essa questão se desdobra em duas:

Primeiro, a questão da falsificação intencional do passado (por omissão, distorção, acréscimo). Doris Lessing critica especialmente Simone de Beauvoir, que, ao escrever suas memórias, declara explicitamente não ter a mínima intenção de dizer a verdade sobre alguns episódios. Se não ia nem tentar dizer a verdade, pergunta Lessing, qual o valor do exercício? Sua autobiografia seria ficção – e, portanto, não autobiografia, apenas um romance com alguns elos de ligação com a realidade não fictiva.

Mais frequentemente, porém, autobiografias misturam fato e ficção. Em sua Introdução à edição das Confissões de Roussau na série “Wordsworth Classics of World Literature”, Derek Matravers coloca o dedo no essencial de uma autobiografia:

“The Confessions is autobiography, not fiction, and as such, it purports to describe what actually happened. In the main, Rousseau’s claim to veracity is supported by modern scholarly opinion. Ocasionally he has lapses of memory, and gets his dates wrong or misjudges the time he spent at some place or another. On other occasions . . . the suspicion is that the facts are deliberately bent in his favour. Overall, however, his reliability as a witness and the range of experiences on which he was able to draw give their own value to the memoirs, as Rousseau himself realised” (Rousseau, The Confessions, with an Introduction by Derek Matravers, Wordsworth Classics of World Literature, London, 1994, pp. vii-viii).

Vale a pena também citar as Confissões de Darcy Ribeiro. Ele, em parte por saber que estava no fim da vida, não se preocupou em fazer scholarship em sua autobiografia — isso é tarefa de biógrafo, disse ele, acrescentando:

”Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um relato espontâneo. Recapitulo aqui, como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha [a mãe], até agora, sozinho nesse mundo. Muito relato será, talvez, equivocado em alguma coisa. Acho melhor que seja assim, para que meu retrato do que fui e sou me saia tal como me lembro. Neguei-me, por isso, a castigar o texto com revisões críticas e pesquisa. Isso é tarefa de biógrafo. Se eu vier a ter algum, ele que se vire, sem me querer mal por isso” (Confissões [Companhia das Letras, São Paulo, 1997], p. 11).

Segundo, a questão mais difícil, a da falsificação inconsciente do passado. A psicologia e a experiência nos mostram que, com o passar do tempo vamos, insconscientemente, idealizando nosso passado: incidentes pequenos crescem de importância, porque nos projetam em uma luz mais favorável; outros incidentes, os mais desagradáveis, vão tendo sua importância reduzida, ou começam a ser visto sob outra luz; ainda outros, mais traumáticos, são, às vezes, eliminados inteiramente do quadro. Isso tudo acontece, o mais das vezes, sem que tenhamos a intenção de falsificar o passado, simplesmente porque mecanismos sutis operam em nossas mentes para eliminar dissonâncias (e, até certo ponto, manter nossa saúde mental e nossa sanidade). Não é à toa que existem tantos livros escritos sobre a temática do “autoengano”.

Quem está realmente preocupado com a verdade, há de querer descobrir, mesmo que tenhamos, como Lessing, a intenção de dizer a verdade, se esses mecanismos sutis não estão nos levando a nos enganar a nós mesmos.

Para terminar, e trazer essas elucubrações filosóficas para o presente…

Na entrevista do Roberto Carlos ao Fantástico no último domingo (27/10/2013) deu-me pena ver a inabilidade dele ao lidar com as perguntas (muito bem feitas, por sinal, mas com respeito). Disse que está escrevendo (na verdade, gravando material para) uma autobiografia, em que trata, até mesmo, do acidente que o obrigou a amputar parte da perna quando era criança. Ele disse algo mais ou menos assim (as palavras são minhas): Ninguém sabe o que eu passei e o que eu senti tão bem quanto eu, e eu vou falar sobre o assunto!”… Que ingenuidade. O artigo de Hélio Schwartsman na Folha de S. Paulo de hoje (29/10/2013) toca, a propósito da entrevista de Roberto Carlos, exatamente na questão da inconfiabilidade das autobiografias — nem sempre por maldade, mas porque as pessoas literalmente acabam por acreditar que coisas que não aconteceram de fato aconteceram, que coisas que aconteceram não aconteceram, ou não aconteceram como os outros se lembram delas, etc. Transcrevo abaixo o artigo do Hélio.

Como já mencionei, Simone de Beauvoir, disse, em seus relatos autobiográficos, que não tinha nenhum compromisso com a verdade. Poucos são tão francos e transparentes como ela (transparentes no sentido de admitirem ao público leitor que o que estão tentando passar por autobiografia não passa de ficção).

O Roberto certamente acredita que vai revelar a verdade sobre sua vida “como ela de fato ocorreu, sem interpretações, sem distorções, sem omissões, sem acréscimos”. “Wie es eigentlich gewesen ist“.

Em São Paulo, 29 de Outubro de 2013

o O o

Hélio Schwartsman, “Memórias” – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/136226-memorias.shtml

“Roberto Carlos, o rei, que bloqueou na Justiça a circulação de um livro sobre a sua vida, agora diz que é a favor de biografias não autorizadas e informa que está escrevendo suas memórias. Qual das duas obras é mais confiável?

Obviamente, essa não é uma questão que possa ser respondida “a priori”, mas temos boas razões para desconfiar das autobiografias. E não porque candidatos a ídolo sejam todos mentirosos compulsivos. O problema é que nossas memórias, embora nos pareçam vívidas a ponto de as julgarmos uma espécie de fotografia do passado, são mais bem descritas como uma fantasia de nossas psiques.

O que o cérebro guarda são registros hipertaquigráficos a partir dos quais nossa mente reconstrói o episódio cada vez que nos lembramos dele. Esse processo é distorcido pelo que estamos sentindo ou pensando quando acionamos a memória. Algumas lembranças ficam estáveis por décadas, outras são sutilmente modificadas e há as que sofrem transformações profundas. Elas são indistinguíveis em nossas cabeças.

Essas mudanças não ocorrem ao sabor do acaso. A memória não evoluiu para promover a verdade, mas para nos fazer viver vidas melhores. Ela não deve ser uma alucinação tão tresloucada que nos leve a cometer erros fatais, mas, se as distorções forem no sentido de nos tornar mais seguros e confiantes, são mais do que bem-vindas. Nós nos lembramos muito mais daquilo com o que podemos viver do que daquilo que efetivamente vivemos.

A notável exceção são as pessoas clinicamente deprimidas, que fazem uma avaliação surpreendentemente realistas de si mesmas. Não se sabe se é a depressão que leva à percepção mais acurada ou se é a visão mais realista que provoca os pensamentos deprimentes. De todo modo, o excesso de realismo não é muito saudável.

Se você é um leitor em busca de verdades, só compre autobiografias de depressivos notórios.”

Discurso de Formatura – 1963

[Discurso de formatura, ao final do Segundo Ciclo do Ensino Secundário (Curso Clássico), hoje Ensino Médio, proferido por mim, no dia 30 de novembro de 1963, no Auditório Waddell, no Instituto “José Manuel da Conceição”, em Jandira, SP. Foi paraninfo, na ocasião, o Deputado Camilo Ashcar.

Lembrei-me desse discurso hoje à tarde quando pesquisava algumas coisas na Internet sobre o tema “Escola da Vida”. Recente registrei os domínios escoladavida.net e escoladavida.net.br. Ocorreu-me que no meu discurso de formatura havia feito menção desse tema. Quando encontrei e reli o discurso, achei que merecia ser transcrito aqui. Quando o escrevi tinha 20 anos. Comecei a escola tarde. Estava pronto para ir para o Seminário Presbiteriano de Campinas. O rapaz cheio de fé que saía do Conceição ia passar por várias crises intelectuais e espirituais em Campinas, e depois.

 o O o

Excelentíssimas autoridades presentes, senhoras e senhores, caros colegas:

Há meses, quando fomos escolhidos para aqui na frente representar o pensamento dos que ora se formam, começamos a pensar sobre o que diríamos. A primeira idéia que nos apareceu foi a de basear nossa fala em algum pensamento sábio e bem apresentado por alguém, pois discursos, geralmente, são iniciados assim. Começamos, então, a manusear Dicionários de Citações, Enciclopédias de Pensamentos e outras obras congêneres. Por incrível que pareça, porém, o dito pensamento, sábio e bonito, com que iniciaríamos nosso discurso nesta noite não apareceu.

Foi nessa ocasião, quando estávamos sem idéia de como principiar o nosso falar e sem idéias de como desenvolvê-lo, que nos lembramos do discurso do orador da turma dos formandos de 1961, ano em que aqui chegamos. Ele se baseou no primeiro versículo do Salmo 124: “Se não fôra o Senhor que esteve ao nosso lado…”. Ao lembrarmos disso, veio-nos a idéia de nos basearmos também na Bíblia para a nossa conversa de hoje. Enfim, não é a Bíblia a fonte da mais profunda sabedoria, a revelação divina ao homem? Certo dia, enquanto líamos a Palavra de Deus, notamos dois versículos de um Salmo e alguma coisa nos avisou: — “Aí está o discurso de formatura. Desenvolve isto”.

“Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor, nosso Deus.

Uns encurvam-se e caem, mas nós nos levantamos e estamos de pé”.

Estes são os versículos número sete e oito do vigésimo Salmo.

Quando Davi escreveu essas palavras, estava em guerra, sentia diante de si e de sua nação o rumor de povos inimigos que, poderosos na luta corporal, frente a frente, possuíam ainda a vantagem de contar com carros e cavalos na batalha. Mas, apesar disso, Davi confia no Senhor, Deus dele e nosso Deus, mais que nos carros e cavalos do inimigo. Davi, milhares de anos antes, já pensava como São Paulo:

“Se Deus é por nós, quem será contra nós?”

Este Salmo é dividido por alguns em duas partes: um canto de batalha seguido de um canto de vitória. E sempre será assim: batalha, aos nossos olhos, sempre estará relacionada com vitória. Nunca haverá verdadeira vitória sem batalha, apesar de existir muita batalha em que não há vitória. Mas, para aqueles que fazem menção do nome do Senhor, para aqueles que põem a confiança no Senhor dos Exércitos, batalha será sempre prenúncio de vitória. Acabamos de combater em mais um curso e hoje conseguimos a vitória. Mérito nosso? De modo algum, porque se o Senhor nosso Deus não estivesse ao nosso lado, nada disso teríamos conseguido.

Gostamos, porém, de provar aquilo que dizemos. Será que Davi tinha razão para colocar tão grande confiança em Deus, tinha razão para crer tão firmemente na vitória confiado apenas na ajuda e proteção divinas?

Os povos inimigos de Israel possuíam, como arma de guerra, carros puxados por cavalos e com foices nas rodas, carros esses que cortavam homens e ceifavam vidas como se corta a grama e se ceifa o trigo. Possuíam milhares de cavaleiros que, armados, poderiam pisotear e esmagar pobres israelitas para quem um simples escudo valeria de pouca coisa. Valeria a pena confiar em um Deus invisível, quando armamentos visíveis e palpáveis vinham prontos para destruir tudo?

Davi, contudo, tinha razões para dizer o que disse. Por quê?

PRIMEIRO: Porque a história do povo de Israel, no passado, provava que Deus realmente merece confiança.

Fôra Deus quem, com forte mão, tirara o povo da escravidão do Egito, e quando os egípcios, com carros e cavalos, vieram após eles, valeu mais a confiança em Deus, que sobre os perseguidores fechou o Mar Vermelho. CARROS — apodreceram no fundo do mar; CAVALOS — matou-os a água; HOMENS — jazeram mortos, boiando na superfície do mar. E DEUS? — DEUS GUIAVA SEU POVO (Êxodo 14).

Outra vez os Filisteus reuniram-se para atacar os israelitas e estes temeram. Samuel, porém, orou a Deus e ofereceu sacrifícios e “o Senhor trovejou com tão grande trovoada aquele dia que aterrou os filisteus, que fugiram, perseguidos pelos homens de Israel” (I Samuel 7).

SEGUNDO: Davi, porém, podia afirmar o que afirmou, não só pela experiência do passado, mas pela sua própria experiência.

Desde cedo ele experimentara a mão de Deus o ajudando, desde cedo aprendera confiar em Deus. Menino ainda matara um urso e um leão. Rapazote, dispõe-se a enfrentar o gigante Golias que estava para Davi na mesma proporção que um exército de carros e cavalos para um sem esses recursos. — “Não podes ir contra ele”, disse o rei Saul, “pois és moço, inexperiente, e ele é homem velho, experimentado na guerra”. Davi, com custo convenceu o rei de que poderia sair contra o gigante. O rei pôs nele, então, uma armadura. Davi tentou andar e disse: — “Nunca experimentei isso e não consigo andar”, e, tirando tudo aquilo, pegou a sua funda, enfrentou e venceu o terror de Israel (I Samuel 17).

Certa vez Davi tomou na guerra mil cavalos de carros e sete mil cavaleiros. De outra vez feriu sete mil cavalos de carros dos siros e suas tropas eram constituídas apenas de infantaria, porque Deus havia proibido aos reis de Israel a multiplicação de cavalos (I Crônicas 18 e 19). Não tinham cavalos nem carros, porque Deus os proibira, mas tinham o Deus de todos os exércitos e de todas as milícias como Comandante.

Tinha, portanto, Davi, então rei de Israel, razão vinda da experiência quando dizia: “Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor, nosso Deus.”

Mas poderemos nós, formandos de 1963, também dizer isso? Temos nós razões? Como Davi, temo-as de sobra. De fato aprendemos que a confiança em Deus é milhares de vezes mais valiosa que a confiança em homens e em coisas terrenas. As fontes terrenas de confiança são várias, mas ao mesmo tempo mostram, pela sua inconstância, pelo seu poder limitado, pela sua breve duração, que são falhas, que em um momento ou outro nos podem faltar.

Mas, dizíamos, aprendemos a confiar em Deus pelas mesmas razões que Davi aprendeu.

PRIMEIRO: Porque a experiência daqueles que por aqui já passaram, daqueles que nesta casa um dia já “queimaram suas pestanas”, nos ensinou que compensa confiar em Deus, mesmo quando as coisas parecem ir de mal a pior.

Um pastor contava, certa vez, no Acampamento “Palavra da Vida”, a sua experiência. Estudava ele aqui, estava passando por dificuldades financeiras e não ia bem nos estudos. Estava quase desanimado de estudar, mas continuava porque recebia uma bolsa de uma igreja pobre que cobria apenas suas necessidades para com o estudo. Nessa situação, recebeu uma carta da dita igreja dizendo que, infelizmente, em virtude da situação lá não ser boa, não poderia mais dar-lhe a bolsa. Ia desistir de estudar, mas, antes, em conversa com um dos dirigentes, recebeu uma palavra de exortação para confiar em Deus. Foi para o seu quarto, orou, e na leitura da Escritura Sagrada encontrou a resposta de Deus para o seu problema: Ei-la, em Atos capítulo vinte e seis, versículo dezesseis: “Mas levanta-te, põe-te sobre os teus pés, porque te apareci por isto, para te pôr por ministro e testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda”. Aquilo renovou-lhe as forças e o ânimo. O então rapaz decidiu que Deus realmente merece confiança e hoje é um dos eficientes pastores de nossa igreja.

Poderíamos citar outros exemplos, mas cremos que muitos aqui conhecem fatos similares, e são esses fatos, do passado, que nos fazem dizer como o salmista.

Mas não é só.

SEGUNDO: A nossa própria experiência também nos autoriza a dizer: “Faremos menção do nome do Senhor, nosso Deus”.

A nossa vida aqui é uma vida de confiança e de fé em Deus somente. Quantas vezes já temos sentido a mão de Deus nos trazer o auxílio de que necessitávamos, no momento exato. Na hora oportuna Ele vem e atende as nossas orações, Ele vem e ajuda. Essas experiências, materiais, são superficialíssimas, porém, se as compararmos com as profundas e espirituais demonstrações de ajuda divina em nossas vidas. Muitas vezes o estudante se desanima, quer pela dificuldade nos estudos, quer pelos anos que ainda tem por vencer, e nessas horas fica abatido, acabrunhado, sem saber o que fazer, derrotado por “carros e cavalos”. Mas quando se lembra de que se deve fazer menção do nome do Senhor, e faz isso, sente a mão divina levantá-lo, erguê-lo, soerguê-lo e colocá-lo num lugar onde ele jamais esperaria estar. Esses fatos são de nossa experiência, da experiência de cada um dos colegas.

Temos, por isso, razões para repetir as palavras do grande rei Davi, o homem “segundo o coração de Deus”. Fatos que o autorizaram a dizer aquilo no passado autorizam-nos, da mesma maneira, a dizer o mesmo neste dia em que nos alegramos pela conquista desta vitória. Foi uma vitória que se seguiu a um combate, duro, na verdade, difícil de ser combatido, pois realizou-se em campos de batalha ásperos, pedregulhosos, ressequidos, com armas que muitas vezes não foram as melhores, mas tínhamos e ainda temos o Senhor dos exércitos como Comandante. E qual a conseqüência de confiar nEle, de tê-lO como supremo General de nossas lutas e batalhas? É o próprio Davi quem a dá, continuando o seu Salmo: “Uns encurvam-se e caem, mas nós nos levantamos e estamos de pé”. Enquanto os que confiam em carros e cavalos “encurvam-se e caem”, eis-nos de pé, alegres, triunfantes, vitoriosos. A confiança em Deus é de fato bem recompensada. Não há melhor recompensa para aquele que luta que a vitória, e esta Deus nos concede nesta noite, por nEle havermos posto a nossa confiança.

o O o

Não poderíamos, entretanto, ir embora, trilhar outros caminhas, seguir novos rumos, sem deixar aqui uma palavrinha sobre o “Conceição”, o nosso querido “Conceição”, que nos marcou profundamente, que deixou assinalada a vida e a personalidadede cada um de nós. Façamos isto.

Há alguns meses, quando em um trabalho com um grupo em São João da Boa Vista, externamos lá nossa opinião sobre o “Jota” baseando-nos em uma quadra de poeta patrício, desconhecido da maioria, que vive em Americana: Antonio Zoppi. Diz ele, em uma simples quadra:

“Sapiência não se esmola,
deve ser adquirida:
na doce vida da escola
ou na acre escola da vida”.

Palavras sábias essas, e que servem para ilustrar e provar qual é a missão do JMC. Diríamos que o “Conceição” é o lugar adequado para jovens adquirirem, ou começarem a adquirir, o que o poeta chama de “sapiência”, ou seja, sabedoria que orienta a prática. No “Conceição” reúnem-se a doce vida de escola e a escola acre da vida.

É uma vida de escola porque o “Jota” é, como os outros, um colégio onde se aprendem as disciplinas acadêmicas básicas e fundamentais. Talvez só deva ressaltar o nível mais alto que o aluno deve alcançar para ser aprovado. No restante, o colégio é semelhante aos outros.

O queremos frisar, porém, é que o JMC é uma escola da vida, muitas vezes acre e difícil, onde muitos não conseguem permanecer. O ambiente, aqui, às vezes, é completamente diverso daquele que um calouro esperaria e ele sofre o impacto. Mas, passado o primeiro choque (que, muitas vezes, não é, infelizmente, ultrapassado, pois há calouros que chegam numa tarde e na manhã seguinte se vão, dizendo que não se acostumariam), o aluno sente que vai se modificando, vai tomando partidos, tirando opiniões próprias — coisas que antes não ousava fazer. Aos poucos, dando algumas “burradas” e pagando por elas o caro preço de uma impiedosa caçoada, o aluno vai se formando, vai aprendendo, na escola da vida, a tornar-se Homem. Ele que em casa nunca pensava em arrumar sua cama, agora arruma-a e bem. Ele agora limpa seu quarto, lava e passa sua roupa. Ele, que muitas vezes era um sucesso um sua cidadezinha natal, vê-se aqui completamente ofuscado por outros, já mais orientados e de maior experiência, e então sofre grande decepção. Mas esta lhe ensina que ele deve esforçar-se mais para ser alguém melhor, e, assim, ele vai sendo lapidado. Com o tempo, torna-se um “Manuelino”, na verdadeira acepção da palavra.

O aluno que saiu de casa acha no “Conceição”, na maior parte das vezes, a vida difícil e áspera, mas a vida onde ele se encontra a si mesmo, onde desabrocha, desenvolve-se e demonstra o que poderá tornar-se.

Para os que saem de um lar o “Jota” é a vida independente e livre. Para aqueles, porém, que cedo perderam pais e família e viveram sem nunca encontrar o aconchego familiar, o “Conceição” é lar e os Manuelinos, família. Parece paradoxo, mas é verdade. Quantos, sem lares, acharam aqui o lar que lhes faltava, encontraram aqui os irmãos que a vida negou ou a morte levou. O “Conceição” é a escola acre da vida, mas pode ser também o lar que porventura tenha faltado a alguém.

O “Conceição” tem, aproveitando a imagem de um de nossos professores, a missão de lapidar a pedra bruta e sem brilho que muitas vezes aqui chega. Então, ela começa a tomar forma, ganha brilho e aparece aos olhos do mundo como uma pedra preciosa. A outrora pedra bruta fica irreconhecível.

Deveríamos, neste instante, agradecer a pais, professores, igrejas, e todos quantos nos ajudaram, mas deixaríamos pessoas de fora. Agradecemos, então, a Deus, que nos trouxe aqui e fez com que tantos nos ajudassem. Agradecemos a Deus por tudo e pedimos que Ele abençoe a todos que, de uma maneira ou de outra, nos ajudaram. Ele recompensará cada um pelo que nos fez.

Nós, que no início não encontrávamos idéias para iniciar e desenvolver nosso discurso, acabamos falando demais. Não faz mal, porém, pois é a última vez que falamos como Manuelino e o ouvinte querido não levará em conta se nos estendemos muito. O culpado disso é este lugar inspirador e mesmo romântico que é o “Conceição”. Quando começamos a falar, é difícil parar.

Chegamos ao fim de nossa etapa no “Conceição”. Alguns, do Primeiro Ciclo, voltarão para fazer o Clássico, mas nós que não voltaremos mais já sentimos em nós a ternura da saudade. Quantas vezes dissemos que não víamos a hora de chegar o fim do ano. Mas, quando o fim do ano chega e nos vai levar embora, sentimo-nos como o lenhador que, cansado na floresta, invocara a morte. Quando esta chegou, ele, arrependido e assustado, pediu apenas que ela o ajudasse a pôr nas costas o feixe de lenha. Invocamos o fim de ano e ele chegou — e ficamos acabrunhados, desejando encontrar uma desculpa para adiá-lo um pouco.

Amanhã, muitos de nós tomarão o trem para nunca mais voltar ao “Conceição” querido, como Manuelinos. Muitos voltarão, sim, mas como EX-Manuelinos, coisas do passado, nunca mais como Manuelinos. Hoje, nesta condição, ouviremos pela última vez a sinfonia dos sapos e dos grilos cantando, inspirados pelo céu do “Conceição”. Algum dia, no futuro, voltaremos aqui, e quantas recordações então nos virão à mente. O “Jota” será diferente, mas nos fará lembrar do de agora e teremos orgulho em termos sido Manuelinos.

Adeus, “Conceição”, praza aos céus que continues a ser o que tens sido, de maneira cada vez melhor. Adeus tudo isto que foi parte da gente durante tanto tempo.

Amanhã será um novo dia, e com ele começará uma nova etapa, uma nova vida, e é mister que trabalhemos.

AVANTE POIS.

JMC, Novembro de 1963.

Transcrito aqui em 24  de Outubro de 2013.

Heróis Discretos

El Héroe Discreto

Excelente e delicioso novo livro de Mario Vargas Llosa: El Héroe Discreto (O Herói Discreto, em Português [Editora Alfaguara, Rio de Janeiro, 2013], com magnífica tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman).

Vargas, Prêmio Nobel de Literatura de 2010 (o tempo passa rápido!), e aproximando-se dos 80 (nasceu em 1936), como é o caso de seus principais heróis no livro, continua a surpreender com uma prosa leve, um estilo narrativo gostoso, que faz uso fiel e generoso, nos diálogos, da linguagem do povo, inclusive com belíssimos palavrões (oportunamente ditos e aptamente traduzidos, é bom que se registre). . .

O principal herói discreto, Felícito Yanaqué, é um homem já de certa idade, magro, baixo, que veio de ambiente muito pobre, mas herdou do pai um exemplo valente: o do homem que trabalha o tempo todo e nunca se curva diante dos outros: o homem que não se deixa pisar. . . Ele construiu, com seu esforço, e com enorme retidão de conduta (na esfera pública — na esfera privada certamente haverá quem critique seu comportamento), uma pequena empresa de transportes (cargas e passageiros), que é seu orgulho — e que ele acha que deve unicamente ao exemplo e ao conselho do pai, a quem literalmente venera.

Por isso tudo, quando recebe uma carta anônima, aparentemente da máfia local, pedindo que ele pague 500 dólares por mês para obter proteção, ele se recusa a pagar e denuncia o caso à polícia. Continua a recusar, mesmo quando as ameaças aumentam e, em duas instâncias, se concretizam: primeiro, com um incêndio que destrói parte da sede de sua transportadora; segundo, com o sequestro de sua amante, Mabel, a quem verdadeiramente amava (“amada amante”). [A história obscura de seu casamento, forçado, e as suspeitas de que o filho mais velho não era de fato seu fazem com que o leitor tenha simpatia pelo caso do velho Felícito com a jovem e atraente Mabelita, mais de 30 anos mais jovem].

Mesmo diante desses desafios todos, Yanaqué não se curva. Torna-se um herói na cidade de Piúra, no Peru (onde Vargas Llosa morou quando criança). Mas se mantém sempre discreto. Quando todo o seu universo desaba, ele tem sua “dark night of the soul”, passa pelo seu “vale da sombra da morte”, mas reúne forças para, no dia seguinte, ir trabalhar como de costume (“comme d’habitude”), enfrentando os jornalistas e outros curiosos com um simples “nada a declarar”.

O segundo herói, Ismael Carrera, também é velho — mais velho que Felícito: passa dos 80 anos. Este é rico — dono de uma seguradora. Mora em Lima, não em Piúra. Tem dois filhos gêmeos — dois playboyzinhos vagabundos — e ficou viúvo há pouco tempo.

Quando enviuvou, cansado das estripulias dos filhos, retirou-os da empresa e, adiantadamente, “deu a eles a parte da herança que lhes cabia” (como na parábola do Filho Pródigo, com a diferença, porém, de que, no caso de Carrera, por iniciativa própria). Estes pegaram a bolada, certos de que o pai, com mais de 80 anos, logo morreria e lhes deixaria todo o resto.

Quanto a Carrera, e como às vezes acontece quando você acha que finalmente arrumou todas as suas coisas e vai começar a viver, teve um enfarte que o deixou entre a vida e a morte no por vários dias no hospital. Enquanto agonizava, porém, ouviu uma conversa dos filhos, que pensavam que estivesse desacordado, que deixava claro que eles não viam a hora de o pai ir para debaixo da terra para poderem pegar o resto da herança. “Eles me salvaram da morte”, conta ele depois, porque, ao ouvir a conversa dos filhos, imbuiu-se de uma vontade enorme de viver para se vingar deles. Essa vontade de viver e se vingar fez com que ele se recuperasse — e se tornasse um dos heróis discretos de Vargas Llosa. Como Yanaqué e seu pai, alguém que não se deixa pisar.

Sua vingança é relativamente simples, mas improvável. Sem que ninguém soubesse (a não ser seu advogado, seu motorista e seu mão direita na empresa, don Rigoberto, personagem que aparece em outros livros de Vargas Llosa, e que acaba também sendo um terceiro herói discreto, mas em posição mais baixa na hierarquia), casa-se com sua empregada-arrumadeira-governanta, cerca de 50 anos mais nova, linda, mas nem de longe “una blanquita”, e se manda para a Europa – deixando os filhos a estrebuchar de raiva — para desfrutar a mulher recente e jovem com a ajuda da fortuna amealhada ao longo de várias décadas .

A vingança ao final dá certo – bem, em termos. Mas não vou fornecer “spoilers”.

Don Rigoberto, o terceiro herói, este mais discreto ainda, é o principal assessor de Ismael Carrera – e, com o motorista, sua testemunha de casamento. Está para se aposentar quando o patrão faz o que lhe parece a loucura de se casar de novo — e justo com quem… Don Rigoberto vê o casamento do patrão, e o seu envolvimento inevitável nos processos judiciais que se seguem, atrapalharem seus planos de se aposentar e curtir a vida, com seus livros de arte, seus CDs de música clássica, sua paixão pela quietude e pelo sossego – ao lado de sua fogosa mulher e de seu filho bem-dotado (intelectual e espiritualmente — nem tudo é sexo nos romances de Vargas Llosa…).

No final da história, os heróis cruzam caminho, e, a despeito das porradas levadas da vida, e que inevitavelmente deixaram suas marcas, todos – bem, quase todos – sobrevivem e se põem a caminho da Itália, para uma celebração. Não diria que Felícito tenha se esquecido de Mabel — mas decidiu se contentar com Gertrudis, sua mulher, que, é bom que se diga, foi garota de programa, tendo como cafetina a própria mãe.

Na Europa, porque, afinal de contas, ninguém é de ferro… Não só de Peru vive o homem.

Em Tempo: Acho que Vargas Llosa qualifica de discretos os seus heróis neste livro porque eles não buscam notoriedade: ela lhes vem em decorrência de sua conduta fora da curva.

Em São Paulo, 21 de Outubro de 2013

O Direito à Privacidade impede que alguém fale ou escreva sobre a pessoa?

Eis o que diz a Constituição Federal do Brasil de 1988:

Art. 5º, X. “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;”1

Eis o que diz o Código Civil Brasileiro:

Art. 20. “Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, SE lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.”3

Assim, o Direito à Privacidade tem duas faces:

De um lado, é o direito de não ser importunado por terceiros – por vendedores promovendo produtos, entrevistadores querendo conversar, fotógrafos querendo um flagrante, etc..

De outro lado, é o direito de não ter publicadas ou divulgadas a seu respeito informações que atinjam sua honra, boa fama e respeitabilidade.

Nada impede o exercício de direito, igualmente legítimo, de terceiros falarem ou escreverem (como numa biografia) sobre uma pessoa ou de meios de comunicação divulgarem informações sobre ela que não atinjam sua honra, boa fama ou respeitabilidade.

Se o que se diz ou escreve, publicamente, é falso e prejudicial, cabe processo de CALÚNIA; se, embora verdadeiro, é algo que prejudica a pessoa e que não tem interesse público, cabe processo de DIFAMAÇÃO; se, sem imputar fatos, falsos ou verdadeiros, se usam termos fortes e pesados ao se referir a alguém, cabe proceso de INJÚRIA.

A calúnia (art. 138 do Código Penal) é a imputação FALSA de FATO CRIMINOSO a alguém. Se, processado, o acusado prova que aquilo que imputou ao autor do processo é verdadeiro, ele é inocentado.

A difamação (art. 139 do Código Penal) é a imputação de FATO DESONROSO ou FATO OFENSIVO À REPUTAÇÃO de alguém. Ao contrário da calúnia, aqui não há necessidade de que os fatos sejam falsos. Se alguém afirma que uma pessoa se prostitui, e é processado por ela por difamação, não basta provar que ela de fato se prostitui: tem de provar que a informação é relevante a algum interesse público.

A injúria (art. 140 do Código Penal) é qualquer ofensa à dignidade de alguém. Na injúria, ao contrário das hipóteses anteriores, NÃO SE IMPUTA UM FATO, MAS SE EMITE UMA OPINIÃO. É caracterizada principalmente pelo uso de palavras fortes ou pesadas: ladrão, prostituta, idiota e, muitas vezes por expressões de baixo calão. Ressalte-se ainda que a injúria terá a pena aumentada se praticada com elementos referentes a raça, cor, etnia, religião ou origem.

Vide o site ABUSAR.ORG – http://www.abusar.org/manual_de_sobrevivencia_na_selva.html, em que há um artigo de em que se esclarecem algumas dessas coisas: “Os tipos de responsabilidade jurídica”.

Se há todos esses mecanismos jurídicos para proteger a honra, por que tentar censurar partes, ou mesmo proibir na íntegra a publicação, de uma biografia?

O problema é o item final da cláusula citada do Código Civil Brasileiro: “ou se se destinarem a fins comerciais”. . . De onde veio isso?

Em São Paulo, 16 de Outubro de 2013

O que é “ser de direita” no Brasil de hoje?

Há, hoje, uma confusão generalizada sobre o que é “ser de direita” no Brasil. A mídia, que deveria esclarecer a população, ajuda a confundir. Embora a confusão envolva, também, o conceito de “ser de esquerda” (que é a “contrapartida”), ela é mais visível no conceito de “ser de direita”.

A Folha de S. Paulo está numa campanha para mostrar que a posição ideológica do eleitor, isto é, se ele é de esquerda ou de direita, não afeta significativamente sua intenção de voto e, oportunamente, o seu voto.

Mas na análise do que é “ser de direita”, há uma confusão generalizada. O que o jornal entende por “ser de direita” tem muito mais que ver com “ser conservador” do que com “ser liberal” (no sentido clássico do termo – não no sentido americano do termo). Isso ficou evidente num infográfico intitulado “Valores Ideológicos”, criado pelo Datafolha, que eu transcrevo aqui.

Infografico Esquerda Direita

Não vou analisar esse infográfico na íntegra, mas o restante deste artigo é relevante para sua análise.

Minha tese é que a Folha (Datafolha) confunde (ou mistura, ou não distingue) conservadores e liberais ao caracterizar o que é “ser de direita” no Brasil de hoje.

Uma pessoa conservadora é uma pessoa que procura conservar as tradições culturais e as instituições, preservar as coisas como elas “sempre foram”, em vez de propor mudanças. Essa pessoa tende a ser, por exemplo, conservadora também na religião, que é uma manifestação cultural – e na moral, que em geral é afetada pela visão religiosa.

Assim, uma pessoa conservadora tende a ser contra o aborto, a eutanásia, o divórcio, a liberdade sexual (em especial o sexo sem casamento ou pré-marital), o casamento homossexual, a liberação das drogas, etc.

Uma pessoa liberal (no sentido clássico, não no americano, em que o social-democrata, à la Kenedy e FHC é chamado de liberal) é uma pessoa que procura aumentar ao máximo o espaço de liberdade de indivíduo vis-à-vis a interferência da sociedade e, especialmente, do estado (governo).

Assim, numa sociedade conservadora, com um estado (governo) conservador, que promove a agenda conservadora, o liberal é, em geral, um revolucionário.

Pois tomemos as questões ético-religiosas contra as quais o conservador se manifesta, e que acabei de listar: o liberal é, em regra, favorável a todas elas: aborto, eutanásia, liberdade sexual (em especial o sexo sem casamento ou pré-marital), o casamento homossexual, a liberação das drogas – e por uma razão simples: elas envolvem o uso da liberdade das pessoas, que devem ter o direito de decidir essas coisas por sí próprias, sem pressão social e, especialmente, do estado (governo). (Pessoas, no caso, seria desnecessário ressaltar, capazes de escolher, decidir e assumir a responsabilidade pela escolha e pela decisão. Crianças e incapazes não qualificam).

Para o liberal, o espaço de liberdade do indivíduo deve ser aumentado ao máximo, e, por conseguinte, o espaço de coação da sociedade e do estado (governo) deve ser reduzido ao mínimo.

O que significa “ser de direita”, nesse contexto?

Nos Estados Unidos, onde essa confusão teve início, e de onde foi importada para o Brasil, houve, quando da eleição do Presidente Reagan, uma coalisão de conservadores e liberais para colocar na presidência uma pessoa que era, do ponto de vista cultural e religioso, conservador, mas do ponto de vista político e econômico, liberal.

A campanha de Reagan foi centrada na ideia de que o estado (governo) é parte do problema, não da solução, e que esta se encontra, portanto, em menos governo. Coerentemente, Reagan defendeu a tese de que o estado (governo) deve legislar menos, deve arrecadar menos impostos (de indivíduos e de empresas), deve reduzir seus programas sociais (que obrigam, pela via da taxação, os mais ricos a financiar a desocupação e a preguiça, que facilitam (pelo apoio econômico às mães solteiras, em grande número adolescentes) o desregramento sexual (o sexo entre quem não doutra forma não teria condições de lidar com as possíveis consequências de seus atos), etc. E Reagan era religioso, temente a Deus, e anticomunista. Ganhou fácil, com o apoio dos liberais e dos conservadores (inclusive dos conservadores ultra-religiosos, vale dizer, lá, cristãos).

Ainda sobre questões específicas.

Nos Estados Unidos, o porte de armas é defendido por conservadores e por liberais. Por conservadores, porque na sociedade americana sempre cada um pode ter e carregar sua arma para se defender. Por liberais, porque ter e portar uma arma são comportamentos que fazem parte dos direitos do indivíduo viver como lhe aprouver (caçando no fim de semana, por exemplo, como o faz meu genro), e, inclusive, de defender-se. Esta é mais uma questão em que conservadorismo e liberalismo concordam, nos Estados Unidos.

A chamada idade penal também une conservadores e liberais, tanto nos Estados Unidos como aqui no Brasil. Do ponto de vista do conservador e do liberal, quem comete um crime, e é consciente do que está fazendo, deve ser punido – e a consciência de que é moralmente errado e legalmente criminoso roubar, atentar contra a segurança, integridade e a vida da pessoa surge muito cedo na sociedade de hoje. (Um conservador e um liberal acham um absurdo chamar de “criança” um criminoso frio de 17 anos e meio que assassina para roubar).

Passemos para o Brasil.

A esquerda (que inclui comunistas, socialistas, “progressistas” em geral) anda a promover a ideia de que “a direita” está crescendo no Brasil – e que isso é um problema sério. Também acho que esteja crescendo – mas, como liberal clássico, quase anarquista-libertário, e, portanto, anti-esquerdista, acho isso benéfico.

Apóia-se a esquerda, ao dizer isso, no crescimento, entre outras coisas, dos chamados “evangélicos”, que são cristãos não-católicos de viés conservador, fundamentalista mesmo. (Distingo-os dos protestantes históricos: luteranos, presbiterianos, etc.). Esses evangélicos são, em geral, contra o aborto, a eutanásia, a liberação sexual (“eu decidi esperar” é um mantra), o divórcio, a sanção às uniões homossexuais que é (segundo eles) expressa pela permissão de que se casem, o uso e a liberação das drogas (por vezes até do cigarro e do álcool), etc.

Em questões como a pobreza, os evangélicos tendem a atribuir suas causas aos valores, às atitudes e às condutas dos indivíduos, não a fatores sociais, sendo, por isso, hesitantes em apoiar tanto gasto estatal (governamental) na implementação de programas sociais (as “bolsas”) que, segundo eles, reforça valores, atitudes e condutas que impedem o indivíduo de buscar a mudança e a melhoria de sua vida. Concordo com eles, nessa questão.

Um dos grandes malefícios advindos da ditadura militar instaurada com o golpe de 1964 no Brasil foi fazer boa parte da população brasileira ver o governo militar como “de direita”, porque anticomunista e porque a “esquerda”o combateu, até mesmo recorrendo ao terrorismo.

Conservadores em geral apoiaram o governo militar, porque queriam salvar a “tradição, família e propriedade” – tendência que gerou a famigerada TFP (pela qual não tenho a menor simpatia, apesar de ser favorável ao direito de propriedade, de nada ter contra a família (casei três vezes!), e de sr favorável a umas poucas tradições (e contrário a muitas outras). Acreditavam os conservadores  estar defendendo, entre outras coisas, a religião cristã ao apoiar os militares contra o perigo do comunismo ateu.

Liberais, por seu turno, certamente também não viam o comunismo com bons olhos – embora não por ele propor o ateísmo. Liberais eram (e são) anticomunistas porque o comunismo socializava tudo, acabava com a iniciativa privada na área econômica, cerceava a liberdade individual, advocava a “reeducação” (doutrinação até com lavagem cerebral) das pessoas, etc. Nenhum amante da liberdade vê essas coisas com bons olhos. Como era evidente, para eles (e para quem estivesse disposto a ver e ouvir), durante o governo de João Goulart, que o Brasil caminhava nessa direção, os liberais, em regra, apoiaram o golpe militar, como um remédio drástico contra a comunistização do Brasil. (Liberais clássicos sempre defenderam direito de a população remover da chefia da nação um líder tirano, que estivesse desrespeitando os direitos das pessoas – e o direito de fazer isso até mesmo pela violência, o chamado “tiranicídio”).

Quando o governo instituído pelo golpe militar de 1964 se revelou uma ditadura, violenta e estatizante (nunca se criou tanta “brás” no Brasil quanto durante o governo militar), que torturava e matava, e censurava os meios de comunicação, fechando ou domesticando o Congresso para se perpetuar no poder, perdeu o apoio dos liberais. Uns perceberam o que acontecia mais cedo, outros mais tarde, mas oportunamente todos perceberam.

A esquerda, porém, conseguiu convencer as pessoas, e a mídia, de que conservadores e liberais eram todos a mesma coisa, “a direita”, e que esta havia apoiado a ditadura e, depois de finda esta, “tinham saudade da ditadura”.

Assim, mais um resultado nefasto do regime militar foi o fato de que boa parte das pessoas passou a ver a esquerda, que nunca foi contra ditaduras, em si, até porque desejava a implantação aqui de uma ditadura à la Cuba (que lá se perpetua até hoje), mas era contra a ditadura anticomunista dos militares, como o “lado do bem”, e a direita como o “lado do mal”.

Desde então, desapareceu, no Brasil, na área política, o espaço à direita do centro: até a social democracia foi rotulada “de direita”. Deixou de haver candidatos conservadores viáveis para cargos executivos (para os legislativos os evangélicos conseguiram eleger vários) e os liberais sumiram do mapa, meio amedrontados de serem rotulados “de direita”, de defensores da ditadura, de golpistas, de entreguistas, etc.

Os liberais, hoje, estão perdendo esse medo. Alguns liberais, como Olavo Carvalho, Reinaldo de Azevedo, Rodrigo Constantino, também são conservadores (cultural e religiosamente). Outros, não. Advocados de Ayn Rand e Ludwig von Mises proliferam no Brasil.

Assim, a esquerda, juntando os conservadores (entre os quais os evangélicos) e os liberais, vê “a direita” crescer. E, nesse sentido, está crescendo mesmo. E isso é bom – especialmente se conseguir acabar com o monopólio hegemônico da esquerda. (A esquerda, que é o “pensamento único” no Brasil, conseguiu convencer as pessoas que o liberalismo é o “pensamento único”. George Orwell entendia bem dessa “novilíngua (newspeak), que rebatiza as coisas com o nome oposto daquilo que são. A Alemanha Comunista era “democrática”; a Alemanha Ocidental era apenas “federal”).

Como, nas pesquisas de intenção de voto, os candidatos a presidente propostos aos eleitores brasileiros são Dilma, Marina, Eduardo Campos, Aécio Neves, José Serra, nenhum dos quais é conservador ou liberal, os eleitores acabam escolhendo um deles – e a “brilhante” Folha de S. Paulo, carregada  de colunistas de esquerda, afirma que o voto foi “desideologizado”, porque até eleitores que seriam “de direita” votam em políticos da esquerda.

(Que opção? Quando até a “Santíssima Trindade” do Maluf, do Sarney e do Collor se esquerdizaram, bandeando-se para os lados do PT e vivem abraçados com o Lulla, e, no caso do Maluf, com o Haddad…).

Em São Paulo, 15 de Outubro de 2013

A Livraria Saraiva é incompetente: Eis a Prova

Eis a transcrição do atendimento (???) online da LIVRARIA SARAIVA hoje cedo. Registro que me conectei às 10:00 e só fui atendido (???) pela Ana Paula às 10:19, quase vinte minutos depois. Mais de 25 minutos depois, ela me desligou o chat na cara, sem me atender.

Transcrevo a partir deste URL: http://chat.livrariasaraiva.com.br/voswebchatserver/lite?time=1380116702851#

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Ana Paula
Bem vindo ao atendimento da Saraiva.

10:19:35
Por favor anote o número do protocolo: 18768387

10:21:02
Eduardo Chaves
Comprei ontem três livros (três cópias do mesmo livro, de minha autoria) e paguei frete especial que me garantia que a compra seria entregue até ontem às 22h — porque precisava de um dos livros ontem. NÃO CHEGARAM. O prazo não foi 24 h. FOI ATË ÀS 22h DO DIA!!!

10:21:59
Pedido 33077446

10:22:40
Estou esperando aparecer alguém… aqui e no telefone. Aqui esperei vários minutos até conseguir entrar. . .

10:23:35
Alô… Ana Paula???

10:24:37
Ana Paula
Por favor aguarde um momento.

10:25:12
Eduardo Chaves
OK… Estou fazendo exatamente isso…

10:26:02
Ana Paula
Bom dia, senhor Eduardo. Por favor, confirme o nome completo do titular da compra. [Pode? ela já tem o número do pedido e eu só entro no chat porque sou cadastrado no site]

10:26:53
Eduardo Chaves
Eduardo Chaves

10:28:11
Ana Paula
Aguarde um momento por gentileza, enquanto verifico.

10:28:11
Eduardo Chaves
Prazo de entrega: “Até as 22h da data do pedido”.

10:28:25
Ana Paula
Aguarde um momento por gentileza.

10:29:10
Eduardo Chaves
Paguei 13,73 de entrega para que os livros me fossem entregues ONTEM até às 22h. Não foram. Quero os livros hoje e a restituição dos 13,73 reais que paguei, por vocês não terem cumprido o que prometeram…

10:31:10
Continuo gentilmente aguardando…

10:33:24
Já estou conectado neste chat HÁ DEZ MINUTOS e nada de resposta. . .

10:33:25
Ana Paula
Por favor aguarde um momento.

10:33:59
Eduardo Chaves
Corrijo: 14 minutos.

10:34:40
Ana Paula
Mais um momento por gentileza.

10:35:45
Eduardo Chaves
Você deveria estar atendendo só a mim. Um cliente de cada vez. Eu esperei quase 20 minutos até você me atender e estou esperando já há mais de 15 desde que abriu a janela de atendimento.

10:37:23
Ana Paula
Mais um momento por gentileza.

10:39:02
Eduardo Chaves
Seu supervisor está monitorando este atendimento? Seu gerente de atendimento online sabe quanto tempo você leva para dar uma resposta simples a um cliente? JÁ FAZ 20 MINUTOS QUE A JANELA DE ATENDIMENTO ABRIU E EU SÓ OUVI VOCÊ PEDIR PARA EU AGUARDAR…

10:39:37
Avise os seus superiores de que, se vocês estão precisando de um gerente competente de atendimento online, eu tenho um nome a sugerir. É um grande amigo meu, especializado em Call Centers e assemelhados.

10:42:09
Ana Paula
Compreendo, senhor Eduardo. Porém, estou solicitando um momento, pois como o senhor mesmo está ciente, atendo mais de um cliente, ao mesmo tempo, com solicitações diferentes. Estou abrindo uma ocorrência para o setor responsável averiguar o ocorrido. A Saraiva retornará o contato com um posicionamento.

10:42:52
Eduardo Chaves
Embora não pareça, Ana Paula, até incompetência deve ter algum limite. Você deveria ter sido informada disso. . .

10:43:09
Ana Paula
Posso ajudar em algo mais? [Algo MAIS? No que ela me ajudou???]

10:43:39
Eduardo Chaves
Se vocês não entregaram meus livros no prazo prometido, como posso acreditar que a Saraiva vai retornar atendendo ao meu pedido de esclarecimento???

10:44:20
QUERO FALAR COM SEU SUPERVISOR, IMEDIATAMENTE. POR FAVOR, COLOQUE-O NA LINHA.

10:45:02
Ana Paula
A Saraiva agradece o seu contato.

Atendimento Encerrado

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Liguei na Portaria do prédio ontem às 22h, 23h, 0h. Os livros não haviam chegado.

Liguei hoje cedo, às 8h, 9h, 10h. Os livros não haviam chegado.

Liguei agora às 11h. Chegaram. A Ana Paula não sabia.

Mas a Saraiva ainda me deve a restituição de 13,73 reais: o prazo era ONTEM, mesmo dia do pedido, às 22h. A entrega seria gratuita a menos que eu optasse por entrega NO MESMO DIA DO PEDIDO.

Em São Paulo, 25 de Setembro de 2013, às 11h10.

The Significance and Importance of Money

“And when men live by trade — with reason, not force, as their final arbiter — it is the best product that wins, the best performance, the man of best judgment and highest ability—and the degree of a man’s productiveness is the degree of his reward. This is the code of existence whose tool and symbol is money”. (Ayn Rand, Atlas Shrugged, p.411)

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In Ayn Rand’s fantastic novel, Atlas Shrugged, published in 1957, James Taggert, the liberal (that is, socialist) president of Taggart Transcontinental, the largest rairoad in the country (the United States), is celebrating his wedding.  But he decides to criticize the socio-economic class to which he himself belongs (sometihing far from unusual even today). He tells his guests:

“We are at the dawn of a new age. We are breaking up the vicious tyranny of economic power. We will set men free of the rule of the dollar. We will release our spiritual aims from dependence on the owners of material means. We will liberate our culture from the stranglehold of the profit-chasers. We will build a society dedicated to higher ideals, and we will replace the aristocracy of money by—”

Someone’s strong voice breaks in. It is Francisco d’Anconia’s, the copper tycoon, one of the richest men in the world, if not the richest – and a former student of Hugh Akston, in whose honor this blog is named. Francisco completes the phrase for James Taggart: “—the aristocracy of pull” (p.404).

Money versus pull (favor, influence).

In order to live our lives and achieve our life projects, we need a number of things. To survive, we need food, clothing, shelter, tools to defends ourselves from the elements, animals and other men. To implement our desires and achieve our life projects, we need still much more.

We can, of course, produce, ourselves, what we need. But that is not practical except in very simple societies. In more complex societies, such as the one in which we life, very few are capable of producing everything they need and want to live their lives and reach their goals. That’s why we have the division of labor. Each one especializes in producing a few things – and produces more than he needs in order to trade the surplus with people produce things he needs or wants but is incapable or unwilling to produce.

Sooner or later, however, we don’t find people who who want to trade with us, because they are not interested in what we produce, or with whom we are not interested to trade, because they do not produce what we need or want.

That’s when money comes in. Money allows the seller to protract the buying part of the trade: it allows him to postpone consumption until he finds products (goods or services) that he needs or wants. Money entitles you, as producer, who trades his products, to consume only later that which he needs or wants.

If a broad definition of money is required, we can say it is anything that is generally accepted as payment for goods and services,  as repayment of debts, or as a store of value. The main use of money is as a means of trade, a medium of exchange.

Because of this, “money is [a] means of survival”, says Francisco d’Anconia in his “money speech”. “So long as men live together on earth and need means to deal with one another—their only substitute, if they abandon money, is the muzzle of a gun” (p.412).

To be more precise, if we live together in a society complex enough to require trade, money is essential. The only alternative to it is begging or theft.

But money is a means, or a tool. Francisco d’Anconia continues: ““But money is only a tool. It will take you wherever you wish, but it will not replace you as the driver. It will give you the means for the satisfaction of your desires, but it will not provide you with desires.” (p.411).

Aristotle (384 BC – 322 BC), the greatest single influence upon Ayn Rand, reflected philosophically upon money. He investigated the problem of commensurability – or how to compare the relative value of things that are different and may have different values. To do this we need a common instrument of measurement – and he found that in money. Money makes it possible to equate what is unequal and apparently non-comparable. Money, as a common measure, makes things commensurable and makes it possible to equalize them. According to Aristotle, everything can be expressed in the universal equivalent of money.

To do what is required of it, money must have four characteristics. It must be durable, portable, divisible and intrinsically valuable. Additionally, the value of money should be independent of any other object and contained in the money itself. [These considerations were literally borrowed from John Lee, CFA, in his article “Aristotle and the Definition of Money”, which can be found in the site The Market Oracle, in http://www.marketoracle.co.uk/Article10370.html.]

But another important consideration, before we go back to Aristotle’s disciple, Ayn Rand, is that people who are criticized for “loving money”, do not really love money, but love the things that money can allow them to obtain and secure.

Money is not a sufficient condition for happiness – but it is a necessary condition, except for the person who is capable to produce everything he needs or wants, or for the person who has no needs or wants. As Francisco d’Anconia said, in a passage already quoted, money can help you achieve what you desire, but it will not give you desires.

Let us go back to Ayn Rand – that is, to Francisco d’Anconia’s memorable speech on the significance and importance of money. And let us do exactly on the issue we werre discussing: “Money will not purchase happiness for the man who has no concept of what he wants: money will not give him a code of values, if he’s evaded the knowledge of what to value, and it will not provide him with a purpose, if he’s evaded the choice of what to seek. Money will not buy intelligence for the fool, or admiration for the coward, or respect for the incompetent” (p.411).

In James Taggart’s wedding, Francisco d’Anconia makes his speech to respond to James Taggart’s initial remark, quoted at the beginning of this article and to Betram Scudder’s contention that “money is the root of all evil”.

Francisco d’Anconia retorts (the emphases are added):

“So you think that money is the root of all evil? Have you ever asked what is the root of money? Money is a tool of exchange, which can’t exist unless there are goods produced and men able to produce them. Money is the material shape of the principle that men who wish to deal with one another must deal by trade and give value for value. Money is not the tool of the moochers, who claim your product by tears, or of the looters, who take it from you by force. Money is made possible only by the men who produce. Is this what you consider evil?”

“When you accept money in payment for your effort, you do so only on the conviction that you will exchange it for the product of the effort of others. It is not the moochers or the looters who give value to money. Not an ocean of tears nor all the guns in the world can transform those pieces of paper in your wallet into the bread you will need to survive tomorrow. Those pieces of paper, which should have been gold, are a token of honor—your claim upon the energy of the men who produce. Your wallet is your statement of hope that somewhere in the world around you there are men who will not default on that moral principle which is the root of money. Is this what you consider evil?”  (p. 410).

As I mentioned before, the only alternative to the use of money in trade is begging or theft. Moochers beg, using their tears to move others; looters loot, using their guns to force you to handle them your money or your goods.

But liberals (or socialists, which in the United States are the same) argue that money is obtained by exploitation of the weak by the strong. Francisco d’Anconia replies (and once more, emphases are added):

“You say that money is made by the strong at the expense of the weak? What strength do you mean? It is not the strength of guns or muscles. Wealth is the product of man’s capacity to think. Then is money made by the man who invents a motor at the expense of those who did not invent it? Is money made by the intelligent at the expense of the fools? By the able at the expense of the incompetent? By the ambitious at the expense of the lazy? Money is made—before it can be looted or mooched—made by the effort of every honest man, each to the extent of his ability. An honest man is one who knows that he can’t consume more than he has produced” (pp.410-411).

The liberal / socialist – and very rich – James Taggart claimed that they – he and his friends in industry and in government – were “breaking up the vicious tyranny of economic power”, were “set[ting] men free of the rule of the dollar”, were “liberat[ing] our culture from the stranglehold of the profit-chasers”.

That is what the socialists of today claim that they are doing – and they claim that they are doing it in the name of higher values and through motives that are superior to “profit chasing”: material equality. But they don’t say it open that they want material equality: they speak of “equality of opportunity”. That is why the Equalization of Opportunity Bill, mentioned in the previous article, was so important to them. That is why they spoke, in Atlas Shrugged, of prohibiting good writers from selling more than ten thousand copies of their books – so that bad writers could have a chance… But this is not equalization of opportunity: this is downright theft from the capable so that the uncapable can, perhaps, sell their books…

The liberals / socialists do not consider what they do theft. They call it redistribution of wealth – the fulfillment of Karl Marx’s wish: “from each according to his ability, to each according to their need” (Critique of the Gotha Program, 1875).

But most of todays liberals / socialists have basically given up Marx’s idea that this “communism” would be reached through class warfare and violent revolution. They found a more effective way: following Antonio Gramsci, they have taken control not only of the state (which supposedly has a monopoly on the use of violence, and most of the time does not need in fact to use force, but only to have the power to used it…) but of all the cultural dimensions of society. Taking control of government and society, liberals / socialists use the media to convince the population that it is just – socially just — to take from producers and give to moochers and (non-violent) looters, through taxation (what they call “progressive taxation).

Let me leave no doubt as to the following: wealth is only created by those who produce goods or services and then trade them to those freely willing to buy them. Everybody else lives parasitically on the wealth generated by those who produce. Including those in government. Government only justifies itself to the extent that it performs a service that is perceived by the citizens as sufficiently valuable to justify payment by them. And payment should be in the form retribution for services renderedd, not in the form of general taxes for discretionary use by the government. “Money permits no deals except those to mutual benefit by the unforced judgment of the traders”, says Francisco D’Anconia (p. 411).

But this is not what happens…

Here in Brazil we are tired of knowing this.

I will finish with a long, but fantastic, quotation from Francisco d’Anconia’s speech (emphases added):

“Then you will see the rise of the men of the double standard — the men who live by force, yet count on those who live by trade to create the value of their looted money — the men who are the hitchhikers of virtue. [Most high government officials belong to this category].

In a moral society, these are the criminals, and the statutes are written to protect you against themBut when a society establishes criminals-by-right and looters-by-law—men who use force to seize the wealth of disarmed victims—then money becomes its creators’ avenger. Such looters believe it safe to rob defenseless men, once they’ve passed a law to disarm them. But their loot becomes the magnet for other looters, who get it from them as they got it. [This explains corruption].

Then the race goes, not to the ablest at production, but to those most ruthless at brutality. When force is the standard, the murderer wins over the pickpocket. And then that society vanishes, in a spread of ruins and slaughter.

Do you wish to know whether that day is coming? Watch money. Money is the barometer of a society’s virtue.

When you see that trading is done, not by consent, but by compulsion—when you see that in order to produce, you need to obtain permission from men who produce nothing—when you see that money is flowing to those who deal, not in goods, but in favors—when you see that men get richer by graft and by pull than by work, and your laws don’t protect you against them, but protect them against you—when you see corruption being rewarded and honesty becoming a self-sacrifice—you may know that your society is doomed.” (p.413).

In São Paulo, on the 15th of September of 2013.